Notas explicativas e citações: Salmo 119:73-80 (Iode)
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 119:73-80, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 119 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Versículos 73–80Salmo 119:73-80
O relato usual desta seção, como o dão os teólogos medievais, é que se trata da oração do homem para ser restaurado ao seu estado de inocência e sabedoria originais, sendo conformado à imagem de Cristo. E isso se ajusta ao sentido óbvio, que é em parte uma petição por graça divina e em parte uma afirmação de que o exemplo de piedade e resignação na aflição é atraente o bastante para atrair os corações dos homens a Deus — verdade demonstrada ao mesmo tempo pela Paixão e pelas vidas de todos os santos que tentaram segui-la.
— Neale e Littledale.
Versículo 73Salmo 119:73
As tuas mãos me fizeram e me formaram, etc. Este verso contém um pedido de entendimento, e uma razão para ele: sou obra das tuas mãos, portanto dá-me entendimento. Não há homem que não estime as obras de suas próprias mãos. E não amará o Senhor ainda mais as suas criaturas, sobretudo o homem, sua criatura mais excelente? Quanto ao corpo, considerada sua feitura, nada se encontra na terra mais precioso do que ele; mas naquilo que não se vê, a saber, sua alma, ele é ainda mais formoso. Vê-se, pois, quão eficaz é o raciocínio de Davi; é como se dissesse, como faz em outro lugar: "Não desampares, ó Senhor, a obra das tuas mãos"; tu és meu autor e feitor; busco a tua ajuda, e a de nenhum outro.
Ninguém pode buscar retamente coisas boas de Deus se não considerar o bem que o Senhor já lhe fez. Mas muitos são, nisso, tão ignorantes que não sabem quão maravilhosamente Deus os fez; por isso não podem nem abençoá-lo, nem buscar nele, como em seu Criador e Conservador. Mas este argumento, tirado de nossa primeira criação, ninguém pode usar retamente, senão aquele que, pela graça, é participante da segunda criação; pois perdemos, na queda, todos os privilégios da primeira criação. De modo que, agora, por natureza, não nos é consolo nem motivo de esperança que Deus nos tenha feito; antes, é motivo de temor e desconfiança, pois nos desfizemos a nós mesmos, perdemos sua imagem, e já não somos como aquilo que Deus criou no princípio.
— William Cowper.
As tuas mãos me fizeram e me formaram, etc. Note-se aqui duas coisas: primeiro, que, ao fazer sua súplica por santo entendimento, ele acusa a si mesmo e a todos os outros de cegueira — cegueira que não procede do Criador, mas do homem corrompido. Segundo, que, já desde sua criação, ele concebeu esperança de que Deus continuaria a obra nele começada, porque Deus não abandona sua obra; por isso ele roga a Deus que lhe conceda nova graça, e complete o que nele havia começado.
— Thomas Wilcocks, 1586.
Hugo nota, com engenho, nos diferentes verbos deste verso, os vícios particulares que se deve evitar: a ingratidão, quando se diz "as tuas mãos me fizeram"; o orgulho, "e me formaram"; a confiança no próprio juízo, "dá-me entendimento"; a curiosidade intrometida, "para que eu aprenda os teus mandamentos".
"As tuas mãos." Hilário e Ambrósio pensam que, pelo plural "mãos", se dá a entender uma obra mais exata e perfeita no homem, como se ele tivesse sido formado por Deus com maior trabalho e arte, por ser feito à imagem e semelhança de Deus; e que não está escrito que nenhuma outra coisa, senão o homem, tenha sido feita por Deus com ambas as mãos, pois ele diz em Isaías: "A minha mão fundou a terra" (Isaías 48:13).
— John Lorinus, 1569-1634.
Isto, porém, é um erro, como observa Agostinho; pois está escrito: "Os céus são obra das tuas mãos" (Salmos 102:25).
— C.H.S.
"As tuas mãos." Ah, olha para as feridas de tuas mãos, e não te esqueças da obra de tuas mãos: assim orava a rainha Isabel.
— John Trapp.
Alguns referem o verbo hyhn, "fizeram", à alma, e yhns, "formaram", ao corpo.
— D. H. Mollerus.
Me fizeste e me formaste: dá-me entendimento. A grandeza de Deus não é obstáculo ao seu convívio conosco, pois parte especial da grandeza divina está em poder condescender à pequenez dos seres criados — visto que a condição de criatura, pelo próprio nome, há de ter essa pequenez; pois Deus há de ser sempre Deus, e o homem há de ser sempre homem: o oceano há de ser sempre oceano, a gota há de ser sempre gota.
A grandeza de Deus, envolvendo nossa pequenez como os céus envolvem a terra, e ajustando-se a ela por todos os lados, como o ar penetra todas as partes da terra, é o que torna esse convívio tão completo e bendito: "Na sua mão está a alma de todo ser vivente, e o espírito de toda carne humana" (Jó 12:10). Tal é a proximidade, tal é a intimidade dele com as obras de suas mãos.
É proximidade, não distância, o que o nome Criador implica; e o simples fato de ele nos ter feito é garantia de seu desejo de nos abençoar e de conviver conosco. A comunicação entre a coisa feita e seu feitor está envolvida na própria ideia de criação. "As tuas mãos me fizeram e me formaram: dá-me entendimento, para que eu aprenda os teus mandamentos." "Fiel Criador" é o seu nome (1 Pedro 4:19), e como tal a ele apelamos: "Não desampares a obra de tuas próprias mãos" (Salmos 138:8).
— Horatius Bonar, em The Rent Veil, 1875.
Dá-me entendimento, etc. O livro de Deus é como a loja do boticário: não há ferida para a qual não haja ali remédio; mas se um estranho entra na loja do boticário, ainda que ali estejam todas essas coisas, não sabe onde encontrá-las — só o boticário mesmo sabe. Assim também nas Escrituras: há curas para toda enfermidade, há consolo contra toda tristeza, e, comparando capítulo com capítulo, chegaremos a entendê-las. As Escrituras não nos faltam; nós é que faltamos a nós mesmos; sejamos assíduos nelas, e as entenderemos, enquanto os grandes letrados que as negligenciam permanecem nas trevas.
— Richard Stock.
Dá-me entendimento. Peçamos a Deus que abra o nosso entendimento, para que, assim como nos deu a consciência para nos guiar, também dê olhos a essa guia, para que ela possa nos dirigir corretamente. A verdade é que só Deus pode iluminar solidamente a nossa consciência; por isso, roguemos-lhe que o faça. Todo o nosso estudo, toda a nossa audição, leitura e conferência jamais serão capazes disso; só está no poder daquele que nos fez fazê-lo. Aquele que fez a nossa consciência, só ele pode dar-lhe esta luz celestial de verdadeiro conhecimento e reto entendimento; por isso, busquemo-lo com fervor para isso.
— William Fenner, 1600-1640.
Para que eu aprenda os teus mandamentos. Que ele os aprendesse de modo a conhecer seu sentido e significado, sua pureza e espiritualidade; e de modo a praticá-los por princípio de amor, na fé, e para a glória de Deus: pois não se trata de um mero decorar ou memorizar, nem de uma simples teoria deles, mas da prática deles em fé e amor, que é o que aqui se quer dizer.
— John Gill.
Versículos 73–74Salmo 119:73-74
Destes versos, aprenda-se:
Ainda que nada satisfaça a incredulidade, a verdadeira fé se vale até do benefício mais comum da criação para se fortalecer: As tuas mãos me fizeram e me formaram.
