Tesouros de Davi

Salmo 119:153-160 (Rexe)

Leia o Salmo 119 na íntegra no Midvash, na King James Fiel

Exposição

Versículo 153Salmo 119:153

Considera a minha aflição, e livra-me. O escritor tem uma boa causa, embora seja penosa, e está pronto — mais que pronto, ansioso — para submetê-la à arbitragem divina. Seus assuntos estão certos, e ele está pronto para apresentá-los perante o tribunal supremo. Seu modo é o de alguém que se sente seguro diante do trono. No entanto, não há impaciência: ele não pede ação apressada, mas consideração. Em efeito ele clama: "Olha para a minha dor, e vê se não preciso ser livrado. Pela minha condição de tristeza, julga qual o método e o momento apropriados para o meu resgate."

O salmista deseja duas coisas, e essas duas coisas combinadas: primeiro, uma consideração completa de sua tristeza; segundo, a libertação; e, então, que essa libertação venha acompanhada da consideração de sua aflição. Deveria ser o desejo de todo homem piedoso em adversidade que o Senhor olhasse para a sua necessidade e a aliviasse do modo que mais glorificasse a Deus e mais beneficiasse a ele mesmo.

As palavras "minha aflição" são pitorescas; parecem reservar um lugar especial de dor como herança própria do escritor: ele a possui como ninguém jamais possuiu, e pede ao Senhor que tenha esse lugar especial sob o seu olhar — assim como um lavrador, olhando para todos os seus campos, pode ainda assim dar atenção redobrada a um determinado talhão escolhido. Sua oração é eminentemente prática, pois busca ser livrado; isto é, tirado da aflição e preservado de sofrer qualquer dano sério por causa dela. Para Deus, considerar é agir no tempo devido: os homens consideram e nada fazem; mas esse nunca é o caso do nosso Deus.

Pois não me esqueço da tua lei. Sua aflição não foi suficiente, com toda a sua amargura, para expulsar de sua mente a memória da lei de Deus; nem pôde levá-lo a agir contra o mandamento divino. Ele esqueceu a prosperidade, mas não esqueceu a obediência. Este é um bom argumento quando pode ser honestamente invocado. Se somos mantidos fiéis à lei de Deus, podemos ter certeza de que Deus permanecerá fiel à sua promessa. Se não nos esquecemos da sua lei, o Senhor não se esquecerá de nós. Ele não deixará por muito tempo em aflição aquele homem cujo único temor na aflição é abandonar o caminho do bem.

Considera a minha aflição, e livra-me. Deus olha para o homem, ou o considera, de várias maneiras e para diferentes fins. Para dar-lhe luz; pois "ao passar Jesus, viu um homem cego de nascença" (João 9:1). Para convertê-lo; "Viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me" (Mateus 9:9). Para restaurá-lo; "E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro" (Lucas 22:61). Para livrá-lo; "Tenho visto atentamente a aflição do meu povo que está no Egito" (Êxodo 3:7). Para exaltá-lo; "Atentou para a condição humilde da sua serva" (Lucas 1:48); e para recompensá-lo: "O Senhor atentou para Abel e para a sua oferta" (Gênesis 4:4). — Hugo de São Vítor (1098-1141), em Neale e Littledale.

Considera a minha aflição, e livra-me. Devemos orar para que Deus nos ajude e nos livre, não segundo a invenção de nossos próprios pensamentos, mas do modo que parecer melhor à sua terna sabedoria; ou então que mitigue a nossa dor, para que a nossa fraqueza não desfaleça de todo. Assim como um doente, embora não duvide da fidelidade e do cuidado do seu médico, ainda assim deseja que ele trate o seu ferimento com o máximo de delicadeza possível, também nós podemos clamar a Deus para que, se não for contra a sua honra e glória, se digne a conceder algum alívio à nossa dor. — Otto Wermuellerus.

Considera a minha aflição. Estas orações de Davi foram escritas com tal sabedoria celestial que servem à condição de toda a igreja, e de cada um dos seus membros. A igreja é a sarça que arde em fogo, mas não se consome; cada membro dela carrega uma parte da cruz de Cristo; nunca estão sem alguma aflição, pela qual precisam orar com Davi: "Olha para a minha aflição."

