Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 95

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 95, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 95 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Todo o Salmo. Estes seis salmos, do 95 ao 100, formam, se não me engano, um único poema profético, citado por Paulo na Epístola aos Hebreus sob o título de A Introdução do Primogênito no mundo. Cada salmo tem seu assunto próprio, que é um ramo particular do argumento geral: o estabelecimento do Reino do Messias. O Salmo 95 afirma a divindade de Jeová e seu poder sobre toda a natureza, e exorta seu povo a servi-lo. No Salmo 96, todas as nações são exortadas a se unir a esse serviço, porque ele vem para julgar toda a humanidade, judeus e gentios.

No Salmo 97, Jeová reina sobre todo o mundo, os ídolos são abandonados, o Justo é glorificado. No Salmo 98, Jeová fez maravilhas e operou livramento por si mesmo: lembrou-se da sua misericórdia para com a casa de Israel; ele vem para julgar o mundo inteiro. No Salmo 99, Jeová, assentado entre os querubins em Sião, a Igreja visível, reina sobre todo o mundo, para ser louvado pela justiça do seu governo. No Salmo 100, todo o mundo é chamado a louvar Jeová, o Criador, cuja misericórdia e verdade são eternas.

— Samuel Horsley.

Todo o Salmo. Este salmo é citado duas vezes na Epístola aos Hebreus, como advertência aos cristãos judeus de Jerusalém, nos dias do autor, para que não vacilassem na fé nem desprezassem as promessas de Deus, como haviam feito seus antepassados no deserto, para que não viessem a falhar em entrar no seu descanso; veja-se Hebreus 3:7, onde o versículo 7 deste salmo é introduzido com as palavras: "Como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz"; e veja-se Hebreus 4:7, onde se diz: "Determinando outra vez um certo dia, Hoje, dizendo por Davi."

Alguns têm inferido dessas palavras que o autor da Epístola aos Hebreus atribui este salmo a Davi. Pode ser que sim. Mas não parece improvável que as palavras "em Davi" signifiquem simplesmente "o Livro dos Salmos", sendo o todo nomeado pela parte maior; e que, se o autor quisesse dizer que Davi escreveu o salmo, teria escrito "Davi falou", ou "o Espírito Santo falou por Davi", e não, como está escrito, "como se diz em Davi."

— Christopher Wordsworth.

Versículo 1Salmo 95:1

Vinde, cantemos ao Senhor, etc. O primeiro versículo do salmo abre o convite ao louvor e à exultação. É um cântico de três partes, e cada parte (como a porção de ovelhas de Jacó) gera gêmeos; cada uma é, por assim dizer, uma corda dupla na música deste louvor, finamente entrelaçada de duas partes numa espécie de concordância discordante, caindo num fecho musical por meio de um diapasão diferente, mas reconciliado. O primeiro par deste cântico de louvor é multidão e unidade, ajuntamento e concórdia: em "vinde" está a multidão e o ajuntamento; em "cantemos" está a unidade e a concórdia.

O segundo par entrelaçado é língua e coração: em "cantemos" está a voz e o som; e em "regozijemo-nos de coração" está o coração e a alma. A terceira e última corda entrelaçada, ou parte na música, é poder e misericórdia — força (ou rocha) e salvação: a força de Deus e a nossa salvação: "à força (ou rocha) da nossa salvação."

— Charles Herle (1598–1659), em um "Sermão perante a Câmara dos Lordes", intitulado "O Cântico de Três Partes de Davi".

Vinde. A palavra "vinde" contém uma exortação, incitando-os a unir coração e lábios no louvor a Deus; assim como a palavra é usada em Gênesis, onde o povo, incitando-se e encorajando-se mutuamente, diz: "Vinde, façamos tijolos"; e "Vinde, façamos para nós uma cidade e uma torre"; e, no mesmo capítulo, o Senhor diz: "Vinde, desçamos, e ali confundamos a sua língua."

— Belarmino.

Se é verdade que um só "vinde, façamos" vai mais longe do que vinte vezes "ide e fazei", como devem zelar aqueles que Deus elevou a lugares de eminência para que seus exemplos sejam escadas de Jacó, que ajudem os homens a subir ao céu, e não tropeços de Jeroboão, que os façam cair no caminho e levem Israel a pecar.

— Charles Herle.

Há aqui uma alusão silenciosa àquela indolência humana e distração de cuidados pela qual estamos mais prontos a correr atrás de outras coisas do que a nos dedicar seriamente aos devidos louvores e ao serviço de Deus. Nosso pé tem maior propensão a partir para o campo, para os bois e para a esposa nova, do que a vir aos átrios sagrados (Lucas 14:18 e seguintes). Veja-se Isaías 2:3: "Vinde, e subamos ao monte do Senhor."

— Martin Geier.

Som de júbilo. O verbo hebraico rua significa produzir um som alto de qualquer tipo, seja com a voz, seja com instrumentos. Nos salmos, geralmente se refere à mistura de vozes e vários instrumentos no serviço do templo. Esse sentido amplo da palavra não pode ser expresso em português senão por uma perífrase.

— Samuel Horsley.

A rocha da nossa salvação. Jesus é a Rocha dos séculos, na qual se abre uma fonte para o pecado e a impureza; a Rocha que acompanha a igreja no deserto, derramando a água da vida para seu uso e consolo; a Rocha que é nossa fortaleza contra todo inimigo, dando sombra e refrigério a uma terra cansada.

— George Horne.

Versículo 2Salmo 95:2

Cheguemos à sua presença. Em hebraico, "preveni-lhe a face", estejam ali primeiro. "Iremos apressadamente... eu também irei", Zacarias 8:21. Que o louvor espere por Deus em Sião, Salmo 65:1.

— John Trapp.

(segunda cláusula). Cantemos-lhe em voz alta o cântico medido. A palavra hebraica zemirot, tomo eu, designa cânticos em verso medido, ajustados aos compassos de um canto.

