Notas explicativas e citações: Salmo 119
Citações de puritanos, reformadores e outros comentaristas sobre o Salmo 119, reunidas por Charles Spurgeon.
Leia o Salmo 119 na íntegra no Midvash, na King James Fiel
Elogio ao Salmo inteiro. — Este Salmo brilha e se destaca entre os demais,
Velut inter ignes
Luna minores. {1}
uma estrela no firmamento dos Salmos, de primeira e maior grandeza. Isso logo se torna evidente se se considerar a maneira em que foi composto, ou a matéria de que é composto. A maneira em que foi composto é muito elegante. A matéria de que é composto é muito excelente.
A maneira em que foi composto é muito elegante; cheia de arte, regra, método — matéria teológica de modo lógico, um alfabeto espiritual formado e moldado conforme o alfabeto hebraico.
A matéria de que é composto é muito excelente; cheia de sublimidades raras, mistérios profundos, atividades cheias de graça, sim, êxtases gloriosos. O Salmo se compõe de três coisas: (a) orações, (b) louvores, (c) protestos. Orações a Deus; louvores a Deus; protestos diante de Deus. Rev. W. Simmons, em sermão publicado em "Morning Exercises", 1661.
Elogio. Este Salmo é chamado o Alfabeto do Amor Divino, o Paraíso de todas as Doutrinas, o Depósito do Espírito Santo, a Escola da Verdade, e ainda o mistério profundo das Escrituras, onde toda a disciplina moral de todas as virtudes brilha claramente. E, como toda instrução moral é agradável, este Salmo, por se destacar nesse tipo de instrução, deveria ser chamado agradável, na medida em que supera os demais. Os outros Salmos, de fato, brilham um pouco, como estrelas menores; mas este arde com o calor do meio-dia em seu pleno brilho, e é inteiramente resplandecente de formosura moral. Johannes Paulus Palanterius, 1600.
Elogio. Em nossa versão alemã traz a inscrição apropriada: "O A B C dourado do cristão sobre o louvor, o amor, o poder e o uso da Palavra de Deus." Franz Delitzsch, 1871.
Elogio. Registra-se do célebre Santo Agostinho, que entre suas obras volumosas deixou um Comentário ao Livro dos Salmos, que ele adiou comentar este até ter terminado o Saltério inteiro; e só cedeu à longa e veemente insistência de seus amigos, "porque", diz ele, "todas as vezes que eu tentava pensar nele, ele sempre superava as forças de minha atenção mais intensa e o alcance máximo de minhas faculdades." Enquanto um antigo padre {2} intitula este Salmo "a perfeição do ensino e da instrução", outro {3} diz que "ele aplica um remédio que tudo abrange às variadas enfermidades espirituais dos homens — bastando para aperfeiçoar os que anseiam por virtude perfeita, despertar os preguiçosos, refrescar os desanimados e pôr em ordem os relaxados"; a que se poderiam acrescentar muitos testemunhos semelhantes de comentaristas antigos e modernos. William De Burgh, 1860.
Elogio. Quanto mais aberto parece este Salmo, tanto mais profundo me parece; de modo que não sei mostrar quão profundo é. Pois em outros, que se entendem com dificuldade, embora o sentido esteja oculto na obscuridade, ao menos a própria obscuridade aparece; mas neste, nem isso acontece; porque ele é de tal modo superficial que parece não precisar de intérprete, mas apenas de leitor e ouvinte. Agostinho, 354-480.
Elogio. No "Relato da Vida e Morte de seu pai, Philip Henry", Matthew Henry diz: "Certa vez, insistindo no estudo das Escrituras, ele nos aconselhou a tomar um versículo deste Salmo cada manhã para meditar, e assim percorrer o Salmo duas vezes por ano; e isso, dizia ele, vai fazer com que amem todo o resto da Escritura." Ele costumava dizer: "Toda graça cresce à medida que cresce o amor pela palavra de Deus."
{1} E como a lua, entre os fogos mais fracos, "brilha visível." — Horácio.
{2} Santo Hilário.
{3} Teodoreto.
Elogio. É estranho que, de todas as partes da Bíblia que minha mãe me ensinou, aquela que mais me custou aprender, e que era, à minha mente de criança, a mais repulsiva — o Salmo 119 — se tenha tornado, de todas, a mais preciosa para mim, em sua paixão transbordante e gloriosa de amor pela lei de Deus. John Ruskin, em "Fors Clavigera".
Elogio. Este Salmo é uma meditação prolongada sobre a excelência da palavra de Deus, sobre seus efeitos, e sobre a força e a felicidade que ela dá ao homem em toda posição. Essas reflexões vêm entremeadas de súplicas, nas quais o salmista, sentindo profundamente sua fraqueza natural, implora o auxílio de Deus para andar no caminho traçado para ele nos oráculos divinos. Para poder compreender e desfrutar deste Salmo notável, e para que não sejamos repelidos por sua extensão e por suas repetições, precisamos ter tido, ao menos em certa medida, as mesmas experiências de seu autor, e, como ele, aprendido a amar e a praticar a palavra sagrada. Além disso, este Salmo é, de certo modo, uma pedra de toque para a vida espiritual de quem o lê. Os sentimentos nele expressos harmonizam perfeitamente com o que os livros históricos e outros Salmos ensinam sobre a obediência de Davi e seu zelo pela glória de Deus. Há, porém, nele palavras que respiram uma piedade tão elevada, que só podem ter seu pleno sentido e sua perfeita veracidade na boca daquele de quem o rei profeta era o tipo. Do francês de Armand de Mestral, 1856.
Elogio. O Salmo 119 foi descrito por um distinto crítico racionalista ainda vivo (professor Reuss) como "não sendo poesia alguma, mas simplesmente uma litania — uma espécie de terço." Não parece ser essa a opinião dos anjos de Deus, e dos espíritos redimidos, quando esse mesmo poema fornece a linguagem do louvor — o peã da vitória, Justos e verdadeiros são os teus caminhos (Apocalipse 15:3); o clamor do anjo das águas, Justo és tu, ó Senhor! (Apocalipse 16:5); a voz de muito povo no céu, Verdadeiros e justos são os seus juízos (Apocalipse 19:2); o que é isso senão a exclamação daquele, quem quer que tenha sido, que escreveu o Salmo — Justo és tu, ó Senhor, e retos são os teus juízos (Salmos 119:137). William Alexander, em "The Quiver", 1880.
Fato ocorrido. No meio de uma temporada londrina; na agitação e no tumulto de uma crise política, 1819; William Wilberforce escreve em seu Diário: "Caminhei desde Hyde Park Corner repetindo o Salmo 119 com grande consolo". William Alexander, em "The Witness of the Psalms", 1877.
Fato ocorrido. George Wishart, capelão e biógrafo do chamado "grande Marquês de Montrose", teria partilhado o destino de seu ilustre patrono, não fosse o seguinte expediente singular. Estando no cadafalso, valeu-se do costume da época, que permitia ao condenado escolher um Salmo para ser cantado. Ele escolheu o Salmo 119, e, antes que dois terços do Salmo tivessem sido cantados, chegou o perdão, e sua vida foi preservada. Não será fora de propósito acrescentar que esse George Wishart, bispo de Edimburgo, acima referido, tem sido demasiadas vezes confundido com o santo mártir de mesmo nome que viveu e morreu um século antes. Mencionamos o fato apenas porque tem sido citado com frequência como um exemplo singular do escape providencial de uma personagem santa; quando, na verdade, foi o artifício muito engenhoso de uma pessoa que, segundo Woodrow, era mais reconhecida pela astúcia do que pela santidade. A extensão deste Salmo foi sagazmente empregada como meio de ganhar tempo, e, felizmente, o expediente deu certo. C. H. S.
Disposição Alfabética. Observa-se que o Salmo 119 está disposto conforme as letras do alfabeto hebraico, talvez para sugerir que as crianças, ao começarem a aprender seu alfabeto, deveriam aprender esse Salmo. Nathanael Hardy, 1618-1670.
Disposição Alfabética. É verdade que os versículos não começam nem com as letras do inglês nem com as do latim, mas com as do hebraico, língua em que Davi compôs e escreveu este Salmo. A vontade e o propósito do Espírito Santo é fazer-nos sentir e entender que a doutrina aqui contida não foi posta apenas para os grandes eruditos que estudaram dez ou vinte anos; mas também para os mais simples; para que ninguém pudesse alegar desculpa de ignorância. De "Vinte e Dois Sermões sobre o Salmo 119", de Calvino, 1580.
Disposição Alfabética. Pode haver algo mais que mera fantasia na observação de que o nome de Cristo, "o Alfa e o Ômega" — equivalente a declará-lo tudo aquilo que cada letra do alfabeto poderia exprimir — talvez tenha se referido à peculiaridade deste Salmo, um Salmo em que (com exceção de Salmos 119:84 e Salmos 119:122, exceções que tornam a regra ainda mais marcante) cada versículo fala da revelação que Deus faz de si mesmo ao homem. Andrew A. Bonar, 1859.
Disposição Alfabética. Orígenes diz que ele é alfabético porque contém os elementos ou princípios de todo o conhecimento e sabedoria; e que repete cada letra oito vezes, porque oito é o número da perfeição.
Disposição Alfabética. Para que o leitor sem instrução entenda o que se quer dizer com o Salmo ser alfabético, anexamos o seguinte exemplo sobre a seção Álefe:
Bem-aventurados os que são íntegros no caminho
e andam na lei do Senhor;
Bem-aventurados os que guardam os seus testemunhos,
e o buscam de todo o coração;
Também os que não praticam maldade alguma,
mas andam nos caminhos dele.
Tu nos deste uma lei,
para que guardássemos com diligência os teus mandamentos.
Ah, Senhor, quem dera os meus caminhos fossem tão dirigidos
que eu guardasse os teus estatutos!
E então não serei confundido,
enquanto tiver respeito a todos os teus mandamentos.
Quanto a mim, te agradecerei com coração sincero,
quando tiver aprendido os teus justos juízos.
Um olhar terei para os teus preceitos,
ó, não me abandones de todo. — De "Os Salmos Dispostos Cronologicamente por Quatro Amigos", 1867.
Continua... Ver Salmos "Jó 42:15"
Versículo 2Salmo 119:2
A duplicação da sentença, Bem-aventurados... bem-aventurados, no primeiro e no segundo versículo, serve para nos mostrar a certeza da bênção que pertence aos piedosos. A palavra de Deus é tão verdadeira em si mesma quando dita uma vez quanto quando repetida muitas vezes: sua repetição serve para confirmar nossa fé fraca. O que Isaque disse de Jacó — "Eu o abençoei, e ele será abençoado" — é o mais certo decreto de Deus sobre todos os seus filhos. Satanás bem gostaria de amaldiçoar Israel, pela boca de gente como Balaão; mas não conseguirá amaldiçoar, porque Deus abençoou. William Cowper.
Bem-aventurados os que guardam os seus testemunhos, e que o buscam de todo o coração. No versículo anterior, um homem bem-aventurado é descrito pelo curso de suas ações, "Bem-aventurados os íntegros no caminho": neste versículo ele é descrito pela disposição de seu coração. Thomas Manton.
Guardam os seus testemunhos. A guarda cuidadosa dos testemunhos de Deus na mente é bem-aventurança; pois, embora haja uma guarda deles na conduta, mencionada no versículo anterior, aqui se sugere algo diverso: quem guarda essa planta, ou semente santa, de tal modo que o diabo não consiga arrancá-la de seu coração, esse é feliz. A palavra aqui usada significa uma custódia tão cuidadosa quanto a que empregamos ao cuidar de mudas tenras. Paul Bayne.
Testemunhos. A noção pela qual a palavra de Deus é expressa é "testemunhos"; com isso se entende toda a declaração da vontade de Deus em doutrinas, mandamentos, exemplos, ameaças, promessas. Toda a palavra é o testemunho que Deus depôs para a satisfação do mundo quanto ao caminho de sua salvação. Ora, como a palavra de Deus se ramifica em duas partes, a lei e o evangelho, essa noção pode se aplicar a ambas.
Primeiro, à lei, quanto a isso a arca era chamada "a arca do testemunho" (Êxodo 25:16), porque as duas tábuas estavam guardadas nela. O evangelho também é chamado testemunho, "o testemunho de Deus a respeito de seu Filho." "À lei e ao testemunho" (Isaías 8:20); onde testemunho parece se distinguir da lei. O evangelho é assim chamado, porque nele Deus testificou como um homem pode ser perdoado, reconciliado com Deus, e obter direito à vida eterna. Precisamos de um testemunho nesse caso, porque isso nos é mais desconhecido. A lei estava escrita no coração, mas o evangelho é um estranho. A luz natural discerne algo da lei, e perscruta assuntos de teor e interesse moral; mas as verdades evangélicas são um mistério, e dependem do puro testemunho de Deus a respeito de seu Filho. Thomas Manton.
Testemunhos. A palavra de Deus é chamada seu testemunho, não só porque testifica sua vontade quanto ao seu culto, mas também seu favor e boa vontade para com os seus em Cristo Jesus. Se a palavra de Deus não fosse mais que uma lei, ainda assim estaríamos obrigados a obedecê-la, por sermos suas criaturas; mas, como ela é também um testemunho de seu amor, no qual, como pai, ele atesta seu favor para com seus filhos, somos duplamente inescusáveis se não a acolhermos com a maior alegria. William Cowper.
Bem-aventurados os que... o buscam de todo o coração. Ele proclama "bem-aventurados" não os que são sábios a seus próprios olhos, ou assumem uma espécie de santidade fantasiosa, mas os que se dedicam à aliança de Deus, e obedecem aos ditames de sua lei. Além disso, com essas palavras, ele nos diz que Deus de modo algum se satisfaz com o mero serviço externo, pois exige o afeto sincero e honesto do coração. E, certamente, se Deus é o único Juiz e Dispositor de nossa vida, a verdade deve ocupar o lugar principal em nosso coração, porque não basta que apenas nossas mãos e pés estejam a seu serviço. João Calvino, 1509-1564.
O coração todo. Quem quiser ter felicidade genuína precisa ter um coração genuíno. Na medida em que houver sinceridade, haverá bem-aventurança; e, conforme o grau de nossa hipocrisia, será a medida de nossa miséria. Richard Greenham, 1531-1591.
Versículos 2–3Salmo 119:2-3
Note os verbos buscar, fazer, andar, todos compondo o sujeito a quem pertence a bem-aventurança. Henry Hammond, 1605-1660.
Versículo 3Salmo 119:3
Também não praticam iniquidade. Se aqui se perguntar: como é que os que andam nos caminhos de Deus não praticam iniquidade? Existe algum homem que viva e não peque? E, se não estão sem pecado, como então podem ser bem-aventurados? A resposta é: assim como o apóstolo diz de nosso conhecimento, "conhecemos em parte": também é verdade quanto à nossa felicidade na terra, somos bem-aventurados apenas em parte. É a felicidade dos anjos nunca terem pecado; é a felicidade dos santos triunfantes que, embora tenham sido pecadores, agora não pecam mais; mas a felicidade dos santos ainda militantes é que nossos pecados nos são perdoados; e que, embora o pecado permaneça em nós, ele não reina sobre nós; ele se opera em nós, mas não por nossa permissão: "Faço o mal que não quero." "Já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim" (Romanos 7:17).
Para que se pratique a iniquidade, três coisas devem concorrer: primeiro, o propósito de praticá-la; depois, o prazer em praticá-la; terceiro, a continuidade nela; e essas três nunca concorrem nos filhos de Deus; pois, quanto aos pecados neles cometidos pelo velho homem, o novo homem faz suas exceções e protestos contra eles. Não sou eu, diz ele; e tão longe está de comprazer-se neles, que sua alma antes se aflige com eles; assim como Ló, habitando entre os sodomitas, se afligia ao ver e ouvir seus atos injustos. Em uma palavra, os filhos de Deus são antes sofredores do pecado contra sua vontade do que seus autores por vontade própria: como homens espiritualmente oprimidos pelo poder de seu inimigo, pelo qual suspiram e clamam a Deus. "Ó homem miserável que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" E é nesse sentido que o apóstolo diz: "Quem é nascido de Deus não peca" (1 João 3:9). William Cowper.
Também não praticam iniquidade. A bem-aventurança dos que andam na lei: eles não praticam — ou não praticaram — nenhuma maldade: mas andam — ou sempre andaram — nos caminhos dele. Ao longo do Salmo, pode-se notar que, às vezes, emprega-se o tempo presente, indicando ação presente: às vezes, o perfeito, indicando tempo passado e presente: Salmos 119:10-11; Salmos 119:13-14; Salmos 119:21; Salmos 119:51-61; Salmos 119:101-102; Salmos 119:131; Salmos 119:145; Salmos 119:147. The Speaker's Commentary, 1873.
Também não praticam iniquidade. Isto é, não fazem disso ofício nem prática comum. Escorregam, sim, pela fraqueza da carne, pela sutileza de Satanás, e pelos atrativos do mundo; mas não seguem, de modo ordinário e habitual, por caminhos ilícitos e pecaminosos. Ao estabelecer isso como parte — e não a menor parte — da bem-aventurança, que não praticam iniquidade os que andam em seus caminhos, a doutrina a se aprender aqui é esta: é um privilégio extraordinariamente grande estar livre da escravidão do pecado. Richard Greenham.
Não praticam iniquidade. Todos os que são renovados pela graça, e reconciliados com Deus por Cristo Jesus; a estes Deus não imputa pecado para condenação, e em sua conta eles não praticam iniquidade. Notável é o que se diz de Davi: "Guardou os meus mandamentos, e me seguiu de todo o seu coração, e fez somente o que era reto aos meus olhos" (1 Reis 14:8). Como pode ser isso? Podemos rastrear as falhas de Davi, elas estão registradas em toda parte na palavra; e, no entanto, aqui um véu é lançado sobre elas; Deus não as lançou à sua conta.
Há uma dupla razão pela qual suas falhas não lhes são imputadas. Em parte, por causa de seu estado geral: estão em Cristo, tomados em favor por meio dele, e "não há condenação para os que estão em Cristo" (Romanos 8:1), por isso erros e deslizes particulares não alteram sua condição; o que não deve ser entendido como se um homem não devesse se humilhar e pedir a Deus perdão por suas fraquezas; não, pois então elas se tornam iniquidades e ficarão registradas contra ele. Foi uma fantasia grosseira dos valentinianos, que sustentavam não estarem manchados pelo pecado, fosse lá o que cometessem; ainda que fossem pessoas vis e obscenas, permaneciam como ouro na lama. Não, não; devemos nos recuperar pelo arrependimento, e implorar o favor de Deus. Quando Davi se humilhou e se arrependeu, então Natã disse: "O Senhor afastou o teu pecado" (2 Samuel 12:13).
Em parte, também, porque sua tendência e inclinação habituais são para agir de outro modo. Eles se dispõem a se conformar à vontade de Deus, a buscar e servir ao Senhor, ainda que carregados de muitas fraquezas. Um homem ímpio peca com deliberação e prazer, sua inclinação é para o mal, ele "provê para as concupiscências" (Romanos 13:14), e as "serve" por sujeição voluntária (Tito 3:3). Mas os que são renovados pela graça não são "devedores" à carne, tomaram outra dívida e obrigação, que é servir ao Senhor (Romanos 8:12).
Em parte, também, porque seu curso e caminho gerais são para agir de outro modo. Cada coisa opera segundo sua forma; as ações constantes da natureza são conforme sua espécie. Assim a nova criatura, suas operações constantes são conforme a graça. Um homem se conhece por seu costume, e o curso de seus esforços mostra qual é o seu ofício. Se um homem é constante, facilmente, frequentemente arrastado para o pecado, isso revela o hábito de sua alma, e o temperamento de seu coração. Prados podem ser inundados, mas terreno de pântano se afoga a cada retorno da maré. Um filho de Deus pode ser ocasionalmente arrastado, e agir contra a inclinação da nova natureza; mas quando os homens se afogam e são vencidos a cada retorno da tentação, isso indica um hábito de pecado.
E em parte, também, porque o pecado nunca domina por completo, mas é combatido pelas repugnâncias e resistências da nova natureza. Os filhos de Deus fazem questão de evitar todo pecado, vigiando, orando, mortificando: "Disse: guardarei os meus caminhos, para não pecar com a minha língua" (Salmos 39:1), e assim há uma resistência ao pecado. Deus plantou graças em seus corações, o temor de sua Majestade, que gera resistência; e por isso não há um pleno consentimento no que fazem. Essa resistência às vezes é mais forte, e a tentação é vencida: "Como poderia eu cometer esta maldade, e pecar contra Deus?" (Gênesis 39:9). Às vezes é mais fraca, e então o pecado prevalece, ainda que contra a vontade do homem santo: "O mal que odeio, isso faço" (Romanos 7:15; Romanos 7:18). É o mal que eles odeiam; protestam contra ele; são como homens oprimidos pelo poder do inimigo. E depois há remorso após o pecado: o coração de Davi o feriu. Isso os aflige e envergonha por terem feito o mal. A ternura acompanha a nova natureza: Pedro pecou gravemente, mas saiu e chorou amargamente. Thomas Manton.
Os que mortificaram seus pecados vivem nas graças contrárias. Daí o salmista dizer que não praticam iniquidade, mas andam em teus caminhos. Primeiro, crucificam todos os seus pecados, "não praticam iniquidade": segundo, assim como não praticam iniquidade, também seguem todos os caminhos de Deus, contrários àquela iniquidade: assim como abandonam todos os caminhos do pecado, também tomam todos os caminhos da graça. É uma regra na teologia que a graça não retira a natureza — isto é, a graça não vem para retirar os afetos de um homem, mas para tomá-los para si. William Fenner, 1600-1640.
Andam nos caminhos dele. Isso repreende os que se contentam em ficar nas negações. Como se disse de certo imperador, ele era antes não vicioso do que virtuoso. Para muitos homens, toda a sua religião gira em torno de "nãos": "Não sou como este publicano" (Lucas 18:11). Aquele solo é ruim, ainda que não produza espinhos e cardos, se não produz bom fruto. Não só o servo desordeiro é lançado no inferno, aquele que espancou seu conservo, que comeu e bebeu com os bêbados; mas também o servo ocioso que enrolou seu talento num pano. Meroz é amaldiçoada, não por se opor e lutar, mas por não ajudar (Juízes 5:23) [sic]. O rico não tirou o alimento de Lázaro, mas também não lhe deu de suas migalhas.
Muitos dirão: não erijo outros deuses; sim, mas amas, reverencias e obedeces ao Deus verdadeiro? Pois, se não, falhas no primeiro mandamento. Quanto ao segundo, dizes: abomino os ídolos; mas te deleitas nas ordenanças? Não juro nem profano o nome de Deus com juramentos malditos; sim, mas glorificas a Deus, e o honras? Não profano o sábado; mas o santificas? Não aras nem danças; mas ficas ocioso, e desperdiças o sábado brincando. Não desonras teus pais; mas os reverencias? Não matas; mas fazes o bem a teu próximo? Não és adúltero; mas estudas a temperança e uma santa sobriedade em todas as coisas? Não és caluniador; mas és zeloso da honra e do crédito de teu próximo, como do teu próprio? Normalmente os homens cortam a metade de sua conta, como o mordomo injusto mandou o devedor de seu senhor lançar cinquenta quando devia cem. Não pensamos nos pecados de omissão. Se não somos bêbados, adúlteros e pessoas profanas, não pensamos no que significa omitir o respeito a Deus, e a reverência à sua santa Majestade. Thomas Manton.
Andam nos caminhos dele. Não nos caminhos de seus inimigos, nem tampouco nos seus próprios. Joseph Addison Alexander, 1860.
Andam nos caminhos dele. Habitualmente, constantemente, caracteristicamente. Não são apenas honestos, retos e justos em seus tratos com os homens; mas andam nos caminhos de Deus; são religiosos. Albert Barnes, 1798-1870.
Versículo 4Salmo 119:4
Tu ordenaste que se guardassem diligentemente os teus preceitos. Não é uma matéria adiáforon — indiferente, deixada ao critério dos homens — ouvir ou negligenciar os discursos sagrados, as leituras teológicas e as exposições do Livro Sagrado; mas Deus ordenou, e não ordenou de passagem, ao falar de outro assunto, mas meod — com seriedade e em grande medida — ordenou que guardássemos os seus preceitos. Devem estar fixadas em nossa mente as palavras encontradas em Deuteronômio 6:6, "As minhas palavras estarão no teu coração"; em Mateus 17:5, "Ouvi-o"; em João 5:39, "Examinai as Escrituras". Acima de tudo, os estudantes de teologia devem lembrar-se da regra paulina em 1 Timóteo 4:13: "Aplica-te à leitura." Solomon Gesner.
Tu ordenaste», etc. Deus nos ordenou observar seus preceitos com tanto cuidado e diligência? Então que nada nos afaste disso, não, nem no menor detalhe; não consideremos desnecessário, frívolo ou supérfluo nada que tenhamos garantia de sua palavra; nem tenhamos por demasiado escrupulosos ou minuciosos os que se mantiverem firmes nisso: se o Senhor exige algo, ainda que o mundo o conteste, e sejamos ridicularizados e maltratados por fazê-lo, prossigamos ainda assim no curso de nossa obediência. Richard Greenham.
Diligentemente. Por três razões devemos guardar os mandamentos do Senhor com diligência: primeiro, porque nosso adversário, que busca nos enredar pela transgressão deles, é diligente em tentar, pois anda de noite e de dia buscando nos devorar; segundo, porque nós mesmos somos fracos e enfermos, e por isso precisamos de maior diligência para vigiar a nós mesmos; terceiro, por causa da grande perda que sofremos a cada vantagem que Satanás obtém sobre nós; pois sabemos por experiência que, assim como um ferimento se faz mais depressa do que se cura, também a culpa da consciência se contrai facilmente, mas não se remove com a mesma facilidade. William Cowper.
Diligentemente. Neste versículo, ele lembra ao leitor o quanto bem sabia que este estudo da lei divina precisa necessariamente ser sério e empenhado, já que Deus ordenou que fosse observado diligentemente; isto é, com o mais profundo estudo; como algo que só é bom, e como tudo é bom naquilo que ele ordena. Antonio Brucioli, 1534.
A palavra traduzida como "diligentemente" significa, na língua original, algo como "muitíssimo", de modo que as palavras ficam assim: "Tu ordenaste guardar os teus preceitos muitíssimo." Richard Greenham.
Versículos 4–5Salmo 119:4-5
Tu ordenaste que se guardassem diligentemente os teus preceitos (Salmos 119:4); este é o imperativo de Deus. Ah, quem dera fossem os meus caminhos dirigidos a guardar os teus estatutos! (Salmos 119:5); este deveria ser o nosso desejo. Thomas Adams, 1614.
É muito digno de nota, a respeito de Davi, que, quando ele ora com tanta intensidade, "Ah, quem dera fossem os meus caminhos dirigidos a guardar os teus estatutos", ele antecipa isto como o motivo: "Tu ordenaste que guardássemos os teus estatutos diligentemente", sugerindo com isso que o fundamento de sua obediência aos preceitos de Deus era o selo da autoridade divina que os ordenava. Para este propósito é que ele diz em Salmos 119:94: "Busquei os teus preceitos", implicando com isso que o que ele buscava em sua obediência era o cumprimento da vontade de Deus. De fato, só é propriamente obediência aquela que se faz intuitu voluntatis divinae — com respeito a, e olhando para, a vontade divina. Assim como só é fé divina aquela que crê numa verdade não por razão humana, mas por revelação divina, também só é verdadeira obediência aquela que se conforma ao mandamento, não porque possa coincidir com quaisquer fins egoístas, mas porque carrega em si uma marca da autoridade de Cristo. Nathanael Hardy.
Versículo 5Salmo 119:5
Ao traçar a conexão deste versículo com o precedente, não podemos deixar de notar quão precisamente se conserva o caminho do meio, mantendo-nos a igual distância tanto da ideia de autossuficiência para guardar os estatutos do Senhor, quanto da autojustificação em negligenciá-los. A primeira tentativa de render obediência espiritual logo nos convencerá de nossa total impotência. Tão bem poderíamos criar um mundo quanto criar em nossos corações um único pulso de vida espiritual. E, no entanto, nossa incapacidade não anula nossa obrigação. É a fraqueza de um coração que "não se pode sujeitar à lei de Deus" por nenhuma outra razão senão porque é "carnal", e por isso "inimizade contra Deus." Nossa incapacidade é nosso pecado, nossa culpa, nossa condenação, e, em vez de desculpar nossa condição, fecha nossa boca, e nos deixa destituídos de qualquer defesa diante de Deus. Assim, nossa obrigação permanece em pleno vigor. Somos obrigados a obedecer aos mandamentos de Deus, quer possamos, quer não. O que resta, então, senão devolver a ordem ao céu, acompanhada de uma oração fervorosa, para que o Senhor escreva em nossos corações aqueles estatutos aos quais exige obediência em sua palavra? Tu ordenaste que guardássemos os teus estatutos diligentemente. Reconhecemos, Senhor, nossa obrigação, mas sentimos nossa impotência. Senhor, ajuda-nos; a ti olhamos. Ah, quem dera fossem os meus caminhos dirigidos a guardar os teus estatutos. Charles Bridges, 1849.
Ah, quem dera», etc. No versículo anterior, o profeta Davi observa a ordem que Deus dá, que é que os seus mandamentos sejam guardados diligentemente: aqui, então, ele observa a sua própria fraqueza e insuficiência para cumprir esse grande dever, e por isso, como alguém que pelo espírito deseja cumpri-lo, mas pela carne não consegue cumpri-lo, ele irrompe nestas palavras: "Ah, quem dera fossem os meus caminhos dirigidos", etc. Muito semelhante a uma criança que, sendo mandada a levantar do chão algum grande peso, está disposta a fazê-lo, embora não seja capaz de fazê-lo: ou um paciente doente, aconselhado a caminhar muitas voltas em seu quarto, encontra em seu coração o desejo, ainda que em seu corpo a incapacidade, de fazer aquilo para que foi orientado. Richard Greenham.
Ah, quem dera os meus caminhos», etc. É próprio do costume e do dever do povo de Deus transformar preceitos em orações. Que essa é a prática dos filhos de Deus, aparece: "Converte-me, e serei convertido; pois tu és o Senhor meu Deus" (Jeremias 31:18). Deus tinha dito, "Convertei-vos, e vivereis", e eles pedem a Deus, "Converte-nos", assim como ele exigia deles. Foi a oração de Agostinho: Da quod jubes, et jube quod vis — "Dá o que exiges, e exige o que quiseres." É o dever dos santos; pois, primeiro, isso se ajusta à aliança do Evangelho, onde preceitos e promessas caminham de mãos dadas; onde Deus dá o que ordena, e opera todas as nossas obras em nós e por nós. Eles não são apenas condições da aliança, mas parte dela. O que Deus exigiu de nossas mãos, isso podemos desejar de suas mãos. Deus não é um Faraó, que exige tijolo onde não dá palha. Lex jubet, gracia juvat — a lei ordena, a graça ajuda. Os artigos da nova aliança não são postos apenas na forma de preceitos, mas de promessas. A lei não dá força para cumprir coisa alguma, mas o Evangelho oferece graça.
Segundo, porque, por esse meio, os propósitos de Deus se cumprem. Por que Deus exige o que não podemos cumprir por nossa própria força? Ele o faz: (1) para manter seu direito. (2) para nos convencer de nossa impotência, e de que, à prova, sem sua graça não podemos fazer sua obra. (3) para que a criatura possa expressar sua prontidão em obedecer. (4) para nos trazer a lançar-nos a seus pés em busca de graça. Thomas Manton.
Ah, quem dera», etc. A vida inteira de um bom cristão é um santo desejo, diz Agostinho; e este é sempre secundado pelo empenho, sem o qual o afeto é como Raquel, formosa, mas estéril. John Trapp.
Ah, quem dera fossem os meus caminhos dirigidos», etc. A palavra original, kun, às vezes se traduz como "estabelecer", e, assim, poderia parecer que o profeta estivesse pedindo para si mesmo a virtude da perseverança. Inclino-me antes a entendê-la no sentido de "dirigir para"; pois, embora Deus claramente nos instrua em sua lei, a obtusidade de nosso entendimento e a perversidade de nosso coração precisam constantemente da direção do seu Espírito. João Calvino.