Sabemos que, nas aflições, é algum consolo termos as nossas cruzes conhecidas por aqueles de quem temos certeza que nos amam: alivia a nossa dor quando choram conosco, ainda que não possam nos ajudar. Mas o cristão tem um consolo mais sólido: a saber, que em todas as suas tribulações o Senhor o observa; como um rei que se alegra em ver o seu próprio servo lutar contra o inimigo. Ele olha com olhar misericordioso, tendo piedade da fraqueza dos seus quando a vê; e com mão poderosa, pronto para ajudá-los. Mas, como muitas vezes a nuvem da nossa corrupção se interpõe entre o Senhor e nós, e não nos deixa ver a sua mão que ajuda nem o seu rosto amoroso que nos olha, precisamos orar em tais momentos com Davi: "Olha para a minha aflição." — William Cowper.

Versículo 154Salmo 119:154

Advoga a minha causa, e livra-me. No versículo anterior ele tinha orado: "livra-me", e aqui especifica um método pelo qual essa libertação poderia ser concedida, a saber, pela advocacia da sua causa. Na providência, o Senhor tem muitos modos de esclarecer os caluniados diante das acusações que lhes fazem. Ele pode tornar manifesto a todos que foram difamados, e desse modo advogar praticamente a causa deles. Ele pode, além disso, levantar amigos para os piedosos, que não deixarão pedra sobre pedra até que o caráter deles seja esclarecido; ou pode ferir os inimigos deles com tal pavor no coração que sejam forçados a confessar a sua falsidade, e assim os justos serão livrados sem que se desfira um só golpe. Alexander traduz: "Litiga a minha lide, e resgata-me" — isto é, ocupa o meu lugar, carrega o meu fardo, luta a minha luta, paga o meu preço, e traz-me à liberdade. Quando nos sentimos mudos diante do inimigo, aqui está uma oração pronta para nós. Que consolo saber que, se pecamos, temos um advogado, e que, se não pecamos, o mesmo advogado está empenhado ao nosso lado.

Vivifica-me. Tivemos esta oração na seção anterior, e a teremos repetidas vezes nesta. É um desejo que não pode ser sentido nem expresso vezes demais. Assim como a alma é o centro de tudo, ser vivificado é a bênção central. Significa mais amor, mais graça, mais fé, mais coragem, mais força — e, se as obtemos, podemos erguer a cabeça diante dos nossos adversários. Só Deus pode dar essa vivificação; mas para o Senhor, dador da vida, a obra é bastante fácil, e ele se compraz em realizá-la.

Segundo a tua palavra. Davi tinha encontrado essa bênção entre as coisas prometidas, ou ao menos percebia que estava de acordo com o teor geral da palavra de Deus que os crentes provados fossem vivificados e reerguidos do pó da terra; por isso ele invoca a palavra, e deseja que o Senhor aja para com ele segundo o curso habitual dessa palavra. Que argumento poderoso é este — "segundo a tua palavra." Nenhum canhão em todos os nossos arsenais pode igualá-lo.

Versículo 155Salmo 119:155

A salvação está longe dos ímpios. Pela sua perseverança no mal, eles quase se colocaram fora dos limites da esperança. Falam em ser salvos, mas não podem ter conhecido nada disso, ou não continuariam ímpios. Cada passo que deram no caminho do mal os afastou ainda mais do reino da graça: passam de um grau de dureza a outro, até que o coração se torna como pedra. Quando caírem em tribulação, será irremediável. Ainda assim, falam com arrogância, como se não precisassem de salvação alguma, ou pudessem salvar-se a si mesmos sempre que lhes desse na veneta.

Pois não buscam os teus estatutos. Não se esforçam por ser obedientes; muito pelo contrário — buscam a si mesmos, buscam o mal, e por isso nunca encontram o caminho da paz e da justiça. Quando os homens quebraram os estatutos do Senhor, o caminho mais sábio é buscar o perdão pelo arrependimento, e buscar a salvação pela fé: então a salvação está perto deles, tão perto que não a perderão; mas, enquanto os ímpios continuam a buscar o mal, a salvação se afasta cada vez mais deles. A salvação e os estatutos de Deus andam juntos: os que são salvos pelo Rei da graça amam os estatutos do Rei da glória.

Versículo 156Salmo 119:156

Este versículo se parece muitíssimo com o versículo cento e quarenta e nove, e, no entanto, não é uma repetição vã. Há tal diferença na ideia central que um versículo se distingue claramente do outro. No primeiro caso ele menciona a sua oração, mas deixa o método de seu cumprimento à sabedoria ou ao juízo de Deus; já aqui, ele não invoca oração alguma sua, mas simplesmente as misericórdias do Senhor, e pede para ser vivificado pelos juízos, em vez de ser deixado ao letargo espiritual. Podemos dar por certo que um autor inspirado jamais está tão escasso de pensamento a ponto de precisar se repetir: onde pensamos ter a mesma ideia neste salmo, estamos enganados pela nossa negligência em um estudo cuidadoso. Cada versículo é uma pérola distinta. Cada folha de relva neste campo tem a sua própria gota de orvalho celestial.

