Tesouros de Davi

Notas explicativas e citações: Salmo 119:89-96 (Lâmede)

Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 119:89-96, reunidas por Charles Spurgeon.

Leia o Salmo 119 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Versículo 89Salmo 119:89

Para sempre, ó Senhor, a tua palavra está firmada nos céus. Estas palavras costumam ser lidas como uma única proposição; mas o acento athnach mostra que há dois ramos: um afirmando a eternidade de Deus; o outro, a constância e a permanência de sua palavra. Assim: 1. "Para sempre és tu, ó Senhor." 2. "A tua palavra está firmada nos céus." Assim o lê o siríaco; e Geierus, e depois dele outros, provam e aprovam esta leitura.

E assim este verso e o seguinte se correspondem melhor um ao outro, se observarmos o começo e o fim: como tu és "para sempre, ó Senhor", e "a tua fidelidade é para todas as gerações" — que são exatamente paralelos. E assim também as últimas cláusulas concordarão: "A tua palavra está firmada nos céus", e "estabeleceste a terra, e ela permanece."

Isso implica que, assim como Deus é eterno, também o é sua palavra, e que ela tem representação própria tanto no céu quanto na terra: no céu, no movimento constante dos corpos celestes; na terra, na sua consistência e permanência; que, assim como sua palavra permanece firme nos céus, assim também sua fidelidade permanece firme na terra, onde as aflições dos piedosos parecem contradizê-la.

— Thomas Manton.

Para sempre, ó Senhor, a tua palavra está firmada nos céus. Quando Jó considera seu corpo reduzido a pó e a vermes (Jó 14:19), ainda assim, pela fé, diz: "O meu Redentor vive" (Jó 19:25), etc. Mesmo quando a paciência faltou a Jó, a fé não faltou.

Ainda que Deus mate todas as outras graças e consolos, e também minha alma, diz ele, não matará minha fé. Se separar minha alma do meu corpo, ainda assim não separará a fé da minha alma. E por isso o justo vive pela fé, mais do que pelas outras graças, porque, quando tudo se vai, a fé permanece, e a fé permanece porque a promessa permanece: "Para sempre, ó Senhor, a tua palavra está firmada nos céus." E este é o sentido próprio e principal desta passagem.

— Matthew Lawrence.

Para sempre, ó Senhor, a tua palavra está firmada nos céus. Se olharmos para a palavra de promessa de Deus como ela aparece em nossos corações inconstantes, sonhamos que está tão pronta a vacilar quanto nossos corações; assim como a sombra do sol e da lua na água parece tremer tanto quanto treme a própria água sobre a qual brilham.

Contudo, apesar de todo este aparente tremor aqui embaixo, o sol e a lua seguem seu curso firme nos céus. Assim o salmista nos diz que, por mais que nossos corações vacilem diante de uma promessa por incredulidade — e, mais ainda, nossa incredulidade nos faz crer que a promessa muitas vezes se abala —, ainda assim a palavra de Deus está firmada, se não em nossos corações, ao menos "nos céus"; e ali, "para sempre", tão firmada quanto o próprio céu; e mais ainda, pois "os céus e a terra passarão", mas "nem um jota ou um til da lei (e, portanto, do evangelho) falhará" (Lucas 16:17).

— Anthony Tuckney, 1599-1670.

"Firmada." J. M. Good traduz o verso assim: "Para sempre, ó Jeová, a tua palavra deu formação aos céus", e observa que a palavra hebraica é termo militar, e se aplica a alinhar e formar as divisões de um exército em seus postos próprios, ao entrar em campanha.

Supõe-se que os exércitos do céu estejam aqui alinhados ou formados com igual ordem exata, e mantenham para sempre os deveres relativos a eles impostos: enquanto a terra, como os céus, tem uma marcha tão estabelecida quanto a que lhe é prescrita, e igualmente a cumpre; pois todos são servos do grande Criador; e, por isso, ao mudarem, produzem a bela regularidade das estações, o rico retorno das colheitas, e diariamente declaram a glória do Senhor.

"Nos céus." Sempre que olhardes para o céu, lembrai-vos de que ali tendes um Deus, que fixou sua residência e mostrou sua glória, e o fez sede tanto de sua misericórdia quanto de sua justiça. Tendes ali também um Salvador que, depois de morrer por nossos pecados, se assentou à direita da Majestade, para ver suas promessas cumpridas, e por sua palavra subjugar o mundo inteiro.

Há anjos que "cumprem o seu mandamento, atentos à voz da sua palavra" (Salmos 103:20). Há santos glorificados, que veem a Deus face a face, e habitam com ele para sempre, e ali chegaram pela mesma aliança que nos é proposta, como carta de nossa paz e esperança.

Na região exterior do céu, vemos o sol e a lua, e todos os corpos celestes, moverem-se naquele curso e ordem fixos em que Deus os colocou; e mostrará Deus sua constância no curso da natureza, e será volúvel e mutável na aliança da graça, na qual dispôs a ordem e o método de suas misericórdias?

— Thomas Manton.

Versículos 89–91Salmo 119:89-91

Nestes versos se afirma haver uma analogia entre a palavra de Deus e as obras de Deus. Diz-se de sua "palavra" que está "firmada nos céus", e que mantém sua fidelidade de geração em geração. Diz-se de suas "obras", e mais especialmente das que estão imediatamente ao nosso redor, até mesmo da terra que habitamos, que, como foi estabelecida no princípio, assim permanece depois.

E então, como que para completar a assimilação entre elas, diz-se de ambas, em Salmos 119:91: "Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças, pois todas são tuas servas"; identificando, assim, a certeza daquela palavra que saiu de seus lábios com a constância infalível daquela Natureza que foi formada e é sustentada por suas mãos.

A constância da Natureza é ensinada pela experiência universal, e mesmo impressiona o olhar popular como a mais característica das feições nela impressas. Pode ser necessário o auxílio da filosofia para aprender quão invariável é a Natureza em todos os seus processos — como até as aparentes anomalias podem ser rastreadas até uma lei inflexível — como o que a princípio parece ser o capricho de sua veleidade é, de fato, a evolução de um mecanismo que jamais muda.

E que, quanto mais minuciosamente é examinada e posta à prova pelas indagações dos curiosos, mais certamente descobrirão que ela caminha por uma regra que não conhece diminuição, e persevera com passo obediente naquele curso uniforme do qual o olhar do mais rigoroso escrutínio jamais detectou um fio sequer de desvio.

