Notas explicativas e citações: Salmo 83
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 83, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 83 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
TÍTULO. "Um Cântico ou Salmo." Quando as duas palavras (Shir, Mizmor) aparecem juntas, o sentido parece ser: um poema lírico destinado a ser cantado. John Jebb.
Título. Este Salmo, segundo o título, foi composto por Asafe. De acordo com isso, lemos, em 2 Crônicas 20:14, que o Espírito do Senhor veio sobre Jaaziel, dos filhos de Asafe, no meio da assembleia. Este Jaaziel é provavelmente o autor do Salmo. Nosso Salmo é um retrato fiel do estado de ânimo que prevalecia entre o povo durante o perigo sob Jeosafá. Segundo a história de Crônicas, eles louvaram a Deus naquele momento, em meio ao perigo, em alta voz, 2 Crônicas 20:19; e aqui, no título — que é um apêndice ao do Salmo 48 — o Salmo é chamado de cântico de louvor; e assim é de fato, embora tenha a forma de uma oração: um cântico de triunfo entoado antes da vitória — sem dúvida, sem contestação, a angústia é simplesmente entregue a Deus.
A menção aos amalequitas entre os inimigos de Israel, no Salmo 83:7, torna impossível datá-lo em época posterior à de Jeosafá. Os últimos remanescentes dos amalequitas foram, segundo 1 Crônicas 4:43, exterminados pelos simeonitas, sob Ezequias. A partir daí, desaparecem por completo da história. A afirmação de Ewald, de que Amaleque figura aqui "apenas como um nome de infâmia aplicado a partidos bem conhecidos na época", deve ser considerada um recurso lamentável.
O Salmo deve ter sido composto antes da expansão do império assírio sobre a Ásia Ocidental, pois os assírios, citados por último, no oitavo verso, aparecem aqui no papel muito peculiar de aliados dos filhos de Ló. E. W. Hengstenberg.
Versículo 1Salmo 83:1
Não guardes silêncio, ó Deus. Na Escritura há três razões pelas quais o Senhor guarda silêncio quando o seu povo está em perigo, e permanece quieto justamente quando mais se precisa da sua ajuda e assistência.
A primeira é que o Senhor o faz para provar a fé deles, como vemos claramente em Mateus 8:24, onde se diz que o nosso Senhor Cristo dormia: levantou-se uma grande tempestade no mar, de modo que o barco ficou coberto pelas ondas; mas ele dormia. E os discípulos foram a ele e o acordaram, dizendo: Senhor, salva-nos, que perecemos. Lemos com mais detalhe em Marcos 4 e Lucas 8 que ele os deixou quando o barco estava coberto pelas ondas, e eles remavam por suas vidas, enquanto o seu Senhor dormia; e ele lhes disse: Por que sois tão medrosos? Como é que não tendes fé? E ele se levantou, repreendeu o vento, e disse ao mar: Paz, aquieta-te. E o vento cessou, e houve uma grande bonança.
Na verdade, o Senhor não permitirá que o seu povo seja submerso, disso é certo; mas ele permitirá que cheguem muito perto, que as ondas os cubram, e que o temor e o horror cubram as suas almas — tudo para provar a fé deles.
Encontro outra razão em Isaías 59: o Senhor guarda silêncio em meio às tribulações do seu povo para provar a retidão de coração dos homens. Pois, se Deus sempre se manifestasse a favor da sua causa, Deus e a sua causa teriam muitos favoritos e amigos; mas, às vezes, Deus abandona a sua causa, abandona o seu povo, e entrega o seu evangelho e as suas ordenanças ao mundo inteiro, para ver quem defenderá e permanecerá fiel a ela.
Há uma terceira razão: Deus, por assim dizer, guarda silêncio em meio às maiores tribulações para reunir os ímpios, como que num só feixe, num só maço, a fim de que sejam destruídos juntos. Há muito trabalho para "reunir os santos" neste mundo; e, de fato, há também algum trabalho para reunir os ímpios. Assim, Deus se retira do seu povo, mas mantém um anzol dentro do coração deles; ele os sustenta secretamente pelo seu Espírito, para que não o abandonem; contudo, o mundo não verá senão que Deus os abandonou de vez, com todas as suas ordenanças, o seu evangelho e tudo o mais; e ali os ímpios se ajuntam e insultam, para que Deus venha sobre eles de uma só vez, e os destrua, como encontramos dez nações neste Salmo.
Assim também em Gênesis, Deus incita as nações contra Abraão e a sua descendência, e há dez nações que Deus prometeu exterminar diante de Abraão de uma só vez: os perizeus, os jebuseus, os cananeus, etc. Assim Deus os amontoa, e os queima como restolho. Os que queimam restolho usam ancinhos, juntam tudo em montes, e depois ateiam fogo. Esta é a maneira como Deus guarda silêncio entre o seu povo e permanece quieto em meio às suas misérias: assim Deus amontoa os inimigos deles como restolho, para poder queimá-los juntos. Gualter (Walter) Cradock, em Divine Drops. 1650.
