Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 53

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 53, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 53 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Salmo inteiro. Provavelmente os dois salmos se referem a períodos diferentes; o décimo quarto, a uma porção mais antiga do mundo, ou da história judaica; o quinquagésimo terceiro, a uma época posterior, talvez ainda futura. Diz-se com frequência que Jeová, por meio de Cristo, se volta para o mundo para ver qual é a sua condição, sempre com o mesmo resultado. "Toda carne havia corrompido o seu caminho" nos dias de Noé, e, "quando o Filho do Homem vier" novamente, sugere-se que dificilmente "achará fé na terra". Os dois salmos também se aplicam a pessoas diferentes.

O primeiro se refere aos inimigos de Deus, que tremem quando a sua presença se torna conhecida; estão em grande temor, porque a vingança está prestes a lhes ser infligida por seus pecados. Aqui o Ser Supremo é chamado de Jeová. No Salmo 53, os interesses do povo de Deus são mantidos principalmente em vista. Os ímpios são vistos tramando contra os justos, e é nessa relação que o seu caso é considerado. O temor que era justo e razoável no Salmo 14, por dizer respeito aos injustos sob o senso de um juízo iminente, mostra-se infundado no Salmo 53, porque Deus estava no meio do seu povo, espalhando os ossos de seus inimigos, e mostrando-se, não como Jeová, mas como o Elohim de seus filhos redimidos.

O Salmo 14 contempla o juízo; o 53, a libertação; e assim, embora pareçam semelhantes, uma lição diferente é transmitida em cada um. O salmo, então, ao descrever a corrupção universal e contínua da natureza humana, ocupa muito propriamente um lugar introdutório numa série destinada a representar os inimigos do Messias, que se opõem à sua igreja durante a sua ausência, e que hão de tentar resistir ao seu poder quando ele voltar. Antes de entrar no exame do caráter desses opositores, este salmo ensina que, até serem transformados pela graça, todos se desviaram; não há justo, nem sequer um, e que para todos há apenas um remédio: o Libertador que vem de Sião, que há de afastar a impiedade de Jacó. R. H. Ryland, M.A., em The Psalms restored to Messiah, 1853.

Salmo inteiro. O estado da terra deveria ser profundamente sentido por nós. O mundo que jaz na maldade deveria ocupar boa parte dos nossos pensamentos. A enorme culpa, a inconcebível poluição, o ateísmo inefavelmente provocador desta província caída do domínio de Deus poderiam ser tema para a nossa meditação e lamento incessantes. Para gravar isso mais em nós, portanto, o salmo repete o que já foi cantado no Salmo 14. É o mesmo salmo, com apenas algumas palavras alteradas; é "linha sobre linha, preceito sobre preceito"; as notas mais melancólicas e sombrias da harpa soam de novo em nossos ouvidos. Não que o Senhor queira nos deter sempre, ou desproporcionalmente, em cenas de tristeza; pois em outro lugar ele repete, do mesmo modo, a melodia mais triunfante, Salmos 40:6-12 e 108:6-13; mas é bom voltar de vez em quando ao campo aberto em que todos fomos achados, lançados fora em degradação repugnante. Andrew A. Bonar, em Christ and his Church in the Book of Psalms, 1859.

Salmo inteiro. Uma segunda edição do décimo quarto salmo, com variações mais ou menos importantes em cada versículo. É altamente improvável que qualquer uma dessas composições seja uma cópia incorreta da outra, porque duas cópias assim do mesmo salmo não teriam sido mantidas na coletânea, e porque as variações são uniformes, consistentes e significativas demais para serem obra do acaso ou de mera corrupção tradicional.

