Tesouros de Davi

Salmo 119:89-96 (Lâmede)

Leia o Salmo 119 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Exposição

Versículo 89Salmo 119:89

Para sempre, ó Senhor, a tua palavra está firmada nos céus. O tom se torna mais alegre, pois a experiência deu ao doce cantor um conhecimento reconfortante da palavra do Senhor, e isso constitui tema jubiloso. Depois de ser jogado de um lado a outro num mar de tribulação, o salmista aqui salta para terra firme e se coloca sobre uma rocha.

A palavra de Jeová não é volúvel, nem incerta; é firmada, determinada, fixa, segura, imóvel. Os ensinos dos homens mudam tantas vezes que nunca há tempo para se firmarem; mas a palavra do Senhor é, desde a antiguidade, a mesma, e permanecerá inalterada para sempre. Alguns homens nunca estão mais felizes do que quando desestabilizam tudo e todos; mas a mente de Deus não está com eles.

O poder e a glória do céu confirmaram cada sentença que a boca do Senhor pronunciou, e a confirmaram de tal modo que, por toda a eternidade, há de permanecer a mesma — firmada nos céus, onde nada pode alcançá-la. Na seção anterior, a alma de Davi desfalecia, mas aqui o homem bom olha para fora de si mesmo, e percebe que o Senhor não desfalece, nem se cansa, nem há falha alguma em sua palavra.

O verso toma a forma de uma atribuição de louvor: a fidelidade e a imutabilidade de Deus são temas próprios para o santo cântico, e quando nos cansamos de contemplar a cena mutável desta vida, o pensamento da promessa imutável enche nossa boca de cânticos.

Os propósitos, as promessas e os preceitos de Deus estão todos firmados em sua própria mente, e nenhum deles será perturbado. Os acordos da aliança não serão removidos, por mais instáveis que se tornem os pensamentos dos homens; firmemos, pois, em nossa mente, que permaneceremos na fé de nosso Jeová enquanto tivermos existência.

Versículo 90Salmo 119:90

A tua fidelidade é para todas as gerações. Esta é uma glória adicional: Deus não é afetado pela passagem dos séculos; não é fiel apenas a um homem durante sua vida, mas aos filhos de seus filhos depois dele, sim, e a todas as gerações, enquanto guardarem sua aliança e se lembrarem de seus mandamentos para cumpri-los. As promessas são coisas antigas, mas não se desgastam por séculos de uso, pois a fidelidade divina dura para sempre. Aquele que socorreu seus servos há milhares de anos ainda se mostra forte em favor de todos os que confiam nele.

Estabeleceste a terra, e ela permanece. A natureza é governada por leis fixas; o globo mantém seu curso pelo comando divino, e não mostra movimentos erráticos: as estações observam sua ordem predestinada, o mar obedece à regra do fluxo e refluxo, e todas as demais coisas se ordenam em sua ordem determinada.

Há uma analogia entre a palavra de Deus e as obras de Deus, e especialmente nisto: que ambas são constantes, fixas e imutáveis. A palavra de Deus que estabeleceu o mundo é a mesma que ele incorporou nas Escrituras; pela palavra do Senhor os céus foram feitos, e especialmente por aquele que é, enfaticamente, A PALAVRA.

Quando vemos o mundo mantendo seu lugar, e todas as suas leis permanecendo as mesmas, temos nisso a garantia de que o Senhor será fiel à sua aliança, e não permitirá que a fé de seu povo seja envergonhada. Se a terra permanece, a criação espiritual permanecerá; se a palavra de Deus basta para estabelecer o mundo, certamente basta para o estabelecimento do crente individual.

Versículo 91Salmo 119:91

Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças. Porque o Senhor ordenou que o universo permanecesse, por isso ele subsiste, e todas as suas leis continuam a operar com precisão e poder. Porque o poder de Deus está sempre presente para mantê-las, por isso todas as coisas continuam. A palavra que fez existir todas as coisas as sustentou até agora, e ainda as sustenta, tanto em seu ser quanto em seu bem-estar. A ordenança de Deus é a razão da existência contínua da criação. Que forças importantes são estas ordenanças!

"Pois todas são tuas servas." Criadas por tua palavra, obedecem a essa palavra, respondendo assim ao propósito de sua existência, e realizando o desígnio de seu Criador. Tanto as coisas grandes quanto as pequenas prestam homenagem ao Senhor. Nenhum átomo escapa ao seu domínio, nenhum mundo evita seu governo.

Desejaríamos ser livres do domínio do Senhor, e nos tornar senhores de nós mesmos? Se assim fôssemos, seríamos exceções terríveis a uma lei que assegura o bem-estar do universo. Antes, enquanto lemos, a respeito de todas as demais coisas, que elas continuam e servem, continuemos nós a servir, e a servir com mais perfeição à medida que nossa vida se prolonga.

