Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 59

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 59, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 59 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Este Salmo tem, em seu conteúdo severo, algo sem dúvida estranho aos nossos ouvidos. Mas nunca deixemos de distinguir os tempos e as diversas economias entre si, e de nos colocarmos, tanto quanto possível, em simpatia com a experiência de um coração que ardia por nada mais do que glorificar a Deus neste mundo. Tudo o que tendia a obscurecer a relação teocrática de Deus com o seu povo despertava na alma de Davi a mais veemente paixão.

A opressão desdenhosa com que Saul e seus satélites venais o visitavam, a ele, homem de Deus, não podia deixar de ter, aos olhos de todos, a aparência de que Jeová já não era Senhor em sua própria terra, ele que inexoravelmente se atinha às suas leis e direitos. Traição, falsidade e todo tipo de mal então imperavam sem freio. Que espanto há, pois, que, assim como outrora Moisés no deserto se irritou contra aquele povo obstinado, também Davi, a quem a temível santidade de Deus já fazia tremer, sentisse o espírito revoltado contra os ímpios que o cercavam, e dissesse, com Jó, "as minhas entranhas ferveram dentro de mim"?

— Frederick William Krummacher, D.D., David, the King of Israel, 1867.

Versículo 1Salmo 59:1

Deus meu. Há dois apelos que o salmista utiliza: um, que Deus era seu Deus, Salmos 59:1; o outro, o poder e a força de seus inimigos. É coisa bendita ter a aliança para onde recorrer em todos os apertos e tribulações; ali há sempre uma âncora de esperança. "Deus meu" é apelo que, infinitamente, sobrepuja todas as outras coisas. Ele se comprometeu a fazer bem ao seu povo; e é tempo de ele agir quando o inimigo se exalta. Os inimigos da igreja nunca estão tão perto da destruição quanto quando pensam que não têm mais nada a fazer senão tomar e repartir o despojo. Podemos alegar a promessa de Deus e também o poder dos inimigos; ambos são motivo de esperança para o crente em Jesus.

— John Hill (1711–1746), Sermons on Several Occasions.

Que se levantam contra mim. Ele insiste na força e na violência de seus inimigos, com o propósito de despertar em sua mente maior fervor no dever da oração. Ele os descreve como levantando-se contra ele, expressão em que alude não simplesmente à audácia ou fereza de seus ataques, mas à eminente superioridade de poder que possuíam; e, ainda assim, pede que seja erguido no alto, como que acima do alcance dessa inundação transbordante.

— John Calvin.

Versículo 3Salmo 59:3

(primeira cláusula). Sobre a expressão eles armam ciladas contra a minha alma, compare-se 1 Samuel 19:11, "E Mical, mulher de Davi, lhe anunciou, dizendo: Se não salvares a tua vida esta noite, amanhã serás morto"; e Salmos 7:2,5.

— E. W. Hengstenberg.

Os poderosos se ajuntam contra mim é traduzido por Chandler como "os poderosos se desviam para armar ciladas contra mim".

Os poderosos se ajuntam contra mim. Como se dissesse: "Mas eu sou fraco; sê tu, porém, a minha força, e justifica a minha inocência."

— Arnd.

Versículos 3–4Salmo 59:3-4

Ele alega sua própria inocência, não perante Deus, mas perante os seus perseguidores. Note-se:

  1. A inocência dos piedosos não os livrará da malignidade dos ímpios. Aqueles que são inofensivos como pombas são, ainda assim, por causa de Cristo, odiados por todos os homens, como se fossem nocivos como serpentes, e tratados como tal.

  2. Embora nossa inocência não nos livre das tribulações, ela nos sustentará e confortará grandemente sob elas. O testemunho de nossa consciência a nosso favor — de que nos portamos bem com os que se portaram mal conosco — será grande motivo de regozijo no dia do mal. Se temos consciência de nossa própria inocência, podemos, com humilde confiança, apelar a Deus, e rogar-lhe que defenda a nossa causa injustiçada, o que ele fará no devido tempo.

