Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 45

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 45, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 45 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

TÍTULO. "Sobre Sosanim", ou sobre lírios. Convém lembrar que os lírios eram emblema de pureza e formosura, e foram usados como tal na construção do templo de Salomão (ver 1 Reis 7:19,22,26 e 2 Crônicas 4:5); e a igreja é comparada, em Cantares, a um "lírio entre espinhos" (Cantares 2:2). Os salmos que trazem este título, "sobre lírios", são o presente, o sexagésimo nono e o octogésimo (comparar com Salmos 60:1-12); e todos eles contêm profecias de Cristo e de sua igreja. O sexagésimo é paralelo ao quadragésimo quarto, e representa sua súplica a Deus, e as vitórias de Cristo. O sexagésimo nono expõe as vitórias alcançadas por Cristo mediante o sofrimento. O octogésimo também é paralelo ao quadragésimo quarto e ao sexagésimo, um lamento pungente da igreja em aflição e um clamor de súplica por libertação. Estes três salmos são (se ousarmos usar a expressão) como a voz do "lírio entre espinhos". Há, portanto, alguma referência aqui ao sentido espiritual da palavra (Mynvs), ou lírios, neste título, o que ao menos parece provável. Christopher Wordsworth.

Título. Pensamos que Sosanim signifique um instrumento de seis cordas, ou um cântico de regozijo. Augustin Calmet, 1672-1757. Kitto, por outro lado, diz que a palavra é tão claramente lírios que ele se recusa a sair do caminho para trazer à tona a palavra hebraica para seis.

Título. "Ao músico-chefe, sobre Sosanim." Alguns querem que se entenda por isso instrumentos onde havia muitas gravuras de lírios, que são flores de seis pétalas. E, de fato, alguns intérpretes, por causa dessa derivação da palavra, assim a traduzem, sobre Sosanim, isto é, sobre lírios; seja em referência às suas grinaldas de casamento, feitas em grande parte de lírios, seja porque, por esses lírios, se pretenda designar Cristo e sua igreja. Arthur Jackson.

Título. "Um cântico." A palavra (ryv), shir, cujo sentido (cântico) é incontestável, é prefixada a muitos salmos, três vezes de modo simples e treze vezes ligada a Mizmor. Não há indício de peculiaridade em sua composição. O sentido da palavra parece se distinguir de Mizmor, por designar algo que deve ser cantado, com referência à sua estrutura poética. John Jebb.

Salmo inteiro. O Saltério, que expõe tanta verdade a respeito da pessoa e da obra de Cristo — verdade mais preciosa que o ouro e mais doce que o favo de mel — não se cala quanto ao vínculo que subsiste entre ele e o seu povo: A UNIÃO MÍSTICA ENTRE CRISTO E A IGREJA. Quando um príncipe põe seu afeto numa mulher de condição humilde, e a leva para casa como esposa, os dois se unem de tal modo que as dívidas dela se tornam dele, e as riquezas e honras dele se tornam dela.

Ora, que se forma entre Cristo e a igreja, entre Cristo e toda alma que consentir em recebê-lo, uma ligação da qual a mais íntima das relações naturais é o análogo e o tipo, já vimos que isso não só é ensinado nos Salmos, como está implícito na própria estrutura de muitos deles. Ele toma sobre si os pecados do seu povo, e este recebe o direito de se tornar filho de Deus: o único Espírito de Deus, com o qual ele foi batizado sem medida, habita neles na medida da graça que lhes é dada. Acrescentarei apenas que esta união, além de estar implícita em tantos lugares, é expressamente exposta num salmo gloriosíssimo — o Cântico Nupcial de Cristo e da Igreja — cujo tema peculiar é a vinda para casa dos eleitos de Cristo, para que se unam a ele numa união que há de sobreviver aos montes eternos. William Binnie, D.D.

Versículo 1Salmo 45:1

Meu coração está a compor um bom assunto, e então a minha língua será como a pena de um escritor destro. Ah, então hei de prosseguir alegremente em seu serviço, quando eu tiver assunto preparado no coração! E, de fato, assim como o marinheiro vê mais estrelas novas quanto mais navega, perde de vista as antigas e descobre outras; assim o cristão que cresce, quanto mais navega na religião, descobre novas carências, novas Escrituras o tocam, novas provações o afligem, novo trato ele encontra com Deus, e, esquecendo o que ficou para trás, avança para o que está diante, e assim encontra a cada dia novo trato com o Senhor, seu Deus; e quem está ocupado não se distrai com bagatelas; quanto mais ocupação, menos distrações. Richard Steele.

Meu coração está a compor um bom assunto. (vxr) (rakhash); ferve ou borbulha; denota a linguagem do coração cheio e pronto para a expressão. Victorinus Bythner.

Meu coração está a compor um bom assunto. Aqui temos a obra do Espírito de profecia. Por sua operação, o bom "assunto" é gerado no peito do salmista, e agora seu coração se ergue e trabalha sob o peso. Está apenas começando a lançá-lo para fora, como água de uma fonte, para que corra pelo canal da língua. Aqui, portanto, temos alguma visão da maneira como opera o Espírito no coração do homem. O salmista diz que seu coração faz o que o Espírito está fazendo em seu coração. O coração o faz, de fato, mas é a obra do Espírito. O salmista tomou todo o interesse e prazer em seu assunto que teria tomado, ainda que o Espírito nada tivesse a ver com isso; pois quando o Espírito opera, opera não só pelo coração, mas no coração; ele se apodera de todos os seus afetos, cada fibra dele se dobra à sua vontade. George Harpur, em "Christ in the Psalms" ("Cristo nos Salmos"), 1862.

Bom assunto, o bom anúncio, ou evangelho. Christopher Wordsworth.

Uma semelhança tomada da minchá, a oferta de cereais da lei, que era preparada na frigideira (Levítico 7:9), e ali cozida em azeite, feita de flor de farinha sem fermento, misturada com azeite (Levítico 2:5), e depois apresentada ao Senhor pelo sacerdote (versículo 8). Aqui, o assunto deste salmo é como a minchá ou oblação, que, com o azeite — a graça do Espírito —, foi cozida e preparada no coração do profeta, e agora é apresentada. Henry Ainsworth.

Conta-se de Orígenes, diz Erasmo, que ele era sempre fervoroso, mas nunca mais do que quando discorria sobre Cristo. De Johannes Mollias, um bolonhês, diz-se que sempre que falava de Jesus Cristo seus olhos lacrimejavam, pois estava carregado de poderoso fervor do Espírito Santo de Deus; e, como o Batista, ele foi primeiro um fogo ardente (fervendo ou borbulhando), e depois uma luz refulgente. John Trapp.

A respeito do rei. Nem tudo diz respeito imediatamente ao rei, pois grande parte diz respeito à rainha, e cerca da metade se dirige diretamente a ela. Mas diz respeito a ele na medida em que diz respeito à sua família. Cristo sempre se identifica com o seu povo; de modo que tudo o que é feito a eles é feito a ele mesmo. Os interesses deles são os interesses dele. George Harpur.

A minha língua será como a pena de quem toma anotações ou escreve em taquigrafia: pois falarei de modo bem breve, e não em palavras longas, nem de forma a ser entendido no sentido literal, mas em figuras e emblemas. De "Holy David and his old English Translators cleared" ("O santo Davi e seus antigos tradutores ingleses justificados"), 1706. (Anônimo.)

A pena. Chamamos os profetas de escribas da Escritura, quando eram apenas a pena.

Versículo 2Salmo 45:2

Tu és mais formoso do que os filhos dos homens: a graça está derramada em teus lábios. Assim ele começa a expor sua beleza, na qual está o deleite de qualquer pessoa; assim é com a alma, quando Deus dá a conhecer ao homem sua própria imundícia e indignidade pelo pecado, e que somente por Jesus o pecado é tirado; oh, quão bela é esta face, à primeira vista dele! Em segundo lugar, cheios de graça estão os teus lábios: aqui está o segundo elogio; a saber, que quando Jesus abre seus lábios para nós, deles derrama graça em nossa alma, quando nos dá a conhecer o Pai, e fala paz a todos os que estão longe e perto; quando chama: "Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei"; e tudo isso porque Deus o abençoou para sempre; temos a certeza de que ele vem de Deus, e de que ele e suas obras são eternos, e por isso toda a sua graça derramada sobre nós permanecerá conosco, e nos fará bem-aventurados para sempre; pois ele é a Palavra de Deus, e fala o pensamento de Deus, pois nada fala senão o que ouviu do Pai; e quando ele fala às nossas almas com a sua Palavra, o Espírito é dado, testemunho certo à nossa alma de que somos filhos de Deus, e penhor de nossa herança; pois o Espírito e a Palavra não podem ser separados. Richard Coore, em "Christ Set Forth" ("Cristo exposto").

