Notas explicativas e citações: Salmo 84
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 84, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 84 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
TÍTULO. Note aqui que os filhos, isto é, a posteridade do ímpio e rebelde Coré, ocupam lugar honroso no serviço sagrado e solene de Deus: pois a eles se confiaram vários dos salmos de Davi. [...] Aqui vemos confirmada a palavra de Deus, para consolo de todos os filhos piedosos, de que o filho não levará a iniquidade do pai (Ezequiel 18:14, 17 e 20), se vir os pecados do pai e deles se converter. — Thomas Pierson (1570–1633), em David's Heart's Desire.
O Salmo Inteiro.
Ó Senhor dos exércitos, quão belas a meus olhos
as tendas onde habitas!
Por tua morada minha alma desfalece e suspira;
os átrios que tanto amo.
Minha alma anseia, cansada,
de estar dentro da tua casa;
este mundo é ermo e vazio,
terra deserta para mim.
O pardal, Senhor, achou um lar abrigado,
a andorinha tem seu ninho;
ali põe seus filhotes, e ainda que vagueie,
sempre volta a descansar.
Eu, voando ao teu altar,
ali quisera estar para sempre;
meu coração e minha carne clamam,
ó Deus vivo, por ti!
Quão bem-aventurados os que em tua casa habitam!
A ti louvam sem cessar.
Quão forte o homem a quem só tu guias,
cujo coração guarda os teus caminhos.
Peregrino e estrangeiro,
ele se apoia em teu braço;
e tu, na hora do perigo,
o proteges do temor.
De força em força, pelo vale de dor de Baca,
seguem adiante em oração,
e jorram fontes de água viva,
cavadas por seu fiel cuidado;
tua chuva desce do céu
para fertilizar a terra,
e graça pelo caminho é dada
até que em Sião estejam de pé.
Senhor Deus dos exércitos, atende à minha oração!
Ó Deus de Jacó, dá ouvidos!
Olha, ó Deus, escudo nosso; nós, por teu cuidado,
em teus átrios comparecemos!
Olha para a glória
do rosto do teu Ungido;
nele estamos diante de ti,
testemunhas da tua graça!
Um dia contigo excede, muitas vezes,
mil dias longe de ti;
em tua morada, junto à porta do teu templo,
quisera estar meu coração vigilante.
Homens me falam do tesouro
escondido em suas tendas de pecado;
não busco ali o prazer,
nem escolho entrar.
Reconhece, pois, o Senhor como teu Sol, teu Escudo —
nenhum bem ele negará;
ele dá graça, e em breve será revelada
sua glória, ainda por contar.
Confessando o seu nome poderoso,
anda em paz e livre;
ó Senhor, quão rica é a bênção
daquele que em ti confia!
—Coral Alemão.
Versículo 1Salmo 84:1
Quão amáveis são os teus tabernáculos. O que havia neles que parecesse tão amável? Seria, por acaso, que o edifício era famoso pela arte e pelo custo nele empregados? Mas o templo de extraordinária beleza ainda não fora construído. O tabernáculo era humilde, mais adequado a peregrinos do que a um grande povo, e pouco condizia com o próprio rei. Por isso, aos piedosos não é necessário ter templos vastos ou suntuosos para que amem a casa de Deus. Musculus.
Quão amáveis são os teus tabernáculos. O que tornava amável o tabernáculo de Moisés não era o exterior, muito modesto, como é exteriormente a Igreja de Deus, por causa da perseguição, da aflição e da pobreza; mas o que havia por dentro, com muitos vasos de ouro, e estes figuras de coisas ainda mais preciosas; além disso, ali se viam os sacerdotes em suas vestes, cumprindo seu dever e serviço, e, em certas ocasiões, o sumo sacerdote em seus ricos trajes; ali se viam os sacrifícios imolados e oferecidos, pelos quais o povo era instruído quanto à natureza do pecado, ao rigor da justiça e à necessidade e eficácia do sacrifício de Cristo; ali se ouviam os levitas entoando seus cânticos e tocando suas trombetas.
Mas muito mais amáveis são a Igreja de Deus e suas ordenanças nos tempos do Evangelho, onde Cristo, o Grande Sumo Sacerdote, se vê nas glórias de sua pessoa e na plenitude de sua graça; onde os sacerdotes de Sião, ou os ministros do evangelho, estão vestidos, plenamente providos de salvação e das boas-novas dela; onde Cristo é claramente exposto como crucificado e morto, no ministério da palavra e na administração das ordenanças; ali soa a trombeta do evangelho, e seu som jubiloso ecoa, e cânticos de amor e graça são entoados por todos os crentes; além disso, o que torna esses tabernáculos ainda mais amáveis é a presença de Deus ali, de modo que não são outra coisa senão a casa de Deus, a porta do céu; as provisões que ali se fazem, e a companhia que ali se desfruta. John Gill.
Amável. O adjetivo é traduzido pelas versões inglesas como amiable, no sentido do francês aimable, adorável. Mas o uso da palavra hebraica exige que se entenda como querido, amado, que é exatamente a ideia exigida aqui pelo contexto. O plural, moradas, refere-se às subdivisões e dependências do santuário, e é aplicado ao tabernáculo em Salmos 48:3. Compare com Salmos 68:35. Os títulos divinos são, como de costume, significativos. Enquanto um sugere a relação de aliança entre Deus e o suplicante, o outro faz de sua soberania o fundamento de uma oração por sua proteção. Joseph Addison Alexander.
Tabernáculos. Pelo nome de tabernáculos somos lembrados da peregrinação da igreja, e de sua marcha de um lugar a outro, até que chegue à sua verdadeira pátria. Pois, assim como o tabernáculo e as tendas de guerra são removidos de um lado para outro, também a Igreja de Deus, nesta vida, não tem morada certa e tranquila, mas é frequentemente obrigada a mudar de lugar. Esta peregrinação, na qual, de fato, como diz Agostinho, todo homem é peregrino neste mundo, nos adverte do pecado, que é a causa dessa peregrinação. Pois, por causa do pecado, fomos lançados, com nossos primeiros pais, do Paraíso para a terra onde peregrinamos. De modo que somos removidos de Jerusalém, isto é, da visão e do gozo da paz, para a Babilônia, isto é, para a confusão e o exílio, no qual vagamos longe e por toda parte. Nicholas Heminge (Hemminguis) (1513-1600), em A Fé da Igreja Militante.
