Notas explicativas e citações: Salmo 119:49-56 (Zain)
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 119:49-56, reunidas por Charles Spurgeon.
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Versículo 49Salmo 119:49
Lembra-te da palavra dada ao teu servo, etc. Os que fazem das promessas de Deus a sua porção podem, com humilde ousadia, transformá-las em seu argumento de súplica. Deus deu a promessa em que o salmista esperava, e a esperança com que ele abraçou a promessa. — Matthew Henry.
Lembra-te da palavra dada ao teu servo, etc. Quando ouvimos qualquer promessa na palavra de Deus, transformemo-la em oração. As promessas de Deus são suas obrigações escritas; processe-o com base nelas. Ele gosta que lutemos com ele por meio de suas promessas.
"Ora, Senhor, tu fizeste esta e aquela promessa; não podes negar a ti mesmo, não podes negar a tua própria verdade; não podes deixar de ser Deus, e tanto poderias deixar de ser Deus quanto negar a tua promessa, pois ela és tu mesmo. Senhor, lembra-te da tua palavra. Eu te lembro da tua promessa, sobre a qual me fizeste esperar. Se eu for enganado, foste tu quem me enganou. Tu fizeste estas promessas e me levaste a confiar em ti, e tu jamais falhas com os que em ti confiam; portanto, cumpre a tua palavra para comigo." — Richard Sibbes.
Lembra-te da palavra dada ao teu servo, etc. Deus promete a salvação antes de a conceder, para despertar nosso desejo por ela, exercitar nossa fé, provar nossa sinceridade e aperfeiçoar nossa paciência. Para esses fins, ele às vezes parece ter esquecido sua palavra e abandonado aqueles a quem se comprometera a socorrer e aliviar; nesse caso, ele quer que, por assim dizer, o lembremos de sua promessa e lhe solicitemos o cumprimento dela.
O salmista aqui nos ensina a apresentar nossa petição com base nestes dois fundamentos: primeiro, que Deus não pode desmentir sua própria palavra — "lembra-te da tua palavra"; segundo, que ele jamais desapontará uma expectativa que ele mesmo despertou — "sobre a qual me fizeste esperar." — George Horne.
Versículos 49–52Salmo 119:49-52
- Lembra-te. — Eu me lembrei. Assim como Davi suplica ao Senhor que se lembre da sua promessa, ele também declara, em Salmos 119:52, que se lembrou dos juízos de Deus e foi consolado; e em Salmos 119:55, que se lembrou do nome do Senhor de noite.
É pura zombaria de Deus desejar que ele se lembre da promessa que nos fez, quando nós não damos a mínima atenção à promessa que fizemos a ele. Mas, ai de nós, quantas vezes falhamos nesse dever e, por culpa nossa, diminuímos o consolo que poderíamos ter nas promessas de Deus no dia da angústia. — William Cowper.
Versículo 49Salmo 119:49
Ao teu servo. Certifique-se de sua qualificação; pois Davi aqui suplica em parte como servo de Deus, em parte como crente. Primeiro: "lembra-te da palavra dada ao teu servo"; depois: "sobre a qual me fizeste esperar." Há uma dupla qualificação: quanto ao preceito da submissão, e quanto à promessa da dependência. O preceito vem antes da promessa.
Têm direito às promessas, e podem legitimamente apossar-se delas, os que são servos de Deus; só os que se dedicam a obedecer aos seus preceitos podem aplicar corretamente as promessas a si mesmos. Ninguém pode reivindicar a graça que recompensa senão os que participam da graça que santifica.
Deixe claro que você é servo de Deus, e então essas promessas oferecidas de modo geral serão suas, tanto quanto se o seu nome estivesse inserido na promessa e escrito na Bíblia. — Thomas Manton.
Tu me fizeste esperar. Lembremos, primeiro, que as promessas feitas a nós vêm da livre misericórdia de Deus; que a graça de crer, que é a condição da promessa, também vem dele mesmo, pois "a fé é dom de Deus"; e, terceiro, que os argumentos com que ele confirma nossa fé na certeza da salvação são tirados dele mesmo, não de nós. — William Cowper.
Versículo 50Salmo 119:50
Este é o meu consolo, etc. A palavra da promessa era o consolo de Davi, porque a palavra o vivificara para que recebesse consolo. O original admite outra nuance de sentido: "Esta é a minha consolação: que a tua palavra me vivificou." Ele tinha essa experiência feliz dentro de si; sentia o poder reanimador, restaurador e vivificante da palavra, ao lê-la, ao meditar nela, e ao entregar-se ao caminho da palavra. O crente tem todas as promessas infalíveis de Deus para se apoiar, e, ao apoiar-se nelas, ganha força pelas suas próprias experiências felizes da fidelidade da palavra. — John Stephen.