Tu és mais formoso do que os filhos dos homens», etc. Nada pode ser mais belo do que esta forma abrupta de discurso. O profeta começa com o propósito declarado de falar do rei. Mas, como se, no momento em que assim se propôs, a Pessoa gloriosa de quem ia falar lhe tivesse aparecido diante dos olhos, ele deixa imediatamente toda outra consideração para falar com ele mesmo. E que discurso arrebatado ele faz! Primeiro descreve as glórias, as belezas, a espantosa formosura de sua pessoa. Ainda que a um olho carnal não houvesse nele beleza para o desejarmos, seu rosto mais desfigurado do que o de qualquer homem, e sua aparência mais do que a dos filhos dos homens, a um olho verdadeiramente iluminado ele é o rei em sua beleza, mais formoso, como Mediador glorioso, Cabeça, Noivo de sua Igreja e povo, do que todos os filhos dos homens. E, à vista do Pai, tão grandemente amado, tão verdadeiramente glorioso, que a graça foi derramada em seus lábios. Leitor, observe a expressão: não simplesmente graça posta em seu coração, pela santidade e pureza de sua pessoa, mas derramada em seus lábios, para que, como o mel, pudesse pingar sobre o seu povo, e ser para sempre comunicada a todos os seus remidos, numa perpétua eternidade de todas as bênçãos convenientes aqui, e da glória no porvir. Robert Hawker, D.D.

Tu és mais formoso do que os filhos dos homens. Sois amantes da beleza? Isso agrada à maioria: nisso ninguém se compara a Cristo. Em beleza e formosura ele supera infinitamente tanto os homens quanto os anjos. Lemos de Moisés que era em extremo formoso; e de Davi, que era ruivo e de belo semblante; e Josefo relata de um deles que todos os que o viam se maravilhavam e se enamoravam de sua beleza. Ah, mas que era a beleza deles perto da de Cristo? Ainda que se juntasse a beleza deles com a de todos os homens e anjos, tudo isso não seria nada diante da beleza de Cristo; não mais do que a luz de uma vela diante da luz do sol ao meio-dia. Edward Pearse, em "The Best Match" ("A melhor união"), 1673.

Tu és mais formoso», etc. Formoso foi ele (1) em sua concepção, concebido em pureza, e um anjo formoso trouxe a notícia. Formoso (2) em seu nascimento: wraioz é a palavra na Septuaginta, tempustivus, em seu tempo, isto é, tudo é belo em seu tempo (Eclesiastes 3:11). E na plenitude do tempo é que ele nasceu, e uma bela estrela apontou para ele. Formoso (3) em sua infância; crescia em graça e em favor (Lucas 2:52). Os doutores muito se admiravam dele.

Formoso (4) em sua idade adulta; não fosse assim, diz São Jerônimo, não houvesse algo admirável em seu semblante e presença, alguma beleza celestial, os apóstolos e o mundo inteiro (como os próprios fariseus confessam) não teriam ido tão de repente após ele. Formoso (5) em sua transfiguração, branco como a luz, ou como a neve, seu rosto brilhando como o sol (Mateus 17:2), a ponto de arrebatar a própria alma de São Pedro, de modo que "não sabia o que dizia", podendo deixar os olhos fixos naquele rosto para sempre, e nunca mais descer do monte.

Formoso (6) em sua paixão. Nihil indecorum, nenhuma indignidade, em sua nudez; suas próprias chagas, e as marcas sangrentas dos açoites e chicotadas arrancaram um ecce da boca de Pilatos: "Eis o homem!"; a doçura de seu semblante e conduta no meio da imundície e do escarro, dos açoites e das bofetadas. Sua própria formosura na cruz, e sua entrega do espírito, fizeram o centurião exclamar que ele "era o Filho de Deus": aparecia nele majestade tão doce, esplendor tão celestial, através daquelas próprias trevas que o cercavam.

Formoso (7) em sua ressurreição; beleza tão sutil que olhos mortais, até os olhos dos seus próprios discípulos, não eram capazes de ver ou compreender, senão quando ele a velava deles. Formoso (8) em sua ascensão; fez seus discípulos ficarem olhando após ele por tanto tempo (como se nunca pudessem contemplá-lo o bastante), até que um anjo é enviado do céu para os repreender, para os fazer olhar para casa (Atos 1:2). Mark Frank.

Ó sol formoso, e lua formosa, e estrelas formosas, e flores formosas, e rosas formosas, e lírios formosos; mas ó milhares e milhares de vezes mais formoso, Senhor Jesus! Ai! Errei contra ele ao fazer a comparação desse modo. Ó sol e lua negros! mas ó formoso Senhor Jesus! Ó flores negras, e lírios negros, e rosas! mas ó formoso, formoso, sempre formoso, Senhor Jesus! Ó céu negro! mas ó formoso Cristo! Ó anjos negros! mas ó incomparavelmente formoso Senhor Jesus! Samuel Rutherford.

Em um só Cristo podemos contemplar e devemos confessar toda a beleza e formosura tanto do céu quanto da terra; a beleza do céu é Deus, a beleza da terra é o homem; a beleza do céu e da terra juntas é este Deus-homem. Edward Hyde, D.D., 1658.

Tu. "Tenho uma paixão", observou o Conde Zinzendorf em um de seus discursos à congregação de Herrnhut, "e é Ele — só Ele."

Tu és mais formoso. Em hebraico, tu és duplamente formoso; a palavra hebraica está dobrada, ad corroborandum, diz Kimchi. John Trapp.

A graça está derramada em teus lábios. Isso é dito como se essa graça fosse um dom, e não algo inerente ao nosso Senhor mesmo. E não é exatamente isso o que aprendemos das histórias dos evangelistas? Antes de Jesus sair para a obra de sua missão pública, o Espírito Santo desceu do céu como uma pomba, e pousou sobre ele. O Espírito que concede todas as suas graças à igreja de Cristo concedeu suas graças ao próprio Cristo. Não que o Filho de Deus precisasse da unção do Espírito de Deus, mas ele permitiu que assim fosse, para que fosse em tudo semelhante a seus irmãos. Se ele havia de ser seu exemplo, precisava mostrar-lhes onde estava a sua grande força. Eles veem nele os frutos do Espírito Santo, que lhes é prometido a eles mesmos. Tudo o que Cristo jamais fez como Cabeça e Representante de seu povo, ele fez por aquele mesmo Espírito que ainda hoje habita em sua igreja. George Harpur.

A graça está derramada em teus lábios. Cheios de graça estão os teus lábios. Cheios de graça quanto à matéria, e cheios de graça quanto à maneira.

  1. Quanto à matéria, ele proferiu doutrina aceitável: "A lei foi dada por Moisés, mas a graça veio por Jesus Cristo" (João 1:17). Moisés teve palavras ásperas e duras em sua lei: "Maldito aquele que não permanecer em todas as coisas escritas no livro da lei, para as cumprir"; mas Cristo, ao contrário, fala coisas melhores; as primeiras palavras de seu primeiro sermão são: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mateus 5:3). Ele vem ao seu povo, cum verbo gratiae, cum osculo gratae, diz Agostinho: seus lábios estão cheios de graça, isto é, derramando abundantemente palavras graciosas (Mateus 11:28; João 3:16; Lucas 4:18). "Os seus lábios são como lírios que destilam mirra" (Cantares 5:13); todos os que o ouviam se maravilhavam das palavras cheias de graça que saíam de sua boca (Lucas 4:22).

  2. Quanto à maneira, ele não ensinava como os escribas; falava tão docemente que os próprios oficiais de guarda, atônitos com suas palavras, deram este testemunho: "Nunca homem algum falou como este homem" (João 7:46). Falava tão graciosamente que os apóstolos deixaram tudo e o seguiram; ao seu chamado André largou logo as redes, Tiago e João, o pai, sem demora, Mateus, o posto de cobrança de impostos, Zaqueu, do mesmo modo mundano, veio depressa recebê-lo com alegria (Marcos 10:28; Mateus 4:20-21; Mateus 9:9; Lucas 19:6). Não, amados, ele era orador tão poderoso que até os ventos e as ondas obedeciam à sua palavra (Marcos 4:39). Relata-se na Sagrada Escritura que todos os príncipes e povos desejavam ouvir a eloquência de Salomão; a rainha de Sabá, maravilhada com ela, exclamou: "Felizes estes teus servos, que estão sempre diante de ti, e que ouvem a tua sabedoria" (1 Reis 10:8). Salomão é tipo aqui, mas Cristo é a verdade; e isso mostra evidentemente que Cristo não é um tirano, mas um príncipe manso, persuadindo à obediência de modo agradável, não compelindo violentamente seu povo; seus ditos são o seu cetro e a sua espada: suas exortações penetrantes são, por assim dizer, suas flechas agudas, pelas quais seus seguidores lhe são subjugados.