Versículos 1–2Salmo 84:1-2
Quando não conseguimos expressar em termos diretos a grandeza de uma coisa, somos levados a recorrer ao espanto, e é isso que Davi faz aqui: como não consegue exprimir suficientemente quão amáveis são os tabernáculos do Senhor, ele passa a admirar-se, e se ajuda com uma pergunta: Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos exércitos? Mas não é ele mesmo, o espanto de Davi, algo espantoso — que os tabernáculos do Senhor dos exércitos sejam tão espantosamente amáveis? Não é um espanto que sejam amáveis, sequer?
Pois não são os seus tabernáculos tendas de guerra? E há algo na guerra que possa ser amável? Se ele tivesse dito: Quão terríveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos exércitos, seu espanto teria alguma coerência; pois o Senhor dos exércitos é terrível em todas as suas obras; mas dizer: Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos exércitos, parece implicar uma contradição; pois, embora possam ser amáveis enquanto tabernáculos, são necessariamente terríveis enquanto tabernáculos do Senhor dos exércitos; e quando esse aspecto terrível diminui sua amabilidade, que espaço resta para o espanto, de modo a dizer: Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos exércitos?
Mas se ele tivesse dito: Quão terríveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos exércitos, isso poderia ser espantoso em grau, mas não poderia ser espantoso em espécie: pois que espanto há em que os tabernáculos do Senhor dos exércitos sejam terríveis? Mas quando ele diz: Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos exércitos, isso não é apenas espantoso em grau, mas muito mais em espécie. Pois o que pode ser mais espantoso do que, sendo tabernáculos do Senhor dos exércitos, serem amáveis, e tão amáveis a ponto de causar espanto?
Mas não será que Deus é, em si mesmo, tão amável, que todas as suas coisas, até mesmo os seus terrores, são amáveis; seus tabernáculos e suas tendas, sua espada e sua lança, seus dardos e suas flechas, tudo amável; terrível, sem dúvida, para os seus inimigos, mas amável, espantosamente amável, para todos os que o amam e o temem, e com boa razão o são, visto que tudo isso existe para sua defesa e proteção; ainda que sejam tabernáculos do Senhor dos exércitos para os ímpios, são, para os piedosos, átrios do Príncipe da Paz, e isso faz a minha alma suspirar pelos átrios do Senhor.
Pois desejo, de fato, ser cortesão, mas não como sou agora: Deus sabe que sou muito inapto para isso; mas, como os átrios de Deus são assim, tornam apto quem quer que neles entre; não recebem homens já aptos, mas os tornam aptos, e aquele que antes não era mais que um arbusto em Baca, assim que entra nos átrios do Senhor, logo se torna um cedro no Líbano. Sir Richard Baker.
Versículo 2Salmo 84:2
Minha alma anseia, sim, até desfalece, etc. Nem toda amabilidade é tão grande a ponto de causar um anseio, nem todo anseio é tão grande a ponto de causar um desfalecimento, nem todo desfalecimento é tão grande a ponto de fazer a alma desfalecer; considera, pois, quão grande é essa amabilidade, que faz minha alma não apenas ansiar, mas desfalecer de tanto ansiar! E não me culpes por desfalecer, como se fosse minha culpa não conter meu anseio; pois, sendo os seus tabernáculos de amabilidade infinita, eles necessariamente produzem em mim um deleite infinito, e esse deleite, um anseio infinito; e que restrição pode haver diante do que é infinito? Não; meu desfalecimento é apenas proporcional ao meu anseio, e meu anseio apenas proporcional à amabilidade. Se me fosse feita a oferta que se fez a Cristo, de gozar todos os reinos da terra, mas com a condição de me faltarem os átrios do Senhor, essa falta traria à minha alma maior aflição do que aquele gozo lhe daria de contentamento: pois, sendo tão amáveis os seus tabernáculos, onde ele é Senhor dos Exércitos, quão mais amáveis não serão onde ele é Príncipe da Paz? E Príncipe da Paz ele é em seus átrios, ainda que em seu acampamento seja Senhor dos Exércitos. Sir Richard Baker.
Minha alma anseia, sim, até desfalece. A palavra hlk (desfalece) significa consumir-se de anseio, como dizem os latinos, deperire aliquem amore (morrer de amor por alguém), isto é, ama tão veementemente, e se inflama de tão grande desejo de obter o objeto amado, que se consome e definha enquanto não lhe é permitido gozar da coisa desejada. Portanto, quer-se dizer um anseio ardente, que de tal modo atormenta e queima a mente, que a carne e a medula se consomem, enquanto não se pode desfrutar do que se deseja. Mollerus.
Alma...coração...carne. Assinalando o homem todo, com cada faculdade e afeto. Os verbos também são muito expressivos. O primeiro, anseia, significa literalmente "empalideceu", como pela intensidade do sentimento; o segundo, desfalece, é mais exatamente "falha", ou "se consome". Jó 19:27. J. J. Stewart Perowne.
Clama. A palavra aqui traduzida como clama vem do hebraico, que significa gritar, bradar ou clamar, como fazem os soldados no início de uma batalha, quando gritam: Avante, avante, avante! ou quando gritam depois de uma vitória: Vitória, vitória, vitória! A palavra hebraica indica um clamor forte, ou o choro de uma criança que chora com fome dolorosa, pois então cada parte da criança chora — as mãos choram, o rosto chora, os pés choram. Thomas Brooks.
Deus vivo. Salmos 42:2, "Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo", é o único outro lugar nos Salmos em que Deus é assim chamado. Esta forma particular de expressão, El Chay, ocorre apenas mais duas vezes na Bíblia: Josué 3:10 e Oseias 1:10. J. J. Stewart Perowne.
Versículo 3Salmo 84:3
O pardal achou casa, etc. O terno cuidado de Deus com a menor de suas criaturas é aqui aludido de modo comovente. O salmista, estando exilado, inveja a elas seus privilégios. Anseia por aninhar-se, por assim dizer, na morada de Deus. O crente encontra lar e descanso perfeitos nos altares de Deus; ou, antes, nas grandes verdades que eles representam. Ainda assim, sua confiança em Deus é adoçada e fortalecida pelo conhecimento do cuidado providencial dele, minucioso e universal. Isso se torna seu deleite admirado. "Deus nunca deixa", como alguém disse com beleza, "de encontrar casa para a mais desprezível, e ninho para a mais inquieta das aves."
Que confiança isso deveria nos dar! Quanto deveríamos descansar! Que repouso encontra a alma que se lança sobre o cuidado vigilante e terno daquele que provê tão plenamente para a necessidade de todas as suas criaturas! Sabemos o que a expressão "ninho" transmite, tanto quanto a de "casa". Não é ela um lugar de segurança, um abrigo contra a tempestade, um esconderijo de todo mal, uma proteção contra tudo o que pode ferir, "um lugar para descansar, para se aninhar, para se alegrar"?
