Salmo 119:105-112 (Num)
Leia o Salmo 119 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Exposição
Versículo 105Salmo 119:105
A tua palavra é lâmpada para os meus pés. Somos caminhantes pela cidade deste mundo, e somos frequentemente chamados a sair para sua escuridão; nunca nos aventuremos ali sem a palavra que dá luz, para que nossos pés não escorreguem. Cada homem deve usar a palavra de Deus pessoalmente, praticamente e habitualmente, para que veja seu caminho e o que nele se encontra. Quando a escuridão desce sobre tudo ao meu redor, a palavra do Senhor, como uma tocha em chamas, revela meu caminho.
Não havendo lâmpadas fixas nas cidades orientais, antigamente cada transeunte levava consigo uma lanterna, para não cair no esgoto aberto, nem tropeçar nos montes de imundície que sujavam a estrada. Este é um retrato fiel do nosso caminho por este mundo escuro: não saberíamos o caminho, nem como andar nele, se a Escritura, como um facho ardente, não o revelasse. Um dos benefícios mais práticos das Sagradas Escrituras é a orientação nos atos da vida diária: elas não foram dadas para nos assombrar com seu brilho, mas para nos guiar por sua instrução. É verdade que a cabeça precisa de iluminação, mas ainda mais os pés precisam de direção, senão cabeça e pés podem ambos cair numa vala. Feliz o homem que se apropria pessoalmente da palavra de Deus, e a usa praticamente como seu consolo e conselheiro — uma lâmpada para os seus próprios pés.
E luz para o meu caminho. É lâmpada de noite, luz de dia, e deleite em todo tempo. Davi guiava seus próprios passos por ela, e também via as dificuldades do seu caminho por seus raios. Quem anda nas trevas certamente, cedo ou tarde, tropeça; enquanto quem anda pela luz do dia, ou pela lâmpada da noite, não tropeça, mas mantém sua retidão. A ignorância é dolorosa em assuntos práticos; gera indecisão e suspense, e isso é desconfortável: a palavra de Deus, ao transmitir conhecimento celestial, conduz à decisão, e, quando essa decisão é seguida de resolução firme, como neste caso, ela traz consigo grande descanso de coração.
Este versículo conversa com Deus em tons de adoração e, ao mesmo tempo, de familiaridade. Não temos nós algo de igual teor para dirigir ao nosso Pai celestial?
Note como este versículo se assemelha ao primeiro versículo da primeira oitava, e ao primeiro da segunda e das demais oitavas. Os segundos também estão com frequência em uníssono.
Versículo 106Salmo 119:106
Jurei, e o cumprirei, que guardarei os teus justos juízos. Sob a influência da luz clara do conhecimento, ele havia decidido firmemente, e declarado solenemente sua resolução diante de Deus. Talvez, desconfiando de sua própria mente inconstante, tivesse se comprometido de forma sagrada a permanecer fiel às determinações e decisões do seu Deus. Qualquer que fosse o caminho que se abrisse diante dele, jurara seguir somente aquele sobre o qual brilhava a lâmpada da palavra.
As Escrituras são os juízos, ou vereditos, de Deus sobre as grandes questões morais; são todos justos, e por isso os homens justos devem estar resolvidos a guardá-los a todo custo, já que fazer o certo há de ser sempre certo. A experiência mostra que, quanto menos os homens entrarem formalmente em pactos e juramentos, melhor; e o espírito do ensino do nosso Salvador é contra todo compromisso e juramento supererrogatório; e, no entanto, sob o evangelho devemos nos sentir tão obrigados a obedecer à palavra do Senhor quanto se tivéssemos feito um juramento nesse sentido.
Os laços do amor não são menos sagrados que as amarras da lei. Quando um homem fez um voto, precisa cuidar de "cumpri-lo", e quando um homem não fez voto em tantas palavras de guardar os juízos do Senhor, ainda assim está igualmente obrigado a isso por obrigações que existem à parte de qualquer promessa de nossa parte — obrigações fundadas na eterna adequação das coisas, e confirmadas pela abundante bondade do Senhor nosso Deus.
