Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 119:161-168 (Xim)

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 119:161-168, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 119 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Versículo 161Salmo 119:161

Príncipes me perseguiram. O mal se agrava ao considerarmos que são justamente as pessoas que deveriam ser como escudos para nos defender que empregam a sua força para nos ferir. Sim, quando os aflitos são atingidos por aqueles em altas posições, de certo modo pensam que a própria mão de Deus está contra eles. Havia também esta particularidade no caso do profeta: ele teve de enfrentar os grandes do povo escolhido — homens que Deus tinha colocado em posições tão honrosas justamente para que fossem as colunas da Igreja. — João Calvino.

Sem causa. Tenho por ponto estabelecido que, quanto mais diligente e fielmente sirvo a Cristo, maior reprovação e maior injúria devo esperar. Bebi profundamente, ultimamente, do cálice da calúnia e da reprovação, mas de modo algum estou desanimado; nem sequer pelo que é muito mais difícil de suportar — o insucesso dos meus esforços para corrigir este mundo perverso. — Philip Doddridge.

Sem causa. Sabemos quantas perseguições o corpo de Cristo, isto é, a santa Igreja, sofreu dos reis da terra. Reconheçamos, pois, aqui também as palavras da Igreja: "Príncipes me perseguiram sem causa." Pois em que os cristãos tinham ferido os reinos da terra? Embora o seu Rei lhes prometesse o reino dos céus, pergunto: em que haviam ferido os reinos da terra? Proibiu o seu Rei os seus soldados de pagar e de prestar o devido serviço aos reis da terra? Não disse ele aos judeus que se esforçavam por caluniá-lo: "Dai, pois, a César o que é de César; e a Deus o que é de Deus"? Mateus 22:21. Não pagou ele mesmo, em pessoa, tributo tirado da boca de um peixe?

Não disse o seu precursor, quando os soldados deste reino perguntavam o que deveriam fazer para a sua salvação eterna — não lhes respondeu, em vez de "soltai os vossos cintos, lançai fora as vossas armas, desertai do vosso rei, para que possais guerrear pelo Senhor" —, antes: "A ninguém trateis mal, nem defraudeis; e contentai-vos com o vosso soldo"? Lucas 3:14. Não disse um dos seus soldados, o mais amado dos seus companheiros, aos seus companheiros de armas, por assim dizer os provincianos de Cristo: "Todo homem esteja sujeito às potestades superiores"? E um pouco adiante acrescenta: "Dai, pois, a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra. A ninguém devais coisa alguma, senão o amor com que vos ameis uns aos outros." Romanos 13:1; Romanos 13:7-8.

Não ordena ele à Igreja que ore até pelos próprios reis? Como, então, os cristãos ofenderam contra eles? Que dívida deixaram de pagar? Em que não obedeceram os cristãos aos monarcas da terra? Os reis da terra, portanto, perseguiram os cristãos sem causa. — Agostinho.

Mas o meu coração teme a tua palavra. Se ainda resta em teu coração algum resquício de temor — temor da ira de homens sanguinários que te ameaçam por causa da tua profissão da verdade —, então, a um coração inflamado pelo amor da verdade, trabalha para acrescentar um coração cheio do temor daquela ira que Deus reservou para todos os que apostatam da verdade. Quando por acaso queimas o dedo, aproximas-o do fogo, que, sendo maior fogo, absorve o outro. Assim, quando os teus pensamentos estiverem chamuscados, e o teu coração amedrontado pelo fogo da ira do homem, aproxima-os por um momento do fogo do inferno, que Deus preparou para os medrosos (Apocalipse 21:8) e para todos os que fogem das cores da verdade (Hebreus 10:39), e perderás o sentido de um por medo do outro.

Ignosce, imperator, tu carcerem, Deus gehennam minatur — "Perdoa-me, ó imperador, se não obedeço à tua ordem; tu ameaças com uma prisão, mas Deus, com um inferno." Digno de nota é o que diz Davi: "Príncipes me perseguiram sem causa: mas o meu coração teme a tua palavra." Ele não tinha motivo para temê-los, pois eles não tinham motivo para persegui-lo. Uma só ameaça vinda da palavra, que fixa a ponta da ira de Deus em seu coração, assusta-o mais do que o pior que os maiores da terra poderiam fazer-lhe.

