Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 97

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 97, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 97 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Salmo inteiro. Os dois salmos anteriores são cânticos de alegria e ação de graças, nos quais a alegria do povo de Cristo se derrama enquanto vão ao encontro de seu Senhor triunfante em sua segunda vinda, e o trazem de volta em glória para assumir seu reino. O presente salmo, em linguagem suficientemente explícita, descreve a consumação deste grande evento: "o Senhor reina"; o Messias está em seu trono, e agora se cumprem as palavras de Salmos 2:6: "Eu ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião."

O primeiro ato de soberania do Messias é o juízo. As Escrituras que tratam desse evento são 2 Tessalonicenses 1:7, Judas 1:14 e Isaías 66:15. O caráter destes juízos é dado no salmo: nuvens e escuridão cercando seu trono, onde, contudo, habitam a justiça e a misericórdia; um fogo que consome seus inimigos ao redor; relâmpagos que fulminam o mundo, a terra tremendo, e os montes se derretendo como cera à presença do Senhor, à presença do Senhor de toda a terra.

Pedro, em sua segunda epístola, capítulo terceiro, claramente se refere a estes eventos como ainda futuros em seus dias.—R.H. Ryland.

Versículo 1Salmo 97:1

O Senhor reina. Eis boas novas, alegres notícias: "O Senhor reina." Isto não pode ser anunciado sem louvor, sem alegria, sem canto, sem bênção. Desonraríamos esta verdade se não a anunciássemos, se a abafássemos em silêncio, se não falássemos bem dela. É tão doce e reconfortante que enche o mundo inteiro de alegria, e chama todo ouvido, toda língua e todo coração a se alegrar, a se regozijar e a louvar a Deus.

Alegre-se a terra; alegrem-se as muitas ilhas. Como se dissesse: nada tema, exceto o inferno; nada se perturbe, exceto os demônios. Que o mais humilde, o mais pobre do povo de Deus, ainda que não seja mais que terra, se alegre nisto: "O Senhor reina"...

Há aqui duas coisas de doce consideração: 1. O reinado do Senhor; e 2. O reinado do Senhor nos santos.

Primeiro, este reino que Deus agora estabelece é seu reino eterno. Não será administrado pela fraqueza do homem, mas pelo poder de Deus; não pela loucura do homem, mas pelo juízo de Deus. Deus, neste reino, manifestará a nu sua própria justiça, sua própria compaixão e piedade, seu próprio amor, sua própria paz: ele fará tudo diretamente, por si mesmo. E por isso todo o orgulho e ambição, toda a opressão e tirania, e todos os desvios que houve no governo dos homens, serão inteiramente removidos.

Justiça, juízo e equidade puros serão infalivelmente dispensados; e poder infinito, força, santidade, bondade e autoridade brilharão a nu na face de Deus, que será o juiz de todos os homens. Não seremos mais maltratados nem oprimidos pela vontade dos homens, pelas paixões dos homens. O povo pobre não gemerá mais sob o peso das paixões dos homens, nem suará pelo prazer e contentamento dos homens; nem seu rosto será mais moído pela dureza do espírito dos homens; mas estará sob a proteção de Deus. O grande clamor do povo agora é: "Tenhamos um Rei!" Vós o tereis, um que "reinará em justiça", o próprio Senhor.

Segundo, este reinado do Senhor estará em seus santos, conforme Daniel 7:27: "E o reino, e o domínio, e a grandeza do reino debaixo de todo o céu, se dará ao povo dos santos do Altíssimo, cujo reino é reino eterno, e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão." Assim como este reino será administrado na glória de Deus, também o será na doçura e mansidão do homem, por irmãos, por amigos, pelos santos do Altíssimo.

Deus, elevando-se a si mesmo nos santos, administrará este reinado; e assim como o fará por meio dos santos, o fará também pela brandura e ternura dos santos: "O reino e o domínio debaixo de todo o céu se darão ao povo dos santos do Altíssimo." Isto já está acontecendo: vós não obedecereis a ninguém além do Senhor; não conhecereis outras leis além da lei de Deus; não conhecereis outro senhor além de Jeová. Ele nos fez sacerdotes e reis, e reinaremos com ele na terra. Esta nossa natureza, este nosso corpo, reinará com Cristo, com Deus, e isso sobre a terra.

O Senhor reina. O Senhor tem servido, tem estado até agora, em grande e principal medida, "na forma de servo." Tem sido, por assim dizer, o trabalho do Senhor, enquanto este mundo se manteve, dar provisão aos homens, servir aos homens, dar-lhes força, sabedoria, riquezas, autoridade e poder, para que fossem grandes e felizes pela bondade de Deus; e nisso Deus também foi Rei, mas de modo subordinado, como diz o Senhor: "Eu servi com os vossos pecados" e paixões.

Agora ele não servirá mais, mas reinará; Deus tomará todo o poder e autoridade em suas próprias mãos. Ele não estará mais sob os homens, mas acima de todos os homens. É tempo de que assim seja; é razoável que assim seja; é justo que assim seja. Tudo agora deve curvar-se, submeter-se e sujeitar-se à lei, ao governo e à vontade de Deus. Nenhum homem dirá mais: assim será, porque é minha vontade que seja assim; não se encontrará coração, nem língua, que se mova contra o domínio do Senhor.

Satanás tem sido um príncipe; fez leis para vosso cativeiro e miséria; manteve-vos a seu serviço. Ele disse: Sede iracundos, e vós vos encheste de ira. Disse: Sede cobiçosos, e vós vos encheste de cobiça. Disse: Sede tenebrosos, e vós vos encheste de cegueira. Disse: Sede soberbos, e vós vos encheste de arrogância. E assim, como um tirano monstruoso, atormentou o mundo. O ferrão dos açoites de Satanás está em vossas consciências, eu sei.