Não reconhecerá todo crente que está sob obrigação para com o Senhor redentor de seguir seu exemplo e guardar suas palavras? Sim, os votos do Senhor estão sobre nós, especialmente sobre aqueles que professaram discipulado, foram batizados no nome três vezes santo, comeram dos memoriais consagrados, e falaram em nome do Senhor Jesus: estamos alistados, e juramentados, e obrigados a ser soldados leais durante toda a guerra. Assim, tendo recebido a palavra em nossos corações por uma resolução firme de obedecer-lhe, temos uma lâmpada dentro de nossas almas, além daquela do Livro, e nosso caminho será luminoso até o fim.
Versículo 107Salmo 119:107
Estou muitíssimo aflito. Conforme o versículo anterior, ele fora alistado como soldado do Senhor, e neste próximo versículo é chamado a suportar dureza nessa condição. Nosso serviço ao Senhor não nos protege da provação, mas antes a garante para nós. O salmista era um homem consagrado, e ainda assim um homem disciplinado; nem eram leves suas disciplinas, pois parecia que, quanto mais obediente era, mais era afligido. Ele sentia claramente a vara cortando fundo, e isso ele expõe diante do Senhor. Não fala em tom de queixa, mas em tom de súplica; da aflição muitíssima ele argumenta em favor de uma vivificação muitíssima.
Vivifica-me, Senhor, segundo a tua palavra. Este é o melhor remédio para a tribulação; a alma se ergue acima do pensamento da angústia presente, e se enche daquela santa alegria que acompanha toda vida espiritual vigorosa, e assim a aflição se torna leve. Só Jeová pode vivificar: ele tem vida em si mesmo, e por isso pode comunicá-la prontamente; pode nos dar vida a qualquer momento, sim, neste mesmo instante; pois é da natureza da vivificação ser rápida em sua operação.
O Senhor prometeu, preparou e proveu essa bênção da vida renovada para todos os seus servos que esperam; é uma bênção da aliança, e é tão alcançável quanto necessária. Com frequência a aflição se torna o meio da vivificação, assim como o atiçar do fogo promove o calor da chama. Em sua aflição, alguns desejam a morte; oremos por vida. Nossos temores sob a provação são muitas vezes muito sombrios; roguemos ao Senhor que trate conosco, não segundo nossos temores, mas segundo a sua própria palavra. Davi tinha poucas promessas para citar, e provavelmente estavam nos seus próprios salmos, e ainda assim ele invoca a palavra do Senhor; quanto mais deveríamos nós fazê-lo, já que a nós tantos homens santos falaram pelo Espírito do Senhor naquela maravilhosa biblioteca que hoje é a nossa Bíblia. Vendo que temos mais promessas, ofereçamos mais orações.
Versículo 108Salmo 119:108
Aceita, rogo-te, as ofertas voluntárias da minha boca, Senhor. Os vivos louvam ao Deus vivo, e por isso aquele que foi vivificado apresenta seu sacrifício. Ele oferece oração, louvor, confissão e testemunho — estes, apresentados com sua voz na presença de uma audiência, eram o tributo de sua boca a Jeová. Ele treme, temendo que sejam proferidos de modo tão imperfeito que desagradem ao Senhor, e por isso implora aceitação. Suplica que a homenagem de sua boca foi prestada de bom grado e espontaneamente; todas as suas expressões eram ofertas voluntárias.
Não pode haver valor em confissões arrancadas à força: as receitas de Deus não vêm de tributação forçada, mas de doação voluntária. Não pode haver aceitação onde não há boa vontade; não há obra de graça livre onde não há fruto de livre vontade. A aceitação é um favor a ser buscado do Senhor com toda seriedade, pois sem ela nossas ofertas são piores que inúteis. Que maravilha de graça, que o Senhor aceite algo de seres tão indignos quanto nós!