A ira do homem, mesmo no seu auge, é apenas um clima temperado comparado à ira do Deus vivo. Os que sentiram ambas o atestam. A ira do homem não pode impedir o acesso do amor de Deus à criatura, o que fez os santos cantarem em meio ao fogo, a despeito dos dentes dos seus inimigos. Mas a criatura sob a ira de Deus é como alguém trancado num forno fechado, sem fresta aberta por onde sair o calor, nem por onde entrar qualquer alívio para ele. — William Gurnall.

O meu coração teme a tua palavra. Há um temor da palavra que não nos faz esquivar-nos dela, mas nos torna cuidadosos para não a violar, nem fazer nada contrário a ela. Este não é fruto de medo servil, mas de santo amor; não teme a palavra, mas nela se deleita, pois ela revela a mente de Deus a nós — como está escrito no versículo seguinte: "Eu me alegro na tua palavra." Este temor tem nome próprio: reverência, ou santo temor; quando consideramos de quem é a palavra, a saber, do Senhor, que é o nosso Deus, e tem direito de ordenar o que lhe apraz; a cuja vontade e palavra já rendemos obediência, e a quem nos consagramos para andar de modo digno dele em tudo que lhe agrada; que pode nos descobrir em todas as nossas falhas, pois conhece os nossos próprios pensamentos de longe (Salmos 139:2), e tem todos os nossos caminhos diante de si, sendo aquele de quem lemos: "Ele é um Deus santo; é um Deus zeloso; não perdoará as vossas transgressões nem os vossos pecados" (Josué 24:19), isto é, se nelas impenitentemente permanecermos. Considerando estas coisas, recebemos a palavra com aquele tremor de coração que tanto agrada a Deus. — Thomas Manton.

Temor da tua palavra. Eu aconselharia a todos vós que vindes ler ou ouvir este livro, que é a palavra de Deus, a mais preciosa joia e a mais santa relíquia que resta sobre a terra, que tragais convosco o temor de Deus, e que o façais com toda a devida reverência, e useis o vosso conhecimento dela não para vanglória de disputas frívolas, mas para a honra de Deus, o aumento da virtude, e a edificação tanto de vós mesmos quanto dos outros. — Thomas Cranmer, 1489-1555.

Temor da tua palavra. Aqueles que tremem diante das convicções da palavra podem triunfar nas suas consolações. — Matthew Henry.

Versículo 162Salmo 119:162

Alegro-me com a tua palavra, como quem encontra grande despojo. Ele nunca chegava a uma ordenança senão como um soldado ao despojo, depois de uma grande batalha, tendo uma guerra constante contra as suas corrupções que combatiam contra a sua alma. Agora ele vem ver o que Deus lhe dirá, e fará de si mesmo alguém que poupa ou ganha, tirando um butim de cada mandamento, promessa ou ameaça que ouve. — John Cotton (1585-1652), em The Way of Life.

Alegro-me com a tua palavra. "Eurípides", diz o orador, "tem em suas tragédias bem compostas mais sentimentos do que ditos"; e Tucídides encheu tanto cada sílaba da sua história de substância, que uma corre paralela à outra; as obras de Lísias estão tão bem encaixadas que não se pode tirar a menor palavra sem levar junto o sentido inteiro; e Fócion tinha uma faculdade especial de dizer muito em poucas palavras. Os cretenses, no tempo de Platão (embora já degenerados no tempo de São Paulo), eram mais ponderados do que verbosos; Timantes era famoso por isto: em seus quadros, mais coisas eram sugeridas do que retratadas; e de Homero se diz que ninguém jamais o igualou em poesia.

Ora, quanto mais aptos e apropriados são esses grandes elogios ao livro de Deus, chamado com razão a Bíblia, ou o livro — como se fosse, e de fato é, tanto pela justeza dos termos quanto pela plenitude da verdade, o único livro diante do qual (como diz Lutero) todos os livros do mundo não passam de papel velho. Chama-se a palavra, por excelência, porque deve ser o alvo e o limite de todas as nossas palavras; e a Escritura, como senhora soberana acima de todas as outras palavras ou escritos dos homens reunidos em volumes — havendo, como dizem os rabinos, uma montanha de sentido pendendo de cada til dela —, de onde se podem colher flores e expressões para polir os nossos discursos, palavras sadias mesmo, que têm em si propriedade curativa, muito acima de todas as frases lapidadas da eloquência humana. — Thomas Adams.

