Notas explicativas e citações: Salmo 119:169-176 (Tau)
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 119:169-176, reunidas por Charles Spurgeon.
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Versículo 169Salmo 119:169
Chegue a minha súplica perante ti, ó SENHOR. Isto é, como querem alguns, que todo este salmo precedente, e todas as petições (das quais temos aqui uma repetição) nele contidas, sejam altamente aceitas no céu. — John Trapp.
Chegue a minha súplica perante ti, ó SENHOR. Chegamos agora à última seção deste salmo, na qual vemos Davi mais fervoroso em oração do que estava na primeira, como facilmente se observará comparando as duas. Os piedosos, quanto mais falam a Deus, mais fervorosos e sérios se tornam para falar com ele; de modo que, a menos que a necessidade os force, jamais desejam interromper a conversa com ele.
Muitas orações ele fez a Deus neste salmo: agora, ao final, ora pelas suas próprias orações, para que o Senhor as deixe chegar diante dele. Alguns homens enviam orações, mas Deus as transforma em pecado, e as afasta de si: por isso Davi busca favor para as suas orações. — William Cowper.
Dá-me entendimento. Esta foi a oração de Salomão (1 Reis 3:9), e nos é dito que ela agradou ao Senhor, que, como recompensa, acrescentou prosperidade temporal, a qual o jovem rei não tinha pedido. No entanto, Salomão quis dizer menos com a sua oração do que o seu pai Davi; pois vemos nele pouco traço daquela devoção profunda pela qual seu pai era tão notável. O salmista aqui faz uma oração profunda, que só pode ser respondida pelo próprio Espírito Santo iluminando a alma. O entendimento é membro dos mais importantes da nossa estrutura espiritual. A consciência é o entendimento exercido sobre questões morais, e, se ele não for reto, onde estaremos? O nosso entendimento da palavra de Deus vem pelo ensino, mas também pela experiência: dificilmente entendemos algo antes de o experimentar. Tal experiência iluminadora é dádiva de Deus, e a ele devemos recorrer por ela em oração. — C.H.S.
Dá-me entendimento. A obra particular do Espírito Santo na iluminação das nossas mentes para o entendimento da Escritura é chamada "entendimento." O salmista ora: "Dá-me entendimento, e guardarei a tua lei" (versículo 34). Assim fala o apóstolo a Timóteo: "Considera o que digo; e o Senhor te dê entendimento em tudo": 2 Timóteo 2:7. Além da sua própria consideração daquilo que lhe era proposto, o que inclui o devido e diligente uso de todos os meios externos, era além disso necessário que Deus lhe desse entendimento por uma obra interior e eficaz do seu Espírito, para que ele compreendesse aquilo em que era instruído.
E o desejo disto, como daquilo sem o qual não pode haver conhecimento salvador da palavra, para proveito por meio dela, o salmista expressa enfaticamente, com grande fervor de espírito, no versículo 144: "A justiça dos teus testemunhos é eterna: dá-me entendimento, e viverei." Sem isso, ele sabia que não poderia ter benefício algum da eterna justiça dos testemunhos de Deus. Todo entendimento, de fato, por mais que seja abusado pela maioria, é obra e efeito do Espírito Santo, pois "a inspiração do Todo-Poderoso dá entendimento": Jó 32:8. Assim, este entendimento espiritual é, de modo especial, dádiva de Deus. Neste "entendimento" incluem-se tanto a capacidade da nossa mente quanto o seu devido exercício.
Esta única consideração, de que os santos de Deus com tanta seriedade oraram para que Deus lhes desse entendimento quanto à sua mente e vontade revelada na palavra, com as suas repetidas promessas de que assim o faria, pesa mais para mim do que todas as disputas dos homens em contrário. Nenhum argumento adicional é necessário para provar que os homens não entendem a mente de Deus na Escritura de modo devido, além da sua própria suposição e confiança de que podem fazê-lo sem a comunicação de um entendimento espiritual pelo Espírito Santo. Esta autoconfiança é diretamente contrária aos claros e expressos testemunhos da palavra. — John Owen.