Meu consolo. A tua palavra. Deus nos deu as suas Escrituras, a sua palavra; e os consolos que dali se tiram são fortes, porque são consolos dele, já que vêm de sua palavra. A palavra de um príncipe consola, ainda que ele não esteja presente para pronunciá-la. Seja por carta ou por mensageiro, aquele de quem é a palavra é capaz de cumpri-la. Ele é senhor e dono de sua palavra.
A palavra de Deus é reconfortante, e todas as razões nela contidas, e dela deduzidas com bom fundamento e consequência, são reconfortantes, porque é a palavra de Deus. Esses consolos na palavra de Deus, e as razões que dela derivam, são maravilhosos em variedade. Há consolo na liberdade do cristão, que tem livre acesso ao trono da graça; consolo nas prerrogativas do cristão, que é filho de Deus, que é justificado, que é herdeiro do céu, e coisas semelhantes; consolos nas promessas da graça, da presença de Deus, do auxílio de sua presença. — Richard Sibbes.
Consolo. Nechamah, consolação; donde se derivou o nome Neemias. A palavra ocorre somente em Jó 6:9.
Consolo. O verbo hebraico traduzido por "consolar" significa, antes de tudo, arrepender-se, e depois consolar. E certamente a alegria mais doce nasce das lágrimas mais seguras. As lágrimas são as geradoras da alegria espiritual. Quando Ana chorou, ela se retirou e não ficou mais triste. A abelha colhe o melhor mel das ervas mais amargas. Cristo fez o melhor vinho da água.
Os consolos do evangelho são, primeiro, consolos indizíveis, 1 Pedro 1:8; Filipenses 4:4. Segundo, são reais, João 14:27; todos os outros são apenas consolos aparentes, consolos pintados. Terceiro, são consolos santos, Isaías 64:5, Salmos 138:5; fluem do Espírito Santo, e nada pode vir do Espírito Santo senão o que é santo.
Quarto, são os consolos maiores e mais fortes, Efésios 6:17. Poucas cabeças e corações são capazes de suportá-los, assim como poucas cabeças suportam vinhos fortes. Quinto, alcançam o homem interior, a alma, 2 Tessalonicenses 2:17, a parte nobre do homem. "A minha alma se alegra em Deus, meu Salvador." Nossos outros consolos só alcançam o rosto; não penetram tão fundo quanto o coração.
Sexto, são os consolos que mais enchem e satisfazem a alma, Salmos 16:11; Cântico dos Cânticos 4:3. Outros consolos não alcançam a alma, e por isso não podem enchê-la nem satisfazê-la. Sétimo, consolam nas mais tristes angústias, na noite mais escura e no dia mais tempestuoso, Salmos 94:19, Hebreus 3:7-8. Oitavo, são eternos, 2 Tessalonicenses 2:16. A alegria dos ímpios é como um vidro, brilhante e frágil, sempre em perigo de quebrar; mas a alegria dos santos é duradoura. — Thomas Brooks.
A tua palavra me vivificou. É um consolo reanimador que vivifica a alma. Muitas vezes parecemos mortos para toda operação espiritual, nossos afetos ficam amortecidos e desanimados; mas a palavra de Deus põe vida nos mortos, e nos alivia em nossas maiores angústias. A tristeza produz morte, mas a alegria é a vida da alma.
Ora, quando estamos mortos em todo sentido e sensibilidade, "o justo viverá pela fé" (Hebreus 10:38), e a esperança que as Escrituras produzem em nós é "uma esperança viva" (1 Pedro 1:3). Outras coisas apenas cobrem a ferida, mas nossa chaga volta a abrir-se e a sangrar; a fé penetra no íntimo do homem, faz bem ao coração; e a alma se reanima ao esperar em Deus, e recebe vida e força. — Thomas Manton.
A tua palavra me vivificou. Aqui, como fica evidente pela menção da "aflição" — e, na verdade, em todo o salmo —, o verbo "vivificar" é usado não apenas no sentido externo de "preservação da morte" (Hupfeld), mas no de "reanimar o coração", "infundir novo ânimo", etc. — J.J. Stewart Perowne.
A tua palavra me vivificou. Ela me deu vida quando eu estava morto no pecado; muitas vezes me tornou vivo quando eu estava morto no cumprimento do dever; ela me impeliu para o que é bom, quando eu era relutante e avesso a isso; e me animou naquilo que é bom, quando eu estava frio e indiferente. — Matthew Henry.