— S. Horsley.

Versículo 3Salmo 95:3

Quem tem a intenção de louvar a Deus não há de carecer de motivo de louvor, como os que se apresentam diante de príncipes que, por lhes faltarem verdadeiros fundamentos de louvor, lhes dirigem palavras lisonjeiras; pois o Senhor é o grande Deus, em poder e preeminência, em força e permanência.

— David Dickson.

O Ser Supremo tem aqui três nomes: El, Jeová (YHWH), Elohim, e não devemos aplicar nenhum deles a falsos deuses. O primeiro implica sua força; o segundo, seu ser e essência; o terceiro, sua relação de aliança com a humanidade. No culto público, estas são as perspectivas que devemos ter a respeito do Ser Divino.

— Adam Clarke.

Sobre todos os deuses. Quando ele é chamado grande Deus e Rei sobre todos os deuses, podemos justamente supor que a referência seja aos anjos, que costumam ser designados absolutamente por este nome, e também aos juízes supremos da terra, que também ostentam este título, como o vemos no Salmo 82:1-8.

— Venema.

Versículo 4Salmo 95:4

Na sua mão. O domínio de Deus se funda na sua preservação das coisas. "O Senhor é o grande Rei sobre todos os deuses." Por quê?

Na sua mão estão as profundezas da terra. Enquanto sua mão sustenta, sua mão exerce domínio sobre elas. Quem segura uma pedra no ar exerce domínio sobre sua inclinação natural de cair. A criatura depende inteiramente de Deus para sua preservação; assim que aquela mão divina que sustenta todas as coisas fosse retirada, o desfalecimento e o desmaio seriam o próximo destino da criatura. Ele é chamado Senhor, Adonai, quanto à sua sustentação de todas as coisas por seu influxo contínuo — palavra que vem de eden, que significa base ou pilar que sustenta um edifício. Deus é o Senhor de tudo, pois é o sustentador de tudo por seu poder, assim como o Criador de tudo por sua palavra.

— Stephen Charnock.

"Em cuja mão estão os recônditos da terra

E os tesouros dos montes são seus."

— Tradução de Thomas J. Conant.

Na sua mão estão as profundezas da terra. Isso traz consolo àqueles que, pela glória do nome divino, são lançados em prisões e cavernas subterrâneas; porque sabem que, mesmo ali, não é possível estar minimamente separados da presença de Cristo. Por isso ele preservou José quando foi lançado por seus irmãos na cisterna antiga, e quando foi arrastado à prisão por sua senhora sem vergonha; também Jeremias, quando lançado na masmorra; Daniel entre os leões, e seus companheiros na fornalha. Assim, todos os que se apegam a ele com fé firme, ele maravilhosamente guarda e livra até hoje.

— Solomon Gesner, 1559–1605.

Na sua mão estão as profundezas da terra. Como ilustração da atuação e presença do Senhor nas minas, no interior da terra, selecionamos o seguinte: "A disposição natural do carvão em porções separadas", diz o autor de um excelente artigo na Edinburgh Review, "não é apenas um fenômeno geológico, mas também tem relevância para considerações naturais. É notável que essa disposição natural seja justamente a que torna o combustível mais acessível e mais fácil de minerar.

Se o carvão estivesse situado em sua profundidade geológica normal — isto é, supondo que os estratos fossem todos horizontais, não perturbados nem soerguidos — estaria muito além do alcance humano. Se estivesse depositado continuamente numa única camada superficial uniforme, teria sido explorado com demasiada facilidade e, portanto, com demasiada rapidez, de modo que todas as qualidades superiores teriam se esgotado, restando apenas as inferiores; mas, do modo como hoje se encontra, é fragmentado por perturbações geológicas em porções separadas, cada uma delimitada e restrita em área, cada uma suficientemente acessível ao alcance e ao trabalho do homem, cada uma administrável por meios mecânicos, e cada uma capaz de escavação gradual sem estar sujeita a esgotamento súbito.

A pilhagem egoísta é em parte impedida por barreiras naturais, e somos advertidos contra o desperdício imprudente pela relativa fineza das camadas de carvão, bem como pela dificuldade cada vez maior de explorá-las em profundidades crescentes. Pela separação das camadas umas das outras, e por intervalos variados de arenitos e xistos estéreis, impõe-se um ritmo de extração tão medido que nos impede de roubar por completo da posteridade o mais valioso combustível mineral, ao mesmo tempo em que o próprio combustível é preservado daquelas fraturas, esboroamentos e desabamentos extensos que certamente resultariam de uma mineração em larga escala do melhor carvão betuminoso, caso estivesse todo reunido numa única massa vasta.

De fato, por um evidente exercício de previdência e benevolência do Grande Autor de todas as nossas bênçãos, nosso inestimável combustível foi armazenado para nós em depósitos ao mesmo tempo mais compactos, mais acessíveis e menos esgotáveis, e distribuído localmente nas situações mais convenientes. Nossos campos de carvão são como bancos betuminosos, nos quais há fartura suficiente para uma moeda adequada, mas, contra qualquer corrida repentina sobre eles, a natureza interpôs numerosos freios; reservas inteiras do precioso combustível permanecem sempre trancadas no cofre subterrâneo sob a proteção invencível de pesadas camadas de rocha. É fato notável que, neste século dezenove, depois de tão longa habitação da terra pelo homem, se olharmos as quantidades na perspectiva ampla de todos os campos de carvão conhecidos, tão pouco carvão foi escavado que resta fartura para uma posteridade muito remota, ainda que nossos melhores campos de carvão venham então a se esgotar."