Vossos erros e enganos vieram do reino das trevas dentro de vós, para que não conhecêsseis a Deus, nem seu santo monte. Vós quisésteis entrar no gozo de Deus; Satanás não vos deixou; quisésteis conhecer a Deus; ele não permitiu; quisésteis ser sábios para a salvação; ele não consentiu. Acorrentou-vos com seus grilhões de trevas, cativou vosso juízo, fez-vos moer em seu moinho e trabalhar arduamente a seu serviço, e vos fez clamar: "Ó, quando virá o Senhor!"

Mas agora seu reinado perverso chega ao fim: o que tínheis, faltar-vos-á, e o que vos faltava, tereis; o que foi, não será mais; o que ainda vier a ser, será, e não pode deixar de ser: tereis amor, porque a lei de Deus é amor; tereis paz, porque o reino de Deus é paz; tereis luz, porque a herança é luz maravilhosa; tereis justiça, porque este estado é verdadeira santidade; tereis liberdade, estabilidade, firmeza, e todo bem neste reino de Deus.

É sempre ruim para nós enquanto Satanás reina. É sempre bom para nós enquanto Deus reina; quando nosso Esposo é Rei, teremos honra, riqueza, grandeza, poder e autoridade, porque nosso Deus reina. "O Senhor reina", para nós; o Senhor toma seu reino, e ele é para nós: o Senhor reinou em si mesmo todo este tempo; agora reina por meio de nós: o Senhor não se considera ter um reino, até que o tenhamos com ele; o Senhor se considera humilde e desprezado, até que sejamos exaltados. Ele é pobre sem nós. É fraco enquanto ausente de nós. Não é ele mesmo, a menos que nos possua. "Tu és minha excelência, meu primogênito." O poder de Deus está em fraqueza, até que nos tornemos poderosos. O reino de Deus está em trevas, até que resplandeçamos. Os tesouros de Deus não teriam valor algum para ele, se não fôssemos suas joias mais preciosas.

O Senhor de fato reina. Isto não deve passar despercebido; está no tempo presente. Este é o cântico que ouvimos e vemos os anjos cantarem. Os anciãos e os santos no céu o cantam perpetuamente; nós o ouvimos todos os dias. Aleluia, Aleluia, o Senhor reina! Um aleluia é derramado em nossos corações e ouvidos; o Senhor reina; de fato, toda criatura o proclama, todos no céu e na terra.

"O SENHOR reina", e diz: "Estou em meu trono. Sou grande; ninguém é grande além de mim. Sou Rei; tenho o cetro em minha mão. Sou poderoso; ninguém é poderoso além de mim." Todo o poder dos homens está quebrado. Todos os tronos dos homens estão despedaçados em pó. Toda a sabedoria dos homens se tornou loucura. Toda a força dos homens se derreteu em fraqueza e água. O derretimento e o desmoronar dos poderes e dignidades do mundo proclamam bem alto: o Senhor reina.—William Sedgwick, em "Some Flashes of Lightnings of the Son of Man," 1648.

O Senhor reina. Aquele que esteve diante do juiz, que recebeu os golpes, que foi açoitado, que foi cuspido, que foi coroado de espinhos, que foi golpeado com punhos, que pendeu na cruz, que enquanto pendia no madeiro foi zombado, que morreu na cruz, que foi traspassado com a lança, que foi sepultado — ele mesmo ressuscitou dos mortos. "O Senhor reina." Que os reinos se enfureçam quanto quiserem; o que podem fazer contra o Rei dos reis, o Senhor de todos os senhores, o Criador de todos os mundos?—Agostinho.

O Senhor reina. Alegro-me de que Cristo seja Senhor de tudo, pois de outro modo eu estaria de todo sem esperança, diz Miconius, em uma carta a Calvino, ao contemplar os inimigos da igreja.—John Trapp.

O Senhor reina; alegre-se a terra. Considere-se o governo divino sob vários aspectos — legislativo, providencial, mediador e judicial — e em cada um destes aspectos o governo divino é motivo de alegria universal.

  1. O Senhor reina num trono de legislação: "alegre-se a terra." Ele é o único e supremo legislador, e está perfeitamente qualificado para essa importante função. Nada favorece mais a sociedade civil do que ter boas leis estabelecidas, segundo as quais a humanidade deva se conduzir, e segundo as quais seus governantes a tratarão. Ora, o Rei supremo e universal promulgou e publicou as melhores leis para o governo do mundo moral, e da raça humana em particular.

Alegre-se, pois, a terra, porque Deus nos revelou claramente sua vontade e não nos deixou em perplexidades intermináveis quanto a nosso dever para com ele e para com a humanidade... Alegre-se ainda "a terra" porque estas leis são devidamente reforçadas com sanções apropriadas. As sanções são tais que convêm a um Deus de sabedoria infinita, poder onipotente, justiça inexorável, santidade imaculada e bondade e graça sem limites, e são condizentes com a natureza de criaturas racionais formadas para uma duração imortal.

Alegre-se a terra porque as leis divinas alcançam o homem interior, e têm poder sobre os corações e consciências dos homens. As leis humanas, no máximo, só conseguem suavizar nossa conduta externa, mas o coração, entretanto, pode permanecer desleal e perverso. Ora, esta falha é suprida pelas leis do Rei do Céu, que são espirituais. Elas exigem uma completa uniformidade e coerência em nós, de modo que coração e vida concordem, e por isso são sabiamente formuladas para nos tornar inteiramente bons.

  1. O Senhor reina por sua providência: "alegre-se a terra." A providência de Deus é bem descrita em nosso catecismo breve: "É seu governo santíssimo, sábio e poderoso, preservando e governando todas as suas criaturas e todos os seus atos." "O Senhor reina" sobre os reinos da terra, e administra todos os seus assuntos segundo seu soberano e sábio beneplácito, e faz o mesmo por sua igreja. Ele pode reduzir a confusão à ordem, fazer com que a ira do homem o louve, e conter o restante dela.

  2. "O Senhor reina" num trono de graça! "Alegre-se a terra." É o governo mediador do Messias que o salmista tinha mais imediatamente em vista, e esta é a causa principal de alegria para a terra e seus habitantes culpados.