Para concluir este argumento, suas palavras belas (como fala a Escritura) "são como favo de mel, doçura para a alma e saúde para os ossos" (Provérbios 16:24): "um favo de mel", e que coisa mais saborosa? "doçura para a alma e saúde para os ossos", e que, pergunto, mais salutar? A alma do homem bom é a própria esposa de Cristo, à qual ele fala de muitos modos graciosos: às vezes corrigindo, e que argumento mais forte de amor há, pois "a quem o Senhor ama, ele corrige" (Hebreus 12:6); às vezes instruindo, e seu evangelho é capaz de tornar "o homem de Deus perfeito, perfeitamente preparado para toda boa obra" (2 Timóteo 3:17); às vezes cortejando em termos de amor, como em seu cântico de amores por toda parte: "minha amada", "minha irmã", "minha esposa", "a mais formosa entre as mulheres", "meu amor", "minha pomba" etc.; às vezes prometendo, tanto as bênçãos desta vida presente — "Não temas, pois estou contigo; não te espantes, pois eu sou o teu Deus" etc. (Isaías 41:10) — quanto as da vida que há de vir (João 17:21,24). Mas a excelente intercessão diária de Cristo junto a Deus Pai, comparecendo na corte do céu, e como advogado intercedendo por nós, é ainda mais cheia de graça; pois, se Calebe facilmente concedeu o pedido de sua filha, e lhe deu "as fontes de cima e as fontes de baixo" (Juízes 1:15), como negaria o Deus Todo-Poderoso (cujas misericórdias estão acima de todas as suas obras) as súplicas de tal Filho, em quem se compraz? John Boys.

A graça está derramada em teus lábios. A primeira cláusula anotava suas perfeições interiores; e esta significa sua capacidade e prontidão para comunicá-las a outros. Matthew Poole.

(segunda cláusula): nunca houve palavras de amor e doçura ditas por homem algum como as ditas por ele; nunca houve coração tão amoroso e terno quanto o coração de Jesus Cristo: a graça foi derramada em seus lábios. Certamente nunca houve, aqui nesta terra, palavras de amor, doçura e ternura como aquelas últimas palavras suas, proferidas pouco antes de seus sofrimentos, e registradas nos capítulos 13, 14, 15, 16 e 17 de João. Lede todos os livros de amor e amizade jamais escritos por quaisquer filhos dos homens: todos ficam muito aquém daqueles cantos derretidos de amor ali expressos. Tão doce e amável era a conversa de Jesus Cristo que se relata, na história eclesiástica, do apóstolo Pedro, que, depois da ascensão de Cristo, chorou tão abundantemente que sempre era visto enxugando o rosto das lágrimas; e, perguntado por que chorava tanto, respondeu que não podia deixar de chorar sempre que se lembrava daquela doçíssima conversa de Jesus Cristo. John Row.

Versículo 3Salmo 45:3

Cinge a tua espada à tua coxa. A espada, segundo o costume antigo, era pendurada num cinto posto ao redor dos ombros, e descendo até a coxa. Ficava suspensa na parte de trás da coxa, quase até o chão, mas não era cingida sobre ela; a espada do cavaleiro era fixada na sela por uma correia. Quando Davi, em espírito, convida o Redentor da igreja a cingir a espada à sua coxa, e a esposa diz dos valentes de Israel, "cada um tem a sua espada à coxa, por causa dos temores da noite" (Cantares 3:8), não se quer dizer que a arma fosse literalmente atada à coxa, mas pendurada no cinto na parte de trás dela; pois este era o modo, segundo o testemunho universal dos escritores antigos, como a infantaria trazia suas espadas.

Ainda hoje é costume no Oriente trazer espadas dessa maneira, pois Chardin nos informa que "os povos orientais trazem suas espadas penduradas em todo o comprimento; e os turcos trazem suas espadas a cavalo, e sobre a coxa." Mas, em seu convite poético ao Redentor, para cingir a espada à sua coxa, Davi manifestamente aponta para alguma ocasião especial de caráter solene e oficial; e uma luz clara se lança sobre seu sentido por um costume observado até hoje no Oriente. "Quando um príncipe persa ou otomano sobe ao trono", diz o Sr. Morier, "ele cinge o seu sabre. Mohammed Jaffer, por exemplo, foi proclamado pelo Cã, governador provisório até a chegada de seu irmão, e foi investido nessa dignidade pela cingidura de uma espada à sua coxa, honra que aceitou com uma relutância talvez não de todo fingida."

"Esta cerimônia", diz o Dr. Davey, ao relatar uma coroação oriental, "ainda faltava ser realizada antes que o príncipe pudesse ser considerado plenamente rei — era a de escolher um nome novo, e vestir a espada régia. O príncipe ia com grande pompa ao templo, onde apresentava ofertas, e então, cingida a espada à sua coxa, o sacerdote apresentava um vaso de pó de sândalo, no qual o príncipe, que já pode ser chamado de rei, mergulhava os dedos." Destes relatos, é evidente que cingir uma espada à coxa é parte da cerimônia de investidura real; e que, quando o salmista se dirige ao Messias, ele se refere ao seu recebimento das honras e poderes do Senhor de todos. G. Paxton, Illustrations of Scripture ("Ilustrações da Escritura").

A tua espada. A palavra de Deus é comparada a uma arma dessas, pois o apóstolo nos informa que ela é viva, e poderosa, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetrando até a divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e discernindo os pensamentos e intenções do coração. Deve-se notar, porém, que esta descrição da palavra de Deus só se aplica a ela quando Cristo a cinge, e a emprega como sua espada. De que serve uma espada, ainda que seja a espada de Golias, enquanto jaz parada em sua bainha, ou é empunhada pela mão sem forças de uma criança? Nessas circunstâncias, não pode nem conquistar nem defender, por mais adequada que fosse para ambas as coisas na mão de um guerreiro.

O mesmo se dá com a espada do Espírito. Enquanto jaz parada em sua bainha, ou é manejada apenas pela mão ainda infantil dos ministros de Cristo, é arma sem força e inútil; arma da qual o pecador mais fraco pode rir, e contra a qual pode se defender com a maior facilidade. Mas não é assim quando aquele que é o Mui Poderoso a cinge. Então ela se torna arma de poder tremendo, arma irresistível como o raio do céu. "Não é a minha palavra como fogo, e como martelo que despedaça a rocha? diz o Senhor." De fato o é, pois que pode ser mais eficaz e irresistível do que uma arma mais cortante que espada de dois gumes, manejada pelo braço da onipotência? Que deve ser sua espada, cujo simples olhar é relâmpago?

Armado com essa arma, o Capitão da nossa salvação abre caminho até o pecador com infinita facilidade, ainda que cercado de rochas e montanhas, dispersa suas fortalezas e refúgios de mentiras, e com um golpe poderoso fende seu coração de diamante, deixando-o prostrado e trêmulo a seus pés. Uma vez que tais são os efeitos desta arma na mão de Cristo, é com a maior propriedade que o salmista começa pedindo-lhe que a cinja, e não a deixe inativa em sua bainha, nem sem força no punho frágil de seus ministros. Edward Payson.

Ó mui poderoso. Cristo é onipotente, e por isso capaz de cumprir tudo o que diz, e de tornar eficaz a sua palavra de preceito, promessa e ameaça, para o fim para o qual é enviada. David Dickson.

Versículos 3–4Salmo 45:3-4

Podemos refletir com prazer sobre a gloriosa causa em que Cristo está empenhado, e sobre a guerra santa que ele trava, e na qual há de prosperar. É a causa da verdade, da mansidão e da justiça. Seu evangelho, sua espada, que é a palavra de Deus, tende a corrigir nossos erros pela verdade; a controlar nossas paixões pela mansidão que ela promove; e a regular nossas vidas pelas leis de justiça que ela inculca. Alegremo-nos por esta causa sagrada ter até aqui prosperado, e por haver de prosperar. Job Orton, 1717-1783.

Versículo 4Salmo 45:4

E em tua majestade cavalga prosperamente», etc. As rodas do carro de Cristo, sobre o qual ele monta quando vai conquistar e subjugar novos convertidos ao seu reino, são a majestade, a verdade, a mansidão, a justiça, manifestadas na pregação do seu evangelho; majestade, quando se declara a magnificência solene de sua pessoa e ofícios; verdade, quando se conhece a certeza de tudo o que ele ensina na Escritura; mansidão, quando sua graça e misericórdia são oferecidas aos rebeldes; e justiça, quando a justificação pela fé em seu nome é claramente exposta. Cristo não faz viagem alguma em vão, não fica aquém de seu intento e propósito, mas realiza a obra para a qual veio, pregando o evangelho; em sua majestade, verdade, mansidão e justiça, ele cavalga prosperamente. David Dickson.

Cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça. A tradução literal seria: "Cavalga sobre a palavra da verdade, e a mansidão da justiça", e é assim que traz o Siríaco. Se se adotar esta versão, o sentido será então que o grande objetivo do evangelho de Cristo era reivindicar a causa da verdade e da justiça no mundo. Diz-se que Cristo cavalga sobre a palavra da verdade porque o conhecimento da verdade depende da palavra — é pela palavra que a verdade se dá a conhecer. Diz-se que ele cavalga sobre a mansidão ou a humildade da justiça, porque a mansidão ou humildade é sua característica distintiva. A primeira se refere ao que o homem deve crer; a segunda, a como ele deve viver. George Harpur.

A tua destra te ensinará coisas terríveis. Esta expressão parece usada apenas para dar a entender, ou que, por seu poder, ele seria capacitado a fazer coisas terríveis, porque ensinar capacita os homens a fazer aquilo que aprenderam, ou que, por seu poder onipotente, ele veria por experiência que grandes e terríveis coisas seriam por ele realizadas. Arthur Jackson.

Versículo 5Salmo 45:5

As tuas flechas são agudas no coração dos inimigos do rei. Numa metáfora ainda mais ousada, as flechas que são disparadas do arco de Cristo são os pregadores do evangelho, especialmente os apóstolos e evangelistas. "His sagittis", diz São Jerônimo, "totus orbis vulneratus et captus est" (por estas flechas, o mundo inteiro foi ferido e capturado). Paulo, o apóstolo, foi uma flecha do Senhor, disparada do seu arco desde Jerusalém até o Ilírico, e do Ilírico até a Espanha, voando do oriente ao ocidente, e subjugando os inimigos de Cristo sob os seus pés. Christopher Wordsworth.

Ao suplicar que o Redentor cavalgasse prosperamente, e ao predizer o seu êxito, o salmista parece ter visto de repente suas orações respondidas e suas predições cumpridas. Viu o seu Príncipe, que tudo vence, cingir a espada irresistível, revestir-se de glória e majestade, subir ao carro do seu evangelho, exibir o estandarte da sua cruz, e cavalgar avante, como sobre as asas do vento, enquanto a voz tremenda de um arauto proclamava diante dele: "Preparai o caminho do Senhor", exaltai os vales, e aplainai os montes; endireitai os caminhos tortuosos, e aplainai os lugares ásperos; pois, eis que o Senhor Deus vem; vem com mão forte, sua recompensa está com ele, e sua obra diante dele.

Da nuvem brilhante e ígnea que envolvia seu carro, e o ocultava dos olhos mortais, viu flechas agudas de convicção disparadas de todos os lados, ferindo fundo os corações obstinados dos pecadores, e prostrando-os em multidões ao redor de seu caminho, enquanto sua destra estendida os erguia de novo, e curava as feridas que suas flechas haviam feito; e sua voz onipotente falava paz às suas almas desesperadas, e as convidava a segui-lo em sua comitiva, e a testemunhar e partilhar de seu triunfo. Da mesma nuvem brilhante viu os relâmpagos vingadores lampejando densos e temíveis, para arrasar e consumir tudo o que se opusesse ao seu avanço; viu o pecado, e a morte, e o inferno, com todas as suas legiões, frustrados, derrotados e fugindo em trêmula consternação diante dele; viu-os alcançados, atados e presos às rodas de seu carro triunfante; enquanto vozes arrebatadas se ouviam do céu, exclamando: "Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino de Deus, e o poder do seu Cristo."

Tal foi a cena que parece ter irrompido diante da vista arrebatada do profeta em êxtase. Transportado com a visão, exclama: as tuas flechas são agudas no coração dos inimigos do rei; pelas quais os povos caem debaixo de ti. Edward Payson.

Os inimigos do rei não é simplesmente uma expressão para "teus inimigos", como alguns pensam, mas antes implica que a realeza de Cristo é o próprio fundamento da inimizade deles; assim como no segundo salmo o clamor deles era: "Rompamos as suas ataduras." George Harpur.

Versículo 6Salmo 45:6

O teu trono, ó Deus. A palavra original é, provavelmente, vocativa, tanto no grego quanto no hebraico; e assim a tomam os unitaristas modernos, que buscam abrigo explicando a palavra "Deus" de outro modo. Henry Alford, D.D., sobre Hebreus 1:8.

Versículo 7Salmo 45:7

Tu amas a justiça e odeias a impiedade. Muitos amam a justiça, mas não seriam seu campeão; tal amor não é o amor de Cristo. Muitos odeiam a iniquidade, não por ela mesma, mas por causa de suas consequências; tal ódio não é o ódio de Cristo. Para sermos semelhantes a Cristo, devemos amar a justiça como ele amou, e odiar a impiedade como ele odiou. Amar e odiar como ele ama e odeia é ser perfeitos como ele é perfeito. A perfeição deste amor e deste ódio é a perfeição moral. George Harpur.

Por isso. Observe como é comum atribuir a exaltação de Cristo aos seus méritos. Deus o abençoou para sempre, como no segundo versículo deste salmo (se este for o sentido daquele versículo), porque ele era mais formoso do que os filhos dos homens, e a graça estava derramada em seus lábios. E assim o apóstolo: Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome acima de todo nome, porque ele se humilhou, e se tornou obediente até a morte. E aqui Deus o ungiu com óleo de alegria acima de seus companheiros, porque ele amou a justiça e odiou a iniquidade. George Harpur.

Por isso. Ele não diz: "Por isso ele o ungiu para que se tornasse Deus, ou Rei, ou Filho, ou Verbo"; pois assim ele já era, e é para sempre, como já se mostrou; mas antes: "Já que és Deus e Rei, por isso foste ungido, pois ninguém senão tu poderia unir o homem ao Espírito Santo, tu, a imagem do Pai, na qual fomos feitos desde o princípio: pois teu é até mesmo o Espírito." Atanásio.

Por isso Deus, o teu Deus. Deus era o Deus de Cristo em aliança, para que ele fosse o nosso Deus em aliança; pois em suas transações, todo o Cristo, Cabeça e membros, devem ser considerados (Gálatas 3:16; 1 Coríntios 12:12), sendo a aliança primeiro tratada com a Cabeça (que nos é dada como aliança, Isaías 42:6), e depois com os membros, com ele em referência a nós e por nós. Assim como Deus não faltou ao nosso fiador, mas o sustentou em seu grande conflito, quando clamou a ele desde as profundezas (Hebreus 4:16; Hebreus 13:5-6), também não nos faltará em tempo de necessidade. William Troughton.

Por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros; isto é, te enriqueceu e encheu de modo singular com a plenitude do Espírito, pela qual és consagrado ao teu ofício; e por causa da qual superas e excedes todos os santos que são teus companheiros, ou co-participantes destas graças. De modo que nestas palavras temos duas partes: primeiro, a dignidade dos santos; segundo, a preeminência de Cristo.

Primeiro. A dignidade dos santos, que consiste nisto: que são companheiros de Cristo. A palavra hebraica (Kyrkxm) é muito plena e copiosa, e é traduzida como consortes, companheiros, coparticipantes, partícipes; ou, como a nossa lê, companheiros; isto é, os que são partícipes com ele na unção do Espírito, que recebem, na sua medida, o mesmo Espírito, sendo todo cristão designado, modo sibi proportionato, com a mesma graça e dignificado com os mesmos títulos (1 João 2:27; Apocalipse 1:6). Cristo e os santos são, entre si, em comum. Habita nele o Espírito de santidade? Assim também habita neles.

É Cristo Rei e Sacerdote? Pois também eles o são, pela graça da união com ele. Ele nos fez reis e sacerdotes para Deus, seu Pai. Esta é a dignidade dos santos: serem companheiros, consortes, coparticipantes de Cristo; de modo que, qualquer graça ou excelência que haja em Cristo, não é apropriada só a ele, mas eles a partilham com ele; pois, de fato, ele foi cheio da plenitude do Espírito por causa e para uso deles.

Assim como o sol está cheio de luz não para brilhar para si mesmo, mas para os outros, assim está Cristo cheio de graça; e por isso alguns traduzem o texto não prae consortibus, acima de teus companheiros, mas propter consortes, por causa de teus companheiros (Rivetus), fazendo de Cristo o primeiro receptáculo de toda graça, que primeiro e imediatamente é enchido da fonte da Divindade, mas isso para o seu povo, que recebe e deriva dele segundo a sua medida. Esta é uma grande verdade; e a dignidade dos santos está principalmente nesta parceria com Cristo, ainda que a nossa tradução, "acima de teus companheiros", convenha melhor tanto ao sentido da palavra quanto ao alcance do texto.

Segundo. Mas então, seja qual for a dignidade atribuída aqui aos santos, há, e sempre há de haver, uma preeminência reconhecida e atribuída a Cristo: se eles são ungidos com o espírito de graça, muito mais abundantemente o é Cristo: Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros. John Flavel.

Óleo de alegria. Pois óleos de agradável perfume também eram usados para embelezar o rosto em ocasiões de festa e alegria (Salmos 23:5; Salmos 104:15; Isaías 61:3). E, igualmente, este óleo de consagração e a infusão dos dons do Espírito Santo foram a causa e o fundamento de a natureza humana de Cristo alcançar as alegrias e a glória eternas (Filipenses 2:9; Hebreus 12:2). John Diodati.