Não guardes silêncio, etc. As palavras hebraicas têm grande ênfase, e expressam as principais causas do silêncio: fechar a boca, a surdez dos ouvidos, e uma tranquilidade mantida a tal ponto que rejeita toda inquietação.
A primeira cláusula, "que a tua boca não se feche, e a tua língua não se apegue ao céu da boca", imóvel, denota propriamente, pela força inerente da palavra hebraica cuja raiz significa fixar e compactar firmemente, aquilo que se prende com cal ou se reveste de gesso...
A segunda cláusula, "não sejas surdo", pertence propriamente aos ouvidos, como em Miqueias 7:16: "os seus ouvidos ficarão surdos." A terceira, "não fiques quieto", sugere o curso dos pensamentos da mente quando ela é trazida a um estado de clara tranquilidade, deixando de lado todos os cuidados e agitações. A palavra hebraica significa propriamente assentar, decantar-se, como quando a borra perturbada de um líquido se deposita e busca o fundo; daí se aplica à mente quando livre de grande fermentação de preocupações e dos sedimentos de ansiedades e amarguras — uma mente serena, clara e refinada...
Vejamos agora o que o poeta tinha em mente ao derramar estas orações, ou o que desejava indicar. Ele sugere que o povo foi levado a estas súplicas fervorosas porque, se Deus não trouxesse socorro com rapidez, poderia parecer que Jeová, o Deus de Israel, é como os falsos deuses: uma espécie de divindade muda, surda, ou à vontade. Hermann Venema.
Está o Senhor em silêncio? Então não fiques tu em silêncio; mas clama a ele até que rompa o silêncio. Starke, em Lange's Bibelwerk.
A referência ao tumulto no versículo seguinte reforça o apelo fervoroso deste. Em meio a todo o tumulto dos inimigos que se ajuntam, ele clama com fervor a Deus para que rompa o seu silêncio, e lhes fale em ira. W. Wilson.
Versículo 2Salmo 83:2
Porque eis. A oração começa com a partícula "eis", que tem não só a força de despertar a Deus, mas também transmite a ideia de algo presente, com o propósito de apontar o momento oportuno para que Deus se cinja para a obra. Hermann Venema.
Os teus inimigos fazem tumulto. O mundo inteiro é como um exército, uma tropa de homens (por assim dizer) sob um general; e Deus é o Senhor dos Exércitos, isto é, o Senhor das suas hostes. Ora, quando há um tumulto num exército, reclama-se aos oficiais, sobretudo ao general; e ele precisa vir e sufocá-lo. Por isso, diz ele, tu, Senhor dos Exércitos, és o general do mundo; eis que há um tumulto no mundo, um motim. Walter Cradock.
Versículo 3Salmo 83:3
Os teus escondidos. Esta descrição do povo de Deus merece a nossa atenção. Pode ser entendida de duas maneiras.
Primeiro, quanto à sua segurança. Muitas vezes escondemos algo apenas para preservá-lo. É este o sentido da palavra na parábola sobre a descoberta do tesouro no campo: "que, achando-o um homem, escondeu-o." O seu propósito não é ocultar, mas resguardar; e a causa está posta pelo efeito. Assim é escondido o povo de Deus.
Ele escondeu Noé na arca, e as águas que afogaram o mundo não puderam encontrá-lo. Quando os seus juízos vinham sobre a terra, disse ele: "Vai, povo meu, entra nas tuas câmaras, e fecha as tuas portas sobre ti: esconde-te só um pouco, até que a ira passe." Daí a promessa: "Tu os esconderás no esconderijo da tua presença da soberba do homem; tu os ocultarás numa tenda da contenda das línguas." Daí a confiança expressa por Davi: "No tempo da angústia ele me esconderá no seu pavilhão; no oculto do seu tabernáculo me esconderá; sobre uma rocha me porá em pé." O Salvador pôde dizer: "À sombra da sua mão me escondeu." E: "Todos os santos estão na sua mão." São guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação. Pois ele mesmo é o seu "refúgio", o seu "esconderijo". Eles são os seus escondidos.
Segundo, quanto a um certo ocultamento. Isto não é absoluto, mas se verifica em vários aspectos e graus. É verdade quanto à natureza da vida espiritual. A nossa vida, diz o Apóstolo, está escondida com Cristo em Deus; e que ele se refira à sua invisibilidade, mais do que à sua segurança, fica claro pelas palavras seguintes: "Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória." O coração do crente só conhece a sua própria amargura; e o estranho não se mistura na sua alegria. O maná de que ele se alimenta é maná escondido. E ninguém conhece o nome novo escrito na pedra branca dada a ele, senão quem a recebe.