— Matthew Henry.

Versículo 4Salmo 59:4

Correm, como guerreiros armados que se lançam ao assalto (Salmos 18:29). O hebraico para "se preparam" significa também "se estabelecem"; firmam o pé, como forças que assaltam uma cidade. Jó 30:14.

— A. R. Fausset.

Correm e se preparam. O zelo e a diligência dos ímpios na causa da injustiça bem poderiam repreender a languidez e a lentidão dos santos na obra da fé e no labor do amor. Na igreja de Deus, nada é fonte de mais dano do que a falta de zelo e vivacidade verdadeiros. Só quando "muitos correm de um lado para outro" é que "o conhecimento se multiplicará."

— William S. Plumer.

Sem culpa. No que dizia respeito a Saul, ele era súdito fiel e genro obediente.

— Benjamin Boothroyd.

Desperta para me ajudar, literalmente, "desperta para vir ao meu encontro." Em tempo de tentação, o Senhor parece estar ausente de nós, e não observar a nossa angústia — como Jesus, na tempestade, é descrito como estando "dormindo na popa" (Marcos 4:38). Mas é só aparência; o Senhor não tosqueneja nem dorme (Salmos 121:4); está sempre pronto a vir em nosso socorro quando o invocamos.

— O. Prescott Hiller.

E olha. A expressão traz, ao mesmo tempo, sabor de fé e de fraqueza da carne. Ao falar de Deus como se os seus olhos tivessem estado, até então, fechados aos males que ele sofrera, e precisassem agora, pela primeira vez, se abrir para descobri-los, expressa-se conforme a fraqueza da nossa apreensão humana. Por outro lado, ao chamar Deus para olhar sua causa, mostra sua fé ao reconhecer, na prática, que nada estava oculto ao conhecimento providencial divino.

— John Calvin.

Versículo 5Salmo 59:5

Ó Senhor Deus dos Exércitos, Deus de Israel. Em tempo de apertos devemos fixar os olhos, sobretudo, nos títulos de Deus que mais sirvam para fortalecer a nossa fé, especialmente os que exprimem o seu poder e a sua boa vontade de empregar esse poder por nós.

— David Dickson.

Senhor Deus dos Exércitos. YAHVEH, Elohim, Tsebaoth; como em Salmos 80:4,19 e 84:8. Compare-se 2 Samuel 5:10, 1 Reis 19:10,14, Salmos 89:8.

— De The Psalms translated from the Hebrew, with Notes chiefly exegetical, por William Kay, D.D., 1871.

Senhor Deus dos Exércitos. Alguns pensaram que isso equivale a "Deus das batalhas"; a força verdadeira do epíteto, contudo, é: "Soberano dos astros, das hostes materiais do céu, e dos anjos, seus habitantes."

— A. A. Hodge, em Outlines of Theology, 1866.

  1. Deus dos Exércitos, e por isso capaz;

  2. Deus de Israel, e por isso disposto.

— Andrew A. Bonar.

Versículo 6Salmo 59:6

À tarde. A tarde expressa o tempo da calamidade e da carência, e alude às feras que costumam, ao entardecer, sair em busca de presa.

— Hermann Venema.

Fazem barulho como cão. O barulho que ouvi então jamais esquecerei. Dizer que, se todos os cães pastores a caminho de Smithfield num dia de feira tivessem sido postos a latir sem parar contra os vira-latas ganindo em todas as carroças de Londres, teriam dado alguma ideia do alvoroço canino que então, pela primeira vez, me espantou, seria o mais fraco dos exemplos.

A cidade inteira ressoava num só e vasto motim. Lá embaixo, em Tophane; do lado de Istambul; longe, em Escutari; os sessenta mil cães que se diz infestarem Constantinopla pareciam todos empenhados no mais ativo extermínio mútuo, sem um só momento de trégua. Os ganidos, os uivos, os latidos, os rosnados e os grunhidos se fundiam num som único, contínuo e uniforme, como o coaxar das rãs ouvido à distância. Por horas não houve trégua. Fui dormir e acordei de novo, e ainda, com as janelas abertas, ouvia o mesmo tumulto; e só ao raiar do dia algo como tranquilidade se restabeleceu.