Dá-me entendimento. Por que haveria o homem de Deus de orar aqui por entendimento? Não tinha ele orado por isso muitas vezes antes? Era ele um noviço em conhecimento, sendo profeta? Não repreende o nosso Salvador Cristo as repetições e a tagarelice na oração? É verdade que o nosso Salvador Cristo repreende aquela tagarelice que carece de fé, de conhecimento e de um senso das nossas necessidades; mas ele não fala contra aquelas sérias repetições que procedem de um conhecimento abundante, de fé farta, e de vivo senso das nossas necessidades.
Além disso, embora não se possa negar que ele era homem de Deus, e tinha recebido grande graça, ainda assim Deus dá conhecimento aos seus mais queridos santos, nesta vida, apenas em parte, e o máximo que vemos e conhecemos é bem pouco. Além disso, quando temos conhecimento, e o conhecimento precisa ser posto em prática, encontraremos tais dificuldades, tal teimosia, tal esquecimento, tais carências, que, embora tenhamos tido, como o profeta, uma direção muito boa nas coisas gerais da palavra, que são universais e poucas, ainda assim encontraremos muitas distrações nas nossas práticas, que serão particulares e numerosas; e falharemos, ou na memória por esquecimento, ou no juízo por cegueira, ou no afeto por torpor. Tão facilmente podemos escorregar quando pensamos que podemos seguir a nossa jornada.
Por isso o homem de Deus, por meio daquele exame que fez do seu coração e dos seus afetos, vendo esses múltiplos apertos e dificuldades, ora no versículo seguinte, não pela renovação dos homens em geral em suas tribulações, mas pela consideração da sua própria condição particular. — Richard Greenham.
Segundo a palavra. Davi aqui busca entendimento não carnalmente, pois a sabedoria da carne é morte; mas busca entendimento segundo a palavra de Deus. Sem isso, a sabedoria do homem é loucura; e quanto mais sutil parece ser em seus caminhos, mais profundamente se enreda no laço do diabo. "Rejeitaram a palavra do Senhor; e que sabedoria há neles?" Jeremias 8:9.
Mas, sendo ele um excelente profeta, e tendo protestado antes que tinha mais entendimento do que os anciãos, sim, do que os seus mestres, como é que ainda ora por entendimento? Em resposta a isto, devemos saber que há grande diferença entre os dons da natureza e os da graça. A natureza, muitas vezes, dá ao homem dons muito excelentes, como memória rara, conhecimento, engenho vivo, força, beleza externa; mas com isso não ensina o homem a considerar aquilo em que lhe falta; daí acontecer que ele se ensoberbece do que tem. Isto é coisa comum aos homens no estado de natureza, que de pequenos dons concebem grande orgulho: mas a graça, ao passo que dá ao homem dons mais excelentes do que a natureza pode proporcionar, também o ensina a olhar para aquilo de que carece, para que não se encha de orgulho ao considerar o que tem, mas seja levado, em toda humildade de coração, a orar pelo que lhe falta. — Abraham Wright.
Versículo 170Salmo 119:170
Chegue a minha súplica diante de ti», etc. O adorador sincero não pode se contentar com nada menos que o convívio real com Deus. A rotina do dever não pode agradar onde o espírito de graça e de súplica não foi concedido. Uma disposição filial há de derramar-se em ardentes anseios pela comunhão com Deus. Nem a esperança de audiência favorável se fundará em outro argumento senão o da segura palavra da promessa de Jeová. É de acordo com essa palavra, e não em oposição a ela, que o filho de Deus espera ser ouvido. Toda a sua libertação, ele sente, vem do Senhor, e tudo o que espera do céu, ele antecipa em resposta à oração. Ah, que tenhamos mais daquela fé que apela à veracidade divina, e que olha com olhar firme para a promessa de um Deus que guarda a aliança. — John Morison.