Como quem encontra grande despojo. Esta imagem expressiva pode nos lembrar do conflito interior a ser suportado para adquirir os despojos desta preciosa palavra. Ela é tão contrária ao nosso gosto e temperamento naturais, que somente a abnegação habitual e a luta contra a má disposição do coração podem nos capacitar a "encontrar o despojo." Mas que "grande despojo" se reparte como fruto desse conflito! Quão rica e abundante é a recompensa do "bom soldado de Jesus Cristo", que está determinado, pelo poder do Espírito, a "suportar as dificuldades" até vencer a relutância do seu coração diante deste dever espiritual. Ele "se alegrará ao encontrar grande despojo."

Às vezes — como o despojo com que os leprosos se enriqueceram no acampamento sírio — ele pode ser encontrado inesperadamente. Às vezes vemos as riquezas e os tesouros contidos numa passagem ou doutrina muito antes de podermos fazê-la nossa. E, com frequência, quando nos armamos para o conflito contra a indolência e as divagações, sob a fraqueza da nossa percepção espiritual e o poder da incredulidade, muitas orações e muitos suspiros sobem em busca de ajuda divina, antes que sejamos coroados com a vitória e capacitados, como fruto da nossa conquista, a nos apropriarmos com alegria da palavra para a nossa necessidade e aflição presentes. — Charles Bridges.

Versículo 163Salmo 119:163

Odeio e abomino a mentira», etc. Vê-se aqui como a luz na alma de Davi ia crescendo cada vez mais até o dia perfeito. Na parte inicial deste salmo, Davi, lembrando-se do seu próprio pecado, tinha orado: "Desvia de mim o caminho da mentira", e o Senhor de fato lhe respondeu a oração, pois agora ele declara o seu total repúdio por todo caminho falso: "Odeio e abomino a mentira." E vemos, em certa medida, o instrumento pelo qual o Espírito Santo operou a mudança: "amo a tua lei"; aliás, como ele acrescenta num versículo posterior, "eu os amo extremamente."

E assim deve sempre ser: o coração precisa ter algum objeto mais santo para o seu afeto, a fim de preencher o vazio, ou não haverá segurança contra uma recaída no pecado! Poderia falar para sempre sobre o pecado, a desonra e o perigo da mentira, e, ainda que naquele momento e por um tempo as minhas palavras tivessem alguma influência, a menos que o coração esteja cheio do amor de Deus e da lei de Deus, a primeira tentação se provaria forte demais. A Bíblia nos ensina isso de várias maneiras. Deus diz a Israel não apenas "deixai de fazer o mal", mas "aprendei a fazer o bem." E, ainda mais precisamente, o apóstolo, ao combater a embriaguez, diz: "Não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito." — Barton Bouchier.

Odeio e abomino a mentira. "Mentira", segundo o uso das Escrituras, não significa apenas falar contrário ao que se pensa, mas também pensar contrário à verdade das coisas, e, particularmente, atribuir a outro aquela adoração e glória que são devidas somente ao Deus verdadeiro — pensar e agir à margem da verdade de Deus. Os homens que perseguiam aquele homem piedoso pensavam sobre a prosperidade e o poder terrenos como não deveriam pensar; julgavam falsamente o servo de Deus, e pensavam perversamente a respeito do próprio Deus.

O homem de Deus contemplou essas coisas; viu a perversidade e a vileza delas, e continuou: "A falsidade eu odeio e abomino: a tua lei eu amo." De todos os caminhos falsos e ilusórios dos homens, de todo o orgulho e pompa que cercam as cortes, das ocupações pecaminosas dos homens do mundo, bem como da ostentosa idolatria das nações pagãs, ele podia voltar-se com deleite de coração para a contemplação de Jeová, naquele ritual maravilhoso que manifestava a misericórdia divina em sacrifícios vicários, observâncias e festas; e para aquela santa lei que foi dada como regra do dever do homem e de sua obediência grata — e essas coisas ele amava, como manifestações da graça de Deus. — John Stephen.