  3. E, por fim, o Senhor reinará em breve num trono de juízo universal, à vista de todo o universo reunido: "alegre-se, pois, a terra, e regozije-se a multidão das ilhas."—Resumido de um sermão de Samuel Davies, 1724-1761.

Alegre-se a terra. A terra é chamada a se alegrar porque o Senhor reina; e com razão, no dia de sua libertação e emancipação final do mal, que aqui parece se descrever — um dia de juízo, e por isso também um dia de terror e destruição para os inimigos de Deus e do bem — um dia em que, à sua presença, "os elementos se derreterão com ardente calor"; mas sua própria justiça e glória se manifestarão à vista de todos os povos. Então os mundanos, que servem a ídolos ao amar a criatura mais que o Criador, serão confundidos e derrubados; mas então também os justos levantarão a cabeça e se alegrarão por causa dos juízos de Deus.—Thomas Chalmers.

A multidão das ilhas. Na Synopsis de Poole encontramos, a partir das diversas interpretações de diferentes autores, que a palavra pode significar regiões marítimas, lugares além-mar geralmente alcançados por navios, e todos os países que margeiam o oceano.—C.H.S.

As ilhas. Figuradamente, as ilhas podem representar todas as igrejas. Por que ilhas? Porque as ondas de todas as tentações rugem ao seu redor. Mas assim como uma ilha pode ser açoitada pelas ondas que de todos os lados se lançam contra ela, e ainda assim não se quebra — e antes ela mesma quebra as ondas que avançam do que por elas é quebrada — assim também as igrejas de Deus, brotando por todo o mundo, sofreram as perseguições dos ímpios, que rugem ao seu redor por todos os lados; e eis que as ilhas permanecem firmes, e por fim o mar se acalma.—Agostinho.

Quando Bulstrode Whitelock embarcou como enviado de Cromwell à Suécia, em 1653, sentia-se muito perturbado, ao repousar em Harwich na noite anterior, que fora muito tempestuosa, enquanto pensava no estado conturbado da nação. Aconteceu que um criado de confiança dormia numa cama ao lado e, percebendo que seu senhor não conseguia dormir, por fim disse:

"Com licença, senhor, permite-me fazer uma pergunta?"

"Certamente."

"Com licença, senhor: o senhor acha que Deus governou o mundo muito bem antes de o senhor vir a ele?"

"Sem dúvida."

"E, com licença, senhor: o senhor acha que Ele o governará igualmente bem quando o senhor já tiver partido dele?"

"Certamente."

"Então, com licença, senhor, perdoe-me, mas não acha que pode confiar a ele governá-lo igualmente bem enquanto o senhor viver?"

A esta pergunta Whitelock nada teve a responder; mas, virando-se, logo adormeceu profundamente, até ser chamado para embarcar.—G.S. Bowes, em "Illustrative Gatherings," 1862.

Versículo 2Salmo 97:2

Nuvens e escuridão o cercam. A linguagem figurada nas partes poéticas do Antigo Testamento é com frequência tomada dos livros históricos, e se refere aos fatos ali registrados: assim, as aparições de Deus aos santos e patriarcas de outrora são a origem da figura em nosso texto. Se observarmos a história dessas aparições, veremos que todas foram acompanhadas de nuvens e escuridão. A nuvem do Senhor ia adiante dos filhos de Israel quando saíram da terra do cativeiro. Esta nuvem tinha um lado escuro e um lado brilhante, e era símbolo da presença divina; assim precedia o povo em todas as suas marchas, como coluna de fogo de noite, e de nuvem de dia.

Quando Salomão dedicou o templo, a glória do Senhor encheu a casa, e o sacerdote não pôde entrar na casa do Senhor, porque a glória do Senhor a encheu. Quando Deus desceu sobre o monte Sinai, "houve trovões e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e o som de trombeta muito forte. E todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; e a fumaça subia como a fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente. E o Senhor desceu sobre o monte Sinai, sobre o cume do monte" (Êxodo 19:16,18,20).

Quando nosso Salvador foi transfigurado diante de três de seus discípulos, "uma nuvem resplandecente os cobriu", da qual saiu a voz do Pai, dizendo: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi." E Pedro, que ali estava presente, referindo-se depois a este fato, diz que a voz procedeu "da magnífica glória." Assim, em todos os símbolos da presença divina, havia uma mescla de esplendor com escuridão e obscuridade. Assim é também nas obras da providência: em sentido moral e figurado, podemos dizer que nuvens e escuridão cercam todas as operações do poder e da sabedoria divinos. Nuvens são emblemas de obscuridade; escuridão, de aflição. As obras da providência de Deus são muitas vezes obscuras e causam aflição à humanidade, embora justiça e juízo sejam a habitação de seu trono.—Robert Hall.

Nuvens e escuridão o cercam. Deus governa o mundo de modo misterioso. Assim como há mistérios na palavra, há também nas obras de Deus: dysnoēta, "coisas difíceis de entender" (2 Pedro 3:16), muitos enigmas que confundem e intrigam os homens de maior e mais penetrante intelecto: "Eis que vou adiante, mas ele não está ali; e volto atrás, mas não o percebo; à esquerda, onde ele trabalha, mas não o vejo; ele se esconde à direita, de modo que não o vejo; mas ele conhece o caminho que sigo" (Jó 23:8-10).

Deus conhece nossos caminhos, e conta nossos passos; mas os mais sábios dos homens não conhecem todos os caminhos de Deus. Seu caminho está muitas vezes no mar, e seus carros nas nuvens; de modo que ele é invisível, não só em sua essência, mas também no desígnio e no propósito de suas operações. Aqueles que o contemplam com olhos de fé ainda não o veem com olhos de entendimento, a ponto de discernir seu caminho e para onde vai. Paulo nos assegura: "Insondáveis são os seus juízos, e inescrutáveis os seus caminhos" (Romanos 11:33).