É improvável que as mudanças tenham sido feitas deliberadamente por um escritor posterior, porque dificilmente se tomaria tal liberdade com um salmo de Davi, e porque, nesse caso, a forma mais recente teria sido excluída do Saltério, ou substituído a primeira forma, ou ligada imediatamente a ela. A única hipótese satisfatória é que o próprio autor original o reescreveu depois, com as modificações necessárias para trazer certos pontos à tona com clareza, mas sem qualquer intenção de suprimir o uso da composição original, que por isso ainda conserva o seu lugar na coletânea. Esta suposição é confirmada pelos títulos, que atribuem ambos os salmos a Davi... Como fato geral, pode-se afirmar que as variações no salmo diante de nós são tais que tornam a expressão mais forte, mais ousada, e em um ou dois casos mais obscura e difícil. J. A. Alexander, 1850.

Salmo inteiro. Este salmo é uma variação do Salmo 14. Em cada um destes dois salmos, o nome de Deus ocorre sete vezes. No Salmo 14, é três vezes Elohim e quatro vezes Jeová; no presente salmo, é sete vezes Elohim. Christopher Wordsworth, 1868.

Salmo inteiro. Deus, neste salmo, "fala duas vezes", pois este é quase palavra por palavra o mesmo que o décimo quarto salmo. O seu propósito é nos convencer dos nossos pecados, fazer-nos corar, e fazer-nos tremer por causa deles: há necessidade de "linha sobre linha" para esse fim. Deus, por meio do salmista, mostra aqui —

  1. O fato do pecado. Deus é testemunha dele. Olha desde os céus e vê toda a pecaminosidade dos corações e das vidas dos homens. Tudo isso está aberto e nu diante dele.

  2. A falta do pecado. É iniquidade (Salmos 53:1,4); é coisa injusta; é aquilo em que não há bem (Salmos 53:1,3); é retroceder de Deus (Salmos 53:3).

  3. A fonte do pecado. Como é que os homens são tão maus? Certamente porque não há temor de Deus diante dos seus olhos; dizem em seus corações que não há Deus algum para nos pedir contas, ninguém diante de quem precisemos temer. As más práticas dos homens fluem dos seus maus princípios.

  4. A insensatez do pecado. É néscio (no juízo de Deus, cujo julgamento certamente é correto) quem alberga pensamentos tão corruptos. Os "que praticam a iniquidade", seja lá o que pretendam, "não têm conhecimento"; pode-se dizer com verdade que nada sabem os que não conhecem a Deus. Salmos 53:4.

  5. A imundície do pecado. Os pecadores são "corruptos" (Salmos 53:1); a sua natureza está viciada e estragada; a sua iniquidade é "abominável"; é odiosa ao Deus santo, e os torna odiosos também; ao passo que, de outro modo, ele "não aborrece nada do que fez". Por mais asseio que finjam os pecadores orgulhosos, é certo que a maldade é a maior imundície do mundo.

  6. O fruto do pecado. Vejam a que grau de barbárie isso finalmente leva os homens! Vejam a sua crueldade para com os irmãos! "Devoram-nos como quem come pão." Como se não apenas tivessem se tornado animais, mas animais de rapina. Vejam ao mesmo tempo o seu desprezo por Deus — não o invocaram, mas desdenham de lhe dever qualquer coisa.

  7. O temor e a vergonha que acompanham o pecado (Salmos 53:5). "Ali estiveram em grande temor" os que haviam feito de Deus seu inimigo; a própria consciência culpada os assustava e os enchia de horror. Isto permite que a virgem, a filha de Sião, os cubra de vergonha e os exponha, "porque Deus os desprezou".

  8. A fé dos santos, e a sua esperança e poder diante deste grande mal (Salmos 53:6). Virá um Salvador, uma grande salvação, uma salvação do pecado. Ah, que ela se apressasse! pois trará tempos gloriosos e alegres. Havia, nos tempos do Antigo Testamento, os que aguardavam e esperavam, que oravam e velavam por esta redenção. Tais salvações foram muitas vezes operadas, todas elas figuras dos triunfos eternos da igreja gloriosa. Resumido de Matthew Henry, 1662-1714.