Chegue a minha súplica diante de ti. Observe-se a ordem das palavras aqui e no versículo anterior. Primeiro tivemos "chegue a minha súplica"; depois "dá-me entendimento", e isso "segundo a tua palavra"; e agora temos "entre a minha oração (Septuaginta, Siríaca, Arábica, Vulgata) diante de ti." É exatamente assim: se você deseja uma audiência com um homem de posição muito elevada, primeiro se aproxima da sua casa, depois pede informação e instrução quanto às suas intenções, depois pede permissão para entrar, para não ser afastado e recusado à entrada. Bata, pois, à porta do palácio celestial: bata, não com a mão do corpo, mas com a mão direita da oração. Pois a voz pode bater tanto quanto a mão, como está escrito: "É a voz do meu Amado que bate": Cântico dos Cânticos 5:2. E, tendo batido, veja como entra, para que, depois de entrar, não deixe de ver o Rei. Pois há muitos que conseguem entrar em palácios e não obtêm de imediato audiência com um soberano terreno, mas têm de vigiar constantemente até finalmente conseguir uma entrevista. Nem têm eles a escolha do momento; vêm quando são chamados, e então apresentam a sua petição, se desejam ser bem recebidos. — Ambrósio, em Neale e Littledale.
Versículo 171Salmo 119:171
Os meus lábios proferirão louvor. Você já esteve junto à nascente de um curso d'água, e admirou enquanto ele borbulhava e descia num pequeno riacho límpido, até que, por fim, engrossava o grande rio. É a essa imagem que se alude aqui. O coração ensinado por Deus não consegue se conter, mas irrompe em louvor e cântico. Este seria o efeito da iluminação divina, e isto seria sentido como um privilégio — sim, e um dever elevado. Crentes, não é isso o que vocês descobrem, especialmente nas ocasiões comuns? Tende por certo: tais expressões são o sinal de um coração renovado; sim, de um coração cheio de toda a gratidão de um sentimento reto. — John Stephen.
Os meus lábios proferirão louvor, etc.
Ó faze-me, Senhor, aprender os teus estatutos!
Guarda os meus pés nos teus caminhos,
Então os meus lábios arderão divinamente;
Então os meus cânticos serão doces.
Cada pecado que eu lançar fora fará
Minha alma mais forte para se elevar;
Cada obra de santidade despertará
Uma nota mais divina ainda.
A minha voz mais deleitará o teu ouvido
Quanto mais eu esperar no teu tempo;
O serviço trará o meu cântico mais perto
Da harmonia angelical.
T. H. Gill, em Breathings of the Better Life, 1881.
Versículo 172Salmo 119:172
A minha língua falará da tua palavra. Um dos deveres de gratidão que Davi promete é falar das palavras de Deus para a edificação dos outros. Todo cristão, assim como é sacerdote para oferecer sacrifício a Deus, é também profeta para ensinar os seus irmãos; pois a todos nós vale aquele mandamento: "Edificai-vos uns aos outros na santíssima fé." Mas, ai, vereis hoje muitos cristãos que, à mesa, e em suas companhias, sabem falar livremente sobre qualquer assunto; só quanto às coisas espirituais, que dizem respeito à alma, ali ficam mudos, e não conseguem dizer com Davi: "A minha língua falará da tua palavra." — William Cowper.
Versículo 173Salmo 119:173
Ajude-me a tua mão. Tendo Davi antes feito promessas de gratidão, busca agora ajuda de Deus, para que possa cumpri-las. A nossa suficiência não vem de nós mesmos, mas de Deus; tanto o querer quanto o fazer vêm dele. Nas coisas temporais, os homens muitas vezes se esforçam bastante com pouco proveito; primeiro, porque não procuram ter a consciência limpa; depois, porque não buscam ajuda de Deus: por isso não prosperam melhor do que Pedro, que pescou a noite toda e nada obteve, até lançar a rede em nome do Senhor.