É um bom modo de argumentar com Deus pedir outro dom porque já recebemos um; e, porque ele nos deu benefícios comuns, pedir que nos dê também as graças salvadoras: As tuas mãos me fizeram e me formaram: dá-me entendimento, para que eu aprenda os teus mandamentos.
Vendo que Deus é nosso Criador, e que o fim de nossa criação é servir a Deus, podemos pedir com confiança toda graça que nos capacite a servi-lo, como nos ensina o exemplo do salmista...
Deve ser alegria de todos os crentes ver um de seus irmãos sustentado e amparado em seus sofrimentos; pois, na prova e no exemplo de um só que sofre, dá-se penhor a todos os demais de que Deus os ajudará em caso semelhante: Os que te temem se alegrarão ao me verem.
— David Dickson.
Versículo 74Salmo 119:74
Os que te temem se alegrarão, etc. Os que "temem a Deus" naturalmente se alegram ao ver e conversar com alguém semelhante a si mesmos; mas mais ainda quando se trata de alguém cuja fé e paciência o conduziram através das tribulações, e o tornaram vencedor sobre as tentações; alguém que "esperou na palavra de Deus" e não foi decepcionado. Cada caso desses oferece novo estímulo a todos os que, no curso de sua milícia, ainda vão passar por tribulações e tentações semelhantes. Em todas as nossas provas, lembremo-nos, pois, de que nossos irmãos, tanto quanto nós mesmos, têm profundo interesse no desfecho, o qual pode fortalecer ou enfraquecer as mãos da multidão.
— George Horne.
Os que te temem se alegrarão ao me verem, etc. Quão reconfortante é para os herdeiros da promessa se verem, ou se reunirem: aspectus boni viri delectat, o mero olhar de um homem bom é agradável: é um prazer conversar com os que se esmeram em agradar a Deus, e temem ofendê-lo. Quanto se comovem uns com as misericórdias dos outros: "eles se alegrarão ao me verem", já que alcancei um desfecho correspondente à minha esperança. Virão olhar para mim como monumento e espetáculo da misericórdia e da verdade de Deus.
Mas que misericórdia ele havia recebido? O contexto parece indicar a graça de obedecer aos mandamentos de Deus; essa foi a oração imediatamente anterior, ser instruído e ensinado na lei de Deus (Salmos 119:73). Ora, eles se alegrarão ao ver meu proceder santo, como tenho aproveitado e glorificado a Deus nesse particular.
Os escritores hebreus dão a razão: "Porque então poderei instruí-los naqueles estatutos, quando virem a mim, seu rei, meditar na lei de Deus." Pode-se também entender de qualquer outra bênção ou benefício que Deus lhe tenha dado conforme sua esperança; e prefiro entendê-lo assim: eles se alegrarão ao vê-lo sustentado, amparado e conduzido em suas tribulações e sofrimentos. "Eles se alegrarão ao ver em mim um exemplo notável do fruto de esperar na tua graça."
— Thomas Manton.
"Porque tenho esperado na tua palavra." E não fui decepcionado. A Vulgata traduz supersperavi, "sobre-esperei"; e então Aben Ezra glosa: "esperei em todo o teu decreto" — até mesmo naquele de me afligir, como no verso seguinte.
— John Trapp.
Versículo 75Salmo 119:75
Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos. Muito cedo em minha vida, a árvore do conhecimento me pareceu bela, gloriosa árvore; mas quantos enganos cometi a esse respeito! E quantos enganos ainda abundam sobre aquilo que, na linguagem comum, gostamos de chamar conhecimento. Aquele que leu os clássicos; aquele que se aventurou pela ciência matemática; aquele que é versado em história, gramática e boa elocução; aquele que é apto e pronto para resolver alguma questão intrincada, e versado na antiga erudição — esse é tido por homem de conhecimento; e de fato o é, comparado à massa ignorante da humanidade. Mas o que é tudo isso comparado ao conhecimento do meu texto? Conhecimento do qual poucos dos chamados eruditos têm sequer a menor familiaridade.
"Eu sei" — o quê, Davi? O que sabes? — Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos, e que em fidelidade me afligiste.
Por mais afeiçoado que eu ainda seja a outras especulações, preferiria, e muito, possuir o conhecimento deste homem no meu texto, a ter o mais amplo conhecimento de todo o círculo das ciências, como orgulhosamente se costuma chamá-lo... Suponho que, na primeira parte do verso, o salmista fala em geral das ordenanças, disposições, providência e juízos de Deus; e a afirmação é que ele sabe que são retos, que são equitativos, que são sábios, que são justos, e que não se lhes pode apontar defeito — ainda que os homens, por sua loucura, se lancem em aflição, e então seus corações se irritem contra Deus.
Ele foi abençoado com entendimento superior. Não abre exceção: "Sei que todos os teus juízos são retos." Depois, na segunda parte do texto, ele torna a questão pessoal. Poderia dizer-se que é fácil pensar assim quando se veem as revoluções dos reinos, os tronos que titubeiam, as aflições de uns mortais e as dores de outros, e concluir que tudo está certo.
"Sim", diz ele, "mas tenho a mesma convicção quanto a todas as minhas próprias dores; sei que em fidelidade me afligiste."
— De um sermão de John Martin, 1817.
Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos, etc. O texto tem a forma de um discurso dirigido a Deus. Encontramos isso com frequência em Davi: quando quer exprimir algum sentimento profundo, ou algum ponto de experiência espiritual, ele o faz assim — dirigindo-se a Deus. Os que amam a Deus se comprazem em manter comunhão com ele; e há sentimentos que a mente espiritual encontra peculiar conforto e prazer em dizer ao próprio Deus.
"Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos." Deus ordena todas as coisas, e seus "juízos" aqui significam suas disposições, decisões e tratos gerais — não apenas as aflições, embora as incluam. E quando o salmista diz "os teus juízos", ele se refere especialmente aos juízos de Deus para com ele, aos tratos de Deus com ele, e assim a tudo o que lhe acontecera, ou haveria de lhe acontecer. Pois no credo do salmista não havia tal coisa como acaso. Deus ordenava tudo o que lhe sucedia, e ele gostava de pensar assim.
Ele expressa confiança segura e feliz em tudo o que Deus fizera, e faria, a seu respeito. Confiava plenamente na sabedoria de Deus, no poder de Deus, no amor de Deus. "Sei que os teus juízos são retos" — bem retos, retos em todo sentido, sem um único ponto que pudesse ter sido melhor, perfeitamente sábios e bons. Ele mostra a mais firme persuasão disso. "Eu sei", diz ele, não apenas "eu penso."
Mas essas próprias palavras, "eu sei", mostram claramente que isto era questão de fé, não de vista. Pois ele não diz "posso ver que os teus juízos são retos", mas "eu sei". O sentido é claramente: "Ainda que não possa ver tudo — ainda que haja coisas em teus tratos que não posso entender plenamente — creio, estou persuadido, e assim sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos."
"Os teus juízos." Não alguns deles, mas todos. Ele contempla todos os tratos de Deus com ele, e diz deles, sem exceção: "Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos." Quando as coisas que nos acontecem são claramente para nosso conforto e bem, como muitas são, recebemos com gratidão o que Deus assim nos envia, o reconhecemos como Doador de tudo, e o bendizemos por seu trato gracioso; e isso é reto.