— Albert Smith, em A Month at Constantinople, 1850.

Ao levar a cabo seus planos secretos, são retratados como cães famintos, rondando a cidade na escuridão em busca de presa; cada um vagueando com seu próprio objetivo, mas numa causa comum. Para captar toda a força dessa metáfora, é preciso lembrar que, nas cidades orientais de outrora, como ainda hoje, era costume lançar às ruas todo o refugo da comida — ossos, restos, etc. —, consumido sobretudo por cães, criados em grande número, ao que parece, justamente para esse fim. Com essa ideia em mente, a metáfora ganha grande propriedade em sua aplicação aos inimigos de Cristo.

Toda tarde eles voltam, Uivam como cães, E rodeiam a cidade.

— William Hill Tucker.

Versículos 6–7Salmo 59:6-7

Esta é uma metáfora contínua, que se deve observar bem, de um cão faminto e raivoso, incapaz de satisfazer a fome ou a sede; e descreve homens que, uivando outrora como cães, perseguiam, arrebatavam para si todas as coisas boas e as devoravam; mas agora, destituídos de tudo, incapazes de saciar sua cobiça, são vagabundos desprezados, miseráveis e desesperados. Assim se mostraram Saul e seus mensageiros enviados contra Davi em Naiote, em Ramá, dando o prelúdio da desgraça que os aguardava.

— Hermann Venema.

  1. São diligentes nisso: voltam à tarde.

  2. Estão enlouquecidos, e dispostos a agir: fazem barulho como cão, e ameaçam com ousadia.

  3. São incansáveis e obstinados em seu propósito: rodeiam a cidade.

  4. São impudentes, e se vangloriam do que hão de me fazer: eis que vomitam pela boca.

  5. E suas palavras são sanguinárias: espadas há em seus lábios.

— Adam Clarke.

Versículo 7Salmo 59:7

Eis que vomitam pela boca, etc. Latem como cães, diz Aben Ezra; ou borbulham, como uma fonte borbulha com água; assim lançam fora sua maldade em grande abundância (veja-se Jeremias 6:7); a frase indica a abundância de males e discursos ímpios que saem de suas bocas, revelando a maldade de seus corações; assim os inimigos de Davi bramiam e ameaçavam o que fariam a ele, se pudessem encontrá-lo; e os inimigos de Cristo despejaram contra ele suas acusações ímpias de blasfêmia e sedição em grande abundância, e sem prova.

— John Gill.

Versículo 8Salmo 59:8

Deus vê e sorri, olha e ri destes gigantes; assenta-se no céu, bem fora do alcance deles; nem tampouco se perturba muito com o assunto; nem deveríamos nós, mas confiar nele, e saber que há um conselho no céu que há de esmigalhar o molde de todos os conselhos contrários na terra, como a pedra cortada do monte fez às quatro grandes monarquias (Daniel 2:34). E, por isso, ainda que o ímpio, na soberba do seu coração, persiga o pobre; ainda que vomitem pela boca, e busquem duplamente assassinar o inocente, por detração e por prática mortífera, ainda assim Deus tanto ouve quanto zomba de sua loucura, e reduzirá a nada todos os seus propósitos sem esforço; antes, a própria crueldade dos seus inimigos moverá Deus a apressar-se. Os santos saem ganhando com a insolência e os ultrajes dos seus inimigos, cuja ruína com isso se acelera; e algo Deus fará mais depressa por seu povo, para que o inimigo não se exalte (Salmos 140:8).

— Abraham Wright.