Mas não é apenas nessas reservas inesgotáveis de combustível mineral que encontramos provas da previdência divina; todos os demais tesouros da terra convencem-nos igualmente da íntima harmonia entre sua estrutura e as necessidades do homem. Composta de uma maravilhosa variedade de terras e minérios, ela contém uma abundância inesgotável de todas as substâncias que ele necessita para alcançar um grau mais elevado de civilização.

É para seu uso que o ferro, o cobre, o chumbo, a prata, o estanho, o mármore, o gesso, o enxofre, o sal-gema e uma variedade de outros minerais e metais foram depositados nas veias e fendas, ou nas minas e pedreiras, do mundo subterrâneo. É para seu benefício que, da decomposição das rochas sólidas, resulta aquela mistura de terras e álcalis, de marga, cal, areia ou greda, tão favorável à agricultura. É para ele, finalmente, que, filtrando-se pelas entranhas da terra e dissolvendo substâncias salutares em seu caminho, as fontes termais jorram carregadas de tesouros mais inestimáveis do que aqueles pelos quais o mineiro se afadiga.

Supondo que o homem jamais estivesse destinado a viver, bem poderíamos perguntar por que todos esses dons da natureza, inúteis a todos os seres vivos exceto a ele, por que aqueles vastos campos de carvão, aqueles leitos de minério de ferro, aqueles depósitos de enxofre, aquelas fontes salutares, teriam sequer sido criados? Sem ele não há desígnio, nem propósito, em sua existência; com ele, tornam-se maravilhosas fontes de saúde ou instrumentos necessários de civilização e progresso. Assim, as revoluções geológicas da crosta da terra apontam harmoniosamente para o homem como seu futuro senhor; assim, na vida do nosso planeta e na de seus habitantes, encontramos por toda parte provas de uma unidade gigantesca de plano, abrangendo incontáveis eras em seu desenvolvimento e progresso.

— G. Hartwig, em "As Harmonias da Natureza", 1866.

As profundezas da terra, penetralia terrae, que se opõem às alturas dos montes, e claramente significam as partes mais profundas e mais retiradas do globo terráqueo, exploráveis apenas pelos olhos de Deus, e somente pelos dele.

— Richard Mant.

A força dos montes. A palavra traduzida por "força" está no plural em hebraico, e parece significar propriamente esforços fatigantes, dos quais alguns derivam a ideia de força, outros a de altura extrema, que só se alcança com esforço exaustivo.

— J.A. Alexander.

A força dos montes também é sua. A referência pode ser à riqueza dos montes, obtida somente com trabalho (Gesenius), correspondendo à expressão anterior — "as profundezas da terra" — explicada como referência às minas (Mendelssohn). Por onde quer que o homem vá, com todo o seu labor e busca nas alturas ou nas profundezas da terra, não consegue encontrar um lugar fora do alcance do domínio de Deus.

— A.R. Faussett.

Montes, o mar, a terra seca. A relação entre as áreas de terra e as áreas de água exerce grande e essencial influência sobre a distribuição do calor, as variações da pressão atmosférica, as direções dos ventos, e aquela condição do ar quanto à umidade que é tão necessária para a saúde da vegetação. Quase três quartos da superfície da terra estão cobertos de água, mas nem a altura exata da atmosfera, nem a profundidade do oceano, estão plenamente determinadas.

Ainda assim sabemos que, a cada acréscimo ou subtração no volume atual das águas do oceano, a consequente variação na forma e na magnitude da terra seria tal que, se a mudança fosse considerável, muitas das harmonias hoje existentes deixariam de existir. Daí se infere que a magnitude do mar é uma das condições às quais a estrutura de todas as criaturas organizadas está adaptada, e da qual, de fato, dependem para seu bem-estar.

As proporções entre terra e água são exatamente o que o mundo, tal como constituído, requer; e toda a massa de terra, mar e ar deve ter sido equilibrada com a mais extrema precisão antes que sequer um açafrão pudesse ficar ereto, ou um floco-de-neve, ou um narciso, inclinar a cabeça para o chão. As proporções de terra e mar são ajustadas às suas funções recíprocas. Nada que se deduza da ciência moderna é mais certo do que isto.

— Edwin Sidney, em "Conversas sobre a Bíblia e a Ciência".

Versículo 5Salmo 95:5

O mar é seu. Quando o próprio Deus profere um discurso em defesa de sua soberania (Jó 38:1), seus principais argumentos são tirados da criação: "O Senhor é o grande Rei sobre todos os deuses. O mar é seu, e ele o fez." E assim também o apóstolo, em seu sermão aos atenienses: como ele "fez o mundo, e todas as coisas nele", é chamado "Senhor do céu e da terra" (Atos 17:24). Seu domínio de propriedade também se assenta nesta base: Salmo 84:11, "Teus são os céus, tua é também a terra: quanto ao mundo e à sua plenitude, tu os fundaste." Com base neste título de ter formado Israel como criatura, ou antes como igreja, ele exige seus serviços como seu Soberano. "Ó Jacó e Israel, tu és meu servo: eu te formei; tu és meu servo, ó Israel" (Isaías 44:21). A soberania de Deus surge naturalmente da relação de todas as coisas com ele como seu Criador pleno, e de sua natural e inseparável dependência dele quanto ao seu ser e bem-estar.

— Stephen Charnock.

E ele o fez.

"A Terra foi formada, mas ainda no ventre

Das águas, embrião imaturo envolto,

Não aparecia: sobre toda a face da Terra

No oceano fluía, não ociosa; mas, com úmido

Calor prolífico amolecendo todo o seu globo,

Fermentou a grande mãe para conceber,

Saciada de umidade genial; quando Deus disse:

Ajuntai-vos agora, águas debaixo do Céu,

Num só lugar, e apareça a terra seca.

Imediatamente os montes imensos aparecem

Emergindo, e erguem seus largos dorsos nus

Até as nuvens; seus cumes sobem ao céu:

Tão alto quanto se ergueram os montes tumefeitos, tão baixo

Afundou um fundo côncavo, largo e profundo,

Leito capaz das águas."