Mas nas coisas espirituais podemos esperar prosperar bem menos ainda, se não clamarmos pela assistência de Deus: os meios não nos aproveitarão a menos que a bênção de Deus os acompanhe. Há pregação, mas na maior parte sem proveito; há oração, mas não prevalece; há audição da palavra, mas sem edificação; e tudo porque, nos exercícios espirituais, não se faz oração insistente a Deus, para que a sua mão esteja conosco para nos ajudar. — Abraham Wright.
Escolhi os teus preceitos. Deu-te Deus um coração para fazer escolha dos seus caminhos? Ó, bendize a Deus! Houve um tempo em que você seguia agradando à carne, e então não via nada melhor do que tal tipo de vida; e aprouve ao Senhor revelar-lhe coisas melhores, de modo a fazê-lo renunciar aos seus antigos caminhos e escolher outro caminho, no qual a sua alma encontrou consolos, satisfações e contentamentos de outro tipo, que nunca antes tinha experimentado. Bendiga a Deus como Davi bendisse: "Bendito seja o Senhor, que me tem dado conselho..." Vendo que Deus assim inclinou o seu coração para si mesmo, seja você para sempre firme na sua escolha: vendo que Deus lhe mostrou os seus caminhos, como Pilatos disse em outro caso, "o que escrevi, escrevi": assim diga você, "o que escolhi, escolhi." — Jeremiah Burroughs, em Moses His Choice.
Versículos 173–174Salmo 119:173-174
Escolhi. O meu deleite. A alegria acompanha a escolha de uma coisa. O abatimento é sinal de que nunca a escolhemos, mas fomos forçados a ela. Tal alegria no serviço obtém alegria nas misericórdias: Isaías 64:5, "Tu sais ao encontro daquele que se alegra e pratica a justiça." Ele estende a mão para ajudar a tal pessoa. Cristo não ama o serviço melancólico e fleumático; tal disposição nos atos de obediência é uma vergonha tanto para Deus quanto para a religião: para Deus, trai em nós pensamentos ciumentos a seu respeito, como se ele fosse um patrão duro; para a religião, faz os outros pensarem que os deveres são fardos, e não privilégios.
— Stephen Charnock.
Versículo 174Salmo 119:174
Tenho suspirado pela tua salvação, ó SENHOR», etc. A coisa que aprendemos daqui, do fato de Davi unir estas duas afirmações — suspiro pela salvação, e a tua lei é o meu deleite —, é esta: não basta a um homem dizer que suspira e deseja ser salvo, a menos que tenha o cuidado de usar os meios estabelecidos para chegar a isso. Teria sido mera hipocrisia da parte de Davi dizer que suspirava pela salvação, se a sua consciência não pudesse testemunhar com ele que a lei era o seu deleite. É pura zombaria alguém dizer que anseia por pão, e orar a Deus todo dia para que lhe dê o seu pão diário, se, no entanto, não segue vocação alguma, ou busca obtê-lo por fraude e rapina, sem se apoiar em nada na providência de Deus. Quem imaginaria que um homem deseja saúde, se despreza ou negligencia os meios da sua recuperação?
Deus, na sua própria sabedoria, estabeleceu um meio lícito para cada coisa lícita; sendo esse meio usado com obediência, pode-se esperar com confiança a obtenção consoladora do fim; não sendo o meio observado, pensar em alcançar o fim é mera presunção. Deus livraria Noé do dilúvio, mas Noé precisava ser "movido de temor" e "preparar a arca" (Hebreus 11:7), ou não poderia ter escapado. Ele salvaria Ló de Sodoma, mas ainda assim Ló precisava apressar-se a sair depressa, e não olhar para trás até ter entrado em Zoar: Gênesis 19:17. Aprouve-lhe curar Ezequias da praga, mas ainda assim Ezequias precisou tomar "uma pasta de figos, e pô-la sobre a chaga": Isaías 38:21. Ele se dispôs a preservar Paulo e seus companheiros no mar, mas os marinheiros precisavam "permanecer no navio", senão não poderiam ser salvos, diz Paulo: Atos 27:31. — Samuel Hieron, 1572-1617.