Grandes são as tuas ternas misericórdias, ó SENHOR. Aqui o salmista invoca a grandeza da misericórdia de Deus, a imensidão do seu terno amor; sim, ele fala de misericórdias — misericórdias muitas, misericórdias ternas, misericórdias grandes; e diante do glorioso Jeová, faz disso um argumento para o seu único pedido principal, a oração pela vivificação. Ser vivificado é uma misericórdia grande e terna; e é muitas misericórdias em uma só. Permitiria alguém tão verdadeiramente bom que o seu servo morresse? Não sopraria vida nova nele alguém tão terno? "Vivifica-me segundo os teus juízos." Uma medida de despertamento vem com os juízos de Deus; eles surpreendem e despertam; e daí a vivificação do crente por meio deles. Davi queria que todo golpe severo lhe fosse santificado para o seu benefício, tanto quanto toda misericórdia terna.

A primeira cláusula deste versículo poderia soar assim: "Muitas", ou "multiformes são as tuas compaixões, ó Jeová." Ele se lembra disso em conexão com os "muitos perseguidores" de que falará no próximo versículo. Por todas essas muitas misericórdias, ele suplica graça vivificante, e assim tem muitas cordas ao seu arco. Nunca nos faltarão argumentos se os tirarmos do próprio Deus, e invocarmos tanto as suas misericórdias quanto os seus juízos como razões para a nossa vivificação.

Versículo 157Salmo 119:157

Muitos são os meus perseguidores e os meus inimigos. Aqueles que me atacam abertamente, ou que secretamente me abominam, são muitos. Ele contrapõe isso às muitas ternas misericórdias de Deus. Parece estranho que um homem verdadeiramente piedoso, como Davi era, tivesse tantos inimigos; mas isso é inevitável. O discípulo não pode ser amado onde o seu Mestre é odiado. A semente da serpente há de se opor à semente da mulher: é a sua natureza.

Mas eu não me desvio dos teus testemunhos. Ele não se desviou da verdade de Deus, mas seguiu no caminho reto, por mais que muitos adversários se esforçassem para bloquear o seu caminho. Alguns homens já foram desviados por um só inimigo, mas aqui está um santo que manteve o seu rumo diante de muitos perseguidores. Há o bastante nos testemunhos de Deus para nos recompensar por avançarmos contra todas as hostes que possam se aliar contra nós. Enquanto não conseguirem nos empurrar ou nos atrair para um declínio espiritual, os nossos inimigos não nos causaram grande dano, e não conseguiram nada com a sua malícia. Se não desviarmos, eles estão derrotados. Se não conseguem nos fazer pecar, erraram o alvo. Fidelidade à verdade é vitória sobre os nossos inimigos.

Versículo 158Salmo 119:158

Eu vi os transgressores. Vi os traidores; entendi o seu caráter, o seu objetivo, o seu caminho e o seu fim. Não pude deixar de vê-los, pois eles se impuseram no meu caminho. Como fui obrigado a vê-los, fixei os olhos neles, para aprender o que pudesse.

E me enojei. Lamentei ver tais pecadores. Estava farto deles, enojado deles, não podia suportá-los. Não encontrava neles prazer algum; eram uma visão triste para mim, por mais fina que fosse a sua roupa ou espirituosa a sua conversa. Mesmo quando estavam mais alegres, a visão deles pesava sobre o meu coração; eu não podia tolerar nem a eles nem aos seus feitos.

Porque não guardavam a tua palavra. A minha tristeza era causada mais pelo pecado deles contra Deus do que pela hostilidade deles contra mim. Eu podia suportar o mau trato deles quanto a minhas palavras, mas não o descaso deles com a tua palavra. A tua palavra me é tão preciosa que aqueles que não a guardam me movem à indignação; não posso conviver com aqueles que não guardam a palavra de Deus. Que não tenham amor por mim é coisa trivial; mas desprezar o ensino do Senhor é abominável.