— John Milton.

Versículo 6Salmo 95:6

Tendes por boa regra, nos negócios do mundo, não dizer aos vossos servos "vai", "levanta-te", "vai tu"; mas sim "vamos", "levantemo-nos", "vamos nós". Serão, pois, os filhos deste mundo mais sábios em sua geração do que os filhos da luz? Louvamos essa prática nos negócios seculares e a negligenciamos nos ofícios religiosos? Certamente, se nosso zelo pela religião fosse tão grande quanto nosso amor pelo mundo, os senhores não iriam à igreja (como tantos fazem) sem seus servos, nem os servos sem seus senhores; os pais sem seus filhos, nem os filhos sem seus pais; os maridos sem suas esposas, nem as esposas sem seus maridos; mas todos nós nos chamaríamos uns aos outros, como profetizou Isaías (2:3): Vinde, e subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó; e ele nos ensinará os seus caminhos, e andaremos nas suas veredas — como Davi aqui praticou.

— John Boys.

Adoremos e prostremo-nos. Prostrar-se ao chão é gesto de adoração, não somente quando o adorador se aflige, mas também quando se alegra. Diz-se (Mateus 2:10-11) que os magos, ao encontrarem Cristo, "se alegraram com grande e intensa alegria" e, logo em seguida, "prostraram-se e o adoraram". Tampouco esta postura é peculiar à adoração em tempos ou ocasiões de extraordinária alegria ou tristeza; pois o convite comum já era: "Vinde, adoremos e prostremo-nos: ajoelhemo-nos diante do Senhor que nos fez."

— Joseph Caryl.

Adoremos e prostremo-nos: ajoelhemo-nos diante do Senhor que nos fez. Não diante de um crucifixo, não diante de uma imagem apodrecida, não diante do belo retrato de um santo corrompido: estes não são nossos criadores; nós os fizemos, eles não nos fizeram. Nosso Deus, a quem devemos cantar, em quem devemos alegrar-nos, diante de quem devemos adorar, é o grande "Rei sobre todos os deuses": ele não é deus de chumbo, nem deus de pão, nem deus de bronze, nem deus de madeira; não devemos prostrar-nos e adorar Nossa Senhora, mas o nosso Senhor; não a nenhum mártir, mas ao nosso Criador; não a nenhum santo, mas ao nosso Salvador.

Vinde, cantemos ao Senhor: façamos um som de júbilo à rocha da nossa salvação. Com o quê? Com a voz: "cantemos"; com a alma: "regozijemo-nos de coração"; com as mãos e os joelhos: "adoremos e prostremo-nos: ajoelhemo-nos"; com tudo o que há dentro de nós, com tudo o que há fora de nós; quem fez tudo deve ser adorado com tudo, especialmente quando "chegamos à sua presença".

— John Boys.

Prostremo-nos. Isto é, de modo a tocar o chão com a testa, estando o adorador prostrado sobre as mãos e os joelhos. Veja-se 2 Crônicas 7:3.

— John Fry, 1842.

Adorar, prostrar-nos, ajoelhar. Kimchi distingue os diversos gestos expressos pelas diferentes palavras aqui usadas. A primeira, que traduzimos por "adorar", significa, segundo ele, a prostração de todo o corpo no chão, com as mãos e as pernas estendidas. A segunda, uma inclinação da cabeça, com parte do corpo; e a terceira, uma dobra dos joelhos no chão.

— Samuel Burder.

Versículo 7Salmo 95:7

Nós somos o povo do seu pasto, e as ovelhas da sua mão. Note com que elegância ele transpôs a ordem das palavras, como que sem dar a cada palavra seu atributo próprio; para que entendamos que estes mesmos são "as ovelhas", que também são "o povo". Ele não disse "as ovelhas do seu pasto, e o povo da sua mão" — o que poderia parecer mais congruente, já que as ovelhas pertencem ao pasto — mas disse "o povo do seu pasto": o próprio povo são as ovelhas. Mas, por outro lado, já que temos ovelhas que compramos, e não que criamos; e ele havia dito acima "prostremo-nos diante do nosso Criador" — é correto dizer "as ovelhas da sua mão". Ninguém faz ovelhas para si mesmo: pode comprá-las, podem lhe ser dadas, pode encontrá-las, pode reuni-las, por fim pode roubá-las; mas fazê-las, não pode. Mas o nosso Senhor nos fez; portanto, "o povo do seu pasto, e as ovelhas da sua mão" são as próprias ovelhas que ele se dignou, por sua graça, criar para si.

— Agostinho.

As ovelhas da sua mão é expressão adequada, embora figurada: o pastor que alimenta, governa e conduz as ovelhas o faz por sua mão, que maneja a vara e o cajado (Salmo 23:4), pelos quais elas são administradas. Os árabes judeus liam: "o povo do seu apascentar", ou "rebanho", e "as ovelhas da sua condução".

— H. Hammond.

Pois somos o seu povo, a quem ele alimenta em seus pastos, e suas ovelhas, que ele conduz como que pela mão. (Versão francesa.) Eis aqui uma razão que nos constrange a louvar a Deus: não apenas nos criou, mas também nos dirige por providência especial, como um pastor governa seu rebanho. Jesus Cristo, Pastor divino de nossas almas, que não só nos alimenta em seus pastos, mas ele mesmo nos conduz com sua mão, como ovelhas inteligentes. Pastor amoroso, que nos alimenta não só dos pastos da Sagrada Escritura, mas até com sua própria carne. Que assuntos de adoração incessante para uma alma penetrada por estas grandes verdades! Que fonte de lágrimas de alegria ante tamanha e prodigiosa misericórdia!

— Quesnel.

Hoje, se ouvirdes a sua voz. Se adiarmos o arrependimento para outro dia, teremos um dia a mais para nos arrepender, e um dia a menos para o arrependimento.