Às vezes são escondidos pela perseguição. Pois, embora isso não os impeça de ser cristãos, impede-os de aparecer como tais — especialmente ao afastá-los das suas assembleias sociais e públicas.
Às vezes são escondidos pela obscuridade da sua condição. Não são muitos os sábios, os poderosos e os nobres que são chamados; mas, quando são chamados, também são expostos. São como cidades postas sobre montes, que não se podem esconder. Um pouco de religião entre os grandes vai longe, e se comenta muito, por ser coisa rara. Mas Deus escolheu os pobres deste mundo, e estes são muitas vezes ricos em fé. Contudo, como se há de conhecer a sua riqueza moral? Quão poucas oportunidades têm eles de exibição ou exercício religioso! Pode haver o princípio da benevolência onde não há capacidade de dar. E o Senhor vê o coração, mas os homens só podem julgar pelas ações. Muitos que são grandes aos olhos do Senhor vivem em choupanas e casebres, e mal são conhecidos, a não ser por alguns vizinhos igualmente obscuros.
Às vezes são escondidos pela sua própria disposição. São reservados, e recuam diante da atenção. São tímidos e desconfiados de si mesmos. Isso os retém na conversa religiosa, especialmente quanto à sua própria experiência. Isso os impede de professar a fé e de se unirem a uma igreja cristã. José de Arimateia era discípulo de Jesus, mas em segredo, por medo dos judeus. E Nicodemos, pela mesma razão, veio a Jesus de noite. Tinham dificuldades em suas situações das quais outros estavam livres. Deveriam tê-las superado, e ao final as superaram, mas foi para eles, a princípio, um dia de coisas pequenas. Outros passam por circunstâncias e provações semelhantes, e devemos ser pacientes com todos os homens.
Às vezes são escondidos pelas suas fraquezas. Não defendemos o pecado, mas a graça pode ser encontrada ao lado de muitas imperfeições. Os que a possuem têm o que é essencial à religião, mas nem tudo o que é ornamental, agradável e de boa reputação. O mesmo se aplica aos erros. Aqui, de novo, estamos longe de subestimar a verdade divina. É bom que o coração se firme na graça. Mas é impossível dizer quanta ignorância, e quantos enganos, podem-se encontrar mesmo nos verdadeiros israelitas, em quem não há dolo. William Jay.
Quanto menos o mundo te conhece, melhor para ti; podes te contentar com isto apenas: Deus conhece os que são seus. Não perdido, ainda que escondido — este é o símbolo do cristão. Frisch, em Lange's Bibelwerk.
Versículo 4Salmo 83:4
Que o nome de Israel não seja mais lembrado. Este plano desesperado e terrível, este desígnio funesto deles, não teve efeito; pelo contrário, as várias nações adiante mencionadas, que estavam nesta conspiração, já não existem, e há centenas de anos não têm nome no mundo; enquanto os judeus ainda são um povo, e são preservados, para serem chamados e salvos, como todo o Israel há de ser nos últimos dias, Romanos 11:25. Assim também Diocleciano pensou em erradicar o nome cristão do mundo; mas em vão. John Gill.
Versículo 5Salmo 83:5
Porque tomaram juntamente conselho, unânimes. À margem, como no hebraico, "coração". Não há divisão nos seus conselhos quanto a este assunto. Têm um só desejo, um só propósito, quanto a esta questão. Pilatos e Herodes se tornaram amigos contra Cristo (Lucas 23:12); e o mundo, dividido e hostil em outras questões, tem-se mostrado habitualmente unido na sua oposição a Cristo e a uma religião pura e espiritual. Albert Barnes.
Tomaram juntamente conselho, unânimes, etc. Para levar adiante esta guerra ímpia, juntam as cabeças, e os chifres, e também os corações. Fas est et ab hoste doceri — é lícito aprender até com o inimigo. Agirão os inimigos da igreja com um só coração para destruí-la? Estarão os reis da terra de um só ânimo para dar o seu poder e a sua honra à besta? E não serão unânimes os amigos da igreja em servir aos seus interesses? Se Herodes e Pilatos se tornam amigos para juntos crucificarem a Cristo, certamente Paulo e Barnabé, Paulo e Pedro, logo se tornarão amigos, para juntos pregarem a Cristo. Matthew Henry.