Versículo 6Salmo 119:6
Então não serei envergonhado. Ninguém gosta de ser envergonhado ou de corar: por isso todas as coisas que trazem vergonha atrás de si devem ser evitadas: Esdras 9:6, Jeremias 3:25, Daniel 9:7; Daniel 9:9. Assim como o artesão mantém os olhos fixos em seu modelo, e o estudante na cópia de seu mestre de caligrafia; assim o homem piedoso, a todo momento, volta os olhos para a palavra de seu Deus. Martin Geier.
Há uma vergonha dupla: a vergonha de uma consciência culpada, e a vergonha de uma consciência sensível. Uma é o mérito e o fruto do pecado; a outra é um ato de graça. A que aqui se fala deve ser entendida não como um santo desagrado de si mesmo, mas como uma vergonha que confunde. Thomas Manton.
Então não serei envergonhado», etc. Então terei confiança tanto diante de Deus quanto dos homens, e de minha própria alma, quando puder afirmar de mim mesmo que minha obediência é imparcial, uniforme e universal, sem nenhum pecado secreto reservado ao meu favor, nenhum mandamento, por menor que seja, negligenciado por mim com conhecimento ou de propósito. Henry Hammond.
Então não serei envergonhado», etc. Perguntas: por que não se envergonha quem tem respeito a todos os mandamentos de Deus? Respondo: o sentido é como se ele tivesse dito: os mandamentos de Deus são tão puros e excelentes que, ainda que os observasses todos, um a um, com a maior atenção, não encontrarias nada que te fizesse corar. As leis de Licurgo são louvadas; mas permitiam o furto. Os estatutos de Platão são louvados; mas recomendavam a comunhão das esposas. "A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma": Salmos 19:7. É um espelho, que reflete a bela luz das estrelas sobre quem nele se olha. Thomas Le Blanc.
A bênção de que aqui se fala é a liberdade da vergonha ao olhar para todos os mandamentos. Se Deus ouvir a oração, e estabelecer a alma neste hábito de guardar os mandamentos, haverá ainda esta bênção adicional de poder olhar para cada preceito sem vergonha. Muitos homens conseguem olhar para alguns mandamentos sem vergonha. Voltando-se aos dez mandamentos, o homem honesto não sente vergonha ao contemplar o oitavo, o homem puro está livre de censura ao ler o sétimo, quem é reverente e odeia a blasfêmia não é repreendido pelo pensamento de ter violado o terceiro, enquanto o espírito filial antes se deleita do que evita o quinto. E assim por diante com o restante. A maioria dos homens talvez consiga olhar para alguns dos preceitos com relativa isenção de censura. Mas quem consegue olhar assim para todos eles? No entanto, também a isto o coração piedoso aspira. Neste versículo encontramos o salmista, conscientemente, antecipando a verdade de uma palavra do Novo Testamento: "Aquele que ofende em um ponto é culpado de todos." Frederick G. Marchant.
Vergonha.
Posso suportar picadas de escorpião, pisar campos de fogo,
Jazer em golfos gelados de frio eterno;
Ser lançado ao alto através de trechos de vazio sem fim,
Mas não posso viver na vergonha. Joanna Baillie, 1762-1851.
Quando eu tiver respeito a todos os teus mandamentos. Literalmente, "em meu olhar para todos os teus mandamentos." Isto é, em seu considerá-los; em seu sentir que todos eram igualmente vinculantes para ele; e na consciência de que não havia, de propósito, negligenciado, violado ou desrespeitado nenhum deles. Não pode haver verdadeira piedade a não ser onde um homem se propõe a guardar TODOS os mandamentos de Deus. Se ele faz uma seleção entre eles, guardando este ou aquele, conforme lhe seja mais conveniente, ou mais vantajoso, ou mais popular, isso é prova plena de que nada sabe da natureza da verdadeira religião. Um filho não tem respeito próprio por um pai se só lhe obedece conforme lhe convém o capricho ou a conveniência; e nenhum homem pode ser piedoso se não se propõe, com toda honestidade, a guardar TODOS os mandamentos de Deus; a se submeter à sua vontade em tudo. Albert Barnes.
Todos os teus mandamentos. Há a mesma razão para obedecer a um mandamento como a outro — a autoridade de Deus, que é o Legislador (Tiago 2:11); e por isso, quando os homens escolhem um dever e ignoram outros, não estão tanto obedecendo à vontade de Deus, quanto satisfazendo seus próprios humores e fantasias, agradando-o apenas na medida em que também se agradam a si mesmos; e isso não é razoável; nunca lhe prestamos um "culto racional", senão quando ele é universal. Edward Veal (1632-1708), em "The Morning Exercises."
Todos os teus mandamentos. Uma obediência parcial nunca satisfará um filho de Deus. A exclusão de qualquer mandamento de seu supremo respeito no coração é a marca da hipocrisia. Até Herodes podia "fazer muitas coisas", e, no entanto, um único mau caminho cultivado, e por isso não abandonado, bastava para mostrar o poder soberano do pecado, intocado por dentro. Saul matou todos os amalequitas, menos um; e essa única exceção no caminho da obediência universal marcou a inconsistência de sua profissão, custou-lhe a perda de seu trono, e o trouxe sob o terrível desagrado de seu Deus. E assim o pé, ou a mão, ou o olho direito, os membros corruptos e não mortificados, levam o corpo inteiro para o inferno. As reservas são a gangrena da sinceridade cristã. Charles Bridges.
A todos os teus mandamentos. Admita-se que qualquer dos mandamentos de Deus possa ser transgredido, e logo teremos todo o decálogo posto de lado. Adam Clarke, 1760-1832.
Muitos fazem algum bem, mas são deficientes em outras coisas, e geralmente naquelas que são mais necessárias. Escolhem as partes mais fáceis e baratas da religião, aquelas que não contradizem seus desejos e interesses. Nunca poderemos ter paz sólida até que respeitemos a todos. Então não serei envergonhado, quando eu tiver respeito a todos os teus mandamentos. A vergonha é o temor de uma justa reprovação. Essa reprovação vem ou do juiz supremo, ou do juiz delegado. O juiz supremo de todas as nossas ações é Deus. Este deve ser nosso principal cuidado, para que não sejamos envergonhados diante dele em sua vinda, nem reprovados no juízo. Mas há um juiz delegado que todo homem tem em seu próprio peito. Nossas consciências nos absolvem ou nos condenam, conforme sejamos parciais ou sinceros em nosso dever para com Deus, e muito depende disso. 1 João 3:20-21: "Porque, se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que o nosso coração, e conhece tudo. Amados, se o nosso coração não nos condena, temos confiança para com Deus." Bem, então, para que nossos corações não nos repreendam nem nos censurem, devemos estar completos em toda a vontade de Deus. Ai, do contrário, nunca terás evidência de tua sinceridade. Thomas Manton.
Tal é a misericórdia de Deus em Cristo para com seus filhos, que ele aceita seus fracos esforços, unidos à sinceridade e à perseverança em seu serviço, como se fossem uma obediência plena... Ah, quem não serviria a tal Senhor? Ouves servos, às vezes, se queixando de seus senhores, tão rígidos e severos que nunca conseguem agradá-los; não, nem mesmo quando fazem o máximo que podem: mas isso não pode ser imputado a Deus. Basta que sejas fiel a ponto de fazer o teu melhor, e Deus é tão gracioso que perdoará o teu pior. Davi conhecia essa indulgência do evangelho quando disse: então não serei envergonhado, quando eu tiver respeito a todos os teus mandamentos, quando meu olhar estiver em todos os teus mandamentos. O viajante tem os olhos postos, ou voltados, para o lugar aonde vai, ainda que ainda esteja aquém dele; ali quer estar, e faz tudo o que pode para chegar lá: assim está o coração do santo diante de todos os mandamentos de Deus; ele avança para se aproximar cada vez mais da obediência plena; tal alma nunca será posta em vergonha. William Gurnall, 1617-1679.
Versículo 7Salmo 119:7
Eu te louvarei... quando eu tiver aprendido», etc. Não há como agradar a Deus por inteiro e sinceramente enquanto não tivermos aprendido tanto a conhecer quanto a fazer a sua vontade. O louvor prático é o louvor que Deus busca. Thomas Manton.
Eu te louvarei. Qual é o motivo pelo qual ele louva a Deus? É que lhe foi ensinado algo a respeito dele e por meio dele entre os homens. Ter aprendido qualquer língua, ou ciência, em alguma escola de filosofia, nos liga à nossa alma mater. Louvamos os que sabem ensinar um cão, um cavalo, isto ou aquilo; mas, para nós, potros de jumento, aprender a vontade de Deus, como andar de modo que lhe agrade, isto devemos reconhecer como uma grande misericórdia de Deus. Paul Bayne.
Te louvarei... quando eu tiver aprendido», etc. Mas quando diz Davi que será grato? Justamente quando Deus o ensinar. Tanto a matéria quanto a graça da gratidão vêm de Deus. Assim como fez com Abraão, ordenando-lhe adorar por meio do sacrifício, e ao mesmo tempo dando-lhe o sacrifício: assim ele faz com todos os seus filhos; pois lhes dá não só as boas coisas pelas quais devem agradecer-lhe, mas também, do mesmo modo, a graça pela qual são capazes de agradecer. William Cowper.
Quando eu tiver aprendido. Por aprender, ele quer dizer não só alcançar o conhecimento da palavra, mas a prática dela. Não é uma luz especulativa, nem uma mera noção das coisas: "Todo aquele, pois, que ouviu do Pai e aprendeu, vem a mim" (João 6:45). É um aprender tal que o efeito necessariamente o segue, uma luz e iluminação tais que convertem a alma, e moldam nosso coração e nossos caminhos conforme a vontade de Deus. Pois, de outro modo, ainda que alcancemos o entendimento da palavra, e até que a tenhamos gravada na memória, isso de nada nos valerá sem a prática. Os melhores servos de Deus são apenas estudantes e aprendizes no conhecimento e na obediência de sua palavra. Pois diz Davi: "Quando eu tiver aprendido." Os professos da religião cristã foram, primitivamente, chamados discípulos ou aprendizes: to plēthos tōn mathētōn, "a multidão dos discípulos" (Atos 6:2). Thomas Manton.
Aprendido os teus justos juízos. Vemos aqui o que Davi especialmente desejava aprender, a saber, a palavra e a vontade de Deus: ele seria sempre aluno nesta escola, e buscava, dia a dia, ascender ao mais alto grau; para que, aprendendo a conhecer, pudesse lembrar; lembrando, pudesse crer; crendo, pudesse deleitar-se; deleitando-se, pudesse admirar; admirando, pudesse adorar; adorando, pudesse praticar; e praticando, pudesse permanecer no caminho dos estatutos de Deus. Este aprendizado é, de fato, o antigo e verdadeiro aprendizado, e o mais versado nesta arte é aquele que transforma a palavra de Deus em boas obras. Richard Greenham.
Juízos de tua justiça são as decisões acerca do certo e do errado que dão expressão e põem em execução a justiça de Deus. Franz Delitzsch.
Versículo 8Salmo 119:8
Este versículo, sendo o último desta seção, é o resultado de sua meditação sobre a utilidade e a necessidade de guardar a lei de Deus; notem ali:
Sua resolução: Guardarei os teus estatutos.
Sua oração: Ah, não me abandones de todo. É seu propósito guardar a lei; mas, porque está consciente de suas muitas fraquezas, ora contra o abandono.
Na oração se pretende mais do que se expressa. "Ah, não me abandones", ele quer dizer: fortalece-me nesta obra; e, se me abandonares, que seja só por um tempo, Senhor, não para sempre; se em parte, não por inteiro. Podemos observar daí quatro pontos:
Que é uma grande vantagem chegar a uma resolução quanto a um curso de piedade.
Os que se resolvem por um curso de obediência precisam recorrer à ajuda de Deus.
Ainda que recorramos à ajuda de Deus, às vezes Deus pode se retirar, e parecer nos abandonar.
Ainda que Deus pareça nos abandonar, e de fato o faça em parte, devemos orar para que não seja um abandono total e completo. Thomas Manton.
Guardarei os teus estatutos», etc. A resolução de "guardar os estatutos do Senhor" é o resultado natural de ter "aprendido os seus justos juízos." E nesse ponto Davi ilustra a união inseparável e feliz entre a "simplicidade" da dependência e a "sinceridade piedosa" da obediência. No instante em que forma sua resolução, ele se lembra de que cumpri-la está além da força humana, e por isso, no momento seguinte, a acompanha de oração: guardarei os teus estatutos; ah, não me abandones de todo. Charles Bridges.
Guardarei. Davi dá um exemplo pessoal de santidade. Se o rei de Israel guarda os estatutos de Deus, o povo de Israel se envergonhará de negligenciá-los. César costumava dizer que os príncipes não devem dizer "Ite" — ide vós — sem mim, mas "Venite" — vinde comigo. Assim disse Gideão (Juízes 7:17): "Como me virdes fazer, assim fazei." R. Greenham.
Não me abandones de todo. Há um abandono total e um parcial. Os que se dispõem a obedecer a Deus podem, por um tempo, e em certa medida, ser deixados a si mesmos. Não podemos nos prometer imunidade total ao abandono; mas ele não é total. Descobriremos, por causa do seu grande nome, que "o Senhor não abandonará o seu povo" (1 Samuel 12:22), e que "nunca te deixarei, nem te abandonarei" (Hebreus 13:5). Não de todo, mas em parte, podem ser abandonados. Elias foi abandonado, mas não como Acabe: Pedro foi abandonado em parte, mas não como Judas, que foi abandonado de todo, e se tornou presa do Diabo. Davi foi abandonado para ser humilhado e aperfeiçoado; mas Saul foi abandonado de todo, para ser destruído.
Diz Teofilato que Deus pode abandonar o seu povo a ponto de fechar a porta às suas orações (Salmos 80:4), a ponto de interromper a paz e a alegria de seu coração, e diminuir sua força, de modo que sua vida espiritual fique muito estagnada, e o pecado irrompa, e caiam feiamente; mas não são abandonados de todo. De um jeito ou de outro, Deus ainda está presente; presente na luz, às vezes, quando não está presente na força, quando lhes manifesta o mal de sua condição presente, de modo a fazê-los lamentar por isso; e presente ao despertar seus desejos, ainda que não lhes dando o gozo. Enquanto houver alguma estima por Deus, ele ainda não se foi; ainda resta alguma luz e algum amor, manifestos por nossos desejos de comunhão com ele. Thomas Manton.
Não me abandones de todo. Os abandonos dos eleitos de Deus são, primeiro, parciais, isto é, tais em que Deus não os abandona por inteiro, mas em certa parte. Segundo, temporários, isto é, por algum espaço de tempo, e nunca além dos limites desta vida presente. "Por um momento (diz o Senhor em Isaías), em minha ira, escondi de ti o meu rosto por um pequeno instante, mas com bondade eterna terei misericórdia de ti, diz o Senhor teu Redentor." E com este propósito Davi, bem familiarizado com este assunto, ora: "Não me abandones por longo demais." Este tipo de abandono, embora seja apenas por um tempo, não deixa nenhuma parte da vida de um homem cristão livre dele; e, penetrando muitas vezes fundo no coração do homem, tais abandonos se prolongam bastante. Davi permaneceu em sua perigosa queda por quase um ano inteiro antes de se recuperar. Lutero confessa de si mesmo que, depois de sua conversão, ficou três anos em desespero. A observação comum, em casos assim, já registrou tempos ainda mais longos de abandono espiritual. Richard Greenham.
Ah, não me abandones de todo. Esta oração se lê como o clamor sobressaltado de alguém meio receoso de ter sido presunçoso ao expressar a resolução anterior. Ele desejava guardar os estatutos divinos, e, como Pedro, jurou que o faria; mas, lembrando-se de sua própria fraqueza, recua diante de sua própria ousadia, e sente que precisa orar. Fiz um voto solene, mas e se o proferi em minha própria força? E se Deus me deixar a mim mesmo? Ele se enche de terror ao pensar nisso. Irrompe num "Ah!" Implora e suplica ao Senhor que não o ponha à prova deixando-o, ainda que por um instante, inteiramente a si mesmo. Ser abandonado por Deus é o pior mal que o mais melancólico dos santos já imaginou. Graças a Deus, isso nunca será o nosso destino; pois nenhuma promessa pode ser mais explícita do que a que diz: "Nunca te deixarei, nem te abandonarei." Esta promessa não impede que oremos, mas nos incita a isso. Porque Deus não abandonará os seus, clamamos a ele na angústia de nossa fraqueza: "Ah, não me abandones de todo." C. H. S.
Os oito versículos dispostos alfabeticamente:
Por que meio purificará o jovem o seu caminho? Tendo cuidado nisso, segundo a tua palavra.
De dia e de noite te busquei de todo o meu coração: ah, não me deixes desviar dos teus mandamentos.
Pela tua graça escondi a tua palavra no meu coração, para não pecar contra ti.
Bendito és tu, ó Senhor: ensina-me os teus estatutos.
Com os meus lábios declararei todos os juízos da tua boca.
Muito mais do que em todas as riquezas me alegrei no caminho dos teus testemunhos.
Com a tua ajuda meditarei nos teus preceitos, e terei respeito aos teus caminhos.
Pela tua graça me deleitarei nos teus estatutos: não me esquecerei da tua palavra. Theodore Kuebler.
Os oito versículos inteiros, 9-16. Cada versículo desta seção começa com bet, uma casa. O assunto da seção é: a Lei de Jeová purificando a Vida. Palavra-chave, zakah, ser puro, purificar, limpar. F. G. Marchant.
Versículo 9Salmo 119:9
Versículo inteiro. Nesta passagem há:
Uma pergunta.
Uma resposta dada.
Na pergunta, há a pessoa de quem se fala, "um jovem", e sua tarefa, "com que purificará ele o seu caminho?" Nesta pergunta há várias coisas pressupostas.
Que somos, desde o nascimento, poluídos pelo pecado; pois precisamos ser purificados. Não se diz diretamente "o seu caminho", mas "purificar o seu caminho".
Que devemos ficar cientes desse mal bem cedo, desde a juventude; pois a pergunta é proposta a respeito do jovem.
Que devemos buscar com afinco um remédio, de como secar a fonte do pecado que corre sobre nós. Tudo isso se pressupõe.
O que se indaga é: que remédio há contra isso? Que caminho deve ser tomado? De modo que a soma da pergunta é esta: como pode um homem que é impuro, e naturalmente contaminado pelo pecado, tornar-se capaz, assim que chegue ao uso da razão, de expurgar essa corrupção natural, e viver uma vida santa e pura diante de Deus? A resposta é dada: "Tendo cuidado nisso, segundo a tua palavra." Onde duas coisas devem ser observadas.
O remédio.
O modo como é aplicado e utilizado.
O remédio é a palavra; num modo de se dirigir a Deus, chamada "tua palavra"; porque, se Deus não tivesse dado orientação sobre isso, estaríamos em total perdição.
O modo como é aplicado e utilizado, "tendo cuidado nisso", etc.; estudando e se esforçando por uma conformidade santa com a vontade de Deus. Thomas Manton.
Com que purificará o jovem o seu caminho?», etc. Aristóteles, aquele grande ditador da filosofia, desesperava de realizar um empreendimento tão grande quanto tornar um jovem capaz de seus ethika akroamata, "suas graves e severas lições de moral"; pois aquela idade é leviana e tola, e, no entanto, teimosa e intratável. Ora, tome-se um jovem em todo o calor e fervura de seu sangue, na mais alta fermentação de seus desejos juvenis; e, com todas essas desvantagens, que ele entre naquela grande escola do Espírito Santo, a divina Escritura, e se entregue à condução daqueles benditos oráculos; e ele será efetivamente convencido, por sua própria experiência, da incrível virtude, do vasto e poderoso poder da palavra de Deus, no êxito que ela tem sobre ele, e em seu progresso diário e avanços na sabedoria celestial. John Gibbon (por volta de 1660), em "The Morning Exercises."
Um jovem. Um lugar de destaque — uma das vinte e duas partes — é atribuído aos jovens no Salmo 119. É apropriado que seja assim. A juventude é a estação da impressão e do aperfeiçoamento; os jovens são os futuros esteios da sociedade, e o temor do Senhor, que é o princípio da sabedoria, precisa começar na juventude. A força, as aspirações, as expectativas ainda intactas da juventude são requisitadas pelo mundo; ah, quem dera pudessem ser consagradas a Deus. John Stephen, em "The Utterances of the 119 Psalm", 1861.
Quanto a "jovem", em hebraico a palavra é naar, isto é, "sacudido"; ou seja, afastado do cuidado mais brando e terno de seus pais. Assim entendem Mercerus e Savailerius. Em segundo lugar, naar pode ser traduzido como "sacudindo-se"; isto é, o jugo, pois um jovem começa a lançar fora o jugo materno, e frequentemente também o paterno. Thomas Le Blanc.
Purificará o seu caminho. A expressão não transmite absolutamente a impressão de que esse jovem em questão esteja num caminho corrupto e vergonhoso que precise de purificação, embora isso seja verdade de todos os homens originalmente: Isaías 53:6. O que se segue deixa claro que esse não podia ser o caso deste jovem. A própria indagação mostra que seu coração não está num estado corrupto. O desejo está presente; a direção é que se requer. A indagação é: como pode um jovem fazer um caminho limpo — uma linha de conduta pura — através deste mundo contaminador? É uma pergunta, não duvido, de grande ansiedade para todo convertido cuja mente tenha despertado para o sentido do pecado — como há de se manter livre do pecado, evitar as más companhias, e se livrar dos prazeres e práticas ímpias deste mundo escravizador. E, ao avançar na linha da integridade — com muitas tentações surgindo em seu caminho, e muita corrupção interior se levantando para dominá-lo — quantas vezes se levantará a mesma ansiosa indagação: Romanos 7:24. É só numa falsa avaliação da própria força que alguém pode pensar de outro modo, e o espírito de tal falsa avaliação será abatido. Como se sentiram vocês, meus jovens amigos, que foram trazidos a Cristo, no dia em que resolveram ser dele? Mas, para toda essa ansiedade, parece haver uma resposta no texto.
Tendo cuidado nisso, segundo a tua palavra. Não é que os jovens de nossos dias precisem de informação: precisam da inclinação. No jovem cheio de graça, há ambas, e a palavra que começou alimenta os motivos corretos. As terríveis ameaças e os doces encorajamentos, ambos o movem na direção certa. A resposta fornecida a esta ansiosa indagação é bastante clara e prática. Ele é dirigido à palavra de Deus para toda orientação, e poderíamos dizer, para toda ajuda prometida. Ainda assim, a questão apresentada sob essa luz não me parece esgotar o pleno sentido da passagem. A indagação, a meu ver, parece se estender por todo o versículo. (Esta opinião se confirma pela citação de Cowles que se segue.) Requer-se a purificação de que seu caminho esteja de acordo com a Palavra Divina. A indagação é da mais ampla compreensão, e será feita apenas por quem possa dizer que vinha se colocando honestamente no caminho, como o jovem em Salmos 119:10-11; e só pode ser respondida pelo coração que recebe toda a força fornecida pelo Deus bendito, como se expressa aqui em Salmos 119:12. O salmista faz a indagação, mostra com quanta seriedade buscou estar no caminho certo, e logo encontra toda a sua força em Deus. Assim, ele declara como foi capacitado a agir corretamente, e como agirá corretamente no futuro. John Stephen.
Em vez de pergunta e resposta ambas neste único versículo, o hebraico exige a construção só com a pergunta, deixando a resposta para ser inferida do rumo do Salmo inteiro — assim: "Com que purificará o jovem o seu caminho, para o manter conforme a tua palavra?" Esta tradução dá exatamente a força da última cláusula. A pontuação hebraica carece do ponto de interrogação, de modo que não temos outra pista senão a forma da frase e o sentido, para decidir onde termina a pergunta. Henry Cowles, 1872.
O seu caminho. Orach, que aqui traduzimos como "caminho", significa uma trilha, um sulco, tal como o feito pela roda de uma carroça ou carruagem. Um jovem pecador não tem uma estrada larga e batida; tem seus caminhos particulares de ofensa, suas poluições secretas; e como será purificado destas? Como pode ser salvo daquilo que destruirá mente, corpo e alma? Que ele ouça o que se segue; a descrição vem de Deus.
Ele deve considerar que seu caminho é impuro; e quão abominável isso deve fazê-lo parecer aos olhos de Deus.
Ele deve examiná-lo segundo a palavra de Deus, e ouvir com cuidado o que Deus disse a respeito dele e disso.
Ele deve ter cuidado com ele, lishmor, guardar, vigiar e preservar seu caminho — o curso geral de sua vida — de toda contaminação. Adam Clarke.
Tendo cuidado», etc. Penso que as palavras podem ser melhor traduzidas e completadas assim: observando o que está de acordo com a tua palavra; o que mostra como um pecador há de ser purificado de seus pecados pelo sangue de Cristo, e justificado por sua justiça, e ficar limpo por meio de sua palavra; e também como e por quem se realiza no coração a obra da santificação, a saber, pelo Espírito de Deus, por meio da palavra, e qual é a regra do andar e da conduta de um homem: encontrará que a palavra de Deus é proveitosa para instruir nas doutrinas da justificação e do perdão, para familiarizá-lo com a natureza da regeneração e da santificação; e para a correção e emenda de sua vida e de seus costumes, e para sua instrução em todo ramo de conduta: 2 Timóteo 3:16. John Gill, 1697-1771.
Tendo cuidado. Há uma necessidade especial deste "ter cuidado", por causa da propensão do jovem à leviandade, ao descuido, à presunção, à autoconfiança. Há uma necessidade especial de "ter cuidado", por causa da dificuldade do caminho. "Olha bem os teus passos"; é uma vereda estreita. "Olha bem os teus passos"; é uma vereda nova. "Olha bem os teus passos"; é uma vereda escorregadia. "Olha bem os teus passos"; é uma vereda cheia de acontecimentos. James Harrington Evans, 1785-1849.
Segundo a tua palavra. A palavra de Deus é o espelho que revela toda deformidade espiritual, e também a água e o sabão que a lavam e a removem. Paul Bayne.
Segundo a tua palavra. Não digo que não haja outros guias, outras cercas. Não digo que a consciência não valha nada, e a consciência na juventude é especialmente sensível e terna; não digo que a oração não seja uma cerca muito valiosa, mas oração sem cuidado é apenas outro nome para presunção: oração e descuido nunca podem caminhar juntos de mãos dadas; e por isso digo que não há cerca nem guarda que possa manter afastado todo inimigo tão eficazmente quanto a leitura orante da palavra de Deus, trazendo cada solicitação do mundo ou dos companheiros, cada sugestão de nosso próprio coração e de nossas paixões, ao teste da palavra de Deus: o que diz a Bíblia? A resposta da Bíblia, com o ensino e a iluminação do Espírito Santo, será, em todas as complicações de nosso caminho, uma lâmpada para os nossos pés e uma luz para o nosso caminho. Barton Bouchier.
A tua palavra. A palavra é a única arma (como a espada de Golias, nenhuma se compara a esta), para abater e cortar fora este inimigo teimoso, nossas concupiscências. A palavra de Deus pode dominar nossas concupiscências quando estão em seu maior orgulho: se alguma vez a concupiscência arde mais numa época do que noutra, é quando o sangue jovem ferve em nossas veias. A juventude é volúvel, e sua concupiscência é quente e impetuosa: seu sol ainda está subindo, e ele pensa que falta muito para a noite; de modo que precisa ser um braço forte que afaste um jovem de suas concupiscências, ele que tem seu paladar na melhor posição para provar os prazeres sensuais. O vigor de sua força lhe proporciona mais dos deleites da carne do que a velhice combalida pode esperar, e ele está mais longe do temor do disparo da morte, ao que pensa, do que os velhos, que estão à própria beira da sepultura, e carregam consigo o odor da terra em que logo se dissolverão.
Pois bem, que a palavra de Deus encontre este jovem galante em toda a sua bravata, com sua festa de deleites sensuais diante de si, e apenas sussurre algumas sílabas em seu ouvido, dê à sua consciência apenas uma picada com a ponta de sua espada, e ela o fará fugir de tudo isso com tanta pressa quanto os irmãos de Absalão fugiram do banquete quando viram Amnom, seu irmão, assassinado à mesa. Quando Davi quisesse dar ao jovem uma receita para curá-lo de suas concupiscências, de como pode purificar todo o seu curso e caminho, ele o manda apenas se lavar nas águas da palavra de Deus. William Gurnall.
As Escrituras nos ensinam o melhor modo de viver, o modo mais nobre de sofrer, e o modo mais consolador de morrer. John Flavel, 1627-1691.
Versículo 10Salmo 119:10
De todo o meu coração te busquei. São muito poucos entre nós que conseguem dizer, com o profeta Davi, que buscamos a Deus de todo o coração; a saber, com tal integridade e pureza que não nos desviamos daquele alvo como da coisa mais principal de nossa salvação. João Calvino.
De todo o meu coração te busquei. A sinceridade está em cada expressão; o coração está aberto diante de Deus. O jovem pode assim falar com o Escrutador dos corações... Consideremos a franqueza deste tipo de conversa com Deus. Usamos expressões rodeadas ao nos aproximarmos de Deus. Dizemos: "De todo o coração gostaria de te buscar." Temos medo de ser diretos... Veja quão decidido, em seu agir consciente, está o jovem diante de vós, quão aberto e confiante ele é, e assim há de se encontrar a característica de sua mente piedosa em todas as expressões variadas que se desdobram neste Salmo. Aqui ele declara ao Onisciente que o buscou de todo o coração. Desejava reconhecer a Deus em tudo. John Stephen.
Só Deus vê o coração; só o coração vê a Deus. John Donne, 1573-1631.
Ah, não me deixes desviar dos teus mandamentos. Davi, depois de protestar que buscava a Deus de todo o coração, suplicou a Deus que não o deixasse declinar de seus mandamentos. Por isso vejamos quanta necessidade temos de invocar a Deus, para que ele nos segure com mão poderosa e forte. Sim, e ainda que ele já tenha aplicado com poder sua mão curadora, e saibamos também que já nos concedeu graças grandes e manifestas; ainda assim isso não é tudo: pois há tantos vícios e imperfeições em nossa natureza, e somos tão fracos e débeis, que temos grandíssima necessidade de orar a ele diariamente, sim, e cada vez mais, para que não nos deixe declinar de seus mandamentos. João Calvino.
Quanto mais experiência um homem tem nos caminhos de Deus, mais sensível ele se torna à sua própria prontidão para se desviar imperceptivelmente, por ignorância e descuido, dos caminhos de Deus; mas o jovem soldado ousa correr riscos, cavalgar até o acampamento do adversário, e conversar com a tentação, confiante de que não pode facilmente errar; ele não tem tanto temor quanto Davi, que aqui clama: "Ah, não me deixes desviar." David Dickson, 1583-1662.
Versículo 11Salmo 119:11
A tua palavra escondi no meu coração, para não pecar contra ti. Ali, depositada no coração, a palavra produz efeito. Quando os jovens leem apenas a letra do Livro, a palavra da promessa e da instrução se vê privada de boa parte de seu poder. Tampouco bastará depositá-la na mera memória. A palavra precisa ser conhecida e apreciada, e depositada no coração; precisa ocupar o afeto tanto quanto o entendimento; a mente inteira precisa ser impregnada pela palavra de Deus. As coisas reveladas precisam ser vistas. Então a palavra de Deus no coração — as ameaças, as promessas, as excelências da palavra de Deus — e o próprio Deus reconhecido, o jovem estaria interiormente fortificado; o entendimento iluminado, a consciência despertada — ele não pecaria contra o seu Deus. John Stephen.
A tua palavra escondi no meu coração, para não pecar contra ti. Na medida em que a palavra do Rei está presente no coração, "há poder" contra o pecado (Eclesiastes 8:4). Usemos mais este meio de poder absoluto, e mais vida e mais santidade serão nossas. Frances Ridley Havergal, 1836-1879.
A tua palavra escondi no meu coração. Convém que a palavra, sendo "mais preciosa que o ouro, sim, que muito ouro fino", uma pérola sem igual, não fique guardada apenas na guarita do porteiro — o ouvido externo —, mas até no gabinete da mente. Deão Boys, citado por James Ford.
A tua palavra escondi no meu coração. Há grande diferença entre os cristãos e os mundanos. O mundano tem seus tesouros em joias fora de si; o cristão os tem por dentro. Nem, de fato, há outro receptáculo em que se possa receber e guardar a palavra de consolação senão o coração apenas. Se a tiveres apenas na boca, ela te será tirada; se a tiveres apenas em teu livro, sentirás falta dela quando mais precisares dela; mas se a depositares em teu coração, como Maria fez com as palavras do anjo, nenhum inimigo jamais poderá tirá-la de ti, e a acharás um tesouro reconfortante na hora de tua necessidade. William Cowper.