Odeio e abomino a mentira: não apenas "odeio-a", nem simplesmente "a abomino", mas "odeio e abomino", para reforçar e intensificar o sentido, e torná-lo mais veemente. Onde a inimizade contra o pecado não é grande, o assunto pode ser negociado e relevado; mas Davi nada quer ter com ele, pois diz: eu o detesto e o abomino, e o odeio com um ódio mortal. Um ódio superficial a um curso de pecado não basta para nos proteger dele. — Thomas Manton.

O pecado parece ter o seu nome tirado da palavra hebraica sana, odiar — a mesma palavra usada aqui —, porque é, acima de tudo, o que mais deve ser odiado, como o maior mal, como aquilo que mais nos afasta de Deus, o maior bem. Ninguém pode odiá-lo senão aqueles que amam a lei de Deus, pois todo ódio vem do amor. Um homem natural pode se irritar com o seu pecado, mas odiá-lo não pode; aliás, pode até abandoná-lo, mas não detestá-lo; se o detestasse, detestaria todo pecado tanto quanto qualquer pecado específico. — Abraham Wright.

Mentira. Toda injustiça é abominável: praticar qualquer tipo de mal é um crime hediondo, mas a mentira é o crime que, acima de todos os outros, tende à dissolução da sociedade e à perturbação da vida humana; por isso Deus mais a abomina, e os homens têm razão especial para detestá-la. Disto o caluniador é o mais profundamente culpado. "A testemunha de Belial escarnece do juízo, e a boca dos ímpios devora a iniquidade", diz o sábio: Provérbios 19:28.

Ele é, de fato, segundo justa estimativa, culpado de todo tipo de injúria, quebrando toda a segunda tábua dos mandamentos referentes ao próximo. De modo bem específico, ele levanta falso testemunho contra o seu próximo: cobiça os bens do seu próximo, pois é constantemente por causa desse desejo desordenado, para sua própria vantagem presumida, que busca despojar o próximo de algum bem e transferi-lo para si mesmo — é assim que o caluniador profere a sua história: ele é também um ladrão e assaltante do bom nome alheio, um desflorador e maculador da reputação, um assassino e homicida da honra. Assim ele viola todas as regras da justiça, e perpetra toda sorte de injúria contra o seu próximo. — Isaac Barrow.

Versículo 164Salmo 119:164

Sete vezes ao dia te louvo. Os afetos da alma não podem ficar secretos por muito tempo; se são fortes, hão de romper em ações. O amor de Deus é como um fogo no coração do homem, que rompe e se manifesta na obediência aos seus mandamentos, e no louvor por seus benefícios; e é isto que Davi agora declara: que o amor de Deus não estava ocioso em seu coração, mas o tornava fervoroso e diligente em louvar a Deus, de modo que "sete vezes ao dia" ele o louvava. Pois por esse número se expressa o cuidado da santa devoção, e a fervura do seu amor. Ao louvar a Deus, ele não conseguia se satisfazer, diz Basílio. — William Cowper.

Sete vezes ao dia te louvo. "Assim como cada graça", diz Sibbes, "cresce pelo exercício de si mesma, assim também cresce a graça da oração. Pela oração aprendemos a orar." E assim foi com o salmista; muitas vezes ele antecipava o despontar da manhã para o seu exercício de oração, e à meia-noite frequentemente se levantava para derramar a alma em oração; agora ele acrescenta que "sete vezes ao dia", ou como poderíamos dizer, "a cada volta e a cada momento", ele encontra oportunidade e deleite no louvor. Ah, quem dera o espírito de Davi e a prática de Davi! — Barton Bouchier.

Sete vezes ao dia te louvo. Um cristão deveria dedicar-se de modo eminente a este diário sem limites. — Walter Marshall.

Sete vezes ao dia te louvo. Não como se ele tivesse sete horas fixas para este dever a cada dia, como os papistas gostariam, para justificar as suas sete horas canônicas, mas antes um número definido é posto por um indefinido, e assim equivale a isto: ele louvava a Deus muitas vezes ao dia; o seu coração santo aproveitava o ensejo de cada providência para levá-lo ao céu neste ofício de oração e louvor. — William Gurnall.