Tomaram juntamente conselho, etc. Embora possa haver alguma rixa particular entre os ímpios, ainda assim todos se unirão e concordarão contra os santos: se dois galgos estão rosnando por um osso, mas se solta uma lebre entre eles, deixarão o osso e correrão atrás da lebre; assim, se os homens ímpios têm diferenças particulares entre si, ainda assim, se os piedosos estão por perto, deixarão de rosnar uns contra os outros e passarão a perseguir os piedosos. Thomas Watson.
Fizeram aliança contra ti. "Fizeram um pacto" — berith yachrithu — "cortaram o sacrifício da aliança." Mataram um animal, dividiram-no em duas partes, e passaram entre os pedaços da vítima; e assim se obrigaram a cumprir o seu propósito. Adam Clarke.
Versículo 6Salmo 83:6
As tendas de Edom, etc. O profeta, tendo apresentado a sua súplica e queixa de modo geral, passa aos detalhes, e diz a Deus quem são os que fizeram isto. Deus poderia dizer: Quem são estes que conspiram contra mim, contra o meu povo e os meus escondidos? Senhor, diz o profeta, eu te direi quem são eles.
Ele nomeia cerca de dez nações que se uniram contra um pobre Israel. É algo que deveis observar: quando o povo de Deus é alvo de conspiração, Deus não se contenta com queixas gerais, mas quer saber quem são eles. Como eu vos disse, ele é o Senhor dos Exércitos, o grande general. Quando há um motim, o general pergunta: que oficial, que cabo, que sargento, ou quem começou o motim? E é coisa terrível quando o pobre santo perseguido leva o teu nome, como perseguidor, diante do Deus do céu.
Quando um pobre santo vai para casa e diz: há uma confederação em Londres, uma conspiração contra os santos de Deus; e quando um pobre santo diz: tal magistrado, tal ministro, tal homem em tal rua, tal mulher que pôs o marido contra os santos, e contra as tuas ordenanças — isso é coisa terrível. Por isso me lembro de uma bendita mulher, se for verdade o que se conta dela no Livro dos Mártires, que, quando os ímpios a maltratavam, a insultavam e a oprimiam, ela dizia apenas isto: "Vou para casa e conto ao meu Pai" — parem, ou então levarei os vossos nomes diante de Deus, e lhe contarei: e isso bastava, pois ele logo tomava a causa em suas mãos. Um homem pode suportar melhor um quilo de sujeira nos pés do que um grão de sujeira no olho; os santos são "a menina dos olhos de Deus". Walter Cradock.
Hagarenos. Este povo habitava a leste de Gileade, e quase foi destruído nos dias de Saul, sendo totalmente expulso de sua terra, 1 Crônicas 5:10, mas depois recuperou alguma força e importância. Adam Clarke.
Versículos 6–8Salmo 83:6-8
Pode-se observar que estes estavam de todos os lados da terra de Israel: os edomitas, ismaelitas e amalequitas ficavam ao sul; os moabitas, amonitas e hagarenos, a leste; os assírios ao norte; e os filisteus, gebalitas e tírios, a oeste; de modo que Israel estava cercado por todos os lados de inimigos, assim como o povo do Senhor é afligido por todos os lados, 2 Coríntios 4:8; e assim o exército de Gogue e Magogue, que alguns entendem estar aqui prefigurado, cercará o acampamento dos santos, e a cidade amada, Apocalipse 20:9. John Gill.
Os inimigos de Israel, tal como enumerados pelo salmista, dividem-se em quatro grupos principais: primeiro, os que estão mais próximos dos israelitas pelos laços de sangue, os descendentes de Esaú e de Ismael; segundo, os dois ramos dos descendentes de Ló, junto com seus respectivos auxiliares árabes — a saber, os moabitas, que haviam angariado a ajuda dos hagarenos, e os amonitas, que haviam reunido em torno do seu estandarte os gebalitas e os amalequitas; terceiro, os habitantes do litoral, os filisteus e os tírios; quarto, os assírios, mais distantes.
De todos estes, os mais amargos na sua hostilidade contra Israel eram os que lhe eram mais próximos por parentesco — os edomitas. A sua hostilidade se fundava no ódio. Pela sua conduta para com os israelitas ao longo de um longo período, parece que neles se perpetuava aquele ódio antigo com que o seu antepassado Esaú odiou Jacó por causa da bênção de Isaque. E, embora tenham conseguido, uma e outra vez, segundo a profecia, quebrar o jugo de Israel do seu pescoço, nunca puderam arrancar de Israel a posse da primogenitura, e com ela as promessas que os seus antepassados haviam profanamente desprezado; pois de Israel, e não de Edom, havia de nascer o Redentor do mundo, e em Israel seriam abençoadas todas as famílias da terra.