Já não duvidam os homens de ciência de que toda aparência remanescente de irregularidade no universo se deve, não à volubilidade da Natureza, mas à ignorância do homem — que seus movimentos mais ocultos se conduzem com uniformidade tão rigorosa quanto o Destino — que até as agitações inconstantes do tempo têm sua lei e seu princípio.

Que a intensidade de cada brisa, o número de gotas em cada chuva, a formação de cada nuvem, e todas as alternâncias que ocorrem entre tempestade e sol, e a interminável mudança de temperatura, e aquelas variações trêmulas do ar que nossos instrumentos nos permitiram descobrir, mas não nos permitiram explicar — que, ainda assim, se sucedem por um método de sucessão que, embora muito mais intrincado, é tão absoluto em si mesmo quanto a ordem das estações, ou os cursos matemáticos da astronomia.

Esta é a impressão de toda mente filosófica a respeito da Natureza, e se fortalece a cada novo acréscimo feito à ciência... Mas há regularidade suficientemente patente e palpável na Natureza para dar também à mente popular a mesma impressão de sua constância. Há uma experiência ampla e geral que ensina a mesma lição, e que depositou em cada peito uma espécie de confiança segura e firme na uniformidade de seus processos.

A própria criança o sabe, e age conforme isso. Ela reconhece um caráter e uma propriedade duradouros nos elementos ao seu redor, e já aprendeu tanto sobre o fogo, a água, o alimento que come, o solo firme que pisa, e até a gravidade pela qual deve regular suas posturas e movimentos, a ponto de provar que, criança embora seja, está plenamente iniciada na doutrina de que a Natureza tem suas leis e suas ordenanças, e nelas persevera.

E as provas disso se multiplicam sempre ao longo da jornada da observação humana; a tal ponto que, ao chegarmos à idade adulta, lemos sobre a constância da Natureza em todos os departamentos do mundo visível. Ela nos encontra onde quer que voltemos os olhos...

Deus estruturou de tal modo a maquinaria de minhas percepções que sou levado irresistivelmente a esperar que, em toda parte, os acontecimentos se sucedam exatamente na mesma sequência em que sempre estive acostumado a observá-los; e, quando Deus assim sustenta a uniformidade da Natureza, de modo que em cada caso ela seja rigorosamente a mesma, ele está apenas manifestando a fidelidade de seu caráter.

Se fosse de outro modo, estaria zombando da expectativa que ele mesmo inspirou. Pode-se dizer que Deus prometeu a todo ser humano que a Natureza seria constante — se não pelo sussurro de uma voz interior a cada coração, ao menos pela força de uma inclinação incontrolável que imprimiu em cada constituição.

De modo que, quando vemos a Natureza manter sua constância, vemos o Deus da Natureza manter sua fidelidade; e o sistema das coisas visíveis, com suas leis gerais e suas sucessões invariáveis, em vez de um materialismo opaco que oculte dos olhos dos mortais o rosto da Divindade, torna-se o espelho que reflete, sobre a verdade que é imutável, a ordenação que nunca falha...

E assim, em nosso texto, se apresentam juntas, como se houvesse um laço de semelhança entre elas, que o mesmo Deus que é fixo quanto às ordenanças da Natureza é fiel quanto às declarações de sua palavra; e, assim como toda a experiência prova quão firmemente se pode confiar nele quanto à primeira, há também um argumento tão forte quanto a experiência para provar quão firmemente se pode confiar nele quanto à segunda.

Por sua obra em nós, ele despertou a expectativa de uma constância na Natureza, que jamais decepciona. Por sua palavra a nós, se despertasse a expectativa de uma certeza em suas declarações, jamais a decepcionaria. É porque a Natureza é tão fixa que compreendemos que o Deus da Natureza é tão fiel.

Aquele que jamais falseia a esperança que surgiu em cada peito, a partir do instinto que ele mesmo comunicou, jamais falseará a esperança que surgir em qualquer peito a partir da expressa manifestação de sua voz. Fosse ele um Deus em cuja mão os processos da natureza estivessem sempre mudando, poderíamos concebê-lo como um Deus de cuja boca as proclamações da graça tivessem o mesmo caráter de variação e vacilação.

Mas é justamente por causa de nossa confiança na primeira que sentimos tanto repouso em nossa dependência da segunda; e o mesmo Deus que é tão infalível nas ordenanças de sua criação, sustentamos que é igualmente infalível nas ordenanças de sua palavra.

— Thomas Chalmers.

Versículo 90Salmo 119:90

A tua fidelidade é para todas as gerações. Assim como colheu a certeza da palavra de Deus a partir da perpetuidade dos céus, agora ele a confirma considerando o fundamento da terra. Já que o fundamento da terra, feito pela palavra de Deus, permanece seguro, não pensaremos que o fundamento de nossa salvação, posto em Jesus Cristo, é muito mais seguro?

Embora as criaturas não possam nos ensinar o caminho de nossa salvação (pois isso devemos aprender pela palavra), elas confirmam o que a palavra diz: "Assim diz o Senhor, que dá o sol para luz do dia, e as ordenanças da lua e das estrelas para luz da noite, que fende o mar quando bramem as suas ondas; o Senhor dos Exércitos é o seu nome: se estas ordenanças se apartarem de diante de mim, diz o Senhor, também a semente de Israel deixará de ser nação diante de mim para sempre" (Jeremias 31:35-36).

Assim como ali Jeremias tira a estabilidade da igreja da estabilidade das criaturas, também aqui Davi confirma a certeza de nossa salvação pelo curso mais certo e imutável da criação; e ambos são ampliados por Jesus Cristo: "Os céus e a terra passarão, mas nem um jota da palavra de Deus cairá por terra." Sejamos, pois, fortalecidos na fé, e demos glória a Deus.

— William Cowper.

Estabeleceste a terra, e ela permanece. Cada vez que pisamos o chão, podemos lembrar a estabilidade das promessas de Deus, o que também é confirmação de fé. Assim:

  1. A estabilidade da terra é efeito da palavra de Deus; este é o verdadeiro pilar sobre o qual a terra se assenta; pois ele sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder: "Porque ele falou, e foi feito; ordenou, e ficou firme" (Salmos 33:9). Ora, sua palavra de poder nos ajuda a depender de sua palavra de promessa.

  2. Nada aparece sobre o que o globo da terra devesse se apoiar e descansar: "Estende o norte sobre o vazio, e pendura a terra sobre o nada" (Jó 26:7). Ora, que este corpo tão vasto e pesado se apoie no ar fluido como sobre um fundamento firme é motivo de espanto; a pergunta é feita no livro de Jó: "Sobre que estão fundados os seus alicerces? Ou quem lhe assentou a pedra de esquina?" (Jó 38:6). Contudo, firme está, ainda que pendure como bola no ar...