— W. Mason.

Aquele que prometeu perdão mediante o nosso arrependimento não prometeu preservar nossa vida até que nos arrependamos.

— Francis Quarles.

Não podeis arrepender-vos cedo demais, pois não sabeis quão cedo pode ser tarde demais.

— Thomas Fuller.

Se ouvirdes a sua voz. Ah, que "se" é este! Que reprovação para os que não o ouvem! "As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem"; "mas vós não quereis vir a mim para terdes vida." E, no entanto, ainda há misericórdia, ainda há salvação, se ouvirdes essa voz. Israel a ouviu entre os trovões do Sinai — voz que os que a ouviram suplicaram que não lhes fosse mais dirigida; tão terrível era a visão e o som que até Moisés disse: "estou extremamente amedrontado e trêmulo".

E, no entanto, também ouviram a voz mansa e amorosa do Senhor no maná silencioso que caía ao redor de suas tendas, e nas águas jorrantes da rocha que os seguiu em toda a marcha, por quarenta anos. Ainda assim, o registro da ingratidão de Israel corre lado a lado com o registro das misericórdias de Deus — "o meu povo não quis ouvir a minha voz, e Israel nada quis comigo."

— Barton Bouchier.

Se ouvirdes a sua voz. E, no entanto, como nos diz São Bernardo, não há dificuldade alguma em ouvi-la; pelo contrário, a dificuldade está em tapar eficazmente os ouvidos contra ela, tão clara é em sua enunciação, tão constante em seu apelo. Ainda assim, há muitos que não ouvem, por diversas causas: porque estão longe; porque são surdos; porque dormem; porque desviam a cabeça; porque tapam os ouvidos; porque se apressam para evitar ouvir; porque estão mortos — todos esses, temas de várias formas e graus de incredulidade.

— Bernardo e Hugo Cardinalis, em Neale e Littledale.

Se ouvirdes a sua voz. Estas palavras parecem aludir às anteriores, nas quais somos representados como as ovelhas do pasto de Deus, e devem ser consideradas um chamado afetuoso do nosso Pastor celestial para segui-lo e obedecer-lhe.

— De "Lições sobre a Liturgia, a partir do Comentário de Pedro Valdo", 1821.

Versículos 7–8Salmo 95:7-8

Será tão difícil, ou até mais difícil, chegar a Cristo amanhã do que é hoje: por isso, hoje ouvi a sua voz, e não endureçais o vosso coração. Rompei o gelo agora, e, pela fé, aventurai-vos no dever que hoje se apresenta, seja ele qual for; fazei o que agora sois chamados a fazer. Jamais sabereis quão suave é o jugo de Cristo até que ele esteja atado ao vosso pescoço, nem quão leve é o seu fardo até que o tenhais tomado sobre vós. Enquanto julgardes a santidade à distância, como algo alheio a vós e contrário a vós, jamais gostareis dela. Aproximai-vos um pouco mais dela; apenas a recebei, engajai-vos de fato nela, e descobrireis que a religião traz alimento em sua boca; é de natureza revigorante, nutritiva, fortalecedora. Ela traz consigo aquilo que capacita a alma a atravessá-la com alegria.

— Thomas Cole (1627–1697), em "Exercícios Matinais".

Versículo 8Salmo 95:8

Não endureçais os vossos corações. Certo ancião, um dia, tomando uma criança em seu colo, suplicou-lhe que buscasse a Deus agora — que orasse a ele, e o amasse; ao que a criança, olhando para ele, perguntou: "Mas por que o senhor não busca a Deus?" O ancião, profundamente comovido, respondeu: "Eu buscaria, filho; mas o meu coração é duro — o meu coração é duro."

— Anedotas de Arvine.

Não endureças o teu coração. — "Coração" é atribuído às criaturas racionais para significar, às vezes, a alma inteira, e, às vezes, as diversas faculdades pertencentes à alma.

  1. É frequentemente usado para a alma inteira, e isso sobretudo quando aparece isolado; como quando se diz: "Servi ao Senhor de todo o vosso coração" (1 Samuel 12:20).

  2. Para aquela parte principal da alma chamada mente ou entendimento. "Apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria" (Eclesiastes 1:17). Nesse sentido, trevas e cegueira são atribuídas ao coração (Efésios 4:18; Romanos 1:21).

  3. Para a vontade: como quando coração e alma aparecem juntos, designando as duas faculdades essenciais da alma, a saber, a mente e a vontade — "alma" pela mente, "coração" pela vontade: "servir ao Senhor de todo o coração e de toda a alma" (Deuteronômio 10:12).

  4. Para a memória. "Escondi a tua palavra no meu coração", diz o profeta (Salmo 119:11). A memória é a faculdade em que as coisas são guardadas e ocultas.

  5. Para a consciência. Diz-se que "o coração de Davi o feriu", isto é, sua consciência (1 Samuel 24:5; 2 Samuel 24:10). Assim também se toma "coração" em 1 João 3:20-21.

  6. Para os afetos: como quando se diz: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento" (Mateus 22:37). Por "entendimento" designa-se a faculdade da compreensão; por "alma", a vontade; por "coração", os afetos.

Aqui, neste texto, "coração" está posto pela alma inteira: mente, vontade e afetos. Pois a cegueira da mente, a obstinação da vontade e o embotamento dos afetos andam juntos.

— William Gouge.

Em Massá — em Meribá. Nossos tradutores dizem "na provocação", "no dia da tentação". Mas esses lugares foram denominados a partir dos acontecimentos ali ocorridos; e a introdução desses nomes dá mais vivacidade à alusão. Veja-se, no mesmo sentido, o Salmo 81:7, onde a tradução bíblica mantém o nome próprio.

— Richard Mant.