Mas toda a fé exigida para isso (e há alguma fé nisso) é reconhecer que Deus trata conosco, em vez de receber os dons sem pensar no Doador, ingratamente. É um grau de fé muito mais elevado dizer, de todos os tratos de Deus, mesmo quando não parecem voltados para nossa felicidade: "Sei que os teus juízos são retos."
Contudo, é este o sentido aqui, ou certamente o sentido principal. Pois, embora a palavra "juízos" signifique os tratos de Deus de toda espécie, aqui as palavras seguintes fazem-na aplicar-se especialmente aos tratos aflitivos de Deus, isto é, àqueles tratos seus que não parecem voltados para nossa felicidade: Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos, e que em fidelidade me afligiste.
Os juízos que o salmista principalmente tinha em vista, e dos quais estava tão certo de que eram retos, não eram alegrias, mas tristezas; não coisas concedidas, mas coisas tiradas; aquelas bênçãos disfarçadas, aquelas misericórdias veladas, aqueles dons vestidos de luto, que Deus tantas vezes envia a seus filhos. O salmista sabia, e sabia contra toda aparência em contrário, que esses juízos eram "retos."
Fossem quais fossem — perdas, lutos, decepções, dor, enfermidade — eram retos; tão retos quanto as bênçãos mais manifestas que os precederam; bem retos, perfeitamente retos; tão retos que não poderiam ter sido melhores; exatamente o que era melhor; e tudo porque eram juízos de Deus. Essa única coisa satisfazia a mente do salmista, e punha fim a toda dúvida. Dos tratos em si ele poderia duvidar, mas não daquele a quem pertenciam. "Os teus juízos." Isso resolvia tudo.
"E que em fidelidade me afligiste." Isso significa que, ao determinar a tribulação como sua sorte, Deus tratara com ele em fidelidade à sua palavra, fidelidade a seus propósitos de misericórdia, com amor fiel, não fraco. Enviara-lhe exatamente o que mais lhe convinha, ainda que nem sempre o que mais lhe agradasse; e nisso se mostrara fiel. Com brandura e amor trata o Senhor os seus filhos. Ele não dá dor desnecessária; mas o que é necessário, não reterá.
— Francis Bourdillon, 1881.
"Os teus juízos." Há judicia oris, e há judicia operis: os juízos da boca de Deus, e os juízos das mãos de Deus. Dos primeiros há menção no verso 13: "Com os meus lábios declarei todos os juízos da tua boca" (Salmos 119:13). E por esses "juízos" não se entende senão a santa lei de Deus, e toda a sua palavra escrita — que, por todo este salmo, são indiferentemente chamados seus "estatutos", seus "mandamentos", seus "preceitos", seus "testemunhos", seus "juízos".
E as leis de Deus, por isso, entre outras razões, recebem o nome de "juízos", porque por elas chegamos a um reto juízo pelo qual discernimos entre o bem e o mal. De outro modo não poderíamos julgar com certeza o que nos convinha fazer, e o que nos era necessário evitar. A lege tua intellexi — "Pela tua lei obtive entendimento" (Salmos 119:104).
São Paulo confessa (Romanos 7:1-25) que nunca soubera corretamente o que era o pecado, não fosse a lei; e cita o exemplo da cobiça, que não saberia ser pecado se a lei não dissesse: "não cobiçarás." E não há dúvida de que esses "juízos", esses judicia oris, também são todos "retos"; pois seria irracional pensar que Deus fizesse regra de retidão para nós de algo que em si não fosse reto.
Temos tanto o nome ("juízos") quanto a coisa (que são "retos") no Salmo 19; onde, tendo elogiado amplamente a lei de Deus sob as diversas denominações de "lei", "testemunhos", "estatutos" e "mandamentos" (Salmos 19:7-8), o profeta então conclui sob este nome de "juízos" (Salmos 19:9): "Os juízos do Senhor são verdadeiros e justos, todos eles."
Além destes judicia oris, que são os juízos de Deus para direção, há também os judicia operis, que são seus juízos para correção. E estes sempre incluem aliquid paenale, algo infligido a nós pelo Deus Todo-Poderoso, como que a título de punição; algo que gera em nós tribulação ou pesar. O apóstolo diz em Hebreus 12:1-29 que todo castigo é penoso; e de fato o é, mais ou menos; do contrário não poderia ser punição para nós.
E estes, de novo, são de dois tipos; mas não se distinguem tanto pelas coisas em si que são infligidas, quanto pela condição das pessoas sobre quem são infligidas, e especialmente pelo afeto e pela intenção de Deus que as inflige. Pois todas — sejam calamidades públicas que caem sobre nações inteiras, cidades ou outras sociedades maiores ou menores de homens (como pestes, fome, guerra, inundações, tempo fora de estação), sejam aflições privadas semelhantes, que caem sobre famílias ou pessoas particulares (como doença, pobreza, desonra, injúrias, morte de amigos, e coisas semelhantes) — todas estas, e quaisquer outras de um ou outro tipo, podem receber dupla consideração; em qualquer uma delas podem, não sem propriedade, ser chamadas juízos de Deus, ainda que sob respeitos diferentes.
Vemos agora os diversos tipos de juízos de Deus: qual, de todos estes, pensamos ser o que aqui se quer dizer? Se os tomássemos todos juntos, a conclusão os abrangeria, e seria verdadeira também. Judicia oris e judicia operis; juízos públicos e privados; aquelas pragas com que, em fúria, pune seus inimigos, e aquelas varas com que, em misericórdia, corrige seus filhos: é certíssimo que todos são "retos."
Mas concebo que esses judicia oris não sejam propriamente o que se quer dizer aqui; pois a explicação na segunda parte do verso (na qual o que aqui se chama juízos ali se expõe como tribulações) parece excluí-los, e restringir o texto, em sua intenção própria, apenas a esses judicia operis — mas a todos eles, de qualquer espécie que sejam: públicos ou privados, pragas ou correções. De todos estes ele declara que são "retos"; e este é o predicado da conclusão: "Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos."
— Robert Sanderson.
Em fidelidade me afligiste. Note-se a ênfase: ele não reconhece meramente que Deus foi fiel apesar de tê-lo afligido, mas fiel ao enviar as aflições. Aflição e tribulação não apenas são compatíveis com o amor de Deus empenhado na aliança da graça; são partes e ramos da própria administração da nova aliança. Deus não é fiel apesar das aflições, mas fiel ao enviá-las.
Há diferença entre essas duas coisas: uma é como exceção à regra, quae firmat regulam in non exceptis [que confirma a regra nos casos não excetuados]; a outra a torna parte da regra — Deus não pode ser fiel sem fazer tudo o que tende ao nosso bem e à nossa eterna salvação. A condução de sua providência é parte do compromisso da aliança: assim como perdoar nossos pecados, santificar-nos e por fim nos dar glória, também ajustar sua providência conforme exigem nossa necessidade e proveito no caminho para o céu.
É um ato de sua soberana misericórdia, que prometeu ao seu povo, usar a disciplina que conduz à sua segurança. Em suma: a cruz não é uma exceção à graça da aliança, mas parte da graça da aliança.
A causa de toda aflição é o pecado, por isso deve-se reconhecer a justiça; seu fim é o arrependimento, por isso deve-se reconhecer a fidelidade. O fim não é destruição e ruína — o que faria das aflições atos de justiça, como sobre os ímpios —, mas que sejamos aptos a receber as promessas; e assim são atos de fidelidade.
— Thomas Manton.