(última cláusula). No fecho do verso, faz-se menção a todas as nações, para indicar que, ainda que igualassem o mundo inteiro em número, provariam ser mera zombaria com toda a sua influência e recursos. Ou as palavras podem ser lidas: "Assim como zombas de todas as nações." Uma coisa é óbvia: Davi ridiculariza a vã jactância de seus inimigos, que julgavam não haver empreendimento demasiado grande para ser realizado pelo seu número.

— John Calvin.

Versículos 8–9Salmo 59:8-9

Mas tu, Senhor, ris deles;

Tu zombas de todos os gentios.

A sua força! Para ti vigiarei,

Pois Deus é a minha fortaleza alta. William Kay.

Versículo 9Salmo 59:9

Por causa da sua força, esperarei em ti. Aproximam-se mais do sentido do salmista os que entendem as palavras como uma só frase contínua: "confiarei a força dele a ti", significando que, por mais intemperadamente que Saul se gabasse de sua força, ele descansaria satisfeito na certeza de que havia uma secreta providência divina refreando as ações do rei. Devemos aprender a ver todos os homens assim subordinados, e a conceber sua força e seus empreendimentos como dependentes da vontade soberana de Deus. Em minha opinião, a melhor versão é esta: "A força dele está contigo, eu esperarei." As palavras são paralelas às do fim do Salmo, onde não há dúvida de que se emprega o caso nominativo: "minha força está contigo, eu cantarei."

— John Calvin.

(primeira cláusula). A força dele é grande, vista humanamente; mas aos olhos da fé, o que é ela! Septuaginta: to kratos mou (—uzzi); e assim a maioria das versões antigas. (O contraste se dá em Salmos 59:16-17.)

— William Kay.

Esperarei em ti, literalmente, "vigiarei para ti", aludindo ao título "Quando Saul enviou homens, e eles vigiaram a casa para o matar." Davi põe a vigília diante de Deus contra a vigília deles para matá-lo.

— A. R. Fausset.

Por mais fraco que se sinta o crente, e por mais poderoso que perceba ser o seu inimigo, tudo é uma mesma coisa para ele: não tem mais nada a fazer senão pôr a fé em ação, e esperar até que Deus atue. "Por causa da sua força" (isto é, do inimigo), "esperarei em ti", diz ele ao Senhor, "pois Deus é a minha defesa."

— David Dickson.

Versículo 10Salmo 59:10

O Deus da minha misericórdia me sairá ao encontro. Ah, como os santos cantam o amor de Cristo! Ah, como cantam que esse amor não foi movido por mérito algum, e desdenha todo preço e recompensa, mas nos ama porque nos ama (Deuteronômio 7:8). Cantai o seu amor maravilhoso, e a antecedência desse amor de Cristo: o Deus da minha misericórdia me sairá ao encontro. Como?

  1. Ele antecede o nosso amor por ele. 1 João 4:19: nós o amamos porque ele nos amou primeiro.

  2. Ele antecede os nossos pecados, como no caso de Paulo. Atos 4:3 — e, indo ele de caminho, aconteceu que chegou perto de Damasco, e de repente brilhou ao redor dele uma luz do céu.

  3. Ele antecede as nossas calamidades. Salmos 79:8: que as tuas ternas misericórdias se apressem em nos socorrer.

  4. Ele antecede os nossos próprios esforços: o Deus da minha misericórdia me sairá ao encontro.

— John Spalding, em Synaxis Sacra, 1703.

(primeira cláusula). O salmista estava seguro da misericórdia com base nestes fundamentos: sabia que estava a salvo, porque Deus era o seu Deus, e o Deus da sua misericórdia: o Deus da minha misericórdia me sairá ao encontro. Alguns leem "me saiu ao encontro"; outros, "me sai ao encontro"; e outros ainda, como em meu texto, "me sairá ao encontro". Cada um desses sentidos é extremamente doce e pleno. Tome-se no primeiro sentido, "me saiu ao encontro", e isso implica que o salmista jamais esteve em dificuldade, tentação ou temor algum sem que Deus já estivesse à sua frente; tendo sempre pronta a misericórdia de que ele precisava, e a tendo dado em tempo devido, justamente quando menos a esperava, e talvez menos preparado estivesse para ela.