(Segunda cláusula.) Adore a graça distintiva de Deus, se você sentiu o poder e a autoridade da palavra sobre a sua consciência; se pode dizer, como Davi, "a tua palavra me vivificou". Cristão, bendiga a Deus porque ele não apenas lhe deu a sua palavra como regra de santidade, mas também a sua graça como princípio de santidade.
Bendiga a Deus porque ele não apenas escreveu a sua palavra, mas a selou em seu coração e a tornou eficaz. Pode você dizer que ela é de inspiração divina, porque a sentiu de operação viva? Ó graça gratuita! Que Deus enviasse a sua palavra e o curasse; que o curasse a você e não a outros! Que a mesma Escritura que para eles é letra morta seja para você aroma de vida. — Thomas Watson.
Versículo 51Salmo 119:51
Os soberbos me têm em grande zombaria. Os santos de Deus têm se queixado disso em todas as épocas: Davi, de seus zombadores inquietos; os desprezíveis o escarneceram. Jó foi desdenhado por filhos cujos pais ele teria vergonha de pôr com os cães do seu rebanho (Jó 30:1). José foi apelidado de sonhador, Paulo de tagarela, o próprio Cristo de samaritano e, com intenção de desonra, de carpinteiro...
Mical era estéril, mas tem filhos demais, que zombam do hábito e das práticas da santidade. Não pode haver maior prova de uma alma corrompida do que zombar dos exercícios religiosos. Corações mundanos não veem nessas ações senão loucura e insensatez; a piedade não tem sabor algum, é desagradável ao seu paladar. — Thomas Adams.
Os soberbos, etc. A zombaria procede da soberba. Provérbios 3:34, 1 Pedro 5:5. — John Trapp.
Grandemente. A palavra indica "continuamente"; a Septuaginta a traduz por sphodra (σφόδρα), a Vulgata latina por usque valde e usque longe. Eles o escarneceram com toda a amargura possível; e dia após dia tinham suas zombarias para ele, de modo que era, ao mesmo tempo, uma tentação penosa e perpétua. — Thomas Manton.
Zombaria. Davi conta que fora escarnecido por causa de sua religião, mas não fora escarnecido para fora dela. Riram dele por orar e chamaram isso de hipocrisia; por sua seriedade e chamaram de tristeza; por seu rigor e chamaram de escrúpulo desnecessário. — Matthew Henry.
É grande coisa um soldado se comportar bem sob fogo; mas é coisa ainda maior um soldado da cruz permanecer inabalável no dia da sua provação. Não faz mal ao cristão que os cães latam contra ele. — William S. Plumer.
Versículos 50–51Salmo 119:50-51
A vida e o vigor infundidos em mim pela promessa que me "vivificou" fizeram-me "não me desviar da tua lei", ainda que "os soberbos agissem iniquamente de todo em todo"; fazendo tudo o que estava ao seu alcance, por meio de suas zombarias contra mim, para me desviar da sua observância. — Robert Bellarmine.
Versículo 52Salmo 119:52
Lembro-me dos teus juízos da antiguidade. É bom guardar no depósito de uma memória santificada vários exemplos dos tratos de Deus com os seus servos, para que por eles a fé seja fortalecida no dia da aflição; pois é isso que aqui se nos ensina. — David Dickson.
Lembrei-me dos teus juízos. Ele se lembrou de que, no princípio, Adão, por transgredir o mandamento divino, foi expulso da morada do Paraíso; que Caim, condenado pela autoridade da sentença divina, pagou o preço do seu crime contra o próprio sangue; que Enoque, arrebatado ao céu por causa de sua devoção, escapou do veneno da maldade terrena; que Noé, vencedor do dilúvio por causa de sua justiça, tornou-se o sobrevivente da raça humana;
que Abraão, por causa da fé, difundiu a semente de sua posteridade por toda a terra; que Israel, por suportar pacientemente as tribulações, consagrou um povo crente com o sinal do seu próprio nome; que o próprio Davi, por causa da mansidão, tendo recebido a honra régia, foi preferido a seus irmãos mais velhos. — Ambrose.
Lembrei-me, etc. Jerônimo escreve sobre aquela senhora devota, Paula, que sabia de cor a maior parte das Escrituras. Somos ordenados a deixar "habitar em nós a palavra" (Colossenses 3:16). A palavra é uma joia que adorna o homem interior; e não haveremos de lembrá-la? "Pode a noiva esquecer os seus enfeites?" (Jeremias 2:32).
Os que têm uma doença chamada lienteria, em que o alimento sai tão depressa quanto é ingerido e não permanece no estômago, não são nutridos por ele. Se a palavra não permanece na memória, não pode aproveitar. Alguns conseguem lembrar melhor uma notícia do que uma linha da Escritura: suas memórias são como aqueles charcos onde vivem rãs, mas os peixes morrem. — Thomas Watson, em "Os Exercícios Matinais".