Os edomitas podem, assim, ser vistos apropriadamente como o tipo daqueles que a Igreja de Cristo sempre encontrou como os seus mais amargos inimigos: os céticos que se recusam a reconhecer aquela redenção por meio de um Redentor pessoal sobre a qual, como sobre um alicerce, a igreja está fundada; cujo orgulho intelectual se ofende com as doutrinas humilhantes do cristianismo, e que odeiam os que as sustentam por possuírem as bênçãos que eles próprios negligenciaram de propósito; cujo saber humano, todavia, tem servido, no conjunto, à edificação da igreja, apesar da violência com que se empenharam — e por vezes, ao que parece, com algum sucesso — em dominá-la ao se opor a ela, e em exercer sobre ela um domínio passageiro. Habitando eles mesmos em tendas, não suportam que outros, mais abençoados do que eles, possuam as casas de Deus: "confessando-se desgarrados, e incapazes de achar o caminho da verdade, ainda assim são muito insistentes e imperiosos em exigir que outros abandonem os caminhos antigos, para se juntarem a eles, ou ao menos, para vaguearem como eles vagueiam."
Junto com os edomitas, o salmista menciona os ismaelitas. Estes, como descendentes da escrava, podem representar apropriadamente aqueles opositores judeus do cristianismo — ainda hoje, talvez, formidáveis localmente, se não de modo geral — que, ao rejeitarem a doutrina cristã, foram levados pelos mesmos sentimentos de orgulho intelectual que os céticos de origem cristã; que, professando manter-se fiéis àquela aliança do monte Sinai que gera para a escravidão, perseguiram, enquanto puderam, os que nasceram segundo o Espírito.
Nos descendentes de Ló e nos seus auxiliares árabes, temos o tipo de uma classe diferente de inimigos. A origem histórica dos primeiros os marca como representantes apropriados dos escravos das concupiscências pecaminosas; que odeiam a igreja não pelo tom humilhante das suas doutrinas, mas pelo padrão de santidade que ela exige e do qual continuamente testemunha. E a experiência mostra como tais pessoas costumam, nos seus ataques contra a igreja, alistar a seu serviço aqueles que são mais descontrolados, mas ao mesmo tempo mais ignorantemente ímpios do que eles próprios; como, para arrancar, se possível, aquelas cercas e salvaguardas da lei da santidade que, tendo-as transgredido, odeiam contemplar, apelam às paixões desenfreadas da multidão sem lei, para quem a própria existência dessas cercas fora inteiramente desprezada.
Dos inimigos da igreja animados por sentimentos de ódio positivo, passamos aos que agem por cálculo, e não por paixão, e cujos procedimentos visam todos ao seu próprio engrandecimento terreno. Os filisteus e os tírios haviam entrado na confederação hostil na esperança de obter cativos israelitas, com os quais poderiam lucrar vendendo-os como escravos no estrangeiro. Não parece que considerassem os israelitas, em si mesmos, com outros sentimentos além da mera indiferença egoísta. Ambas as nações haviam oferecido os seus serviços a Israel nos dias de prosperidade de Israel: os filisteus provavelmente forneceram os quereteus e peleteus da guarda pessoal de Davi, e os tírios forneceram a Salomão materiais e artesãos para a construção do templo; ambas as nações agora buscavam enriquecer-se à custa de Israel, nos dias da adversidade de Israel.
Estes, então, são o tipo apropriado de todos os que, em suas variadas manifestações de amizade ou hostilidade para com a Igreja de Deus, são movidos pelo mero desejo mercenário do lucro; favorecendo, e até favorecendo com zelo, os seus interesses, quando conseguem obter boa recompensa pelos seus serviços; sem hesitar em se aliar aos seus inimigos mais amargos para difamá-la e despojá-la, sempre que surge a oportunidade de aumentar, com isso, os seus bens terrenos.
A última classe de inimigos é aquela de que a Assíria é o tipo: os potentados mundanos, sejam eclesiásticos ou temporais, papais ou imperiais, que estão dispostos, sem escrúpulos, a empregar todos os meios para alcançar o seu único objetivo — o de estender e consolidar o seu domínio. Tais potentados parecem representar, com a maior fidelidade, aquele egoísmo determinado e resoluto que, aos olhos que não se deixam ofuscar pela grandiosidade das suas proporções nem pelo esplendor de que se reveste, há de sempre parecer uma das mais terríveis encarnações da inimizade do mundo contra Deus.
Orgulho do intelecto e incredulidade — impiedade e vida sem lei — cobiça — ambição mundana: tais são as características das quatro classes importantes daqueles por quem a igreja de Deus é ameaçada. Joseph Francis Thrupp.
Versículo 7Salmo 83:7
Gebal.
Geralmente se supõe que indique a região montanhosa que se estende do mar Morto para o sul até Petra, ainda hoje chamada Jebal. Mas alguns dos melhores autores a identificam com o item 2, por ser mencionada junto a Tiro.