A tua palavra escondi no meu coração. Este dito, esconder, sugere que Davi não se esforçava por ser ambicioso, exibindo-se e fazendo um mostruário glorioso diante dos homens; mas que tinha a Deus por testemunha daquele desejo secreto que havia dentro dele. Nunca olhou para as criaturas terrenas; mas, contente por ter tão grande tesouro, sabia muito bem que Deus, que lho havia dado, o guardaria com tanta certeza e segurança que ele não ficaria exposto a Satanás para ser tomado. São Paulo também nos declara (1 Timóteo 1:19) que o cofre em que este tesouro deve ser escondido é uma boa consciência. Pois se diz que muitos, vazios dessa boa consciência, perderam também sua fé, e foram roubados dela. Assim como se um homem abandonasse seus bens e os pusesse em risco, sem fechar uma porta, seria fácil para os ladrões entrarem e roubá-lo e despojá-lo de tudo; assim também, se deixarmos ao acaso, a Satanás, os tesouros que Deus nos deu em sua palavra, sem que ela esteja escondida nesta boa consciência, e no mais fundo de nosso coração, como aqui fala Davi, seremos despojados dela. João Calvino.
A tua palavra escondi no meu coração — lembrada, aprovada, deleitada nela. William Nicholson (1671), em "David's Harp Strung and Tuned."
A tua palavra. O dito, seu oráculo; qualquer comunicação de Deus à alma, seja promessa, ou mandamento, ou resposta. Significa uma mensagem direta e distinta, ao passo que "palavra" é mais geral, e se aplica a toda a revelação. Esta é a nona das dez palavras que se referem à revelação de Deus neste Salmo. James G. Murphy, 1875.
No meu coração. Observa Bernardo que o pão material no armário pode ser comido pelos camundongos, ou mofar e se desperdiçar: mas, quando já foi levado para dentro do corpo, está livre de tal risco. Se Deus te capacita a levar o alimento de tua alma para dentro do teu coração, ele fica livre de todo perigo. George Swinnock, 1627-1673.
Para não pecar contra ti. Entre as muitas virtudes excelentes da palavra de Deus, esta é uma: que, se a guardarmos em nosso coração, ela nos guarda do pecado, que é contra Deus e contra nós mesmos. Podemos notar, por experiência, que a palavra é primeiro roubada, seja da mente do homem, e sua lembrança se vai; seja, ao menos, do afeto do homem, de modo que a reverência por ela se vai, antes que um homem possa ser levado a cometer um pecado. Enquanto Eva guardou pela fé a palavra do Senhor, resistiu a Satanás; mas, desde o momento em que duvidou daquilo que Deus tornara certíssimo por sua palavra, foi de imediato enredada. William Cowper.
Versículo 12Salmo 119:12
Bendito és tu, ó Senhor: ensina-me os teus estatutos. Este versículo contém uma oração, com a razão da oração. A oração é: "Ensina-me os teus estatutos"; a razão, que o move a buscar isso, surge da consideração daquele bem infinito que há em Deus. Ele é um Deus bendito, a fonte de toda felicidade, sem o qual nenhum bem-estar ou felicidade pode haver para a criatura. E por essa causa Davi, desejando com fervor estar em comunhão e companheirismo com Deus, o que sabe que ninguém pode alcançar a menos que seja ensinado por Deus a conhecer o caminho de Deus e nele andar; por isso, digo, ora com maior fervor para que o Senhor lhe ensine os seus estatutos. Ah, quem dera também nós pudéssemos sabiamente considerar isto, que nossa felicidade está na comunhão com Deus. William Cowper.
Neste versículo temos duas coisas: 1. Um reconhecimento da bem-aventurança de Deus, "Bendito és tu, ó Senhor"; isto é, possuindo toda a plenitude, tens infinita complacência no gozo de ti mesmo; e és aquele único no gozo de quem eu posso ser bendito e feliz; e estás disposto e pronto a dar de tua plenitude, de modo que és a fonte de bem-aventurança para as tuas criaturas. 2. Um pedido ou súplica, "Ensina-me os teus estatutos"; como quem diz: vendo que tens toda a plenitude em ti mesmo, e és suficiente para tua própria bem-aventurança; certamente tens o bastante para mim também. Há o bastante para te contentares a ti mesmo, portanto o bastante para me satisfazeres a mim. Isso me encoraja em minha súplica.
De novo — ensina-me para que eu saiba onde buscar minha bem-aventurança e felicidade, a saber, em ti mesmo, bendito; e para que eu saiba como chegar a te desfrutar, de modo que eu seja bendito em ti. Além disso — tu és bendito originalmente, a Fonte de toda bênção; tua bem-aventurança é uma fonte eterna, uma fonte plena; sempre derramando bem-aventurança: ah, que eu tenha esta bênção de ti, esta gota da fonte. William Wisheart, em "Theologia, or, Discourses of God", 1716.
Uma vez que Deus é bendito, não podemos deixar de desejar aprender os seus caminhos. Se vemos algum ser terreno feliz, temos grande desejo de aprender o seu curso, pensando que, por meio dele, também poderíamos ser felizes. Todos gostariam de navegar com o vento daquele que prospera; embora, nas coisas terrenas, isso nem sempre se cumpra: mas um Deus bendito não pode, por nenhum de seus caminhos, trazer senão bem-aventurança. Assim, aquele que é a própria bem-aventurança estará pronto para comunicar seus caminhos a outros; as coisas mais excelentes são as mais comunicativas. Paul Bayne.
Ensina-me. Ele tinha Natã, tinha sacerdotes para instruí-lo, ele mesmo era profeta; mas todo o ensino deles não era nada sem a bênção de Deus, e por isso ora: "Ensina-me." William Nicholson.
Ensina-me. Estas palavras transmitem mais do que a simples transmissão de conhecimento, pois ele já havia dito antes que possuía tal coisa, quando disse que escondera as palavras de Deus em seu coração; e em Salmos 119:7 disse que "aprendera os juízos de sua justiça": isso inclui a graça de observar sua lei. Robert Bellarmine, 1542-1621.
Ensina-me. Se isto fosse praticado hoje, unir a oração ao ouvir, de modo que, quando nos oferecemos para ser ensinados pelos homens, também enviássemos oração a Deus, antes da pregação, durante a pregação e depois da pregação, logo nos mostraríamos mais instruídos e religiosos do que somos. William Cowper.
Ensina-me os teus estatutos. Quem quer que leia este Salmo com atenção deve observar nele uma grande característica, que é: quão decisivas são suas afirmações de que, em guardar os mandamentos de Deus, nada se pode fazer por força humana; mas que é ele quem precisa criar a vontade para o cumprimento de tal dever. O salmista suplica ao Senhor que abra os seus olhos para que possa contemplar as coisas maravilhosas da lei, que lhe ensine os seus estatutos, que aparte dele o caminho da mentira, que incline seu coração aos seus testemunhos, e não à avareza, que desvie seus olhos de contemplar a vaidade, e não tire de todo a palavra da verdade de sua boca. Cada uma dessas súplicas mostra o quanto ele estava profundamente impressionado com sua total impotência quanto a si mesmo, e o quão completamente dependente de Deus se sentia para qualquer progresso que pudesse esperar fazer no conhecimento da verdade. Todos os seus estudos na lei divina, todas as suas aspirações à santidade de vida, ele estava bem certo de que nunca poderiam alcançar sucesso algum, senão pela graça de Deus, que o previne e coopera, implantando nele um desejo reto, e agindo como guia infalível, pelo qual somente ele poderia chegar ao sentido correto da Sagrada Escritura, bem como a princípios corretos de ação em seu andar diário diante de Deus e dos homens. George Phillips, 1846.
Ensina-me os teus estatutos. Se se perguntar por que o salmista suplica ser ensinado, quando pouco antes vinha declarando o seu conhecimento, a resposta é que ele busca instrução quanto ao funcionamento prático daqueles princípios que aprendeu teoricamente. Michael Ayguan (1416), em Neale e Littledale.
Versículo 13Salmo 119:13
Com os meus lábios declarei», etc. Acima de tudo, tem o cuidado de falar aos outros daquilo que tu mesmo aprendes diariamente, e, da abundância do teu coração, fala aos homens de boas coisas. Richard Greenham.
Tendo escondido no coração a palavra purificadora, o salmista a declarará com os lábios; e, como ela é tão pura por inteiro, ele declarará tudo o que há nela, sem exceção. Quando a fonte do coração é purificada, os riachos que saem dos lábios também serão puros. Os lábios que declaram, do salmista, são aqui postos em antítese à boca de Jeová, pela qual os juízos foram originalmente pronunciados. F. G. Marchant.
Assim como a consciência de termos comunicado nosso conhecimento e nossos dons espirituais é um meio de nos encorajar a buscar uma medida maior, também é evidência da sinceridade e da fecundidade do conhecimento que já temos: ensina-me os teus estatutos; com os meus lábios declarei todos os juízos da tua boca. David Dickson.
Com os meus lábios», etc. A língua é um membro excelentíssimo do corpo, quando bem empregada para a glória de Deus e a edificação dos outros; e, no entanto, não pode pronunciar sem a ajuda dos lábios. O Senhor fez o corpo do homem com tamanha sabedoria maravilhosa, que nenhum membro dele pode dizer a outro, não preciso de ti; mas tal é a torpeza do homem, que ele não repara em quão útil lhe é o menor dos membros do corpo, até que lhe seja tirado. Se nossos lábios estivessem trancados por um tempo, e nossa língua assim fechada, consideraríamos grande misericórdia tê-la solta de novo; como aquele coxo que, ao encontrar o uso de seus pés, saltou de alegria e glorificou a Deus. William Cowper.
Declarei todos os juízos. Ele diz em outro lugar (Salmos 36:6): "Os teus juízos são um grande abismo." Como diz o apóstolo (Romanos 11:33-34): "Ó profundidade das riquezas da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Pois quem conheceu a mente do Senhor?" Se os juízos são insondáveis, como então diz o profeta, "declarei todos os juízos da tua boca"? Respondemos: talvez haja juízos de Deus que não são os juízos de sua boca, mas somente de seu coração e de sua mão.
Fazemos uma distinção, pois não temos medo de que a Sagrada Escritura se enfraqueça em contradições. Ela não disse: "os juízos de sua boca são um grande abismo"; mas "os teus juízos." Nem o apóstolo disse: "os insondáveis juízos de sua boca"; mas "os seus insondáveis juízos." Podemos considerar, então, os juízos de Deus como aqueles ocultos, que ele não nos revelou; mas os juízos de sua boca, como aqueles que ele deu a conhecer, e falou pela boca dos profetas. Ambrósio, 340-397.
Versículo 14Salmo 119:14
Alegrei-me no caminho dos teus testemunhos», etc. O salmista não diz apenas: "Alegrei-me em teus testemunhos", mas: "no caminho dos teus testemunhos." Caminho é uma das palavras pelas quais a lei se expressa. As leis de Deus são caminhos que nos conduzem a Deus; e assim pode-se entender aqui, "o caminho que teus testemunhos apontam, e para o qual me chamam"; ou então sua própria prática, pois o proceder de um homem se chama seu caminho; seu deleite não estava na especulação ou na conversa, mas na obediência e na prática: "no caminho dos teus testemunhos." Ele nos diz o grau de sua alegria, tanto quanto em todas as riquezas: "tanto", não para mostrar a igualdade dessas coisas, como se devêssemos ter o mesmo afeto pelo mundo que pela palavra de Deus; mas "tanto", porque não temos comparação mais alta.
Isto é aquilo em que os mundanos se derretem, e em que se deleitam; ora, tanto quanto eles se alegram nas posses mundanas, tanto me alegro eu no caminho dos teus testemunhos. Pois suponho que Davi não compare seu próprio deleite na palavra com seu próprio deleite na riqueza; mas sua própria escolha e deleite, com a escolha e o deleite de outros. Se tivesse falado de si mesmo em ambos os aspectos, a expressão seria muito elevada. Davi, que fora chamado a uma coroa, e em condições de desfrutar de muito no mundo, ouro, prata, terra, bens, vastidão de território, e uma combinação de tudo aquilo que todos os homens juntos, e todos os homens separadamente, possuem; ainda assim tinha mais prazer na santidade dos caminhos de Deus, do que em todo o mundo: "Pois que aproveitará ao homem, se ganhar o mundo inteiro, e perder a sua própria alma?" (Marcos 8:36). Thomas Manton.
O caminho dos teus testemunhos. O testemunho de Deus é sua palavra, pois testifica sua vontade; o "caminho" de seu testemunho é a prática de sua palavra, e o fazer daquilo que ele declarou ser sua vontade, e em que prometeu nos mostrar seu amor. Davi não encontrava essa doçura apenas em ouvir, ler e professar a palavra; mas em praticá-la: e, de fato, a única razão pela qual não encontramos o consolo que há na palavra de Deus é que não a praticamos, andando em seu caminho. É verdade que, a princípio, é amargo para a natureza, que ama a liberdade carnal, render-se cativa da palavra: laboriosa virtutis via — árduo é o caminho da virtude —, e muito esforço deve ser empreendido antes que o coração seja subjugado; mas, uma vez começado, isso rende tal alegria que recompensa amplamente todo o trabalho e a tristeza anteriores. William Cowper.
As riquezas se adquirem com dificuldade, se desfrutam com temor, e se perdem com amargura. Bernardo, 1091-1157.
Uma pobre e boa mulher disse, em tempo de perseguição, quando tomavam as Bíblias dos cristãos: "Não posso me separar de minha Bíblia; não sei como viver sem ela." Quando uma alma cheia de graça ouve um sermão proveitoso, ela diz: "Parece-me que isto faz bem ao meu coração; é o maior alimento que tenho": alegrei-me no caminho dos teus testemunhos, tanto quanto em todas as riquezas. Oliver Heywood, 1629-1702.
Versículo 15Salmo 119:15
Meditarei nos teus preceitos», etc. Até aqui, Davi vinha mostrando o que tinha feito; agora, o que fará. Salmos 119:10, "busquei"; Salmos 119:11, "escondi"; Salmos 119:12, "declarei"; Salmos 119:14, "alegrei-me." Agora, nos dois versículos seguintes, ele se compromete a fixar sua marca em direção a Deus para o tempo futuro. "Meditarei nos teus preceitos", etc. Não repousamos sobre nada já feito e passado, mas continuamos a mesma diligência até o fim. Aqui está a resolução sincera e o propósito de Davi, de prosseguir no tempo futuro. Muitos dirão: assim fiz quando era jovem, ou tinha mais lazer e descanso; naquilo meditei e conversei. Precisas continuar ainda num curso santo. Começar a construir, e deixar inacabado, é argumento de tolice. Thomas Manton.
Meditarei nos teus preceitos. Não apenas sobre teus preceitos ou a respeito deles, mas neles, enquanto ocupado em cumpri-los. Joseph Addison Alexander.
Eu quero. Veja este "eu quero" repetido vez após vez (Salmos 119:48; Salmos 119:78). Na meditação, é difícil (ao menos às vezes) afastar nossos pensamentos dos compromissos prévios com outros assuntos, e aplicá-los ao dever. Mas é mais difícil tornar-se devidamente sério ao agir nisso; mais difícil ainda mergulhar e ponderar; e o mais difícil de tudo é continuar numa morada de pensamentos, e ali permanecer tempo suficiente, e, depois de olhar, olhar de novo, para reproduzir o mesmo pensamento, saborear as coisas repetidas vezes, quando o frescor e a novidade já passaram, quando, de tanto pensar, as coisas diante de nós parecem antigas.
Estamos prontos a nos tornar mortos e apáticos num exercício, a menos que nos despertemos com frequência nele. É difícil aguentar e persistir, a menos que mantenhamos um olho vigilante, um afeto caloroso, uma resolução forte e repetidamente renovada; sim, e sem elevar com frequência a alma a Cristo, em busca de novos reforços de força para persistir.
Davi, tão excelente artista neste caminho, diz que meditará; diz com frequência que o fará. Sem dúvida, não apenas disse "eu quero" ao entrar nesta obra árdua; mas também para nela perseverar, para manter seu coração de esmorecer, até bem terminar sua obra. Não é cavar na mina de ouro, mas cavar por muito tempo, que encontra e traz à tona o tesouro. Não é mergulhar no mar, mas permanecer mais tempo, que traz maior quantidade de pérolas. Estender o fio de ouro da meditação até seu devido comprimento, até que os fins espirituais sejam alcançados, é uma conquista rara e feliz. Nathanael Ranew, 1670.
Meditarei. Quanto mais aumentaria a nossa "alegria nos testemunhos" de Deus, com uma meditação mais habitual sobre eles! Esta é, porém, uma resolução à qual a mente carnal nunca pode ser levada a fazer, e à qual a mente renovada, por causa da depravação remanescente, muitas vezes se mostra tristemente relutante. Mas é um ofício bendito, e recompensará mil vezes a dificuldade de engajar o coração, tão relutante, neste dever. Charles Bridges.
A meditação tem uma influência tão feliz que torna a mente sábia, os afetos calorosos, a alma robusta e florescente, e a conversa grandemente frutífera. Nathanael Ranew.
Medita nos», teus preceitos. Estuda as Escrituras. Se um homem famoso apenas escreve um livro excelente, ah, como ansiamos por vê-lo! Ou suponde que eu vos dissesse que há na França, ou na Alemanha, um livro que o próprio Deus escreveu, tenho certeza de que os homens tirariam todo o dinheiro de vossas bolsas para conseguir esse livro. Vós o tendes convosco: ah, quem dera o estudásseis! Quando o eunuco viajava em sua carruagem, estudava o profeta Isaías. Ele não se irritou quando Filipe veio e, como pensaríamos, lhe fez uma pergunta ousada: "Entendes o que lês?" (Atos 8:27-30); ele se alegrou com isso. Um dos grandes propósitos do ano da remissão era que a lei fosse lida (Deuteronômio 31:9-13). É a sabedoria de Deus que fala na Escritura (Lucas 11:49); portanto, seja qual for tua outra ocupação, estuda a Bíblia de verdade e com cuidado. Samuel Jacomb (1629-1659), em "The Morning Exercises".
Terei respeito. Um é fruto do outro: "meditarei"; e depois, "terei respeito." A meditação existe para a prática; e, se for reta, gerará respeito pelos caminhos de Deus. Não meditamos para repousar na contemplação, mas para a obediência: "Meditarás no livro da lei de dia e de noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme tudo quanto nele está escrito" (Josué 1:8). Thomas Manton.
E terei respeito aos teus caminhos — como o arqueiro tem para com seu alvo. John Trapp.
Respeito aos teus caminhos. Não é sem um prazer peculiar que, ao viajar, contemplamos os edifícios esplêndidos, os jardins, as fortificações, ou as belas galerias de arte. Mas o que são todas essas vistas, comparadas à contemplação dos caminhos de Deus, que ele mesmo percorreu, ou que traçou para o homem? E que necessidade prática há de considerarmos o caminho, pois, do contrário, seremos como um cocheiro sonolento, que não observa com cuidado a estrada, e que pode em breve derrubar a si mesmo e a seus passageiros. Martin Geier.
Teus caminhos. A segunda ação interna de Davi a respeito da palavra é a consideração; onde note bem como, por uma expressão muito apropriada, ele chama a palavra de Deus de os caminhos de Deus; em parte, porque por ela Deus se aproxima dos homens, revelando-se a eles, que de outro modo não poderiam conhecê-lo; pois ele habita em luz inacessível; e em parte, porque a palavra é o caminho que conduz os homens a Deus. Assim, pois, porque por ela Deus desce aos homens, e por ela os homens sobem a Deus, e sabem como ter acesso a ele, por isso sua palavra é chamada seu caminho. William Cowper.
Versículos 15–16Salmo 119:15-16
Os dois últimos versículos desta seção nos apresentam uma tripla ação interna da alma de Davi para com a palavra de Deus: primeiro, a meditação; segundo, a consideração; terceiro, o deleite: cada uma delas procede da outra, e mutuamente se fortalecem. A meditação traz a palavra à mente; a consideração a observa e nela olha demoradamente, do que nasce o deleite. Aquilo que vem à mente, por melhor que seja, se não for considerado, vai embora como veio, sem deixar nem instrução nem alegria; mas, uma vez apresentado pela meditação, se for ponderado pela consideração, então gera deleite, que é a perfeição da piedade, no que respeita à ação interna. William Cowper.
Versículo 16Salmo 119:16
Deleitar-me-ei», etc. Ele havia protestado antes que tinha grande deleite nos testemunhos de Deus: agora diz que ainda se deleitará neles. Um homem verdadeiramente piedoso, quanto mais bem faz, mais deseja, deleita-se e se resolve a fazer. Os tíbios, ao contrário, que têm apenas uma aparência de piedade, e cujo amor por ela não está enraizado no coração, quão depressa se cansam de fazer o bem! Se fizeram algum pequeno dever externo da religião, descansam como se estivessem plenamente satisfeitos, e não houvesse mais bem algum a ser feito por eles. A verdadeira religião se conhece por ter fome e sede de justiça, por perseverar em fazer o bem, e por um desejo sincero de fazer mais.
Mas a isso ele acrescenta que não se esquecerá da palavra. As graças do Espírito, cada uma delas, fortalece e reforça a outra; pois veja que a meditação ajuda a consideração. Quem pode considerar aquilo em que não pensa? A consideração, por sua vez, gera deleite; e, como vedes aqui, o deleite fortalece a memória: porque ele se deleita na palavra, não se esquecerá da palavra; e a memória, por sua vez, renova a meditação. Assim, cada graça do Espírito ajuda a outra; e, ao contrário, uma delas negligenciada, opera um decaimento surpreendente no resto. William Cowper.
Deleitar-me-ei. Quando a justiça, de assunto de imposição, se torna assunto de escolha, ela muda instantaneamente toda a sua natureza, e se eleva a uma categoria moral mais alta do que antes. O mesmo Deus, a quem é impossível mover pela autoridade da lei, se move por sua própria e original inclinação no próprio caminho da justiça da lei. E assim, nós, na medida em que somos semelhantes a Deus, ficamos vivos para as virtudes daquela mesma lei, para cujo terror de suas severidades estamos de todo mortos. Já não estamos sob um mestre-escola; mas a obediência se transforma de coisa de força em coisa de espontaneidade. É moldada a um estado e caráter mais elevados do que antes. Não somos levados a ela pelo Deus da autoridade. Somos atraídos a ela pela consideração de um coração agora disposto a toda excelência moral e espiritual. Thomas Chalmers, 1780-1847.
A meditação não deve ser coisa maçante, triste e desanimada: não um arrastar-se como as carruagens dos egípcios quando suas rodas foram tiradas, mas como as carruagens de Aminadabe (Cântico dos Cânticos 6:12), que corriam velozes. Assim, oremos: Senhor, na meditação faze-me como as carruagens de Aminadabe, para que minha corrida veloz evidencie meu deleite em meditar. O santo Davi faz do deleite tal ingrediente ou auxiliar aqui, que às vezes chama o exercício da meditação pelo nome de "deleite", falando, no versículo anterior, desta meditação, "meditarei nos teus preceitos", e em Salmos 119:16, "deleitar-me-ei nos teus estatutos"; o que é o mesmo que meditação, apenas acrescentando a excelente qualificação que a devida meditação deveria ter; o nome de deleite se dá à meditação por causa de seu nobre acompanhante — a santa alegria e a satisfação. Nathanael Ranew.
Deleitar-me-ei. A palavra é bem enfática: eshtaasha, saltarei em torno e pularei de alegria. Adam Clarke.
Não me esquecerei. O deleite impede o esquecimento: a mente correrá atrás daquilo em que o coração se deleita; e o coração está onde está o tesouro (Mateus 6:21). Os homens mundanos, que estão atentos aos interesses carnais, esquecem a palavra, porque ela não é o seu deleite. Se algo nos desagrada, ficamos contentes se pudermos esquecê-lo; é um certo alívio de um incômodo afastar dele nossos pensamentos; mas dobra o contentamento de uma coisa em que nos deleitamos, lembrá-la e trazê-la à mente. Na escola externa, se um aluno, por sua própria aversão ao aprendizado, ou pela severidade e imprudência de seu mestre, não tem deleite em seu livro, tudo o que aprende se perde e se esquece, entra por um ouvido e sai pelo outro: mas esta é a verdadeira arte da memória, fazer com que se deleitem naquilo que aprendem. As instruções que recebemos com doçura ficam conosco, e correm em nossa mente noite e dia. Assim diz Davi aqui: deleitar-me-ei nos teus estatutos: não me esquecerei da tua palavra. Thomas Manton.
Esquecerei. Nunca ouvi falar de um velho avarento que tivesse esquecido onde enterrou seu tesouro. Cícero, De Senectute.
Versículo 17Salmo 119:17
Faze bem ao teu servo», etc. Estas palavras poderiam ser: "concede ao teu servo", ou "sobre o teu servo." Parece haver aqui uma significação profunda. O homem santo assumirá a responsabilidade de ser tratado, não certamente como um mero homem pecador, mas como um homem que se coloca no caminho ordenado para a reconciliação. É este, de fato, o caso, como se lê em Salmos 119:16, na parte imediatamente anterior: "deleitar-me-ei nos teus estatutos; não me esquecerei da tua palavra." Ora, os estatutos do Senhor se referiam preeminentemente aos sacrifícios pelo pecado, e à purificação para as purificações prescritas na Lei. É preciso conceber o homem de Deus como estando no meio do ritual levítico, para o qual o vemos fazendo todos os preparativos: 1 Crônicas 22:1-19; 1 Crônicas 23:1-32; 1 Crônicas 24:1-31. Colocando-se, portanto, sobre estes, ele oraria para que o Senhor o tratasse conforme eles; ou, como diríamos na linguagem do Novo Testamento, colocando-se sobre a grande expiação, o crente oraria para que o Senhor o tratasse conforme sua posição em Cristo, o que seria com graça e liberalidade. Pois, se o Senhor é justo para condenar sem a expiação, também é justo para perdoar por meio da expiação; sim, ele é justo, e justificador daquele que crê em Jesus. John Stephen.
Faze bem», etc. Ó Senhor, estou constantemente resolvido a obedecer e a me ater à tua vontade conhecida todos os dias de minha vida: ah, faze-me aquelas graciosas retribuições que prometeste a todos esses. Henry Hammond.
Faze bem... para que eu guarde a tua palavra», etc. Um servo fiel deveria considerar seu serviço passado ricamente recompensado ao ser empregado ainda mais em serviço adicional, como ensina esta oração; pois Davi suplica que possa viver e guardar a palavra de Deus. David Dickson.
Bem. E, de fato, lembrando que criatura pobre, fraca, vazia e desamparada é até o crente mais experiente em si mesmo, não se pode conceber que nada menos que um suprimento generoso de graça possa atender à emergência. Charles Bridges.
O teu servo. O fato de ele se intitular tão frequentemente servo de Deus mostra a reverente estima que tinha por seu Deus, pois considerava mais honroso ser chamado servo do Deus que estava acima dele do que rei de um povo poderoso, antigo e famosíssimo, que estava abaixo dele. E, de fato, uma vez que os anjos são chamados seus ministros, hão de os homens achar vergonhoso servi-lo? E especialmente já que ele, por sua bondade, os fez nossos servos, "espíritos ministradores" para nós? Não deveríamos servir com alegria a quem fez todas as suas criaturas nos servirem, e nos isentou do serviço de todas as outras, e nos obrigou apenas a servi-lo a ele? William Cowper.
Para que eu viva. Como um homem precisa "viver" para trabalhar, a primeira súplica é que Deus "trate o seu servo" segundo a medida da graça e da misericórdia, capacitando-o a "viver" a vida da fé, e o fortaleça pelo Espírito de poder no homem interior. George Horne, 1730-1792.
Para que eu viva, e guarde a tua palavra. Davi junta aqui duas coisas que quem quer que as separe não pode ser bem-aventurado. Deseja viver; mas viver de tal modo que possa guardar a palavra de Deus. Para um homem réprobo, que vive rebelde ao seu Criador, teria sido bom (como disse nosso Salvador a respeito de Judas) que nunca tivesse nascido. Quanto mais curta sua vida, menos são seus pecados e menor seu juízo. Mas, para um homem eleito, a vida é um grande benefício; pois por ela ele vai da eleição à glorificação, pelo caminho da santificação. Quanto mais tempo vive, mais bem faz, para a glória de Deus, a edificação de outros, e a confirmação de sua própria salvação; tornando-a certa para si mesmo, lutando e vencendo nas tentações, e perseverando em fazer o bem. William Cowper.
Versículo 18Salmo 119:18
Abre os meus olhos. Quem é capaz de conhecer as coisas secretas e ocultas das Escrituras, a menos que Cristo lhe abra os olhos? Certamente ninguém; pois "ninguém conhece o Filho, senão o Pai; nem ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar." Por isso, como suplicantes, nos aproximamos dele, dizendo: "Abre os meus olhos", etc. As palavras de Deus não podem ser guardadas a não ser que sejam conhecidas; nem podem ser conhecidas a não ser que os olhos sejam abertos — daí estar escrito: "Para que eu viva e guarde a tua palavra"; e depois, "Abre os meus olhos." Paulus Palanterius.
Abre os meus olhos. "Que queres que eu te faça?" foi a graciosa pergunta do amoroso Jesus a um pobre anseio na terra. "Senhor, que eu recupere a vista", foi a resposta imediata. Assim, aqui, no mesmo espírito, e ao mesmo Senhor compassivo e amoroso, ora o salmista: "Abre os meus olhos"; e, tanto nesta quanto na súplica anterior, "faze bem ao teu servo", vemos de imediato quem inspirou a oração. Barton Bouchier.
Abre os meus olhos. Se se perguntar, sendo Davi um homem regenerado, e assim já iluminado, como é que ele ora pela abertura de seus olhos? A resposta é fácil: nossa regeneração se opera por graus. Os começos da luz em sua mente o fizeram ansiar por mais; pois ninguém pode dar conta do sentido, senão aquele que o tem. A luz que possuía o fez ver sua própria escuridão; e por isso, sentindo suas carências, buscava supri-las pelo Senhor. William Cowper.
Abre os meus olhos. Os santos não se queixam da obscuridade da lei, mas de sua própria cegueira. O salmista não diz: Senhor, faze uma lei mais clara, mas: Senhor, abre os meus olhos: os cegos bem poderiam se queixar de Deus, porque ele não faz um sol pelo qual pudessem ver. A palavra é "uma luz que alumia em lugar escuro" (2 Pedro 1:19). Não há falta de luz na Escritura, mas há um véu de escuridão sobre nosso coração; de modo que, se nesta luz clara não podemos ver, o defeito não está na palavra, mas em nós mesmos.
A luz que pedem não é nada além da palavra. Quando se diz que Deus nos ilumina, não é para que esperemos novas revelações, mas para que vejamos as maravilhas em sua palavra, ou tenhamos uma visão clara do que já foi revelado. Aqueles que dão vazão a seus próprios sonhos sob o nome do Espírito, e de luz divina, não dão mysteria, mas monstra — opiniões monstruosas; não mostram as coisas maravilhosas da lei de Deus, mas os prodígios de seu próprio cérebro; infelizes aborrecidos, que morrem assim que veem a luz. "À lei e ao testemunho: se não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles" (Isaías 8:20). A luz que temos não é sem a palavra, mas pela palavra.
A frase hebraica significa "desvelar meus olhos." Há uma dupla obra, negativa e positiva. Há a remoção do véu, e a infusão da luz. A cura de Paulo de sua cegueira natural é um emblema apropriado de nossa cura da cegueira espiritual: "E logo lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e no mesmo instante recuperou a vista" (Atos 9:18). Primeiro, as escamas caem de nossos olhos, e depois recebemos a vista. Thomas Manton.
O salmista não pede nenhuma nova revelação. Estava nas mãos de Deus dar isso, e ele o fez em seu próprio tempo àqueles antigos crentes; mas a todos eles, em todo tempo, foi dado o suficiente para os propósitos da vida. O pedido não é por mais, mas para que ele possa empregar bem o que já possui. Ainda melhor nos serve tal forma de pedido, a nós a quem a vida e a imortalidade foram trazidas à luz em Cristo. Se não achamos suficiente para exercitar nossos pensamentos com constante frescor, e nossa alma com os assuntos mais grandiosos e atraentes, é porque nos falta a visão. É de grande importância nos convencermos desta verdade, de que há muitas coisas na Bíblia ainda por descobrir, e que, se nos aproximarmos com o espírito certo, poderemos nos tornar descobridores de algumas delas. Essas coisas se revelam, não tanto ao saber, embora este não deva ser desprezado, quanto à visão espiritual, a um coração humilde e amoroso.