Em fidelidade me afligiste. Isto é, com sincera intenção de me fazer bem. Deus conhece plenamente a nossa constituição, o que é nocivo à nossa saúde, e o que pode remediar nossos males; e por isso nos dispõe, conforme convém,
Pro jucundis aptissima quaeque
em vez de mel agradável, às vezes nos prescreve saudável absinto. Nós mesmos ignoramos em grande parte o que é conducente ao nosso verdadeiro bem, e, se nos fosse inteiramente permitida a escolha de nossa condição, faríamos escolhas muito tolas, muito prejudiciais.
Certamente, todos nós abraçaríamos um estado rico e farto; quando, Deus sabe, isso nos tornaria indolentes e devassos, nos incharia de orgulho e pensamentos altivos, nos sobrecarregaria de cuidados ansiosos, e nos exporia a perigosas tentações; nos tornaria esquecidos de nós mesmos e negligentes para com ele. Por isso ele sabiamente nos dispõe a pobreza; a pobreza, mãe da sobriedade, ama da diligência, mestra da sabedoria; que nos fará entender a nós mesmos e nossa dependência dele, e nos forçará a recorrer ao seu socorro. E não há razão para sermos gratos pelos meios com que somos livrados desses males desesperados, e obtemos essas excelentes vantagens?
Certamente, todos nós escolheríamos o favor e o aplauso dos homens: mas isso, Deus também sabe, corromperia nossas mentes com vã presunção, embriagaria nossa fantasia com prazer espúrio, nos tentaria a atribuir a nós mesmos, desmedidamente, e a privar sacrilegamente Deus da honra que lhe é devida. Por isso ele deliberadamente nos permite incorrer no desprezo e no desagrado, no ódio e no desdém dos homens: para que ponhamos nossa glória somente na esperança de seu favor, e busquemos com mais empenho os prazeres mais puros de uma boa consciência. E não merece esta parte da providência divina, em alto grau, nossa gratidão?
Todos nós quereríamos subir a lugares altos, sem considerar os precipícios sobre os quais se assentam, nem a vertigem de nossas próprias cabeças: mas Deus nos mantém seguros nos humildes vales, atribuindo-nos ocupações que somos mais capazes de administrar.
Talvez abusássemos insolentemente do poder, se nos fosse confiado: empregaríamos grandes dotes em projetos descomunais, como muitos fazem, para perturbação alheia e ruína própria: vasto conhecimento nos faria supervalorizar a nós mesmos e desprezar os outros: gozando saúde contínua, não perceberíamos seu benefício, nem nos lembraríamos de quem a deu. Uma medida conveniente dessas coisas, portanto, a bondade divina nos concede, para que não pereçamos de falta, nem nos fartemos em excesso.
Em suma, as vantagens que nascem das aflições são tão numerosas e tão grandes que seria fácil demonstrar que temos boa razão não só para nos contentarmos com elas, mas para nos alegrarmos nelas, e sermos muito gratos por todas as cruzes e vexames que encontramos; para recebê-los alegremente da mão de Deus, como remédios de nossa alma, e temperos de nossa sorte; como provas de sua boa vontade, e instrumentos de virtude; como fundamentos sólidos de esperança, e presságios confortadores de alegria futura para nós.
— Isaac Barrow.
Em fidelidade me afligiste. Quando um pai renega e expulsa um filho, não mais o corrige. Assim também Deus pode deixar sem castigo aquele a quem pretende destruir; mas nunca aquele com quem está em aliança.
— William S. Plumer.
"Eu sei, ó Senhor", etc.
Contudo, Senhor, no lugar mais querido da memória
guardo aquelas estações tristes,
quando, erguendo os olhos, vi o teu rosto
vestido de severidade bondosa.
Não quereria perder um só suspiro ou lágrima,
pontada no coração, ou fronte latejante:
doce foi o castigo severo,
e doce é agora sua memória.
Sim! que permaneçam as cicatrizes fragrantes,
sinais de amor em teu lugar,
sombras tênues do lado trespassado pela lança,
e da cabeça cingida de espinhos.
E que assim seja ainda tua força terna,
quando o eu quiser desviar-se ou vaguear,
moldando à verdade a vontade rebelde
ao longo do teu caminho estreito.
— John Henry Newman, 1829.
Versículo 76Salmo 119:76
Sirva, eu te suplico, a tua benignidade misericordiosa para o meu consolo. No verso anterior, ele reconheceu que o Senhor o afligira; agora, neste, roga ao Senhor que o console. É estranho que um homem busque consolo na mesma mão que o fere: é obra da fé; a natureza jamais nos ensinaria a fazê-lo.
"Vinde, e voltemos ao Senhor; porque ele despedaçou, e nos sarará; feriu, e nos atará." De novo vemos que as cruzes que Deus põe sobre seus filhos não são para confundi-los nem consumi-los; apenas para prepará-los para maiores consolações.
Com isto Davi se sustentou contra a maldição de Simei: "O Senhor olhará para a minha aflição, e me fará bem por este mal de hoje"; com isto nosso Salvador consola seus discípulos: "A vossa tristeza se tornará em alegria."
Assim como o último estado de Jó foi melhor que o primeiro, também o Senhor retribuirá mais a seus filhos ao final do que lhes tira agora no princípio: suportemos, pois, a sua cruz, como preparo para o consolo.
— William Cowper.
Sirva a tua benignidade misericordiosa para o meu consolo. Vários dos versos anteriores falaram de aflição (Salmos 119:67; Salmos 119:71; Salmos 119:75). O salmista agora apresenta sua petição de alívio sob ela. Mas de que tipo? Ele não pede que ela seja removida. Não "suplica ao Senhor que se aparte dele" (2 Coríntios 12:8). Não. Seus repetidos reconhecimentos dos apoios que lhe foram concedidos sob ela, e dos benefícios que dela colheu, o haviam reconciliado a entregar ao Senhor sua medida e sua duração. Tudo o que ele precisa, e tudo o que pede, é um senso de sua "benignidade misericordiosa" sobre a alma. Assim ele se submete à justiça de Deus em suas provas acumuladas, e espera consolo sob elas apenas com base em seu favor gratuito.
— Charles Bridges.
Sirva a tua benignidade misericordiosa, etc. Que eu derive meu consolo e felicidade de uma difusão do teu amor e misericórdia, kdmh chasdecha, tua bondade exuberante, por toda a minha alma.
— Adam Clarke.
"Segundo a tua palavra ao teu servo." Se a sua promessa não lhe agradava, por que a fez? Se a nossa confiança na promessa não lhe agradava, por que a sua bondade a produziu? Seria incompatível com a sua bondade escarnecer de sua criatura, e seria o mais alto escárnio publicar sua palavra, e criar no coração de seu suplicante uma disposição ajustada à sua promessa, que ele nunca pretendia satisfazer.
Ele não pode fazer mal à sua criatura tanto quanto não pode fazer mal a si mesmo, e por isso jamais pode decepcionar aquela fé que, seguindo os métodos do próprio Deus, se lança nos braços de sua benignidade, e é sua própria obra, e o chama de autor.
Aquela bondade que se comunicou tão livremente à criação irracional não vai negligenciar essas criaturas mais nobres que nele depositam sua confiança. Isso torna Deus objeto adequado de confiança e fé.
— Stephen Charnock.
"Segundo a tua palavra." Davi tinha uma promessa particular de um benefício particular, a saber, o reino de Israel. E essa promessa Deus lhe cumpriu; mas seu consolo não estava nela; pois Saul, antes dele, tivera o reino, mas as promessas de misericórdia não lhe pertenciam, e por isso, quando Deus o abandonou, seu reino não pôde sustentá-lo. Mas Davi aqui depende das promessas gerais da misericórdia de Deus feitas a seus filhos, nas quais reconhece uma promessa particular de misericórdia feita a ele. Pois as promessas gerais de misericórdia e graça feitas no evangelho tornam-se, pela fé, particulares a cada crente.