Tome-se no segundo sentido, "me sai ao encontro": isso revela o fundamento da confiança do salmista quando todas as aparências presentes se dissipavam; como se dissesse: "Deus é de um só ânimo; seus pensamentos são pensamentos de paz, e não de mal; ele pode variar a sua providência, mas o seu coração é sempre o mesmo; por que hei de temer, por que não hei de esperar e me alegrar? Pois o meu Deus é um Deus provado, ele já está agindo por mim mesmo agora. Ele previne os meus temores, e prevenirá também a minha queda."

Tome-se as palavras como estão em meu texto, e chega-se à mesma coisa: "Deus vê todos os desígnios dos meus inimigos, e está pronto para eles; a minha oração é ouvida, e tenho certeza de que a libertação virá, ainda que eu não saiba a hora." Meu propósito, sob a influência do Espírito, é olhar para o meu próprio coração e para o vosso, e mostrar-vos que maravilhas de providência e graça Deus, como o Deus da nossa misericórdia, fez passar diante de nós. Ao discorrer sobre estas palavras, investigarei:

  1. Em que sentido, ou em que aspectos, Deus é o Deus da nossa misericórdia.

  2. Como, sendo o Deus da nossa misericórdia, ele nos sai ao encontro.

  3. Aplicação.

Devo investigar em que aspectos se diz que Deus é o Deus da misericórdia do seu povo, e isso parece incluir estas três coisas.

  1. Que toda a misericórdia que há na natureza de Deus é para os seus santos. É grande palavra aquela (1 Pedro 5:10): o Deus de toda a graça. Deus tem em si toda sorte de graça para os seus santos. Ele tem graça que perdoa, que vivifica, que fortalece, que conforta e que preserva. Sua misericórdia é misericórdia rica, misericórdia abundante, misericórdia inesgotável, misericórdia certa. As riquezas de um homem são a sua glória; Deus se gloria na sua misericórdia; é o seu deleite, nela repousa; e assim podemos nós também, pois há nele uma plenitude infinita e inconcebível dela. "Contigo está a fonte da vida." Deus distribui e reparte esta misericórdia, para que a compreendamos melhor; por isso é chamado pelo apóstolo Pai das misericórdias, e Deus de toda a consolação (2 Coríntios 1:3). Deus não é chamado o autor das nossas misericórdias, mas o Pai delas, para mostrar quão livremente vêm dele; são suas entranhas; ele se compraz nelas, como o pai se compraz no próprio filho; demore-se no nome, é um nome doce, o Pai das misericórdias. Em meu texto, Davi abraça toda esta misericórdia, e a toma como sua própria: o Deus da minha misericórdia me sairá ao encontro. Este é um sentido.

  2. Supõe, além disso, que há uma porção de misericórdia reservada, no propósito de Deus, para cada santo; uma porção de misericórdia que ele pode chamar de sua. Alguns entendem que foi este o sentido de Cristo para Paulo (2 Coríntios 12:9): a minha graça te basta; isto é, a graça que reservei para ti, tu a acharás suficiente. Eu sabia, em meus conselhos eternos, o que havias de precisar; providenciei de antemão; cuidei para que tivesses o bastante.

  3. As palavras supõem, ainda, que Deus tomou sobre si, como encargo próprio, guardar esta porção de sua misericórdia para o seu povo. Seja o que for, ó alma, está confiado a ti, com ele. Todo santo pode recorrer a Deus como o Deus de toda misericórdia de que precisa.

— Condensado do Sermão de John Hill.

Deus me fará ver o meu desejo sobre os meus inimigos. As palavras "meu desejo" não estão no original, e seria melhor omiti-las. O sentido é: Deus me permitirá olhar com calma para os meus inimigos. Assim Cristo olhou para os seus assassinos. Assim foi capacitado Estêvão, quando "rangiam os dentes contra ele". "E todos os que estavam assentados no concílio, fitando os olhos nele, viram o seu rosto como o rosto de um anjo" (Atos 6:15).