E ao menos isto é certo: sempre encontraremos coisas que são novas para nós mesmos. Por mais vezes que percorramos o campo, perceberemos alguma nova veia dourada lançando seu brilho para nós, e nos admiraremos de como antes nossos olhos estavam fechados a ponto de não a vermos. Tudo já estava ali à nossa espera, e sentimos que mais nos espera, se tivéssemos a visão. Há um grande Espírito nela que sustenta com nossas almas uma conversa cada vez mais profunda.
Pode-se ainda observar que o salmista não pede nenhuma faculdade nova. Os olhos já estão ali, e só precisam ser abertos. Não é a concessão de um poder novo e sobrenatural que capacita um homem a ler a Bíblia com proveito, mas o despertar de um poder que já possui. De um ponto de vista, é sobrenatural, pois Deus é o Autor da iluminação por um ato direto de seu Espírito; de outro, é natural, pois opera por meio das faculdades já existentes na alma de um homem. Deus dá "o espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento de Cristo, para que os olhos do entendimento do homem sejam iluminados" (Efésios 1:17). É importante lembrar disto também, pois aqui reside nossa responsabilidade, que temos a faculdade, e aqui também está o ponto em que devemos começar a agir com a ajuda de Deus.
Um homem nunca crescerá no conhecimento da palavra de Deus esperando ociosamente por algum novo dom de discernimento, mas usando diligentemente o que Deus já lhe concedeu, e usando ao mesmo tempo todos os outros auxílios ao seu alcance. Há homens e livros que parecem, mais que outros, ter o poder de auxiliar a percepção. Todos nós já sentimos isso no contato com alguma afinidade de natureza, que os torna nossos melhores auxiliares; o barro aparentado sobre os olhos, pelo qual o grande Iluminador remove nossa cegueira (João 9:6). Busquemos tais auxílios, e, se os encontrarmos, empreguemo-los sem nos apoiarmos neles.
Acima de tudo, dediquemos toda a nossa mente, com estudo paciente e amoroso, ao próprio livro, e, onde falharmos, em qualquer parte essencial, Deus enviará ou seu evangelista Filipe em nosso auxílio (Atos 8:26-40), ou nos instruirá ele mesmo. Mas é só ao estudo paciente e amoroso que a ajuda é dada. Deus poderia ter derramado todo o conhecimento em nós por meio de uma inspiração fácil, mas é somente pela busca sincera que ele pode se tornar tesouro da alma.
Mas, se assim é, ainda se pode perguntar qual é o sentido desta oração, e por que a própria Bíblia insiste tantas vezes na necessidade indispensável do Espírito de Deus para ensinar? Ora, há aqui um lado tão verdadeiro quanto o outro, e de modo algum inconsistente com ele. Se a oração sem esforço seria presunçosa, o esforço sem oração seria vão. A grande razão pela qual os homens não sentem o poder e a beleza da Bíblia é espiritual. Não percebem o grande mal que a Bíblia veio curar, e não têm coração para as bênçãos que ela se oferece a conceder. A película de uma natureza caída, sustentada por si mesma, está sobre seus olhos enquanto leem: "Tendo o entendimento entenebrecido, alheios à vida de Deus" (Efésios 4:18). Todos os poderes naturais nunca encontrarão a verdadeira chave da Bíblia, até que os pensamentos do pecado e da redenção entrem no coração, e se coloquem no centro do Livro. Cabe ao Pai das luzes, pelo ensino de seu Espírito, dar isto à alma, e ele o fará, se ela humildemente se aproximar dele com este pedido. Assim estudaremos como quem lê um livro tendo o autor ao lado, para expor a altura de seu argumento, ou como quem contempla uma composição nobre, quando o artista sopra em nós uma porção de sua alma, para nos deixar sentir o centro de suas harmonias de forma e cor. Aqueles que já dedicaram pensamento e oração à Bíblia hão de reconhecer que estas não são promessas vazias. John Ker, num sermão intitulado "God's Word Suited to Man's Sense of Wonder", 1877.
Ah, nunca esqueçamos que as coisas maravilhosas contidas na lei divina não podem ser nem descobertas nem apreciadas pelo "homem natural", cujos poderes de percepção e de fruição se limitam, em seu alcance, aos objetos do tempo e dos sentidos. É só o Espírito divino quem pode iluminar a escuridão de nosso estado pecaminoso, e quem pode nos capacitar a perceber a glória, a harmonia e a formosura moral que brilham por toda parte nas páginas da verdade revelada. John Morison, 1829.
Descobre os meus olhos, e olharei» — maravilhas na tua lei. A última cláusula é uma espécie de exclamação depois que seus olhos foram descobertos. Esta figura é frequentemente usada para indicar inspiração ou uma comunicação divina especial. "Na tua lei", isto é, trazido à vista, como que de um lugar de ocultação. Joseph Addison Alexander.
Maravilhas. Muitos foram os sinais e milagres que Deus operou no meio do povo de Israel, que eles não compreenderam. Qual era a razão? Moisés nos diz expressamente qual era: "Mas até ao dia de hoje o Senhor não vos deu coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir" (Deuteronômio 29:4). Tinham olhos e ouvidos sensíveis, sim, tinham um coração ou mente racional; mas lhes faltava um ouvido espiritual para ouvir, um coração ou mente espiritual para apreender e aproveitar aquelas obras maravilhosas de Deus; e estes lhes faltavam, porque Deus não lhes tinha dado tais olhos, ouvidos e corações. Maravilhas sem graça não podem abrir os olhos por completo; mas graça sem maravilhas, sim. E, assim como o homem não tem olho para ver espiritualmente as obras maravilhosas de Deus, até que lhe seja dado; assim, muito menos tem olho para ver as maravilhas da palavra de Deus, até que lhe seja dado do alto; e por isso Davi ora: abre os meus olhos, para que eu contemple maravilhas na tua lei. E, se as coisas maravilhosas da lei não são vistas em profundidade até que Deus dê um olho, então muito menos são as coisas maravilhosas do Evangelho. A luz da natureza nos mostra algo da Lei; mas nada do Evangelho jamais foi visto pela luz da natureza. Muitos que viram e admiraram algumas excelências na Lei nunca puderam ver, e por isso ridicularizaram, aquilo que é a excelência do Evangelho, até que Deus lhes abrisse o coração para entender. Joseph Caryl, 1602-1673.
"A palavra está bem perto de nós"; e, tendo em mãos um documento que transborda do que é maravilhoso, a única pergunta é: "Temos um olho para suas maravilhas, um coração para suas misericórdias?" Aqui está o uso preciso do Espírito Santo. O Espírito não coloca nada de novo na Bíblia; ele apenas ilumina e fortalece tanto nossas faculdades, que conseguimos discernir e admirar o que já está ali. Não é o telescópio que arranca aquele rico faiscar de estrelas no espaço azul, que ao olho nu parecem pontos de luz, e desabitados: não é o microscópio que condensa a vida de uma população movimentada na circunferência de uma gota d'água, e reveste de mil matizes a asa quase imperceptível do inseto efêmero. As estrelas brilham em sua glória, quer tenhamos ou não os instrumentos para penetrar o azul; e os minúsculos habitantes seguem seus afazeres de costume, e uma rica ornamentação ainda forma a cobertura do inseto, quer tenhamos ou não uma lente poderosa que tenha transformado, para nós, o átomo em um mundo, e a penugem quase imperceptível na plumagem cintilante da ave do paraíso.
Assim, as coisas maravilhosas já estão na Bíblia. O Espírito que as ditou originalmente não as traz como novas revelações ao indivíduo; mas, ao remover as brumas do preconceito carnal, ao tirar as escamas do orgulho e da autossuficiência, e ao retificar a vontade, que faz o juízo olhar para a verdade através de um meio distorcido — ao influenciar o coração, de modo que os afetos não mais cegem o entendimento — por estes e outros modos, que se poderiam facilmente enumerar, o Espírito Santo capacita os homens a reconhecer o que está oculto, a perceber a beleza e a descobrir o esplendor onde antes tudo parecia sem forma nem formosura; e assim traz o resultado da Bíblia, colocando no lábio a oração maravilhosa que ele mesmo inspirou: abre os meus olhos, para que eu contemple maravilhas na tua lei. Henry Melvill, 1798-1871.
As coisas maravilhosas parecem ser as grandes coisas de um mundo eterno — ele havia voltado seus olhos indagadores para as maravilhas da natureza, sol, lua e estrelas, montanhas, árvores e rios. Já vira muitas das maravilhas da arte; mas agora queria ver as maravilhas espirituais contidas na Bíblia. Queria conhecer o próprio Deus em toda a sua majestade, pureza e graça. Queria aprender o caminho da salvação por um Redentor crucificado, e a glória que se segue.
Abre os meus olhos. Davi não era cego — sua vista não estava turva. Podia ler a Bíblia de ponta a ponta, e ainda assim sentia que precisava de mais luz. Sentia que precisava ver mais fundo, ter os olhos do entendimento abertos. Sentia que, se tivesse apenas seus próprios olhos e o entendimento natural, não descobriria as maravilhas que ansiava ver. Queria o ensino divino — o colírio do Espírito; e por isso não abriria a Bíblia sem esta oração: "Abre os meus olhos." Robert Murray M'Cheyne, 1813-1843.
Maravilhas. Por que usa ele esta palavra "maravilhas"? É como se dissesse: embora o mundo tome a lei de Deus por coisa leve, e pareça ter sido dada apenas para almas simples e crianças pequenas; ainda assim, ao que tudo indica, há nela tal sabedoria, que ela supera toda a sabedoria do mundo, e nela se ocultam segredos maravilhosos. João Calvino.
A tua lei. Aquilo que é o objeto do entendimento pelo qual se ora, aquilo em cujo conhecimento o salmista seria iluminado, é torah. A palavra significa instrução; e, referida a Deus, é o seu ensino ou instrução para conosco, pela revelação de si mesmo, o mesmo que entendemos por Escritura. Quando os livros do Antigo Testamento foram concluídos, foram, para efeito de distinção, divididos em Torah, Ketuvim e Nevi'im, ou a "Lei", os "Salmos" e os "Profetas" (Lucas 24:44). Sob essa divisão, Torá significa os cinco livros de Moisés. Mas, como esses livros de Moisés eram, por assim dizer, o fundamento de todas as futuras revelações do Antigo Testamento, que foram dadas em explicação dele, todos os seus escritos costumavam ser chamados "a Lei" (Isaías 8:20). Pela lei, portanto, neste lugar, o salmista entende todos os livros que então tinham sido dados à igreja por revelação, como regra de sua fé e obediência. E que, nos Salmos, por lei se entende a lei escrita, é evidente pelo primeiro deles, em que se declara bendito quem "medita nela de dia e de noite" (Salmos 1:2); o que se refere ao mandamento de ler e meditar nos livros dela dessa maneira (Josué 1:8). Aquilo que, portanto, esta palavra pretende dizer é a revelação inteira da vontade de Deus, dada à igreja como regra de sua fé e obediência — isto é, a Sagrada Escritura.
Nesta lei há nifla'ot, "coisas maravilhosas". Pala significa ser "maravilhoso", ser "oculto", ser "grande" e "elevado"; aquilo que os homens, pelo uso da razão, não conseguem alcançar ou entender (daí nifla'ot serem coisas que carregam sobre si tal impressão de sabedoria e poder divinos, que são justamente objeto de nossa admiração); aquilo que é demasiado difícil para nós, como em Deuteronômio 17:8, ki yippale mimmekha davar — "se uma coisa te for demasiado difícil" —, oculta de ti. E é o nome pelo qual se expressam as obras milagrosas de Deus (Salmos 77:11; 78:11). Por isso, estas "coisas maravilhosas da lei" são aquelas expressões e efeitos da sabedoria divina na Escritura que estão acima da razão e do entendimento naturais dos homens para descobrir e compreender. Tais são os mistérios da verdade divina na Escritura, especialmente porque Cristo está neles, cujo nome é "Maravilhoso" (Isaías 9:6); pois todos os grandes e maravilhosos efeitos da sabedoria infinita se encontram nele. John Owen, 1616-1683.
Maravilhas. Há promessas na palavra de Deus que nenhum homem jamais se deu ao trabalho de encontrar. Há tesouros de ouro e prata nela que nenhum homem se deu ao trabalho de escavar. Há remédios nela, por falta de cujo conhecimento centenas já morreram. Parece-me como alguma antiga propriedade baronial que passou a um homem (que vive numa casa moderna) e que acha que quase não vale a pena ir olhar a venerável mansão. Ano após ano se passa, e ele não presta atenção a ela, pois não suspeita dos valiosos tesouros que ela contém, até que, por fim, algum homem lhe diz: "Já foste até o campo olhar aquela propriedade?" Ele se decide a dar uma olhada.
Ao passar pelo pórtico, se surpreende com a habilidade demonstrada em sua construção: fica cada vez mais surpreso ao atravessar os salões. Entra numa grande sala, e se espanta ao contemplar a riqueza de quadros nas paredes, entre os quais estão retratos de muitos de seus reverenciados ancestrais. Fica em pasmo diante deles. Ali está um Ticiano, ali um Rafael, ali um Correggio, e ali um Giorgione. Ele diz: "Nunca fazia ideia disto antes." "Ah", diz o administrador, "há muitas outras coisas no castelo de que nada sabes", e o leva de sala em sala, mostrando louças esculpidas e estátuas maravilhosas, e o homem exclama: "Aqui estive por vinte anos o dono desta propriedade, e nunca antes soube o que havia nela."
Mas nenhum arquiteto jamais concebeu propriedade como a palavra de Deus, e nenhum artista, entalhador ou escultor, jamais concebeu quadros, louças esculpidas e estátuas como as que adornam seus aposentos. Ela contém tesouros com os quais prata, ouro e pedras preciosas nem se comparam. Henry Ward Beecher, 1872.
Para que eu contemple maravilhas. O grande fim da Palavra de Deus, no tempo do salmista, como agora, era prático; mas há aqui um uso secundário a que se refere, digno de consideração — seu poder de atender à faculdade humana do assombro. Deus conhece nossa estrutura, pois foi ele quem a fez, e deve ter adaptado a Bíblia a todas as suas partes. Se conseguirmos mostrar isso, pode ser outro sinal de que o livro vem daquele que fez o homem... Que Deus concedeu ao homem a faculdade do assombro, todos sabemos. É uma das primeiras e mais constantes emoções de nossa natureza. Podemos ver isso nas crianças, e em todos cujos sentimentos ainda são frescos e naturais. É a mãe do desejo de conhecer, e, ao longo de toda a vida, incita os homens a indagar. John Ker.
Maravilhas na tua lei. No Salmo 118 tínhamos o caráter "maravilhoso" da redenção; no 119 temos as "maravilhas" (Salmos 119:18; Salmos 119:27; Salmos 119:129) da revelação de Deus. William Kay, 1871.
Versículos 18–19Salmo 119:18-19
Quando não posso ter a Moisés para me dizer o sentido, diz Santo Agostinho, dá-me aquele Espírito que deste a Moisés. E é isto que todo homem que quiser entender deve pedir em oração: isto pedia Davi — abre os meus olhos, para que eu veja as maravilhas da Lei; e (Salmos 119:19) "não escondas de mim os teus mandamentos." E Cristo diz: "Se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará vosso Pai celestial o seu Espírito Santo àqueles que lhe pedirem?" de modo que então veremos os segredos de Deus. Richard Stock, (1626).
Versículo 19Salmo 119:19
Estrangeiro sou na terra. Davi teve experiência da paz e da guerra, da riqueza e da pobreza, do prazer e da dor. Foi pessoa privada e pública; pastor, ofício penoso; soldado, ofício sangrento; cortesão, escravidão honrosa, que reúne numa só pessoa o senhor e o parasita, o cavalheiro e o servente; e foi rei — nome glorioso, cheio de temores e cuidados. Por todos estes passou, e encontrou menos descanso quando estava mais alto, menos contentamento no trono do que nos apriscos. Tudo isso observou e guardou em sua memória, e esta sua confissão é um epítome e um resumo de tudo; e, em efeito, ele nos diz que, seja lá o que tenha visto nesta sua passagem, seja lá o que tenha desfrutado, ainda assim não achou nada tão certo quanto isto — que não achou nada certo, nada com que pudesse permanecer ou que permanecesse com ele, senão que ainda era como um passageiro e "estrangeiro na terra." Anthony Farindon, 1596-1658.
Estrangeiro sou na terra», etc. Como peregrino, ele renunciou ao mundo, que por isso se tornou seu inimigo; como "estrangeiro", teme perder o caminho; por essas razões, pede que Deus compense a perda dos consolos terrenos, concedendo a luz do céu; que não "esconda os seus mandamentos", mas mostre e ensine a ele aqueles passos pelos quais possa ascender ao céu, alegrando-se na esperança da glória futura. George Horne, 1730-1792.
Estrangeiro sou na terra. Esta confissão, vinda de um andarilho solitário, teria pouco significado comparativo; mas na boca de alguém que provavelmente estava cercado de toda fonte de prazer mundano, mostra de imediato tanto a vaidade das "melhores alegrias da terra" quanto a tendência celestial da religião da Bíblia. Charles Bridges.
Estrangeiro sou na terra», etc.
Todo homem aqui na terra (especialmente um homem piedoso) não é senão um estrangeiro e um passageiro.
Concerne a quem é estrangeiro cuidar de um estado melhor e mais duradouro. Todo homem deveria fazer isso. O maior cuidado de um homem deveria ser com o lugar onde vive mais tempo; portanto, a eternidade deveria ser o seu horizonte. Um homem piedoso assim fará. Aqueles cujos corações não estão postos nas coisas terrenas precisam ter o céu. Quanto mais seus afetos se afastam de um, mais se voltam para o outro (Colossenses 3:2); céu e terra são como dois pratos de uma balança, o que se tira de um se põe no outro.
Há orientação suficiente para obter este estado duradouro, mas somente na palavra de Deus. Sem isso, somos apenas como pobres peregrinos e viandantes em terra estranha, incapazes de discernir o caminho de volta ao lar. Um estado bem-aventurado só é suficientemente revelado na palavra: "a vida e a imortalidade vieram à luz pelo evangelho" (2 Timóteo 1:10). Os pagãos apenas adivinhavam a respeito disso, e tinham algum sentido obscuro de um estado após esta vida; mas, assim como é trazido à luz com a maior clareza na palavra, também o caminho até lá só é apontado pela palavra. É a palavra de Deus que nos faz sábios para a salvação, e é ela a nossa linha e regra para o Canaã celestial; e por isso concerne a quem busca este estado duradouro consultar a palavra.
Não há como entender a palavra de Deus senão pela luz do Espírito. "Há um espírito no homem; e a inspiração do Todo-poderoso lhe dá entendimento" (Jó 32:8). Ainda que a palavra tenha luz em si, o espírito do homem não pode se mover até que Deus nos ilumine com aquela luz viva que abre caminho para o domínio da verdade em nossos corações, e transmite influência a nossos corações. Esta é a luz que Davi pede, quando diz: "não escondas de mim os teus mandamentos." Davi não era ignorante dos Dez Mandamentos, de seu som; mas pede o seu sentido e uso espiritual.
Se quisermos ter o Espírito, precisamos pedi-lo a Deus em oração; pois Deus dá "o Espírito aos que lhe pedem" (Lucas 11:13); e por isso devemos dizer, como Davi: "Ó, envia a tua luz e a tua verdade: que elas me guiem: que me tragam ao teu santo monte, e aos teus tabernáculos" (Salmos 43:3). Thomas Manton.
Estrangeiro sou na terra», etc. Quando nasce uma criança, às vezes se fala dela sob a designação de "um pequeno estrangeiro!" Amigos que visitam perguntam se, como privilégio, podem "ver o pequeno estrangeiro." Estrangeiro, de fato! Vindo de longe. Das imensidões. Da presença, e do toque, e do ser de Deus! E indo — de novo para as imensidões — para dentro, e através, de todas as inumeráveis eras da duração.
Mas o pequeno estrangeiro cresce, e, dentro em pouco, começa a criar raízes vigorosas. Trabalha, e vence, e constrói, e planta, e compra, e retém, e, em seu próprio sentir, se torna tão "estabelecido" que quase se divertiria com quem o descrevesse agora como um estrangeiro.
E a vida continua, aprofundando-se e alargando-se em seu fluxo, e retendo em si elementos de interesse múltiplos e sempre crescentes. Cada vez mais o homem é fisgado por eles — como um navio, do qual muitas âncoras são lançadas ao mar. Ele luta entre os que lutam, se alegra com os alegres, sente o esporão da honra, entra na corrida da aquisição, faz por vezes coisas duras e outras vezes coisas bondosas; multiplica seus compromissos, suas relações, seus amigos, e então — justamente quando, após tantos preparativos, a vida deveria estar plenamente começando, e se abrindo numa grande planície ensolarada e tranquila — eis que as sombras começam a cair, anunciando, com demasiada certeza, que ela se aproxima rápido do fim.
A voz, que mais cedo ou mais tarde todos hão de ouvir, chama pelo "pequeno estrangeiro" que nasceu não faz muito, cuja primeira lição terminou, e que agora é chamado a entrar, pela porta chamada morte, em outra escola. E o estrangeiro não está pronto. Lançou tantas âncoras, e elas se fixaram tão firmemente ao solo, que não será coisa pequena levantá-las. Ele está estabelecido. Não tem cajado de peregrino à mão; e seu olho, familiarizado o bastante com as coisas ao redor, não está acostumado ao caminho ascendente adiante, não consegue medir bem a altitude da montanha, nem calcular a distância longínqua.
O progresso do tempo foi muito mais rápido que o progresso de seu pensamento. Ai! ele cometeu um longo engano. "Olhou para as coisas que se veem", e esqueceu as coisas que não se veem. E "as coisas que se veem" são temporais, e desaparecem com o tempo; enquanto "as que não se veem são eternas." E assim há pressa, confusão e aflição nas últimas horas, e na partida. Ora, tudo isso pode ser evitado, por completo, se um homem apenas disser: estrangeiro sou na terra: não escondas de mim os teus mandamentos. Alexander Raleigh, em "The Little Sanctuary, and other Meditations", 1872.
Estrangeiro sou na terra», etc. Na lei, Deus recomenda os estrangeiros ao cuidado e à compaixão de seu povo; agora Davi lhe devolve os argumentos, para persuadi-lo a tratá-lo com bondade. Robert Leighton, 1611-1684.
Na terra. Ele não faz aqui nenhuma exceção; a terra inteira ele reconhece como o lugar de sua peregrinação. Não só quando estava banido entre os moabitas e os filisteus era estrangeiro; mas mesmo quando vivia em paz em casa, em Canaã, ainda assim se considerava estrangeiro. Esta consideração moveu o piedoso Basílio a desprezar a ameaça de Modesto, o representante do imperador Valente, quando este o ameaçou com o exílio. Ab exilii metu liber sum, unam hominum cognoscens esse patriam, paradisum, omnem autem terram commune naturae exilium — "Estou livre do medo do exílio, pois só reconheço uma pátria para os homens, o paraíso, e toda a terra como o exílio comum da natureza." E isso deveria nos mover a manter a sobriedade espiritual em meio aos prazeres, se nos lembrarmos de que em nossas casas, junto à nossa própria lareira, e em nossas próprias camas, não somos senão estrangeiros, de onde em breve nos mudaremos, para dar lugar a outros. William Cowper.
Não escondas de mim os teus mandamentos. O modo de raciocínio de Davi é este: sou aqui estrangeiro, e não conheço o caminho, portanto, Senhor, dirige-me. A semelhança vem dos viajantes, que, chegando a um país estranho onde não conhecem o caminho, buscam o benefício de um guia. Mas aqui está a diferença: em qualquer país, as pessoas podem guiar um estrangeiro ao lugar aonde deseja ir; mas os habitantes da terra não podem mostrar o caminho para o céu; e por isso Davi não busca guia entre eles, mas ora ao Senhor que o dirija. William Cowper.
Não escondas de mim os teus mandamentos. Há um esconder da palavra de Deus quando faltam os meios de ouvi-la explicada por pregadores; e há um esconder da luz reconfortante e viva do Espírito, que precisa vivificar a palavra dentro de nós. De ambos esses males podemos, e devemos, orar para ser salvos. David Dickson.
Versículo 20Salmo 119:20
A minha alma se quebranta», etc. Aqui está um protesto daquele anseio sincero que ele tinha pela obediência à palavra de Deus; ele o amplia de dois modos: primeiro, não era um impulso leviano, mas tão profundamente enraizado que fazia seu coração se quebrantar quando via que não conseguia fazer, na obediência a ela, o que gostaria. Depois, não era um impulso passageiro, como o orvalho da manhã; mas era permanente, omni tempore — em todo o tempo — ele o tinha em todo o tempo. William Cowper.
A minha alma se quebranta de anseio, como alguém que, ao se esforçar demais, rompe uma veia. William Gurnall.
A minha alma se quebranta», etc. Este quebrantar-se se dá por atrito, esfregação ou esmagamento. O espírito estava tão corroído pelo desejo ardente das coisas que Jeová tinha falado, que se quebrantou como por fricção intensa. O "anseio" de descobrir e seguir as maravilhas ocultas era quase insuportável. Este anseio permanecia no salmista "em todo o tempo", ou "em toda estação." A prosperidade não podia fazê-lo esquecê-lo; a adversidade não podia extingui-lo. Na doença ou na saúde, na felicidade ou na tristeza, em companhia ou sozinho, nada superava aquele anseio. As "coisas maravilhosas" eram tão maravilhosas, e ainda assim tão ocultas. Ver um pouco "da beleza do Senhor" é chegar a saber o quanto há que deixamos de ver, e assim ansiar mais do que nunca. Quem persegue com ardor as maravilhas da palavra do Senhor nunca acalmará esse anseio enquanto permanecer "na terra." Só quando "formos semelhantes a ele", e "o virmos como ele é", clamaremos: "Basta, Senhor!" "Ficarei satisfeito quando despertar à tua semelhança." F. G. Marchant.
A minha alma se quebranta de anseio. Pelo desejo sincero. "Pelos teus juízos em todo o tempo." Tua lei; teus mandamentos. Este era um sentimento constante. Não era intermitente, nem espasmódico. Era o estado firme e habitual da alma quanto a esse assunto. Ele nunca tinha visto o suficiente da beleza e da glória da lei de Deus para sentir que todas as carências de sua natureza estavam satisfeitas, ou que não podia ver e conhecer mais nada; tinha visto e sentido o bastante para despertar nele um desejo ardente de se familiarizar por completo com tudo o que há na lei de Deus. Albert Barnes.
A minha alma se quebranta de anseio», etc. O desejo pelas disposições de Deus se torna dolorosamente intenso. Um anseio — um anseio intenso — pelos juízos do Senhor — em todo o tempo. Estes são os detalhes de sua alma quebrantada. Toda a sua mente está voltada para as coisas de Deus. Ele ora para contemplar as coisas maravilhosas da lei de Jeová, e para que não lhe esconda os seus mandamentos; e aqui sua alma se quebranta de anseio por seus juízos em todo o tempo. O estado da mente do salmista não nos levaria a supor que ele estivesse esperando a manifestação dos juízos do Senhor para justificar sua causa contra homens ímpios, ou que ansiasse por oportunidade de cumprir todos os atos de justiça para com seus semelhantes; pois isso ele já fazia ao máximo. Evidentemente, ele está concentrado nas ordenanças da religião, chamadas "juízos" por causa das solenes sanções com que eram impostas. O homem de Deus ansiava tanto por se unir ao povo do Senhor nelas, que seu coração estava pronto a se quebrantar de desejo, ao ser forçado de lugar em lugar no deserto. O coração renovado está aqui. Outro poderia ansiar por ser livre da perseguição, por estar em repouso, por ser restituído ao lar, às relações e ao conforto. O homem de Deus não podia deixar de desejar esses gozos naturais; mas, acima de tudo, sua mente santa ansiava com ardor pela celebração do culto de Jeová. John Stephen.
Os teus juízos. Os juízos de Deus são de duas espécies: primeiro, seus mandamentos; assim chamados porque por eles se julga e se discerne o certo do errado. Segundo, suas pragas, executadas sobre os transgressores conforme sua palavra. Davi aqui se refere aos primeiros. Que os homens que não têm um desejo semelhante ao de Davi se lembrem: aqueles cujo coração não pode se quebrantar por transgredir a palavra de Deus, porque a amam, hão de achar que as pragas de Deus lhes esmagarão o corpo, e também lhes quebrantarão o coração. Deleitemo-nos nesta primeira espécie de juízos, e a segunda jamais cairá sobre nós. William Cowper.
Note bem aquela palavra, em todo o tempo. Homens maus têm seus bons momentos, assim como os homens bons têm seus maus momentos. Um homem mau pode, sob as dores da consciência, uma vara que arde, a aproximação da morte, ou os temores do inferno, ou quando está enjoado de sermões, clamar ao Senhor por graça, por justiça, por santidade; mas só é bem-aventurado de fato quem tem fome e sede de justiça em todo o tempo. Thomas Brooks, 1608-1680.
Em todo o tempo. Alguns valorizam a palavra na adversidade, quando não têm outro consolo para viver; então podem se contentar em estudar a palavra para os consolar em suas aflições; mas, quando estão em conforto, a desprezam. Mas Davi fazia uso dela "em todo o tempo"; na prosperidade, para o humilhar; na adversidade, para o consolar; numa, para o manter longe do orgulho; na outra, para o manter longe do desespero; na aflição, a palavra era seu remédio fortificante; no aumento das riquezas, era seu antídoto; e assim, em todo o tempo, seu coração se voltava para a palavra, seja por uma necessidade, seja por outra. Thomas Manton.
Em todo o tempo. Quão poucos há, mesmo entre os servos de Deus, que conhecem algo deste sentimento intenso de devoção aqui expresso! Ah, quem dera nossos corações frios e obstinados fossem aquecidos e subjugados pela graça divina, para que estivéssemos prontos a desfalecer, de tanto anseio, "em todo o tempo", pelos juízos de nosso Deus. Quão inconstantes são nossos melhores sentimentos! Se hoje subimos o monte da comunhão com Deus, amanhã corremos o risco de nos enredar de novo com as coisas da terra. Quão felizes são aqueles cujos corações estão "em todo o tempo" cheios de anseios pela comunhão com o grande e glorioso objeto de seu amor! John Morison, 1829.
Se lerdes as vidas de homens bons, que também foram grandes intelectualmente, ficareis surpresos, penso eu, até a ponto de espanto — um espanto, porém, que não será desagradável — ao encontrá-los, no fim da vida, em sua própria avaliação, tão ignorantes, tão inteiramente imperfeitos, tão pouco beneficiados pela longa lição da vida. O Dr. Chalmers, depois de acender igrejas e despertar nações para seus deveres, resumiu suas próprias conquistas na palavra "anseio", e tomou como texto que melhor descrevia seu estado interior aquele clamor apaixonado, quase doloroso, de Davi: a minha alma se quebranta de anseio pelos teus juízos. Mas quão grandiosa era a conquista! Ser, na velhice, tão simples quanto uma criancinha diante de Deus! Ainda estar aprendendo aos setenta anos! Quão belos parecem os grandes homens em sua simplicidade! Alexander Raleigh, em "The Little Sanctuary", 1872.
Versículo 21Salmo 119:21
Tu repreendeste os soberbos, que são malditos. Se os soberbos escapam aqui, como às vezes acontece, no futuro não escaparão; pois "o soberbo é abominação para o Senhor" (Provérbios 16:5). Deus não o pode suportar (Salmos 101:5). E daí? Tu perdes superbos — tu destruirás os soberbos. Os próprios pagãos imaginaram os soberbos gigantes fulminados pelo raio vindo do céu. E, se Deus não poupou os anjos, a quem colocou nos mais altos céus, mas por causa de seu orgulho os lançou de cabeça ao mais profundo inferno, quanto menos poupará o soberbo pó e cinza dos filhos dos homens, senão os lançará da altura de sua elevação terrena ao fundo daquele calabouço infernal!
"A humildade faz os homens anjos; o orgulho faz os anjos demônios", como disse aquele pai da igreja: bem posso acrescentar, faz demônios dos homens. Alazoneias outis ekpheugei dikēn, diz o poeta pagão Menandro; "nunca alma alguma escapou da vingança do orgulho", nunca escapará. Tão certo quanto Deus é justo, o orgulho não ficará impune. Sei que agora todos estamos prontos a pedir uma bacia, como Pilatos, e a lavar as mãos deste feio pecado.