Tenho suspirado pela tua salvação. É a própria salvação de Deus que ele deve desejar — "a tua salvação" — pois nada mais poderia satisfazer a sua mente pura: paz perfeita com Deus, pureza perfeita e esperança perfeita. Ora, se perguntarem qual era o modo de livramento de Deus, e qual o seu modo de salvação, a resposta é que estava exposto na sua palavra, e era o que o salmista chama a sua "lei." A salvação de Deus e a sua lei se percebiam como uma só coisa. "Tenho suspirado pela tua salvação, ó SENHOR; e a tua lei é o meu deleite." — John Stephen.
Tenho suspirado pela tua salvação, ó SENHOR. "Salvação", pela "mão", ou braço de Jeová (o que frequentemente, na Escritura, é título do Messias), tem sido o objeto das esperanças, dos desejos e das ansiosas expectativas dos fiéis, desde Adão até esta hora, e assim continuará até que aquele que já nos visitou em grande humildade venha novamente em majestade gloriosa para completar a nossa redenção e nos tomar para si. — George Horne.
Tenho suspirado pela tua salvação, ó SENHOR. Por uma salvação presente da culpa e do poder do pecado, e por uma salvação futura, no pleno e eterno gozo de Deus no céu. Davi teve a felicidade de ser participante tanto da misericórdia perdoadora quanto da graça santificadora; ainda assim, continuava a suspirar por mais dessa salvação, isto é, por uma fé mais assegurada da misericórdia perdoadora, e por medidas mais amplas de graça santificadora. Uma alma agraciada é insaciável; quanto mais recebe, mais deseja receber. O gozo, em vez de saciar, aguça o apetite. Aliás, tão doce é o saborear das coisas espirituais que cada novo gosto delas extingue a sede por outras coisas.
A tua lei é o meu deleite. Aqui Davi escolhe o termo "lei" para designar toda a revelação da vontade de Deus, para nos lembrar da conexão inseparável entre privilégio e dever, fé e obediência, santidade e consolo; e para nos ensinar que devemos ser gratos a Deus pela direção que ele nos deu no caminho para o céu, tanto quanto pelas promessas com que somos assegurados da sua posse. — Robert Walker, 1716-1783.
A tua lei é o meu deleite. A religião definha ou floresce conforme seja o nosso dever ou o nosso deleite. A mente é incapaz de esforço contínuo por dever; mas prontamente se ajusta ao "deleite." Assim os nossos deveres se tornam nossos privilégios, sendo Cristo a fonte e a vida deles. Cada passo de progresso é progresso na felicidade. Este versículo, do qual a experiência é a melhor intérprete, é a linguagem do crente tanto no seu estado vivo quanto no seu estado de desfalecimento. Pois quanto mais conhece e desfruta da presença divina, mais deseja conhecê-la e desfrutá-la. — Charles Bridges.
Deleite, no plural, "deleites", como nos versículos 24, 77, 92, 143. A palavra de Deus é fonte abundante de prazer para o seu povo. — William S. Plumer.
Versículo 175Salmo 119:175
Viva a minha alma, e ela te louvará», etc. Este versículo contém três coisas. Primeiro, a petição de Davi pela vida: "viva a minha alma." "A minha alma", isto é, eu mesmo: a alma é posta pelo homem todo. O contrário: "morra eu com os filisteus", disse Sansão (Juízes 16:30); no hebraico, à margem, "morra a minha alma." A sua vida era buscada pela crueldade dos seus inimigos, e ele pede a Deus que o mantenha vivo.
Segundo, o seu argumento a partir do propósito da sua vida: "e ela te louvará." Glorificar a Deus era o seu propósito. O fruto de todos os benefícios de Deus é nos aproveitar e louvar a Deus. Davi professa que, todos os dias da sua vida, viveria no senso e no reconhecimento de tal benefício.