— Christopher Wordsworth.

Versículo 11Salmo 59:11

Não os mates, para que sejam pedra de amolar para a fé de outros — como os espartanos (mencionados nos Apotegmas de Plutarco) recusaram permitir a destruição de uma cidade vizinha que muitas vezes convocara os seus exércitos, dizendo: "Não destruais a pedra de amolar dos nossos jovens."

— Andrew A. Bonar.

Não os mates:

Vivei odiados e por muito tempo, vós, sorridentes, untuosos, detestáveis parasitas.

— W. Shakespeare.

Os inimigos devem servir de monumentos à justiça divina, não menos na miséria perene de sua raça do que por sua própria destruição súbita. Paralelo a este verso, e a Salmos 59:6,14, é a maldição que Davi profere sobre Joabe, em 2 Samuel 3:29: "Nunca falte da casa de Joabe quem tenha fluxo, ou seja leproso, ou se apoie em bordão, ou caia à espada, ou tenha falta de pão"; e também a ameaça de um homem de Deus a Eli, em 1 Samuel 2:36 (correspondendo, aqui, a 1 Samuel 2:33), onde se diz: "E será que todo aquele que ficar de tua casa virá inclinar-se diante dele (o novo sumo sacerdote) por uma peça de prata e um bocado de pão, e dirá: Rogo-te que me admitas a um dos ofícios sacerdotais, para que eu coma um bocado de pão."

Os expositores cristãos sempre chamaram atenção para o fato de que a substância deste verso, como também a dos versos 6 e 14, se cumpriu nos judeus. "Foram espalhados por todas as terras, e devem ir e permanecer diante dos olhos de todos os cristãos, como testemunha viva de que crucificaram o verdadeiro Messias e Salvador do mundo. De modo que, se vires um judeu, pensa nesta palavra." (Arndt.)

— E. W. Hengstenberg.

Não os mates; a saber, subitamente. Espalha-os . Parece que ele se refere ao castigo de Caim, a quem Deus não quis que fosse morto, mas que fosse errante todos os dias de sua vida, como espetáculo e exemplo de seus juízos (Gênesis 4:12). Outros traduzem: sacode-os, a saber, o seu grau de honra e glória.

— John Diodati, 1576–1649.

Versículo 12Salmo 59:12

Pelo pecado da sua boca e pelas palavras dos seus lábios, etc. Ainda que os perseguidores não consigam realizar o seu propósito contra os justos, a sua soberba, as suas bravatas, as suas mentiras, as suas calúnias, as suas maldições contra os piedosos são motivo suficiente para que a condenação e a ira futura caiam sobre eles.

— David Dickson.

As palavras dos seus lábios. A expressão "palavra dos lábios" é usada frequentemente para designar loquacidade vazia e jactância; o oposto de uma palavra sólida e fundada em fato, como em 2 Reis 18:20: "Falas, mas isso é só palavra dos lábios." Provérbios 14:23: "Em todo trabalho há proveito, mas a palavra dos lábios só leva à pobreza."

— Hermann Venema.

Versículo 13Salmo 59:13

Consome-os, enfaticamente, consome-os na ira, para que não sejam mais; o que, à primeira vista, parece contrariar o seu primeiro desejo, "não os mates"; mas não é assim, pois ele não fala da vida deles, como se quisesse que fossem de tal modo consumidos que não permanecessem vivos; ele deseja apenas o consumo do seu poder, realeza, comando, etc. E assim estas palavras são explicação adicional de seu segundo desejo, "abate-os". Ele os quereria de tal modo abatidos e consumidos em sua força, dignidade, comando, riqueza — o que os fazia soberbos —, que nunca mais pudessem opor-se a Deus, ferir o seu povo, pisar a religião e a sua igreja; ele os quereria vivos.

— William Nicholson.