Honrados e amados, este vício é íntimo; ele se agarrará firme a vós; sim, tão de perto que dificilmente conseguireis discerni-lo de uma parte de vós mesmos: é isto que agrava o seu perigo. Pois, como bem observa Aquino, alguns pecados são mais perigosos propter vehementiam impugnationis — pela veemência de seu ataque —, como o pecado da ira: outros, por sua correspondência com a natureza, como os pecados da luxúria: outros, propter latentiam sui — por seu esconder-se — em nosso peito, como o pecado do orgulho.
Ah, olhemos com seriedade para os cantos de nossos falsos corações, mesmo com a lanterna da lei de Deus, e descubramos este demônio sutil; e nunca demos paz às nossas almas até que o tenhamos desalojado. Abaixo com vossas plumas soberbas, ó gloriosos pavões do mundo: olhe para vossas pernas negras, e vossa cabeça de serpente: envergonhai-vos de vossas miseráveis fraquezas: do contrário, Deus as derrubará, e a vós mesmos, numa terrível vingança. Não há entre nós nem sequer o mais santo que não seja falho neste ponto: ah, sejamos humilhados por nosso arrependimento, para que não sejamos levados à confusão eterna: sejamos lançados sobre nossos joelhos, para que não sejamos lançados sobre nossas faces. Pois Deus cumprirá sua própria palavra, de um jeito ou de outro: "o orgulho de um homem o abaterá." Joseph Hall, 1574-1656.
Tu repreendeste os soberbos. Que as histórias de Caim, Faraó, Hamã, Nabucodonosor e Herodes exibam os soberbos sob a repreensão e a maldição de Deus. Ele abomina suas pessoas e suas ofertas: ele os "conhece de longe": ele "resiste a eles": "ele os espalha nas imaginações de seus corações." Ainda mais odiosos são a seus olhos, quando se encobrem com uma capa espiritual — "que dizem: fica em teu lugar, não te aproximes de mim, pois sou mais santo do que tu. Estes são fumaça em meu nariz, fogo que arde o dia todo." Davi e Ezequias são faróis instrutivos na igreja, de que o povo de Deus, sempre que cede às operações de um coração soberbo, não deve esperar escapar de sua repreensão. "Tu foste um Deus que os perdoou, embora te vingasses de suas invenções" (Salmos 99:8). Charles Bridges.
Tu repreendeste os soberbos. Davi acrescenta outra razão pela qual se acende ainda mais a orar a Deus e a se dirigir a ele para ser ensinado em sua palavra; a saber, quando vê que ele assim "repreendeu os soberbos." Pois o castigo e as punições que Deus impõe aos infiéis e rebeldes deveriam ser boa instrução para nós; como se diz que Deus executou juízo, e que os habitantes da terra deveriam aprender sua justiça. Não é sem razão que o profeta Isaías também assim falou; pois ele nos assinala que Deus, por diversos e variados meios, nos atraiu a si, e que principalmente quando nos ensina a temer sua majestade. Pois, sem isso, ai, logo nos tornaríamos como brutos animais: se Deus soltasse as rédeas sobre nossos pescoços, que licença nós mesmos nos daríamos, a experiência muito bem nos ensina. Ora, vendo Deus que somos tão facilmente levados a correr sem freio, envia-nos exemplos, porque quer nos trazer a andar com temor e cuidado. João Calvino.
Os soberbos. Este é um epíteto comumente dado aos ímpios; porque, assim como é nosso mal mais antigo, também é o mais forte e o primeiro a se esforçar em nossa natureza corrupta para levar os homens a transgredir os limites estabelecidos pelo Senhor. Desde o momento em que o orgulho entrou no coração de Adão, para que ele fosse mais alto do que Deus o tinha feito, ele não se absteve de comer da árvore proibida. E o que mais é a causa de toda transgressão, senão que o orgulho ignorante do homem quer que sua vontade seja preferida à vontade de Deus? William Cowper.
Os soberbos. Pedro fala dos soberbos como se desafiassem a Deus feito campeões, e o provocassem feito rebeldes, de modo que, se ele não lhes resistisse, buscariam privá-lo de seu domínio, como Corá, Datã e Abirão minaram Moisés. Números 16:1-33.
Pois assim diz o soberbo: serei como o Altíssimo (Isaías 14:12-15), e, se pudesse, até acima do Altíssimo. Esta é a criatura que foi tirada do pó (Gênesis 2:7), e, assim que foi feita, se opôs àquela majestade que os anjos adoram, os tronos veneram, os demônios temem, e os céus obedecem. Quantos pecados há neste mundo pecaminoso! E, no entanto, como diz Salomão da boa esposa (Provérbios 31:29), "muitas filhas fizeram virtuosamente, mas tu a todas sobrepujas"; assim posso dizer do orgulho: muitos pecados fizeram maldades, mas tu a todos sobrepujas; pois o homem iracundo, o homem pródigo, o homem lascivo, o homem glutão, o homem preguiçoso, é antes inimigo de si mesmo do que de Deus; mas o homem soberbo se põe contra Deus, porque age contra as suas leis; se faz igual a Deus, porque faz tudo sem Deus, e não pede ajuda a ele; se exalta acima de Deus, porque quer sua própria vontade, ainda que contrária à vontade de Deus.
Assim como o humilde diz: não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória (Salmos 115:1); assim o soberbo diz: não a ele, não a ele, mas a nós dai a glória. Como Herodes, que tomou o nome de Deus, e foi honrado por todos menos pelos vermes, e estes mostraram que ele não era deus, mas homem (Atos 12:21). Por isso, os homens soberbos podem ser chamados inimigos de Deus, porque, assim como o avarento arranca riquezas dos homens, o soberbo arranca honra de Deus.
Além disso, o homem soberbo não tem causa para se ensoberbecer, como outros pecadores têm; o avarento pelas riquezas, o ambicioso pela honra, o voluptuoso pelo prazer, o invejoso pela injúria, o preguiçoso pelo repouso; mas o homem soberbo não tem causa para se ensoberbecer, senão o próprio orgulho, que diz, como Faraó: "não obedecerei" (Êxodo 5:2). Henry Smith, 1560-1591.
Soberbos, que são malditos. Os homens soberbos suportam a maldição de nunca terem amigos: não na prosperidade, porque não conhecem ninguém; não na adversidade, porque então ninguém os conhece. John Whitecross, em "Anecdotes illustrative of the Old Testament".
Este uso dos juízos de Deus sobre os outros devemos fazer para nós mesmos; primeiro, para sermos levados a reconhecer nossos méritos, e assim temer; e, depois, para que, vendo sua justiça sobre os soberbos, tenhamos certeza de sua misericórdia para com os humildes. Isto é difícil para a carne e o sangue; pois alguns conseguem se alegrar com a destruição dos outros, e não conseguem temer; e outros, quando são levados a temer, não conseguem receber consolo. Mas o que Deus uniu, não separemos: por isso, façamos estes usos dos juízos de Deus. Richard Greenham.
Versículo 22Salmo 119:22
Tira de mim o opróbrio e o desprezo. Aqui Davi ora contra o opróbrio e o desprezo dos homens; para que fossem removidos, ou, como diz a palavra, rolados para longe dele. Isso sugere que pesavam sobre ele, e nem sua grandeza nem sua bondade podiam livrá-lo de ser difamado e caluniado: alguns o desprezavam e se esforçavam por rebaixá-lo, outros o injuriavam e se esforçavam por torná-lo odioso. Tem sido, com frequência, o destino daqueles que fazem o bem serem malfalados. Isso sugere que este fardo pesava muito sobre ele. Palavras duras e palavras vis não quebram ossos, é verdade, mas são muito penosas para um espírito sensível e sincero: por isso Davi ora: Senhor, "tira" isso de mim, para que eu não seja, por causa disso, nem afastado de dever algum, nem desencorajado nele. Matthew Henry.
Tira de mim o opróbrio e o desprezo», etc. Nas palavras (como na maioria dos outros versículos) tendes: 1. Um pedido: tira de mim o opróbrio e o desprezo. 2. Uma razão e argumento para reforçar o pedido: pois guardei os teus testemunhos.
Primeiro, quanto ao pedido, tira de mim o opróbrio e o desprezo; a palavra significa: rola para longe de mim, que não chegue a mim, ou que não permaneça comigo. E depois o argumento: pois guardei os teus testemunhos. A razão pode ser entendida assim: (1) ele alega que era inocente do que lhe imputavam, e não tinha merecido tais calúnias. (2) sugere que foi por sua obediência, por esta mesma causa, por ter guardado a palavra, que o opróbrio foi rolado sobre ele. (3) pode-se entender também que seu respeito pela palavra de Deus não diminuiu por causa desse opróbrio; ele continuava a guardar os testemunhos de Deus, por mais ímpio que parecesse aos olhos do mundo. Ou é uma afirmação de sua inocência, ou ele mostra o fundamento pelo qual esse opróbrio veio sobre ele, ou alega que seu respeito por Deus e por seu serviço não diminuiu, seja qual fosse o opróbrio que enfrentasse ao cumpri-lo.
Os pontos daqui são muitos.
Não é coisa estranha que os que guardam os testemunhos de Deus sejam caluniados e injuriados.
Assim como é o destino usual do povo de Deus ser injuriado, também isso lhe é muito penoso e pesado de suportar.
Sendo penoso, podemos legitimamente buscar removê-lo. Assim faz Davi, e assim podemos nós fazer, submetendo-nos à vontade de Deus.
Para removê-lo, o melhor é tratar disso com Deus; pois Deus é a grande testemunha de nossa sinceridade, conhecendo todas as coisas, e a ele se deve apelar neste caso. Além disso, Deus é o mais poderoso defensor de nossa inocência; ele tem os corações e as línguas dos homens em suas próprias mãos, e pode ou impedir o caluniador de proferir o opróbrio, ou impedir o ouvinte de acolhê-lo. Quem tem tal poder sobre as consciências dos homens pode esclarecer nossa inocência; por isso, é melhor tratar disso com Deus; e a oração muitas vezes prova ser uma vindicação melhor do que uma apologia.
Ao buscar alívio de Deus contra este mal, é grande consolo e fundamento de confiança quando somos inocentes daquilo de que somos acusados. Em alguns casos, precisamos nos humilhar, e então Deus cuidará de nossa credibilidade; precisamos nos confessar culpados quando, por nossa própria culpa, demos ocasião às calúnias dos ímpios: assim, "afasta de mim o opróbrio que temo, pois os teus juízos são bons" (Salmos 119:39). "Meu opróbrio", pois em parte era merecido por ele mesmo, e por isso temia suas tristes consequências, e se humilhava diante de Deus. Mas outras vezes podemos permanecer firmes em nossa integridade, como diz Davi aqui: "Afasta de mim o opróbrio que temo, pois os teus juízos são bons." Thomas Manton.
Versículo 23Salmo 119:23
Príncipes também se assentaram», sob a sombra da justiça, e falaram contra mim. Ora, isto era uma grande tentação para Davi: não só era zombado e escarnecido nas tavernas e estalagens, sendo ali difamado por brincalhões e zombadores dissolutos, e comentado nas ruas e praças; mas até mesmo no lugar da justiça (que deveria ser santo); não podia deixar de ser que também ali o difamassem e o caluniassem por completo, e o condenassem como se fosse o homem mais ímpio e maldito. Quando Davi então viu que era assim injustamente tratado e maltratado, faz sua queixa a Deus, e diz: "Ó Senhor, os próprios príncipes e governantes se assentam e falam mal de mim; e, no entanto, apesar de tudo, guardei os teus testemunhos." Aqui, em resumo, devemos tirar deste lugar que, se acontecer, quando tivermos andado retamente e com boa consciência, que sejamos falsamente caluniados, e acusados disto e daquilo em que nunca sequer pensamos; ainda assim devemos suportar tudo com paciência; pois tenhamos certeza disto: não somos melhores que Davi, por maior que seja o protesto de integridade e pureza que ousemos fazer. João Calvino.
Mas o teu servo meditava nos teus estatutos. Assim como os lavradores, quando sua terra é inundada pelas águas, fazem valas e sulcos para escoá-las; assim, quando nossa mente e nossos pensamentos estão sobrecarregados de aflição, é bom desviá-los para algum outro assunto. Mas nem todo desvio convém aos santos; precisa ser um desvio santo: "Na multidão dos meus pensamentos dentro de mim, os teus consolos deleitam a minha alma" (Salmos 94:19). O caso era o mesmo do texto, quando o trono da iniquidade tece maldade por meio de uma lei; como se vê aqui, quando ele tinha muitos pensamentos perplexos sobre o abuso do poder contra ele. Mas onde estava agora seu alívio no desvio? Qualquer desvio serviria ao seu propósito? Não: "os teus consolos" — consolos permitidos por Deus, providos por Deus, consolos próprios dos santos. Os ímpios, em aflição, correm para sua bebida e seu cachimbo, seus jogos e diversões, e sua companhia alegre, e assim frustram a providência em vez de aproveitá-la: mas Davi, que era servo de Deus, precisava dos consolos de Deus. Assim, em outro lugar, quando seus pensamentos estavam perturbados quanto ao poder dos ímpios: "entrei no santuário de Deus; então entendi o fim deles" (Salmos 73:17). Ele desvia sua mente pelo uso das ordenanças de Deus, e assim se acalma diante da tentação. Thomas Manton.
Mas o teu servo meditava nos teus estatutos. Percebei aqui a armadura com que Davi luta contra seu inimigo. Arma justi quibus omnes adversariorum repellit impetus — as armas do justo, com as quais repele todos os ataques dos adversários — são estas armas: a palavra e a oração. Ele não retribui injúria por injúria, opróbrio por opróbrio. É perigoso lutar contra Satanás ou seus instrumentos com as próprias armas deles; pois assim facilmente nos vencerão. Lutemos com a armadura de Deus — os exercícios da palavra e da oração: pois um homem pode descansar em paz em sua câmara secreta, e nestas duas coisas ver o miserável fim de todos aqueles que são inimigos dos filhos de Deus por causa de Deus. William Cowper.
Os teus estatutos. É impossível viver de modo cristão ou consolador sem o uso diário da Escritura. Ela é absolutamente necessária para nos dirigir em todos os nossos caminhos antes de os começarmos, e, quando os terminarmos, para garantir nossa aprovação deles, para resolver nossas dúvidas, e para nos consolar em nossas tristezas. Sem ela, nossa consciência é um guia cego, e nos leva por uma névoa de ignorância, erro e confusão. Nela ouvimos Deus falando conosco, declarando sua boa vontade para conosco quanto à nossa salvação, e o caminho de nossa obediência para nos encontrarmos com ele em sua boa vontade. Que livro podemos ler com tanto proveito e consolo? Em matéria, é sabedoria: em autoridade, é divina e absoluta: em majestade, é o próprio Deus, sob palavras e letras comuns, exprimindo um poder indizível para marcar nosso coração. Onde acharemos nossa mente tão iluminada, nosso coração tão profundamente comovido, nossa consciência tão movida, tanto para nos abater quanto para nos erguer? Não acho, em todos os livros do mundo, um que me fale como fala a Escritura, com uma conquista tão absoluta de todos os poderes de minha alma.
Os que desprezam a Escritura carecem de alimento para suas almas, de luz para sua vida, e de armas para sua guerra espiritual; mas os que amam a Escritura têm todo esse suprimento. Nela ouvimos a voz do nosso Amado, sentimos o odor de seus unguentos, e temos acesso diário à arte da propiciação. Se, em nosso conhecimento, desejamos divindade, excelência, antiguidade e eficácia, não as encontramos, senão só na palavra de Deus. É o extrato da sabedoria celestial, que Cristo, o Verbo eterno, trouxe do seio de seu Pai. William Struther, 1633.
Versículos 23–24Salmo 119:23-24
Os dois últimos versículos desta seção contêm dois protestos do afeto sincero de Davi pela palavra. O primeiro é que, embora fosse perseguido e malfalado, e isso por homens grandes e honrados do mundo, como Saul, Abner e Aitofel, ainda assim continuava meditando nos estatutos de Deus. É uma tentação difícil quando os piedosos são perturbados por qualquer homem ímpio; mas muito mais difícil quando são perturbados por homens de honra e autoridade. E isso, primeiro, por causa de sua posição: quanto maior seu poder, maior o perigo de enfrentar seu desagrado; por isso disse Salomão: "a ira do rei é como mensageiros de morte." Depois, porque as autoridades e os poderes são ordenados por Deus, não para o terror dos bons, mas dos maus (Romanos 13:3). E, por isso, não é pequena aflição para os piedosos quando os veem abusados para um fim contrário: quando um governante, que deveria ser para os bons como chuva sobre os campos recém-ceifados, se torna favorecedor dos maus e perseguidor dos bons. Então a justiça se transforma em absinto; aquilo que deveria trazer consolo aos que temem a Deus é usado para os oprimir. E, por isso, deve-se considerar grande benefício de Deus quando ele dá a um povo governantes bons e religiosos. William Cowper.
Versículos 23–51Salmo 119:23-51
Se o Salmo 119 saiu da pena de Davi, como multidões creem, então não me admiro de que muitos tenham ligado sua composição à sua estada na escola dos profetas em Naiote. A calma em que então se encontrava, e os estudos que então empreendia, bem poderiam ter conduzido suas reflexões na direção daquele código alfabético, havendo nele não poucas expressões que, no mínimo, podem ter referência particular aos perigos dos quais tão recentemente escapara, e pelos quais ainda era ameaçado. Tais, por exemplo, são as seguintes: Príncipes também se assentaram e falaram contra mim: mas o teu servo meditava nos teus estatutos. Os soberbos me têm em grande escárnio, mas eu não me desviei da tua lei. William M. Taylor, em "David, King of Israel; his Life and its Lessons", 1880.
Versículo 24Salmo 119:24
Os teus testemunhos também são meu deleite e meus conselheiros. Seu deleite e seus conselheiros, isto é, seu deleite porque eram seus conselheiros; seus conselheiros, e por isso seu deleite. Sabemos como é deleitoso, para qualquer um, ter a vantagem de um bom conselho, conforme as perplexidades e distrações em que possa se encontrar. "O óleo e o perfume alegram o coração: assim faz a doçura do amigo de um homem, com o conselho sincero", diz Salomão (Provérbios 27:9). Ora, esta é a doçura da comunhão divina, e da meditação em Deus e em sua palavra; ela ocupa o homem com conselho oportuno, o que é um refrigério muito grande para nós. T. Horton, 1673.
Os teus testemunhos também são meu deleite», etc. Os que quiserem que os testemunhos de Deus sejam seu deleite precisam torná-los seus conselheiros, e ser aconselhados por eles: e que aqueles que os tomam como conselheiros em seu andar reservado os tomem também como deleite em seu andar consolador. Matthew Henry.
Os teus testemunhos também são meu deleite e meus conselheiros. O que mais poderíamos querer, num tempo de dificuldade, do que consolo e direção? Davi tinha ambas essas bênçãos. Como fruto de sua "meditação nos estatutos do Senhor", em sua aflição eles eram seu "deleite"; em seus tempos de perplexidade, eram seus "conselheiros", dirigindo sua conduta no caminho perfeito. Charles Bridges.
Meus conselheiros. Em hebraico é "os homens do meu conselho", o que é mencionado com propriedade; pois ele havia falado de príncipes assentados em conselho contra ele. Príncipes não fazem nada sem o conselho de seu Conselho Privado; um filho de Deus também tem seu Conselho Privado, os testemunhos de Deus. De um lado, estava Saul, e seus nobres e conselheiros; do outro lado, estava Davi, e os testemunhos de Deus. Ora, quem estava melhor provido, pensai bem, eles para persegui-lo e afligi-lo, ou Davi para se conduzir sob essa aflição? Afonso, rei de Aragão, ao ser perguntado quem eram os melhores conselheiros, respondeu: "Os mortos" (referindo-se aos livros), "que não podem bajular, mas declaram a verdade sem parcialidade." Ora, de todos esses conselheiros mortos, os testemunhos de Deus têm a primazia.
Um pobre homem piedoso, mesmo quando abandonado por todos, e sem ninguém que interceda por ele, tem seu senado, e seu conselho de estado ao seu redor, os profetas e apóstolos, e "outros santos homens de Deus, que falaram movidos pelo Espírito Santo." Um homem assim provido nunca está menos só do que quando está sozinho; pois tem consigo conselheiros que lhe dizem o que se deve crer ou fazer; e são conselheiros tais que não podem errar, que não o bajularão, nem o aplaudirão em pecado algum, nem o desencorajarão ou dissuadirão daquilo que é bom, seja qual for o risco a que isso o exponha. E, na verdade, se formos sábios, deveríamos escolher conselheiros como estes: "os teus testemunhos são os homens do meu conselho." Thomas Manton.
Meus conselheiros. Veja aqui uma sentença digna de ser ponderada por nós, quando Davi chama os mandamentos de Deus de seus "conselheiros." Pois, em primeiro lugar, ele quer dizer que poderia desdenhar toda a sabedoria dos homens mais capazes e mais experientes do mundo, já que era conduzido pela palavra de Deus, e por ela governado. Em segundo lugar, ele quer dizer que, ao ser assim governado pela palavra de Deus, não só seria verdadeiramente sábio, mas seria como se tivesse toda a sabedoria de todos os homens do mundo, sim, e muito mais ainda. João Calvino.
Os oito versículos dispostos alfabeticamente:
(D)erribada até o pó está a minha alma: vivifica-me segundo a tua palavra.
(D)eclarei os meus caminhos, e tu me ouviste: ensina-me os teus estatutos.
(D)eclara-me o caminho dos teus preceitos: assim falarei das tuas maravilhas.
(D)errama-se a minha alma de tristeza: fortalece-me segundo a tua palavra.
(D)esvia de mim o caminho da mentira; e concede-me graciosamente a tua lei.
(D)eterminei-me pelo caminho da verdade; pus diante de mim os teus juízos.
(D)eliberadamente me apeguei aos teus testemunhos: ó Senhor, não me confundas.
(D)ia após dia correrei o caminho dos teus mandamentos, quando tiveres alargado o meu coração. Theodore Kuebler.
Versículo 25Salmo 119:25
A minha alma se apega ao pó. A palavra hebraica para "apega-se" significa "está unida", "aderiu", "alcançou", "se apossou", "juntou-se a." Nossa alma é um pólipo: assim como o pólipo prontamente adere às rochas, também a alma se apega à terra; e dificilmente pode ser arrancada do lugar a que uma vez se prendeu com força. Ainda que tua alma esteja agora mais perfeita, e, escapando das águas do pecado, se tenha tornado ave do céu, não te descuides; as coisas terrenas são visgo e cola; se roçares as asas nelas, ficarás preso, e unido à terra. Thomas Le Blanc.
A minha alma se apega ao pó», etc. A palavra traduzida "apega-se" significa estar colado; grudar firme. Tem o sentido de aderir firmemente a algo, de modo que não se pode separar facilmente disso. A palavra "pó" aqui pode significar tanto a terra e as coisas terrenas, consideradas como baixas, vis, indignas, mundanas; ou pode significar a sepultura, como se ele estivesse perto dela, e em perigo de morrer. De Wette a entende neste último sentido. No entanto, a palavra "apegar-se" dificilmente sugeriria esta ideia; e a força dessa palavra seria melhor representada pela ideia de que sua alma, por assim dizer, aderia às coisas da terra, que parecia estar tão presa a elas — tão colada a elas — que não podia se destacar delas; que seus afetos eram baixos, terrenos, rasteiros, a ponto de lhe causar profunda angústia, e levá-lo a clamar a Deus por vida e força para que pudesse se libertar deles. Albert Barnes.
A minha alma se apega ao pó», etc. A primeira cláusula parece pretender sugerir duas ideias consistentes, mas distintas: a de profunda degradação, como em Salmos 44:25, e a de morte, como em Salmos 22:29. A primeira seria mais óbvia em si mesma, e em conexão com o paralelo referido; mas a outra parece indicada como a ideia predominante pela súplica correlata de vivificação na última cláusula. "Vivifica-me", isto é, salva-me a vida, ou restaura-me à vida, sendo a palavra hebraica um causativo do verbo viver. Joseph Addison Alexander.
A minha alma se apega ao pó», etc. Neste versículo, Davi tem uma queixa: "a minha alma se apega ao pó"; e uma oração: "vivifica-me segundo a tua palavra." A oração, bem considerada, nos ensinará o sentido da queixa; que não era, como alguns pensam, algum estado corporal difícil que o afligia, mas uma opressão espiritual bem severa (por assim dizer), abatendo sua alma; de modo que, onde deveria ter subido rumo ao céu, era pressionado para baixo, até a terra, e estava tão sobrecarregado de pensamentos terrenos, ou afetos, ou perturbações, que não conseguia se elevar. Sua tentação particular ele não expressa; pois os filhos de Deus muitas vezes se encontram num estado tal que não conseguem relatar suas próprias dores, e às vezes ficam tão perturbados, que não convém, ainda que pudessem, expressá-las a outros.
E com isso aprendemos como aquilo que o mundano considera sabedoria é, para o cristão, loucura; o que é alegria para um, é tristeza para o outro. A alegria do mundano é se apegar à terra; quando a segura com mais firmeza, se julga mais feliz, pois é sua porção: atentar para seus assuntos mundanos, e ter neles a mente (em sua estimativa) é a única sabedoria. Pois a maldição da serpente está sobre ele, ele rasteja pela terra, e lambe o pó todos os dias de sua vida. Esta é a miserável condição dos ímpios, que até sua alma celestial se torna terrena. Qui secundum corporis appetentiam vivit caro est, etiam anima eorum caro est — quem vive segundo o apetite do corpo é carne, até a sua alma é carne —, como o Senhor falou daqueles que pereceram no Dilúvio, que eram apenas carne, sem espírito neles; isto é, sem movimento espiritual ou celestial.
Mas o cristão, considerando que sua alma vem do alto, também põe seu afeto nas coisas que estão no alto: ele se deleita em ter sua conversação no céu; e é dor para ele quando encontra seus impulsos e afetos puxados para baixo e enredados com a terra. Sua vida é se apegar ao Senhor; mas é morte para ele quando o pescoço de sua alma se curva ao jugo do mundo. William Cowper.
A minha alma se apega ao pó. "Olha agora para os céus." Assim falou uma vez o Senhor a Abraão, seu amigo, e assim nos fala também a nós. Ai! por que há de ser sempre assim que, quando chegamos a nos conhecer, ainda que só um pouco, estamos constantemente respondendo com o suspiro pesaroso, "a minha alma se apega ao pó"? Ah! esta é, de fato, a mais profunda dor de uma alma que já provou que o Senhor é misericordioso, quando, embora desejando voar bem alto, sente tristemente quão impossível é subir. Há muita dor oculta em todo coração humano, mesmo na vida espiritual; mas o que pode nos afligir mais profundamente do que a percepção de que estamos acorrentados, como que por pesos de chumbo, a coisas de que sabemos que podem nos cansar, mas não nos podem satisfazer?
Não, jamais poderíamos supor, quando primeiro ouvimos o Salmo do Bom Pastor, que ele pudesse brotar de um coração que anseia por Deus tantas vezes e tão amargamente; jamais poderíamos imaginar que ele pudesse se tornar tão frio, tão seco, tão escuro, num coração que num período anterior tinha provado tanto do poder do que está por vir. Não pudemos, outrora, com este mesmo Salmo, nos gabar: "alegrei-me no caminho dos teus testemunhos, tanto quanto em todas as riquezas"? Mas depois, mas agora talvez... Ah, horas tristes, quando os raios do sol interior parecem apagados, e nada mais resta senão um disco vermelho baço! O fervor do primeiro amor se esfria; as preocupações e os pecados terrenos, por assim dizer, prenderam um prumo de chumbo às asas da alma que, Deus sabe, gostaria de voar para o alto.
Gostaríamos de dar graças, e mal conseguimos orar; gostaríamos de orar, e mal conseguimos suspirar. Nosso tesouro está no céu, mas nossa alma se apega à terra; ao menos a terra se apega a ela por todos os lados, e a pesa para baixo, de modo que o olho só vê as nuvens, a língua só consegue soltar queixas. Ah, tão completamente a terra pode nos agrilhoar, que os céus parecem ser apenas um problema, e nosso velho homem é como o Gigante da Mitologia, que, lançado ao chão no combate exaustivo, recebe, pelo contato com sua mãe terra, força renovada. Ah, quem dera fosse diferente! Não há de, por fim, por fim, mudar?
Desejas de fato isso, tu que, do fundo de tua alma, assim te queixas, e mal encontras mais lágrimas para lamentar a dor de teu coração? Bem para ti, se a dor que sofres te ensinar a clamar a Deus: "vivifica-me, segundo a tua palavra." Sim, este é o melhor consolo para quem sabe bem demais o que é estar curvado sob a dor; esta é a única esperança para um coração que quase se afunda em silencioso desespero. Há uma atmosfera de vida, bem acima deste pó que flui até nós de todos os lados, e que penetra até a mais escura masmorra. Há uma fonte de vida pela qual a alma cansada pode ser refrescada; e a entrada para essa fonte está aberta, apesar de todas as nuvens de pó que obscurecem este vale de sombras aqui.
Há um poder de vida que pode até dar um fim tão completo ao nosso estado de morte, que voltaremos a andar diante da face do Senhor na terra dos viventes, e, em vez de proferir lamento, traremos um cântico de louvor em nossos lábios. Não vive ainda o Príncipe da vida, para também nos repetir: "Desperta, e alegra-te, tu que habitas no pó"; e o Espírito, que sopra onde quer, não poderá, não quererá, não há de, em seu próprio bom tempo, com seu sopro vivo, soprar de nossas asas o pó que a elas se apega?
Mas, de fato, mesmo a dor roedora da alma por tanta falta de espiritualidade e torpor é sempre um sinal encorajador de que a boa obra já começou em nossos corações: aquilo que está realmente morto já não estremece com seu próprio frio. "A minha alma se apega ao pó", dizes tu, com lágrimas? Assim não falarias, se já não tivesse uma mão mais alta cavado, entre a alma e este pó, uma cova que antes lhe era desconhecida. Ninguém tem menos razão para o desespero do que quem perdeu a esperança em si mesmo, e de fato aprende a buscar em Deus aquilo que profundamente sente que menos de tudo pode dar a si mesmo.
Sim, este é o caminho, da dor mais profunda, para obter o melhor consolo; a oração humilde, sincera e perseverante, de que aquele que vive também dará vida a nossas almas, e continuará a aumentá-la, até que, livres de toda secura e morte de espírito, e arrancados da terra, subamos ao monte eterno de luz, onde por fim contemplaremos todas as nuvens terrenas abaixo de nós. Isto só o Deus da vida pode operar; mas ele está disposto — não, temos sua própria palavra como penhor, de que ele promete e nos concede a verdadeira vida. Somente, não esqueçamos que aquele que nos vivificará "segundo" sua palavra, também realiza isso por meio de sua palavra. Bebamos, então, da fonte que sempre flui, e deixemos doravante, incondicionalmente, a ele, como há de ouvir nosso clamor, ainda que nos leve por caminhos escuros! Mesmo por meio da morte, Deus pode nos vivificar e nos manter vivos. Eis-nos aqui; Senhor, faze conosco o que te parecer bom! Somente que nossas almas vivam, para que te louvem, aqui e eternamente! J. J. Van Oosterzee (1817-1882), em "The Year of Salvation."
Apega-se ao pó. É pesada pela carne, que ela mesma é pó. James G. Murphy.
O pó é o lugar do aflito, do ferido, e do morto. Vivifica-me, a saber, para a vida, a paz e a alegria. A. R. Fausset.
Vivifica-me», etc. Vendo que estava vivo, como ora ele para que Deus o vivifique? Respondo: os piedosos estimam a vida não segundo aquela que têm no corpo, mas na alma. Se falta à alma o sentido da misericórdia, e uma disposição celestial para as coisas espirituais, eles lamentam por isso, como por uma alma morta: pois, com certeza, os abandonos temporais são mais pesados para os piedosos do que a morte temporal. Segundo a tua palavra. Esta é uma grande fé: que, onde, quanto ao seu sentir presente, se achava morto, ainda assim espera vida de Deus, segundo a sua promessa. Tal era a fé de Abraão, que, contra a esperança, creu em esperança. E, na verdade, muitas vezes os filhos de Deus são trazidos a este estado, em que nada têm para os sustentar senão a palavra de Deus; nenhum sentido de misericórdia, nenhuma disposição espiritual; mas, ao contrário, grande escuridão, terrores e medos horríveis. Só são sustentados por olhar para a promessa de Deus, e mantidos em alguma esperança de que ele os restaurará à vida de novo, porque é seu louvor terminar a obra que começa. William Cowper.