Ora, já que sua palavra sustenta tal peso, e todo o peso da igreja, e o próprio fardo nosso se apoia na promessa de Deus, ele pode, pelo poder de sua palavra, sustentar tudo sem meios visíveis. Por isso, seu povo pode confiar em sua providência; ele é capaz de sustentá-los em qualquer aflição, quando nenhum caminho de ajuda aparece.

  1. A firmeza e a estabilidade se oferecem a nossos pensamentos. A terra permanece no mesmo lugar e condição em que Deus a deixou, enquanto durar o presente curso e ordem da natureza (Salmos 104:5). A verdade de Deus é tão imóvel quanto a terra (Salmos 117:2). Certamente, se o fundamento da terra permanece seguro, o fundamento de nossa salvação, posto por Jesus Cristo, é muito mais seguro.

  2. A estabilidade permanece em meio às mudanças (Eclesiastes 1:4). Todas as coisas no mundo estão sujeitas a muitas revoluções, mas a verdade de Deus é uma só, e a mesma.

  3. Ao sustentar a estrutura do mundo, veem-se todos aqueles atributos que são firme sustentáculo para o coração do crente, como a sabedoria, o poder e a bondade. A aliança da graça é tão segura quanto a aliança feita depois do dilúvio. Não podemos olhar para esta terra sem ver nela uma demonstração desses mesmos atributos, que confirmam nossa fé, ao esperarmos em Deus até que suas promessas se cumpram em nós.

— Condensado de T. Manton.

"Ela permanece." A criação é como a mãe, e a providência a ama-de-leite que preserva todas as obras de Deus. Deus não é como o homem; pois o homem, quando fez uma obra, não pode mantê-la: constrói um navio, e não pode salvá-lo do naufrágio; edifica uma casa, mas não pode livrá-la da decadência.

Diferente é com Deus; vemos diariamente seu poder conservador, sustentando suas criaturas; o que deve nos confirmar que ele não nos abandonará, nem permitirá que pereçamos (já que somos obra de suas mãos), se assim dependermos dele, e lhe dermos glória como nosso Criador, Conservador e Redentor.

— William Cowper.

Versículo 91Salmo 119:91

Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças, etc. Qual das obras de Deus não é permeada por uma bela ordem? Pense na sucessão do dia e da noite. Pense na revolução das estações. Pense nas estrelas, ao caminharem em seus cursos majestosos — uma grande lei de harmonia "atando a doce influência das Plêiades... e guiando Arcturo com seus filhos" (Jó 38:31-32).

Olhe para cima, em meio à magnificência do poder, para aquela abóbada apinhada — mundos empilhados sobre mundos — e veja, ainda assim, a calma grandeza daquela marcha majestosa; nem uma nota discordante ali para estragar a harmonia, ainda que girem numa velocidade inconcebível em suas órbitas intricadas e desviantes!

Estas sentinelas celestiais mantêm todas suas torres de vigia designadas. Estes levitas no firmamento superior acendem seus fogos de altar "na hora do incenso da tarde", e os apagam de novo, quando o sol, designado para reger o dia, sai de sua câmara. "Todos estes esperam por ti" (Salmos 104:27). "Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças, pois todas são tuas servas."

— J. R. Macduff, em Sunsets on the Hebrew Mountains, 1862.

Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças. O homem pode destruir uma planta, mas é impotente para forçá-la à desobediência às leis que lhe deu o Criador comum. "Se", diz um autor, "o homem quiser empregá-la para seu uso, deve atentar cuidadosamente para suas necessidades e seus modos, e curvar sua própria vontade orgulhosa até à mais humilde relva a seus pés. O homem pode obstruir à força o caminho de um broto em crescimento, mas ele se desvia calmamente, e segue paciente e irresistivelmente seu caminho designado."

Faça o que fizer, a grama não crescerá nos trópicos, nem a palmeira dará fruto em clima frio. O arroz recusa-se a prosperar fora dos pântanos alagados, e o algodão a formar seu velo de fibras níveas onde a chuva possa alcançá-lo.

Algumas das mais belas flores do mundo, e, mais estranho ainda, algumas das plantas mais suculentas que conhecemos, adornam as areias áridas e desoladas do Cabo da Boa Esperança, e não florescerão em outro lugar. Se você torcer o galho de uma árvore de modo a virar para o céu a face inferior de suas folhas, em pouco tempo todas essas folhas se voltarão para baixo, e assumirão sua posição designada.

Esse processo se dará mais cedo ou mais tarde, conforme o calor do sol e a flexibilidade das folhas, mas certamente se dará. Você não pode induzir a árvore triste da Índia a florescer de dia, nem fazê-la cessar, durante o ano todo, de carregar o ar noturno com o rico perfume de suas flores semelhantes a laranjas.

O filósofo não precisa ir longe para achar o segredo disso. O salmista o declara quando, falando da natureza universal, traça a verdadeira causa de sua ordem imutável. Deus, diz ele, "os estabeleceu para todo o sempre; fez um decreto que não passará"; ou, como está na versão do livro de orações, "deu-lhes uma lei que não será quebrada" (Salmos 148:6). Bem se diz em outro salmo, Salmos 119:91: "Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças, pois todas são tuas servas." O homem obstinado pode ousar desafiar seu Criador, e desprezar seus sábios e misericordiosos mandamentos; mas não assim toda a demais natureza.

Bem é para nós que suas outras obras não erraram segundo o padrão de nossa rebelião; que a sementeira e a colheita, o frio e o calor, o verão e o inverno, o dia e a noite, com toda a provisão que os acompanha, não cessaram! Aos preceitos impostos à vegetação quando foi chamada à existência no terceiro dia da criação, ela ainda presta submissão implícita, e a mais tenra planta morrerá antes de transgredir.

Que contraste terrível a isso é a conduta do homem, a mais nobre obra de Deus, dotado de razão e de alma imortal, e ainda assim, com tanta frequência, arruinando sua saúde, desperdiçando e destruindo seu poder mental, contaminando seu espírito imortal, e, numa palavra, se empenhando loucamente em frustrar todo propósito para o qual foi formado.

— James Neil, em Rays from the Realms of Nature, 1879.