— William Cowper.
"A tua palavra ao teu servo." Aqui podemos usar a pergunta do eunuco: "De quem diz o profeta isto, de si mesmo, ou de algum outro homem?" De si mesmo, sem dúvida, sob a designação de servo de Deus. Mas então a pergunta retorna: é uma palavra de promessa feita a ele em particular, ou aos servos de Deus em geral? Alguns dizem a primeira, as promessas trazidas a ele por Natã. Eu me inclino à segunda, e ela nos ensina estas três verdades:
Primeiro. Que somente os servos de Deus são capazes dos doces efeitos de sua misericórdia e dos consolos de suas promessas. Quem são os servos de Deus? (1) Os que reconhecem o direito dele e sentem seu interesse sobre si: "de Deus, de quem sou e a quem sirvo" (Atos 27:23). (2) Os que se entregam a ele, renunciando a todos os outros senhores. Renunciar devemos, pois antes estávamos sob outro senhor (Romanos 6:17; Mateus 6:24; Romanos 6:13; 2 Crônicas 30:8).
(3) Os que, de acordo, se dispõem a fazer sinceramente a sua obra: "sirvo com o meu espírito" (Romanos 1:9); e "em novidade de espírito" (Romanos 7:6), como convém aos que são renovados pelo Espírito: diligentemente (Atos 26:7), e universalmente (Lucas 1:74-75), e o aguardam por graça para fazê-lo (Hebreus 7:28). Estes são capazes de consolo. O livro de Deus não fala consolo a pessoas que vivem no pecado, mas aos servos de Deus, que não vivem como se dispusessem de si mesmos, mas ao aceno de Deus. Se ele diz "vai", eles vão. Entregam-se a ser e fazer o que Deus quiser que sejam e façam.
Segundo. Se queremos ter o benefício da promessa, devemos nos incluir sob um ou outro título entre aqueles a quem a promessa é feita; se não como filhos de Deus, ao menos como servos de Deus. Então a promessa nos é tão certa como se nosso nome estivesse nela.
Terceiro. Todos os servos de Deus têm fundamentos comuns de consolo: cada um dos servos de Deus pode argumentar com Deus como faz Davi. Os consolos da palavra são a porção comum do povo de Deus.
— Thomas Manton.
"A tua palavra ao teu servo." Nosso Amo empenhou sua palavra a todos os seus servos de que será bondoso com eles, e eles podem alegá-la diante dele.
— Matthew Henry.
Versículo 77Salmo 119:77
Venham a mim as tuas ternas misericórdias, para que eu viva. Se observarmos com atenção, veremos que Davi aqui busca outra espécie de misericórdia da que buscava antes. Pois primeiro buscou misericórdia para perdoar seus pecados; depois buscou misericórdia para consolá-lo em suas tribulações; agora busca misericórdia para viver, e não pecar mais.
Ai, muitos buscam a primeira misericórdia, a da remissão, e a segunda, a do consolo na tribulação, mas são de todo descuidados quanto à terceira misericórdia, a de viver bem. É grande misericórdia de Deus emendar a tua vida: onde isso não existe, ninguém pense ter recebido nenhuma das anteriores.
É grande misericórdia de Deus a que não só perdoa o mal que se fez, mas também nos fortalece para o bem que ainda não fizemos; e esta é a misericórdia que Davi aqui busca.
— William Cowper.
Venham a mim as tuas ternas misericórdias, etc. As misericórdias de Deus são "ternas misericórdias", são as misericórdias de um pai para com seus filhos, mais ternas ainda que a compaixão de uma mãe pelo filho de seu ventre. Elas "vêm até" nós, quando não somos capazes de ir até elas. Só por elas "vivemos" a vida da fé, do amor, da alegria e do júbilo. E aos que se "deleitam" em sua lei, Deus concederá essas misericórdias, e esta vida; ele lhes dará perdão, e, com isso, lhes dará vida dentre os mortos.
— George Horne.
Venham a mim as tuas ternas misericórdias, etc. Tomando a tradução mais literal, as palavras expressam alta confiança: "As tuas ternas misericórdias virão a mim, e viverei; porque a tua lei é a minha delícia." Se o crente não tivesse senão os próprios méritos para sustentar sua súplica diante do trono da graça, jamais poderia elevar-se a essa alta confiança. Ele se apoia no fundamento da bondade divina, manifesta através do Ungido, e nisso se apoia com segurança.
— John Stephen.
"Venham." Vir a ele indica uma aplicação pessoal e eficaz. Primeiro, uma aplicação pessoal, como em Salmos 119:41: "Venham também a mim as tuas misericórdias, ó Senhor, e a tua salvação, segundo a tua palavra." Davi não queria ser esquecido, nem deixado de lado, nem perdido na multidão da humanidade, quando a misericórdia distribuía a bênção entre eles. Segundo, aplicação eficaz: o que significa, (1) a remoção de obstáculos e impedimentos; (2) a obtenção dos frutos e efeitos desta misericórdia.
Primeiro: a remoção dos obstáculos. Enquanto não se abre caminho, a misericórdia de Deus não pode chegar até nós; pois o caminho está barricado e fechado por nossos pecados: assim como o Senhor abre caminho para sua ira (Salmos 78:50), removendo os impedimentos, assim o Senhor abre caminho para sua misericórdia, ou a misericórdia abre caminho para si mesma, quando remove o obstáculo. O pecado é o grande impedimento da misericórdia. Nós mesmos levantamos as névoas e as nuvens que interceptam a luz do rosto de Deus; construímos o muro de separação entre Deus e nós; ainda assim, a misericórdia encontra o caminho.
Segundo: a obtenção dos frutos da misericórdia... Não basta ouvir algo das misericórdias salvadoras de Deus; devemos rogar que elas venham até nós, que nos sejam comunicadas de modo eficaz e sensível, para que tenhamos experiência delas em nossa própria alma.
Um homem que leu sobre o mel, ou ouviu falar do mel, pode conhecer sua doçura por suposição e imaginação; mas um homem que provou o mel conhece sua doçura de fato: assim, ao ler e ouvir sobre a graça e a misericórdia de Deus em Cristo, podemos supor que é coisa doce; mas quem teve prova experimental dos doces efeitos e frutos dela em seu próprio coração percebe que tudo o que se diz sobre o perdão e o consolo de Deus aos pecadores se cumpre nele mesmo.
— Thomas Manton.
"A tua lei é a minha delícia." O filho de Deus, embora não possa servir ao Senhor perfeitamente, o serve de boa vontade; sua vontade está na lei do Senhor; não é soldado recrutado à força, mas voluntário. Por esse pulsar podemos julgar se há vida espiritual em nós, ou não. Davi professa que a lei de Deus era sua delícia; tinha sua coroa para se deleitar, tinha sua música para se deleitar; mas o amor que tinha pela lei de Deus afogava todas as outras delícias, assim como a alegria da colheita e da vindima excede a alegria da respiga.
— Thomas Watson.