Notemos bem que, enquanto é o rebanho quem fala nos versículos 1 a 7, é o Pastor quem retoma essas palavras de exortação e as aplica ele mesmo, do versículo 8 até o fim, usando o argumento que, pelo Espírito Santo, também nos é dirigido em Hebreus 3:7-19. Há algo muito poderoso nesta exortação, quando ligada às circunstâncias que a originam. Em si mesmo, o jorro de amor adorador e o transbordar de afeto dos versículos 1 a 7 são irresistivelmente persuasivos; mas quando (versículo 8) se ouve a própria voz do Senhor — voz que usa termos de veemente súplica! — não podemos imaginar exortação levada mais longe. Somente a incredulidade poderia resistir a essa voz; somente a incredulidade cega e maligna poderia repelir o rebanho, e depois o Pastor, convidando os homens agora a entrar no aprisco.

— Andrew A. Bonar.

Versículo 9Salmo 95:9

Vossos pais me tentaram. Embora Deus não possa ser tentado pelo mal, pode-se dizer com justiça que é tentado sempre que os homens, insatisfeitos com os seus desígnios, pedem, na prática, que ele os altere e proceda de modo mais condizente com os seus próprios sentimentos. Se refletirdes um pouco, dificilmente deixareis de perceber que, em sentido bem estrito, isto e coisas semelhantes podem ser chamadas de tentar a Deus. Suponde um homem descontente com as disposições da providência; suponde-o a murmurar e a se queixar do que o Todo-Poderoso lhe atribui fazer ou suportar; não estará ele acusando a Deus de pedir que mude os seus propósitos? E o que é isso, senão tentar a Deus, e esforçar-se por induzi-lo a desviar-se dos seus planos, ainda que cada um desses planos tenha sido estabelecido pela Sabedoria Infinita?

Ou ainda: se algum de nós, apesar das múltiplas provas da bondade amorosa divina, duvida ou questiona se Deus de fato o ama, de que é ele culpado, senão de tentar o Senhor, visto que solicita a Deus provas adicionais, como se houvesse alguma falta, e o desafia a uma nova demonstração daquilo que ele já manifestou abundantemente? Isso seria chamado de tentar entre os homens. Se uma criança demonstrasse, por suas atitudes, que duvidava ou descria do afeto de seus pais, seria vista como quem se esforça por extrair deles novas provas, pedindo-lhes que evidenciem mais o seu amor, ainda que já tenham feito tanto quanto, com sabedoria e justiça, deveriam fazer. E isso é claramente tentá-los, e no sentido comum do termo.

Em suma, a incredulidade, em qualquer forma e grau, pode ser dita tentar a Deus. Pois não crer na evidência que ele julgou por bem dar é provocá-lo a dar mais, oferecendo o nosso possível consentimento, caso a prova aumente, como incentivo para que ele vá além do que sua sabedoria prescreveu. E se, neste e em sentido semelhante, Deus pode ser tentado, o que se pode dizer com mais verdade dos israelitas, senão que tentaram a Deus em Massá? Talvez não estejamos acostumados a pensar na incredulidade ou na murmuração como nada menos que uma tentação a Deus, e por isso não atribuímos a algo tão comum o justo grau de gravidade.

É tão natural para nós ficarmos descontentes sempre que os desígnios de Deus não são exatamente o que gostaríamos, esquecermos o que foi feito por nós assim que nossos desejos parecem contrariados, sermos impacientes e irritadiços sob cada nova cruz, que mal temos consciência de estar cometendo um pecado, e muito menos um mais agravado que o comum. No entanto, não podemos estar insatisfeitos com os desígnios de Deus sem sermos, na prática, culpados de tentá-lo. Pode parecer uma definição dura para uma falha leve e quase inevitável, mas ainda assim é uma definição verdadeira.

Não podeis desconfiar de Deus sem acusá-lo de carência, seja de poder, seja de bondade. Não podeis vos queixar — nem mesmo em pensamento — sem, na prática, dizer-lhe que os seus planos não são os melhores, nem suas disposições as mais sábias que ele poderia ter estabelecido a vosso respeito. Assim, vosso temor, ou vosso desânimo, ou vossa ansiedade em circunstâncias de perplexidade ou perigo, nada mais são do que pedir a Deus que se desvie do seu curso fixo — uma suspeita, ou antes uma afirmação de que ele poderia proceder de modo mais digno de si mesmo, e, portanto, um desafio para que altere os seus desígnios, se quiser provar que possui os atributos que reivindica.

Talvez não pretendais, ao murmurar, acusar ou provocar a Deus, mas a vossa murmuração faz tudo isso, e não pode deixar de fazê-lo. Não podeis estar insatisfeitos sem, na prática, dizer que Deus poderia ordenar as coisas melhor; não podeis dizer que ele poderia ordenar melhor sem, na prática, exigir que ele mude o seu modo de agir, e dê outras provas das suas perfeições infinitas.

— Henry Melvill.

Vossos pais me tentaram. Há duas formas de interpretar as palavras que se seguem. Como tentar a Deus não é senão ceder a um anseio doentio e injustificável por prova do seu poder, podemos considerar o versículo como um todo conectado, e ler: "tentaram-me e provaram-me, ainda que já tivessem visto a minha obra." Deus muito justamente se queixa de que insistissem em nova prova, depois que seu poder já fora amplamente testemunhado por evidências inegáveis.

Há, porém, outro sentido que se pode dar ao termo "provaram" — segundo o qual o sentido da passagem seria o seguinte: vossos pais me tentaram ao perguntar onde estava Deus, apesar de todos os benefícios que eu lhes havia feito; e me provaram, isto é, tiveram experiência real do que eu sou, na medida em que não deixei de lhes dar provas abertas da minha presença, e por consequência viram a minha obra.

— John Calvin.