Lembrei-me dos teus juízos, e me consolei. Pode-se propor um caso de consciência: como podia Davi consolar-se com os juízos de Deus, pois parece coisa bárbara alegrar-se com a destruição de alguém? Está escrito: "aquele que se alegra com as calamidades não ficará impune" (Provérbios 17:5).
Deve-se lembrar que juízo implica ambas as partes da justa dispensação de Deus: o livramento dos piedosos e o castigo dos ímpios. Ora, no primeiro sentido não há motivo de escrúpulo, pois está escrito: "o juízo voltará à justiça" (Salmos 94:15); os sofrimentos dos homens bons se transformarão nas maiores vantagens, como mostra o contexto: que Deus não rejeitará o seu povo, mas o juízo voltará à justiça.
O juízo, no sentido de castigo dos ímpios, pode ainda assim ser um consolo — não porque implique a calamidade de alguém, mas por outras razões:
(a) Quando o ímpio é castigado, remove-se a armadilha e o atrativo para o pecado, que é a esperança da impunidade; pois pelo seu castigo os homens veem que é perigoso pecar contra Deus: "quando os teus juízos estiverem na terra, os moradores do mundo aprenderão justiça" (Isaías 26:9); a armadilha é removida de muitas almas.
(b) Cessam a zombaria e o escárnio deles contra a piedade; não afligem mais nem trespassam as almas dos piedosos, dizendo "Eia, eia" (Salmos 40:15); é como uma ferida no coração ouvi-los dizer: "onde está o teu Deus?" (Salmos 42:10). O juízo elimina esse mal.
(c) Removem-se os impedimentos e obstáculos ao culto e ao serviço a Deus: quando as urtigas são arrancadas pela raiz, o trigo tem mais espaço para crescer.
(d) Tira-se dos ímpios a oportunidade de molestar os servos de Deus, e eles são impedidos de afligir a igreja com suas opressões; e assim se abre caminho para a expansão do reino de Cristo.
(e) Com isso também se manifesta a justiça de Deus: quando vai bem ao justo, a cidade se alegra; "e quando os ímpios perecem, há júbilo" (Provérbios 11:10); "os justos também verão, e temerão, e rirão dele: eis aqui o homem que não pôs a Deus como sua força" (Salmos 52:6-7); "alegrai-vos sobre a Babilônia, ó santos apóstolos e profetas, pois Deus vos vingou dela" (Apocalipse 18:20). Quando a palavra de Deus se cumpre, certamente então podemos alegrar-nos de que sua justiça e verdade se manifestam.
— Thomas Mardon.
A palavra mishphatim, "juízos", é usada nas Escrituras tanto para leis promulgadas quanto para juízos executados conforme essas leis. Uns podem ser chamados os juízos da sua boca, como em "lembrai-vos das maravilhas que fez, dos seus prodígios e dos juízos da sua boca" (Salmos 105:5); os outros, os juízos da sua mão. Como ambos merecem o nome de juízos, ambos também podem ser chamados "da antiguidade".
Seus decretos e estatutos, que têm em si uma equidade eterna e foram gravados no coração do homem em estado de inocência, bem podem ser chamados antigos; e, porque desde o princípio do mundo Deus tem castigado os ímpios e livrado os piedosos a seu tempo, suas dispensações judiciais também podem ser assim chamadas.
Não importa muito se interpretamos isso como seus estatutos ou como seus decretos, pois ambos contêm motivo de consolo, e podemos ver a ruína dos ímpios na palavra, se não a vemos na providência. Contudo, prefiro interpretá-lo como aqueles atos justos registrados na Escritura, que Deus, como juiz justo, executou em todas as épocas, conforme as promessas e ameaças anexadas às suas leis.
Apenas, nesse sentido, devo observar que juízos implicam tanto as misericórdias de Deus no livramento dos seus servos justos quanto os seus castigos sobre os ímpios: as intervenções oportunas de seu socorro para uns em suas maiores angústias, como também sua justa vingança sobre os outros, apesar da mais alta prosperidade destes. — Thomas Manton.
Versículos 52–55Salmo 119:52-55
Lembrei-me dos teus juízos. — O teu nome, de noite. Thomas Fuller escreve assim em seu "David's Heartie Repentance":
Para diversos deveres ele dividia os dias,
fazendo da troca de trabalho a sua recreação;
para a oração reservava a preciosa manhã,
o meio-dia ele dedicava à meditação:
as doces histórias sagradas guardava para a noite,
para ler da mansidão de Moisés, da força de Sansão:
estas eram a sua alegria, estas, somente, o seu deleite.
