Tesouros de Davi

Salmo 119:121-128 (Aim)

Leia o Salmo 119 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Exposição

Versículo 121Salmo 119:121

Fiz juízo e justiça. Isto era coisa grande para um governante oriental dizer, em qualquer época, pois esses déspotas em geral se importavam mais com o ganho do que com a justiça. Alguns deles negligenciavam totalmente o seu dever, e nem sequer faziam juízo algum, preferindo seus prazeres aos seus deveres; e muitos outros vendiam seus julgamentos ao maior lance, aceitando subornos, ou fazendo acepção de pessoas.

Alguns governantes não davam nem juízo nem justiça, outros davam juízo sem justiça, mas Davi dava juízo e justiça, e cuidava para que suas sentenças fossem cumpridas. Podia afirmar diante do Senhor que distribuíra justiça com equidade, e continuava a fazê-lo. Sobre este fato ele fundamentou uma súplica com a qual reforçou a oração: "não me deixes aos meus opressores."

Aquele que, dentro do alcance do seu poder, tem feito o que é certo, pode esperar ser livrado dos seus superiores quando estes tentarem lhe fazer mal. Se eu não oprimir outros, posso esperançosamente orar para que outros não me oprimam. Uma conduta reta é aquela que nos dá ousadia para apelar ao Grande Juiz por livramento da injustiça de outros. Nem se deve censurar este tipo de súplica como autojustificação: quando lidamos com Deus a respeito das nossas próprias faltas, usamos um tom bem diferente daquele com que enfrentamos as censuras dos nossos semelhantes; quando são eles que estão em questão, e somos inocentes para com eles, temos razão para alegar nossa inocência.

Versículo 123Salmo 119:123

Os meus olhos desfalecem, esperando a tua salvação. Ele chorou, esperou e vigiou pela mão salvadora de Deus, e esses exercícios provaram os olhos de sua fé até quase se esgotarem. Ele olhava só para Deus, olhava com ardor, olhava por muito tempo, olhava até os olhos doerem. A misericórdia é que, se os nossos olhos desfalecem, Deus não desfalece, nem os olhos dele desfalecem. Os olhos são coisas frágeis, e assim são a nossa fé, esperança e expectativa: o Senhor não as provará além do que podem suportar.

E a palavra da tua justiça: uma palavra que silenciaria as palavras injustas dos seus opressores. Seus olhos, tanto quanto seus ouvidos, esperavam pela palavra do Senhor: ele buscava ver a palavra divina surgir como um decreto para o seu livramento. Ele estava "esperando o veredito" — o veredito da própria justiça. Quão felizes somos se temos a justiça ao nosso lado; pois então aquilo que é o terror dos pecadores é a nossa esperança, aquilo que os soberbos temem é a nossa expectativa e o nosso desejo.

Davi deixou sua reputação inteiramente nas mãos do Senhor, e ansiava por ser inocentado pela palavra do Juiz, mais do que por qualquer defesa própria. Sabia que agira corretamente, e por isso, em vez de evitar o supremo tribunal, suplicava pela sentença que sabia que traria o seu livramento. Ele até vigiava com olhos ansiosos pelo juízo e pelo livramento, a palavra de justiça de Deus que significaria salvação para si mesmo.

Versículo 124Salmo 119:124

Trata o teu servo segundo a tua misericórdia. Aqui ele se reconsidera: embora diante dos homens estivesse tão limpo que pudesse invocar a palavra da justiça, diante do Senhor, como seu servo, sentia que devia apelar à misericórdia. Aqui nos sentimos mais seguros. Nosso coração tem mais descanso no clamor: "Deus, tem misericórdia de mim", do que em apelar à justiça. É bom poder dizer: "fiz juízo e justiça", e então acrescentar, em toda humildade: "trata o teu servo segundo a tua misericórdia."

O título de servo cobre uma súplica; um amo deve limpar o caráter do seu servo se ele for falsamente acusado, e resgatá-lo daqueles que o oprimiriam; e, além disso, o amo deve mostrar misericórdia a um servo, mesmo que trate com severidade um estranho. O Senhor condescendentemente trata, ou tem comunicação com os seus servos, não os desprezando, mas conversando com eles; e isso ele faz de modo terno e misericordioso, pois em qualquer outra forma de trato ficaríamos esmagados no pó.