Veja, ó arianos, e reconhecei, mesmo por isto, a verdade. O salmista fala de todos nós como companheiros ou partícipes do Senhor; mas, se ele fosse um dos que vieram do nada, e das coisas geradas, ele mesmo teria sido um dos que participam. Mas, uma vez que o celebrou como o Deus eterno, dizendo: o teu trono, ó Deus, é para todo o sempre, e declarou que todas as demais coisas dele participam, que conclusão devemos tirar, senão que ele é distinto das coisas geradas, e é somente ele a verdadeira Palavra, o Resplendor e a Sabedoria do Pai, dos quais todas as coisas geradas participam, sendo por ele santificadas em Espírito? E, portanto, ele é aqui ungido, não para que se torne Deus, pois já o era antes; nem para que se torne rei, pois tem o reino eternamente, existindo como imagem de Deus, como mostra o sagrado oráculo; mas é escrito em nosso favor, como antes.

Pois os reis de Israel, ao serem ungidos, então se tornavam reis, não o sendo antes, como Davi, como Ezequias, como Josias, e os demais; mas o Salvador, ao contrário, sendo Deus, e reinando eternamente no reino do Pai, e sendo ele mesmo o dispensador do Espírito Santo, é, no entanto, aqui dito ser ungido, para que, como antes, sendo dito, como homem, ungido com o Espírito, ele nos provesse ainda mais, não apenas de exaltação e ressurreição, mas da habitação e intimidade do Espírito...

E, quando recebeu o Espírito, fomos nós que, por ele, fomos feitos participantes dele. E, além disso, por essa razão, não como Arão, ou Davi, ou os demais, foi ele ungido com óleo, mas de outro modo, acima de todos os seus companheiros, com o óleo de alegria, que ele mesmo interpreta ser o Espírito, dizendo pelo profeta: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu"; como também disse o apóstolo: "como Deus o ungiu com o Espírito Santo." Atanásio.

Versículo 8Salmo 45:8

Todas as tuas vestes cheiram a mirra, aloés e cássia, dos palácios de marfim, com que te alegraram. Ainda que haja considerável obscuridade pairando sobre estas palavras, a ideia geral de uma plenitude suprema de unção é bem evidente, combinada, porém, com a outra ideia de que o óleo ou unguento da unção é da mais requintada qualidade. Mirra, aloés e cássia eram célebres por sua fragrância peculiar, razão pela qual eram usados na composição dos mais seletos unguentos. Mirra e cássia são mencionadas em Êxodo 30:23-24 como duas das especiarias com que se compunha o óleo santo da unção. Todos os seus ingredientes eram tidos por sagrados. Aos israelitas era proibido derramá-lo sobre a carne de qualquer homem, ou tentar imitá-lo em seus próprios perfumes. O marfim era, nos tempos antigos, como ainda hoje, raro e caro, e era muito estimado como material de decoração doméstica, sobre o qual se exibiam a mais fina obra e as despesas mais principescas.

Em palácios de marfim, portanto, era de se esperar que, em correspondência com a magnificência de sua estrutura e o preço de seu mobiliário, o unguento empregado na unção fosse do perfume mais rico, e na maior profusão. Segundo a nossa versão do salmo, o divino Salvador é assim representado como ungido com óleo da melhor espécie, mesmo óleo tirado dos palácios de marfim; e também como recebendo-o em nenhuma medida ordinária. Sua unção não se limitou a algumas gotas cerimoniais derramadas sobre a cabeça, mas foi tão abundante, diz-se, que todas as suas vestes cheiravam a mirra, aloés e cássia.

O bispo Horsley propôs uma mudança na tradução, pela qual a ideia de abundância se liga não à fragrância que provém da unção, mas à própria unção, o que é coisa diferente e bem mais importante. "Tuas vestes são todas mirra, aloés e cássia, excedendo os palácios de marfim, excedendo aqueles que te deleitam." Esta tradução, que é estritamente literal e ao mesmo tempo poética, é, ao mesmo tempo, comparativamente livre de obscuridade, e expõe visivelmente, sob a imagem mais expressiva, a medida transcendente daquela unção conferida a nosso Senhor acima de todos os seus companheiros. Supõe-se que suas vestes não apenas foram ricamente perfumadas, ou até totalmente saturadas do óleo de alegria, mas que consistiam nos próprios artigos que entravam na composição do mais precioso e odorífero unguento: Tuas vestes são todas mirra, aloés e cássia.

Esta é linguagem figurada, mas nada poderia exibir com maior ênfase quão verdadeiramente "o Espírito repousou sobre Jesus, e permaneceu com ele" em toda a plenitude de seus dons celestiais. Aquela unção celestial constituía, por assim dizer, a sua própria veste, "excedendo", em quantidade ou medida da unção, "os palácios de marfim"; porque o mobiliário destes, por mais perfumado que fosse, não era feito de materiais aromáticos. A força dos perfumes se evaporaria, a fragrância logo diminuiria; mas fragrância permanente, bem como abundante, é assegurada àquele cujas "vestes são todas mirra, aloés e cássia." Acrescenta-se, por paralelismo, "excedendo aqueles que se deleitam em ti", ou os que te alegram. Dizer que as pessoas aqui aludidas são os habitantes dos palácios de marfim poderia talvez ser objetado como fantasioso; mas palácios são as moradas dos reis; e reis ungidos, seja literal, seja tipológica, seja espiritualmente, são os companheiros do Ungido do Senhor; e parece manifesto que, assim como sua unção causa alegria e júbilo a todos os envolvidos nela, também há uma unção daqueles que têm a honra de ser seus companheiros, que causa alegria e júbilo a ele.

As pessoas que, num versículo, são mencionadas como dando deleite a Cristo, não há razão para considerá-las diferentes das pessoas mencionadas no versículo anterior como seus "companheiros". E, se é este o caso, então temos uma comparação traçada entre um e outro na questão da sua unção, e à de Cristo se atribui uma superioridade decidida. David Pitcairn, em "The Anointed Saviour" ("O Salvador ungido"), 1846.

Todas as tuas vestes cheiram a mirra», etc. Estas coisas são verdadeiras em Jesus; por suas vestes se entende sua justiça, pois está escrito que ele se vestiu de justiça e zelo. E aqui o tradutor pôs "cheiram", quando deveria ter sido "são", pois "suas vestes são de mirra, e aloés, e cássia", isto é, verdadeiramente purgando, limpando e tornando são; pois sua justiça, que é a justiça da fé, torna sãos de coração os cristãos; ao passo que a justiça do homem, que é a justiça das obras, faz hipócritas imundos. E por "palácios de marfim" se entende a verdadeira fé e o temor de Deus; pois o marfim é sólido e branco, e palácios são as casas dos reis; e por Cristo somos feitos reis, e nossa morada está na fé e no temor de Deus; e esta é a alegria e o júbilo de nosso Senhor Jesus, que ele traz muitos filhos e filhas a Deus. Richard Coore, 1683.

Dos palácios de marfim, com que te alegraram. Os comentaristas ficaram mais perplexos ao explicar estas palavras do que qualquer outra parte do salmo. Sem os deter com as várias exposições que já se propuseram, darei o que concebo ser o sentido da passagem. A palavra traduzida como "com que" é também o nome de uma região na Arábia Feliz, a saber, Minéia, que, segundo o geógrafo Estrabão, "abundava em mirra e incenso". Ora, é singular que, segundo o historiador Diodoro Sículo, "os habitantes da Arábia Feliz tinham casas suntuosas, adornadas de marfim e pedras preciosas". Juntando estas duas coisas, portanto, a saber, que esta região abundava em mirra e incenso, e que seus habitantes adornavam suas casas com marfim, podemos, penso eu, encontrar a chave para o sentido do salmista. Se substituirmos "Minéia" por "com que", a passagem correrá assim:

"Mirra, aloés e cássia são todas as tuas vestes. Dos palácios de marfim de Minéia te alegraram."

Lembrai-vos de que, no versículo imediatamente anterior, o óleo com que se diz que Cristo foi ungido é chamado óleo de "alegria". Assim, aqui se diz que ele é alegrado (é a mesma palavra em ambos os lugares, no hebraico) pelas especiarias de que aquele óleo é composto. Diz-se que estas especiarias foram trazidas da região mais aromática da terra das especiarias, e fica implícito que são as melhores especiarias daquela região aromática. Dos palácios de marfim, diz o salmista; não apenas casas, mas palácios — as mansões dos grandes, onde naturalmente se guardariam as melhores especiarias — destes vieram a mirra, o aloés e a cássia que compuseram o óleo de alegria com que és alegrado.