Todas as criaturas observam pontualmente a lei que ele implantou em sua natureza, e, cada uma a seu modo, o reconhecem como seu soberano; movem-se conforme as inclinações que ele nelas imprimiu. O mar se contém em seus limites, e o sol não sai de sua esfera; as estrelas marcham em sua ordem: "Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças, pois todas são tuas servas."

Se ele ordena coisas contrárias à natureza primitiva delas, elas lhe obedecem. Quando ele fala a palavra, o fogo devorador se torna manso, e não toca um fio de cabelo dos filhos que quer preservar; os leões famintos suspendem sua natureza voraz quando lhes é posto diante um bocado tão bom quanto Daniel; e o sol, que estivera em movimento perpétuo desde sua criação, obedece ao mandado de repouso que Deus enviou no tempo de Josué, e se detém.

— Stephen Charnock.

"Todas são tuas servas." Devemos considerar quão grande é aquela perversidade pela qual só o homem, formado à imagem de Deus, juntamente com os anjos reprovados, se afastou da obediência a Deus; de modo que o que se diz de todas as outras criaturas não se pode dizer dele, a menos que seja renovado por graça singular.

— Wolfgang Musculus.

"Todas são tuas servas." Já que todas as criaturas devem servir a Deus, não devemos usá-las para outro propósito, nem voltá-las ao serviço do pecado. A criação, pelo pecado de nossos primeiros pais, foi sujeita à vaidade, e geme, e anseia por ser libertada (Romanos 8); os cristãos, portanto, que usam a criação e o mundo, devem usá-los como quem não abusa (1 Coríntios 7); antes, devem desfrutá-los com louvor à majestade e à bondade divinas (1 Timóteo 4).

— Solomon Gesner.

"Todas são tuas servas."

Não digas, minha alma: "De onde

Pode Deus aliviar meu cuidado?"

Lembra que a Onipotência

Tem servos em toda parte.

— Thomas T. Lynch, 1855.

Versículo 92Salmo 119:92

Se a tua lei não fosse minha delícia, etc. Este texto expõe o grande benefício e consolo que Davi encontrou na lei de Deus em tempo de sua aflição. Isso o guardou de perecer: "Se a tua lei não fosse minha delícia, eu teria perecido na minha aflição"...

Davi diz isto (diz Musculus) sobre a condição angustiante em que estava quando perseguido por Saul, forçado a fugir para os filisteus, e às vezes a se esconder nas rochas e cavernas da terra. É muito provável (diz ele) que trouxesse consigo o livro da lei de Deus, com cuja leitura mitigava e aliviava suas tristezas, e se mantinha puro de se associar com os pagãos em suas superstições.

Os escoliastas gregos dizem que Davi proferiu estas palavras quando expulso por Saul, e obrigado a viver entre os filisteus, etc. Pois teria sido atraído a se associar com eles em suas impiedades, se não trouxesse consigo a meditação da palavra de Deus.

A palavra de Deus, quando nela nos deleitamos, é o antídoto do santo aflito contra a ruína e a destruição. A palavra de Deus é o bálsamo do santo enfermo, o cordial do santo moribundo, remédio precioso para guardar o povo de Deus de perecer em tempo de aflição. Isso sustentou Jacó, para que não sucumbisse, quando seu irmão Esaú vinha marchando furiosamente para destruí-lo (Gênesis 32:12).

Ele suplicou: "E tu disseste: certamente te farei bem", etc. Assim a promessa de Deus o sustentou. Isso também sustentou Josué, e o capacitou a lutar corajosamente as batalhas do Senhor, porque Deus dissera: "nunca o deixaria, nem o desampararia" (Josué 1:5).

Melâncton diz que o Landgrave de Hesse lhe contou, em Dresden, que lhe teria sido impossível suportar as múltiplas misérias de tão longa prisão, nisi habuisset consolationem verbo divino in suo corde [se não tivesse tido o consolo da palavra divina em seu coração].

— Edmund Calamy (1600-1666), em The Godly Man's Ark.

Certamente a leitura da maior parte das Escrituras há de ser coisa muito reconfortante; e penso que um coração piedoso (disposto como deve ser) dificilmente sabe como ficar triste enquanto o faz. Pois que consolo é para um homem ler as cartas que um pai terreno lhe enviou, ainda que escritas há muito tempo?

Com que cuidado guardamos tais cartas em nossos cofres? Com quanto deleite, de vez em quando, as retiramos e as contemplamos? E com quanta tristeza as perdemos? É tão grande meu amor a meu pai terreno, e será menor meu amor a meu Pai celestial?

Pode meu coração deixar de se alegrar, e meus ossos deixar de florescer como a erva, sempre que contemplo o último testamento e vontade de meu Redentor, pelo qual sei que ele me amou tanto, e assim continuamente age em meu favor, e que estarei para sempre com ele?

Como fala Davi, sem cessar, de seu deleite na lei de Deus, em seus estatutos e testemunhos! Isso lhe era em lugar de todos os outros deleites; ficava a seu lado quando todos os demais deleites o abandonavam: "Se a tua lei não fosse a minha delícia (ou minha grandíssima delícia), eu teria perecido na minha aflição" (Salmos 119:92).

Sentem-se os príncipes e falem contra ele o quanto quiserem; ainda assim ele meditará nos estatutos de Deus (Salmos 119:23). Tenha ele quantos perseguidores e inimigos tiver; ainda assim não se desviará dos testemunhos de Deus (Salmos 119:157). Esteja ele em terra estranha, ali serão os estatutos de Deus seu cântico (Salmos 119:54).

Seja ele peregrino na terra toda a vida; contanto que não seja estranho aos mandamentos de Deus, ele não se importa (Salmos 119:19). Ainda que sobre ele caia tanto desprezo, não esquecerá os preceitos de Deus (Salmos 119:141). Ainda que sua alma esteja continuamente em risco, isso não o fará esquecer a lei de Deus.

Sim, ainda que se tornasse como odre na fumaça, não esqueceria os preceitos de Deus (Salmos 119:83). E por isso se alegrava, porque fora afligido nesse particular, o que o fez aprender os estatutos de Deus. Não se importava com outra riqueza. "Tomei os teus testemunhos como herança para sempre, pois são o júbilo do meu coração" (Salmos 119:111).

Nem se importava muito com a vida, mas somente com guardar a palavra de Deus (Salmos 119:17). O que quer que tivesse dito antes, ou pretendesse dizer depois, ainda clamava: "Ensina-me os teus estatutos", e "tenho tido saudades dos teus preceitos", etc.; ou alguma expressão semelhante. Não podia deixar de falar deles, pois estavam sempre diante dele (Salmos 119:30).