Versículo 53Salmo 119:53
Horror se apoderou de mim, por causa dos ímpios. Tive visões claras da eternidade; vi, em certa medida, a bem-aventurança dos piedosos; e desejei partilhar do seu estado feliz, além de estar confortavelmente certo de que, pela graça, assim será comigo. Mas, ah, que angústia se levanta em minha mente ao pensar numa eternidade para os que estão sem Cristo, para os que se enganam e levam consigo suas falsas esperanças até a sepultura!
A visão era tão terrível que de modo algum eu podia suportá-la: meus pensamentos recuaram, e eu disse, com um senso mais comovente do que nunca antes: "Quem pode habitar com as chamas eternas?" — David Brainerd, 1718-1747.
Horror se apoderou de mim, etc. Ah, quem pode exprimir qual é o estado de uma alma em tais circunstâncias! Tudo o que podemos dizer sobre isso oferece apenas uma representação fraca e pálida; é inexprimível e inconcebível, pois quem conhece o poder da ira de Deus?
Quão terrível é o estado dos que estão diária e horariamente em perigo dessa grande ira e infinita miséria! Mas este é o caso lamentável de toda alma nesta congregação que não nasceu de novo, por mais moral, rigorosa, sóbria e religiosa que seja em outros aspectos. Ah, quisera que todos vocês considerassem isso, sejam jovens ou velhos!
Há razão para pensar que muitos, nesta congregação, que agora ouvem este discurso, serão de fato objeto dessa mesma miséria por toda a eternidade. Não sabemos quem são, nem em que bancos estão sentados, nem que pensamentos têm agora. Pode ser que estejam à vontade e ouçam tudo isso sem grande perturbação, lisonjeando-se de que não são eles os visados, prometendo a si mesmos que hão de escapar.
Se soubéssemos que havia uma pessoa, uma só, em toda a congregação, que seria objeto dessa miséria, que coisa terrível seria pensar nisso! Se soubéssemos quem era, que visão terrível seria ver essa pessoa! Como o resto da congregação poderia levantar um lamento amargo sobre ela! Mas, ai, em vez de uma, quantos provavelmente se lembrarão deste discurso no inferno! — Jonathan Edwards, em um sermão intitulado "Pecadores nas Mãos de um Deus Irado".
Horror. Zilʿaphah significa propriamente o vento ardente e pestilento que os árabes chamam de simum (veja Salmos 11:6); e é usado aqui em sentido figurado para a mais horrível angústia mental, e marca fortemente a ideia que o salmista tinha da natureza corruptora, pestilenta e destrutiva do pecado. — Nota na Bíblia Abrangente de Bagster.
Horror. A palavra para "horror" também significa tempestade ou temporal. As traduções variam: alguns a leem, como Junius, "uma tempestade que alguém enfrenta"; Ainsworth, "um horror ardente se apoderou de mim", e a explica como uma tempestade de terror e consternação. A Septuaginta traz athymia kateschen me (ἀθυμία κατέσχεν με), "desânimo e abatimento de ânimo me possuíram"; a nossa própria tradução, "estou horrivelmente amedrontado"; todas as traduções, assim como a palavra original, implicam grande perturbação de ânimo e uma comoção violenta; como uma tempestade, isso era motivo de inquietação e tremor para Davi. — Thomas Manton.
Por causa dos ímpios que abandonam a tua lei. Davi se afligia, não porque ele mesmo fosse atacado, mas porque a lei de Deus era abandonada; e lamentava a condenação dos que assim faziam, porque estavam perdidos para Deus. Assim como um bom pai, na loucura do filho, quando maltratado por ele, não lamenta a si mesmo, mas a desgraça do doente; e se aflige com a ofensa não porque recaia sobre si, mas porque o doente não sabe o que faz em sua loucura.
Assim, um homem bom, quando vê um pecador que nem reverencia nem honra os cabelos brancos de um pai, que na sua cara consegue insultá-lo, que não sabe, na loucura do pecado, que coisas indecorosas e vergonhosas está fazendo, aflige-se por ele como por alguém à beira da morte, lamenta-o como alguém dado por perdido pelos médicos.
Assim como um bom médico, antes de tudo, aconselha e, mesmo que receba palavras duras, ainda que seja maltratado, suporta o paciente por causa de sua enfermidade; e, se for amaldiçoado, não o abandona; e não recusa nenhum remédio que possa ser aplicado; nem se afasta como de alguém teimoso, mas se esforça com toda diligência para curá-lo como alguém que merece bem dele, exercitando não apenas a perícia da ciência, mas também a bondade do caráter.
Assim também, o homem justo, quando é tratado com desprezo, não se afasta; e, quando é caluniado, considera isso loucura, não depravação; deseja antes aplicar seu próprio remédio à ferida, e se compadece, e se aflige não por si mesmo, mas por aquele que sofre de uma doença incurável. — Ambrose.