Vivifica-me. Esta frase ocorre nove vezes, e só neste Salmo. É de grande importância, pois expressa a mudança espiritual pela qual um filho de Adão se torna filho de Deus. Sua fonte é Deus; o instrumento pelo qual se efetua é a palavra (Salmos 119:50). James G. Murphy.
Vivifica-me segundo a tua palavra. Onde há vida, haverá o esforço de se erguer — o crente não ficará prostrado em suas aspirações a Deus. Das profundezas mais baixas, ouve-se a linguagem da fé subindo até o Deus altíssimo, que realiza todas as coisas pelo crente. O verdadeiro filho não pode deixar de olhar para o Pai amoroso, que é o Todo-poderoso, o Suficiente por si mesmo. Não achaste que assim é? Mas notarás a inteligência que brilha em torno da oração do crente? Ele ora para que o Senhor o vivifique segundo a sua palavra.
A palavra pode ser vista à luz do padrão segundo o qual ele há de ser moldado; ou o salmista pode ter em vista as exigências contidas na palavra a respeito do progresso do crente; ou pode estar pensando nas promessas ali encontradas em favor dos pobres e necessitados quando recorrem a elas.
De fato, todos esses sentidos podem estar envolvidos na única expressão — "segundo a tua palavra" — o padrão da perfeição, as exigências da palavra, as promessas a respeito dela. O grande exemplo do crente é Cristo — antigamente era o Cristo da profecia.
Então as exigências da vontade do Senhor estavam espalhadas pela palavra. O salmista, porém, pode estar se detendo nas grandes promessas que o Senhor deu para o aperfeiçoamento de seu povo. Vês para o que aspira a natureza espiritual. Basta, ao homem natural ou ao formalista, ser tão bem comportado e estimado quanto os demais professos — o homem espiritual aspira além disso — aspira a ser vivificado segundo a palavra de Deus. Julgai a vós mesmos. John Stephen.
Vivifica-me segundo a tua palavra. Por tua providência, põe vida em meus assuntos; por tua graça, põe vida em meus afetos; cura-me de minha morte espiritual, e faze-me vivo em minha devoção. Matthew Henry.
Vivifica-me segundo a tua palavra. Ainda que o Senhor deixe os seus permanecerem tanto tempo abatidos em sua pesada condição de espírito, que pareçam mortos; ainda assim, pela fé em sua palavra, ele mantém neles vida bastante para lhes fornecer a oração a Deus por consolo: "vivifica-me segundo a tua palavra." David Dickson.
Vivifica-me. A quem hão de recorrer os piedosos, quando a vida lhes falta, senão àquela Fonte de toda a vida? Assim como, para remover o frio, o caminho mais próximo é aproximar-se do fogo, também, para dissipar qualquer morte, o caminho mais próximo é olhar para aquele que é nossa raiz, por quem vivemos esta vida natural. Todos os preservativos e restaurativos não são nada, todos os colégios de médicos são vaidade, comparados a ele. Outras coisas que não têm vida dão vida como instrumentos daquele que é a vida, assim como o fogo queima, sendo instrumento do calor. "Quando o coração e a carne desfalecem, Deus é a força do meu coração." Assim como um homem pode deixar quase se apagar um fogo que havia acendido, e depois assopra-lo, e, com a aplicação de novo combustível, faz com que arda tanto quanto antes: assim pode Deus tratar desta chama de vida que ele acendeu. Paul Bayne.
Segundo a tua palavra. A palavra remove a morte e a dureza da consciência. Não é esta palavra um martelo para amolecer o coração, e não é esta a semente imortal pela qual somos regenerados? Por isso Davi, achando sua consciência num estado de morte, orou: "a minha alma se apega ao pó; vivifica-me segundo a tua palavra." A palavra é a primeira coisa pela qual a consciência é purificada e corrigida. John Sheffield, em "A Good Conscience the Strongest Hold", 1650.
Segundo a tua palavra. Que palavra tem Davi em mente? Ou as promessas gerais nos livros de Moisés ou de Jó, que sugerem libertação aos fiéis observadores da lei de Deus, ou socorro aos miseráveis e aflitos; ou alguma promessa particular dada a ele por Natã, ou por outros. Diz Crisóstomo: "vivifica-me segundo a tua palavra: mas não é uma palavra de mandamento, e sim uma palavra de promessa." Note aqui: ele não diz secundum meritum meum — segundo o meu mérito —, mas secundum verbum tuum — segundo a tua palavra; a esperança, ou o socorro que esperamos de Deus, se funda em sua palavra; ali está nossa segurança, em suas promessas, não em nosso merecimento: Promittendo se fecit debitorem — prometendo, ele se fez devedor.
Quando havia tão pouca Escritura escrita, ainda assim Davi conseguia encontrar uma palavra para seu apoio. Ai! em nossas tribulações e aflições, nenhuma promessa nos vem à mente. Assim como, nas coisas externas, muitos que têm menos vivem melhor do que os que têm em abundância; assim aqui, agora que a Escritura é tão vasta, somos menos diligentes, e por isso, embora tenhamos tantas promessas, tendemos a desfalecer, não temos uma palavra que nos sustente. Esta palavra não ajudou Davi, até que ele tivesse permanecido tanto tempo sob esta condição pesada, que parecia morto. Muitos, quando têm uma promessa, pensam desfrutar de imediato de seu consolo. Não; primeiro são necessários o esperar e o lutar. Nunca saboreamos o consolo das promessas até que as criaturas tenham gasto sua provisão, e tenhamos sido postos à prova. Deus cumprirá sua palavra, e, no entanto, devemos esperar ser experimentados.
Nesta sua condição de morte, a fé na palavra de Deus o manteve vivo. Quando temos o mínimo de sentimento, e nada mais nos resta, a palavra nos sustentará: "e, não enfraquecendo na fé, não considerou o seu próprio corpo já amortecido, sendo já de quase cem anos, nem o amortecimento da madre de Sara: e não vacilou, por incredulidade, na promessa de Deus, antes foi fortalecido na fé, dando glória a Deus" (Romanos 4:19-20). Um modo de obter consolo é alegar a promessa de Deus na oração, chirographa tua injiciebat tibi Domine — mostra-lhe, Senhor, teus próprios escritos; Deus é zeloso de sua palavra. Estes argumentos, na oração, não são para operar sobre Deus, mas sobre nós mesmos. Thomas Manton.
Não é de admirar as oscilações que ocorrem nos sentimentos e na experiência de um filho de Deus — ora no alto do monte, perto de Deus e em comunhão com Deus, ora no vale profundo e escuro. Todos, mais ou menos, conhecem essas mudanças, e têm suas estações de tristeza tanto quanto de alegria.
Quando deixamos Davi da última vez, o que ele nos dizia de sua experiência? Que os testemunhos de Deus eram seu deleite e seus conselheiros; mas agora, que tom tão diferente! Toda alegria está obscurecida, e sua alma se apega ao pó. E devem ter existido estações de profunda depressão e desânimo no coração de Davi — dado como fugitivo e andarilho longe de casa, caçado como perdiz nos montes, e tendo, como ele mesmo diz, sua vida continuamente em suas mãos. Contudo, penso que nesta parte do Salmo há evidência de um abatimento e uma tristeza de coração mais profundos do que qualquer sofrimento meramente mundano poderia produzir. Ele havia de fato dito: "um dia perecerei pela mão de Saul"; mas, mesmo naquele momento de fé fraca e murmurante, sabia que era o ungido de Deus, para se assentar no trono de Israel.
Mas, aqui há indicação de pecado, de grave pecado, que havia derrubado sua alma até o pó; e penso que a súplica de Salmos 119:29 nos dá alguma pista de qual tenha sido esse pecado: "Afasta de mim o caminho da mentira." Teria Davi — bem se pode perguntar com espanto — teria Davi alguma vez mentido? Teria ele algum dia se desviado do caminho reto e honroso da verdade? Temo que devamos reconhecer que, em certo momento, ele chegou tão perto das fronteiras de uma falsidade, que seria um pobre casuísta, e um moralista ainda pior, quem tentasse defender o salmista dessa imputação.
Não podemos ler o capítulo 27 do primeiro livro de Samuel sem reconhecer em que triste tecido de equívocos e engano Davi foi infelizmente seduzido. Bem podia sua alma apegar-se ao pó, ao rever aquele período de sua trajetória; e, embora a graça tenha feito por ele o que depois fez por Pedro, e ele tenha sido arrancado como um tição do fogo, ainda assim bem se pode imaginar que, como o Apóstolo depois, quando pensava nisso, chorava, e amargamente. Barton Bouchier.
Versículo 26Salmo 119:26
Declarei os meus caminhos», etc. Este versículo contém uma oração, com uma razão, nesta forma: "Ó Senhor, muitas vezes já te declarei todo o estado e o curso de minha vida, minhas errâncias, minhas carências, minhas dúvidas, minhas dores: nada te escondi, e tu, segundo minha necessidade, sempre me ouviste: por isso, agora, Senhor, te peço que me ensines; ilumina-me com tua luz, para que eu conheça os teus estatutos e receba graça para andar neles." Este é um bom argumento ao tratar com o Senhor — já recebi muitas misericórdias e respostas favoráveis de ti; por isso, Senhor, te peço que me dês mais; pois a quem ele ama, ama até o fim; e onde começa a mostrar misericórdia, não cessa até coroar seus filhos com misericórdia. E tão cheio de graça é o Senhor, que se considera honrado sempre que lhe damos o louvor de termos encontrado consolo nele, e por isso viemos buscar mais.
Depois, deve-se notar como ele diz: "declarei os meus caminhos, e tu me ouviste": estas duas coisas caminham bem juntas, Misericórdia e Verdade: a verdade no coração do homem que confessa; a misericórdia em Deus, que ouve e perdoa: feliz é a alma em que estas duas se encontram. Muitos há que estão privados deste consolo; não podem dizer, Deus me ouviu, e tudo isso porque não tratam de modo claro e verdadeiro com o Senhor ao lhe declarar os seus caminhos. William Cowper.
Declarei os meus caminhos. Em Salmos 119:59, ele pensa em seus caminhos, isto é, em suas imperfeições internas e desvios externos dos caminhos retos e estreitos de Deus; e aqui não se envergonha de declará-los, isto é, de reconhecer e confessar que tudo isso veio sobre ele porque se esqueceu de fazer a vontade de Deus. Note a conexão entre este e o versículo anterior: minha alma se apegava ao pó, porque eu não me apegava a ti. Richard Greenham.
Declarei os meus caminhos. Sippárti, "lembrei-me dos meus caminhos"; eu os examinei; eu os investiguei. E que ele havia orado com fervor pelo perdão do que houvesse de errado neles é evidente; pois acrescenta: "tu me ouviste." Adam Clarke.
Declarei os meus caminhos», etc. A quem tu ouviste na humilde confissão de seus pecados, a esse precisas ensinar os teus estatutos. Os santos expõem diante de Deus o que encontram, tanto o bem quanto o mal, buscando libertação, provisão, fortalecimento, direção: assim como os pacientes doentes contam ao seu médico tanto o bem quanto o que não vai bem, ou como os clientes expõem seu caso a seu advogado.
Declarei. Como se os tivesse lido de um livro. Os santos conhecem os seus caminhos. Um homem que tem luz consigo vê o caminho, e pode dizer tudo a respeito dele; outro está na escuridão e nada sabe: um observa o seu curso, o outro não.
Tu me ouviste. A bondade de Deus se vê em ele ouvir o que expomos diante dele. Se os grandes deixam um pobre contar sua história por extenso, consideramos isso honrosa paciência; mas é a glória de Deus ouvir nossas carências, nossa fraqueza pelo pecado, a invencibilidade de nossos males, nossa impotência total, mesmo por nós mesmos, para buscar remédio. Tal modo de proceder faria perder o favor dos homens, mas conquista o favor de Deus. Quanto mais humildemente confessamos todas as nossas carências, mais confiantes podemos estar de que Deus nos ouvirá. Ele ensina aos humildes, pois o discípulo humilde dará a seu mestre a honra do que aprende.
Contei a mim mesmo os meus caminhos; e "tu ouviste minha confissão particular." Declarei aos outros qual é o meu caminho, e "tu me ouviste" assim discorrendo; por isso, ensina-me, já que comunico o que recebo. É um argumento derivado de seu cuidado em aprender, e do uso que fizera do que aprendera. Os piedosos, como velas, se acendem uns aos outros. Paul Bayne.
Declarei os meus caminhos. Os que quiserem prosperar com Deus devem aprender este ponto de sinceridade cristã, expor sem fingimento todo o seu caso diante dele. Isto é, declarar o que estão fazendo, a natureza de seus assuntos, o estado de seus corações, o que de bom ou de mau encontram em si mesmos, seus conflitos, seus suprimentos, suas aflições, suas esperanças; isto é declarar os nossos caminhos — o bem e o mal de que temos consciência. Assim como um paciente doente diria ao médico como ele está, também devemos tratar com Deus, se quisermos encontrar misericórdia. Este declarar seus caminhos pode ser visto:
Como um ato de fé e dependência.
Como um ato de santa amizade.
Como um ato de contrição espiritual, e de quebrantamento de coração: pois este declarar deve ser entendido conforme o que Davi quis dizer com a expressão "os meus caminhos."
Primeiro, por seus "caminhos" pode-se entender seus negócios ou empreendimentos: eu ainda os dei a conhecer a ti, entregando-os à direção de tua providência; e assim é um ato de fé e dependência, consultando a Deus, e informando-o de todos os nossos desejos.
Segundo, por seus "caminhos" pode-se entender todas as suas dificuldades, tristezas e perigos; e assim esta declaração é um ato de santa amizade, quando um homem vem como um amigo a outro, e informa a Deus de todo o seu estado, expõe sua condição diante do Senhor, na esperança de compaixão e alívio.
Terceiro, por "caminhos" se entendem tentações e pecados; e assim este declarar é um ato de contrição espiritual, ou quebrantamento de coração. Os pecados são propriamente os nossos caminhos, como em Ezequiel 18:25. Thomas Manton.
Versículos 26–30Salmo 119:26-30
O caminho dos teus preceitos. Os meus caminhos. O caminho da mentira. O caminho da verdade. Aqui se devem notar os dois contrastes pelos quais o Profeta ensina o que se deve evitar, tanto na vida quanto na doutrina, e o que se deve abraçar. O primeiro diz respeito à vida dos cristãos, pois o Profeta põe o caminho dos mandamentos de Deus em contraste com os seus próprios caminhos (Salmos 119:26-27); e, a respeito destes, confessa que o pressionaram até o pó e o afligiram grandemente; mas a respeito daqueles, declara que o ergueram de novo. Ele entende por seus próprios caminhos a natureza depravada, o desejo carnal, e a mente carnal, que é inimizade contra Deus (Romanos 8:7); mas pelos caminhos do Senhor designa a vontade de Deus expressa na Palavra.
Portanto, são vazias as jactâncias dos papistas sobre a obediência perfeita dos renovados: pois Davi, assegurado por ter sido renovado, se queixa amargamente e com muitas lágrimas de que sua alma, sob o peso intolerável dos pecados, tinha sido levada ao pó da morte e quase sufocada; mas que Deus tinha ouvido suas orações e o trouxera de volta ao caminho de seus mandamentos.
Também colhemos daqui que, nesta vida, todos os santos experimentam a luta e o combate entre a carne e o espírito, de modo que são continuamente obrigados a lamentar que sua carne os desvie do caminho do Senhor para as veredas do pecado: assim como Paulo clama, "vejo outra lei em meus membros, guerreando contra a lei da minha mente... Ó homem miserável que sou! quem me livrará do corpo desta morte?" (Romanos 7:23-24).
O segundo contraste diz respeito à doutrina; pois Davi opõe o caminho da mentira ao caminho da verdade. Somos ensinados, por este contraste, a evitar a falsa doutrina, e a nos apegar firmemente à verdade divina. A isso se aplica o preceito de Paulo (Efésios 4:25): "Por isso, tendo posto de lado a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo." Além disso, aprendemos que, se odiarmos os nossos próprios caminhos, isto é, confessarmos os nossos pecados ao Senhor, e, confiando no Mediador, orarmos pelo perdão, Deus costuma nos ouvir e perdoar misericordiosamente os nossos pecados; como está escrito (1 João 1:9): "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça." Solomon Gesner.
Versículo 26Salmo 119:26
Tu me ouviste. Respostas passadas à oração deveriam nos encorajar a vir com mais ousadia ao trono da graça. Jacó nunca esqueceu a noite que passou em Betel. William S. Plumer.
Ensina-me os teus estatutos. A repetição frequente desta única coisa neste Salmo mostra:
A necessidade deste conhecimento.
O desejo que ele tinha de obtê-lo.
Que tais repetições não são frívolas quando procedem de um coração sincero, de um afeto zeloso, e da consideração da necessidade da coisa pedida em oração.
Que os que têm mais luz têm pouco em relação ao que deveriam ter.
Assim como os avarentos pensam que nunca têm ouro suficiente, também os cristãos deveriam pensar que nunca têm conhecimento suficiente. Richard Greenham.
Ensina-me. Nunca podemos passar sem ensino, mesmo na velhice. A menos que o Espírito de Deus nos ensine, aprendemos em vão. Martin Geier.
Versículos 26–27Salmo 119:26-27
Aqui está o desejo sincero de Davi pela continuidade daquela intimidade que havia entre ele e o seu Deus; não por visões e vozes do céu, mas pela Palavra e pelo Espírito, de modo comum: "ensina-me os teus estatutos", isto é, "faze-me entender o caminho dos teus preceitos". Quando soube que Deus tinha ouvido a sua declaração de seus caminhos, ele não diz: Agora, Senhor, dize-me a minha sorte, e faze-me saber qual será o resultado; mas: Agora, Senhor, dize-me o meu dever, faze-me saber o que queres que eu faça, dadas as circunstâncias. Note-se que os que em todos os seus caminhos reconhecem a Deus podem orar com fé que ele dirigirá os seus passos no caminho certo. E o modo mais seguro de manter a nossa comunhão com Deus é aprender os seus estatutos e andar diligentemente no caminho dos seus preceitos.
— Matthew Henry.
Versículo 27Salmo 119:27
Faze-me entender. A cegueira natural é uma doença obstinada, e dificilmente se cura: por isso, uma vez e outra, precisamos orar: "abre os meus olhos"; "ensina-me os teus estatutos"; faze-me entender o caminho dos teus preceitos. A nossa ignorância é grande mesmo quando em parte se cura. As nuvens da tentação e do afeto carnal fazem-na voltar sobre nós, de modo que não sabemos o que sabemos. Por isso ele clama: "abre os meus olhos; faze-me entender." E, quanto mais conhecemos, mais se nos descobre a nossa ignorância: "Certamente sou mais bruto do que ninguém, e não tenho o entendimento de um homem. Não aprendi a sabedoria, nem tenho o conhecimento do Santo" (Provérbios 30:2-3). "Eu tinha ouvido falar de ti pelo ouvir dos ouvidos, mas agora os meus olhos te veem; por isso me abomino, e me arrependo em pó e cinza" (Jó 42:5-6). Ai, um pobre e pequeno conhecimento de ouvir falar de nada vale; abominam-se a si mesmos quando têm um conhecimento mais íntimo. Ninguém é tão confiante quanto um jovem professante que conhece algumas verdades, mas de modo fraco e imperfeito: quanto mais de fato conhecemos, mais sensíveis ficamos à nossa ignorância, e a como estamos sujeitos a este e aquele erro, de modo que não ousamos confiar em nós mesmos por uma hora sequer.
— Thomas Mantels.
O caminho... assim falarei. Podemos falar com melhor graça das "maravilhas" de Deus, as maravilhas da providência, e especialmente as maravilhas do amor que redime, quando entendemos o caminho dos preceitos de Deus e andamos nesse caminho.
— Matthew Henry.
O caminho dos teus preceitos. Ele deseja que Deus, em parte pelo seu Espírito, em parte por seus ministros, em parte pela aflição, em parte pelo estudo e pelo trabalho, o faça ter um entendimento reto e são, não somente dos seus estatutos, mas do caminho dos seus estatutos, isto é, de que modo e ordem deve viver e dirigir a sua vida, segundo aquilo que Deus lhe ordenou em sua lei. Aprenda-se aqui quão difícil é para o homem que se vangloria da própria sabedoria conhecer a vontade de Deus, até que Deus o faça conhecer.
— Richard Greenham.
Assim falarei das tuas maravilhas. Quem é sensível às coisas maravilhosas que há na palavra de Deus falará delas. 1. Será assim. 2. Deve ser assim.
Será assim. Quando o coração está profundamente comovido, a língua não se contém, mas expressa esse sentimento; pois "da abundância do coração fala a boca." Quando reanimados e reavivados em suas aflições, os santos se enchem de alegria ao pensar na excelência de Deus. "Vinde, e eu vos contarei o que Deus fez à minha alma" (Salmos 66:15). A mulher, quando achou a moeda perdida, chama as vizinhas para se alegrarem com ela. Quem tem apenas um conhecimento frio não terá um discurso tão pleno.
Deve ser assim em um triplo sentido: para a honra de Deus; para a edificação dos outros; e para o nosso próprio proveito.
(a) Para a honra de Deus, a quem devemos tanto, para trazê-lo à consideração dos que nos rodeiam. A experiência merece louvor; quando tiveres achado o Messias, chama outro a ele: "André chama a Pedro e lhe diz: Achamos o Messias; e Filipe chama a Natanael e lhe diz: Achamos aquele de quem escreveram Moisés na lei e os profetas, Jesus de Nazaré, filho de José" (João 1:41-45).
(b) Para a edificação dos outros: "E tu, quando te converteres, fortalece os teus irmãos" (Lucas 22:32). A verdadeira graça é comunicativa como o fogo, etc.
(c) Para o nosso próprio proveito. Quem usa o seu conhecimento terá mais. Ao passo que, pelo contrário, os seios cheios, se não forem chupados, secam. Ao repartir, os pães se multiplicaram. Todos os dons, mas muito mais os espirituais, que são os melhores, se aperfeiçoam pelo exercício.
— Thomas Manton.
Assim falarei, etc. O desejo de conhecimento não deve ser para satisfazer a curiosidade, nem para ostentação, nem para ganho mundano, mas para edificar a nós mesmos e aos outros em sabedoria... As tuas maravilhas. As obras da criação, da redenção e da providência, seja como registradas na Escritura, seja como observadas em nossa própria experiência, transcendem a nossa capacidade, e não podem deixar de suscitar admiração naqueles que as veem bem.
— David Dickson.
Assim falarei. É queixa frequente entre os cristãos que se sintam limitados na conversa religiosa, e muitas vezes incapazes de falar "para uso da edificação, a fim de que transmitam graça aos ouvintes" (Efésios 4:29). Aqui, então, está revelado o segredo pelo qual seremos guardados do perigo de tratar de verdades não sentidas, pois "da abundância do coração fala a nossa boca" (Mateus 12:34). Busquemos ter o coração examinado, purificado, cheio das graças do Espírito. Humildade, docilidade, simplicidade trarão luz ao entendimento, influenciarão o coração, "abrirão os lábios" e unirão cada membro que temos ao serviço e ao louvor de Deus.
— Charles Bridges.
Falarei de. Há uma estreita afinidade entre todos os deveres da religião. A mesma palavra é traduzida como orar, meditar e falar. Pensamos na majestade excelsa de Deus; clamamos a ele em oração humilde; estudamos a sua palavra até que as nossas almas se encham de alegria e admiração; e então, como não vamos falar das suas maravilhas?
— William S. Plumer.
Versículo 28Salmo 119:28
A minha alma se derrete de tristeza. No original, a palavra significa "goteja embora." A Septuaginta traz assim: "A minha alma adormeceu de cansaço" — provavelmente por um erro dos copistas, que trocaram uma palavra por outra. "Minha alma goteja." Pode referir-se (1) à abundância de suas lágrimas, como a palavra é usada na Escritura: "Os meus amigos zombam de mim: mas o meu olho derrama lágrimas diante de Deus" (Jó 16:20), ou goteja para Deus — a mesma palavra; assim ela indica a sua profunda tristeza e o sentimento de sua condição. Alusão semelhante há em Josué 7:5: "O coração do povo se derreteu, e ficou como água."
Ou (2) refere-se ao seu definhar sob o extremo de sua tristeza; assim como algo untuoso se consome gotejando, assim a sua alma ia gotejando e se esvaindo. Expressão semelhante é usada em Salmos 107:26: "A sua alma se derrete por causa do mal"; e de Jesus Cristo, cuja força se exauriu pela grandeza de suas dores, diz-se em Salmos 22:14: "Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram; o meu coração é como cera, derrete-se no meio das minhas entranhas." Seja a alusão a uma coisa ou a outra — ao gotejar das lágrimas, ou ao derreter e consumir-se do que é gordo e untuoso — indica uma dor veemente e um coração quebrantado.
É bastante claro que a sua alma ia se derretendo, e que, se Deus não o socorresse, ele não poderia resistir por mais tempo.
— Thomas Manton.
A minha alma se derrete. As versões mais antigas dão a entender que significa adormecer (LXX enystazen, Vulgata dormitavit), o que tornaria a frase notavelmente coincidente com Lucas 22:45.
— Joseph Addison Alexander.
Tristeza. Nada pode confortar o homem natural, mas Davi a teve; contudo, nada disso pôde livrá-lo daquela tristeza a que, como testemunha São Pedro, os filhos de Deus estão sujeitos nesta vida, por meio de suas múltiplas tentações. Os homens do mundo estão tão longe dessa disposição que, se têm saúde e riqueza, admiram-se de que algo possa entristecer um homem: não conhecem o exercício de uma consciência sensível; não conhecem as faltas da vida espiritual, e não se afligem por elas; estando mortos no pecado, não sentem que lhes falta vida; toda a sua preocupação é comer, beber e se divertir. Mas miseráveis são eles, pois, em seu melhor estado, são como bois cevados para o abate. Ai dos que agora riem, pois chorarão; mas bem-aventurados os que agora choram, pois serão consolados.
— William Cowper.
Fortalece-me segundo a tua palavra. Fortalece-me para cumprir os deveres, resistir às tentações e suportar os fardos de um estado aflito, para que o espírito não desfaleça.
— Matthew Henry.
Fortalece-me segundo a tua palavra. Qual é a palavra que Davi invoca? "Como os teus dias, assim será a tua força" (Deuteronômio 33:25). "Contenderá ele comigo com a grandeza do seu poder?", disse Jó; "não; antes ele me dará forças" (Jó 23:6).
— Charles Bridges.
Fortalece-me. Gesenius traduz isto como "guarda-me com vida." Assim, ygmyq [sic], neste versículo, corresponde a ygyx [sic], no primeiro versículo. Esta oração por nova força, ou vida, é um rogo para que o desgaste da vida pelas lágrimas seja restaurado pela palavra que dá vida.
— Frederick G. Marchant.
Versículo 29Salmo 119:29
Diz: "Tira de mim o caminho", e não "tira-me do caminho"; porque esse caminho da iniquidade está dentro de nós, pois nascemos filhos da ira, e as paixões inatas em nós correm para a mentira, e fazem o caminho miserável dos crimes em nossas almas.
— Thomas Le Blanc.
Tira de mim o caminho da mentira. Aqui ele reconhece que, embora já fosse exercitado na lei de Deus e em seu conhecimento, e embora fosse profeta para ensinar a outros, estava sujeito a uma série de pensamentos e imaginações perversas que sempre poderiam desviá-lo maliciosamente do caminho certo, se Deus não o tivesse sustentado com a sua mão poderosa e forte. E este é um ponto que devemos aqui notar bem; pois vemos como os homens muito se enganam a si mesmos. Quando algum de nós teve um bom começo, logo pensa que já chegou ao ápice; nunca mais se lembra de orar a Deus, uma vez que ele já lhe mostrou favor suficiente para as suas necessidades; mas, se fez alguma pequena boa ação, logo se exalta e se admira das suas grandes virtudes, pensando de imediato que o Diabo já não pode ganhar mais nada dele.
Essa tola arrogância faz com que Deus nos deixe desgarrar, de modo que caímos pesadamente, sim, que quebramos braços e pernas, e corremos grande risco de quebrar o pescoço. Não falo agora do nosso corpo natural, mas da nossa alma. Olhemos para o próprio Davi, pois foi ele quem disso deu prova. Aconteceu que ele errou vil e perversamente quando tomou Bate-Seba, mulher de seu súdito Urias, para com ela cometer adultério, e foi a causa de um assassinato tão execrável, e de muitos outros; pois fez tudo o que estava ao seu alcance para causar a completa derrota de todo o exército do Senhor e de todo o povo de Israel.
Vejamos, pois, a grande negligência e falsa segurança em que Davi caiu; e vejamos também por que ele diz: "Ai, meu bom Deus, suplico-te que assim me guies, para que eu abandone o caminho da mentira."
— John Calvin.
Mentira. Um pecado em que Davi, por falta de confiança, caiu com frequência. Veja 1 Samuel 21:2; 1 Samuel 21:8, onde ele conta às claras três ou quatro mentiras; e o mesmo fez em 1 Samuel 27:8; 1 Samuel 27:10: esse mal ele viu em si mesmo, e aqui ora contra ele.
— John Trapp.
O caminho da mentira, etc. Caminhos de mentira são todos os caminhos, exceto os caminhos dos mandamentos de Deus: a razão, os sentidos, o exemplo, o costume, os acontecimentos, as paixões enganosas — todos dizem ao homem que está seguro, ou que se arrependerá deles sem sofrer dano no final, e prometem alívio e bem-aventurança, mas não cumprem. Os que desejam obedecer a Deus precisam ser guardados dos caminhos maus: não somos tão santificados a ponto de a tentação não ferir as nossas graças. Assim como um fogo que se acende, ainda não totalmente aceso, pode ser apagado por um pouco de água, também a nossa santidade pode ser abafada pela tentação. Encontramos em nós mesmos uma inclinação a caminhos falsos, como velas recém-apagadas que logo se reacendem. Por isso, assim como as crianças queimadas temem o fogo, também nós tememos o caminho da mentira. Deus não permite que as tentações cheguem à presença de alguns; e em outros faz com que o coração se aparte do pecado quando a tentação está presente. Precisamos sair dos caminhos do pecado antes de podermos andar nos caminhos de Deus.
— Paul Bayne.
O caminho da mentira. Toda a vida de pecado é uma mentira do início ao fim. A palavra "mentira" ocorre oito vezes neste salmo.
— William S. Plumer.
O caminho da mentira. Por caminho da mentira deve-se entender tudo o que há na natureza do homem que não está de acordo com a palavra, seja em conselhos, seja em conclusões do coração, seja em ações externas; e é chamado caminho de mentira porque a natureza promete um bem a ser obtido pelo pecado que o homem não encontrará nele.
— William Cowper.
O caminho da mentira. O profeta aqui deseja ser confirmado por Deus contra toda corrupção na doutrina, e toda desordem na conduta, que Satanás, por seus instrumentos astutos e engenhosos, busca espalhar pelo mundo. Estas são chamadas "o caminho da mentira".
Porque são inventadas por Satanás, o pai das mentiras.
São sustentadas pelo engenho do homem, o depósito das mentiras.
Parecem ser o que não são, o que é da natureza das mentiras.
São contrárias a Deus e à sua verdade, os reveladores das mentiras.
— Richard Greenham.
Concede-me graciosamente a tua lei. Ele opõe a lei de Deus ao caminho da mentira. Primeiro, porque ela é a única regra de toda verdade, tanto em religião quanto em costumes: o que não está de acordo com ela é apenas uma mentira que enganará os homens. Segundo, ela destrói, e no fim destruirá totalmente, todos os erros contrários. Assim como a vara de Arão devorou as varas dos encantadores, também a palavra, que é a vara da boca de Deus, no final devorará e consumirá toda e qualquer inverdade. Terceiro, segundo a sentença desta palavra, assim será para cada homem; ela não engana ninguém. Os homens constatarão pela experiência que isso é verdade: quem anda por um caminho condenado pela palavra chegará a um fim miserável. E, ao contrário, não pode deixar de ser bem para aqueles que vivem segundo esta regra.
— William Cowper.