E ensina-me os teus estatutos. Este será um modo de nos tratar em misericórdia. Podemos esperar que um amo ensine ao seu próprio servo o sentido das suas próprias ordens. Ainda assim, já que nossa ignorância nasce da nossa própria estupidez pecaminosa, é grande misericórdia da parte de Deus que ele condescenda em nos instruir nos seus mandamentos. Que o nosso governante se torne o nosso mestre é um ato de grande graça, pelo qual jamais poderemos ser gratos o bastante. Entre as nossas misericórdias, esta é uma das mais preciosas.

Versículo 125Salmo 119:125

Eu sou teu servo. Esta é a terceira vez que ele repete este título nesta única seção: evidentemente gosta do nome, e o concebe como uma súplica muito eficaz. Nós, que nos alegramos por sermos filhos de Deus, não ficamos por isso menos contentes em sermos seus servos. Não assumiu o Filho primogênito a forma de servo, e cumpriu plenamente o trabalho de servo? Que honra mais alta podem desejar os irmãos mais novos do que serem feitos semelhantes ao Herdeiro de todas as coisas?

Dá-me entendimento, para que eu conheça os teus testemunhos. No versículo anterior ele buscou ensino; mas aqui vai muito mais longe, e implora entendimento. Em geral, se o instrutor fornece o ensino, é o aluno que encontra o entendimento; mas, no nosso caso, somos muito mais dependentes, e precisamos suplicar tanto por entendimento quanto por ensino: isto o mestre comum não pode dar, e somos três vezes felizes por nosso Divino Preceptor poder no-lo fornecer. Devemos nos confessar tolos, e então o nosso Senhor nos fará sábios, além de nos dar conhecimento.

O melhor entendimento é aquele que nos capacita a prestar obediência perfeita e a exibir fé inteligente, e é isto que Davi deseja: "entendimento, para que eu conheça os teus testemunhos." Alguns preferem não conhecer estas coisas; preferem estar à vontade nas trevas do que possuir a luz que conduz ao arrependimento e à diligência. O servo de Deus anseia conhecer, de modo inteligente, tudo o que o Senhor revela do homem e ao homem; deseja ser tão instruído que possa apreender e compreender aquilo que lhe é ensinado. Um servo não deveria ser ignorante a respeito do seu senhor, ou do negócio do seu senhor; deveria estudar a mente, a vontade, o propósito e o alvo daquele a quem serve, pois só assim pode completar o seu serviço; e, como ninguém conhece essas coisas tão bem quanto o próprio senhor, deveria recorrer a ele com frequência para receber instrução, para que o próprio zelo não sirva apenas para o tornar um estabanado ainda maior.

É notável que o salmista não ora por entendimento por meio da aquisição de conhecimento, mas suplica ao Senhor primeiro que ele tenha o gracioso dom do entendimento, e só então obtenha a instrução desejada. Tudo o que conhecemos antes de termos entendimento tende a nos estragar e a gerar vaidade em nós; mas, se primeiro houver um coração entendido, então os tesouros do conhecimento enriquecem a alma, e não trazem consigo nem pecado nem tristeza. Além disso, este dom do entendimento age também na forma de discernimento, e assim o homem bom é preservado de entesourar aquilo que é falso e perigoso: sabe o que são, e o que não são, os testemunhos do Senhor.

Versículo 126Salmo 119:126

É tempo de agires, Senhor: pois fizeram vã a tua lei. Davi era um servo, e por isso sempre era o seu tempo de trabalhar; mas, oprimido pela visão da conduta ímpia dos homens, sente que a mão do seu Senhor é necessária, e por isso apela a ele para que aja contra a atuação do mal. Os homens tornam vã a lei de Deus ao negarem que ela seja a lei dele, ao promulgarem mandamentos e doutrinas em oposição a ela, ao estabelecerem a tradição em seu lugar, ou ao desprezarem e escarnecerem totalmente a autoridade do legislador. Então o pecado se torna moda, e um andar santo é visto como um puritanismo desprezível; o vício é chamado de prazer, e a vaidade leva a palma.