Alguns deles, de fato, são óbvios, claros e fáceis; podemos, à primeira vista, dar conta satisfatória deles; podemos ler retidão, equidade, misericórdia, bondade, amor, neles, porque estão escritos em letras maiúsculas, e com raios de luz tão claros que quem passa correndo pode lê-los. Mas outros dos caminhos de Deus são escuros e obscuros, de modo que estão fora de nosso alcance e acima de nossa visão. Quem se propõe a rastrear a Deus por eles pode facilmente perder-se. São como aquela escrita na parede que nenhum dos sábios de Belsazar pôde ler ou interpretar (Daniel 5:8). Há arcana imperii, "segredos de estado e de governo", que não convém tornar públicos.

Mas isto pode ser nosso consolo: embora Deus não preste contas agora de seus atos, nem esteja obrigado a isso, ele pode dar uma explicação muito boa e satisfatória; e um dia seu povo será conduzido ao mistério; e, embora agora não conheçam muitas coisas que Deus faz, depois as conhecerão, e ao conhecê-las, aprovarão e admirarão tanto as coisas quanto a razão e o fim delas. Então estarão perfeitamente reconciliados com toda a providência, e verão que tudo era digno de Deus, e que em tudo ele agiu de modo theoprepōs, "como convinha grandemente a si mesmo."—Samuel Slater (1704), em "The Morning Exercises."

Por mais desprezível que o reino de Cristo pareça ao mundo, ele está cheio de majestade celestial: nuvens e escuridão o cercam. A glória do reino de Cristo é insondável, e oculta aos olhos do mundo, que não pode compreender as coisas de Deus, a menos que ele mesmo se revele, e abra os olhos do entendimento: "nuvens e escuridão o cercam."—David Dickson.

Escuridão. Este e os quatro versículos seguintes têm notável semelhança com a pompa terrível da marcha de Deus, descrita em Salmos 18:8-9 e Salmos 68:8. Todos os temíveis fenômenos e o cortejo meteórico da natureza estão presentes: trovão e relâmpago, terremotos e vulcões, com correntes de lava derretida, como correntes de cera derretida. E ainda assim tudo é justiça e equidade, alegria, exultação e glória; e só os ímpios — os adversários de Jeová — sentem seus juízos, a multidão dos ídolos e seus adoradores brutais.—John Mason Good.

Justiça e juízo. A justiça é a perfeição essencial do Ser Divino. É sua própria natureza: ainda que não houvesse criaturas para governar, ele teria um amor imutável e invencível pela retidão. O juízo é a aplicação do princípio da justiça em seu governo sobre as criaturas e seus atos; é um desdobramento de sua retidão na administração dos negócios de seu grande império; é aquela superintendência sobre tudo, pela qual as operações de todas as coisas são dirigidas para algum fim vasto e importante. O juízo implica medida e equidade, em oposição ao que se faz sem regra nem reflexão. Toda a conduta divina é equânime, regida pela retidão, e tudo é dirigido por um juízo que não pode errar.—Robert Hall.

Justiça e juízo, etc. Quando se há de descrever a misericórdia e a graça de nosso Rei celestial, ele é comparado ao sol brilhando num firmamento claro, alegrando toda a natureza com seu raio benfazejo. Mas quando devemos conceber uma ideia dele saindo, em justiça e juízo, para derrotar e punir seus adversários, a imagem então é tomada de um céu perturbado; ele é retratado cercado de nuvens e escuridão, de onde saem relâmpagos e trovões, tempestades e temporais, temor, confundindo os ímpios e os impenitentes.—Samuel Burder.

O Senhor administra seu reino e governo com perfeita equidade. Justiça e juízo são a habitação de seu trono. Justiça, pela qual ele preserva, salva e recompensa os bons; juízo, pelo qual ele pune, confunde e destrói os ímpios: estes são a habitação de seu trono, seu tribunal, seu assento de julgamento. São a base ou fundamento que dão a seu trono rectitudinem et stabilitatem, "retidão e firmeza." Seu trono está firmado em justiça, e "o cetro do seu reino é cetro reto"; ainda que haja nuvens, não há manchas; ainda que haja escuridão, não há deformidades (Salmos 92:15).

Desde a criação, todas as coisas têm sido feitas com aquela exatidão irrepreensível, de tal modo que, se o mundo tivesse de começar de novo, e seus negócios tivessem de ser refeitos, não haveria uma só alteração num só detalhe. Tudo tem sido tão bem feito que nada pode ser melhorado. Aquelas passagens escuras e obscuras da providência, diante das quais os homens bons se assustam, e pelas quais todos os homens ficam perplexos, são traços excelentes e refinados, como sombras bem colocadas, que realçam a obra e enaltecem admiravelmente a beleza da providência.—Samuel Slater.

O firme decreto de Jove, ainda que envolto em noite,

resplandece em meio à escuridão com luz constante;

o destino do homem jaz obscuro nas trevas,

não penetrável a olhos mortais:

as justas resoluções de sua alta mente

encontram um desfecho glorioso;

embora entronizado em majestoso estado,

espessas nuvens e trevas o cercam,

como da torre do céu seu olhar

contempla a audaz impiedade do homem;

até que sua ira madura, voltada à vingança,

arma cada deus para o castigo,

e de seu trono alto e santo

envia todos os seus juízos temíveis.

—Ésquilo (tradução de R. Potter, 1808).

Versículo 3Salmo 97:3

Fogo vai adiante dele. Como um marechal ou guarda avançada diante de uma presença real, ou como os porta-lanças que precedem um juiz. O fogo é sinal tanto de graça quanto de ira (Êxodo 3:2; Salmos 18:9). A majestade se manifesta em ambas as demonstrações da Divindade.—C.H.S., a partir da Poli Synopsis.

Fogo vai adiante dele. Aquele fogo que Cristo veio lançar sobre a terra, o clarão ardente do Espírito Santo, que desceu em línguas de fogo no Pentecoste, para arder livremente por todo o mundo, para a destruição dos incrédulos obstinados e a purificação dos que receberam a Palavra com alegria. Disto falou o profeta, dizendo: "Enviarei um fogo sobre Magogue, e entre os que habitam descuidados nas ilhas: e saberão que eu sou o Senhor" (Ezequiel 39:6).