Não é de admirar, pois, que meditasse tanto neles, como diz ter feito. "Ó, quanto amo a tua lei! é a minha meditação o dia todo" (Salmos 119:97). E "os teus testemunhos são a minha meditação" (Salmos 119:99). Os mandamentos de Deus eram, para Davi, mais doces em sua boca do que o mel, ao falar e discorrer sobre eles (Salmos 119:103).

— Zachary Bogan, 1653.

As pessoas a cujo deleite a palavra de Deus de fato conduz são os filhos de Deus, e nenhum outro. Só eles estão preparados para receber o consolo da palavra.

  1. Porque só eles são espiritualmente iluminados para discernir as grandes e consoladoras coisas nela contidas, iluminados de um modo em que ninguém mais é: "Ora, o homem natural não recebe as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente" (1 Coríntios 2:14).

  2. Porque dão o mais alto valor à palavra de Deus, isso os prepara para receber consolo dela.

  3. Porque têm o coração e os caminhos ajustados à palavra de Deus, esta é outra razão do deleite que dela extraem. "Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne", e nelas se comprazem; "mas os que são segundo o Espírito, para as coisas do Espírito" (Romanos 8:5). Os consolos da palavra são espirituais; e só o coração espiritual, renovado pela graça, pode saboreá-los e apreciá-los. O deleite que o povo de Deus tem na palavra é privilégio peculiar seu; e esta palavra tem o bastante para dar deleite a todos eles.

— Daniel Wilcox, 1676-1733.

"A minha delícia." A palavra significa "delícias", no plural. Muitas foram as tristezas da vida de Davi; mas contra todas elas encontrou tantos consolos e deleites na palavra de Deus. Com tal variedade de santa sabedoria Deus redigiu sua palavra, que ela tem consolo conveniente para todo estado de vida; por isso os filhos de Deus não estimam nada tão caro quanto ela; preferem-na ao seu alimento designado.

— William Cowper.

"A tua lei... minha delícia... na minha aflição." Aconteceu de eu estar parado numa mercearia, certo dia, numa grande cidade industrial do oeste da Escócia, quando entrou uma pobre viúva, velha e frágil, para fazer algumas compras. Talvez nunca tenha havido, naquela cidade, tempo mais severo de aflição. Quase todos os teares estavam parados.

Comerciantes decentes e respeitáveis, que já tinham visto dias melhores, eram obrigados a subsistir da caridade pública. Concedia-se aos verdadeiramente pobres e merecedores certa quantia por dia (mas quase nada, no máximo). A pobre viúva recebera seu pequeno auxílio diário, e agora entrara na loja do merceeiro para gastá-lo com o melhor proveito.

Tinha apenas algumas moedinhas de cobre em suas mãos murchas. Cuidadosamente gastava seu pequeno estoque — um tostão disto, outro daquilo necessário à vida, quase esgotando tudo o que tinha. Chegou ao último tostão, e, com singular expressão de heroico contentamento e alegre resignação em seu rosto enrugado, disse: "Agora preciso comprar óleo com isto, para que eu possa ver a ler minha Bíblia durante estas longas noites escuras, pois é meu único consolo agora, quando todo outro consolo se foi."

— Alexander Wallace, em The Bible and the Working Classes, 1853.

A este verso posso chamar Perfume Contra a Peste; Bálsamo do Enfermo; Consolação do Aflito; e um bendito Triunfo, em e sobre todas as tribulações.

— Richard Greenham.

Versículo 93Salmo 119:93

Nunca me esquecerei dos teus preceitos, etc. Deve-se lutar contra o esquecimento por todos os meios possíveis, para que ele não se infiltre gradualmente, pela ingratidão, pela velhice, pela fraqueza de mente, ou por outros cuidados avassaladores. Veja Salmos 119:16; Salmos 119:61; Salmos 119:83.

— Martin Geier.

Nunca me esquecerei dos teus preceitos, etc. Este homem bom, aflito, agora está consolado; seu consolo veio de seu deleite na lei de Deus; ele pensa nela, sente sua força, e por isso, para que possa sempre receber consolos semelhantes, se compromete com uma promessa ao Senhor, de que nunca esquecerá seus preceitos; acrescentando a razão, a saber, que eles eram, para ele, espírito e vida.

"Com eles me vivificaste." Foi vivificado, como diz, por Deus, mas também pela palavra, solidamente pregada, salvificamente entendida, e particularmente aplicada à consciência. Assim, pois, o poder da morte de Cristo nos faz andar em novidade de vida. Não há aqua vitae, nem aqua celestis, semelhante a esta, pela qual temos paz interior de consciência, e obediência exterior aos mandamentos de Deus. Davi se alegrou nesta bênção; assim devemos nós: desejamos estar sempre prontos, e alegres para todos os bons deveres; só Deus, por seu Espírito, na palavra, pode dá-lo.

— Richard Greenham.

"Com eles me vivificaste." O Espírito vivificante se compraz em agir por meio da palavra; mas, embora a palavra seja o meio, o benefício vem de Deus: "Pois com eles me vivificaste." A vida vem da fonte da vida. O evangelho é emplastro soberano; mas é a mão de Deus que precisa aplicá-lo, e fazê-lo aderir; fazê-lo ser paz, consolo e vivificação para nossas almas.

Há uma dupla vivificação: quando, de mortos, somos feitos vivos; ou quando, de frios, tristes e pesados, somos feitos animados... e assim não apenas temos vida, mas a temos mais abundantemente, segundo a graciosa promessa de Cristo (João 10:10): que estejam vivos, animados, mantidos sempre em vigor.

Ora, esta segunda vivificação pode ser tomada, ou mais amplamente, pela vitalidade da graça; ou, mais estritamente, pelo consolo real. Tomada amplamente, Deus vivifica ao aumentar a vida da graça; seja internamente, prometendo a vida da graça; seja moral e externamente, prometendo a vida da glória.

Mais estritamente, sua vivificação pode ser tomada por consolo e apoio em sua aflição; e é provavelmente assim que se toma aqui: ele acabara de dizer: "Se a tua lei não fosse a minha delícia, eu teria perecido na minha aflição"; e agora: "Nunca me esquecerei dos teus preceitos, porque com eles me vivificaste." Foi grande consolo e apoio para ele; e por isso deveria estimar a palavra enquanto vivesse.

— Thomas Manton.