Mas há algo nessas aves tão privilegiadas que nos impressiona fortemente em nossa meditação — elas não conheciam aquele de quem vinha toda essa bondade, não conheciam nem o seu coração nem a sua mão. Desfrutavam das ricas provisões de seu terno cuidado; ele pensava em tudo para a necessidade delas, mas não havia comunhão entre elas e o Grande Doador. Disto, ó minha alma, podes aprender uma lição útil. Nunca te contentes em apenas frequentar tais lugares, ou em ter ali certos privilégios; mas ergue-te, em espírito, e busca, encontra e desfruta da comunhão direta com o Deus vivo, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor. O coração de Davi se volta para o próprio Deus. Meu coração e minha carne clamam pelo Deus vivo. Things New and Old.
A andorinha, um ninho, etc. A confiança que essas aves depositam na raça humana não é pouco extraordinária. Elas não apenas se expõem a si mesmas, mas também sua prole, ao alcance dos homens. Já vi seus ninhos em situações em que estavam ao alcance da mão, onde poderiam ser destruídos num instante. Observei-os sob um vão de porta, nos beirais de uma humilde cabana, contra a parede de um galpão de ferramentas, no batente de uma porta, e na viga de um celeiro de feno muito frequentado. Edward Jesse, em Gleanings in Natural History, 1856.
Até os teus altares. Havia dois altares: o "altar de bronze" e o "altar de ouro"; a estes, sem dúvida, o salmista se refere. Ambos eram de madeira de acácia, o que representa a santa humanidade — a natureza humana perfeita do Senhor Jesus. A encarnação está no fundamento de toda a sua obra por nós, e de toda a nossa bênção nele. Um altar era revestido de bronze, o outro de ouro puro. O revestimento representa sua divindade, mas sob aspectos distintos. Temos o mesmo Jesus em ambos, mas figurado em circunstâncias diferentes. No primeiro, humilhação e sofrimento; no outro, exaltação e glória. Things New and Old.
Teus altares. Há no original algo de patético, de veemente, uma expressão quebrada, expressa: "Ó teus altares." É verdade (diz Davi) que estás aqui no deserto, e posso ver-te aqui, e servir-te aqui, mas ó teus altares, ó Senhor dos exércitos, meu Rei e meu Deus. John Donne.
Teus altares é uma forma poética de dizer: tua casa. É, manifestamente, um termo específico usado no lugar de um termo geral. No entanto, argumentou-se seriamente que nenhuma ave jamais poderia, ou seria permitida, construir seu ninho sobre o altar. Sem dúvida, esse tipo de expressão, que dificilmente é uma figura, é comum o bastante. A parte apotiori fit denominatio (dá-se o nome pela parte mais importante). Dizemos: "Ali vai uma vela." O que pensaríamos de alguém que argumentasse que uma vela não pode andar? Os altares significam o templo. Havia
"nenhuma cornija saliente,
contraforte, nem recanto vantajoso, mas essas aves
haviam feito ali seu leito suspenso";
sem falar que havia árvores dentro do recinto sagrado, onde as aves poderiam construir seus ninhos. J. J. Stewart Perowne.
Existia entre várias nações da Antiguidade um costume capaz de iluminar esta passagem. Pois as aves cujos ninhos se encontrassem construídos sobre os templos, ou dentro de seus limites, não podiam ser afugentadas, muito menos mortas, mas ali encontravam morada segura e tranquila. William Keating Clay.
Versículo 4Salmo 84:4
Bem-aventurados os que habitam em tua casa, etc. Ai, como se dá isso? Antes havia tabernáculos, como pertencentes a um Senhor; e átrios, como pertencentes a um rei; e altares, como pertencentes a um Deus; e agora não é senão uma casa, como pertencente a um particular; será que toda essa grande ascensão termina numa queda? Não, minha alma, não é queda alguma; é antes uma soma de tudo o mais; pois, onde seus tabernáculos serviam apenas para mostrar seu poder, seus átrios apenas para mostrar sua majestade, seus altares apenas para mostrar sua divindade, sua casa serve para mostrar tudo isso; pois em sua casa haverá sempre louvor a ele, e seu louvor e sua glória são a soma de tudo.
Ou será que habitar na casa de Deus é uma forma de apropriar-nos dele, visto que seus tabernáculos e seus átrios ficam abertos a estranhos, mas sua casa não se abre senão a seus servos; e visto que na proximidade com Deus, e no conversar com ele, consiste toda verdadeira bem-aventurança; por isso, bem-aventurados os que habitam em sua casa. Mas como habitar nela? Não olhando para dentro de vez em quando, ao passar, nem ficando ali por um tempo, como numa hospedaria, mas sendo moradores constantes, de dia e de noite, aos quais nos dedicamos e curvamos nosso serviço. Sir Richard Baker.
Bem-aventurados os que habitam em tua casa, etc. O que era essa casa para Davi, mais do que qualquer outra casa, senão que ali ele contava gozar da presença divina? De modo que aqui havia um coração de tal forma habituado a essa presença, a ponto de desejar morar nela, e levar sua vida com Deus, e habitar com ele todos os seus dias; não podia contentar-se em fazer uma visita de vez em quando. E por que essa disposição de espírito, à luz mais clara do evangelho, haveria de ser vista como algo inatingível? Uma desídia preguiçosa, e a mesquinha ideia de que é modéstia não almejar tão alto, sufocam a religião e abafam todos os desejos verdadeiramente nobres e generosos. Seja isto, pois, o que se propõe para ti, e persegue e conduz constantemente esse propósito, para que alcances essa disposição de espírito diante de Deus. John Howe.
Bem-aventurados os que habitam em tua casa, etc. Bem-aventurados, de fato, também podemos exclamar, e bem-aventurados serão para sempre. São moradores, não visitantes, na casa de Deus. Habitarei na casa do Senhor para sempre. Isto é verdade, bendita verdade, para todos os que hoje confiam em Jesus. Mas, embora os filhos de Deus sejam todos sacerdotes por nascimento, como os filhos de Arão, nem todos são, ai de nós, sacerdotes por consagração (veja Êxodo 29). Poucos, comparativamente, conhecem seu lugar sacerdotal junto ao altar de ouro. Muitos ainda duvidam se seus pecados, raiz e ramo, foram todos consumidos fora do arraial e, por isso, temem aproximar-se do átrio; e, quanto a estarem seguros de sua plena justificação e santificação naquele que ressuscitou, gravemente duvidam e temem que tal bem-aventurança lhes possa algum dia caber. Por isso, esse estado de alma que corresponde à consagração sacerdotal junto à bacia, e ao culto feliz junto ao altar de ouro, permanece desconhecido e não desfrutado. Não são sacerdotes por consagração.