Provaram-me, puseram-me à prova quanto à minha existência, presença e poder, exigindo que eu agisse, isto é, que atuasse de modo extraordinário. E esse desejo, por mais irrazoável que fosse, eu satisfiz. Não somente exigiram, como também viram a minha obra, isto é, o que eu podia fazer.

— J.A. Alexander.

Quarenta anos. Para entender esta passagem, devemos ter em mente o acontecimento a que se refere. No mesmo ano em que o povo de Israel saiu do Egito, ficaram aflitos por falta de água em Refidim (Êxodo 17:1); e o lugar recebeu dois nomes, Massá e Meribá, porque o povo tentou a Deus e contendeu com Moisés. O Senhor não jurou então que não entrariam na terra de Canaã; isso ocorreu no ano seguinte, depois do retorno dos espias (Números 14:20-38).

E Deus disse então que o haviam tentado "dez vezes" — isto é, durante o curto período desde a sua libertação do Egito. Foi depois de dez tentações que Deus os privou da terra prometida. Tendo em mente esses fatos, poderemos perceber toda a força da passagem. A "provocação" ou contenda, e a "tentação", referem-se claramente ao último episódio, registrado em Números 14:1-45, porque foi então que Deus jurou que o povo não entraria no seu descanso. A conduta do povo foi semelhante em ambas as ocasiões.

Ligar "quarenta anos" a "aflito" foi obra dos massoretas pontuadores, e esse engano foi corrigido pelo apóstolo; e é de se observar que, neste ponto, ele não seguiu a Septuaginta, na qual as palavras estão dispostas conforme a divisão dos massoretas. Uma tradução que corresponda ao hebraico é a seguinte:

"Hoje, quando ouvirdes a sua voz,

  1. Não endureçais os vossos corações, como na provocação, como no dia da tentação no deserto.

  2. Quando vossos pais me tentaram, provaram-me, e viram as minhas obras por quarenta anos:

  3. Por isso me indignei contra aquela geração, e disse: Sempre se desviam de coração, e não conheceram os meus caminhos;

  4. De modo que jurei na minha ira: Eles de modo nenhum entrarão no meu descanso."

O sentido do versículo 9 é que, quando os filhos de Israel tentaram a Deus, provaram-no, isto é, descobriram, por amarga experiência, quão grande era o seu desagrado, e viram as suas obras, ou os seus tratos para com eles, por quarenta anos. Ele os reteve no deserto durante esse período, até a morte de todos os que descreram da sua palavra no retorno dos espias; deu-lhes assim esta prova do seu desagrado.

— John Owen, de Thrussington, 1853.

Versículo 10Salmo 95:10

Ah, a desesperada presunção do homem, que ofende o seu Criador por quarenta anos! Ah, a paciência e longanimidade do seu Criador, que lhe permite quarenta anos para ofender! O pecado começa no coração, com seus desejos vagando e se desviando atrás de objetos proibidos; daí decorre a desatenção aos caminhos de Deus, às suas disposições e ao nosso próprio dever. A concupiscência no coração, como vapor no estômago, logo afeta a cabeça e turva o entendimento.

— George Horne.

Quarenta anos. É curioso saber que os antigos judeus criam que "os dias do Messias seriam quarenta anos". Assim o Tanchuma, F. 79, 4: "Quamdiu durant anni Messiae? R. Akiba dixit, 40 annos, quemadmodum Israelitae per tot annos in deserto fuerunt" ("Quanto duram os anos do Messias? Disse R. Aquiba: quarenta anos, assim como os israelitas estiveram tantos anos no deserto"). É digno de nota que, quarenta anos depois da ascensão, toda a nação judaica foi exterminada, tal como os que caíram no deserto.

— John Brown, em "Uma Exposição da Epístola aos Hebreus", 1862.

Fiquei aflito. A palavra é forte, expressiva de repugnância e nojo.

— J.J.S. Perowne.

Esta geração. A palavra dor significa uma era, ou o prazo estabelecido da vida humana; e é aqui aplicada aos homens de uma era, como se o salmista dissesse que os israelitas que Deus havia libertado eram incorrigíveis durante todo o período de suas vidas.

— John Calvin.

É um povo que erra de coração. Observemos aqui que ele não diz simplesmente "este povo erra". Que mortal existe que não erre? Ou onde há uma multidão de mortais que não esteja exposta a erros? Mas ele acrescenta: "de coração". Não se condena, pois, todo e qualquer erro aqui, mas se aponta especificamente o erro do coração. Deve-se notar, portanto, que há um erro de duas espécies:

  1. Um é do intelecto, pelo qual nos desviamos por ignorância. Nesse tipo de erro errou Paulo quando perseguia a Igreja de Cristo; erraram os saduceus, por não conhecerem as Escrituras (Mateus 22:29); e até hoje muitos, na Igreja, se desviam, dotados de zelo por Deus, mas destituídos de verdadeiro conhecimento dele.

  2. O outro tipo de erro é do coração e dos afetos, pelo qual os homens se desviam, não por ignorância, mas por corrupção e perversidade de coração. Esse erro de coração é uma mente avessa a Deus, alienada da vontade e do caminho de Deus, o que é descrito em outro lugar, a respeito deste mesmo povo, assim: "e o seu coração não era reto para com ele."

— Musculus.

É um povo que erra de coração. "Errar de coração" pode significar tanto errar no juízo quanto na disposição, na intenção: pois o hebraico lev, e depois dele o grego kardia, significam tanto animus, judicium, quanto mens, cogitatio, desiderium. Entendo kardia aqui como usado segundo o idiotismo hebraico (no qual é frequentemente pleonástico, ao menos assim nos parece), de modo que a frase importa simplesmente: "eles sempre erram", isto é, estão continuamente se desviando do caminho reto.

— Moses Stuart.

Erram de coração. Ele os havia chamado de ovelhas, e agora nota sua propensão a vaguear, e sua incapacidade de serem conduzidos; pois não conheciam os passos do seu Pastor, muito menos os seguiam.