Versículo 159Salmo 119:159

Considera, ou vê, como amo os teus preceitos. Pela segunda vez ele pede consideração. Como havia dito antes, "Considera a minha aflição", agora diz: "Considera o meu afeto." Ele amava os preceitos de Deus — amava-os indizivelmente, amava-os a ponto de se entristecer com os que não os amavam. Este é um teste seguro: muitos há que têm simpatia calorosa pelas promessas, mas quanto aos preceitos, não os suportam.

O salmista amava tanto tudo o que era bom e excelente que amava tudo o que Deus tinha ordenado. Os preceitos são todos sábios e santos; por isso o homem de Deus os amava extremamente, amava conhecê-los, pensar neles, reivindicá-los, e principalmente praticá-los. Ele pediu ao Senhor que se lembrasse e considerasse isso, não com base em mérito, mas para que servisse de resposta às acusações caluniosas que, naquele momento, eram o grande aguilhão de sua tristeza.

Vivifica-me, ó SENHOR, segundo a tua benignidade. Aqui ele retorna à sua oração anterior, "vivifica-me" (v. 154), "vivifica-me" (v. 156). "Vivifica-me." Ele ora de novo, pela terceira vez, usando as mesmas palavras. Podemos entender que Davi se sentia como alguém meio atordoado pelos ataques dos seus inimigos, prestes a desfalecer sob a malícia incessante deles. O que ele precisava era de reavivamento, restauração, renovação; por isso suplicava por mais vida. Ó tu que me vivificaste quando eu estava morto, vivifica-me de novo, para que eu não volte à morte! Vivifica-me para que eu sobreviva aos golpes dos meus inimigos, ao desfalecimento da minha fé e ao desmaio da minha tristeza.

Desta vez ele não diz "vivifica-me segundo os teus juízos", mas "vivifica-me, ó Senhor, segundo a tua benignidade." Este é o grande canhão que ele traz por último para o combate: é o seu argumento final; se este não vencer, ele terá de fracassar. Já há muito tempo bate à porta da misericórdia, e com este pedido desfere o seu golpe mais forte. Quando havia caído em grande pecado, este era o seu pedido: "Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade", e agora que está em grande aflição, recorre ao mesmo raciocínio eficaz. Porque Deus é amor, ele nos dará vida; porque é bondoso, tornará a acender em nós a chama celestial.

Versículo 160Salmo 119:160

O doce cantor encerra esta seção do mesmo modo que a anterior, insistindo na segurança da verdade de Deus. Fará bem ao leitor notar a semelhança entre Salmos 119:144, Salmos 119:152 e este versículo.

A tua palavra é verdadeira. Digam o que disserem os transgressores, Deus é verdadeiro, e a sua palavra é verdadeira. Os ímpios são falsos, mas a palavra de Deus é verdadeira. Eles nos acusam de sermos falsos, mas o nosso consolo é que a palavra verdadeira de Deus há de nos justificar.

Desde o princípio. A palavra de Deus tem sido verdadeira desde o primeiro momento em que foi falada; verdadeira ao longo de toda a história; verdadeira para nós desde o instante em que a cremos; e verdadeira para conosco antes mesmo de sermos fiéis a ela. Alguns leem: "A tua palavra é verdadeira desde a cabeça" — verdadeira como um todo, verdadeira do topo à base. A experiência ensinou isso a Davi, e a experiência nos ensina o mesmo. As Escrituras são tão verdadeiras em Gênesis quanto em Apocalipse, e os cinco livros de Moisés são tão inspirados quanto os quatro Evangelhos.

E cada um dos teus justos juízos dura para sempre. Aquilo que decidiste permanece irreversível em todo caso. Contra as decisões do Senhor não se pode requerer recurso algum, nem jamais haverá revogação de qualquer dos atos da sua soberania. Não há um único erro nem na palavra de Deus, nem no trato providencial de Deus. Nem no livro da revelação nem no da providência haverá jamais necessidade de acrescentar uma só nota de errata. O Senhor não tem nada a lamentar nem a retratar, nada a emendar nem a reverter.

Todos os juízos, decretos, mandamentos e propósitos de Deus são justos, e, como as coisas justas são coisas duradouras, cada um deles sobreviverá às estrelas. "Até que passem o céu e a terra, nem um jota ou um til passará de modo algum da lei, até que tudo se cumpra." A justiça de Deus dura para sempre. Este é um pensamento animador; mas há outro, ainda mais doce, que desde a antiguidade era o cântico dos sacerdotes no templo; que seja também o nosso: "A sua misericórdia dura para sempre."

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