Consome-os. Ouço falar de feitos tristes na Polônia: aldeias incendiadas, homens pacíficos deportados às centenas para a Sibéria, mulheres açoitadas; e quando volto os olhos para aquela praça de mercado em Varsóvia, onde uma mulher, quase nua, é publicamente espancada, e quando vejo o cruel Mouravieff sorrir enquanto o sangue jorra dos ombros flagelados, não posso negar que me sinto muito tentado a dizer: "Feliz o homem cuja bala, em voo certeiro, esvaziasse aquela sela!" Sou eu, nisso, sanguinário? Sou vingativo? Condenais-me por este sentimento?

— R. A. Bertram.

Para que não sejam. Pela palavra hebraica traduzida "para que não sejam" pode-se entender tanto um estado vil e miserável em geral, quanto a destruição total. O primeiro sentido deve, de fato, ser admitido aqui, como fica claro pelo contexto, mas sem excluir o segundo; pois uma condição miserável, como numa doença, acaba por redundar em destruição. "Não ser" é, evidentemente, tomado com frequência no sentido de "não ser ninguém", ser miserável, aflito, desprezado. Compare-se Jeremias 31:15.

— Hermann Venema.

Selá. Ainda que Deus, em todas as suas palavras, seja Sim e Amém, ao pôr este selo de Selá sobre esta doutrina, ele testificou a sua vontade de que todas estas coisas fossem melhor compreendidas e mais profundamente gravadas; que, se os ímpios persistirem em perseguir os piedosos, Selá, com certeza Deus há de zombar deles; Selá, com certeza Deus há de estilhaçar os seus ossos, abalar as suas melhores ações, e descobrir a sua impureza; Selá, com certeza a mão de Deus há de pesar sobre eles, e eles não a hão de reconhecer como sua mão até serem consumidos. Selá, com certeza, na verdade, amém — esta é uma verdade fiel e infalível; tão certo como o Senhor vive, assim há de ser.

— Abraham Wright.

Versículo 14Salmo 59:14

Cão. Será a influência do cristianismo, estendendo sua lei de bondade aos animais inferiores, ou algo na natureza dos cães do norte e dos homens do norte, que faz os cães entre nós, anglo-saxões, e tudo o que se associa a eles, tão inteiramente diferentes do que são no Oriente? Imagine-se a efígie de um santo oriental repousando com os pés sobre um cão, como a de Guilherme, o Silencioso, o heroico Príncipe de Orange, sobre o fiel spaniel que lhe salvou a vida no ataque noturno das tropas espanholas, e como tantos cavaleiros esculpidos da era medieval! A simples presença de tal imagem seria, aos olhos orientais, a maior profanação que um inimigo poderia infligir a um edifício sagrado.

E, na Bíblia, quão extremamente desdenhosos, e quão inaplicáveis aos cães ingleses, são os termos empregados para descrever os hábitos caninos. "Rosnam como cão, e rodeiam a cidade, e resmungam se não estiverem satisfeitos"; "Fora estão os cães." Que semelhança possível há entre tal descrição e a grave dignidade de um terra-nova; a expressão sagaz e aguda de um terrier; os olhos suplicantes, quase humanos, dos nossos spaniels de casa? Mas aqui em Tiro, como na maioria das cidades orientais, as palavras familiares nos chegavam com todo o seu verdadeiro e contundente significado.

Os cães lupinos, famintos, sem dono, que "rodeiam as cidades" (de Alexandria, por exemplo), ajuntando-se em matilhas como chacais, rondando em busca de restos, e resmungando se não estiverem satisfeitos; ou os párias famintos, como os nossos cães em Tiro, rondando "fora" da cidade. A estes podemos aplicar as definições tão desfavoráveis da Escritura, que todo inglês e toda inglesa hão de repudiar com indignação em nome das criaturas leais, fiéis e pacientes que vigiam junto às nossas casas como sentinelas, guardam nossos rebanhos como pastores, e nos recebem com alegria extática quando voltamos para casa, e às vezes preferem morrer a abandonar o túmulo de um dono.