Por aquela palavra que está firmada, sejamos nós firmados; por aquela voz que estabelece a terra, sejamos nós estabelecidos; e por aquele mandamento a que todas as coisas criadas obedecem, sejamos feitos servos do Senhor Deus Todo-Poderoso.

Versículo 92Salmo 119:92

Se a tua lei não fosse minha delícia, já teria perecido na minha aflição. Aquela palavra que preservou os céus e a terra também preserva o povo de Deus em seu tempo de provação. Com essa palavra somos encantados; é uma mina de deleite para nós. Nela tomamos duplo e triplo deleite, e dela derivamos deleite multiplicado, e isso nos serve bem quando todos os outros deleites nos são tirados.

Teríamos nos sentido prontos para nos deitar e morrer de tristeza, se os consolos espirituais da palavra de Deus não nos tivessem erguido; mas, por sua influência sustentadora, fomos levados acima de todas as depressões e desesperos que naturalmente nascem de aflição severa.

Alguns de nós podem selar esta afirmação. Nossa aflição, não fosse a graça divina, teria nos esmagado até a inexistência, de modo que teríamos perecido. Em nossas horas mais escuras, nada nos guardou do desespero senão a promessa do Senhor; sim, às vezes nada se interpôs entre nós e a autodestruição, senão a fé na palavra eterna de Deus.

Quando esgotados pela dor, até a mente ficar aturdida e a razão quase extinta, um doce texto nos sussurrou sua garantia reconfortante, e nossa pobre mente combalida repousou no seio de Deus. O que fora nosso deleite na prosperidade tornou-se nossa luz na adversidade; o que de dia nos guardava da presunção, de noite nos guardou de perecer.

Este verso contém uma suposição pesarosa — "se não"; descreve uma condição horrível — "perecido na minha aflição"; e implica uma libertação gloriosa, pois ele não morreu, mas viveu para proclamar as honras da palavra de Deus.

Versículo 93Salmo 119:93

Nunca me esquecerei dos teus preceitos, porque com eles me vivificaste. Quando sentimos o poder vivificante de um preceito, jamais podemos esquecê-lo. Podemos lê-lo, aprendê-lo, repeti-lo, e pensar que o temos, e ainda assim ele pode nos escapar da mente; mas, se uma vez nos deu vida, ou renovou essa vida, não há temor de que se apague de nossa lembrança.

A experiência ensina, e ensina eficazmente. Que coisa bendita é ter os preceitos escritos no coração com a pena de ouro da experiência, e gravados na memória com o estilete divino da graça. O esquecimento é grande mal nas coisas santas; vemos aqui o homem de Deus lutando contra ele, e sentindo-se certo da vitória, porque conhecia a energia vivificante da palavra em sua própria alma. O que vivifica o coração certamente vivifica a memória.

Parece singular que ele atribua vivificação aos preceitos, mas isso reside neles, e em todas as palavras do Senhor igualmente. Note-se que, quando o Senhor ressuscitou os mortos, dirigiu-lhes a palavra de mandamento. Disse: "Lázaro, sai fora", ou "Menina, levanta-te." Não devemos temer dirigir os preceitos do evangelho a pecadores mortos, já que por eles o Espírito lhes dá vida.

Note-se que o salmista não diz que os preceitos o vivificaram, mas que o Senhor o vivificou por meio deles: assim ele traça a vida do canal até a fonte, e põe a glória onde é devida. Contudo, ao mesmo tempo, ele estimava os instrumentos da bênção, e resolveu jamais esquecê-los.

Ele já os havia lembrado quando se comparou a um odre na fumaça, e agora sente que, seja na fumaça, seja no fogo, a memória dos preceitos do Senhor jamais o abandonará.

Versículo 94Salmo 119:94

Teu sou eu, salva-me. Oração abrangente, com argumento prevalecente. A consagração é bom argumento para a preservação. Se temos consciência de que somos do Senhor, podemos confiar que ele nos salvará. Somos do Senhor por criação, eleição, redenção, entrega e aceitação; e daí nossa firme esperança e crença certa de que ele nos salvará.

Um homem certamente salvará seu próprio filho: Senhor, salva-me. A necessidade de salvação é melhor percebida pelo povo do Senhor do que por qualquer outro, e daí sua oração — "salva-me"; eles sabem que só Deus pode salvá-los, e por isso a ele só clamam; e sabem que nenhum mérito se pode achar neles mesmos, e por isso alegam uma razão tirada da graça de Deus — "teu sou eu."

"Porque busquei os teus preceitos." Assim provara que era do Senhor. Talvez não tivesse alcançado toda a santidade que desejava, mas estudiosamente visara ser obediente ao Senhor, e por isso rogava ser salvo até o fim.