Nosso texto é claro. Eles estarão sempre te louvando. Dúvidas, temores, questões não resolvidas — tudo se foi. Tais coisas não podem existir no lugar santo. Todos, é claro, os que estão em Cristo, certamente estarão, na conta de Deus, onde ele está; mas nem todos os que creem em Cristo sabem e creem que estão nele, como sendo um com ele agora. Quando o estado de nossa alma corresponde ao que é simbolizado pelo lugar santo, só podemos louvar: os que habitam em tua casa estarão sempre te louvando. Então estaremos felizmente perto de Deus, e teremos comunhão com ele, no Cristo glorificado, pelo poder do Espírito Santo.
Eles estarão sempre te louvando. Como parece ser verdade que os que habitam na casa de Deus estarão sempre a louvá-lo, visto que raramente se vê servos tão dispostos a louvar seus senhores? Ó minha alma! Não é tanto a boa disposição dos servos quanto o infinito valor do Senhor que os faz louvá-lo, pois quando veem a admirável economia de seu governo, quando veem como ele dispõe com tanta doçura todas as coisas em peso e medida, quando o veem tratá-los mais como filhos do que como servos, que coração pode ser tão ingrato a ponto de não o louvar? E, visto que, habitando na casa de Deus, veem essas coisas continuamente, por isso os que habitam em sua casa estarão sempre a louvá-lo. Sir Richard Baker.
Eles estarão sempre te louvando. Como quem tem corações plenos de céu, e consciências plenas de consolo. Não pode deixar de haver música no templo do Espírito Santo. John Trapp.
Ainda louvando. Não basta louvá-lo; é preciso louvá-lo sempre, para que isso constitua bem-aventurança; e, embora louvar a Deus seja coisa fácil, louvá-lo sempre será, de fato, tarefa árdua para a carne e o sangue, tarefa penosa, pois, se estou sempre louvando-o, que tempo terei para qualquer prazer? Ó minha alma, se não fizeres disso o teu prazer, o teu principal, o teu único prazer, louvá-lo, não estás perto de alcançar a bem-aventurança. E não te espantes que Davi fale assim sob a lei, quando Paulo, sob o evangelho, diz o mesmo: quer comais, quer bebais, ou façais qualquer coisa, fazei tudo para a glória e o louvor de Deus. Sir Richard Baker.
Versículo 5Salmo 84:5
Em cujo coração estão os teus caminhos. Isto é, os que amam os caminhos que levam à tua casa. Earnest Hawkins.
Em cujo coração estão os caminhos deles. Literalmente: As subidas estão sobre os seus corações. As subidas íngremes sobre as quais se erguia o tabernáculo. Horsley traduz: Estão decididos a subir as íngremes subidas. Talvez fossem, mais propriamente, as calçadas elevadas ou escadarias que conduziam ao monte Sião, ou por toda a região montanhosa a caminho de Jerusalém. John Fry.
Em cujo coração estão os caminhos. O coração natural é um deserto sem trilhas, cheio de precipícios e penhascos. Quando o coração é renovado pela graça, abre-se um caminho, prepara-se uma estrada para o nosso Deus. Veja Isaías 40:3-4. Frederick Fysh.
Versículo 6Salmo 84:6
Considero que o vale aqui mencionado seja o mesmo vale de Boquim, mencionado em Juízes 2:1,5, que recebeu esse nome do pranto dos judeus, quando foram repreendidos por um anjo por sua desobediência aos mandamentos de Deus. Este vale é chamado m'kkh, Habbcaim em 2 Samuel 5:24, sendo o h de hkk (chorar) mudado para a. Josefo menciona que o episódio ali relatado ocorreu en toiv alsesi toiv kaloumenoiv Klauqmwsi (Antiguidades Judaicas, livro 7, cap. 4). My'kkh, Habb'caim é traduzido, naquele versículo, pela LXX como Klauqmwn, "prantos"; e em Juízes 2:1, kykkh, Habbocim, também é traduzido pela LXX como Klauqmwn, "prantos". O vale mencionado em Salmos 84:6 é chamado pela LXX de Klauqmwn.
Inclino-me, portanto, a pensar que, neste lugar, unindo a tkkh o m da palavra seguinte, e antepondo um y, deveríamos ler nymy'kkh em vez de ny`m'kkh... Todos os antigos tradutores parecem ter pensado que o vale, neste versículo, recebeu seu nome de hkk, bacah, chorar. Traduzo o versículo assim: Passando pelo vale de Boquim, farão dele uma fonte, sim, de bênçãos; será coberto com a chuva do outono.
Supõe-se que este Salmo tenha sido escrito por Josafá. Provavelmente ele atravessou Boquim, que parece ter sido um vale árido, ao marchar contra os moabitas e amonitas; veja 2 Crônicas 20. Depois da vitória, o exército de Josafá se reuniu num vale, onde bendisseram o Senhor; e, por essa circunstância, recebeu o nome de Berachá: veja 2 Crônicas 20:26. Talvez a palavra tvkrk, neste versículo, aluda a essa circunstância; e talvez o vale de Berachá tenha sido, antes daquela ocasião gloriosa, chamado o vale de Boquim. Richard Dixon.
Passando pelo vale do pranto, fazem dele, isto é, de Jeová, uma fonte. Isto é, eles confiam, e dele esperam socorro, os que, tendo caminhos retos em mente, precisam atravessar muitas dificuldades. Socorro semelhante buscam os que, sofrendo por escassez de água, avançam por um vale seco, e ainda assim não desesperam nem se cansam, mas têm Deus por fonte, da qual bebem e são reconfortados. Venema.
O vale de Baca. Vale dos arbustos de lágrimas. E. W. Hengstenberg.
Baca significa uma amoreira, que gosta de crescer em lugares secos, arenosos e áridos, 2 Samuel 5:23-24, ou 1 Crônicas 14:14-15. Ora, aqueles cujo coração está posto na casa de Deus e no culto sagrado, quando vão para lá através de um vale arenoso, seco e árido, fazem dele um poço — isto é, reputam-no e contam-no como um poço; a palavra rhrtysy significa pôr ou colocar, como em Gênesis 3:15; Salmos 21:6,12; 83:11,13. Pois assim dirão consigo mesmos, pensando no conforto do favor de Deus a quem vão, que isso lhes será como a chuva das bênçãos, uma chuva farta e generosa sobre a terra. Thomas Pierson.