— C.H.S.

Não conheceram os meus caminhos; isto é, não os consideraram, não os aceitaram, nem os amaram; pois, de outro modo, não os ignoravam — ouviram as suas palavras e viram as suas obras.

— David Dickson.

Não conheceram os meus caminhos. Este povo ingrato não aprovava os caminhos de Deus — não entrava em seus desígnios — não se conformava aos seus mandamentos — não prestava atenção aos seus milagres — e não reconhecia os benefícios que recebia das suas mãos.

— Adam Clarke.

Um povo que erra de coração, etc. Estas palavras não se encontram em Números 14:1-45; mas o salmista inspirado expressa o sentido do que Jeová disse naquela ocasião. "Eles sempre erram de coração" (Hebreus 3:10). São radical e habitualmente maus. Não conheceram os meus caminhos. Os "caminhos" de Deus podem significar tanto as suas disposições quanto os seus preceitos. Os israelitas não compreenderam corretamente as primeiras, e obstinadamente recusaram adquirir conhecimento prático — a única espécie de conhecimento verdadeiramente valiosa — dos segundos.

A referência é provavelmente ao modo de agir de Deus: Romanos 11:33; Deuteronômio 4:32, 8:2, 29:2-4. Um povo assim merecia castigo severo, e o recebeu. Por isso jurei na minha ira que não entrariam no meu descanso. As palavras originais em hebraico são: "se entrarem no meu descanso." Esse modo elíptico de expressar juramentos é comum no Antigo Testamento: Deuteronômio 1:35; 1 Samuel 3:14; Salmo 89:35; Isaías 62:8.

Este terrível juramento está registrado em Números 14:21-29: "Mas, tão certo como eu vivo, toda a terra se encherá da glória do Senhor. Porque todos aqueles homens que viram a minha glória, e os meus milagres que fiz no Egito e no deserto, e me tentaram já dez vezes, e não deram ouvidos à minha voz, certamente não verão a terra que jurei a seus pais; nenhum daqueles que me provocaram a verá; mas o meu servo Calebe, porque nele houve outro espírito, e me seguiu plenamente, a ele o farei entrar na terra em que entrou, e a sua semente a possuirá.

(Ora, os amalequitas e os cananeus habitavam no vale.) Amanhã, voltai-vos e parti para o deserto, pelo caminho do mar Vermelho. E o Senhor falou a Moisés e a Arão, dizendo: Até quando suportarei esta má congregação, que murmura contra mim? Ouvi as murmurações dos filhos de Israel, que murmuram contra mim. Dizei-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR, como falastes aos meus ouvidos, assim vos farei: os vossos cadáveres cairão neste deserto; e todos os que foram contados entre vós, segundo todo o vosso número, de vinte anos para cima, que murmurastes contra mim."

As palavras do juramento parecem aqui tomadas do relato de Deuteronômio 1:35. Há muitas ameaças de Deus que trazem implícita uma condição tácita; mas, quando Deus interpõe o seu juramento, a sentença é irrevogável. A maldição não foi sem causa, e de fato se cumpriu. Temos o relato do seu cumprimento efetivo em Números 26:64-65.

O "descanso" do qual foram excluídos era a terra de Canaã. Suas vidas se passaram vagando. Chama-se "descanso de Deus" porque ali ele haveria de concluir a sua obra de trazer Israel à terra prometida a seus pais, e fixar o símbolo da sua presença no meio deles — habitando naquela terra em que o seu povo haveria de descansar de suas peregrinações, e viver em segurança sob a sua proteção. É o seu descanso, por ele preparado (Deuteronômio 12:9). É o seu descanso — descanso como o dele, descanso junto com ele.

De modo nenhum estamos autorizados a concluir que todos os que morreram no deserto ficaram aquém da felicidade eterna. Há de se temer que muitos deles, a maioria deles, sim; mas a maldição que sobre eles pesou dizia respeito apenas à sua exclusão da Canaã terrena.

— John Brown.

Versículos 10–11Salmo 95:10-11

E disse. Notemos a gradação: primeiro a mágoa, ou o desgosto para com os que erravam, o fez falar; depois a ira, sentida mais pesadamente contra os que não criam, o fez jurar. O povo havia sido chamado de ovelhas no versículo 7; para as ovelhas, o bem supremo é o descanso, mas nesse descanso jamais haveriam de entrar, pois não conheceram nem se deleitaram nos caminhos pelos quais o bom Pastor desejava conduzi-los.

— John Albert Bengel.

Versículo 11Salmo 95:11

A palavra "jurar" é muito significativa, e parece importar estas duas coisas. Primeiro, a certeza da sentença aqui pronunciada. Toda palavra de Deus é, e há de ser, verdade; mas, ratificada por juramento, é verdade com uma vantagem a mais. Está selada, irrevogável. Isso a fixa como as leis dos medos e persas, além de toda possibilidade de alteração, e torna a palavra de Deus, como a sua própria natureza, imutável.

Segundo, importa o terror da sentença. Se os filhos de Israel podiam dizer: "que Deus não nos fale, para que não morramos" — o que teriam dito se Deus então jurasse contra eles? É terrível ouvir um juramento da boca de um pobre mortal; mas da boca de um Deus onipotente, não apenas aterroriza, mas confunde. Um juramento de Deus é verdade proferida em ira; verdade, por assim dizer, com vingança. Quando Deus fala, é dever da criatura ouvir; mas quando ele jura, é tremer.

— Robert South.

Que não entrariam no meu descanso. Há algo de incomum e abrupto na conclusão deste salmo, sem qualquer perspectiva animadora que alivie a ameaça. Isso talvez se explique melhor supondo que ele não foi feito para ficar sozinho, mas para formar parte de uma série.

— J.A. Alexander.

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