Versículo 1Salmo 53:1

O néscio diz em seu coração, etc. É em seu coração que ele diz isto; este é o desejo secreto de todo peito não convertido. Se o peito de Deus estivesse ao alcance dos homens, seria trespassado um milhão de vezes num só momento. Quando Deus se manifestou em carne, era inteiramente amável; não cometeu pecado algum; andou continuamente fazendo o bem: e ainda assim o tomaram e o penduraram numa árvore; zombaram dele e cuspiram nele. E é assim que os homens fariam com Deus outra vez. Aprendam — Primeiro. A temível depravação do vosso coração. Ouso dizer que não há um só homem não convertido aqui presente que tenha a mais remota ideia da maldade monstruosa que agora habita em seu peito. Esperem até estarem no inferno, e ela irromperá sem freio. Mas deixem-me dizer o que é — vós tendes um coração que mataria a Deus se pudesse. Se o peito de Deus estivesse ao vosso alcance, e um golpe bastasse para livrar o universo de Deus, tendes um coração capaz do feito. Segundo. O espantoso amor de Cristo — "Quando ainda éramos inimigos, Cristo morreu por nós." Robert Murray M'Cheyne, 1813-1843.

Não há Deus. Ayin é propriamente um substantivo, e significa não-entidade, ou não-existência: "nada de Deus", ou "tal coisa como Deus não existe". Não se pode explicar como um desejo — "Não há Deus!", isto é, ah, que não houvesse Deus! — porque ayin, no uso, sempre inclui o verbo substantivo, e nega a existência, ou ao menos a presença, da pessoa ou coisa a que se antepõe. Isto também fica claro pelo uso da mesma palavra na última cláusula, onde o seu sentido é inequívoco. J. A. Alexander, sobre o Salmo 14.

Não há Deus. Negando assim a ação da Providência, pois a palavra Elohim, aqui traduzida "Deus", significa juiz (compare Êxodo 22:28), e se refere não à essência, mas à providência da Divindade. Daniel Cresswell, 1776-1844.

Deve-se notar que a Escritura diz: o néscio disse em seu coração, e não "pensou em seu coração"; ou seja, ele não o pensa tão plenamente em juízo, quanto tem boa vontade de crer nisso; pois, vendo que não lhe convém que haja um Deus, ele busca por todos os meios persuadir-se e resolver-se dessa forma, e se empenha em afirmar, provar e confirmar a si mesmo essa ideia como se fosse um tema ou posição — todo esse esforço, apesar daquela centelha da nossa luz de criação, pela qual os homens reconhecem uma Divindade, que ainda arde dentro deles; e em vão ele luta para de todo alheá-la ou apagá-la. De modo que é da corrupção do seu coração e da sua vontade, e não da apreensão natural do seu cérebro e do seu pensamento, que ele formula a sua opinião — como diz o poeta cômico: "Então veio a minha mente a concordar com a minha opinião", como se ele e a sua mente fossem duas coisas diversas; por isso, o ateu antes disse, e o reteve no coração, do que pensou ou creu no coração que não há Deus. Francis Bacon (1560-1626), em Thoughts on Holy Scripture.

Versículo 2Salmo 53:2

Que buscasse a Deus. Ainda que todas as coisas estejam cheias de Deus, ele precisa ser buscado pelos homens piedosos, por causa das trevas que envolvem as nossas mentes por causa do pecado original. Pois tanto a carne, quanto os sentidos, quanto os afetos terrenos nos impedem de conhecê-lo, sim, ainda que ele esteja presente. Peter Martyr, 1500-1562.

Versículos 2–3Salmo 53:2-3

O pecado deles é descrito em gradação. Não entendem, porque um verdadeiro conhecimento das coisas divinas forma a base da conduta correta para com Deus; não buscam a Deus, porque só se importa com ele aquele cujo olhar claro e seguro o apreende como sua posse suprema; se desviaram, porque quem não se importa com ele certamente se estranha dele, e se desvia dos seus caminhos; e se tornaram todos imundos (isto é, sem valor), porque a verdadeira força e aptidão do homem para a virtude precisa brotar da fonte da comunhão com Deus. Augustus F. Tholuck.