Esta chama divina ainda vai adiante da face do Senhor em sua vinda a cada alma fiel, à medida que ela se acende de saudade dele, e nela consome todos os seus pecados, ao amontoar sobre sua cabeça as brasas de fogo, para amolecê-la e purificá-la. "Necessário é", ensina um grande santo (S. Bernardo), "que o fervor do santo desejo vá adiante de sua face a cada alma a que ele deseja vir, uma chama que consumirá todo o mofo do pecado, e preparará um lugar para o Senhor. E então a alma sabe que o Senhor está perto, quando se sente acesa daquele fogo, e diz com o profeta: 'Meu coração se aqueceu dentro de mim; então falei com minha língua'" (Salmos 39:3).—Agostinho e outros, citados por Neale e Littledale.

Fogo vai adiante dele. Não há menos, mas antes mais ira reservada aos que desprezam o Evangelho, do que houve quando se deu a lei (Hebreus 12:29).—David Dickson.

Versículo 4Salmo 97:4

Seus relâmpagos iluminaram o mundo. Esta passagem é aplicada por Munster ao rápido crescimento do reino de Cristo: pois o som do Evangelho correu por todo o mundo como relâmpago. Há uma predição quase neste sentido em Zacarias 9:14: "Sua flecha sairá como o relâmpago, e o Senhor Deus tocará a trombeta."—Martin Geier.

A terra viu e tremeu. A simples visão de ti fez a terra tremer (Salmos 77:16).—A.R. Faussett.

Versículo 5Salmo 97:5

Os montes se derreteram como cera à presença do Senhor. Para uma passagem paralela, veja Miqueias 1:4. Ali as palavras se aplicam ao juízo de Deus prestes a cair sobre o povo da aliança: aqui se aplicam ao juízo sobre o mundo que se opõe a Deus. O fato de o juízo ter começado pela casa de Deus é sinal de que juízos de tipo muito mais destrutivo ainda alcançarão os ímpios (declaradamente) e os pecadores (1 Pedro 4:7). "Os montes" simbolizam as alturas do orgulho autoexaltado do homem — de intelecto, riqueza e poder.—A.R. Faussett.

O Senhor de toda a terra. Neste título está oculta a razão da liquefação dos montes, pois o Deus que aqui se manifesta é aquele que criou a terra, e por isso é capaz de reduzi-la a nada.—Martin Geier.

Versículo 6Salmo 97:6

Os céus proclamam, etc. Ele não diz que os céus exercem, mas que os céus proclamam a sua justiça. Aos olhos dos ímpios, a justiça de Deus permanece oculta, até que se manifeste por meio de um milagre surpreendente.

Os céus. A expressão não é "Deus proclama", mas "os céus proclamam a sua justiça." A criatura é serva e reveladora da justiça de Deus.

A sua justiça. Ele não diz que os céus proclamam a nossa justiça, mas a sua justiça. Testificam que Deus é o juiz justo, mais do que testificam que os próprios santos são justos.

Todos os povos. Não apenas os ímpios, aqueles monstros opressores, veem, mas "todos os povos." Deus revela sua glória de tal modo que não só os ímpios que são punidos podem vê-la, mas também os demais mortais, para sua edificação.

E verão. Não apenas ouvirão ou saberão, mas verão. Esta é, por fim, uma demonstração poderosa e convincente da justiça de Deus, posta diante de seus olhos.

A sua glória. Não apenas a destruição dos ímpios e a vingança sobre os inimigos de Deus, mas a sua glória; pois na destruição dos ímpios, e na libertação dos inocentes, se declara a glória de Deus. Assim o profeta se alegra não tanto pela destruição dos ímpios, mas pela glória de Deus.—Musculus.

Versículo 7Salmo 97:7

Envergonhados sejam todos os que servem imagens de escultura. etc. Ainda que os que amam a imaginária não só sirvam a imagens, mas também defendam o uso de imagens no exercício da religião, e nelas se gloriem, ainda assim, por fim, se envergonharão de sua jactância.—David Dickson.

Adorai-o, todos vós, deuses, ou: que todos os anjos de Deus o adorem. O próprio conteúdo do salmo torna manifesto que o Espírito Santo trata ali da vinda do primogênito ao mundo, e do estabelecimento de seu reino nele. Descreve-se um reino em que Deus reinaria, que haveria de destruir a idolatria e o falso culto; um reino em que as ilhas dos gentios se alegrariam, sendo chamadas a nele ter parte; um reino que seria pregado, proclamado, declarado, para o aumento da luz e da santidade no mundo, com a manifestação da glória de Deus até os confins de toda a terra: cada parte disso declara que o reino de Cristo é o que se pretende no salmo, e, por consequência, que é uma profecia da vinda do primogênito ao mundo.

Nossa questão é se os anjos estão implicados nestas palavras. São kol elohim, omnes dii; e assim são vertidas por Jerônimo, Adorate eum, omnes dii; e em nossa versão autorizada, "Adorai-o, todos vós, deuses." As palavras precedentes são: "Envergonhados sejam todos os que servem imagens de escultura", ba'elilim hammithalelim, "que se vangloriam" em ou de "ídolos", "vaidades, nadas", como significa a palavra — de onde se segue esta apóstrofe: "Adorai-o, kol elohim, todos vós, deuses." E quem sejam estes é nossa questão presente.

Alguns, como todos os judeus modernos, dizem que são os deuses dos gentios, aqueles que estes adoram, os que se têm em vista; fazendo assim de elohim e elilim, "deuses" e "ídolos vãos", a mesma coisa neste lugar. Mas:

  1. Não é possível que o salmista exortasse os ídolos dos pagãos — alguns dos quais eram demônios, alguns homens mortos, alguns partes inanimadas da criação — a uma adoração reverente de Deus, que reina sobre todos. Por isso o Targumista, percebendo a vaidade dessa interpretação, distorce as palavras, e as verte: "Adorai diante dele, todas as nações que servem a ídolos."