Um lugar mencionado em conexão com Tiro, Ezequiel 27:9. Muito provavelmente a residência dos gebalitas, e por isso ao norte da Palestina, Josué 13:5. Os gebalitas foram empregados por Hirão, rei de Tiro, na preparação de materiais para o templo de Salomão, 1 Reis 5:18, à margem. O nome grego deste lugar era Biblos. A cidade se chama Jebeil, e tem uma população de cerca de seiscentos habitantes. Fica cerca de vinte e sete quilômetros ao norte de Beirute. As ruínas antigas são muito extensas. Um número imenso de colunas de granito está espalhado pela vila e pelos campos ao redor. A maioria destas colunas é pequena, variando de trinta a sessenta centímetros de diâmetro. Algumas das pedras medem quase seis metros de comprimento. A cidadela é a mais notável das ruínas. O porto está quase entupido de areia e ruínas. George H. Whitney, em Hand Book of Bible Geography. 1872.
Versículo 8Salmo 83:8
Assur também se ajuntou a eles, etc. Isso determina a data deste Salmo para os últimos tempos do reino judaico; pois as outras nações aqui mencionadas já os haviam molestado antes, mas os assírios só o fizeram perto do fim. William Wall, 1645 ou 1646-1727-8.
Versículo 9Salmo 83:9
Faze-lhes como fizeste aos midianitas. Isto é, faze com que as suas cabeças se choquem umas contra as outras, faze com que as suas políticas se cruzem e se anulem. Walter Cradock.
O ribeiro de Quisom. O rio Quisom atravessa a planície (de Esdrelom) e termina na baía de Acre. É este o rio a respeito do qual está escrito, depois que Baraque e Débora venceram Sísera: "O ribeiro de Quisom os arrastou, aquele ribeiro antigo, o ribeiro de Quisom. Ó minha alma, pisaste a força."
Embora hoje não seja um riacho insignificante, precisa de chuvas fortes para se tornar realmente considerável em volume: é muito irregular em tamanho, e parece ter caráter apenas temporário. De todo modo, quando Robinson passou pelas suas cabeceiras em pleno verão, encontrou os canais todos secos, e assim tinham estado por um ano inteiro. Por outro lado, no inverno as águas são muitas vezes extremamente abundantes, sobretudo nos principais afluentes do norte e do sul; de modo que, em 1799, na época da invasão francesa, muitos dos turcos vencidos pereceram nas enchentes que desceram de Deburieh, e que inundaram a planície. Foi uma cena como a descrita em Juízes 5 a respeito do destino das hostes de Sísera. Carl Ritter (1779-1859), em The Comparative Geography of Palestine and the Sinaitic Peninsula. Traduzido por William L. Gage. 1866.
Versículo 10Salmo 83:10
Tornaram-se como esterco para a terra. A terra foi enriquecida, ou tornada fértil, pela sua carne, seu sangue e seus ossos. Albert Barnes.
Tornaram-se como esterco para a terra. No ano de 1830, calcula-se que mais de um milhão de alqueires de "ossos humanos e de animais" foram importados do continente europeu para o porto de Hull. As redondezas de Leipzig, Austerlitz, Waterloo, etc., onde as principais batalhas haviam sido travadas quinze ou vinte anos antes, foram varridas por igual dos ossos do herói e do cavalo que ele montava. Assim reunidos de todos os cantos, eram embarcados para Hull, e dali enviados aos moedores de ossos de Yorkshire, que, por meio de máquinas a vapor e maquinário potente, os reduziam a um estado granular. Nessa condição, eram enviados principalmente para Doncaster, um dos maiores mercados agrícolas do país, e ali vendidos aos fazendeiros para adubar as suas terras. A substância oleosa que gradualmente se liberta à medida que o osso se calcina torna-a melhor adubo do que quase qualquer outra substância — em especial os ossos humanos. K. Arvine.
Versículo 11Salmo 83:11
A palavra "nobres" está em antítese com os nomes Orebe e Zeebe. A palavra hebraica traduzida por nobres denota propriamente homens generosos, magnânimos e benfeitores, tais como devem ser príncipes e potentados entre os homens; mas os nomes Orebe e Zeebe têm o significado exatamente oposto, pois um significa "corvo", e o outro, "lobo". Quando os seus nobres degeneram em feras tão rapaces e cruéis, é como justa recompensa que o choque hostil venha sobre eles. Hermann Venema.
Versículo 13Salmo 83:13
Um rodamoinho. Que espécie de vegetal é este cujos caules os nossos arrieiros estão cortando e mastigando com tanto gosto? É uma alcachofra selvagem. Podemos nos divertir com ela e com o seu comportamento por um instante, e talvez extrair algo mais valioso do que o suco insosso de que os nossos homens tanto gostam.