Versículo 3Salmo 53:3

Todos se tornaram imundos. Neelachu. Tornaram-se azedos e rançosos; uma metáfora tirada do leite que fermentou e se tornou azedo, rançoso e imprestável. Adam Clarke, 1760-1832.

(segunda cláusula). A palavra neelachu, traduzida "tornaram-se imundos", poderia ser lida como "tornaram-se podres" ou "pútridos". John Morison, 1829.

(última cláusula). Os homens maus não são culpados apenas de pecados de comissão, tendo cometido iniquidade abominável, mas são culpados de muitos pecados de omissão. De fato, jamais praticaram um único ato santo. Podem ser morais, decentes, amáveis, podem pertencer à igreja; mas não há quem faça o bem, não, nem sequer um. William S. Plumer.

Versículo 4Salmo 53:4

Não têm conhecimento os que praticam a iniquidade? A consciência é um meio de refrear e conter, controlar e repreender a natureza corrupta, e as formas inchadas dela. Não está ali como habitante nativo, mas como guarnição plantada numa cidade rebelde pelo grande Governador do mundo, para manter a rebelião dos habitantes dentro de certos limites, os quais, de outro modo, irromperiam em confusão imediata. Davi, falando da corrupção do homem por natureza, depois desta pergunta — se não haveria algum conhecimento para lhes revelar as suas más ações? — sim, diz ele, não têm conhecimento os que devoram o meu povo como pão? Sim; e por isso (Salmos 53:5) estão frequentemente em temor, tendo Deus posto ali este temor para os vencer, e por meio dele reprimi-los de muitos ultrajes contra o povo de Deus, a quem, em seus desejos, e às vezes na prática, devoram como pão. Portanto, este conhecimento é posto como um freio à natureza corrupta, assim como um gancho foi posto nas narinas de Senaqueribe (Isaías 37:29), para governar e domar os homens, e vencê-los com temor. Se não tivessem conhecimento algum, devorariam uns aos outros, e a igreja, como pão; mas ali está o seu temor, diz ele, isto é, dali resulta que são mantidos em respeito. Thomas Goodwin, 1600-1679.

Que devoram o meu povo como quem come pão. C'est, n'en font non plus de conscience, que de manger un morceau de pain. (Isto é, não têm mais escrúpulo em fazer isso do que em comer um pedaço de pão.) Margem francesa.

Meu povo. Davi pode chamar os sinceros de seu povo, por causa do apreço que tinha por eles, e porque eram seus sustentadores e amigos. Aderiram a ele em todas as suas aflições. ("O teu povo será o meu povo, e o teu Deus, o meu Deus", Rute 1:16.) Benjamin Boothroyd, 1836.

Versículo 5Salmo 53:5

Ali estiveram em grande temor, onde não havia temor. Há um temor tolo e supersticioso, quando os homens se assustam com a própria sombra, como Pisandro temia encontrar sua própria alma; e Antenor jamais saía de casa senão numa carruagem fechada por todos os lados, ou com um escudo erguido sobre a cabeça, temendo, suponho, que o céu caísse sobre ele — conforme aquilo do salmo: temem onde não há temor. John King, 1559-1621.

Ali estiveram em grande temor, onde não havia temor. Veja que inferno terrível é uma consciência ferida! Pois por que teme Caim ser morto, se não há ninguém vivo para fazê-lo, além de seu pai e sua mãe, e talvez algumas filhas, que a Escritura não nomeia? É o justo juízo de Deus que aqueles que não temem ao Senhor, o único a quem se deve temer, venham a temer aqueles que, com justiça, não são motivo algum de temor. Aquele que há pouco não temeu matar o próprio irmão, agora se tornou um terror para si mesmo. Por isto também podemos considerar o que é o arrependimento dos ímpios: talvez vejam a falta juntamente com o castigo, mas admitem a falta e lamentam o castigo. Nicholas Gibbens, 1602.

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