Um homem pode estar buscando as doutrinas e as promessas, e ainda assim não ter o coração renovado; mas buscar os preceitos é sinal certo de graça; jamais se ouviu falar de um rebelde ou hipócrita que buscasse os preceitos. O Senhor evidentemente operara uma grande obra no salmista, e ele lhe rogava que a levasse à conclusão.

A salvação está ligada à busca: "salva-me, porque busquei"; e quando o Senhor nos põe a buscar, não nos recusará a salvação. Quem busca a santidade já está salvo: se buscamos o Senhor, podemos ter certeza de que o Senhor nos buscou, e certamente nos salvará.

Versículo 95Salmo 119:95

Os ímpios me esperaram para me destruir; mas eu considerarei os teus testemunhos. Eram como feras agachadas à beira do caminho, ou salteadores emboscando um viajante indefeso; mas o salmista seguiu seu caminho sem considerá-los, pois considerava algo melhor: o testemunho que Deus prestou aos filhos dos homens.

Ele não permitiu que a malícia dos ímpios o desviasse de seu santo estudo da palavra divina. Estava tão calmo que podia "considerar"; tão santo que amava considerar os "testemunhos" do Senhor; tão vitorioso sobre todas as tramas deles que não permitiu que o afastassem de suas piedosas contemplações.

Se o inimigo não consegue afastar nossos pensamentos do santo estudo, nem nossos pés do santo caminhar, nem nosso coração das santas aspirações, teve pouco êxito em seus ataques. Os ímpios são inimigos naturais dos homens santos e dos pensamentos santos; se pudessem, não só nos prejudicariam, mas nos destruiriam, e, se não podem fazê-lo hoje, esperarão novas oportunidades, sempre na esperança de realizar seus desígnios malignos.

Esperaram até agora em vão, e terão de esperar ainda muito mais; pois, se estamos tão inabalados que nem sequer lhes damos um pensamento, sua esperança de nos destruir há de ser bem pobre.

Note-se a dupla espera — a paciência dos ímpios, que vigiam longa e cuidadosamente por uma oportunidade de destruir os piedosos, e depois a paciência do santo, que não abandona suas meditações, nem mesmo para aquietar seus inimigos. Veja como a semente da serpente se emboscam como víbora que morde os calcanhares do cavalo; mas veja como os escolhidos do Senhor vivem acima de seu veneno, e não lhes dão mais atenção do que se não existissem.

Versículo 96Salmo 119:96

Tenho visto fim a toda perfeição. Ele vira seu limite, pois ela ia pouco longe; vira sua evaporação sob as provas da vida, sua descoberta sob o olhar perscrutador da verdade, sua exposição pela confissão do penitente. Não há perfeição debaixo da lua. Homens perfeitos, no sentido absoluto da palavra, só vivem num mundo perfeito.

Alguns homens não veem fim para sua própria perfeição, mas isso é porque estão perfeitamente cegos. O crente experiente já viu fim a toda perfeição em si mesmo, em seus irmãos, nas melhores obras do melhor homem. Seria bom se alguns que se dizem perfeitos pudessem ao menos ver o começo da perfeição, pois tememos que não tenham começado corretamente, ou não falariam com tanto orgulho.

Não é o começo da perfeição lamentar a própria imperfeição? Não existe tal coisa como perfeição em nada que seja obra do homem.

"Mas o teu mandamento é sobremaneira amplo." Quando se conhece a amplitude da lei, a noção de perfeição na carne se desvanece: aquela lei toca todo ato, palavra e pensamento, e é de natureza tão espiritual que julga os motivos, desejos e emoções da alma.

Ela revela uma perfeição que nos condena tanto por deficiências quanto por transgressões, e não nos permite compensar deficiências numa direção com cuidado especial em outras. O ideal divino de santidade é amplo demais para esperarmos cobrir toda a sua vasta arena, e, ainda assim, não é mais amplo do que deveria ser.

Quem desejaria ter uma lei imperfeita? Não; sua perfeição é sua glória; mas é a morte de toda glória em nossa própria perfeição.

Há uma amplitude no mandamento que jamais foi plenamente atingida por uma amplitude correspondente de santidade em nenhum simples homem aqui embaixo; só em Jesus a vemos plenamente encarnada. A lei é, em todos os aspectos, um código perfeito; cada preceito seu, em separado, tem alcance vasto em seu significado sagrado, e os dez, no todo, cobrem tudo, e não deixam espaço onde satisfazer nossas paixões.

Bem podemos adorar a infinitude da santidade divina, e então nos medir por seu padrão, e nos curvar diante do Senhor em toda humildade, reconhecendo quão longe ficamos aquém dela.

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