Deus ungiu a Cristo, quando o assentou em seu trono eterno, com o óleo de alegria; e esta unção foi tão profusa, suas vestes tão impregnadas dela, que pareciam não ser senão mirra, aloés e cássia. As especiarias, além disso, de que se compunha o óleo da unção, eram as melhores de sua espécie, trazidas, como eram, dos palácios de marfim de Minéia. Tal parece ser o sentido do salmista; e, assim entendida, a passagem se torna belíssima expressão da excelência e da provisão sem medida dos dons e graças daquele Espírito com que Cristo foi ungido por seu Pai. George Harpur.

Os palácios de marfim. Os pátios de marfim. Provavelmente assim chamados pela grande quantidade de marfim usada em ornamentá-los e embuti-los; assim como o palácio do imperador Nero, mencionado por Suetônio, foi chamado "aurea", ou "dourado", porque "lita auro", "revestido de ouro". Este método de ornamentar ou embutir salas era muito antigo entre os gregos. Homero, no quarto livro da Odisseia, parece mencioná-lo, como empregado no palácio de Menelau em Lacedemônia; e que os romanos às vezes ornavam seus aposentos de modo semelhante parece evidente por Horácio e Ovídio. Assim, em tempos modernos, o aposento de inverno da bela Fátima em Constantinopla foi descrito por uma testemunha ocular como "revestido com trabalho embutido de madrepérola, marfim de diferentes cores, e madeira de oliveira". O marfim é igualmente empregado em Alepo, como nos informa o Dr. Russell, na decoração de alguns dos aposentos mais caros. Richard Mant.

Palácios de marfim. Ou edifícios (1 Reis 22:39; Cantares 7:14), ou cofres e guarda-roupas de marfim, de onde eram tiradas e onde se guardavam aquelas vestes. Anotações da Assembleia de Westminster.

Com que te alegraram. O melhor sentido da frase — pela qual te alegram — se obtém remetendo o "te" às filhas dos reis mencionadas no versículo seguinte. William S. Plumer.

Gesenius e Delitzsch consideram (ynm) uma forma abreviada do plural (Mynm) (Salmos 105:4), "cordas", ou "instrumentos de cordas", e traduziriam assim: "Alegre-te, dos palácios de marfim, instrumentos de cordas te fizeram." Dalman Hapstone. (Com esta tradução concordam Ewald e Lange.) J. L. K.

Versículo 9Salmo 45:9

Filhas de reis. Embora a igreja católica, composta dos verdadeiros convertidos ou santos reais, seja a única e verdadeira esposa de Cristo, ainda assim as igrejas particulares e visíveis, compostas de santos por vocação, por obrigação, por profissão, e por estima comum, própria ou alheia, são muitas. A verdadeira igreja, composta dos verdadeiros convertidos (cujo louvor é de Deus, a quem só eles são certamente conhecidos, e não dos homens), sendo uma só, é comparada à rainha; mas as particulares, cujas reuniões e associações são conhecidas dos homens, sendo muitas, são comparadas às damas de honra que servem à rainha. David Dickson.

A rainha. Escreveu-se de Matilde, a imperatriz, que era filha de um rei, mãe de um rei, e esposa de um rei.

Ortu magna, viro major, sed maxima prole, Hic jacet Henrici filia, nupta, parens.

(Grande por nascimento, maior pelo marido, mas a maior por sua prole — aqui jaz a filha, a esposa e a mãe de Henrique.)

Assim Davi indica, neste hino, que a igreja é filha de um Rei, no versículo 13: "A filha do rei é toda gloriosa por dentro"; e mãe de um rei, no versículo 16: "Em lugar de teus pais estarão teus filhos, a quem farás príncipes em toda a terra"; e esposa de um rei, neste versículo: à tua direita estava a rainha, sendo ela (falo na língua de Canaã) espiritualmente a esposa desposada e recebida no leito do Rei da glória. John Boys.

Versículo 10Salmo 45:10

Esquece também o teu povo e a casa de teu pai. Três "todos" espero que abandones, diz Cristo. 1. Todas as tuas concupiscências pecaminosas, todos os caminhos do velho Adão, a casa de nosso pai. Desde a apostasia de Adão, Deus e o homem repartiram suas casas. Desde então, a casa de nosso pai é uma casa de maus costumes, uma casa de pecado e maldade. 2. Todas as tuas vantagens mundanas. "Se alguém vem a mim, e não odeia a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo." Quem tem todas essas coisas deve estar pronto a abandonar todas; elas se unem não disjuntivamente, mas copulativamente. 3. Todo o eu, a própria vontade, a própria justiça, a autossuficiência, a autoconfiança e a busca de si mesmo. Lewis Stuckley.

Esquece também o teu povo e a casa de teu pai. Se vês uma abelha deixar uma bela flor e pousar em outra, podes concluir que ela encontra mais orvalho de mel na flor a que mais se apega: assim, aqui, o povo de Deus jamais deixaria tantas belas flores no jardim do mundo, se não encontrasse outras nas quais achasse mais doçura. Cristo tem o seu jardim, ao qual traz o seu amado, e ali ela encontra flores de outra espécie das que o mundo tem, nas quais há doçura de natureza mais elevada, o próprio orvalho de mel da escolhida misericórdia, bondade e bênção de Deus mesmo: se o povo de Deus deixa os seios fartos do mundo, é porque encontrou os seios da consolação, dos quais sugou doçura de outra espécie da que o seio do mundo pode oferecer. Jeremiah Burroughs, em "Moses, his Self Denial" ("Moisés e sua abnegação"), 1649.

Esquece. Se estás no monte, não tenhas amor de olhar para trás, para Sodoma. Se estás na arca, não voes de volta ao mundo, como fez o corvo. Se estás posto em Canaã, esquece as panelas de carne do Egito. Se marchas contra Midiã, esquece o curvar-se às águas de Harode (Juízes 7:1-25). Se estás no telhado, esquece o que está abaixo de ti (Marcos 13:15). Se puseste a mão no arado, esquece o que ficou para trás (Lucas 9:62). Temístocles preferia aprender a arte do esquecimento à da memória. A filosofia é a arte de lembrar; a teologia inclui em si a arte de esquecer. A primeira lição que Sócrates ensinou a seus discípulos foi: Lembra-te; pois pensava que o conhecimento nada mais era que uma recordação daquilo que a mente conhecia antes de conhecer o corpo. Mas a primeira lição que Cristo ensina a seus discípulos é: Esquece. Esquece o teu povo; "arrepende-te" (Mateus 4:17); primeiro, "aparta-te do mal" (1 Pedro 3:11). Thomas Adams.

Versículo 11Salmo 45:11

Assim o rei desejará ardentemente a tua formosura. Esta é uma promessa mui doce. Pois o Espírito Santo sabe que este monstro, o monge, se agarra firme em nosso coração — que queremos ser puros e sem mácula diante de Deus. Assim, sob o papado, toda a minha tentação era esta: eu costumava dizer que gostaria de me achegar ao sacramento, se ao menos fosse digno. Assim buscamos, naturalmente, uma pureza em nós mesmos; e examinamos toda a nossa vida, e queremos achar em nós uma pureza, para não precisarmos da graça, mas podermos ser declarados justos com base em nosso próprio mérito... Tu certamente nunca te tornarás justo por ti mesmo e por tuas próprias obras...

O Espírito Santo diz, portanto: Eu te darei conselho saudável; e, se me ouvires, tornar-te-ás uma virgem toda formosa. Pois, se quiseres ser bela diante de Deus, de modo que todas as tuas obras lhe agradem, e ele diga: "Tua oração me agrada; tudo o que dizes, fazes e pensas, me agrada!" — procede assim: "ouve, vê, e inclina o teu ouvido"; e assim te tornarás toda formosa. Quando tiveres ouvido, tiveres visto, tiveres esquecido toda a tua própria justiça, toda a lei, todas as tradições, e todo aquele monasticismo, e tiveres crido, então és formosa; não em tua própria beleza, mas na beleza do Rei que te adornou com a sua Palavra; porque por meio dela ele te trouxe a sua justiça, a sua santidade, a verdade, a fortaleza, e todos os dons do Espírito Santo...

O Espírito Santo emprega a linguagem mais elevada. Assim o rei desejará ardentemente a tua formosura: isto é, prevalecerás sobre ele, por esta fé, para que faça tudo o que desejares; de modo que, como um a quem impele o poder do amor, ele espontaneamente te seguirá, permanecerá contigo, e fará morada contigo. Pois onde quer que Deus tenha dado a sua Palavra, ali ele não abandona a obra que começou em ti; antes, traz sobre ti primeiro as tentações do mundo, do diabo e da carne, para que por elas opere em ti. Estes são os abraços com que ele abraça a sua esposa, pela impaciência do amor...

Em suma, a nossa formosura não consiste em nossas próprias virtudes, nem sequer nos dons que recebemos de Deus, pelos quais praticamos virtudes e fazemos todas as coisas que pertencem à vida da lei; mas nisto — em apreendermos a Cristo e crermos nele. Então é que somos verdadeiramente formosos: e é somente esta beleza que Cristo contempla, e nenhuma outra. Martinho Lutero.