Terceiro, o fundamento da sua esperança e confiança, na última cláusula: "e ajudem-me os teus juízos." As nossas esperanças de ajuda se fundam nos juízos de Deus, pelos quais se entende a sua palavra. Há juízos decretados, juízos executados; juízos doutrinários, e juízos providenciais. Aquela passagem sugere a distinção: "Porque a sentença contra a má obra não se executa depressa, por isso o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto a praticar o mal": Eclesiastes 8:11. Há sententia lata et dilata [sentença proferida e sentença adiada]. Aqui os juízos de Deus são postos pela sentença pronunciada; e principalmente por uma parte deles, as promessas de graça. Como também: "Tenho esperado nos teus juízos": Salmos 119:43. As promessas são o objeto da esperança. — Thomas Manton.
Viva a minha alma. Que vida é esta pela qual ora agora o salmista, senão a salvação pela qual acabara de expressar o seu suspiro? O gosto que recebeu o faz ter fome de um gozo mais elevado e mais contínuo — não para gratificação egoísta, mas para que pudesse empregar-se no louvor do seu Deus. De fato, ao nos aproximarmos do final deste salmo, não podemos deixar de notar aquele caráter de louvor a permear a sua experiência, o que se tem geralmente observado nos salmos finais deste livro sagrado. Muito perdemos de força espiritual por não nos ocuparmos mais no exercício do louvor. — Charles Bridges.
Viver e louvar. O santo aproveita as suas coisas terrenas para um fim celestial. Onde você guarda o seu tesouro? Você o gasta no seu apetite voluptuoso, nos seus falcões e cães de caça; ou o guarda no seio dos membros pobres de Cristo? Que uso você faz da sua honra e grandeza? Para fortalecer as mãos dos piedosos ou dos ímpios? E assim de todos os seus outros gozos temporais. Um coração agraciado os aproveita para Deus; quando um santo ora por essas coisas, tem os olhos postos em algum fim celestial. Se Davi ora pela vida, não é para que apenas viva, mas para "viver e louvar a Deus."
Quando foi expulso do seu trono real pelas armas rebeldes de Absalão, veja quais eram o seu desejo e a sua esperança, 2 Samuel 15:25: "E disse o rei a Zadoque: Torna a levar a arca de Deus para a cidade: se eu achar graça aos olhos do SENHOR, ele me tornará a trazer, e me mostrará tanto a ela quanto à sua habitação." Note: não me mostre a minha coroa, o meu palácio, mas a arca, a casa de Deus. — William Gurnall.
Viver e louvar. A vivacidade da alma é dádiva do Espírito, e se manifestará em louvores abundantes. — Henry Law.
Ajudem-me os teus juízos. Na segunda cláusula, seria forçado entender a palavra "juízos" como os mandamentos, aos quais não cabe propriamente dar ajuda. Parece, então, que o profeta, percebendo-se sujeito a inúmeras calamidades — pois os fiéis, por causa da licença desenfreada dos ímpios, habitam neste mundo como ovelhas entre lobos —, invoca a Deus para que o proteja, refreando, pela sua providência secreta, os ímpios de lhe fazerem mal. É doutrina muito proveitosa, quando as coisas no mundo estão em grande confusão, e quando a nossa segurança corre perigo em meio a tantas e tão variadas tempestades, levantar os olhos para os juízos de Deus, e neles buscar remédio. — João Calvino.
Versículos 175–176Salmo 119:175-176
Embora, qual ovelha desgarrada, eu vagueie,
Ainda assim não renunciei ao teu caminho.
Estende a tua mão; reclama o que é teu;
Concede-me viver, e louvar o teu nome.
Richard Mant.