Versículo 78Salmo 119:78
Envergonhem-se os soberbos, etc. Eis a justa recompensa de sua soberba. Ele bem que quereria honra e preeminência, mas Deus não lhas dará: ele foge da vergonha e do desprezo, mas Deus os derramará sobre ele. "Porque procederam perversamente comigo sem causa." Davi se queixa do trato ímpio e falso de seus inimigos contra ele; e sua oração está escrita para nos sustentar em tentação semelhante.
Pois Satanás é sempre igual a si mesmo, odiando aqueles a quem o Senhor ama. Dificilmente poderia ser pior, nunca poderia ser melhor; e por isso, com malícia incansável, ele instiga todos os seus malditos instrumentos, nos quais reina, a perseguir os que são amados e protegidos do Senhor.
"Mas eu meditarei nos teus preceitos." Os inimigos de Davi combatiam contra ele com as armas da carne, a maldade e a falsidade: ele lhes resiste com a armadura do Espírito, não enfrentando maldade com maldade, nem falsidade com falsidade. Pois, se lutarmos contra Satanás com as armas de Satanás, ele logo nos vencerá; mas se vestirmos toda a armadura de Deus para resisti-lo, ele fugirá de nós.
— William Cowper.
Envergonhem-se os soberbos. Isto é, que não prosperem nem tenham êxito em suas tentativas; pois os homens se envergonham quando são frustrados. Todos os esforços deles para exterminar o povo de Deus são vãos e infrutíferos, e as coisas que sutilmente tramaram não produzem o efeito que se propuseram.
"Porque procederam perversamente comigo sem causa." A Septuaginta traz adikōs, "injustamente". Ainsworth lê: "Com falsidade me depravaram." Isso implica duas coisas: primeiro, que fingiram uma causa; mas, segundo, Davi afirma sua inocência diante de Deus; e assim, sem culpa nenhuma sua, acusaram, difamaram, condenaram suas ações, como é costume nesses casos.
Quando os soberbos são incômodos e prejudiciais ao povo de Deus, os santos podem confiadamente entregar sua causa a Deus... Pode-se apelar ao Senhor por duplo motivo: em parte, porque ele é inimigo dos soberbos, e amigo dos humildes (Tiago 4:6; Salmos 138:6); em parte, porque ele é a porção dos aflitos e oprimidos (Salmos 140:12). Quando Satanás instiga seus instrumentos a odiar aqueles a quem o Senhor ama, o Senhor levantará seu poder para ajudá-los e defendê-los.
Não é esta uma oração vingativa? Resposta: não. Primeiro, porque os que a oferecem buscam sua própria libertação, para que, em consequência, possam servir a Deus mais livremente. De fato, ao mostrar Deus misericórdia a seu povo, a soberba dos ímpios é reprimida (Salmos 119:134); mas a misericórdia é o objeto principal da oração.
Segundo. No que diz respeito a seus inimigos, ele o expressa em termos brandos — que sejam "envergonhados"; isto é, frustrados em seus conselhos, esperanças, maquinações e empreendimentos. Por isso não é contra as pessoas de seus inimigos, mas contra seus planos e empreitadas. Nesses casos, a vergonha e a frustração podem até lhes fazer bem. Eles pensam em promover a supressão total do povo de Deus, mas isso os endureceria em seus pecados; por isso o povo de Deus deseja que ele não deixe pisar sua inocência, mas frustre seus adversários, para que os soberbos se envergonhem no fracasso de suas tentativas.
Terceiro. As orações dos justos pela derrocada dos ímpios são uma espécie de profecia; de modo que, ao orar, Davi na verdade prediz que os que procederam perversamente logo se envergonhariam, já que uma boa causa nem sempre é oprimida: "Mas ele aparecerá para vossa alegria, e eles se envergonharão" (Isaías 66:5).
Quarto. Os santos têm liberdade para imprecar vingança, mas isso deve ser usado com moderação e grande cautela: "Sejam confundidos e consumidos os que são adversários da minha alma" (Salmos 71:13). Contra inimigos maliciosos, pode-se orar expressamente.
— Thomas Manton.
Envergonhem-se os soberbos. Isto sugere uma palavra aos ímpios. Cuidado, para que, com vosso ódio implacável à verdade e à igreja de Deus, não provoqueis suas orações contra vós. Estas orações imprecatórias dos santos, quando disparadas no alvo certo, e devidamente elevadas, são peças de artilharia mortais, e atingem fatalmente onde caem.
"Não vingará Deus os seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite, ainda que ele seja longânimo para com eles? Digo-vos que depressa os vingará." (Lucas 18:7-8). Não são palavras vazias — como as imprecações dos ímpios lançadas ao ar, que ali se dissipam com seu próprio hálito —, mas são recebidas no céu, e serão devolvidas com trovão e relâmpago sobre a cabeça dos ímpios.
A oração de Davi desfez a política tão bem tramada de Aitofel, e lhe apertou o próprio laço. As orações dos santos são mais temíveis — como certa vez disse e sentiu um grande homem — do que um exército de vinte mil homens em campo. O jejum de Ester apressou a ruína de Hamã, e o de Ezequias contra Senaqueribe levou seu enorme exército ao morticínio, e fez descer um anjo do céu para executar, numa só noite, o castigo sobre eles.
— William Gurnall.
"Os soberbos." Os ímpios, especialmente os perseguidores do povo de Deus, costumam ser caracterizados neste salmo por este termo, "os soberbos" (Salmos 119:51; Salmos 119:69; Salmos 119:122). A soberba leva os ímpios a serem incômodos e prejudiciais ao povo de Deus. Mas por que os perseguidores e os que fazem injúria são chamados "os soberbos"?
Porque os ímpios sacodem o jugo de Deus, e não se sujeitam a seu Criador, e por isso não desistem de perturbar seu povo: "Quem é o Senhor, para que eu ouça a sua voz e deixe ir Israel?" (Êxodo 5:2). O que estava em sua língua está no coração de todos os homens; eles desprezam a Deus e suas leis. Todo pecado tem em si um grau de soberba, e uma recusa de Deus (2 Samuel 12:9).
Porque estão embriagados de felicidade mundana, e nunca pensam em mudanças. "A nossa alma está sobremaneira farta da zombaria dos que estão à vontade, e do desprezo dos soberbos" (Salmos 123:4). Quando os homens prosperam, tendem a incomodar injustamente os outros, e depois a escarnecer deles em sua miséria, e a desprezar a pessoa e a causa do povo de Deus, o que é efeito certo de grande arrogância e soberba.
Pensam que podem fazer o que bem entenderem: "Não há mudanças para eles; por isso não temem a Deus", e estendem as mãos contra os que estão em paz com eles (Salmos 55:19-20): enquanto prosperam sem perturbação, não conseguem se abster da violência e da opressão.
Porque cultivam uma vida de pompa, comodidade e grandeza carnal, e por isso desprezam a aflição, a humildade e a simplicidade do povo de Deus. A falsa igreja costuma ter a vantagem do poder mundano e da glória exterior; e a verdadeira igreja se conhece pelo poder divino, pelos dons e graças, e pelo brilho da santidade.
Chamam-se "soberbos" por causa de seu porte insolente para com o povo do Senhor; em parte em suas leis e ordenanças, exigindo dele mais honra, respeito e obediência do que a consciência pode conceder; como Hamã queria que Mardoqueu se dedicasse a ele à maneira dos persas (Ester 3:5).
— Condensado de Manton.
Quando qualquer de vós, diz Cesário, "estiver cantando o verso do Salmo em que se diz: Envergonhem-se os soberbos, empenhe-se em evitar a soberba, para escapar da vergonha eterna."
— William Kay.