"Me vivificaste." Não deixe de ler a Bíblia até sentir o coração aquecido. Leia a palavra, não apenas como história, mas esforce-se por ser tocado por ela. Que ela não apenas o informe, mas o inflame. "Não é a minha palavra como fogo? diz o Senhor" (Jeremias 23:29). Não deixe a palavra até poder dizer, como aqueles discípulos: "Não ardia em nós o coração?" (Lucas 24:32).

— Thomas Watson.

Versículo 94Salmo 119:94

Teu sou eu, salva-me. Davi, homem segundo o coração de Deus, queria ser salvo, mas não à maneira dos homens deste mundo, que querem ser salvos para serem de si mesmos, e desfrutarem de si à própria vontade; mas ele, ao ser salvo, queria ser de Deus, e à sua disposição: "Teu sou eu, salva-me."

Há tríplice força neste argumento.

  1. A lei da natureza, que obriga o pai a ser bom para com o filho, o marido para com a esposa, etc.; e Deus se sujeitou mais à lei da natureza, está mais sob ela do que qualquer um destes; e cumpre esta lei da natureza mais perfeita, plena e gloriosamente do que qualquer um; não há pai como ele, não há amigo, não há marido como ele.

"Pode uma mulher esquecer-se de seu filho de peito? Contudo, eu não me esquecerei de ti" (Isaías 49:15). Uma mãe dificilmente o consegue; a natureza a ensina a ter entranhas, e lembrança misericordiosa por seu filho; muito mais assim serei eu, diz Deus.

  1. Quando podemos dizer a Deus "teu sou eu", alegamos a aliança que Deus fez conosco, na qual ele se tornou nosso pai e amigo; e é isto que se alega em Isaías 63:16: "Sem dúvida, tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conheça, e Israel não nos reconheça (porque já partiram, e por isso não têm agora conhecimento de nós); mas tu, ó Senhor, és nosso Pai, nosso Redentor; o teu nome é desde a eternidade." Veja que conclusão se tira aqui: sem dúvida és nosso Pai, e por isso te chamamos por socorro.

  2. Há este encorajamento e força que o espírito do homem recebe ao assim argumentar com Deus: que, se ele pode dizer em verdade "teu sou eu", muito mais dirá Deus à criatura: "teu és tu." Se temos tanto amor para nos oferecermos a Deus, para nos tornarmos seus; muito mais o amor de Deus o fará tornar-se nosso; pois Deus ama primeiro, e mais, e com mais certeza. Se meu coração se ergue para Deus, muito mais o coração de Deus está voltado para mim; porque ali o amor está na fonte.

Jamais falou uma esposa a seu marido, a quem sua alma amava ao mais alto grau, com mais boa vontade, dizendo "teu sou eu", do que o espírito de um homem íntegro diz a Deus: "Senhor, teu sou eu." E ele o ama com amor de gratidão. Deste-te tu a mim, diz ele, e me reterei então de ti? Fizeste tu, que és tão grande, tudo isto por mim, e resistirei a ti? O homem gracioso reconhece de bom grado ser do Senhor.

Os santos frequentemente fazem isso: Davi, mais de vinte vezes, vem com este reconhecimento neste salmo, e em Salmos 116:16: "Sou teu servo; sou teu servo." Dizê-lo uma vez não bastava; ele o repete, para mostrar a sinceridade de seu espírito, e testemunhar que seu coração estava plenamente satisfeito com isto: que não era seu, mas do Senhor.

O conhecimento de nosso interesse em Deus muito favorece nossa aproximação a Deus. Quando um homem está uma vez seguro, e pode dizer com espírito claro "teu sou eu", clamará naturalmente: "salva-me." Tal homem é homem de oração, muito dado a se dirigir a Deus, e a conversar com ele.

— Joseph Symonds, 1653.

"Teu sou eu." Este é excelente motivo para tirar do Senhor ajuda na tribulação — "teu sou eu." Teu por criação, fui feito por ti; teu por adoção, fui atribuído a ti; teu por doação, fui dado a ti; teu por casamento, fui desposado por ti; teu por redenção, fui comprado por ti; teu por compromisso, votei-me a ti.

— Richard Greenham.

"Porque busquei os teus preceitos." Veja aqui como Davi qualifica sua declaração: por seu ardente afeto à palavra de Deus, prova que era homem de Deus, e não servo de si mesmo. Não são palavras, mas afetos e ações, que devem provar que somos do Senhor. Tuus sum, quia id solum quod tuum est quaesivi [sou teu, porque só busquei o que é teu]: sou teu porque nada busquei senão o que é teu, e como poderia agradar-te. Mihi in tuis justificationibus est omne patrimonium [para mim, na observância dos teus estatutos está todo o meu patrimônio]: na observância de teus preceitos está todo o meu patrimônio.

— William Cowper.

  1. Davi reivindica relação com Deus: "teu sou eu" — devotado a ti, e reconhecido por ti, teu em aliança.

  2. Ele prova sua reivindicação: "teu sou eu, salva-me; porque busquei os teus preceitos"; isto é, indaguei cuidadosamente sobre meu dever, e diligentemente me esforcei por cumpri-lo.

  3. Ele aproveita sua reivindicação: "teu sou eu, salva-me." Salva-me do pecado, salva-me da ruína.

— Sr. Henry.

  1. Uma grande oração: "Salva-me."

  2. Uma oração magnífica: "Teu sou eu."

  3. Uma experiência graciosa: "Busquei", etc.

  4. Relação: "Teu sou eu."

  5. Preservação: "salva-me."

  6. Obrigação: "busquei", etc.

— G. R.

  1. O filho de Deus humildemente lhe assinala sua responsabilidade: "teu sou eu."

  2. Ousa alegar sua própria sinceridade: ao menos "buscou."

  3. Com estas duas mãos estendidas, profere um clamor agudo por socorro: "salva-me."

— W. B. H.

"Multum in parvo" [muito em pouco].

  1. Uma profissão.

  2. Uma oração.

  3. Um argumento.

— C. A. D.

  1. O interesse de Deus em nós.

  2. Nosso interesse em Deus.

— W. D.

As características da religião pessoal.

  1. Devoção pessoal a Deus: "teu sou eu."

  2. Obediência pessoal prestada: "busquei os teus preceitos."

  3. Expectativa pessoal acalentada: "salva-me."

— J. F.

A coragem que a obediência dá.

  1. Ela nos encoraja a uma firme segurança: "teu sou eu, porque busquei", etc.

(a) Tornamo-nos de Deus somente pela fé.

(b) Mas a segurança de sermos seus não pode existir sem obediência; a obediência prova a fé a nós mesmos; nos satisfaz quanto à graça recebida.