Fazem dele um poço. Aquilo que parecia um obstáculo se torna um auxílio; ao menos, nenhuma miséria pode ser tão grande, nenhum estado tão árido, que um coração piedoso não possa transformar em poço, do qual tirar água de consolo; seja água para limpar, e fazer dele um caminho de arrependimento; seja água para refrescar, e fazer dele um caminho de paciência; seja água para umedecer, e fazer dele um caminho de crescimento na graça; e, se o poço porventura estiver seco, e não der água de baixo, ainda assim a chuva encherá as suas poças, e lhes suprirá água de cima. Se as forças naturais não bastarem, graças sobrenaturais virão em auxílio, de modo que, embora as tribulações do mundo pareçam obstáculos no caminho da bem-aventurança, na verdade não o são; não impedem chegar à meta a que visamos, não impedem que sejamos feitos membros de Sião, não impedem que nos aproximemos da presença de Deus. Não, minha alma, são antes ajudas, pois por esse meio vamos de força em força, da força da paciência à força da esperança; da força da esperança à força da fé, à força da visão; e então se cumprirá o que Davi diz aqui: bem-aventurado o homem cuja força está em Deus, e em cujo coração estão os seus caminhos. Sir Richard Baker.
A chuva. Por pouca que seja a água, esse pouco basta em seu caminho. É um poço para eles. Encontram apenas "poças que a chuva temporã (apenas) cobriu" — mas se contentam com o que se lhes provê pelo caminho. É tão bom e suficiente para eles quanto se as fortes chuvas do outono tivessem enchido o poço. Peregrinos esquecem a escassez de água numa hospedaria, quando têm fartura à vista no fim do caminho. Israelitas que subiam para a Páscoa pouco se importavam com a falta de água, pois seus corações estavam postos em chegar a Jerusalém. Andrew A. Bonar.
Versículos 6–7Salmo 84:6-7
O presente mais sombrio se torna claro para eles: atravessando até mesmo um deserto terrível, eles o transformam num lugar de fontes; sua esperança jubilosa e a infinita beleza da meta, que vale qualquer quantidade de labuta e aflição, lhes proporcionam consolo revigorante, refrescante, fortalecedor, em meio à estepe árida.
Não é apenas a fé deles que faz brotar água da areia e das rochas do deserto, mas também Deus, de sua parte, antecipa amorosamente o amor deles, e antecipa, como recompensa, sua fidelidade: uma chuva suave, como a que refresca os campos semeados no outono, desce do alto e envolve o vale de Baca numa plenitude de bênção... a estepe árida se torna resplandecente com um vestido festivo de flores (Isaías 35:1-19), não em aparência exterior, mas para eles espiritualmente, de modo não menos verdadeiro e real. E, enquanto em circunstâncias comuns a força do viajante diminui à medida que percorre mais e mais de seu caminho fatigante, com eles é exatamente o contrário; vão de força em força. Franz Delitzsch.
Versículo 7Salmo 84:7
Vão de força em força. Junius o lê assim, e assim está no hebraico: "Vão de companhia em companhia." Ao subirem para Jerusalém, iam em tropas e companhias. Talvez o traduzamos como "força" porque grande parte de nossa segurança consiste em boa companhia. George Swinnock.
Cada um deles em Sião comparece diante de Deus. Isto é, cada um deles que corresponde ao caráter descrito. Outros, além destes, também compareceriam em Sião diante de Deus; mas não para gozar de sua presença, nem para receber sinais de seu favor. A bem-aventurança não era para ser desfrutada por acaso, mas só podia ser desfrutada por aqueles que antes haviam sido preparados para ela pelo caráter e pela conquista. Tão certamente quanto estes a tinham adquirido, tão certamente cada um deles desfrutaria dessa bem-aventurança.
Cada um deles em Sião comparece diante de Deus. Nenhum pereceu pelo caminho — nenhum foi devorado por feras — nenhum foi eliminado por bandoleiros errantes — nenhum desanimou e voltou atrás. Todas as tropas estão reunidas — jovens e velhos, fracos e fortes; todos respondem por seus nomes, e testemunham a bondade do Senhor que os sustentou e conduziu — que lhes deu descanso e lhes concedeu alegria.
Assim será sempre com os verdadeiros peregrinos espirituais. A graça de Deus sempre se mostrará suficiente para preservá-los, seguros e irrepreensíveis, até o seu reino e glória celestiais — as tribulações não os afogarão, as tentações não os vencerão de todo, os inimigos espirituais não os destruirão. Eles são guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação, prontos para ser revelados no último tempo. Seus nomes estão escritos no livro da vida do Cordeiro, e o próprio Cordeiro cuidará para que cada um deles seja encontrado no dia da prestação de contas. Então poderá ele dizer: Dos que me deste, nenhum se perdeu. "Estão todos aqui diante de Deus." William Makelvie, 1863.
Versículo 8Salmo 84:8
Há dois pensamentos distintos, de grande valor prático para o cristão, nesta breve oração. Há o senso da majestade divina, e a consciência do relacionamento divino. Como Senhor dos Exércitos, ele é onipotente; como Deus de Jacó, ele é infinito em misericórdia e bondade para com o seu povo. Things New and Old.
Versículo 9Salmo 84:9
Enquanto muitos, infelizmente, se contentam com meras formalidades na religião, ou com a discussão árida de doutrinas, altas ou baixas, como as chamem, ocupa-te tu mesmo com o próprio Cristo. É o conhecimento de sua pessoa que dá força e alegria à alma. Em todo tempo, em toda circunstância, podemos dizer: Olha para o rosto do teu Ungido. Nem sempre podemos dizer: Olha para nós; mas podemos sempre dizer: Olha para Ele. Na mais profunda tristeza, por causa de um fracasso consciente, ou em provações e dificuldades por causa da fidelidade ao seu nome, podemos sempre alegar diante de Deus o que Cristo é.
Deus está sempre bem satisfeito com ele — sempre ocupado com ele como ressuscitado dos mortos e exaltado à sua própria destra nos céus; e ele quer que também nós estejamos ocupados com ele, como o único objeto exclusivo do coração. A verdadeira fé só pode descansar sobre a avaliação que Deus faz de Cristo, não sobre pensamentos e sentimentos íntimos. Aquilo que se pode chamar de fé do formalista repousa na capacidade de sua própria mente para julgar essas questões. Ele confia em si mesmo. Esta é a diferença essencial entre a fé aparente e a fé real. Things New and Old.