Então os santos suspiram pela presença e pelo poder do seu Deus: ah, por uma hora do Rei sobre o trono e da vara de ferro! Ah, por outro Pentecoste com todas as suas maravilhas, para revelar a energia de Deus aos contraditores, e fazê-los ver que há um Deus em Israel! A extremidade do homem, seja de necessidade, seja de pecado, é a oportunidade de Deus. Quando a terra era sem forma e vazia, o Espírito veio e se moveu sobre a face das águas; não viria ele quando a sociedade está voltando a um caos semelhante?

Quando Israel, no Egito, foi reduzido ao ponto mais baixo, e parecia que a aliança seria anulada, então apareceu Moisés e operou poderosos milagres; assim também, quando a igreja de Deus é pisoteada, e sua mensagem é escarnecida, podemos esperar ver a mão do Senhor estendida para o reavivamento da religião, a defesa da verdade, e a glorificação do nome divino. O Senhor pode agir tanto por juízos que derrubam as muralhas do inimigo, quanto por reavivamentos que edificam os muros da sua própria Jerusalém. Quão de coração podemos orar ao Senhor que levante novos evangelistas, que vivifique aqueles que já temos há muito tempo, que ponha toda a sua igreja em fogo, e traga o mundo aos seus pés. A obra de Deus é sempre honrosa e gloriosa; quanto à nossa obra, ela não é nada, à parte dele.

Versículo 127Salmo 119:127

Por isso amo os teus mandamentos mais do que o ouro, sim, mais do que o ouro fino. Assim como era tempo de Deus agir, era tempo de Davi amar. Longe de deixar-se levar pelo exemplo dos homens maus, a ponto de se juntar a eles no desprezo às Escrituras, ele foi antes conduzido a um amor mais veemente por elas. Ao ver os mandamentos desprezados pelos ímpios, seu coração se comoveu em simpatia com Deus, e sentiu ardente afeição pelos seus santos preceitos.

É marca do verdadeiro crente não depender de outros para sua religião, mas beber água do seu próprio poço, que brota mesmo quando as cisternas da terra estão todas secas. Nosso santo poeta, em meio a um depreciar geral da lei, sentiu sua própria estima por ela subir tanto que ouro e prata se tornaram pequenos em comparação. A riqueza traz consigo tantas conveniências que os homens naturalmente a estimam, e o ouro, como seu símbolo, é muito prezado; e ainda assim, no julgamento dos sábios, as leis de Deus enriquecem mais e trazem mais conforto do que todos os tesouros mais escolhidos.

O Salmista não podia se gabar de sempre guardar os mandamentos; mas podia declarar que os amava; era íntegro de coração, e desejaria ser íntegro de vida. Julgava os santos mandamentos de Deus melhores do que a melhor coisa terrena, sim, melhores do que a melhor espécie da melhor coisa terrena; e essa estima foi confirmada e forçada a se expressar por aquelas próprias oposições do mundo que levam os hipócritas a abandonar o Senhor e os seus caminhos.

"Mais caras, por sua fúria, Tuas palavras amo e reconheço, — Uma herança mais rica Do que ouro e pedra preciosa."

Versículo 128Salmo 119:128

Por isso considero retos todos os teus preceitos a respeito de todas as coisas. Porque os ímpios criticavam os preceitos de Deus, Davi ficava ainda mais certo de que eram retos. A censura dos ímpios é um certificado de mérito; aquilo que eles aprovam podemos justamente suspeitar, mas aquilo que abominam podemos ardentemente admirar. O deleite do homem bom na lei de Deus é irrestrito; ele crê em todos os preceitos de Deus a respeito de todas as coisas.

E odeio todo caminho de falsidade. O amor à verdade gerou ódio à falsidade. Este homem piedoso não era indiferente a nada, mas aquilo que não amava, odiava. Não era um tempero sem sabor na panela; era um bom amante ou um bom odiador, mas nunca um vacilante. Sabia o que sentia, e o expressava. Não era um Gálio, que não se importava com nada dessas coisas. Sua repulsa era tão irrestrita quanto sua afeição; não tinha uma boa palavra para nenhuma prática que não suportasse a luz da verdade. O fato de que grandes multidões seguem o caminho largo não teve influência sobre este homem santo, exceto tornar-lhe mais determinado a evitar toda forma de erro e pecado. Que o Espírito Santo assim reine em nossos corações, para que nossos afetos estejam na mesma disposição decidida em relação aos preceitos da palavra.

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