Concede-me graciosamente a tua lei. Davi sempre tinha o livro da lei; pois todo rei de Israel devia tê-lo sempre consigo, e os rabinos dizem que escrito de próprio punho. Mas "concede-me graciosamente a tua lei" significa que ele deseja tê-la não apenas escrita por ele, mas sobre ele, gravada em seu coração, para que tivesse um coração disposto a observá-la e guardá-la. Essa é a bênção que ele pede — "a lei" — e ela é pedida "graciosamente", isto é, em termos de graça, apenas segundo o teu próprio favor e boa vontade. Aqui temos:
O pecado deprecado: "tira de mim o caminho da mentira."
O bem suplicado e pedido: "concede-me graciosamente a tua lei."
Na primeira cláusula temos o seu mal, Davi fora tentado a um curso de mentiras. Na segunda temos o seu remédio, que é a lei de Deus.
— Thomas Manton.
Versículo 30Salmo 119:30
Escolhi o caminho da verdade. Aqui se vê o funcionamento de uma alma cheia de graça. Isso é mais do que apenas assentar-se e ouvir a palavra — sem objeção ao que se ouve. Tal modo de ouvir é tudo o que se pode afirmar da maioria dos que ouvem o evangelho, a menos que acrescentemos que ninguém está mais pronto a se deixar enganar por caminhos falsos e fáceis de salvação, pois todos concordam com o que ouvem. O homem de Deus atinge uma nota mais alta e mais espiritual — ele vai além, até a escolha da coisa; ele escolhe o caminho da verdade; e não pode deixar de escolhê-lo; é a inclinação da sua natureza renovada, o efeito, na verdade, de tudo o que tem suplicado.
Como agimos nós? O caminho da verdade é tudo o que Deus revelou a respeito do seu Filho Jesus. O coração disposto escolhe esse caminho, e todo ele: a sua amargura, a sua abnegação, tanto quanto o seu consolo; um Salvador do pecado tanto quanto um Salvador do inferno; um Salvador cujo Espírito pode conduzir da falta de oração à piedade, da ociosidade no dia do Senhor à sua santa guarda, do buscar a si mesmo ao buscar a Cristo, de uma conduta relapsa e inconsistente à observância cuidadosa de toda a vontade do Senhor. Onde o povo de Deus se reúne, ali esses se comprazerão em estar. Que muitos assim abundem entre nós!
— John Stephen.
Escolhi o caminho da verdade. A religião não é questão de acaso, mas de escolha. Já pesamos as coisas na balança e, após madura deliberação, fizemos a nossa opção — "teremos a Deus a qualquer custo"? Já nos sentamos e calculamos o custo — o que a religião há de nos custar, o abandono das nossas paixões; e o que ela pode nos custar, o abandono da nossa vida? Já resolvemos, com o auxílio da graça, reconhecer a Cristo quando as espadas e os bastões se erguerem? E navegar com ele, não apenas num barco de recreio, mas num navio de guerra? Essa escolha revela que Deus nos pertence: os hipócritas professam a Deus por interesse mundano, não por escolha religiosa.
— Thomas Watson, em The Morning Exercises.
Escolhi o caminho da verdade. A escolha que Davi faz aqui da verdade de Deus procede daquela escolha e eleição pela qual o Senhor, antes de todo o tempo, escolheu Davi, em Cristo, para ser um dos seus eleitos. Pois, assim como é verdade quanto ao amor — "nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou" — nunca o teríamos amado se ele não nos tivesse amado primeiro; também é verdade quanto à eleição: se ele antes do tempo não nos tivesse escolhido para ser o seu povo, jamais no tempo o teríamos escolhido para ser o nosso Deus. E isto noto naqueles que amam a palavra de Deus, e nela se comprazem, que podem dizer, de um bom coração, que o Senhor é a sua porção e a alegria da sua alma: este é um selo seguro da sua eleição, gravado pelo dedo de Deus em seu coração.
— William Cowper.
Em todos os nossos exercícios religiosos, que a deliberação preceda a nossa resolução, e a reflexão introduza a decisão. Assim fez Davi; e por isso diz aqui: "escolhi o caminho da verdade: os teus juízos tenho posto diante de mim." Na verdade, não pode deixar de resolver-se e de escolher o caminho da piedade quem põe diante de si a bondade, a retidão e o prazer desse caminho. Quando o filho pródigo considera consigo mesmo quão bem viviam os servos de seu pai, pensa, e até se decide, a voltar para casa: "levantar-me-ei e irei ter com meu pai."
— Abraham Wright, 1661.
Escolhi. Nenhum homem jamais serviu ao Senhor sem primeiro tê-lo escolhido como seu Senhor. Todo homem, ao chegar à idade da razão, de modo a ser senhor de si mesmo, pondera consigo que caminho seguirá, se servirá a Deus ou ao mundo. Ora, todos os santos de Deus fizeram essa escolha distinta: serviremos ao Senhor, e a nenhum outro. Moisés, quando ambos se puseram diante dele — os prazeres do Egito de um lado, e Deus e o seu povo com as suas aflições do outro —, escolheu este último em vez do primeiro (Hebreus 11:25). Assim diz Davi que fez: "escolhi o caminho da verdade: os teus juízos tenho posto diante de mim"; pois escolher é, quando algo está diante do homem, ele considerar e tomá-lo. Assim Josué: "eu e a minha casa serviremos ao Senhor."
— John Preston (1587-1628), em The Golden Sceptre held forth to the Humble, 1638.
Verdade. Há três espécies de verdade: verdade no coração, verdade na palavra, verdade na ação (2 Reis 20:3; Zacarias 8:16; Hebreus 10:22).
— Ayguan, em The Preacher's Storehouse, de J. E. Vaux.
Os teus juízos. A palavra de Deus é chamada o seu juízo, porque discerne o bem do mal; e não é uma sentença nua, mas, assim como aponta o mal, também pronuncia castigos contra ele, os quais se cumprirão segundo a sentença dela.
— William Cowper.
Versículos 30–31Salmo 119:30-31
Escolhi; persisti. O cristão que escolhe tende a ser o cristão que persiste; ao passo que os que são cristãos por acaso mudam de rumo quando o vento vira.
— Matthew Henry.
Versículo 30Salmo 119:30
Os teus juízos tenho posto diante de mim. A sólida consideração de que a palavra de Deus é o seu decreto ou juízo pode guardar o crente contra os terrores e as seduções dos homens, e firmá-lo em sua reta escolha, como aqui.
— David Dickson.
Os teus juízos tenho posto diante de mim. Os homens que pretendem viajar pelo caminho certo põem diante de si um mapa: assim Davi, tendo a sua vontade se decidido pelos caminhos da verdade, põe diante dos olhos o mapa da lei, que lhos revelava, assim como o marinheiro tem a sua carta com a bússola.
— Paul Bayne.
Versículo 31Salmo 119:31
Apeguei-me aos teus testemunhos. Não é pouco notável que, embora o salmista diga (Salmos 119:25) "a minha alma se apega ao pó," ele diga aqui "apeguei-me aos teus testemunhos"; pois é a mesma palavra original em ambos os versículos. A coisa é inteiramente compatível com a experiência do crente. Por dentro há o corpo do pecado que habita nele, e por dentro há o princípio imorredouro da graça divina. Há o combate entre eles: "a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne" (Gálatas 5:17), e o crente é constrangido a clamar: "ó homem miserável que eu sou!" (Romanos 7:24). É assim mesmo; e todos os crentes o constatam. Enquanto a alma muitas vezes se sente apegada ao pó, o espírito se esforça por apegar-se aos testemunhos de Deus. Assim ora o crente: faze com que eu não seja confundido. E, apegando-vos a Cristo, irmãos, não sereis confundidos, para todo o sempre.
— John Stephen.
Apeguei-me aos teus testemunhos. Ele aderiu a eles quando interesses momentâneos poderiam ditar uma conduta diferente, quando a incredulidade estaria pronta a recuar do caminho do dever, quando as aparências externas eram muito desanimadoras para a fidelidade, quando todos estavam prontos a zombar de sua determinação, tida por absurda.
— John Morison.
Apeguei-me. A verdadeira piedade sempre traz na cabeça a grinalda da perseverança.
— William Cowper.
Não me confundas. Visto que Davi, com boa consciência, procurou servir a Deus, ele suplica que o Senhor não o confunda. Isso acontece de dois modos: ou quando o Senhor abandona os seus filhos, de modo que, em sua aflição, não sentem os consolos prometidos, e grande confusão de mente e perturbação vem sobre eles; ou então quando os deixa como presa dos seus inimigos, que zombam deles por sua vida piedosa e sincera, e exultam sobre eles em seu tempo de aflição; quando veem que toda a sua oração e demais exercícios de religião não podem livrá-los das mãos dos seus inimigos. "Confiou em Deus: livre-o ele." Dessa vergonha e desse desprezo ele deseja que o Senhor o guarde, e que nunca seja como aqueles que, decepcionados naquilo em que confiavam, ficam envergonhados.
— William Cowper.
Versículo 32Salmo 119:32
Correrei pelo caminho dos teus mandamentos, quando, etc. É preciso lembrar que quem fala, o salmista, não é um homem inconvertido, mas alguém que já havia muito tempo fora trazido sob o domínio da religião. Ele não está, portanto, pedindo a primeira entrada, mas as operações posteriores e multiplicadas de um princípio de graça; e expressa o seu desejo numa fórmula singularmente descritiva da irradiação de uma influência do coração sobre o restante do homem. O seu desejo é que o seu coração seja alargado; e esse desejo equivalia a um anseio de que todo o seu ser agisse em uníssono com o coração, de modo que ele se tornasse, por assim dizer, todo coração, e assim o coração, no sentido mais estrito, fosse alargado, espalhando-se pelo corpo e pela alma, expandindo-se até abarcar todas as forças de ambos.
Se houver o amor de Deus no coração, então, gradualmente, o coração, possuído e movido por um princípio tão nobre e vigoroso, trará todas as energias, tanto mentais quanto corporais, a uma consagração elevada, e na prática será como se as demais partes do homem se tivessem, em resultado, transformado em coração, e ele se tornasse, segundo a expressão que costumamos usar para descrever um caráter de generosidade e calor incomuns, "todo coração". De modo que o desejo por um coração alargado bem pode ser considerado equivalente ao desejo de que toda faculdade fosse trazida à plena sujeição a Deus; e que, assim como o próprio Deus é amor — sendo o amor antes a essência divina do que um atributo divino, e por isso o amor se mistura a todas as propriedades da divindade —, assim o homem que tem amor no coração possa se tornar todo coração, o coração lançando-se sobre todas as suas capacidades, penetrando-as, mas sem apagar as características de sua natureza.
E exatamente de acordo com essa visão do alargamento do coração que o salmista desejava está o resultado prático que se seguiria à sua obtenção. Ele já andava no caminho dos mandamentos de Deus; mas o que se propunha era correr por esse caminho: "correrei pelo caminho dos teus mandamentos, quando alargares o meu coração." Um passo mais rápido, um progresso mais veloz, maior prontidão, uma constância mais firme, uma obediência mais resoluta e inabalável — esses eram os resultados que o salmista esperava do alargamento do seu coração. E, de fato, se todas as faculdades da mente e do corpo forem dedicadas a Deus, com passo constante e vigoroso o homem avançará no caminho que leva ao céu.
Enquanto a dedicação for, na melhor das hipóteses, apenas parcial, retendo o mundo alguma fração do seu domínio, apesar do estabelecimento do reino de Deus, não pode haver senão um progresso lento e obstruído, uma caminhada interrompida por repetidas paradas, quando não por recuos, por muita demora, quando não por verdadeira retirada; mas, se o homem for todo coração, então será toda vida, todo calor, todo zelo, toda energia, e a consequência dessa entrega completa a Deus será exatamente o que Isaías anuncia profeticamente: "os que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não desfalecerão."
— Henry Melvill, 1798-1871.
Correrei. Por correr entende-se a observância alegre, pronta e zelosa dos preceitos de Deus: não é ir, nem andar, mas correr. Os que querem chegar ao fim da sua jornada precisam correr pelo caminho dos mandamentos de Deus. Isso indica uma obediência rápida ou pronta, sem demora. Precisamos começar com Deus a tempo. Ai de nós! Quando deveríamos estar na meta, muitos de nós mal partimos. E indica também ardor; quando o coração de um homem está posto em algo, ele acha que nunca poderá fazê-lo cedo o bastante. E isso é correr: quando somos veementes e ardentes no gozo de Deus e de Cristo no caminho da obediência. E indica ainda que o coração se oferece livremente a Deus.
Esse correr é fruto do chamado eficaz. Quando o Senhor fala do chamado eficaz, o resultado dele é correr; quando fala da conversão dos gentios: "nações que não te conhecem correrão a ti"; e: "atrai-me, e correremos após ti." Quando Deus atrai, há um movimento rápido e ardente da alma.
Esse correr, sendo fruto do chamado eficaz, também é muito necessário; pois movimentos frios e desanimados logo são vencidos pela dificuldade e pela tentação: "corramos com paciência a carreira que nos está proposta" (Hebreus 12:1). Quando um homem tem em mente fazer algo, ainda que seja impedido e empurrado, ele suporta com paciência, segue em frente e não pode parar para debater o assunto. Um movimento lento é facilmente detido, ao passo que um movimento veloz derruba o que se lhe opõe; assim é quando os homens correm e não se cansam no serviço de Deus. Por fim, o prêmio pede que se corra: "correi de tal maneira que o alcanceis" (1 Coríntios 9:24).
— Thomas Manton.
Correrei. Não era o andar "pelo caminho dos mandamentos de Deus", mas o correr "pelo caminho dos mandamentos de Deus" a que Davi aspirava. O texto não tem relação alguma com o caso de quem habitualmente segue o caminho oposto; refere-se exclusivamente ao ritmo com que se deve percorrer a linha do dever... Pode não causar estranheza que "o doce cantor de Israel" — aquele que foi expressamente declarado "homem segundo o coração de Deus" — pareça, ainda assim, nas palavras do texto, dar a entender que ainda não estava "correndo pelo caminho dos mandamentos de Deus". Mas, caros irmãos, quanto maior a santidade relativa de um indivíduo, mais intenso será o seu anseio pela santidade absoluta. Aos outros, Davi podia parecer avançar maravilhosamente pelo caminho da vida; e, no entanto, ele mesmo julgava os seus próprios movimentos muito menos rápidos. Era essa humildade uma das provas da sua santidade.
— Hugh B. Moffat, 1871.
Correrei pelo caminho. O seu curso pretendido nesse caminho ele expressa por correr. É bom estar nesse caminho mesmo nos movimentos mais lentos; o amor rastejará onde não puder andar. Mas, se assim de fato estás, então hás de ansiar por um movimento mais veloz; se apenas rastejas, continua rastejando, deseja poder avançar. Se andas, mas ainda mancando e claudicando, deseja ser fortalecido para andar reto; e, se andas, que isso não te satisfaça, deseja correr. Assim aqui: Davi andava nesse caminho; mas deseja ardentemente melhorar o seu passo; correria de boa vontade, e para esse fim deseja um coração alargado.
Alguns discutem e disputam demais se estão andando ou não, e infantilmente contam os seus passos, e querem saber, a cada passo, se avançam ou não, e quanto avançam, e assim se distraem, gastando o tempo de agir e de andar em questionar e duvidar. Assim é com muitos cristãos; mas seria mais sábio e mais consolador esforçar-se por avançar, e, ainda que se faça pouco progresso, ao menos desejar fazer mais; orar e andar, e orar para andar mais depressa, e para que, ao fim, possam correr, sem se contentar com nada do que já alcançaram. Mas, com essa insatisfação, não devemos ficar tão abatidos a ponto de nos sentarmos ou pararmos, mas antes sermos estimulados a seguir adiante.
— Robert Leighton.
Alargado o meu coração, ou dilatado, a saber, de alegria. É digno de nota a propriedade filosófica com que essa expressão é empregada: pois o coração se dilata, e o pulso, por consequência, torna-se forte e cheio, tanto pela exultação da alegria quanto pela do orgulho.
— Richard Mant.
Alargarás o meu coração. Deus alargaria a própria sede da vida, e assim daria ao seu servo fraco mais força; força tal que ele não precisasse mais permanecer prostrado no pó, lutando para se levantar, mas força para capacitá-lo a correr no caminho da verdade. Assim, aquele que ora: "ó Senhor, não me confundas," encontra por si mesmo a verdade de um cântico anterior: "olharam para ele, e foram iluminados, e os seus rostos não foram envergonhados."
— Frederick G. Marchant.
Alarga o meu coração. Diz-se de Salomão que ele tinha "um coração largo (a mesma palavra usada aqui), como a areia da praia do mar": isto é, um espírito vasto e abrangente, capaz de sondar muito da natureza, tanto as suas coisas maiores quanto as menores. Assim, concebo, o alargamento do coração inclui a iluminação do entendimento. Ali surge uma luz mais clara para discernir as coisas espirituais de modo mais espiritual; para ver a vasta diferença entre as coisas vãs que o mundo busca e o verdadeiro e sólido prazer que há no caminho dos mandamentos de Deus; para conhecer o falso rubor dos prazeres do pecado, e que deformidade há sob essa máscara pintada, e não se deixar seduzir por ela; para ter apreensões alargadas de Deus, da sua excelência, da sua grandeza e da sua bondade; quão digno ele é de ser obedecido e servido; esta é a grande dignidade e felicidade da alma; todas as demais pretensões são baixas e pobres em comparação a esta.
Aqui, então, está o alargamento para ver a pureza e a beleza da sua lei, quão justa e razoável, sim, quão agradável e amável ela é; que os seus mandamentos não são penosos, que são leitos de especiarias; quanto mais andamos neles, mais encontramos do seu perfume e da sua doçura.
— Robert Leighton.
Estreito é o caminho para a vida, mas ninguém pode correr nele senão com o coração alargado.
— Próspero de Aquitânia (403-463), citado por Neale e Littledale.
Alargado. Certamente um templo para o grande Deus (tal como devem ser os nossos corações) deve ser belo e amplo. Se quisermos que Deus habite em nossos corações, e derrame sobre nós as suas influências, devemos abrir espaço para Deus em nossas almas, com uma maior largueza de fé e de expectativa. O homem rico pensou em alargar os seus celeiros, quando os seus bens se multiplicaram (Lucas 12:16-21); assim também devemos estender as cortinas da tenda e habitação de Cristo, ter expectativas maiores de Deus, se quisermos receber mais dele. Os vasos faltaram antes que o azeite faltasse. Não estamos estreitados em Deus, mas em nós mesmos; pela escassez dos nossos pensamentos, não abrimos espaço para ele, nem engrandecemos a Deus: "a minha alma engrandece ao Senhor" (Lucas 1:46). A fé engrandece a Deus. Como podemos tornar Deus maior do que ele é? Quanto ao seu ser declarativo, podemos ter apreensões maiores e mais amplas da sua grandeza, da sua bondade e da sua verdade.
Precisamos de um coração amplo, porque o mandamento é extremamente largo: "tenho visto fim a toda a perfeição; mas o teu mandamento é extremamente largo" (Salmos 119:96). Uma lei larga e um coração estreito jamais se ajustarão: precisamos de amor, fé, conhecimento, e de tudo, para nos levar através dessa obra, que é de tão vasta extensão e amplitude.
Precisamos de um coração alargado, por causa dos empecilhos e obstáculos dentro de nós mesmos. Há a concupiscência que nos afasta de Deus para objetos sensuais: "cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência" (Tiago 1:14). Por isso é preciso algo que nos atraia, que nos leve adiante com força e vida em outra direção, que nos impulsione no serviço de Deus. A concupiscência pesa sobre nós como um estorvo, é um peso de corrupção (Hebreus 12:1), atrasando-nos em todos os nossos voos e movimentos, contrariando, opondo-se, quebrando a força dos impulsos espirituais, quando não os impedindo por completo (Gálatas 5:17). Ora, sendo a concupiscência tão forte para um lado, Deus precisa nos atrair com mais força para o outro. Quando há um peso que nos inclina para os objetos mundanos e sensuais, precisamos de uma força que nos leve, com movimentos vigorosos e vivos da alma, na direção de Deus, um empenho sério sobre as nossas almas, que é este alargamento do coração.
— Thomas Manton.
O meu coração. O grande Médico sabe de imediato onde procurar a causa, quando vê algo errado na vida exterior do seu povo. Ele bem sabe que toda doença espiritual é doença do coração, e são os remédios do coração que ele precisa aplicar. Às vezes o nosso Médico vê sintomas violentos por natureza; outras vezes, vê sintomas de langor e debilidade; mas sabe que ambos vêm do coração; e por isso é sobre o coração que opera, quando está prestes a realizar uma cura.
A ação vigorosa do coração em todas as coisas santas vem da bendita operação do Espírito sobre ele; só então podemos "correr" pelo caminho dos mandamentos de Deus, quando ele tiver alargado o nosso coração.
O ardor na ação é o tema para o qual se dirige aqui a atenção do leitor, e é um tema de considerável importância.
Há muitos crentes que, por falta de alargamento do coração, ocupam uma posição pobre na igreja de Deus. Confiam em Jesus para a vida eterna, e ele sem dúvida não os decepcionará; será fiel à sua palavra, de que "quem crer será salvo"; mas ainda estão, ai de nós, num grau lamentável, fechados em si mesmos; têm o coração contraído; ainda têm visões estreitas do direito de Deus, dos seus próprios privilégios, e da posição em que estão postos no mundo; e, por mais que se possa dizer que estão, ou se assentam, ou andam no caminho dos mandamentos de Deus, não se pode dizer que "correm" nele.
Correr é uma ação forte e sadia do corpo; requer energia; é um exercício que precisa de um coração são; ninguém pode correr no caminho dos mandamentos de Deus, senão com a força e o vigor que ele concede. Os cristãos que correm são relativamente poucos; os cristãos que andam e se assentam são relativamente comuns; mas o cristão que corre é tão incomum que muitas vezes é tido por quase louco.
Classifiquemos, para efeito de ordem, as nossas observações sobre este tema sob os seguintes títulos:
O que é o ardor. O ardor de que aqui se fala, sob o termo "alargamento do coração," é a alegria em fazer a vontade de Deus — o amor por essa vontade — um atrair dos afetos para ela — um interesse nela; tudo isso é, e muito mais, o que não é fácil descrever ou definir.
O que o ardor faz. Onde há alargamento do coração por Deus, há uma expansão além de todos os limites que o egoísmo caído impõe. O coração se contraiu na queda; encolheu-se quando o pecado nele entrou; tornou-se incapaz de conter pensamentos grandes e generosos; tornou-se um coração escravizado. É verdade que as responsabilidades do dever não podiam ser evitadas, nem as direções da consciência; mas os afetos são voluntários, e o coração caído retraiu os seus afetos de Deus; sentiu que tinha o poder de negá-los a ele e aos seus mandamentos, e se alegrava em mostrar a sua inimizade negando a sua simpatia, ali onde não podia negar a sua obediência...
De onde vem o ardor. Ora, como já dissemos, onde o coração é operado pelo Espírito, e todo o seu mal natural é dominado, ele tem expansões que estão inteiramente além dos limites que o egoísmo caído impõe. O amor está entretecido nele: a união de sentimento, a identidade de interesse que o amor inspira, o penetram, em tudo o que pertence a Deus, pois recebeu isso de Deus; o coração se liberta da mera regra, ou, para falar com mais exatidão, se ergue acima dela, e sente — não apenas sabe, mas sente — tanto da beleza dos mandamentos de Deus, que se deleita em "correr" neles; ama ser ardente neles; os seus interesses, os seus afetos estão neles.
— Philip Bennet Power, em The "I Wills" of the Psalms, 1862.
As inquietações do coração nos incapacitam para o dever, ao impedir a nossa atividade na prossecução do dever. Todo o coração, alma e força deveriam se empenhar em todos os serviços religiosos; mas essas perturbações são como estorvos e pesos que impedem o movimento. A alegria é a dilatação da alma, e a alarga para tudo o que empreende; mas a tristeza contrai o coração, e estreita todas as faculdades. Por isso Davi pede um "coração alargado" como princípio de ação: "correrei pelo caminho dos teus mandamentos, quando alargares o meu coração"; pois que outra coisa se pode esperar, quando a mente está tão perturbada de medo e tristeza, senão que seja desigual, vacilante, fraca e confusa?
De modo que, se ela se propõe a algo, age com dificuldade, avança pesadamente, e faz muito pouco com muito esforço; e, ainda assim, a incapacidade seria menor se aquele pouco que consegue fazer fosse bem feito; mas a mente é tão interrompida em seus esforços que, às vezes, na oração, o homem começa, e logo se detém, e não ousa prosseguir, as suas palavras se perdem, "está tão perturbado que não pode falar" (Salmos 77:4).
— Richard Gilpin (1625-1699), em Daemonologia Sacra.
Sobre este Octonário, as notas fornecidas pelo Sr. Marchant, um dos tutores do Pastors' College, são tão excelentes que as damos por inteiro.
SEÇÃO ה HE.
TEMA: A LEI DE JEOVÁ A SER POSTA DIANTE DOS OLHOS, DA MENTE, DOS PÉS E DO CORAÇÃO.
Frase-chave: haqem le'avdekha imratekha. "Confirma a tua palavra ao teu servo" (Salmos 119:38).
Versículo 33Salmo 119:33
A PALAVRA POSTA DIANTE DOS OLHOS. Ensina-me; literalmente, "aponta-me," "indica-me." A raiz hebraica yarah, aqui empregada, significa "estender a mão," especialmente no sentido de apontar. Daí "mostrar," "indicar," "ensinar." O salmista pede aqui direção em sua forma mais superficial: muitos caminhos estavam diante dos seus olhos, levando à morte; um caminho estava diante dele, levando à vida. Ele pede aqui que lhe seja mostrado qual é o caminho de Jeová. Se o Senhor sempre mostrar aos seus olhos qual é o caminho certo, então ele o guardará até o fim. Aqui se pede luz para os olhos. Assim como o indígena segue a sua trilha com olhar infalível e passo firme, também nós, atentos a todo desvio que possa nos extraviar, devemos seguir o caminho que leva à vida.
Versículos 33–40Salmo 119:33-40
Neste Octonário, uma vez e outra, repete-se a mesma oração, da qual várias vezes já se fez menção. Pois ele ora para ser divinamente ensinado, governado, fortalecido e defendido contra as calúnias, as afrontas e as ameaças dos seus inimigos. E a oração está cheia dos mais ardentes anseios, o que se manifesta pela mesma resolução ser tantas vezes repetida. Pois, quanto mais conhece a ignorância, a obscuridade, as dúvidas e a fraqueza da mente humana, e vê como os homens são impelidos por um pequeno impulso a se afastarem da verdade e abraçarem erros contrários à palavra divina, ou a caírem em grandes pecados, tanto mais ardente e fortemente pede em oração que seja divinamente ensinado, governado e fortalecido, para que não rejeite a verdade reconhecida, nem se lance na maldade. E, por seu exemplo, ensina que também nós, contra a cegueira que trazemos de nascença, e a fraqueza da nossa carne, e também contra as ciladas e a loucura dos demônios, devemos nos fortificar com essas armas: a saber, com o reto estudo e conhecimento da Palavra divina, e com a oração constante. Pois, se um homem tão grande, que alcançara tais avanços eminentes, orava por isso, quanto mais devem fazê-lo os que são apenas noviços e principiantes ignorantes. Esta é a suma deste Octonário.
— D. H. Mollerus.
Nesta parte, nove vezes o salmista eleva a sua petição ao seu Deus, e seis delas ele acompanha de uma razão para ser ouvido... Estas petições são as manifestações de um coração renovado; o homem de Deus não podia deixar de expressá-las — tal era o novo processo de refinamento que nele se operara... O esboço é este: petições são oferecidas por Instrução (Salmos 119:33) e Entendimento (Salmos 119:34), e também por Capacidade Espiritual (Salmos 119:35) e Inclinação (Salmos 119:36). Seguem-se petições por Isenção do Espírito de Vaidade (Salmos 119:37), e por Vivificação Divina (Salmos 119:37). Pede-se ao Senhor que cumpra a sua Palavra de Promessa ao seu servo (Salmos 119:38), e que o livre do Opróbrio Temido. Por fim, o homem de Deus baseia a sua oração por vivificação na Justiça Divina (Salmos 119:40). Que o Espírito Divino nos ensine a nos compararmos com o que aqui encontramos, para que vejamos a salvação do nosso Deus!
— John Stephen.
Observo que, neste único octonário, o que não se encontra em nenhum outro, a saber, que em cada versículo há uma oração distinta. No primeiro, ele ora para ser ensinado, e depois promete acolher aquilo que Deus lhe ensinar. Já havia resolvido correr por este caminho; mas logo sentiu os seus próprios desvios naturais, e por isso vem a este guia para ser ensinado.
— Richard Greenham.
Versículo 33Salmo 119:33
Ensina-me, Senhor, o caminho dos teus estatutos, etc. A instrução vinda do alto é necessária aos filhos de Deus, enquanto permanecerem neste mundo. Quanto mais conhecemos, mais desejaremos conhecer; pediremos um suprimento diário de graça, assim como de pão; e um gosto do "cacho de Escol" nos fará ansiar pela vindima de Canaã (Números 13:23). A religião é a arte de viver santamente, e só se conhece quando se pratica; assim como não é mestre de música quem sabe ler as notas que a compõem, mas quem aprendeu a tirar uma lição do livro com presteza e a tocá-la em seu instrumento; depois do que o prazer que isso proporciona será motivo suficiente para continuar a fazê-lo.
— George Horne.
Ensina-me, Senhor, o caminho dos teus estatutos, etc. Na sinceridade do vosso coração, ide a Deus em busca do seu ensino. Deus se agrada desse pedido. "Dá, pois, ao teu servo um coração entendido, para julgar o teu povo, para discernir entre o bem e o mal; pois quem poderá julgar este teu tão grande povo? E pareceu bem aos olhos do Senhor que Salomão pedisse isto" (1 Reis 3:9-10). Ah, pedi isso a Deus, por estas três razões:
O caminho dos estatutos de Deus é digno de ser achado por todos.
É difícil de ser achado e guardado por qualquer um.
É tão perigoso perdê-lo que isso deveria nos impelir a sermos fervorosos com Deus.
— Thomas Manton.
Ensina-me, Senhor, etc. "Quem é seu próprio discípulo," observa São Bernardo, "tem um tolo por mestre." Um soldado que entra em marcha não decide por si mesmo a ordem da sua jornada, nem começa o caminho por vontade própria, nem escolhe atalhos agradáveis, para não sair da fileira, longe dos estandartes; mas recebe a rota do seu general, e a ela se atém; avança em ordem prescrita, marcha armado, e segue direto até o fim da sua marcha, para ali encontrar os suprimentos providos pela intendência. Se for por qualquer outro caminho, não recebe ração, nem encontra alojamento pronto, porque as ordens do general são que todas essas coisas sejam preparadas para os que o seguem, e não se desviam nem para a direita nem para a esquerda. E assim, quem segue o seu general não fraqueja, e por boas razões; pois o general não cuida da própria conveniência, mas da capacidade de todo o seu exército. E esta é também a ordem de marcha de Cristo, ao conduzir o seu grande exército, para fora do Egito espiritual, até a eterna Terra do Paraíso.
— Ambrósio, citado por Neale e Littledale.
Ensina-me, Senhor, o caminho, etc. Nunca se deveria esquecer, como esta quinta seção nos ensina, que há um caminho traçado pela própria ordenação de Deus, para que todo o seu povo nele ande, e nele persevere. Outros traçam um caminho, cada um para si mesmo, e, apegando-se a ele, pensam estar seguros. Davi não confiava em nada disso; desejava apenas ser achado no caminho da ordenança de Deus, e ser de tal modo ensinado por Deus que o guardasse até o fim; ou, como diz o original, guardá-lo até o fim, o fim da sua profissão, a salvação da sua alma.
— W. Wilson.
Ensina-me, Senhor, o caminho dos teus estatutos; e o guardarei, etc. Se tu continuares a ser meu mestre, diz Davi, eu continuarei a ser teu servo. Não pode haver perseverança sem que continuamente nos sejam dados luz e graça da parte do Senhor. Assim como a árvore que não tem seiva na raiz pode florescer por um tempo, mas não pode continuar, também o homem cujo coração não é regado continuamente pelo orvalho da graça de Deus pode, por um tempo, fazer bela demonstração de piedade, mas, ao fim, cairá. Não somos nós que sustentamos a raiz, mas a raiz que nos sustenta: tremamos e temamos. Se não permanecermos no nosso Senhor, tornamo-nos ramos secos, bons apenas para o fogo. Oremos sempre para que ele permaneça sempre conosco, para nos instruir com a sua luz, e nos conduzir com o seu poder, naquele caminho que pode nos levar até ele mesmo.