Olha para o rosto do teu ungido. Pois jamais chegarei a contemplar o teu rosto, se tu não te dignares primeiro olhar para o meu: se não me concederes tanto o benefício de teus olhos, para olhar para mim, quanto o favor de teus ouvidos, para me ouvir, ficarei apenas numa mera expectativa, mas jamais chegarei à felicidade de gozar o que espero; mas quando te dignas olhar para o meu rosto, esse teu olhar traz consigo toda verdadeira bem-aventurança, e me faz descobrir que felicidade é ter o Deus de Jacó por meu escudo. Sir Richard Baker.
Versículo 10Salmo 84:10
Um dia. O menor bom olhar que um homem recebe de Deus, e a menor boa palavra que um homem ouve de Deus, e a menor carta de amor e penhor de amor que um homem recebe de Deus são de valor imenso para aquele que tem Deus por herança. Um dia nos teus átrios é melhor que mil. Ele não diz: Um ano nos teus átrios é melhor que mil em outro lugar, mas: Um dia nos teus átrios é melhor que mil em outro lugar; nem diz: Um trimestre nos teus átrios é melhor que mil em outro lugar, mas: Um dia nos teus átrios é melhor que mil em outro lugar; nem diz: Um mês é melhor que mil, mas: Um dia nos teus átrios é melhor que mil em outro lugar — para mostrar que até o mínimo de Deus é imensamente precioso para uma alma cheia de graça que tem Deus por sua herança. Thomas Brooks.
Outro sinal dos filhos de Deus é o prazer de estar muito na presença de Deus. Os filhos devem estar na presença do pai; onde está o Rei, ali está a corte; onde está a presença de Deus, ali está o céu. Deus está de modo especial presente em suas ordenanças; elas são a Arca de sua presença. Ora, se somos seus filhos, amamos estar muito nos santos deveres. No uso das ordenanças nos aproximamos de Deus, entramos na presença de nosso Pai; na oração temos conferência secreta com Deus; a alma, enquanto ora, é como quem negocia com Deus. Na palavra ouvimos Deus falando do céu a nós; e como todo filho de Deus se deleita em ouvir a voz de seu Pai! No sacramento, Deus beija seus filhos com os beijos de sua boca; dá-lhes um sorriso de seu rosto, e um selo secreto de seu amor: ah, é bom aproximar-se de Deus. É doce estar em sua presença: todo verdadeiro filho de Deus diz: "Um dia nos teus átrios é melhor que mil!" Thomas Watson.
Preferiria ser porteiro, etc. Alguns o leem: "Preferiria ficar preso a um umbral na casa do meu Deus, do que viver livre nas tendas dos ímpios"; aludindo à lei sobre os servos, que, se não quisessem sair livres, teriam a orelha furada no umbral da porta, Êxodo 21:5-6. Davi amava tanto o seu Senhor, e amava tanto a sua obra, que desejava estar ligado a esse serviço para sempre, para ser mais livre para ele, mas nunca sair livre dele, preferindo as amarras ao dever, muito antes que a maior liberdade para pecar. Tamanho é o deleite supremo que os corações santos têm nos deveres santos; nenhuma satisfação, em sua conta, se compara à da comunhão com Deus. Matthew Henry.
Preferiria ser porteiro. No sentido em que Cristo é uma Porta, Davi bem pode contentar-se em ser um Porteiro, e, embora na casa de Deus haja muitas moradas, sendo todas elas gloriosas, até o lugar do porteiro não está sem a sua glória. Mas, se pensas que o cargo é humilde, considera então de quem ele é oficial, pois até um porteiro é um oficial na casa de Deus, e Deus nunca destitui os seus oficiais, a não ser para promovê-los a algo mais alto; ao passo que, nas cortes dos príncipes, os maiores oficiais são frequentemente destituídos, muitas vezes despedidos com desonra. Sir Richard Baker.
Preferiria ser porteiro na casa do meu Deus, etc. Felizes as pessoas a quem Deus usará como vassouras para varrer o pó de seu templo; ou que puxarão um remo no barco em que Cristo e sua igreja estão embarcados. William Secker, em The Nonsuch Professor.
Porteiro. Este é um salmo dos coreítas, e os descendentes de Coré eram, de fato, porteiros, e "guardas das portas do tabernáculo, e guardas da entrada", além de terem permissão para engrossar o coro dos cantores inspirados de Israel. Bossuet, citado por Neale e Littledale.
Em vez de "preferiria ser porteiro", a margem traz, segundo o hebraico: "Prefiro sentar-me ao limiar." A tradução de Ainsworth é: "Escolhi sentar-me ao limiar, na casa do meu Deus"; e a do Dr. Boothroyd é: "Permanecer, ou sentar-se, ao limiar." Veja 2 Reis 12:9; 22:4; 25:18; 1 Crônicas 9:19; 2 Crônicas 23:4; Ester 2:21; 6:2. Em todas essas passagens, a leitura marginal é "limiar". Penso que a palavra "porteiro" não transmite o sentido próprio da expressão "sentar-se ao limiar", porque a preferência do salmista era, evidentemente, por uma posição muito humilde; ao passo que a de porteiro, na estimativa oriental, é, na verdade, respeitável e de confiança. A leitura marginal, porém, "sentar-se ao limiar", impressiona de imediato uma mente oriental como situação de profunda humildade. Observe o pobre devoto pagão: ele vai e se senta perto do limiar de seu templo. Observe o mendigo: ele se senta, ou se prostra, ao limiar da porta ou do portão, até que consiga o que pede. Joseph Roberts.
Casa. Tendas. Observe a força das expressões contrastadas. A casa é do Senhor; as tendas são dos ímpios. Os prazeres do pecado duram apenas por uma estação; o mundo passa, e a sua concupiscência também. Arthur Pridham.
As tendas. Não se trata de tendas quaisquer, ou de tendas de tipo comum, mas de tendas ricas, poderosas, gloriosas e esplêndidas. Venema.
Versículo 11Salmo 84:11
O Senhor Deus é sol transmite uma verdade impressionante e marcante, quando pensamos no sol apenas em seu caráter óbvio de fonte de luz e calor. Mas que nova energia se dá a essa magnífica figura quando aprendemos, pela astronomia, que ele é um grande centro de atração, e quando, além disso, entendemos essa generalização sublime de que o sol é a fonte última de toda forma de força existente no mundo!