Versículo 176Salmo 119:176
Andei errante como ovelha perdida. Embora uma ovelha ande errante, logo é chamada de volta pela voz do pastor: "as minhas ovelhas ouvem a minha voz." Assim Davi, quando foi contra Nabal, foi chamado de volta pela voz do Senhor por meio de uma mulher; e quando matou Urias, foi trazido de volta por Natã. E, portanto, se somos ovelhas, ainda que às vezes andemos errantes, devemos ser facilmente reconquistados. — Richard Greenham.
Andei errante como ovelha perdida, expulsa pela tempestade, ou por um dia escuro, ou pela caçada dos cães, afastada do resto do rebanho. — David Dickson.
Andei errante como ovelha perdida, etc. E esta é toda a conclusão — "uma ovelha perdida!" Este longo salmo de louvores, atribuições, declarações, resoluções, altas esperanças, termina nisto: que ele é uma ovelha perecendo. Mas, esperem, há esperança — "busca o teu servo." "Andei errante como ovelha perdida." O original tem o alcance mais amplo, abrangendo todo o tempo passado, e também as tendências habituais do homem. O crente sente que andava errante quando a graça de Deus o encontrou; que tinha andado errante muitas vezes, se a graça de Deus não o tivesse impedido. Sente que andou errante em tais e tais ocasiões infelizes. Sente também que andou errante em tudo o que fez; e, de fato, que está errante agora.
Mas a palavra também expressa a tendência habitual — "ando errante como ovelha perdida", e esta tradução está de acordo com a oração: "busca o teu servo." O terceiro membro também se traduz adequadamente em acordo com isso: "ando errante como ovelha perdida; busca o teu servo; pois não me esqueço dos teus mandamentos." Tudo isto descreve a corrupção remanescente que há no crente. Ele não se esquece do Senhor; tem em si a raiz do assunto, a semente da vida divina; e ainda assim anda errante; daí a necessidade da oração: "busca o teu servo."
A descrição de Isaías dos homens, embora expressa nos mesmos termos, é evidentemente mais abrangente, como mostram as palavras do contexto: "Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos." Isto pareceria aplicar-se à raça humana. A experiência do salmista é antes semelhante à descrita pelo apóstolo Paulo: "Acho, pois, esta lei em mim: que, querendo eu fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me leva cativo à lei do pecado, que está nos meus membros."
E o salmista tinha o mesmo remédio, naquele período antigo, que o apóstolo teve em tempos mais tardios; pois a salvação de Deus é uma só. O remédio do salmista foi: "busca o teu servo"; o do apóstolo: "Ó homem miserável que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor." — John Stephen.
Andei errante. A palavra original significa tanto o desviar-se do pé quanto o desviar-se do coração, ou ambos, do caminho. "Andei errante como ovelha perdida"; isto é, fui enganado, e assim saí do caminho dos teus santos mandamentos. Satanás é mau guia, e os nossos corações não são melhores: quem segue um ou outro logo se perde; e até que Deus nos busque (como Davi ora nas palavras seguintes), não podemos achar o nosso caminho depois de uma vez estarmos fora dele. — Joseph Caryl.
Andei errante. Gotthold viu certo dia um fazendeiro contando cuidadosamente as suas ovelhas ao voltarem do campo. Estando ele naquele momento num estado de espírito ansioso e triste, deu vazão aos seus sentimentos e disse: Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te perturbas com pensamentos aflitivos? Certamente deves ser tão cara ao Altíssimo quanto os cordeiros são a este fazendeiro. Não vales tu mais do que muitas ovelhas? Não é Jesus Cristo o teu pastor? Não arriscou ele o seu sangue e a sua vida por ti? Não tens tu parte nas suas palavras: "Dou vida eterna às minhas ovelhas, e elas jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão"? João 10:28.