(c) A obediência pobre sempre atrapalha a segurança.

  1. Ela nos encoraja a orar, e na oração: "salva-me."

(a) As orações do cristão são somente da fé, e oferecidas em fé.

(b) Contudo, a desobediência o faz recuar de se aproximar de Deus em oração, e o torna fraco na súplica.

(c) A obediência é humilde, mas ousada. A cláusula do meio do texto se aplica igualmente à primeira e à terceira cláusulas.

— J. F.

Salmos 119:95*

Versículo 95Salmo 119:95

Os ímpios me esperaram para me destruir. De novo ele nota duas coisas em seus inimigos: diligência, em esperar todas as ocasiões para lhe fazer mal; e crueldade sem misericórdia, pois seu propósito era destruí-lo: nisto, ainda vemos quão inquieta e insaciável é a malícia dos ímpios contra os piedosos.

A preservação de Daniel na cova dos leões foi grande milagre; mas não é obra menos maravilhosa de Deus que os piedosos, que são o rebanho de Cristo, sejam diariamente preservados no meio dos ímpios, que não passam de lobos vorazes, e têm sede do sangue dos santos de Deus, tendo em seu coração o cruel propósito, se pudessem realizá-lo, de destruí-los inteiramente.

— William Cowper.

Mas eu considerarei os teus testemunhos. Era tentação penosa ser procurado para ser entregue à morte, mas maior misericórdia era considerar os testemunhos de Deus, mesmo então, quando sua vida era procurada. Não fosse pela consideração dos testemunhos de Deus, mil contra um, ele teria decaído.

— Richard Greenham.

Versículo 96Salmo 119:96

Tenho visto fim a toda perfeição, etc. Estas palavras são traduzidas e entendidas de várias maneiras pelos intérpretes, que, nessa variedade, muito concordam e conspiram no mesmo sentido. A Paráfrase Caldaica traduz assim: "Tenho visto fim a todas as coisas em que empreguei meu cuidado; mas o teu mandamento é muito amplo."

A versão siríaca, assim: "Tenho visto fim a todas as regiões e países" (isto é, achei que a circunferência do mundo habitável é finita e limitada), "mas o teu mandamento é de extensão vasta." Outros o explicam assim: "Tenho visto fim a toda perfeição", isto é, a todas as coisas deste mundo que os homens valorizam e estimam em tão alto grau; a toda sabedoria e conhecimento mundanos, à riqueza, à honra e à grandeza, que todas perecem e passam;

"mas a tua lei é eterna, e continua sendo a mesma"; ou, como a Escritura o expressa em outro lugar: "A palavra do Senhor permanece para sempre."

— John Tillotson, 1630-1694.

Tenho visto fim a toda perfeição. Pobre perfeição, aquela a que se vê o fim! No entanto, assim são todas as coisas neste mundo que passam por perfeições. Davi, em seu tempo, vira Golias, o mais forte, vencido; Asael, o mais veloz, alcançado; Aitofel, o mais sábio, tornado tolo; Absalão, o mais belo, desfigurado.

— Matthew Henry.

Tenho visto fim a toda perfeição, etc. As palavras do salmista nos oferecem duplo consolo e encorajamento. Podemos lê-las de duas maneiras: (1) "Tenho visto fim a toda perfeição; pois o teu mandamento é sobremaneira amplo"; e (2) "Tenho visto fim a toda perfeição, mas o teu mandamento é sobremaneira amplo."

Lidas do primeiro modo, sugerem o pensamento animador de que nossa persistente consciência de imperfeição nasce da brilhante e temível perfeição da Lei que estamos empenhados em obedecer, do ideal que pusemos diante de nós. Não é porque somos piores que os que não têm lei, ou que são lei para si mesmos, que estamos inquietos e insatisfeitos conosco; mas porque medimos a nós mesmos e a nossos semelhantes pelo elevado padrão do mandamento de Deus.

É porque esse mandamento é tão amplo que não podemos abarcá-lo; é porque é tão alto que não podemos alcançá-lo; é porque é tão perfeito que não podemos obedecê-lo perfeitamente.

Mas podemos ler o verso de outro modo, e ainda assim dele tirar consolo e encorajamento. Podemos dizer: "Tenho visto fim a toda perfeição em mim mesmo, e no mundo; mas o teu mandamento é sobremaneira amplo: aquele é perfeito, ainda que eu seja imperfeito, e em sua perfeição encontro a promessa da minha própria." Pois dará Deus uma lei para a vida humana, e essa lei permanecerá para sempre não cumprida? Impossível!

"Os dons de Deus são sem arrependimento" — irrevogáveis, nunca a serem diminuídos ou retirados. Seu propósito não há de ser anulado por nossas fraquezas e pecados.

Na Lei, ele nos mostrou o que quer que sejamos. E nunca nos tornaremos aquilo que ele quer que sejamos? Pode a Lei permanecer para sempre sem nenhuma vida que lhe corresponda e a cumpra? Não; Deus jamais retirará o belo e perfeito ideal da vida humana retratado em sua Lei, jamais retratará seu propósito de erguer a vida do homem até que toque e cumpra seu ideal.

E assim a própria Lei que é nosso desespero é também nosso consolo; pois, se ela é perfeita, devemos nos tornar perfeitos; sua perfeição é o penhor da nossa.

— De The Expositor, 1876.

Tenho visto fim a toda perfeição. O olho natural de Davi vira o fim de muitas perfeições humanas, e o olho de seu entendimento viu o fim de todas elas. Vira algumas de fato terminarem, e viu que todas devem terminar. Adão não permaneceu naquela perfeição que não tinha imperfeição alguma; como, pois, poderá algum de seus filhos permanecer no que, na melhor das hipóteses, é uma perfeição imperfeita?

— Abraham Wright.

Tenho visto fim, etc. As leis de Licurgo entre os gregos, e de Numa entre os romanos, tinham algo de bom nelas, mas não tudo; proibiam algo que era mau, mas não tudo o que era mau. Mas a religião cristã tem extensão maior, tanto em seus preceitos quanto em suas proibições: "Tenho visto fim a toda perfeição; mas o teu mandamento é sobremaneira amplo."

Um homem, com o olho do corpo, pode ver o fim de muitas perfeições mundanas, de muitas belas propriedades, grandes belezas, grandes talentos, famílias promissoras; mas um homem, com o olho da alma (ou pela fé), pode ver o fim de todas as perfeições terrenas.