Os ímpios que abandonam a tua lei; não apenas transgridem a lei do Senhor, como todo homem faz, mais ou menos, mas a desprezam de propósito e obstinadamente, lançando-a para trás de si, e vivem num curso contínuo de desobediência a ela; ou apostatam da doutrina da palavra de Deus, negando de propósito a verdade depois de terem tido dela conhecimento especulativo — cujo castigo é muito grave (Hebreus 10:26-29).
E isso em parte por causa da ímpia audácia dos ímpios, que estendem as mãos contra Deus e se fortalecem contra o Todo-Poderoso, correndo contra ele, mesmo contra as saliências espessas dos seus escudos; por causa da natureza chocante do pecado deles, dos tristes exemplos que assim dão a outros, do prejuízo que causam a si mesmos, e da desonra que trazem a Deus; e em parte por causa do castigo terrível que lhes será infligido aqui, e especialmente depois, quando uma tempestade horrível de ira cair sobre eles.
Por isso, tal tremor se apoderou do salmista; e muitas vezes acontece que os homens bons tremem mais pelos ímpios do que por si mesmos: veja Salmos 119:120. — John Gill.
Versículo 54Salmo 119:54
Os teus estatutos têm sido os meus cânticos. O salmista se alegrava, sem dúvida, como os bons se alegram hoje,
Na própria lei; a lei como regra de ordem; a lei como guia de conduta; a lei como segurança de proteção.
Numa lei como a de Deus — tão pura, tão santa, tão apropriada para promover a felicidade do homem.
Na estabilidade dessa lei, como fundamento de sua própria segurança pessoal, base de sua esperança.
Na lei em sua influência sobre o universo, preservando a ordem e assegurando a harmonia. — Albert Barnes.
Versículo 55Salmo 119:55
Lembrei-me do teu nome, ó Senhor, de noite, etc. Como a segunda cláusula do versículo depende da primeira, considero o versículo inteiro como expondo uma única e mesma verdade; e, portanto, o profeta quer dizer que foi levado, pela lembrança que tinha de Deus, a guardar a lei. O desprezo pela lei nasce disto: que poucos têm alguma consideração por Deus; e por isso a Escritura, ao condenar a impiedade dos homens, declara que eles se esqueceram de Deus (Salmos 1:22 [sic]; 78:11; 106:21).
A palavra "noite" não pretende dizer que ele se lembrava de Deus apenas por um curto tempo, mas uma lembrança perpétua dele; ele, porém, refere-se particularmente àquela hora, porque então quase todos os nossos sentidos são dominados pelo sono. "Enquanto os outros homens dormem, Deus ocorre aos meus pensamentos mesmo durante o meu sono."
Ele tem outra razão para aludir à hora noturna — para que saibamos que, embora não houvesse ninguém para observá-lo, nem ninguém para lembrá-lo disso; sim, embora estivesse envolto em trevas, ele era tão zeloso em cultivar a lembrança de Deus como se ocupasse o lugar mais público e conspícuo. — John Calvin.
Lembrei-me do teu nome de noite, e por isso "guardei a tua lei" durante todo o dia. — Matthew Henry.
Lembrei-me do teu nome, ó Senhor, de noite. Este versículo contém uma nova declaração de seu sincero afeto pela palavra de Deus. Nisso, notemos primeiro a sua sinceridade: ele era religioso não apenas em público, mas em particular, pois os exercícios privados são as provas mais seguras da verdadeira religião. Em público, muitas vezes a hipocrisia leva os homens a simular o que não são; não é assim na devoção particular, pois então, ou o homem, se não tem consciência do culto a Deus, o negligencia totalmente, porque não há olho humano para vê-lo; ou, se de fato é religioso, mesmo em particular apresenta seu coração a Deus, buscando ser aprovado por ele; pois "o seu louvor não vem dos homens, mas de Deus".
Além disso, isto comprova o seu fervor na religião: pois, assim como em outro lugar declara que amava a palavra mais do que o alimento que lhe era destinado, aqui declara que abria mão do seu descanso noturno para meditar na palavra. Mas hoje o zelo está tão decaído entre os que professam a fé que não abrem mão nem de suas superfluidades, muito menos de seu descanso necessário, por amor à palavra de Deus. — William Cowper.
O teu nome, ó Senhor. O "nome" do Senhor é o seu caráter, a sua natureza, os seus atributos, as manifestações que ele fez de sua santidade, sabedoria, bondade e verdade. — John Stephen.
De noite. Primeiro, isto é, continuamente, pois ele se lembrava de Deus também de dia. Segundo, sinceramente, pois evitava o aplauso dos homens. Terceiro, alegremente, pois o peso do sono natural não conseguia vencê-lo.