O vento leva o comércio de cada nação sobre o mar imenso; mas foi o calor do sol que rarefez aquele ar e pôs o vento em movimento. A corrente que desce rende uma força que mói o grão, gira os fusos, move os teares, aciona as forjas; mas isso porque o sol recolheu o vapor do oceano, que caiu sobre as colinas, e agora encontra o caminho de volta à fonte de onde veio. A energia expansiva do vapor impulsiona a máquina; mas a força com que opera está guardada no carvão (os restos de florestas extintas, armazenados sob suas colinas), ou vem da lenha abundante em suas florestas. Tanto essas florestas primevas quanto as atuais tiraram sua substância do sol: é a força química residente em seus raios que desprendeu o carbono da atmosfera, e o guardou como fonte de força para uso futuro.
O animal exerce uma força pela contração muscular; ele a extrai do vegetal de que se alimenta; o vegetal a deriva do sol, cujos raios determinam seu crescimento. Cada vez que ergues o braço, cada vez que dás um passo, estás usando a força que o sol te deu. Quando entras num vagão de trem, é a força do sol que te leva adiante. Quando brisas suaves refrescam tua face cansada, e quando o tornado inquieto arrasa cidades em sua fúria, ambos são servos do sol. Que figura daquele em quem vivemos, nos movemos e existimos! Professor Green.
O sol, que entre todas as criaturas inanimadas é a mais excelente, indica toda espécie de excelência, provisão e prosperidade; e o escudo, que entre todas as criaturas artificiais é o mais notável, indica toda espécie de proteção. Sob o nome de graça, todo bem espiritual está envolto; e sob o nome de glória, todo bem eterno está envolto; e na última cláusula, nenhum bem ele negará, está envolto todo bem temporal: tudo somado revela que Deus é uma porção plenamente suficiente. Thomas Brooks.
O Senhor Deus é um escudo. Ele é um escudo para as nossas pessoas: "Não toqueis", disse ele, "no meu ungido, e não façais mal aos meus profetas." "O Senhor", disse Moisés em seu nome, "o Senhor guardará a tua saída e a tua entrada. Ele dará ordem aos seus anjos para te guardarem em todos os teus caminhos, para que nunca tropeces com o pé em pedra alguma. Consideraste o meu servo Jó?", disse Deus a Satanás. "Sim", respondeu Satanás, "considerei; puseste uma cerca ao redor dele." Sim, irmãos: o Senhor Deus é um escudo.
Ele é um escudo para as nossas graças. O desagrado e a malícia de Satanás visam principalmente a nós quando nos tornamos sujeitos da influência divina. "Simão, Simão", disse o nosso Salvador, "Satanás vos pediu para vos peneirar como trigo, mas", acrescenta ele, "eu orei por ti, para que a tua fé não desfaleça." Havia ali um escudo para a fé daquele bom homem, ou ele e ela já teriam se ido. Podes lembrar do nome Pouca-Fé, no Peregrino de Bunyan. Parece que Cheio-de-Esperança ficou muito surpreso por os ladrões não terem tirado suas joias; mas foi levado a entender que elas não estavam sob sua própria guarda.
Sim, cristão, ELE será teu "escudo" para cobrir a tua esperança quando ela parecer estar às portas da morte... Sim, e ele será um escudo para os teus bens. "Não puseste tu uma cerca ao redor de tudo o que ele tem?" Embora Jó tenha sido provado por algum tempo, seus bens foram apenas postos a render juros; logo depois voltaram cem vezes mais; e ele ganhou, além disso, um vasto acréscimo de conhecimento e de graça. Matthew Wilks, 1746-1829.
Voltai vossos pensamentos para essa combinação: o Senhor Deus é sol e escudo. Como sol, ele me mostra cada vez mais a minha condição pecaminosa; mas então, como escudo, me dá poder para me opor a ela, e a certeza de que a vencerei. Como sol, ele revela tanto da enormidade da culpa, que sou forçado a exclamar: "As minhas iniquidades são como fardo pesado demais para eu suportar"; mas então, como escudo, me mostra que pôs esse fardo sobre um Fiador, que o levou para uma terra de esquecimento. Como sol, ele me faz sentir, dia a dia, mais e mais, a total impossibilidade de eu mesmo produzir uma justiça própria; mas então, como escudo, fixa constantemente meus pensamentos naquela justiça de seu Filho, que é meritoriamente transmitida a todos os que creem no seu nome.
Como sol, em suma, ele traz ao meu conhecimento fatos (visto que me revela a mim mesmo e aos meus inimigos) que fariam a libertação parecer inatingível e sem esperança, se ele não fosse, ao mesmo tempo, um escudo; mas, visto que ele é tanto escudo quanto sol, as revelações que faz como sol apenas me preparam para as bênçãos que concede como escudo.
Quem, pois, se admirará de que, depois de anunciar o caráter de Deus, o salmista irrompa em expressões de confiança e certeza? Pode ser que, à medida que a corrupção da natureza se apresenta diante de mim, cada vez mais profunda, mais ampla e mais escura, Satanás me assedie com a sugestão: "A culpa é velha demais para ser erradicada, e grande demais para ser perdoada"; e, se Deus fosse apenas sol, e nada mais, seria difícil afastar essa sugestão como artimanha do pai da mentira. Eu poderia então temer. Poderia temer a santidade de Deus, pensando que jamais seria apto para a comunhão com a Divindade; poderia temer a justiça de Deus, pensando que jamais encontraria absolvição no último e terrível julgamento.
Mas posso temer qualquer uma delas, quando, além de sol, Deus é também escudo? Posso temer a justiça de Deus, quando, como escudo, ele lança à minha conta sofrimentos que satisfazem a lei, até a última pena? Posso temer sua santidade, quando ele me dá parte numa obediência que cumpre todo preceito? Não me ajuda o caráter do escudo a dissipar as inquietações que bem poderiam surgir da operação do outro caráter, o do sol?
E não estou eu autorizado — antes, não estarei vivendo muito abaixo do meu privilégio — se deixo de extrair dessa combinação de caráter uma ousadia e uma confiança que não se deixem abater por essas suspeitas cujo autor é Satanás? Como sol, Deus me mostra a mim mesmo; como escudo, Deus se mostra a si mesmo. O sol revela o meu próprio nada; o escudo, a suficiência divina. Um me permite discernir que não mereço senão ira, e não posso ganhar senão vergonha; o outro, que tenho direito à imortalidade, e posso reivindicar uma herança duradoura no céu. Aprendo, em suma, de Deus como Sol, que, se recebo "salário", terei a morte eterna; mas de Deus como Escudo, que, se receber o "dom gratuito", posso ter "vida eterna".