Neste salmo, Cristo é apresentado em toda a sua realeza e majestade; contudo, diz-se que ele deseja ardentemente, ou se deleita, na formosura de sua rainha, isto é, nas graças dos santos; e isso não com deleite ordinário, mas ele "deseja ardentemente"; seu desejo cresce à medida que cresce a formosura dela. Pois isso é trazido ali como motivo para que ela seja mais santa e conformada a ele, "inclinar o seu ouvido, e esquecer a casa de seu pai." Assim o rei desejará ardentemente a tua formosura. Cristo tem uma beleza que lhe agrada, assim como nós temos a nossa, ainda que de outra espécie; e, por isso, não cessa até ter tirado toda mancha e ruga do rosto de sua esposa, como diz o apóstolo (Efésios 5:27), "para apresentá-la a si mesmo gloriosa", isto é, deleitosa e agradável a seus olhos. Thomas Goodwin.

Versículo 12Salmo 45:12

E a filha de Tiro estará ali com presentes. As filhas de Tiro são as filhas dos gentios, a parte representando o todo. Tiro, cidade fronteiriça a esta terra onde a profecia foi proferida, tipificava as nações que haviam de crer em Cristo. Dali veio aquela mulher cananeia, que a princípio foi chamada de cadela; pois, para que se saiba que era dali, assim fala o evangelho (Mateus 15:21-28): "Jesus partiu para as regiões de Tiro e de Sidom. E eis que uma mulher cananeia, que saíra daquelas regiões..." com todo o resto que ali se relata. Ela, que a princípio, na casa de seu "pai", e entre o seu "próprio povo", não passava de uma cadela, ao vir e clamar por aquele "Rei", tornou-se formosa por crer nele — que ouviu dele? "Ó mulher, grande é a tua fé." O Rei desejou ardentemente a tua formosura. Agostinho.

Com um presente. Aqueles que venderam o que tinham vieram com presentes suplicar o favor desta "rainha", e "depositaram o que traziam aos pés dos apóstolos." Ardente era, então, o amor na igreja. Agostinho.

Os ricos. São, de fato, ricos em graça, aqueles cujas graças não são impedidas pelas riquezas, cujas almas prosperam quando prosperam seus corpos, como fala o apóstolo João em sua terceira epístola; ou os que, como se profetiza neste versículo, estando repletos de bênçãos mundanas, ainda assim são famintos e ávidos na busca de Cristo. A filha de Tiro estará ali com um presente; até os ricos entre o povo suplicarão o teu favor, diz o salmista; isto é, ou o favor do próprio Cristo, ou o favor da igreja, por causa daquela excelência espiritual e glória interior que ela recebeu de Cristo. Ora, ver os ricos trazerem seus presentes, e, o que é aqui principalmente visado, entregarem-se a si mesmos a Cristo, isto é visão rara, e obra notável da graça. Joseph Caryl.

Versículo 13Salmo 45:13

A filha do rei é toda gloriosa por dentro», etc. Quando os filhos de Deus se lembram de sua gloriosa e celestial linhagem, esforçam-se por superar os outros, tanto na bela disposição da alma quanto no modo de vida. A filha do rei, isto é, a filha do Pai celestial, que é também a noiva do Filho do rei; toda alma crente é toda gloriosa, adornada de uma santidade não só gloriosa para si mesma, mas também para o Pai e para o Noivo, e é o começo de uma glória celestial; e isso principalmente por dentro, não apenas quando aparece fora e se apresenta à vista dos homens, mas também quando se assenta na câmara interior, nos exercícios secretos da religião, nos quais em privado agrada ao Pai e ao Noivo, que, olhando para o homem interior, ela sobretudo se esforça por manter puro e casto.

O seu vestido é de ouro; em comparação ao qual, qualquer excelência que os homens naturais possuam não passa de vaidade reluzente; aliás, era ouro trabalhado, curiosamente embelezado com várias figuras, que representam as perfeições do próprio Deus; e de cores diferentes, por conta das diferentes, mas harmoniosamente correspondentes, graças do Espírito Santo; ou de bordado dos artesãos frígios, ou antes a obra do artífice hábil mencionado em Cantares 7:1. Nem a esposa é bela apenas por dentro, mas também por fora; "retendo firme a palavra da vida" (Filipenses 2:16), pratica a caridade, glorifica a Cristo, edifica o próximo, e assim é levada ao rei, digna de lhe ser apresentada. Este é o único caminho pelo qual devemos nos esforçar por alcançar familiaridade com ele, e o mais doce trato do amor mais casto, tanto na terra quanto no céu. Hermann Witsius, 1636-1708.

A filha do rei é toda gloriosa por dentro. O sentido é, ou (1) que sua principal glória consistia nisto: que fora admitida a tão familiar intimidade com o rei; ou (2) que, quando se assentava nos aposentos mais interiores do palácio do rei, ali estava em sua maior glória, porque aqueles aposentos eram mais magnificamente ornados com toda espécie de esplendor e mobília gloriosa; ou (3) que costumava estar gloriosamente vestida, não só quando saía em público, mas também quando permanecia dentro, como estando de fato adornada (o que pode estar implícito) apenas para o deleite do rei, e não para que outros a contemplassem; ou (4) — que é o que mais me agrada — que as virtudes e dotes interiores de sua mente eram seu maior ornamento e glória. Arthur Jackson.

Toda gloriosa por dentro. Os santos devem brilhar pela formosura de Cristo, assim como um marido bondoso se esforça por transformar sua esposa à sua própria imagem e semelhança, por meio de bondades, preceitos e exemplo, para que possa ter maior deleite em sua pessoa; assim o nosso Salomão espiritual muda a tez de sua rainha egípcia, para que veja as coisas e as pessoas como as julga o seu Senhor e marido, e molda o seu espírito para se deleitar em fazer a sua vontade e o seu prazer, e achar o maior consolo na obediência, para gozar de uma liberdade celestial, mesclada de amável e alegre reverência.

Ele arranca de seu coração toda afeição mutável e toda fantasia mundana, e todo saudoso desejo pelas vãs modas de Siquém, e toda inclinação carnal para as filhas da linhagem de Canaã, e todos os humores mesquinhos do mundo enfeitiçado, e faz passar com santo desdém toda a pobre pompa desta vida perecível e passageira, e se erguer a uma humilde estimativa das ninharias e bugigangas que encantam um coração carnal. Por fim, ela chega a um juízo nobre e generoso, tendo tudo por esterco e refugo, para que possa ganhar a Cristo. Como seu Príncipe de vida foi crucificado pelo mundo para a sua redenção, também ela começa a ser crucificada para com ele, em sinal de conformidade com ele, e por fim se torna toda gloriosa por dentro. Samuel Lee, em "The Triumph of Mercy" ("O triunfo da misericórdia"), 1676.

Por dentro. A arca era revestida por dentro com o mesmo betume com que fora revestida por fora; assim é o homem sincero, por dentro e por fora igual, dentro e fora, tudo uma coisa só. Sim, ele é antes melhor do que aparenta, como a filha do rei, cuja aparência exterior podia às vezes ser de saco, ainda que fosse toda gloriosa por dentro, e suas vestes interiores de ouro trabalhado. Ou como o templo, exteriormente nada senão madeira e pedra à vista, interiormente todo rico e formoso, especialmente o sanctum sanctorum (quando o véu era corrido) era todo ouro. O próprio assoalho, tanto quanto o teto, era revestido de ouro (1 Reis 6:30). John Sheffield.

O seu vestido é de ouro trabalhado. Alguns leem obras franjadas, ou fechos de ouro, ouro esmaltado, tal como se engastavam pedras preciosas, que eram extremamente esplêndidas e gloriosas; tais eram as vestes de serviço no tabernáculo, e as vestimentas e mantos do sumo sacerdote, que prefiguravam a justiça de Cristo (Êxodo 28:11-14; Êxodo 39:1-6). William Troughton.

Por essa época, o Padre La Combe foi chamado para pregar numa ocasião pública. A "doutrina nova", como se dizia, já não era de todo segredo. A curiosidade pública se despertara. Escolheu por texto a passagem de Salmos 45:13, A filha do rei é toda gloriosa por dentro: seu vestido é de ouro trabalhado. Por "o rei" entendia Cristo; por "a filha do rei", a igreja. Sua doutrina era: seja qual for a verdade quanto à depravação original do homem, aqueles que verdadeiramente se entregam a Cristo, e estão em plena harmonia com ele, dela são libertos: isto é, são todos gloriosos por dentro. Como Cristo, amam a Deus com amor livre de egoísmo, com amor puro. Como Cristo, vieram fazer a vontade do Pai. Cristo é formado neles.