  2. Elohim está, neste lugar, longe de ser explicativo de elilim, "deuses" ou "ídolos vãos"; pelo contrário, se opõe diretamente a ele, como é evidente pelas próprias palavras.

  3. A palavra elohim, que na maioria das vezes designa o verdadeiro Deus, nunca, sozinha e tomada de modo absoluto, significa falsos deuses ou ídolos, senão quando está unida a alguma outra palavra que revele sua aplicação — como seu deus, ou seus deuses, ou os deuses deste ou daquele povo —, caso em que é vertida pelos Setenta (Septuaginta) ora como eidōlon, "ídolo"; ora como cheiropoiēton, "ídolo feito por mãos"; ora como bdelygma, "abominação." Mas aqui não tem tal limitação ou restrição.

Portanto, havendo algumas criaturas que, por razão de certa excelência peculiar e semelhança a Deus, ou subordinação a ele em seu trabalho, são chamadas deuses, devem ser estas, ou algumas delas, as que se têm em vista na expressão. Ora, estas são ou magistrados ou anjos.

  1. Os magistrados são por vezes chamados elohim, por causa da representação que fazem de Deus em seu poder, e sua peculiar subordinação a ele em seu trabalho. Os judeus, de fato, sustentam que nenhum outro magistrado, senão os do grande Sinédrio, é em algum lugar chamado deus; mas isso não diz respeito à nossa questão presente. Alguns magistrados são assim chamados, mas nenhum deles é o que o salmista tem em vista, não havendo ocasião para tal apóstrofe dirigida a eles.

  2. Os anjos são chamados elohim: legomenoi theoi, "os assim chamados deuses" (1 Coríntios 8:5). Recebem o nome de Deus atribuído a si, e são estes a quem o salmista se dirige. Tendo convocado toda a criação a se alegrar com a vinda do reino de Deus, e insistido em sua exortação às coisas da terra, ele se volta para os anjos ministradores, e os chama ao cumprimento de seu dever para com o Rei daquele reino. Por isso o Targumista, no início de Salmos 96, menciona expressamente "seus altos anjos", unindo-se a seu louvor e adoração, usando a palavra grega angelos, para efeito de distinção, como pelo mesmo motivo aparece com frequência no Targum.

Demonstramos assim que o salmo trata da vinda do primogênito ao mundo; e também que são os anjos ministradores os aqui ordenados a adorá-lo.—John Owen.

Versículo 8Salmo 97:8

Sião ouviu, etc. Mas por que, poderia perguntar-se, ele fala destas coisas serem ouvidas, e não vistas? Podem-se dar duas razões para isso. Primeiro, ele queria que o povo crente de Deus antecipasse a bênção pela esperança, antes que sua consumação chegasse; e, segundo, a linguagem sugere que a glória do Evangelho se espalharia a regiões tão distantes que os judeus antes ouviriam falar dela por relato do que a testemunhariam com os próprios olhos.—João Calvino.

As filhas de Judá se regozijaram. Davi alude a um costume familiar na Judeia, o de formar coros de donzelas depois de uma vitória ou de algum acontecimento feliz. Assim, depois da travessia do Mar Vermelho, quando os egípcios se afogaram e o povo de Deus foi trazido em segurança à outra margem, Miriã, a profetisa, irmã de Arão, tomou um tamborim em sua mão, e todas as mulheres a seguiram com tamborins e danças, dizendo: Cantemos ao Senhor, porque triunfou gloriosamente; lançou ao mar o cavalo e o seu cavaleiro.

Quando Golias foi morto por Davi, diz-se em 1 Samuel 18:6-7: "Quando Davi voltava depois de matar o filisteu, as mulheres saíam de todas as cidades de Israel, cantando e dançando, ao encontro do rei Saul, com tamboris, com alegria, e com instrumentos de música. E as mulheres cantavam enquanto tocavam, e diziam: Saul feriu os seus milhares, e Davi os seus dez milhares."—Le Blanc.

Versículo 10Salmo 97:10

Vós que amais o Senhor, odiai o mal. É evidente que nossa conversão é verdadeira quando aborrecemos e odiamos o pecado do fundo do coração: um homem pode saber que seu ódio ao mal é verdadeiro, primeiro, se é universal — quem odeia o pecado de verdade, odeia todo pecado. Segundo, o verdadeiro ódio é firme; não há como aplacá-lo senão eliminando a coisa odiada. Terceiro, o ódio é um afeto mais arraigado que a ira: a ira pode se aplacar, mas o ódio permanece, e se volta contra toda a espécie.

Quarto, se nosso ódio é verdadeiro, odiamos todo mal, primeiro em nós mesmos, e depois nos outros; quem odeia um sapo há de odiá-lo mais ainda em seu próprio peito. Muitos, como Judá, são severos ao julgar os outros (Gênesis 38:24), mas condescendentes consigo mesmos. Quinto, quem odeia o pecado de verdade odeia o maior pecado na maior medida; odeia todo mal na justa proporção. Sexto, nosso ódio é correto se conseguimos suportar admoestação e repreensão pelo pecado, sem nos enfurecermos; por isso, os que se enfurecem contra a repreensão não parecem de fato odiar o pecado.—Richard Sibbes.

Odiai o mal. O pecado parece ter recebido seu nome no hebraico por ser, entre tudo, o mais digno de ódio, como o maior mal; como aquilo que mais nos afasta de Deus, o maior bem.—John Trapp.

Busquem as graças que mortificam, especialmente o amor a Deus, pois os que amam o Senhor odeiam o mal. E quanto mais o amam, mais o odiarão.—David Clarkson.

Deus é Espírito, e olha para o nosso próprio espírito; e o que somos em nosso espírito, em nosso coração e afeições, isso somos para ele. Por isso, o mal que evitamos, evitemo-lo a partir do coração, odiando-o primeiro. Um homem pode evitar uma ação má por medo, ou por outros motivos, mas isso não é sinceridade. Por isso, atenta para o teu coração, cuida que odeias o mal, e que isso venha de um olhar sincero para Deus. "Vós que amais o Senhor, odiai o mal", diz Davi: não apenas o evitem, mas o odeiem; e não apenas o odeiem, mas o odeiem por amor a Deus.—Richard Sibbes.