E ensina-me os teus juízos. Quando entregamos ao Senhor o nosso melhor, ficamos ainda mais preocupados em fazer melhor. Se, de fato, o Senhor há de nos aceitar, então desejamos ser mais instruídos, para que sejamos ainda mais aceitáveis. Depois da vivificação precisamos de ensino: vida sem luz, ou zelo sem conhecimento, seria apenas meia bênção. Esses clamores repetidos por ensino mostram a humildade do homem de Deus, e também nos revelam nossa própria necessidade de instrução semelhante. Nosso juízo precisa ser educado até que conheça, concorde com, e aja segundo os juízos do Senhor. Esses juízos nem sempre são tão claros a ponto de serem vistos de imediato; precisamos ser ensinados neles até que admiremos sua sabedoria e adoremos sua bondade assim que os percebermos.
Versículo 109Salmo 119:109
A minha alma está de contínuo nas minhas mãos. Ele vivia em meio ao perigo. Tinha de lutar sempre pela sobrevivência — escondendo-se em cavernas, ou combatendo em batalhas. Esta é uma situação muito incômoda e árdua, e os homens tendem a achar justificável qualquer expediente pelo qual possam encerrar tal condição; mas Davi não se desviou para buscar segurança por meios errados, pois ele diz:
Todavia não me esqueço da tua lei. Dizem que tudo vale no amor e na guerra; mas o homem santo não pensava assim: enquanto carregava sua vida nas mãos, carregava também a lei em seu coração. Nenhum perigo do corpo deveria nos levar a pôr em risco nossas almas, esquecendo o que é reto. A tribulação faz muitos homens esquecerem seu dever, e teria tido o mesmo efeito sobre o salmista se ele não tivesse recebido vivificação (Salmos 119:107) e ensino (Salmos 119:108). Na sua memória da lei do Senhor estava a sua segurança; ele tinha certeza de que Deus não o esqueceria, pois ele não esquecia a Deus. É uma prova especial de graça quando nada consegue afastar a verdade de nossos pensamentos, ou a santidade de nossas vidas. Se nos lembramos da lei mesmo quando a morte nos encara de frente, podemos estar bem certos de que o Senhor se lembra de nós.
Versículo 110Salmo 119:110
Os ímpios me armaram um laço. A vida espiritual é o cenário de perigo constante: o crente vive com sua vida na mão, e enquanto isso todos parecem conspirar para tirá-la dele, pela astúcia, se não puderem pela violência. Não acharemos fácil viver a vida dos fiéis. Espíritos maus e homens maus não pouparão esforços para nossa destruição. Se todos os outros artifícios falharem, e nem mesmo as covas escondidas derem certo, os ímpios ainda assim perseveram em seus intentos traiçoeiros e, tornando-se ainda mais astutos, armam laços para a vítima do seu ódio.
As espécies menores de caça costumam ser capturadas por esse método, por armadilha, ou laço, ou rede, ou nó corrediço. Os homens ímpios são bastante indiferentes quanto ao modo como podem destruir o homem bom — não pensam mais nele do que se fosse um coelho ou um rato: astúcia e traição são sempre aliadas da malícia, e tudo que se assemelhe a um sentimento generoso ou cavalheiresco é desconhecido entre os sem graça, que tratam os piedosos como se fossem alimária a ser exterminada. Quando um homem sabe que está assim atacado, é fácil demais tornar-se temeroso, e correr atrás de algum expediente apressado para se livrar, não sem pecado nessa tentativa; mas Davi manteve calmamente o seu caminho, e pôde escrever:
Todavia não me desviei dos teus preceitos. Ele não foi apanhado no laço, pois manteve os olhos abertos, e ficou perto do seu Deus. Não foi capturado nem roubado, pois seguiu a estrada real da santidade, onde Deus garante segurança a todo viajante. Não se desviou do reto, e não foi impedido de segui-lo, porque recorreu ao Senhor em busca de orientação, e a obteve.