Observai que, ao crescer, ela lança numerosos ramos de igual tamanho e comprimento em todas as direções, formando uma espécie de esfera ou globo de trinta centímetros ou mais de diâmetro. Quando madura e seca no outono, esses ramos ficam rígidos e leves como uma pluma; o caule principal se quebra rente ao chão, e o vento leva esses globos vegetais para onde bem entender. Na estação própria, milhares deles vêm correndo pela planície, rolando, saltando, saltitando com grande estrondo, para o susto tanto do cavalo quanto do cavaleiro.
Certa vez, na planície ao norte de Hama, o meu cavalo ficou totalmente incontrolável entre eles. Eles avançaram sobre nós nas asas do vento, que os arrancou das suas amarras e os fez rodopiar pelo deserto aos montes. O nosso excelente pregador itinerante nativo, A. F., teve um encontro semelhante com eles no deserto oriental além do Haurã, e o seu cavalo ficou tão apavorado que ele foi obrigado a desmontar e conduzi-lo pela rédea.
Há muito suspeito que esta alcachofra selvagem seja o gulgal, que, no Salmo 83:13, é traduzido por "rodamoinho", e em Isaías 17:13, por "coisa que roda". Evidentemente os nossos tradutores não sabiam como chamá-la. A primeira passagem diz assim: "Deus meu, faze-os como um rodamoinho"; a segunda: "Repreende-os, e fugirão para longe, e serão perseguidos como a pragana dos montes diante do vento, e como coisa que roda — gulgal — diante do turbilhão."
Ora, pela própria natureza do paralelismo, o gulgal não pode ser uma "roda", mas algo correspondente à pragana. Deve também ser algo que não voa como a pragana, mas que, de modo notável, rola diante do vento. O significado de gulgal em hebraico, e o seu equivalente em outros dialetos semíticos, exige isso, e esta alcachofra rolante atende ao caso de modo muito enfático — sobretudo quando rola diante do turbilhão.
No encontro referido ao norte de Hama, os meus olhos ficaram quase cegos pela pragana e pela palha que enchiam o ar; mas foi o comportamento extraordinário desta "coisa que roda" que prendeu a minha atenção. Centenas desses globos, todos saltando como gazelas na mesma direção pelo deserto, de repente davam meia-volta ao sabor de uma rajada contrária, e disparavam com igual velocidade no novo rumo. Um provérbio árabe se dirige a esta "coisa que roda" assim: "Ei, akkub, onde vais passar a noite?", ao que ela responde, enquanto voa: "Onde o vento passar." Também derivam dela uma das suas muitas formas de maldição: "Que sejas rodopiado, como o akkub, diante do vento, até seres apanhado pelos espinhos, ou lançado ao mar." Se isto não é o "rodamoinho" de Davi, e a "coisa que roda" de Isaías, de onde eles também tomaram emprestadas as suas maldições contra os ímpios, nada mais vi no país que sugerisse a comparação. W. M. Thomson, em The Land and the Book.
Faze-os como um rodamoinho. Isto é, faze com que caiam em tamanhas calamidades que não encontrem conselho nem remédio para as suas desgraças, e que corram de um lado para o outro como uma roda ou uma bola, sem ver onde deveriam parar, nem para onde deveriam fugir. Assim são as mentes dos ímpios em suas calamidades: para onde quer que se voltem, não acham porto onde descansar, nenhum consolo certo conseguem descobrir. São agitados por perpétua inquietação; correndo de um lado para o outro e buscando vários remédios, apenas se cansam mais, e mais profundamente se afundam nas suas desgraças. Isto necessariamente acontece a quem busca curar o mal com o mal. Por isso Isaías também diz que os ímpios são como o mar agitado. Mollerus.
Como um rodamoinho. Os mortais, como cilindros, são rolados de um lado para o outro, oprimidos por males inumeráveis. Aurea Carmina — Pitágoras.
Não há maior prova contra o erro do que a de não ser constante consigo mesmo; não há maior argumento contra estes pretensos grandes espíritos do que o de não conseguirem sentar-se, não saberem onde se fixar, estarem sempre em movimento, como se a maldição do salmista tivesse recaído sobre eles, como se Deus os tivesse feito como uma roda, e como a palha diante do vento, que não pode sentar-se em parte alguma, nem repousar em coisa alguma, mas gira de uma incerteza para outra. O Espírito Santo é um espírito que sabe sentar-se quieto, estar em paz, permanecer e habitar. Mark Frank.