Este homem está contando o seu rebanho; e pensas tu que Deus não também conta e cuida dos seus filhos crentes e eleitos, especialmente quando o seu próprio Filho amado afirmou que até os cabelos da nossa cabeça estão todos contados? Mateus 10:30. Durante o dia, posso talvez ter saído do caminho, e seguido descuidadamente os meus próprios desígnios; ainda assim, ao cair da tarde, quando o fiel Pastor conta os seus cordeiros, ele notará a minha ausência, e graciosamente me buscará e me trará de volta. Senhor Jesus, "andei errante como ovelha perdida; busca o teu servo; pois não me esqueço dos teus mandamentos." — Christian Scriver (1629-1693), em Gotthold's Emblems.
Andei errante, etc. Quem é chamado "o homem segundo o coração de Deus"? Davi, o rei hebreu, tinha caído em pecados de sobra — crimes dos mais negros —, não faltou pecado. E, por isso, os incrédulos zombam, e perguntam: "Este é o vosso homem segundo o coração de Deus?" A zombaria, a meu ver, é rasa. Que importam as faltas, que importam os detalhes externos de uma vida, se o seu segredo interior — o remorso, as tentações, a luta tantas vezes frustrada e nunca terminada — for esquecido?... A vida e a história de Davi, tal como escritas para nós naqueles seus salmos, considero o mais fiel emblema já dado de um progresso moral e de uma guerra travada por um homem aqui embaixo. Toda alma sincera há de sempre descobrir nele a luta fiel de um espírito humano sincero rumo ao que é bom e melhor. Luta muitas vezes frustrada — duramente frustrada — levada quase à ruína total; e, ainda assim, uma luta nunca terminada, sempre com lágrimas, arrependimento, e um propósito verdadeiro e inconquistável recomeçado sempre de novo. — Thomas Carlyle (1795-1881), em Heroes and Hero Worship.
Porque não me esqueço dos teus mandamentos. Em todo o meu vaguear; com a consciência do meu erro; com o senso da minha culpa; ainda sinto que amo a tua lei, o teu serviço, os teus mandamentos. Eles são a alegria do meu coração, e desejo ser chamado de volta de todos os meus desvios, para que eu encontre perfeita felicidade em ti e no teu serviço para sempre. Tal é o desejo sincero de todo coração regenerado. Pois, ainda que tal coração tenha se afastado de Deus, está consciente de verdadeiro apego a ele e ao seu serviço; deseja e ora com fervor para que seja "buscado", trazido de volta, e guardado de vagar mais. — Albert Barnes.
Porque não me esqueço dos teus mandamentos. Os piedosos nunca caem de tal modo que não reste neles alguma graça, a qual reserva a esperança de um remédio para curá-los: assim Davi aqui. Embora tenha transgredido alguns dos mandamentos de Deus, não caiu em esquecimento total deles. — William Cowper.
Não creio que pudesse haver conclusão mais apropriada para um salmo como este, tão cheio da experiência variada e dos estados e sentimentos sempre mutáveis até de um filho de Deus, no sol e na nuvem, na calma e na tempestade, do que este senso sempre apegado da sua propensão a vagar, e a expressão da sua total incapacidade de achar o caminho de volta sem a mão guiadora do Senhor para restaurá-lo; e, ao mesmo tempo, com tudo isso, a sua fixa e permanente determinação de jamais esquecer os mandamentos do Senhor.
Que visão dá este versículo dos nossos pobres corações rebeldes — não apenas propensos a vagar, mas sempre vagando, sempre perdendo o caminho, sempre tropeçando nos montes escuros, mesmo enquanto nos apegamos aos mandamentos de Deus! Mas, ao mesmo tempo, que oração ele põe em nossa boca: "busca o teu servo" — "sou teu, salva-me." Sim, bendito seja Deus! Há Um poderoso para salvar. "Guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação." — Barton Bouchier.
Até onde pude, até onde fui ajudado pelo Senhor, tratei e expus, do princípio ao fim, este grande salmo. Tarefa que expositores mais capazes e eruditos já cumpriram, ou hão de cumprir melhor; ainda assim, os meus serviços não deveriam ser negados a ele por essa razão, quando os meus irmãos com seriedade os pediram de mim. — Agostinho.