Pode ver o mundo em chamas, e toda a sua pompa e orgulho, e glória, e galanteio, e coroas e cetros, e riquezas, e tesouros, transformados em cinzas. Pode ver os céus passando como um pergaminho, e os elementos se derretendo com calor ardente, e a terra, com as coisas que nela há, consumida; e todas as suas perfeições, com que os homens tanto se encantavam, dissipadas em fumaça e nada.

É fácil ver o fim de todas as perfeições terrenas, mas é difícil, sim, impossível, ver o fim dos preceitos divinos: "Mas os teus mandamentos são sobremaneira amplos", de vasta latitude, além de nossa compreensão.

São tão profundos que ninguém pode sondá-los (Salmos 36:6), tão altos que estão firmados nos céus (Salmos 119:89); tão longos que duram para sempre (2 Pedro 1); e tão amplos que ninguém pode medi-los. Não são apenas "amplos", mas "sobremaneira amplos": mais altos que o céu, mais longos que a terra, mais amplos que o mar.

"Os mandamentos de Deus alcançam as partes íntimas, os mais secretos movimentos e recônditos recessos da alma. Alcançam todos os pensamentos privados, penetram até à divisão entre a alma e o espírito, e das juntas e medulas, e discernem os pensamentos e intenções do coração" (Hebreus 4:12). "Alcançam todas as nossas ações; tanto as que parecem menores e de menor importância, quanto as que são maiores e de maior importância."

— George Swinnock.

"O teu mandamento é sobremaneira amplo." Assim como há mais misericórdia no evangelho do que somos capazes de compreender, também há mais santidade na lei do que somos capazes de compreender. Nenhum homem jamais viu as profundezas dessa justiça. Há uma santidade infinita na lei.

"Tenho visto fim a toda perfeição; mas o teu mandamento é sobremaneira amplo." Ele não fala no concreto, "vi o fim das coisas perfeitas", mas no abstrato, "fim da perfeição": cheguei ao extremo, ou ao próprio fundo de tudo (um homem pode logo percorrer todas as perfeições que há no mundo, e ver seu fim, ou ver que terminam);

"mas o teu mandamento é sobremaneira amplo", isto é, é imensamente mais amplo do que qualquer dessas perfeições; não consigo ver seu fim, e sei que jamais terá fim. Há uma vastidão de pureza e espiritualidade na lei.

— Joseph Caryl.

"O teu mandamento é sobremaneira amplo." É assim pela aplicabilidade abrangente de suas grandes e simples regras: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças, e ao teu próximo como a ti mesmo." É assim pela ampla ordem de suas ordenanças específicas. Onde há um lugar sem sinal da vontade divina?

É assim por pôr mão autoritária sobre os primeiros princípios e a origem de onde qualquer coisa pode proceder, no espírito e na ação humana; e então alcança tudo o que dali procede ou pode proceder. Afirma jurisdição sobre todo pensamento e afeto interior.

Toda linguagem é proferida sob esta mesma jurisdição. Tudo em que o mundo e cada homem estão empenhados. E até sobre o que não é feito, ela mantém sua autoridade, e pronuncia seus ditames e julgamentos. É coisa positiva com respeito ao que é negativo — omissão, inexistência.

Como o governo divino no mundo material, sobre os desertos, os ermos, as areias estéreis. E desses espaços de nada (por assim dizer) ela pode erguer formas substanciais de mal, de pecado, como evidência contra os homens.

Assim como, na ressurreição, os homens se levantarão de ermos vazios, onde não se suspeitaria que alguém estivesse escondido. Que um homem olhe para trás, para todas as suas omissões, e pense no que a lei divina pode erguer delas contra ele. Assim, a lei, em sua imensa amplitude, não é vazia em lugar nenhum; não se estende a essa vasta extensão por abismos e espaços vazios. Se um homem pudesse encontrar um só desses, ali poderia se posicionar para o pecado com impunidade, senão com inocência.

— John Foster, 1768-1848.

"O teu mandamento é sobremaneira amplo." Na literatura religiosa popular dos tempos atuais, os termos "amplo" e "livre" ocorrem com frequência. O fascínio que os cerca é intensificado pelo uso, ao mesmo tempo, de seus opostos, "estreito" e "fanático". Por hábil manipulação destes termos e seus equivalentes, a heterodoxia do dia se empenha em apagar a doutrina e o espírito da fé evangélica, e atrair a multidão cristã para dentro da influência da crescente corrente racionalista.

Ao ir ao mercado onde as mercadorias heterodoxas são exibidas com rótulos tão atraentes, o comprador desprevenido logo descobre que "a sua vinha é da vinha de Sodoma, e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas de fel, os seus cachos são amargos." Não terá chegado o tempo em que os aderentes da fé verdadeira devem se empenhar em arrancar de seus opositores o monopólio no uso destes termos, que parecem desejosos de estabelecer para si mesmos?

Aqueles que, no espírito de seu Mestre, se apegam mais de perto, e lutam mais tenazmente, por toda a fé que foi entregue aos santos, serão os de mente mais liberal e mais católica; e os que abandonam as "velhas veredas" hão de se tornar, na proporção de seus afastamentos, contraídos em seu alcance mental, e estreitos de alma.

Não é a Bíblia — a Bíblia toda — o único manual do amplo cristianismo em seu sentido mais verdadeiro e mais alto? Não é a revelação do Filho de Deus em nós o grande poder que expande a alma? "Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres." Não devemos inferir, das palavras de Cristo, "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará", que a mente que apreende a verdade é morada de liberdade mental?

Não produz a estrita conformidade da vida à lei de Deus verdadeira amplitude de caráter? Pois "o teu mandamento é sobremaneira amplo." Não é o sistema do evangelho o único e verdadeiro amplo cristianismo — "a lei perfeita da liberdade"? Não é o crente — e tanto mais quanto mais forte for sua fé — o único e verdadeiro homem de ampla igreja, "crescendo com o crescimento de Deus", "cheio de toda a plenitude de Deus"?

— James Kerr, em The Modern Scottish Pulpit, 1880.

"Sobremaneira amplo." Não obstante muitas coisas mostrarem que o caminho da vida é estreito, para o homem piedoso ele é caminho de grande amplitude; não para o pecado, mas para o dever e o deleite. Nele ele se apressa e progride.

— Robert Trail, 1642-1716.

Note que a lei, que é o vosso alvo, é sobremaneira ampla. E, no entanto, não é por isso mais fácil de acertar; porque deveis mirar em acertá-la, em cada dever seu, com um desempenho de igual amplitude, ou então não podereis acertá-la de modo algum.

— Stephen Marshall.

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