Mas eu meditarei nos teus preceitos. Ele repete muitas vezes a mesma coisa; e, se o mundo não pudesse conter os livros que se poderiam escrever sobre Cristo, e ainda assim, por nossa fraqueza, o Senhor os resumiu em tão poucos livros, e mesmo assim uma coisa neles se repete com frequência, isso mostra que o assunto é de peso, e deve ser por nós devida e frequentemente considerado.
E de novo se nos ensina que isto é algo que ninguém observa com o cuidado devido. E ele mostra que, assim como seus inimigos buscavam feri-lo por meios maus, também ele buscava manter boa consciência, para que não pudessem feri-lo.
Não devemos, então, opor política a política, nem cretizare cum Cretensibus [usar de astúcia cretense contra os cretenses]; mas voltemo-nos sempre para a palavra, e mantenhamo-nos dentro de seus limites, e lutemos com as armas que ela nos empresta... Se nos entregássemos a Deus e à sua palavra, e não admitíssemos senão o que com ela concorda, seríamos feitos mais sábios que nossos inimigos.
— Richard Greenham.
"Eu meditarei nos teus preceitos." O verbo asiach, na segunda parte do verso, pode ser traduzido tanto "eu falarei de" quanto "eu reiterarei sobre"; sugerindo que, obtida a vitória, ele proclamaria a bondade de Deus, que experimentara. Falar dos estatutos de Deus equivale a declarar, a partir da lei, com que fidelidade ele guarda seus santos, com que segurança os livra, e com que justiça vinga suas injúrias.
— John Calvin.
"Meditar." As verdades jazem ocultas no coração, sem eficácia nem poder, até serem aproveitadas por pensamentos profundos, sérios e insistentes... Levar depressa uma vela por uma sala não nos dá visão tão completa do objeto quanto ficar parado um instante a contemplá-lo. Uma contemplação constante é grande vantagem.
— Thomas Manton.
Versículo 79Salmo 119:79
Voltem-se para mim os que te temem. Alguns pensam que isto indica que, quando Davi cometera aquele feio pecado no assassinato de Urias, embora fosse rei, os que temiam a Deus se tornaram estranhos a ele, e se afastaram, pois se envergonhavam dele; isso o afligiu, e por isso ora: Senhor, faze com que "se voltem para mim" outra vez. Ele deseja especialmente a companhia dos que eram não só honestos, mas inteligentes, "que conheceram os teus testemunhos", que têm boa cabeça tanto quanto bom coração, e cuja conversa será edificante. É desejável ter intimidade com tais pessoas.
— Matthew Henry.
Voltem-se para mim os que te temem, etc. Assim como ele não tinha apenas sua própria carne contra a qual lutar, mas também o mundo, também ele não lutava sozinho, mas buscava a ajuda de outros. Quando muitos veem que a religião não pode ser verdadeiramente professada sem que disso venha perigo, porque muitos se opõem a ela, fogem dela, e vão para o lado maior, que é o dos ímpios.
Se quisermos evitar isso, unamo-nos aos filhos de Deus, e eles nos ajudarão com conselho e orientação; pois um pode ser forte quando estamos fracos, outro pode ter conselho quando não saberemos o que fazer; assim, por meio deles seremos guardados de muitos males.
Assim Paulo (2 Timóteo 1:16), depois de se queixar do mal que muitos lhe haviam feito, logo em seguida dá graças pela família de Onesíforo, que o reanimou mais do que todos os seus inimigos puderam desanimá-lo; a ponto de ousar opor essa única casa a toda a súcia dos ímpios.
— Richard Greenham.
Voltem-se para mim os que te temem, etc. É preciso ir a Deus e suplicar-lhe que escolha por nós a nossa companhia. Note-se o que Davi disse e fez: em Salmos 119:63 ele diz: "Sou companheiro de todos os que temem ao Senhor"; contudo, neste verso, ele vai a Deus e ora, dizendo: "Voltem-se para mim, ó Senhor, os que te temem, e os que conheceram os teus testemunhos."
Como se dissesse: "Na verdade, Senhor, sou companheiro de todos os que te temem; mas não está em meu poder inclinar o coração deles para mim; o coração de todos os homens está em tuas mãos"; por isso agora "voltem-se para mim os que te temem." Vai tu também a Deus, e dize da mesma forma: Senhor, escolhe tu a minha companhia; ah, inclina e curva o coração deles para serem meus companheiros.
— William Bridge.
"Os que temem." "Os que conheceram." O temor e o conhecimento formam o homem piedoso. Conhecimento sem temor gera presunção; e temor sem conhecimento gera superstição; e o zelo cego, como cavalo cego, pode ter muito ânimo, mas está sempre tropeçando. O conhecimento deve dirigir o temor, e o temor deve temperar o conhecimento; então é uma feliz mistura e composição.
— Thomas Manton.
Um grande meio de restaurar o bom entendimento entre o povo de Deus é a oração. Davi vai a Deus com isso: "Senhor, faze com que se voltem para mim." O Senhor governa os corações e os interesses; ambos estão em suas mãos, e ele usa o afastamento ou a reconciliação deles, seja para juízo, seja para misericórdia.
Deus, quando lhe apraz, pode desviar de nós o conforto de amigos piedosos; e, quando lhe apraz, pode trazê-los de volta a nós. Os pés dos filhos de Deus são dirigidos pelo próprio Deus; se vêm a nós, é bênção de Deus; se não, é para correção. Ele fez com que Jacó e Labão se encontrassem em paz (Gênesis 31), e, no capítulo seguinte, Jacó e Esaú.
— Thomas Manton.
Versículo 80Salmo 119:80
Seja o meu coração íntegro. O que é um coração íntegro? Indica realidade e solidez na graça. A Septuaginta traz: "Seja o meu coração sem mácula nem defeito." Implica a realidade da graça, em oposição à mera forma de piedade, ou às belas aparências dos hipócritas, e aos movimentos súbitos e passageiros dos que são temporários na fé.
Se quiserdes que eu exponha o que é este coração íntegro, exigem-se estas quatro coisas:
Um entendimento iluminado; isto é, a parte diretiva da alma; e é íntegro quando se mantém livre do fermento e do contágio do erro: "O homem de entendimento anda retamente" (Provérbios 15:21). Uma mente íntegra é grande ajuda para um coração íntegro.
Exige-se uma consciência desperta, que nos avisa do dever, e se levanta em repúdio ao pecado em toda ocasião: "Quando andares, ela te guiará; quando dormires, ela te guardará; e quando acordares, falará contigo" (Provérbios 6:22): ter um monitor constante no peito, que nos lembre de Deus, quando nossos rins nos pregam de noite (Salmos 16:7): há um espião secreto em nosso peito que observa tudo o que fazemos, pensamos e falamos; um capelão doméstico, que está sempre nos pregando. Seu coração é sua Bíblia.
Exige-se uma vontade retamente disposta, ou um propósito firme de andar com Deus em toda condição, e de fazer o que é bom e aceitável a seus olhos: "Exortava a todos que, com propósito de coração, permanecessem fiéis ao Senhor" (Atos 11:23). Muitos têm inclinações leves, ou resoluções vacilantes; mas seu coração não está fixa e habitualmente voltado para agradar a Deus; nisso, principalmente, consiste este coração íntegro: que ele se apegue a Deus, inseparavelmente, em todas as coisas.