Odiai o mal.

LUCIANO. Sou o inimigo declarado de toda falsa pretensão, de toda charlatanice, de toda mentira e de toda vaidade. Sou amante da verdade, da beleza, da natureza sem disfarces; em suma, de tudo o que é digno de amor.

FILOSOFIA. Amar e odiar, dizem, brotam de uma mesma fonte.

LUCIANO. Isso, ó filosofia, deves saber melhor do que eu. Meu ofício é odiar o mau, e amar e louvar o bom; e a isso me atenho.—Luciano, Piscator, cap. 8.

Ele preserva a alma de seus santos. Observemos que há duas partes na proteção divina: preservação e libertação. Preservação é guardar para que não caiamos em perigo; libertação se refere aos que já estão envolvidos em perigos. O pastor guarda suas ovelhas para que não caiam entre lobos; mas se por acaso caírem nas garras do lobo, ele as persegue e as liberta. O profeta mostra ambas as partes, persuadindo-nos de que é o Senhor quem guarda a alma de seus santos para que não caiam nas mãos dos ímpios; e, se caírem, ele os libertará.—Musculus.

Versículo 11Salmo 97:11

Semeada está a luz. O termo hebraico aqui não significa semear lançando à terra, mas espalhar ao longo do caminho da vida, de modo que o justo avança passo a passo na luz. Hitzig compara com razão kidnatai, skidnatai, usado a respeito da aurora e do sol. Do primeiro, também Virgílio diz: Et jam prima novo spargebat lumine terras — "E já a primeira Aurora espalhava as terras com nova luz."—Franz Delitzsch.

Semeada está a luz.

E já Aurora, do leito açafroado

de seu Titono erguendo-se, semeava a terra

com luz orvalhada.

—Tradução de Virgílio por C.R. Kennedy.

Semeada está a luz.

Agora a Manhã, seus passos rosados no clima oriental

avançando, semeava a terra com pérola oriental.

—John Milton.

Semeada está a luz para o justo. Os homens mais reflexivos crescem em fé e discernimento espiritual duvidando com frequência, e vendo suas dúvidas esclarecidas. O pensamento religioso assim se transforma em sentimento pessoal; e a rocha sólida de uma convicção mais verdadeira e de uma confiança mais profunda, como fundamento firme para a alma edificar por toda a eternidade, permanece depois que todo o desgaste dos materiais soltos e mais perecíveis se dissipa pela especulação.

Uma revelação diferente, senão mais verdadeira, das realidades celestiais nos é dada através do processo escuro e angustiante da dúvida, do que através do exercício brilhante e alegre da fé inabalável; assim como nosso conhecimento da química do sol e das estrelas, da constituição física de mundos distantes, não vem das faixas brilhantes de seu espectro, que revelam apenas seu tamanho e forma, mas das maravilhosas linhas de Fraunhofer — aqueles espaços escuros e vazios que interrompem as faixas do espectro — que nos falam de raios detidos em seu caminho, impedidos de trazer sua mensagem até nós por vapores metálicos particulares.

Para os retos, precisamente por causa da pureza e simplicidade de seus motivos, e da seriedade de sua busca pela verdade, surge luz na escuridão. Devemos lembrar que "a luz está semeada para o justo"; que sua germinação e desenvolvimento, mais ou menos rápidos, dependem da natureza do solo sobre o qual cai, e das circunstâncias que a influenciam; que, como a semente, ela primeiro jaz oculta no sulco escuro, sob o torrão sem alegria, no inverno inclemente; mas que, mesmo então, enquanto brilha na escuridão, enquanto luta com dúvidas e dificuldades da mente e do coração, é ainda assim fonte de muito consolo, e em seu lento, vivificante e oculto crescimento é causa de esperança viva, e de brilhante antecipação daquele tempo em que florescerá e amadurecerá no verão do céu — brilhando cada vez mais até o dia perfeito.—Hugh Macmillan, em "The Ministry of Nature", 1871.

Semeada está a luz para o justo: semeada nestes dois campos:

  1. No decreto eterno de Deus, em seu poder, promessa, graça e amor. Estas são as "fontes superiores."

  2. No campo de suas graças e santos deveres; estas são as "fontes inferiores"; e ambas deságuam num só rio, e "alegram a cidade de Deus"; ambos os campos rendem uma colheita farta de consolo aos piedosos.—John Sheffield, em "The Rising Sun," 1654.

Semeada. A colheita do justo é secreta e oculta. Jaz, como o grão coberto na terra; "a sua vida está escondida"; e "ainda não se manifestou o que havemos de ser"; "olho nenhum viu, nem ouvido ouviu, nem penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para os que o amam" (Colossenses 3:3; 1 João 3:2; 1 Coríntios 2:9).

Nomeie o que puder, e será um mistério, uma coisa secreta, que pertence aos retos de coração. Primeiro: não é o decreto de Deus uma coisa oculta? Um abismo insondável? E capaz de deixar um homem espantado? Não exclamou Paulo: "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!" (Romanos 11:33)?

E não é também a encarnação de Cristo um segredo? O que mais digno de admiração do que Deus se fazer homem, e se manifestar em carne? Os próprios anjos desejavam contemplar este mistério (1 Timóteo 3:16; 1 Pedro 1:12; Isaías 7:14). De novo, a conversão e regeneração de um pecador é admirável; é obra nobre, mas secreta: Nicodemos, grande doutor, não pôde compreendê-la. E se os nascimentos naturais são tão estranhos, o que diremos deste? Além disso, a paz de consciência e a alegria no Espírito Santo não são coisa aberta; ninguém a conhece, senão quem a tem. Assim é o penhor do Espírito, e o verdadeiro selo da salvação; o poder, a vida e a doçura da palavra; a remissão e o perdão do pecado, com a certeza da salvação.