Sete vezes ao dia. Alguns dos rabinos judeus afirmam que Davi deve ser entendido aqui ao pé da letra, observando que os hebreus devotos costumavam louvar a Deus duas vezes de manhã, antes de ler os dez mandamentos, e uma vez depois; duas vezes à noite, antes de ler a mesma porção inspirada, e duas vezes depois — o que perfaz o número de sete vezes ao dia. — Nota de James Anderson a Calvino, no lugar.

Versículo 165Salmo 119:165

Grande paz têm os que amam a tua lei. Em meio às tempestades e temporais do mundo, há uma calma perfeita no peito daqueles que não só fazem a vontade de Deus, mas "amam" fazê-la. Estão em paz com Deus, pelo sangue da reconciliação; em paz consigo mesmos, pela resposta de uma boa consciência e pela sujeição dos desejos que guerreiam contra a alma; em paz com todos os homens, pelo espírito de caridade; e toda a criação está de tal modo em paz com eles que todas as coisas cooperam para o seu bem. Nenhuma tribulação externa pode roubar-lhes essa "grande paz"; nenhuma "ofensa" ou tropeço lançado em seu caminho pela perseguição, pela tentação, pela malícia dos inimigos, pela apostasia dos amigos, por nada que vejam, ouçam ou sintam, pode detê-los ou desviá-los do seu rumo. O amor celestial supera todo obstáculo, e corre com deleite o caminho dos mandamentos de Deus. — George Horne.

Grande paz têm os que amam a tua lei. Houve Elis a tremer pela arca de Deus, e Uzás a estender a mão com medo de que ela caísse; mas em meio às mais profundas tribulações pelas quais a igreja passou, e às mais ferozes tempestades que sobre ela se abateram, sempre houve homens de Deus verdadeiros e fiéis que jamais desesperaram. Em toda época houve Luteros e Latimers, que não só mantiveram firme a sua confiança, como viram a sua paz se aprofundar com o rugir das ondas. Quanto mais abandonados pelos homens, mais estreita se tornava a sua comunhão com Deus. E, com firme apego a ele e às suas promessas, e corações capazes de entrar no lugar secreto do Altíssimo, embora tudo por fora se agitasse, ameaçasse e alarmasse, foram conduzidos a uma paz perfeita. — James Martin, em The Christian Mirror, and other Sermons, 1878.

Grande paz têm os que amam a tua lei. A limpidez da consciência ajuda a pensamentos consoladores. Observe-se, porém, que a paz não é tanto produzida quanto preservada por uma boa consciência e uma boa conduta; pois, embora o gozo no Espírito Santo não faça ninho senão numa alma santa, só o sangue de Cristo pode falar paz: "sendo justificados pela fé, temos paz": Romanos 5:1. Uma vida exata não faz, mas mantém quieta a consciência; um sapato confortável não cura um pé ferido, mas preserva de ferimento um pé são.

Andar com Deus segundo as regras do evangelho traz consigo a paz, e essa paz é um tesouro tal que, por meio dele, o cristão pode ter o seu regozijo em si mesmo. Gálatas 6:4; Gálatas 6:16. O seu próprio coração lhe canta uma alegre melodia, que as ameaças e reprovações do mundo não conseguem silenciar. O tesouro do consolo não se esgota na aflição; a própria morte não o consome, antes o aumenta e o eleva a um triunfo eterno. Ó a excelência e a necessidade disso! Paulo o guardou como cordial para o seu leito de morte: "A nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência": 2 Coríntios 1:12. E Ezequias ousa apresentá-lo diante de Deus, tanto quanto se anima com ele diante da morte que se aproximava.

Uma consciência boa em ponto de integridade também será boa em ponto de tranquilidade: "Os justos são ousados como o leão": têm grande paz os que amam e guardam os mandamentos de Deus: Provérbios 28:1; Salmos 119:165. E diz o apóstolo: "Se o nosso coração não nos condena, temos confiança para com Deus" (1 João 3:2), e eu acrescentaria também: para com os homens. Ah, que consolo e alívio tem uma consciência limpa! Um homem consciencioso tem algo por dentro para responder às acusações de fora; tem um tesouro tão rico que não falhará nos maiores apertos e riscos. Concluirei isto com um dito notável de Bernardo: "Os prazeres de uma boa consciência são o Paraíso das almas, a alegria dos anjos, um jardim de delícias, um campo de bênção, o templo de Salomão, a corte de Deus, a habitação do Espírito Santo." — Oliver Heywood.