Não somente têm fé em Cristo, e fé em Deus por meio de Cristo, mas, como resultado dessa fé, têm a disposição de Cristo. Já estão em condição de dizer de si mesmos, individualmente, na linguagem do apóstolo Paulo: "Vivo, contudo já não eu, mas Cristo vive em mim." Ele não sustentava que todos os cristãos são necessariamente sujeitos a este estado avançado de experiência cristã, mas se esforçava por mostrar que este é um estado possível; que, por mais intensa que seja a depravação humana, a graça de Deus tem poder para vencê-la; que o exemplo de Cristo, as promessas plenas e ricas, e até mesmo os mandamentos, dão incentivo ao esforço, e confiança na vitória final. Da "Life, Religious Opinions and Experience of Madame de la Mothe Guyon" ("Vida, opiniões religiosas e experiência de Madame de la Mothe Guyon").

Versículo 14Salmo 45:14

As virgens, suas companheiras que a seguem, serão levadas a ti. O cristão mais excelente e elevado não pode dizer: não preciso de ti; a rainha não ficará sem nenhuma de suas verdadeiras companheiras. Assim como no corpo natural, também na igreja de Cristo, ou corpo místico; todos os membros, bem ajuntados e compactados por aquilo que cada junta supre, segundo a operação eficaz na medida de cada parte, promovem o crescimento do corpo para a sua edificação em amor (Efésios 4:16; Colossenses 2:19). William Troughton.

As virgens suas companheiras que a seguem. São membros da igreja, mas a figura de um cortejo nupcial é empregada para sustentar a alegoria. Que brilhante séquito terá a Noiva Real, ao sair ao encontro do Noivo! Ali estarão filhas de reis, pois toda cabeça coroada na terra há de, um dia, curvar-se aos pés da cruz. Ali estará a filha de Tiro — Tiro, o antigo empório das nações — para mostrar que a mercadoria do mundo há de se tornar santidade do Senhor. Os reis de Sabá e de Sebá oferecerão presentes. Judeus e gentios estarão ali — representantes de todos os povos, línguas e nações.

São virgens. Guardam-se sem mácula do mundo. Estão desmamadas de seus ídolos; temem suas contaminações. Seu primeiro cuidado é preservar a alvura de suas almas, lavando-se cada dia no sangue do Cordeiro... Seguem a Noiva real. Ficam a seu lado, na tempestade e no sol. Seguem-na na regeneração. Seguem-na na busca de seu Amado (Cantares 3:2-3). Seguem-na às verdes pastagens e às águas tranquilas. Seguem-na para fora do arraial, levando o seu opróbrio. Como Rute, deixam pai e mãe para segui-la (Rute 1:16). Como Calebe, seguem o Senhor plenamente. Quando chega uma crise, e a pergunta "Quem está do lado do Senhor?" envolve questões graves, e os professos ocos fogem como andorinhas diante da tempestade, elas a seguem. Quando chega a perseguição, e as testemunhas fiéis de Cristo precisam profetizar vestidas de saco, e talvez atravessar um batismo de sangue até a coroa, elas a seguem: como Peden, que — os cães de caça da perseguição em plena marcha atrás dele, e o descampado solitário por lar — pensou em Richard Cameron, já ido à glória, e suspirou: "Ah, estar com Richie!" Duncan Macgregor, M.A., em "The Shepherd of Israel; or, Illustrations of the Inner Life" ("O Pastor de Israel, ou Ilustrações da vida interior"), 1869.

Versículo 15Salmo 45:15

Com alegria e regozijo serão levadas. Nunca casamento algum se consumou com a solenidade triunfal com que se consumará o casamento de Cristo e dos crentes no céu. Entre os judeus, a casa do casamento se chamava bethillulah — a casa do louvor; havia alegria por todos os lados, mas não como a alegria que haverá no céu quando os crentes, a esposa de Cristo, ali forem levados. Deus Pai se alegrará ao ver a bendita realização e consumação daquele glorioso desígnio e projeto de seu amor. Jesus Cristo, o Noivo, se alegrará ao ver o trabalho de sua alma, o bendito fruto e resultado de todas as suas amargas dores e agonias (Isaías 53:11). O Espírito Santo se alegrará ao ver o cumprimento e a perfeição daquele desígnio santificador que lhe foi confiado (2 Coríntios 5:5); ao ver aquelas almas, que outrora encontrou como pedras brutas, agora brilharem como pedras polidas do templo espiritual.

Os anjos se alegrarão; grande foi a alegria quando se lançou o fundamento deste desígnio, na encarnação de Cristo (Lucas 2:13); grande, portanto, há de ser a alegria deles quando a pedra do topo for posta com aclamações, clamando: Graça, graça. Os próprios santos se alegrarão indizivelmente, quando entrarem no palácio do rei, e estiverem para sempre com o Senhor (1 Tessalonicenses 4:17). De fato, haverá alegria por todos os lados, salvo entre os demônios e os condenados, que hão de ranger os dentes de inveja diante do avanço e da glória eternos dos crentes. John Flavel.

Serão levadas. Leitor! não deixes de notar o modo da expressão: a igreja é levada, ela não vem por si mesma. Não; ela precisa ser convencida, convertida, feita disposta. Ninguém pode vir a Cristo, a menos que o Pai, que enviou a Cristo, o atraia (João 6:44). Robert Hawker, D.D.

Entrarão no palácio do rei. Há dois ricos palácios mencionados neste salmo: um é o palácio de marfim (Salmos 45:8), pelo qual se significam as assembleias dos santos, e as ordenanças do culto divino, nas quais o Senhor se manifesta graciosamente. Aqui a presença do Senhor é doce e amável (Cantares 1:8; Salmos 84:2). O outro "palácio" é mencionado neste décimo quinto versículo, e é um palácio de glória, palácio mais brilhante e esplêndido do que as mais finas mansões douradas (João 14:2). William Troughton.

Versículo 16Salmo 45:16

Em lugar de teus pais estarão teus filhos. Ó igreja de Deus, não penses que estás abandonada, então, porque não vês Pedro, nem vês Paulo — não vês aqueles por quem foste gerada. Da tua própria descendência se ergueu um corpo de "pais" para ti. Agostinho.

Teus filhos, a quem farás príncipes em toda a terra. A nova relação é gloriosa para o Rei. Muitos foram os seus gloriosos e régios antepassados, até Jessé, mas agora lhe nascem, ao Rei Eterno, filhos como o orvalho do ventre da manhã (Salmos 110:3), que hão de, como príncipes, ocupar os tronos do mundo. Assim nosso Senhor prometeu a seus discípulos: "Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vós vos assentareis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel" (Mateus 19:28). E Paulo diz: "Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo?" (1 Coríntios 6:2). Augustus F. Tholuck.

Príncipes em toda a terra. Outros são apenas príncipes em seu próprio domínio, mas ele vos fará príncipes em todas as terras... Tal reino tereis, se vierdes a Cristo; tereis a liberdade dos reis, a abundância e fartura dos reis, o poder dos reis, a vitória dos reis, e a glória dos reis. John Preston.

Versículo 17Salmo 45:17

Farei que os povos te louvem. O desposar de Cristo com uma igreja para si, e o ajuntar cada vez mais, de época em época, pela sua palavra e Espírito, a ela; sua conversão de almas, e a introdução delas na comunhão de sua família, e o conceder-lhes mentes e afetos principescos, onde quer que vivam, é vasta e crescente matéria de glória eterna para a sua majestade; pois, a respeito deste ponto, e do que já se disse neste salmo, ele acrescenta, como conclusão de tudo: Por isso os povos te louvarão. David Dickson.

No texto hebraico, aqui citado, há uma partícula acrescentada à palavra "sempre", que, nesse caso, indica uma verdadeira eternidade, sem período nem fim algum, e por isso traduzida "para todo o sempre". William Gouge, D.D., sobre Hebreus 1:8.

(última cláusula):

"Quando a manhã dourar os céus,

Meu coração desperto clama:

Que Jesus Cristo seja louvado."

"Quando o sono me nega o bálsamo,

Meu espírito silente suspira:

Que Jesus Cristo seja louvado."

"Na eterna bem-aventurança do céu,

A mais bela melodia é esta:

Que Jesus Cristo seja louvado."

"A Deus, o Verbo nas alturas,

As hostes de anjos clamam:

Que Jesus Cristo seja louvado."

"Erguei também vós, mortais,

A voz em hinos de louvor:

Que Jesus Cristo seja louvado."

"Que o vasto círculo da terra,

Em notas jubilosas ressoe:

Que Jesus Cristo seja louvado."

"Que o ar, o mar e o céu,

Das profundezas ao alto respondam:

Que Jesus Cristo seja louvado."

"Seja isto, enquanto viver,

Meu cântico divino:

Que Jesus Cristo seja louvado."

"Seja este o cântico eterno,

Por todas as eras adiante:

Que Jesus Cristo seja louvado."

— Traduzido por Edward Caswall, em "Poems" ("Poemas"), 1861.

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