E, em quinto lugar, a colheita é secreta se considerarmos onde ela cresce. Um campo é o propósito secreto de Deus; e quem pode compreendê-lo? Outro é sua palavra; e quão difícil é penetrá-la? Um terceiro é o próprio coração do homem; e não é ele secreto e enganoso? E, por fim, a própria parte principal da colheita está escondida com Cristo no céu; e quando ele aparecer, se manifestará o que ela será.—John Barlow.

Versículos 11–12Salmo 97:11-12

são ambos notanda — coisas dignas de nota — muito saborosas e preciosas.—Dá-me experimentar, ó Senhor, aquelas revelações que acompanham a obediência; e, ah, que eu sentisse o encanto e o gozo da santidade, de modo a dar graças, refletindo que, para um Deus santo, a santidade é requisito indispensável para nossa comparência em sua presença. Devemos ainda ser gratos por causa deste atributo essencial na Divindade; pois é em virtude de sua santidade que o mal não pode habitar com ele, e que o mundo será, por fim, libertado — e isso de modo definitivo — da maldade, da malícia e das vis sensualidades que hoje tanto o perturbam e deformam. Apressa esta consumação, ó Senhor.—Thomas Chalmers.

Versículo 12Salmo 97:12

Alegrai-vos no Senhor. Devemos "alegrar-nos sempre"; pois até o pranto santo traz em si a semente da alegria, que a alma encontra quando ele passa, se não já durante ele.—William Cooper, em "Morning Exercises."

Alegrai-vos no Senhor.

  1. Alegrar-nos no Senhor significa tomar um prazer bem sincero e cordial em tudo o que se relaciona com o Deus eternamente bendito — particularmente sua existência, seus atributos, sua providência; as revelações de sua vontade a nós, especialmente em sua palavra; o interesse que temos nele, e as relações em que estamos com ele; sua contínua proteção, orientação e influência; seu convívio gracioso conosco nos deveres do culto religioso; e, por fim, a esperança que ele nos deu de plenitude de alegria, em sua presença beatífica e gloriosíssima nas alturas.

  2. Alegrar-nos no Senhor significa que nossa alegria em Deus é superior a todas as nossas outras alegrias; do contrário, é uma alegria indigna dele, e de modo algum, ou não salvificamente, proveitosa para nós.

  3. Seja qual for a coisa em que nos alegremos, devemos nos alegrar de tal maneira que se possa dizer com propriedade que nos alegramos no Senhor, mesmo quando outras coisas sejam a ocasião imediata de nossa alegria. O Deus a quem servimos não é um Ser invejoso e malévolo, mas extremamente generoso e bondoso; ele nos criou com um desejo inextinguível de felicidade, como sinal secreto de que pretende nos fazer felizes, se não nos tornarmos miseráveis por nós mesmos; e, embora nossa principal felicidade esteja depositada nele mesmo, e em nenhum outro lugar se encontre (nisso ele mostrou o cuidado singular que tem por nossa natureza), ele alimenta nossos corações com mil pequenos riachos de alegria e satisfação vindos das coisas criadas.

Nossos corpos são dotados de uma variedade de sentidos e apetites, e nossas almas de poderes e faculdades próprias; nem um só sentido ou faculdade foi feito em vão, ou para ficar sempre ocioso e inútil; mas cada sentido, e muito mais cada faculdade mental, tem não uma, mas um grande número de coisas providas para entretê-lo. Mas então a alma não deve se perder neste labirinto de deleites; não deve, por essa variedade, ser desviada daquele único bem infinito, que contém eminentemente em si mesmo todas as várias espécies e graus da verdadeira alegria.—Henry Grove, 1683-1737/8.

Alegrai-vos... e dai graças. Duas coisas devem ser observadas: uma, que ele une a alegria no Senhor ao louvor de Deus. E com razão: pois não é possível a um homem louvar verdadeiramente ao Senhor, e da alma, sem que se alegre nele. A outra, que ele liga o louvor de Deus à lembrança de sua santidade. E com boa razão: pois é o principal uso do louvor divino que, por seu exercício, mantenhamos viva em nossas almas a lembrança de Deus e de todas as bênçãos dele recebidas. Assim, este versículo contém a raiz e o fruto do louvor divino. A raiz é a alegria em Deus; o fruto é a lembrança de Deus e de sua bondade.—Musculus.

Vós, justos... todos vós, retos de coração. Alguém poderia dizer que só o justo, só o reto, pode assim se alegrar; mas onde há algum assim? "Quem pode dizer", pergunta Salomão, "purifiquei o meu coração, estou limpo do meu pecado?" Não; "não há homem justo sobre a terra que faça o bem e nunca peque." Coisa vã pareceria, então, exortar os homens a se alegrarem, quando a condição anexada é tal que exclui a todos da alegria. De que serve incitar os justos a se alegrarem, se não há nenhum assim que possa se alegrar?

A resposta está logo à mão, na segunda parte do versículo. Por justos se entendem todos os que são "retos de coração", cláusula acrescentada em parte para excluir o hipócrita, e em parte para temperar e qualificar o rigor do termo antes usado, caso fosse tomado de modo estrito e exato. De modo que é uma marca tanto de extensão quanto de restrição.

  1. De restrição, para excluir desta alegria, e de todo direito a ela, todos os dissimulados, todos os cristãos falsos, todos os hipócritas de coração oco, que se arrependem no rosto mas não no coração; que fazem cara amarga para parecer que jejuam, como diz nosso Salvador; que se justificam diante dos homens, mas Deus vê seus corações como são, e vê que são bem diferentes do que deveriam ser, ou do que pretendem ser.

  2. De extensão, para estender e ampliar esta alegria — seu fundamento e o direito a ela — a todos os de coração único e sincero; e assim dar e conceder uma parte e uma porção nela tanto aos que são sinceramente justos na terra, quanto aos que são perfeitamente justos no céu. É como uma chave para deixar entrar uns. É como um ferrolho para deixar de fora os outros.—Thomas Gataker.

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