Grande paz. Note-se que, para "paz", a palavra hebraica é shalom: ela significa não só "paz", mas também perfeição, integridade, prosperidade, tranquilidade, saúde, segurança, a completude e a consumação de todo bem; e assim é frequentemente empregada pelos hebreus; daí, em saudações, ao desejar bem uns aos outros, dizem shalom lekha, isto é, "paz seja contigo"; como se dissessem, "que tudo te seja próspero." — Thomas Le Blanc.

Os que amam a tua lei. Amar uma lei pode parecer estranho; mas é a única vida verdadeiramente divina. Guardá-la por medo das suas penalidades é apenas uma forma de temor ou de cálculo prudencial. Guardá-la para preservar um bom nome pode ser mera conveniência e respeitabilidade. Guardá-la porque é o melhor para a sociedade pode ser interesse mundano. Guardá-la por causa da saúde física pode ser a política de uma filosofia epicurista. Guardá-la porque a amamos é mostrar que ela já é parte de nós — que entrou na textura moral do nosso ser. O pecado então se torna repulsivo, e as tentações perdem o seu poder. — W. M. Statham, citado em A Homiletical Commentary on the Psalms, 1879.

E nada os fará tropeçar. Em hebraico, "não terão tropeço." 1 João 4:10: "Não há nele ocasião de tropeço" — naquele que permanece na luz, o que o faz ver e evitar tais tropeços. Riquezas, tribulação, tentação, que são para muitos ocasião de queda (Isaías 8:14-15; Ezequiel 3:20; 7:19; 14:3-4, 7), não o são para ele. — A. R. Fausset.

Aprendam a verdadeira sabedoria aqueles de vós que são novas criaturas, e que amam a santa lei de Deus. Todos vós que verdadeiramente fostes trazidos a Cristo sois transformados à sua imagem, de modo que amais a santa lei de Deus. "Deleito-me na lei de Deus segundo o homem interior." "Os estatutos do Senhor são retos, alegrando o coração": Salmos 19:1-14 [sic]. O mundo diz: que escravo você é! Não pode ter um pouco de diversão no domingo — não pode fazer um passeio dominical, nem participar de um chá dominical; não pode ir a um baile ou a um teatro; não pode desfrutar dos prazeres da indulgência sensual — você é um escravo. Respondo: Cristo não teve nenhum desses prazeres. Ele não os quis; nem nós os queremos. Ele sabia o que era verdadeiramente sábio, bom e feliz, e escolheu a santa lei de Deus. Ele era o mais livre de todos os seres, e ainda assim não conheceu pecado. Que eu seja livre como Cristo é livre — é só isso que peço. "Grande paz têm os que amam a tua lei: e nada os fará tropeçar." — Robert Murray M'Cheyne, 1813-1843.

Nada os fará tropeçar. Aqueles que têm esse traço de caráter dos filhos de Deus não se escandalizarão com as disposições de Deus, por mais contrárias que sejam aos seus desejos, porque têm um Deus a quem recorrer em todas as suas tribulações, e uma aliança segura em que repousar. Por isso, as reprovações lançadas contra eles, e contra o caminho de Deus, não os escandalizam; pois encontraram a Deus justamente naquele caminho de que outros falam mal; não se ofendem tanto com nada que acompanhe o caminho de Deus a ponto de desgostar dele ou abandoná-lo. Ainda assim, devemos ter cuidado para não nos ofendermos. — John Bunyan.

Versículo 166Salmo 119:166

SENHOR, tenho esperado a tua salvação», etc. Esta é a verdadeira postura em que todos os servos de Deus deveriam desejar se encontrar — esperando na sua misericórdia, e cumprindo os seus mandamentos. Como seria fácil demonstrar a ligação entre o sentimento mental aqui reconhecido e a obediência a que aqui está associado! É a esperança da salvação que constitui o grande e onipresente motivo para a santidade, e é a consciência da obediência à vontade de Deus que fortalece a nossa esperança de participação na misericórdia divina. — John Morison.

Senhor, tenho esperado a tua salvação. Este dito ele tomou emprestado do bom e velho Jacó. Gênesis 49:18. — John Trapp.