Se nos desviarmos dos preceitos, nos separamos das promessas; se nos afastarmos da presença de Deus, vagamos para os ermos onde os caçadores de aves estendem livremente suas redes. Deste versículo, aprendamos a estar em guarda, pois nós também temos inimigos astutos e maus. Os caçadores armam suas armadilhas nos caminhos usuais dos animais, e nossos piores laços são armados em nossos próprios caminhos. Mantendo-nos nos caminhos do Senhor, escaparemos dos laços de nossos adversários, pois os caminhos dele são seguros e livres de traição.
Versículo 111Salmo 119:111
Os teus testemunhos tomei por herança para sempre. Ele os escolheu como sua sorte, sua porção, sua propriedade; e, mais que isso, os agarrou e os fez seus — tomando posse deles e desfrutando-os. A escolha de Davi é a nossa escolha. Se pudéssemos ter o nosso desejo, desejaríamos guardar os mandamentos de Deus perfeitamente. Conhecer a doutrina, desfrutar a promessa, praticar o mandamento — seja isto um reino grande o bastante para mim.
Aqui temos uma herança que não pode murchar e não pode ser alienada; é para sempre, e nossa para sempre, se assim a tomarmos. Às vezes, como Israel ao entrar em Canaã pela primeira vez, temos de tomar nossa herança por meio de dura batalha, e, se assim for, ela vale todo o nosso trabalho e sofrimento; mas sempre precisa ser tomada por uma escolha decidida do coração e um firme aperto da vontade. O que Deus dá, nós devemos tomar.
Pois são o júbilo do meu coração. A alegria que lhe viera pela palavra do Senhor o levara a fazer dela uma escolha inalterável. Todas as partes da Escritura tinham sido agradáveis a Davi, e continuavam sendo, e por isso ele se apegou a elas, e pretendia apegar-se a elas para sempre. Aquilo que alegra o coração certamente será escolhido e entesourado. Não é o conhecimento da cabeça, mas a experiência do coração, que traz a alegria.
Neste versículo, o sétimo de sua oitava, alcançamos a mesma doçura do sétimo anterior (Salmos 119:103): de fato, em vários dos sétimos vizinhos, o deleite é evidente. Que coisa boa é quando a experiência amadurece em alegria, passando pela tristeza, oração, conflito, esperança, decisão e santo contentamento, até chegar ao júbilo! A alegria fixa o espírito: quando o coração de um homem se alegra na palavra divina, ele a valoriza grandemente, e se une a ela para sempre.
Versículo 112Salmo 119:112
Inclinei o meu coração a guardar os teus estatutos sempre, até o fim. Ele não estava meio inclinado à virtude, mas sinceramente inclinado a ela. Todo o seu coração estava voltado para uma piedade prática e perseverante. Estava resolvido a guardar os estatutos do Senhor com todo o coração, durante todo o seu tempo, sem desviar nem cessar. Fez de guardar a lei até o fim o seu objetivo, e isso sem fim algum. Por meio de oração, meditação e resolução, fizera todo o seu ser pender para os mandamentos de Deus; ou, como diríamos de outro modo — a graça de Deus o inclinara a inclinar seu coração numa direção santificada.
Muitos estão inclinados a pregar, mas o salmista estava inclinado a praticar; muitos estão inclinados a realizar cerimônias, mas ele estava inclinado a cumprir estatutos; muitos estão inclinados a obedecer ocasionalmente, mas Davi obedeceria sempre; e, ai de nós, muitos estão inclinados para uma religião temporária, mas este homem piedoso estava comprometido para a eternidade — cumpriria os estatutos do seu Senhor e Rei até o fim. Senhor, envia-nos uma inclinação celestial de coração como esta: então mostraremos que nos vivificaste e ensinaste. Para este fim, cria em nós um coração puro, e renova diariamente um espírito reto dentro de nós, pois só assim nos inclinaremos na direção certa.