Versículos 13–14Salmo 83:13-14
Numa imagem tão óbvia e viva para todo nativo das colinas e planícies ventosas da Palestina, embora para nós relativamente ininteligível, o salmista os descreve como arrastados sobre as terras altas de Gileade, como as nuvens de pragana sopradas das eiras de trilhar; perseguidos como as massas esféricas de ervas secas que correm pelas planícies de Esdrelom e da Filístia — voando com a terrível pressa e confusão das chamas que correm e saltam de árvore em árvore, de monte em monte, quando as montanhas arborizadas de um país tropical são, por acaso, incendiadas. William Smith, em A Dictionary of the Bible. 1863.
Versículo 14Salmo 83:14
Montes em fogo. Muitas das montanhas deste país estão cobertas de densas florestas. As folhas que caem a cada outono se acumulam, às vezes por anos, até que tenhamos um verão particularmente seco, quando, de um jeito ou de outro, por acidente ou por intenção, elas sempre pegam fogo, e queimam às vezes por vários dias. As montanhas de um dos estados da república vizinha estão em chamas neste exato momento em que escrevo, e já ardem há mais de uma semana, e podemos ver claramente o brilho avermelhado no céu acima delas, embora, pela grande distância, mesmo os cumes das próprias montanhas de onde saem as chamas fiquem além dos limites do nosso horizonte. De Philip Musgrave: or Memoirs of a Church of England Missionary in the North American Colonies. 1846.
O fogo tem maior força numa montanha, onde o vento é mais poderoso, do que num bosque situado num vale. Honório de Autun.
Humboldt viu florestas em chamas na América do Sul, e assim as descreve: "Várias partes das vastas florestas que cercam a montanha haviam pegado fogo. Chamas avermelhadas, meio envoltas em nuvens de fumaça, ofereciam um espetáculo grandioso. Os habitantes ateiam fogo às florestas para melhorar as pastagens, e para destruir os arbustos que sufocam a relva. Enormes incêndios, porém, são também causados com frequência pelo descuido dos índios, que negligenciam, quando viajam, apagar os fogos com que prepararam o seu alimento."
Oremos pelo auxílio divino, para que quebre este poder e esta inimizade do homem natural; para que ele se sujeite à palavra da graça; e que a madeira, o feno e a palha de toda falsa doutrina pereçam diante do resplendor do rosto de Deus. Edward Walter. 1854.
Versículo 18Salmo 83:18
Que os homens saibam que tu, cujo nome, só tu, és o SENHOR, etc. A história antiga da Inglaterra nos informa que alguns perseguidores sanguinários avançavam sobre um grupo de cristãos. Os cristãos, vendo-os se aproximar, marcharam ao seu encontro, e, no mais alto de suas vozes, gritaram: "Aleluia, Aleluia!" (Louvado seja Jeová). Ao ser apresentado o nome do Senhor, a fúria dos perseguidores diminuiu. Josefo diz que Alexandre, o Grande, em sua marcha triunfal, ao ser recebido perto de Jerusalém pelo sumo sacerdote judeu, em cuja mitra estava gravado o nome de Jeová, "aproximou-se sozinho e adorou aquele nome", e assim se desarmou da sua intenção hostil. Havia significado e poder no glorioso nome antigo, tal como escrito pelos judeus. Mas o nome de Jesus é hoje muito mais poderoso no mundo do que era o nome Jeová nessas eras antigas. The Dictionary of Illustrations, 1872.
JEOVÁ é um dos nomes incomunicáveis de Deus, que significa a sua essência eterna. Os judeus observam que no nome de Deus, Jeová, está implícita a Trindade. "Je" indica o tempo presente, "ho" o pretérito perfeito, "vah" o futuro. Os judeus também observam que, no seu nome Jeová, todas as letras hebraicas são literae quiescentes, que denotam repouso, sugerindo que em Deus, e a partir de Deus, está todo o nosso repouso. Toda alma piedosa é como a pomba de Noé: não encontra descanso nem satisfação senão em Deus. Só Deus é a arca de repouso e segurança do homem piedoso. Jeová é o nome incomunicável de Deus, e nunca é atribuído a ninguém além de Deus: "tu, cujo nome, só tu, és JEOVÁ."
O Altíssimo. O fato de ser ele o Alto e o Sublime aponta para a transcendência e a superexcelência do seu ser divino em si mesmo, e que ele é de todo de outra espécie que as criaturas — e, de fato, que só ele verdadeiramente é. Quando o salmista diz: "Para que os homens saibam que tu, cujo nome, só tu, és JEOVÁ, és o ALTÍSSIMO sobre toda a terra", ele argumenta a sua altura a partir do seu nome: que o seu nome é só Jeová, e por isso ele é o Altíssimo, e justamente nesse sentido. Ora, Jeová é o nome da sua essência, "EU SOU", e ele é ALTÍSSIMO quanto a um ser tão glorioso que só a ele pertence. Thomas Goodwin.