Cumpri os teus mandamentos. Dedique-se à prática do que lê. Um estudante de física não se satisfaz em ler todo um sistema ou corpo de física; ele passa a praticar a física: o sangue vital da religião está na parte prática. Os cristãos deveriam ser Bíblias ambulantes. Xenofonte disse: "Muitos leem as leis de Licurgo, mas poucos as observam." A palavra escrita não é apenas regra de conhecimento, mas regra de obediência; não serve só para melhorar a nossa visão, mas para melhorar o nosso passo. Davi chama a palavra de Deus de "lâmpada para os meus pés" (Salmos 119:105). Não era apenas luz para os seus olhos verem, mas para os seus pés andarem. Pela prática negociamos com o talento do conhecimento, e o transformamos em lucro. Esta é uma leitura abençoada da Escritura, quando fugimos dos pecados que a palavra proíbe, e abraçamos as doutrinas que a palavra ordena. Ler sem praticar não será senão uma tocha para guiar os homens ao inferno. — Thomas Watson.

Versículos 166–167Salmo 119:166-167

  1. — Aquele que lança os mandamentos para trás das costas é bastante presunçoso ao aplicar as promessas a si mesmo. A esperança que não vem acompanhada de obediência há de envergonhar o homem. Aquele que aprendeu a palavra de Deus sabe que a lei não é anulada pela fé, mas estabelecida: Romanos 3:31. Cristo, Cabeça e Profeta da igreja, em seu sermão do monte mostra a extensão da lei, exigindo pureza no coração e nos pensamentos, tanto quanto na vida e nas ações, e condena aqueles "que quebrarem o menor destes mandamentos e assim ensinarem os homens"; mas àqueles "que os cumprem e ensinam", ele reconhece como grandes no seu reino: Mateus 5:19. A lei falada no monte Sinai é estabelecida pelo Legislador Cristo no monte Sião como regra de justiça. E os que são retamente instruídos, "que andam segundo esta regra", terão tanto o coração quanto a conduta ordenados conforme a sua direção, e "paz e misericórdia estarão sobre eles", e por isso se mostrarão de fato o Israel de Deus. — Nathanael Vincent.

Versículo 167Salmo 119:167

A minha alma guarda os teus testemunhos; e eu os amo extremamente. Não deveria ele ter dito primeiro: amei os teus mandamentos, e por isso os guardei? Sem dúvida foi assim; mas aqui ele percorre um círculo santo e muito celestial: guardei-os e amei-os, e amei-os e guardei-os. Se amamos a Cristo, também viveremos, na nossa medida, a vida do amor, e os seus mandamentos serão mais caros quando ele mesmo for mais precioso. — Thomas Shepard, em The Sound Believer, 1671.

A minha alma. É frase usual entre os hebreus, quando querem expressar afeto veemente por algo, dizer "a minha alma": como em Salmos 103:1, 104:1, "Bendize, ó minha alma, ao SENHOR", e Lucas 1:46, "A minha alma engrandece ao Senhor." — Richard Greenham.

Eu os amo extremamente. É apenas uma retribuição razoável a Deus; pois o Pai me amou tão extremamente que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por mim; e o Filho me amou tão extremamente que se deu a mim, e me devolveu a mim mesmo quando eu estava perdido nos meus pecados, original e atual. — Gerhoh (1093-1169), em Neale e Littledale.

Versículos 167–168Salmo 119:167-168

Que a nossa consciência das falhas diárias não nos faça recuar diante desta forte expressão de confiança. Ela é alegada como evidência de graça, não como reivindicação de mérito, e por isso o crente mais humilde não precisa hesitar em adotá-la como expressão de sinceridade cristã diante de Deus. Davi não aspirava a caráter mais elevado do que o de um pobre pecador; mas estava consciente de uma obediência espiritual, de um "amor extremo" pela palavra divina, e de um andar habitual sob o olhar do seu Deus — as evidências de um coração (mencionado com frequência no Antigo Testamento) "íntegro para com ele." — Charles Bridges.

Versículo 168Salmo 119:168

Guardei os teus preceitos, pois todos os meus caminhos estão diante de ti. Quando os homens estão de certa forma longe da vista de um rei, o seu comportamento é apenas decente; mas quando entram na câmara de audiência para falar com ele, tornam-se extremamente cuidadosos. Como os santos estão sempre diante dos olhos de Deus, a sua conduta constante deve ser piedosa e decorosa. — George Swinnock.