Exige-se que os afetos sejam purificados e vivificados: estes são os movimentos vigorosos da vontade, e por isso devem ser cuidadosamente observados; devem ser purificados daquela carnalidade e sensualidade que a eles se apega. Isto se chama, na Escritura, a circuncisão do coração (Deuteronômio 30:6).
— Condensado de Manton.
Seja o meu coração íntegro. "Mente sã em corpo são" foi a oração de um pagão, e seu desejo estava à altura de seu conhecimento; mas um coração íntegro nos estatutos de Deus, íntegro até o âmago, sem mancha, nem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, e, como a filha do rei, "toda gloriosa por dentro" — é isto o que o salmista roga, é isto que todo filho de Deus almeja, e também roga: "assim como ele é puro."
— Barton Bouchier.
De coração verdadeiro, de coração inteiro, fiéis e leais,
Rei de nossas vidas, por tua graça o seremos!
Sob teu estandarte, exaltado e real,
Fortes em tua força, lutaremos por ti!
De coração verdadeiro, de coração inteiro! A mais plena lealdade
Rendendo, doravante, a nosso glorioso Rei;
Valente esforço e amorosa obediência
Livre e alegremente agora queremos trazer.
De coração verdadeiro, Salvador, tu conheces nossa história;
Fracos são os corações que depomos a teus pés,
Pecaminosos e traiçoeiros! mas, para tua glória,
Cura-os, e purifica-os do pecado e do engano.
De coração inteiro! Salvador, amado e glorioso,
Toma teu grande poder, e reina tu só,
Vitorioso sobre nossa vontade e afetos,
Livremente entregues, e inteiramente teus.
De coração dividido! de coração falso! Atentemos ao aviso!
Só o inteiro pode ser perfeitamente verdadeiro;
Tragamos a oferta inteira, desprezando todo pensamento tímido,
De coração verdadeiro somente se também de coração inteiro.
De coração dividido! Salvador, reteremos algo,
Dando-te parte, a quem nos deu tudo?
Bênçãos transbordantes, e promessas de ouro
Empenhando, sem nunca reserva nem retratação.
De coração dividido! Mestre, haverá algum que te conhece
Que te negue a vida, a ti que entregaste a tua própria?
Não; queremos oferecer os corações que te devemos —
Viver somente para o teu amor e a tua glória.
Irmãs, queridas irmãs, o chamado ressoa,
Não ecoareis o refrão de prata,
Poderoso e doce, e transbordante de alegria —
"De coração verdadeiro, de coração inteiro!" soando outra vez?
Jesus está conosco, seu descanso está diante de nós,
Brilhante, seu estandarte tremula no alto.
Irmãos, queridos irmãos, em coro reunido,
Fazei ressoar o lema de coragem e amor!
Fazei ressoar o lema, e nunca o silencieis,
Canção de nossos espíritos, alegre e livre!
"De coração verdadeiro, de coração inteiro, agora e para sempre,
Rei de nossas vidas, por tua graça o seremos!"
— Frances Ridley Havergal (1836-1879), em Loyal Responses.
Seja o meu coração íntegro, etc. Eis uma diferença clara entre um coração íntegro e um coração falso: no receber a Cristo, o coração íntegro o recebe como um favorito recebe um príncipe, entrega-lhe tudo, e deixa-o comandar tudo. Um mero estalajadeiro acolhe quem quer que lhe apareça; aceita o dinheiro de qualquer um, e dá boas-vindas a qualquer um; ainda que seja o pior dos homens que chegue, não se importa, pois ama o lucro acima de tudo. Não assim o bom coração; ele acolhe somente a Cristo, e a ele entrega tudo. Tudo o que agrada a Cristo, ele o fará, e tudo o que vem de Cristo, ele o acolherá.
— Thomas Hooker (1586-1647), em The Soules Implantation.
"Seja íntegro." Em hebraico: "seja perfeito"; como a palavra da mesma raiz é traduzida em Jó 1:1. O Dr. R. Young dá como sentido da palavra, tal como usada pelo salmista, "inteiro, completo, sincero."
"Íntegro nos teus estatutos", etc. Embora um credo ortodoxo não constitua a verdadeira religião, é, contudo, sua base, e é grande bênção possuí-lo.
— Nicolson, citado por W. S. Plumer.
Se quiserdes ser fiéis a Cristo, sede sinceros em vossa profissão dele; fazei da oração e do desejo de Davi os vossos: Seja o meu coração íntegro nos teus estatutos, para que eu não seja envergonhado. A religião que começa em hipocrisia certamente terminará em apostasia, e isso sempre traz consigo opróbrio e ignomínia.
— William Spurstowe (1666).
"Envergonhado." Podemos nos envergonhar diante de Deus ou dos homens, de nós mesmos ou de outros.
- Diante de Deus: seja em nossas súplicas a ele no trono da graça, seja quando formos chamados a comparecer, no último dia, diante do tribunal de sua justiça.
(a) Se entendermos isso de nossa aproximação dele, não podemos vir à sua presença com confiança se não tivermos coração íntegro. "Se o nosso coração não nos condena, temos confiança para com Deus" (1 João 3:21). Perdemos aquela santa familiaridade e alegria, ao abrirmos o coração a nosso Pai celestial, quando nosso coração não é íntegro.
(b) Quando formos chamados a comparecer diante do tribunal de sua justiça. Muitos, agora, com audaz impudência, se intrometem na adoração de Deus, porque não o veem, e não têm o devido senso de sua majestade; mas virá o tempo em que os pecadores mais impudentes e afrontosos ficarão atônitos, justamente quando os segredos de todos os corações forem revelados e manifestos, e as coisas ocultas trazidas à luz (1 Coríntios 4:5); e cada um receberá de Deus seu julgamento, conforme o que tiver feito, seja bem, seja mal.
- Diante dos homens, o homem também pode se envergonhar; assim, diante de si mesmo e diante de outros.
(1) De nós mesmos. Era um dito de Pitágoras: "Reverencia a ti mesmo; não te envergonhes de ti mesmo." Deus tem em nós um espião e representante, que registra nossa conformidade e desconformidade com sua vontade, e, depois de cometido o pecado, açoita a alma com o senso de sua própria culpa e loucura, assim como o corpo é açoitado com golpes: "Que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais?" (Romanos 6:21).
(2) Diante de outros. E assim nossa vergonha pode ser ocasionada por nossos escândalos, ou por nossos castigos; é difícil dizer qual dos dois se pretende aqui.
— Condensado de Manton.
Os oito versos inteiros, 81-89. A décima primeira letra, Caph, significa a mão em concha. Os expositores, porém, atendo-se apenas ao sentido de "curvado", que é só metade de seu significado, explicam a seção como indicando o ato de curvar-se em penitência, ou como assinalando que os pais do Antigo Testamento eram como veteranos soldados, encurvados pelos anos e pela labuta, e ainda mais dobrados pelo pesado fardo da lei, removível somente por aquela vinda de Cristo que eles rogavam.
Outros estendem a noção aos santos da igreja, sobrecarregados pelas tristezas e cuidados desta vida, e por isso desejosos de partir e estar com Cristo. O verdadeiro sentido deve ser buscado na interpretação plena da palavra; pois a mão se faz côncava tanto para reter algo que nela já se encontra, quanto para receber algo que outro está prestes a nela colocar.
Assim, a mão pode ser a de Deus, como doador da bondade, ou a do homem, como receptor dela; e todo o alcance da seção, como oração por socorro rápido, é que o homem estende a mão como um mendigo, suplicando a misericórdia de Deus.
— Jerônimo, Ambrósio e outros, em Neale e Littledale.