Tudo isso mostra que ele era intensamente devotado à palavra; assim como vemos que os homens do mundo tomam parte da noite para seus prazeres. E, ao guardar os testemunhos de Deus de noite, ele mostra que era o mesmo em segredo que era à luz do dia; com isso condenava todos os que cobrem sua maldade com a escuridão. Examinemo-nos, para ver se já interrompemos o sono para invocar a Deus, como o interrompemos para satisfazer os nossos prazeres. — Richard Greenham.
De noite. O pastor Harms, de Hermannsburg, costumava pregar, orar e instruir o seu povo por nove horas no sábado. E então, quando sua mente estava completamente exausta, e todo o seu corpo estremecia de dor, e ele parecia quase morrer de falta de descanso, não conseguia dormir. Mas costumava dizer que gostava de ficar acordado a noite toda, no silêncio e na escuridão, pensando em Jesus.
A noite afastava de seus pensamentos tudo o mais, e deixava o seu coração livre para comungar com Aquele que sua alma mais devotamente amava, e que visitava e consolava o seu discípulo cansado nas vigílias da noite. E assim os filhos de Deus muitas vezes desfrutaram de raros momentos de comunhão com ele na solidão do exílio, na escuridão profunda do calabouço, na noite perpétua da cegueira, e em ocasiões em que todas as vozes e instruções do mundo foram mais completamente cortadas, e a alma ficou a sós com Deus. — Daniel March, em Night unto Night, 1880.
De noite. Nunca há um momento em que não seja próprio voltar-se para Deus e pensar em seu nome. Na escuridão da meia-noite, na escuridão da depressão mental, na escuridão da providência externa, Deus continua sendo um tema apropriado. — William S. Plumer.
A noite.
Querida noite! Derrota deste mundo;
a pausa dos tolos atarefados; freio e refreio do cuidado;
o dia dos espíritos, o retiro calmo da minha alma,
que ninguém perturba!
O avanço de Cristo, e sua hora de oração;
as horas às quais o alto céu badala.
O silencioso e perscrutador voo de Deus;
quando a cabeça do meu Senhor se enche de orvalho, e todos
os seus cabelos se molham com as claras gotas da noite;
o seu chamado quieto e suave;
a sua hora de bater à porta; a vigília muda da alma,
quando os espíritos encontram os seus belos parentes. — Henry Vaughan, 1621-1695.
E guardei a tua lei; embora imperfeitamente, ainda assim espiritual, sincera e cordialmente, por um princípio de amor e gratidão, com vistas à glória de Deus, e sem fins mercenários ou obscuros. — John Gill.
E guardei a tua lei. As horas de comunhão secreta com Deus devem resultar no desejo de conformidade cada vez maior à sua santa vontade. É a lembrança de Deus que leva à guarda de suas leis, assim como é o esquecimento de Deus que fomenta toda espécie de transgressão. — John Morison.
E guardei. O verbo está no futuro, e talvez seja melhor traduzi-lo assim, fazendo dele a expressão de um propósito solene e deliberado de continuar em sua obediência. — William S. Plumer.
Versículos 55–56Salmo 119:55-56
Aquele que se deleita em guardar a lei de Deus, Deus lhe dará mais graça para guardá-la, conforme aquele texto notável: "Lembrei-me do teu nome, ó Senhor, de noite, e guardei a tua lei. Isto tive, porque guardei os teus preceitos." O que Davi ganhou por guardar os preceitos de Deus? Ganhou poder para guardar a sua lei; isto é, para crescer e progredir em guardá-la.
Assim como o profeta (Oseias 6:3) fala do conhecimento de Deus: "Então conheceremos, se prosseguirmos em conhecer o Senhor"; isto é, se nos esforçarmos diligentemente para conhecer a Deus, teremos esta recompensa: seremos capacitados a conhecê-lo ainda mais. Assim posso dizer da graça de Deus: aquele que se deleita em guardar a lei de Deus terá sua recompensa — ser capacitado a guardá-la com mais perfeição.
Um verdadeiro deleite na palavra de Deus é graça que cresce. A graça é a mãe de toda alegria verdadeira (Isaías 32:17), e a alegria é como a filha; e mãe e filha vivem e morrem juntas. — Edmund Calamy (1600-1666), em The Godly Man's Ark.
Versículo 56Salmo 119:56
Isto tive, porque guardei os teus preceitos. Assim como o pecado é castigo do pecado, e o ímpio vai sempre piorando, também a piedade é a recompensa da piedade. O bom uso de um talento aumenta mais, e os começos da piedade são abençoados com o crescimento da piedade. Os bons exercícios de Davi aqui o mantinham na lembrança do seu Deus, e a lembrança de Deus o tornava mais piedoso e religioso. — William Cowper.