Guardei os teus preceitos, etc. A palavra hebraica shamar, aqui traduzida "guardei", significa guardar cuidadosamente, diligentemente, com estudo, com exatidão. Significa guardar como os homens guardam prisioneiros, e guardar como uma sentinela guarda a cidade ou a guarnição; sim, guardar como um homem guardaria a própria vida. Mas note qual foi a razão pela qual Davi guardava os preceitos e os testemunhos do Senhor com tanto cuidado, tanta sinceridade, tanta diligência, tanto estudo e tanta exatidão. Ora, a razão está na última parte do versículo: "porque todos os meus caminhos estão diante de ti."

Ó senhores! É tão necessário para quem deseja ser eminente em santidade pôr sempre o Senhor diante de si, quanto é necessário respirar. Naquele capítulo 31 de Jó há um relato amplo daquela altura e perfeição de santidade a que Jó havia chegado, e a grande razão que ele dá para isso está no versículo 4: "Não vê ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?" O olho de Deus tinha tal influência sobre o seu coração e a sua vida que o elevou a um grau altíssimo de santidade. — Thomas Brooks.

Todos os meus caminhos estão diante de ti. Que Deus veja os segredos do nosso coração é ponto terrível para os ímpios, mas alegre para os piedosos. Os ímpios lamentam que o seu coração esteja assim exposto: é uma panela fervendo de toda maldade, uma fornalha e forja de mal. Aflige-os que os homens ouçam e vejam as suas palavras e ações; mas que terror é este — que o seu Juiz, a quem odeiam, veja os seus pensamentos! Se pudessem negá-lo, negariam. Mas mesmo tantos dentre eles que se convencem e se veem forçados a reconhecer um Deus são também abalados por isto: que ele é Aquele que tudo vê. Outros procedem de modo mais sumário, e de uma vez negam a divindade em seu coração, destruindo assim esta consciência do seu conhecimento total.

Mas é em vão: quanto mais endurecem o coração com este pensamento ímpio, mais medo neles há; enquanto sufocam e reprimem a consciência para que não os acuse, ela os acusa com a previsão de uma vingança temível, e por ora os convence da onisciência de Deus — quanto mais se esforçam por suprimi-la. Mas os piedosos se alegram nisso; é para eles uma régua para medir os seus pensamentos; não se dão liberdade para pensar, querer, desejar ou tramar o mal em seu coração. Onde brilha aquela candeia, todas as coisas se conformam como dignas dele e do seu olhar, de quem sabem que vê o seu coração. — William Struther, 1633.

Todos os meus caminhos estão diante de ti. Anda, cristão, à vista da onisciência de Deus; dize à tua alma: cave, videt Deus — cuidado, Deus vê. É debaixo do pano, como diz o ditado comum, que se fala traição, quando os súditos pensam estar longe demais do ouvido do rei; mas, se soubessem que o príncipe está sob a janela, ou atrás da cortina, ouvindo-os, o seu discurso seria mais leal.

Foi isto que fez Davi tão íntegro em seu andar: "Guardei os teus preceitos, porque todos os meus caminhos estão diante de ti." Se a cadeira vazia de Alexandre, que os seus capitães, ao se reunirem em conselho, punham diante de si, já os impressionava a ponto de mantê-los em boa ordem, quanto mais nos ajudaria pôr diante de nós o fato de que Deus está nos olhando! Os judeus cobriram o rosto de Cristo, e então o esbofetearam: Marcos 14:65. Assim faz o hipócrita: primeiro diz em seu coração que Deus não vê, ou ao menos esquece que ele vê, e então se atreve a pecar contra ele; como aquela ave tola que enfia a cabeça entre os juncos e se julga a salvo do caçador, como se, por não ver o seu inimigo, ele não pudesse vê-la. Te mihi abscondam, non me tibi (Agostinho): "Posso esconder-te de meus olhos, mas não a mim mesmo dos teus." — William Gurnall.

Aqui começa uma nova divisão do salmo, indicada pela última letra do alfabeto hebraico, a letra Tau, correspondente ao nosso "t" ou "th." — Albert Barnes.

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