— De Wanderings over Bible Lands and Seas, 1862.

Os que se arrependem de seus pecados quando estão em aflição gemem como pombas; os que têm o coração endurecido quando estão em aflição fazem barulho como cães.

— Matthew Henry.

Versículo 16Salmo 59:16

Vagueiem de um lado para outro, etc. Uma condição mendicante e indigente, e por isso insatisfeita e fatigante, será a sorte deles; a maior praga terrena que pode cair sobre alguém — grandes apetites e nenhuma posse ou aquisição para satisfazê-los.

— Henry Hammond.

E resmunguem se não estiverem satisfeitos. O homem contente, ainda que não tenha o que desejaria, não resmunga, não briga com a providência, nem se aflige interiormente; mas aqueles cujo deus é o ventre, se este não é preenchido e seus apetites satisfeitos, se voltam tanto contra Deus quanto contra si mesmos. Não é a pobreza, mas o descontentamento que faz um homem infeliz.

— Matthew Henry.

A fome de um cão é, com justiça, a praga daqueles cujo pecado se assemelhou à disposição desse animal imundo. Leitor, cuida de evitar tais pecados, e cultiva um espírito de devoção viva; para que, em vez de receberes a tua porção onde há choro e ranger de dentes, possas cantar para sempre ao Deus da tua misericórdia.

— Benjamin Boothroyd.

Não devemos deixar de notar o contraste com a condição miserável dos ímpios, indicado pelo pronome hemah, "eles", em Salmos 59:15, e va'ani, "mas eu", que estão em exata antítese; também a "tarde", mencionada acima, e a "manhã", agora empregada para os tempos de tribulação e de felicidade, e o barulho canino dos ímpios, e o canto com som alegre de Davi — para não falar de outros pormenores — dão igualmente aos dois estados uma diferença adicional.

— Hermann Venema.

Cantabo e exaltabo, "cantarei" e "cantarei em alta voz". Aqui há apenas o cantar do poder de Deus; mas há o cantar em alta voz de sua misericórdia; como se sua misericórdia fosse mais exaltável do que o seu poder, e alcançasse os próprios céus; isto até às nuvens (Salmos 26:5).

— Do sermão de Humphrey Sydenham, intitulado The Well-toned Cymball, 1637.

Versículo 17Salmo 59:17

A ti, ó minha força, cantarei. Antes ele dissera que a força do seu inimigo estava com Deus, e agora afirma o mesmo de si próprio. A expressão, porém, que admite dois sentidos, ele a aplica a si mesmo, com elegância, num sentido diferente. Deus tem em suas mãos a força dos ímpios, para refreá-la e contê-la, e para mostrar que todo poder de que se vangloriam é vão e enganoso. Ao seu próprio povo, por outro lado, ele sustenta e assegura contra a possibilidade de queda, com socorros de força vindos dele mesmo.

— John Calvin.

A ti, ó minha força. Em oposição à força do inimigo (Salmos 59:9). "Teu poder", ou "força" — a palavra hebraica é a mesma (Salmos 59:16) — é a minha força. Há um jogo elegante de sons semelhantes no hebraico entre "esperarei em ti", eshmerah (Salmos 59:9), e "cantarei", azammerah.

— A. R. Fausset.

(primeira cláusula). Assim como, por causa da força de Saul, minha vigília se dirigia a ti, também agora, por causa da força que me concedeste, meu cantar de louvores se dirigirá somente a ti.

— Martin Geier.

Força — Misericórdia. Ele une muito bem estes dois atributos, "força" e "misericórdia"; pois, tirai dele a força, e ele não poderá; removei a misericórdia, e ele não quererá proteger; ambos devem andar juntos em quem quer que vá defender: o poder, para que possa; a misericórdia, para que queira; do contrário, é vão esperar dele socorro. Davi encontrou em Deus ambas as coisas, e por ambas o exalta.

— William Nicholson.

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