Isto tive, etc. Os rabinos têm um ditado análogo: "A recompensa de um preceito é um preceito", ou "Um preceito atrai outro preceito." O sentido disso é que, a quem guarda um preceito, Deus concede, como que por recompensa, a capacidade de guardar outro preceito, mais difícil. O contrário disso é aquele outro ditado dos rabinos: que a recompensa do pecado é o pecado; ou, "A transgressão atrai a transgressão." — Simon de Muis, 1587-1644.
Isto tive, isto é, isto me aconteceu, etc. Experimentei muitos males e adversidades; mas, por outro lado, tirei da palavra os mais doces consolos, e fui coroado com muitas bênçãos de Deus.
Outros o traduzem assim: "Este é o meu negócio, isto é o que me importa e desejo: guardar os teus mandamentos"; isto é, reter incorrupta a doutrina, com fé e boa consciência. — D.H. Mollerus.
Isto tive, etc. Tive o consolo de guardar a tua lei porque a guardei. A obra de Deus é o seu próprio salário. — Matthew Henry.
Isto tive, etc. O que é isso? Este consolo tive, este amparo tive em todas as minhas aflições, esta consolação tive, esta doce comunhão com Deus tive. Por quê? "Porque guardei os teus preceitos" — obedeci à tua vontade. Veja: quanto mais obediência se presta aos mandamentos de Deus, tanto mais consolo flui para a alma. Deus costuma dar consolos na proporção da nossa obediência.
Ó a doce e satisfatória consolação que um filho de Deus encontra nos caminhos de Deus, e em fazer a vontade de Deus, especialmente quando está em seu leito de morte; então lhe será mais doce que o mel e o favo de mel; então dirá, como o bom rei Ezequias, quando estava em seu leito de morte: "Senhor, lembra-te de como andei diante de ti em verdade e com coração perfeito, e fiz o que era bom aos teus olhos." Ó a doce satisfação que uma alma encontrará em Deus, quando comparecer diante de Deus! — James Nalton, 1664.
Isto tive, etc. Ou: "Esta foi a minha consolação: que guardei os teus preceitos"; o que se aproxima da leitura do siríaco, e torna o sentido mais completo. — Nota na Bíblia Abrangente de Bagster.
Isto tive, etc. Quando ouço o povo fiel de Deus falar do seu amor, e dizer "isto tive", não devo eu, se incapaz de me unir ao seu alegre reconhecimento, atribuir isso ao meu andar infiel, e dizer "isto não tive" — porque falhei na obediência aos teus preceitos; porque fui negligente e indulgente comigo mesmo; porque desprezei o teu amor; porque "entristeci o teu Espírito Santo", e esqueci de "perguntar pelas veredas antigas, para andar nelas e achar descanso para a minha alma" (Jeremias 6:16). — Charles Bridges.
Davi diz indefinidamente: "isto tive"; sem nos dizer que bem ou privilégio era; apenas, de modo geral, foi algum benefício que lhe adveio nesta vida. Ele não diz "isto espero"; mas "isto tive"; e por isso não fala da recompensa plena na vida vindoura. No céu chegamos a receber a recompensa plena da obediência; mas quem anda de perto com Deus, esperando nele numa obediência humilde e constante, terá encorajamento suficiente já nesta vida.
Não só será abençoado, mas já é abençoado; tem algo em mãos, além da esperança: como Davi diz neste Salmo 119, não só será abençoado, mas já é abençoado; assim como os que viajavam rumo a Sião encontravam um poço pelo caminho: "os que, passando pelo vale de Baca, o tornam em poço; a chuva também o cobre de bênçãos" (Salmos 84:6).
Num deserto seco e árido, pelo qual tinham de passar, não ficavam totalmente sem consolo, mas encontravam um poço ou uma cisterna; isto é, tinham algum consolo concedido antes de chegarem a desfrutar da presença de Deus em Sião; alguns refrigérios tinham pelo caminho.
Assim como os servos que, além do seu salário, têm seus véus, também nós, além da recompensa futura, temos os nossos consolos e amparos presentes durante o nosso tempo de serviço, suficientes para contrabalançar todas as alegrias mundanas, e superar os maiores prazeres que os homens possam esperar no caminho do pecado. Nos benefícios que os crentes encontram ao andar com Deus num curso de obediência, cada um pode dizer: "isto tive, porque guardei os teus preceitos." — Thomas Manton.
Aqui começa uma nova divisão do salmo, indicada pela letra hebraica Chet, que pode ser representada em português por "h". — Albert Barnes.