A quem, então, temerei? A mim mesmo — confessadamente meu pior inimigo? O "Sol" faz o homem recuar diante de si mesmo; o "Escudo" lhe garante que será protegido contra si mesmo e edificado "como habitação de Deus no Espírito". Recuarei diante de Satanás e das hostes de principados e potestades? O "Sol" os mostra terríveis em seu poder e veementes em sua malícia; mas o "Escudo" os exibe despojados e levados cativos, quando Cristo morreu e ressuscitou. Temerei a morte? De fato, o "Sol" torna a morte terrível, obrigando-me a ler a maldição de Deus nos membros imóveis e nos traços que se decompõem; mas então o "Escudo" mostra o sepulcro aberto, o pó vivificado, as maravilhas de uma ressurreição, o monte, o oceano e o vale entregando as gerações adormecidas.
Deve-se temer a morte? Tome-se o catálogo das coisas que, enquanto criaturas caídas, Deus, como nosso "Sol", nos instrui a temer; e descobriremos que, enquanto criaturas redimidas, Deus como nosso "Escudo" nos capacita a triunfar sobre todos os nossos temores. Quem, pois, hesitará em concordar que dessa combinação de caráter resulta exatamente aquele sistema de contrapeso que afirmamos poder-se descobrir tanto na graça quanto na providência? Quem pode deixar de reconhecer, se de fato foi disciplinado por esse ensino duplo, que informa ao homem, primeiro, que ele se destruiu a si mesmo, e depois, que Deus "pôs socorro sobre alguém poderoso" — sendo a primeira lição humilhante, a segunda encorajadora, abrindo uma o caminho para a outra, de modo que o aprendiz se esvazia de toda falsa confiança para se tornar apto a acolher a verdadeira? Ah! quem, dizemos, pode deixar de colher, dessa combinação do caráter divino, a inferência tirada pelo salmista? A saber, exclamar (depois de registrar que "o Senhor Deus é Sol e Escudo") — ele dará graça e glória: nenhum bem negará ele aos que andam retamente? Henry Melvill.
As palavras deste texto são como uma voz do céu, convidando-me a subir até lá, e respondendo a todas as dúvidas e temores dos que creem e seguem esse som jubiloso. Estarei em trevas, e temerei nunca encontrar o caminho? Abre teu olho, ó minha alma! Olha para cima, para o Pai das luzes: o Senhor é um sol, cujos raios firmes dirigirão os teus passos. Há um véu interior a ser removido de minha mente, além da obscuridade do meu caminho? Ele é suficiente para ambos. Deus, que ordenou que a luz brilhasse das trevas, pode brilhar no coração, para dar a luz do conhecimento de sua glória, e conduzir a ela (2 Coríntios 4:6). Ele pode fazer nascer o dia, e a estrela da manhã surgir em nossos corações (2 Pedro 1:19), e, por ambos, guiar nossos pés no caminho da paz (Lucas 1:79).
A mesma luz que descobre o meu caminho descobre também que oposição vou encontrar? Que inimigos e perigos terei de atravessar? Ouve, ó minha alma: o Senhor é um escudo. Luz e força estão unidas; ninguém pode fracassar sob a sua condução, nem tem motivo para desanimar. Com isto ele consola a Abraão: Gênesis 15:1, "Não temas, eu sou o teu escudo." Gemerei sob o senso de minha inaptidão para o reino celestial? Que isto sustente minha alma: o Senhor dará graça. Sou de todo indigno de tão alta felicidade? Ela nasce de seu próprio amor livre e ilimitado; o Senhor dará glória. Sou pressionado por mil necessidades que precisam de suprimento — que mais se pode acrescentar? Nenhum bem negará ele aos que andam retamente. Nada que seja mau pode ser desejado; e nada que seja bom será negado. Aqui, ó minha alma, está uma fonte aberta; aqui tua sede ardente pode ser plenamente saciada; teus maiores desejos, satisfeitos; e tua mente, enfim, em repouso. Daniel Wilcox.
Por que precisaria um santo de temer as trevas, tendo um sol assim para guiá-lo? Ou de temer os perigos, tendo um escudo assim para protegê-lo? William Secker.
O Senhor dará glória. "O homem", diz um sábio autor, "é a glória deste mundo inferior; a alma é a glória do homem; a graça é a glória da alma; e o céu é a glória da graça." O céu, ou glória, é a graça amadurecida e levada à perfeição infinita; ali veremos o seu rosto, e teremos o seu nome escrito em nossas frontes; e reinaremos com ele para todo o sempre. Matthew Wilks.
Nenhum bem negará ele, etc. Mas como isso é verdade, quando Deus muitas vezes nega riquezas, honras e saúde do corpo aos homens, ainda que andem tão retamente quanto possam? Devemos, pois, saber que honras, riquezas e força corporal não são bens de Deus; pertencem ao número das coisas indiferentes, que Deus concede promiscuamente aos justos e aos injustos, como a chuva que cai e o sol que brilha. Os bens de Deus são, sobretudo, a paz de consciência e a alegria no Espírito Santo nesta vida; a fruição da presença de Deus, e a visão de seu rosto bendito na outra, e esses bens Deus nunca concede aos ímpios, nem nunca os nega aos piedosos, e todos se resumem numa só soma, onde se diz: Beati mundo corde, quoniam ipsi Deum videbunt: Bem-aventurados os limpos de coração (e tais são apenas os que andam retamente), porque eles verão a Deus.
Mas será que andar retamente é coisa de tanto peso diante de Deus, que mereça tal recompensa? Não seria mais agradável a Deus ver-nos andar curvados do que eretos, visto que curvar-se é o porte da humildade, do que nada há mais agradável a Deus? É, sem dúvida, coisa difícil curvar-se e andar ereto ao mesmo tempo, mas ambos precisam ser feitos, e ambos são de fato feitos, ao mesmo tempo, por todo aquele que é piedoso; mas quando digo que são feitos ao mesmo tempo, não me refiro ao corpo — sei que essas duas posturas do corpo, ao mesmo tempo, são impossíveis — mas a alma pode fazê-lo, a alma pode curvar-se e andar ereta ao mesmo tempo; pois é então que a alma anda ereta diante de Deus, quando se curva em humildade diante de Deus e dos homens. Sir Richard Baker.
Esta é uma fonte imensa; que o Senhor encha todos os baldes de nossos corações na nascente, e nos dê almas capazes, assim como ele tem mão generosa. Thomas Adams.