— William Cowper.
Estatutos, de uma palavra que significa marcar, traçar, descrever e ordenar; porque marcam o nosso caminho, descrevem a linha de conduta que devemos seguir, e ordenam o que devemos observar.
— Adam Clarke.
Os "estatutos" de Deus declaram a sua autoridade e o seu poder de nos dar leis.
— Matthew Pool, 1624-1679.
Até o fim, ou, à guisa de retorno, ou recompensa, ou gratidão para contigo; sendo a misericórdia de Deus em ensinar, em toda razão, para ser recompensada ou correspondida pela nossa observância e cuidado exato daquilo que ele ensina. Ou então, por analogia com Salmos 19:11, onde guardar os seus mandamentos traz consigo grande recompensa; pode-se aqui traduzir "pela recompensa", significando o gozo presente dela, Salmos 119:32, sem excluir a coroa futura.
— H. Hammond.
Até o fim. Completamente; o hebraico diz, até o calcanhar. A força das palavras parece ser: "Completamente, da cabeça aos pés."
— Zachary Mudge, 1744.
Versículos 33–34Salmo 119:33-34
Até o fim. Ele não será um oportunista; guardá-lo-á "até o fim." Ele não será um hipócrita; guardá-lo-á "de todo o coração."
— Adam Clarke.
Versículo 34Salmo 119:34
A PALAVRA POSTA DIANTE DA MENTE. Dá-me entendimento. A palavra aqui usada se refere à compreensão mental, distinta da mera direção, ou indicação, pedida no versículo anterior. Aqui a oração é: "faze-me discernir," "faze-me perceber," isto é, com o entendimento. "A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus." Os sentidos externos devem primeiro ver o caminho, depois a mente deve entendê-lo, e então, com fé e amor, o coração deve segui-lo. Assim também o salmista: se Deus o fizer entender a lei, ele a guardará de todo o coração. Ainda assim, o coração tende a se inclinar para as coisas terrenas e pecaminosas, e o socorro divino precisa logo ser invocado também para isso.
Dá-me entendimento. O salmista vai à raiz do assunto; ele é ensinado a fazê-lo pelo Espírito de todo o ensino. Ele não queria apenas ser ensinado, como um mestre ensinaria, mas queria ter a sua mente remodelada e formada como só o Criador poderia fazer. As palavras implicam tanto. "Dá-me entendimento" — faze-me entender. Não queria apenas conhecer uma coisa — a sua natureza geral; mas desejava entender o começo, o desenvolvimento e o fim dela. Queria alcançar o poder de distinguir entre o certo e o errado — o discernimento espiritual, para que pudesse discernir o certo, e, ao mesmo tempo, tudo o que lhe fosse contrário; queria entendimento, para que pudesse conhecer, discernir e prezar a verdade, o verdadeiro caminho de Deus, evitando cuidadosamente tudo o que dele se desviasse.
— John Stephen.
Dá-me entendimento. Isto é o que devemos a Cristo; pois "o Filho de Deus veio, e nos deu entendimento" (1 João 5:20).
— Matthew Henry.
Entendimento. O entendimento é o piloto e o guia de todo o homem; a faculdade que se assenta ao leme da alma: mas, assim como o guia mais hábil pode errar no escuro, também pode errar o entendimento, quando lhe falta a luz do conhecimento. "Sem conhecimento a mente não pode ser boa" (Provérbios 19:2); nem a vida boa; nem a condição externa segura (Efésios 4:18). "O meu povo perece por falta de conhecimento" (Oseias 4:6).
É comum na Escritura atribuir a profanidade, e todo tipo de erro, à conta da ignorância. As doenças do corpo muitas vezes têm origem em perturbações da cabeça; e os excessos na prática, em erros do juízo. E, de fato, em todo pecado há algo tanto de ignorância quanto de erro no fundo: pois, se os pecadores soubessem verdadeiramente o que fazem ao pecar, poderíamos dizer de todo pecado o que o apóstolo diz daquele grande pecado: "se o conhecessem, não teriam crucificado o Senhor da glória" (1 Coríntios 2:8). Se soubessem verdadeiramente que todo pecado é provocar o Senhor a zelo, proclamar guerra contra o céu, crucificar de novo o Senhor Jesus, ajuntar de novo ira sobre si mesmos para o dia da ira; e que, se algum dia forem perdoados, isso não pode ser por menos do que o preço do seu sangue — dificilmente o pecado, em vez de atrair, deixaria de aterrorizar, e, em vez de tentar, de espantar.
— Do "Epístola Recomendatória" prefixada à Confissão e aos Catecismos de Westminster.
Todo o meu coração. O homem todo é de Deus, por todo tipo de direito e título; e por isso, quando ele exige todo o coração, exige apenas o que já é seu. Deus nos deu por inteiro na criação, preserva-nos por inteiro, redime-nos por inteiro, e promete glorificar-nos por inteiro. Se tivéssemos sido mutilados na criação, ficaríamos perturbados; se nascêssemos sem mãos ou pés. Se Deus nos entregasse a nós mesmos para guardarmos para nós a parte que dele reservamos, ou se, na morte, fizesse tal divisão, levando uma parte ao céu; ou se Cristo tivesse comprado apenas uma parte: "fostes comprados por preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais são de Deus" (1 Coríntios 6:20).
Se alguma boa obra se operou em vós, Deus santificou o todo em sentido evangélico, isto é, cada parte: "e o mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam preservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Tessalonicenses 5:23). Não apenas a consciência, mas a vontade e os afetos, o apetite e o corpo. E vós destes tudo a ele para o seu uso: "eu sou do meu amado"! não uma parte, mas o todo. Ele não pôde suportar Ananias, que reteve parte do preço; tudo lhe é devido. Quando o mundo, o prazer, a ambição, o orgulho, o desejo de riquezas, o amor impuro, desejam uma parte em nós, lembremo-nos de que não temos afetos para dispor sem a licença de Deus.
Tudo é dele, e é sacrilégio roubar ou reter dele qualquer parte. Alienarei eu o que é de Deus para satisfazer o mundo, a carne e o Diabo?
— Thomas Manton.
Versículos 34–35Salmo 119:34-35
Dá-me entendimento. Faze-me andar. O entendimento que ele busca conduz ao andar, e é buscado para esse fim. O ensino de Deus gera obediência; ele nos mostra o caminho da vida, e nos faz andar nele. É uma instrução que dá força, que desperta a vontade indolente, e quebra a força das inclinações corruptas; remove a vontade indolente e as trevas que a corrupção e o pecado trouxeram sobre a mente, e nos torna dóceis e prontos para obedecer; sim, dá não apenas a vontade, mas a ação; em suma, empenha-nos numa obediência vigilante, cuidadosa, uniforme e constante.
— Thomas Manton.
Versículo 35Salmo 119:35
A PALAVRA POSTA DIANTE DOS PÉS. A palavra hebraica aqui usada vem da raiz que significa "pisar com os pés," "trilhar." Daí, "faze-me andar" alude aqui ao próprio ato de caminhar no caminho divino, em distinção da mera percepção do caminho pelos olhos e pelo entendimento. É nesta questão do caminhar prático que as dificuldades reais do caminho parecem se apresentar com mais força; por isso já não se usa aqui a palavra do versículo 33, que pode significar um caminho largo e aberto, mas outra que (diz Gesenius) "nunca designa uma estrada pública e real, tal como se ergue e se forma pela arte, mas sempre uma vereda de pé." Assim, Buxtorf, o jovem, traduz a palavra por semita. Quando os pés de fato chegam a trilhá-lo, o caminho da verdade sempre se revela ser "o caminho estreito."
Faze-me andar na vereda dos teus mandamentos. Davi, nos versículos anteriores, pedira luz; agora pede força para andar segundo essa luz. Precisamos não só de luz para conhecer o nosso caminho, mas de um coração para nele andar. A direção é necessária por causa da cegueira das nossas mentes; e os impulsos eficazes da graça são necessários por causa da fraqueza dos nossos corações. Não basta ao nosso dever ter uma noção nua das verdades, a menos que as abracemos e as sigamos. Por isso, precisamos de um duplo socorro de Deus: a mente deve ser iluminada, a vontade movida e inclinada. A obra de um cristão não está na profundidade da especulação, mas na altura da prática. A excelência da graça divina consiste nisto: que Deus primeiro ensina o que deve ser feito, e depois nos faz fazer o que foi ensinado: "faze-me andar na vereda dos teus mandamentos."
— Thomas Manton.
A vereda dos teus mandamentos. Chamam-se "veredas" porque as veredas são passagens estreitas, curtas, retas e limpas, para pessoas a pé apenas, e não para cavalos e carruagens; e assim é o caminho do Senhor, comparado ao da carne e do mundo, cujos caminhos são todos largos, imundos e tortuosos, trilhados por animais brutos, figura do homem carnal e animal. Ele dá uma razão para ser ouvido quando diz: "por isso mesmo o desejei"; porque, pela graça de Deus, escolhi esta vereda, e desejei nela andar, e é justo que aquele que dá a vontade dê também a graça para a cumprir, como diz São Paulo: "aquele que opera em vós tanto o querer como o efetuar."
— Roberto Belarmino.
A vereda é "a vereda dos teus mandamentos." Não um caminho novo, mas o caminho antigo e já trilhado, no qual todos os servos de Deus andaram antes dele, e que os gregos (como observa Eutímio) chamavam tribon, como que "caminho trilhado." Mas, por mais trilhado que seja este caminho, pelo andar e pisar de muitos nele, ainda assim ele reconhece que é um só, e um caminho estreito e difícil de guardar, e por isso busca ser guiado nele.
— William Cowper.
A vereda. É uma "vereda," não uma estrada pública; uma vereda por onde nenhum animal passa, e os homens raramente.
— Adam Clarke.
Versículos 35–37Salmo 119:35-37
A vereda. O teu caminho. Os hindus chamam de panth, ou caminho, a linha doutrinária de qualquer seita que se segue, a fim de alcançar mukti, ou libertação do pecado. "Caminho" significa o meio principal para um fim, e se aplica às Escrituras (Salmos 119:27), aos desígnios de Deus, às obras de Deus. Este caminho espiritual é: (1) fácil de achar (Isaías 35:8); (2) limpo, sem a lama do pecado; (3) nunca precisa de reparo — Cristo é hoje o mesmo de seis mil anos atrás; (4) não há nele leão nem feras; (5) custoso, pois o sangue de Cristo o fez; (6) não solitário, pois muitos crentes estão nele (Hebreus 12:1); (7) sem pedágio, todos podem vir; (8) largo — o caminho para as cidades de refúgio tinha quarenta e oito pés de largura; o mapa da Bíblia mostra esta vereda; (9) o fim é agradável — o Céu.
— J. Long, em Eastern Proverbs and Maxims illustrating old Truths, 1881.
Versículos 35–36Salmo 119:35-36
Nela tenho prazer. Inclina o meu coração aos teus testemunhos. Um filho de Deus não tem a inclinação do coração tão perfeitamente fixada em Deus que ela não volte, de vez em quando, à sua antiga tendência e viés. Os melhores podem constatar que não conseguem manter os seus afetos tão livres do mundo quando têm casas, terras e tudo o que desejam à sua disposição, como conseguiam quando eram mantidos humildes e despojados. Os melhores podem constatar que o seu amor pelas coisas celestiais mingua à medida que as coisas mundanas aumentam. Conta-se de Pio Quinto que ele dizia de si mesmo que, quando entrou nas ordens, tinha alguma esperança da sua salvação; quando se tornou cardeal, duvidou dela; mas, desde que se tornou papa, quase chegou a desesperar dela.
Muitos podem constatar em si mesmos uma mudança muito grande, uma grande decadência do zelo pela glória de Deus, do amor e do prazer na palavra de Deus, e da lembrança das coisas celestiais, à medida que as coisas lhes correm melhor no mundo. Ora, é bom observar isso antes que o mal aumente. Assim como o ciúme e a cautela são necessários para impedir a entrada e o início desse mal, também a observação é necessária para impedir o seu aumento. Quando o mundo ganha um interesse profundo demais em nossos corações, quando começa a se insinuar e a nos seduzir para longe de Deus, e a enfraquecer o nosso prazer nos caminhos de Deus e o nosso zelo pela sua glória, então precisamos lembrar com frequência quão difícil é para um rico entrar no reino dos céus.
— Thomas Manton.
Versículo 36Salmo 119:36
A PALAVRA POSTA DIANTE DO CORAÇÃO. Inclina o meu coração aos teus testemunhos. De nada vale que os olhos vejam, que a mente entenda, nem mesmo que os pés sejam feitos andar no caminho da verdade, se o coração também não se inclinar para ele. É com o coração que o homem crê para a justiça. Estar sem amor é, segundo 1 Coríntios 13:1-3, estar sem tudo.
Assim, o sentido destas quatro petições metódicas nesta seção é o seguinte: faze-me ver, faze-me entender, faze-me andar, e faze-me amar andar, na vereda trilhada e estreita dos teus testemunhos. Pelo que colho, Lutero dá quase o sentido exato da exposição anterior; pois ele traduz as palavras iniciais dos Salmos 119:33-36 por termos que significam, respectivamente, "aponta-me," "explica-me," "conduz-me" e "inclina (curva, dobra) o meu coração," etc.
Inclina o meu coração aos teus testemunhos, e não à cobiça. Precisamos estar convencidos de que a cobiça, refiro-me à nossa própria cobiça, é vício; pois ela conserva algo de virtude, de frugalidade, que não é aquilo que se tem; e isso nos leva a pensar que não é vício; e muitas vezes dizemos que é bom ser um pouco apegado ao mundo; gostamos de uma pouca cobiça; o que mostra que não a consideramos, de fato e de coração, pecado. Pois, se o pecado é mau, um pouco de pecado não pode ser bom. Seria como dizer que um pouco de veneno é bom, contanto que não seja demais. E assim vemos que os homens repreendem os filhos por gastarem, e estão prontos a expulsá-los de casa se se derem ao desperdício; mas, se são econômicos e apertados, então gostamos demais disso; e mal conheço um homem que costume advertir os filhos para não pouparem demais, para não economizarem demais.
Sei que a juventude tende antes para o outro lado, e é mais sujeita a desperdiçar e consumir, porque o calor natural é vivo e ativo nela; e por isso há mais medo e perigo de que se tornem pródigos, e por isso mais se pode dizer e fazer nesse sentido em relação aos jovens. Mas o que eu insisto é que, se virmos os nossos filhos, na sua juventude, começarem a ser cobiçosos e apegados ao mundo, os chamamos de bons administradores, e ficamos até satisfeitos demais em vê-los assim. Pouco pensamos que o apego ao mundo é um pecado gravíssimo diante de Deus, e prejudicial diante dos homens. Ouçamos o que a palavra de Deus diz sobre isso, Efésios 5:5: é idolatria, e a idolatria é o primeiro pecado da primeira tábua. É a raiz de todos os males (1 Timóteo 6:10). Não há mal que um homem apegado ao mundo não faça para poupar a sua bolsa.
Assim Davi: "inclina o meu coração aos teus testemunhos, e não à cobiça": ele não diz este ou aquele testemunho, mas (incluindo todas as leis de Deus) diz "testemunhos", para nos mostrar que a cobiça nos afasta não só de alguns, mas de todos os mandamentos de Deus. Assim também São Paulo: onde há cobiça, há "muitas concupiscências" (1 Timóteo 6:9) e "muitas dores" (1 Timóteo 6:10). "Ela afoga os homens em perdição e destruição" (1 Timóteo 6:9). E a palavra grega significa um afogamento tal que quase não deixa esperança de resgate. É a ruína de toda a sociedade: os homens clamam contra ela, porque não querem que ninguém seja cobiçoso e rico, exceto eles mesmos. É um odiador da humanidade; odeia todos os pobres, porque lhe pediriam algo; e todos os ricos, porque têm o que ele gostaria de ter. Um homem cobiçoso quer ter tudo o que todos têm. Assim fala um nobre pai da igreja (Crisóstomo).
Tais homens não creem na palavra, não confiam nem em Deus nem no homem. Pois quem não confia em Deus não pode confiar no homem. Ela rouba de Deus a confiança que lhe devemos, e a dependência que lhe devemos; afasta o homem de todos os mandamentos. Por isso o profeta ora a Deus que volte o seu coração para os seus mandamentos, "e não para a cobiça." Pois não só não devemos, mas, como diz a frase, "não podemos servir a Deus e a mamom" (Lucas 16:13).
— Richard Capel, em Temptations: their Danger, Cure, 1655.
Inclina o meu coração aos teus testemunhos, e não à cobiça. Sem uma mão que a contenha, o coração tende a se desviar pelos atalhos de um amor mesquinho pelo dinheiro. O remédio precisa vir do alto. Por isso se busca o socorro celestial.
— Henry Law.
Inclina o meu coração. Se fôssemos natural e espontaneamente inclinados à justiça da lei, não haveria ocasião para a súplica do salmista: "inclina o meu coração." Resta, portanto, que os nossos corações estão cheios de pensamentos pecaminosos, e de todo rebeldes, até que Deus, por sua graça, os mude.
— John Calvin.
Inclina o meu coração. Nos versículos anteriores, Davi pedira entendimento e direção para conhecer a vontade do Senhor; agora pede uma inclinação de coração para fazer a vontade do Senhor. O entendimento precisa não só ser iluminado, mas a vontade movida e mudada. O coração do homem é, por si mesmo, avesso a Deus e à santidade, mesmo quando o engenho é mais refinado, e o entendimento está abastecido e provido de altos conceitos a respeito dela: por isso Davi não diz apenas "dá-me entendimento," mas "inclina o meu coração." Podemos ser mundanos por nós mesmos, mas não podemos ser santos e celestiais por nós mesmos; isso precisa ser pedido àquele que é o Pai das luzes, de quem desce todo bom e perfeito dom. Os que advogam pelo poder da natureza excluem o uso da oração. Mas bem disse Agostinho: a natureza precisa de uma confissão verdadeira, não de uma falsa defesa: precisamos antes confessar a nossa fraqueza do que defender a nossa força. Assim faz Davi, e assim fará todo cristão de coração quebrantado que tenha experimentado as inclinações da própria alma: virá a Deus, e dirá: inclina o meu coração aos teus testemunhos, e não à cobiça.
— Thomas Manton.
Inclina. Então não declinarei.
— James G. Murphy.
Aos teus testemunhos. O contraste é impressionante. De um lado estão os testemunhos divinos, do outro a "cobiça". Deus está de um lado, o mundo do outro. O homem renovado escolhe entre os dois; não precisa de muito tempo para pensar, e Deus é a sua escolha.
— John Stephen.
Não à cobiça. Ele ora, em particular, para que o seu coração seja desviado da cobiça, que não é apenas um mal, mas, como diz o apóstolo, "a raiz de todos os males." Aqui Davi a opõe, como adversária, a toda a justiça dos testemunhos de Deus: ela inverte a ordem da natureza, e torna terrena a alma celestial. É serva de todos os pecados; pois não há pecado a que o homem cobiçoso não sirva por ganho. Devemos nos precaver de todos os pecados, mas especialmente dos pecados-mães.
— William Cowper.
Cobiça, ou antes, "ganho obtido injustamente."... A palavra hebraica só pode significar saque, rapina, ganho injusto.
— J. J. Stewart Perowne.
Cobiça. São Boaventura, sobre este salmo, diz que a cobiça deve ser odiada, evitada, afastada: deve ser odiada, porque ataca a vida da natureza; deve ser evitada, porque impede a vida da graça; deve ser afastada, porque obstrui a vida da glória. Clemente de Alexandria diz que a cobiça é a cidadela dos vícios, e Ambrósio diz que é a perda da alma.
— Thomas Le Blanc.
Cobiça. Observo ao leitor, e desejo que ele considere de modo devido e sério, que, embora este mandamento, "não cobiçarás," esteja colocado por último em número, é, no entanto, com muita frequência o primeiro a ser quebrado, sendo o coração cobiçoso do homem o que abre a marcha na transgressão.
— William Crouch, em The Enormous Sin of Covetousness detected.
A cobiça é um desejo desmedido de riquezas, no qual concorrem estes vícios: primeiro, um amor excessivo às riquezas, e a fixação do nosso coração nelas. Segundo, a resolução de se tornar rico, seja por meios lícitos, seja por meios ilícitos (1 Timóteo 6:9). Terceiro, pressa demasiada em ajuntar riquezas, aliada à impaciência de qualquer demora (Provérbios 28:20; Provérbios 28:22; Provérbios 20:21).
Quarto, um apetite insaciável, que nunca pode ser satisfeito; mas, quando já têm demais, ainda desejam mais, e nunca têm o bastante (Eclesiastes 4:8) — como a sanguessuga (Provérbios 30:15), como a hidropisia, e como o próprio inferno (Provérbios 27:20). Quinto, uma tenacidade de avarento, pela qual se recusam a repartir os seus bens, seja para uso dos outros, seja até para uso próprio. Sexto, a crueldade (Provérbios 1:18-19), exercida tanto na sua falta de misericórdia quanto na opressão dos pobres. A cobiça é um vício gravíssimo; pois é idolatria, e a raiz de todo mal (Colossenses 3:5; 1 Timóteo 6:10); um espinho pernicioso, que sufoca toda graça e afoga a semente da palavra (Mateus 13:22), e traspassa os homens com muitas dores (1 Timóteo 6:10), e os afoga em destruição e perdição.
— James Usher, 1580-1655.
Versículo 37Salmo 119:37
Desvia os meus olhos, etc. Literalmente: "faze os meus olhos passarem de ver a vaidade"; como se orasse: tudo o que é vaidade, faze-me passar sem vê-lo. O sentimento é notavelmente semelhante ao da oração do nosso Senhor: "não nos deixes cair em tentação." Tendo orado pelo que queria ver, o salmista ora aqui pelo esconder daquilo que não queria ver.
Desvia os meus olhos, etc. Tendo orado pelo seu coração, ora agora também pelos seus olhos. Omnia a Deo petit, docens, illum omnia efficere [tudo pede a Deus, ensinando que ele tudo realiza]. Pelos olhos, muitas vezes, como por janelas, a morte entra no coração; por isso, para manter o coração em bom estado, três coisas são necessárias. Primeiro, o cuidadoso governo dos sentidos, especialmente dos olhos; pois é obra justa do Senhor que quem usa com descuido o olho exterior do corpo seja, com justiça, castigado com cegueira no olho interior da mente. E por essa razão, Nazianzeno, deplorando as calamidades da sua alma, desejava que uma porta fosse posta diante dos seus olhos e ouvidos, para fechá-los quando se abrissem a algo que não fosse bom, mas que se fechassem espontaneamente diante do mal. A segunda coisa é a sujeição do corpo pela disciplina. E a terceira é a perseverança na oração.
— William Cowper.
Desvia os meus olhos de contemplar a vaidade. Note que ele não diz "eu desviarei os meus olhos"; mas "desvia os meus olhos." Isso mostra que não nos é possível guardá-los suficientemente pela nossa própria cautela e diligência; é preciso haver guarda divina. Pois, primeiro, para onde quer que te voltes neste mundo, encontrarás provocações. Segundo, com o incauto, e com pessoas bem diferentes, os olhos, servos de um coração corrupto, vagueiam atrás das coisas que são vaidade. Terceiro, antes que percebas, o mal contraído pelos olhos se insinua até os recônditos mais profundos do coração, e ali lança as sementes da perdição. Isto o próprio salmista experimentara, não sem o maior tormento tanto do coração quanto da condição.
— Wolfgang Musculus, 1563.
Desvia os meus olhos de contemplar a vaidade. Pode parecer estranha esta oração de Davi, dizer: "desvia os meus olhos de ver a vaidade"; como se Deus se intrometesse no nosso olhar; ou como se não tivéssemos em nós mesmos o poder de lançar os olhos sobre os objetos que quisermos. Mas não é certo que aquilo em que nos comprazemos, nisso nos comprazemos em olhar? E o que amamos, amamos ver? E assim, orar a Deus para que os nossos olhos não vejam a vaidade é o mesmo que orar por graça, para que não nos apaixonemos pela vaidade. Pois a vaidade tem, em si mesma, um aspecto tão gracioso, que não é próprio do homem natural deixar de olhar para ela; a menos que o aspecto mais belo da graça de Deus desvie os nossos olhos da vaidade, para contemplar a si mesma; a qual sempre, naturalmente, olhará para o que é mais belo. E, assim como Davi aqui faz a sua oração em particular contra as tentações da prosperidade, também Cristo nos ensina a orar em geral contra as tentações, tanto da prosperidade quanto da adversidade, e muito justamente. Pois muitos que suportam as tentações de uma espécie são logo vencidos pelas tentações da outra. Assim, Davi pôde suportar a perseguição sem murmurar, mas, quando chegou à prosperidade, não pôde desviar os olhos da vaidade.
— Sir Richard Baker.
Desvia os meus olhos de contemplar a vaidade. Um objeto feio perde muito da sua deformidade quando olhamos para ele com frequência. O pecado segue a lei geral, e deve ser evitado por completo, mesmo em sua contemplação, se quisermos estar seguros. Um homem deveria ser grato, neste mundo, por ter pálpebras; e, assim como pode fechar os olhos, deveria fazê-lo com frequência.
— Albert Barnes.
Desvia, depois vivifica, etc. O primeiro pedido é para a remoção dos impedimentos à obediência; o outro, para o acréscimo de novos graus de graça. Estes dois estão devidamente unidos, pois têm influência natural um sobre o outro; a menos que desviemos os nossos olhos da vaidade, logo contrairemos morticínio de coração. Nada causa isso tanto quanto uma liberdade desmedida nas vaidades carnais; quando os nossos afetos estão vivos para outras coisas, estão mortos para Deus; por isso, quanto menos soltarmos o nosso coração a essas coisas, mais vivos e alegres estaremos na obra da obediência. Por outro lado, quanto mais o rigor da graça é renovado, e os seus hábitos vivificados em exercício real, mais o pecado é mortificado e subjugado. O pecado morre, e os nossos sentidos são restaurados ao seu uso próprio.
— Thomas Manton.
Desvia os meus olhos de contemplar a vaidade. Para que o pecado seja evitado, devemos evitar tudo o que a ele conduz ou o ocasiona. Assim como isso levou Jó (Jó 31:1) a firmar forte pacto com os seus olhos, também levou Davi a orar com fervor a respeito dos seus. "Desvia os meus olhos (ou, como se pode traduzir o hebraico, faze-os passar) de contemplar a vaidade." O olho tende a se deter, ou a se fixar, quando entra em vista de um objeto sedutor; por isso é nosso dever apressá-lo dali, ou orar para que Deus o faça passar adiante... Quem teme queimar-se deve tomar cuidado com brincar com o fogo: quem teme afogar-se deve manter-se longe das águas profundas. Quem teme a peste não deve entrar numa casa contaminada. Poderiam evitar o pecado os que se expõem às suas ocasiões?
— Joseph Caryl.
Desvia os meus olhos. Para que o olhar não cause afeição e concupiscência: 1 João 2:16. Em hebraico, a mesma palavra significa tanto olho quanto fonte; para mostrar que do olho, como de uma fonte, flui muito mal; e por essa janela Satanás muitas vezes se insinua na alma. Isto Davi constatou por experiência, e por isso ora aqui: "desvia," transfere, faz passar "os meus olhos," etc. Ele conhecia o perigo do olhar irregular e da contemplação desmedida.
— John Trapp.
Desvia os meus olhos de contemplar a vaidade. É experiência das mais perigosas para um filho de Deus colocar-se dentro do alcance de tentações sedutoras. Todo senso de dever, toda lembrança da própria fraqueza, toda recordação da queda de outros, deveria levá-lo a se afastar o máximo possível da cena de um conflito e de um perigo desnecessários.
— John Morison.
Desvia os meus olhos de contemplar a vaidade. De fitar as miragens enganosas que tentam o peregrino a deixar a estrada segura.
— William Kay.
Pergunta-se: "o que mais eficazmente desviará os meus olhos da vaidade?" Não o isolamento do retiro contemplativo — não o abandono da nossa ligação legítima com o mundo — mas a beleza transcendente de Jesus, desvelada aos nossos olhos, e fixando o nosso coração.
— Charles Bridges.
Desvia os meus olhos, etc. A fortaleza real da tua alma corre risco de ser surpreendida enquanto as fortificações externas dos teus sentidos estão desguarnecidas. Os teus olhos, que podem ser comportas para verter lágrimas, não deveriam ser janelas para deixar entrar concupiscências. Um olho descuidado é o índice de um coração sem graça. Lembra-te: o mundo inteiro morreu por uma ferida no olho. Os olhos de um cristão deveriam ser como girassóis, que só se abrem para o brilho do sol.
— William Seeker, 1660.
Vaidade, no uso hebraico, muitas vezes tem referência especial aos ídolos e ao aparato do culto idólatra. O salmista ora para que nunca lhe seja permitido sequer ver tais objetos sedutores.
— Henry Cowles.
Vivifica-me. Todo santo está muito propenso a ser preguiçoso no caminho e na obra de Deus. "Vivifica-me," diz um dos mais eminentes e escolhidos santos, "no teu caminho"; e é como se dissesse, em termos simples: "ah, Senhor! sou um jumento lerdo, e muitas vezes preciso do teu aguilhão, do teu Espírito." Esta oração de Davi parece prova suficiente deste ponto; mas, se desejas mais confirmação, apresentarei um argumento instar omnium ["equivalente a todos"], que ninguém ousará negar, nem poderá refutar; e este se extrai do tópico da tua própria experiência; e é um argumentum lugubre ["argumento fúnebre"], como um cântico de funeral, "muito triste e pesaroso".
Não sentes e constatas, para tristeza da tua própria alma, que, devendo chorar como quem não chora, alegrar-te como quem não se alegra, e comprar como quem não possui, inverso ordine ["invertendo esta ordem"], choras as perdas como se fosses chorar os teus próprios olhos; alegras-te nos consolos temporais como se estivesses no céu; e compras como se fosse para sempre e mais um dia (Salmos 49:11)? Mas e contrario ["ao contrário"], oras como quem não ora; ouves como quem não ouve; trabalhas para Deus como quem não trabalha. Ora, sabemos — experto credas ["podes crer em quem já experimentou"] — que um homem atolado numa vala não precisa de razão para provar que está nela, mas de remédio para dele ser tirado.
O teu melhor caminho será propor o caso de como te livrar deste hóspede indesejado, a preguiça espiritual: é um caso que a todos nós concerne — asini aures quis non habet ["quem não tem orelhas de asno?"]. Todo homem e mortal tem em si algo da lerdeza e da preguiça do jumento.
— Simmons, em The Morning Exercises, 1661.
Vivifica-me. Outra ordenança vivificante é a oração. Quantas vezes Davi ora por graça vivificante? Cinco ou seis vezes num só salmo. Começa muitas orações com o coração pesado, e antes de terminar já está cheio de vida. Por isso, ora muito, pois toda vida vem de Deus, e ele vivifica a quem quer. Só acrescento esta advertência, antes de encerrar: procura sempre que o teu entendimento e o teu afeto andem juntos em cada ordenança, e em cada parte da ordenança, se queres que ela seja para ti uma ordenança vivificante.
— Matthew Lawrence, em The Use and Practice of Faith, 1657.
O teu caminho, por ênfase, em oposição e em exaltação acima de todos os demais caminhos. Há um caminho quádruplo:
Via mundi, o caminho do mundo; e este é spinosa, espinhoso.
Via carnis, o caminho da carne; e este é insidiosa, traiçoeiro.
Via Satanae, o caminho do diabo; e este é tenebricosa, tenebroso.
Via Domini, o caminho de Deus; e este é gratiosa, gracioso.
— Simmons.
Versículos 37–38Salmo 119:37-38
Oração não é senão a promessa invertida, ou a palavra de Deus formada em argumento, e devolvida pela fé outra vez a Deus. Sabe, cristão, que tens a lei do teu lado. Notas promissórias e obrigações devem ser pagas. Davi ora contra os pecados de um olho lascivo e de um coração morto: desvia os meus olhos de contemplar a vaidade; e vivifica-me no teu caminho; e veja como ele reforça o seu argumento nas palavras seguintes: confirma a tua palavra ao teu servo. Um homem bom vale tanto quanto a sua palavra, e não seria assim também um Deus bom? Mas onde encontra Davi tal palavra de socorro contra esses pecados? Certamente na aliança. Está na carta magna. A primeira promessa já continha isto: "a semente da mulher esmagará a cabeça da serpente."
— William Gurnall.
Versículo 38Salmo 119:38
Confirma a tua palavra ao teu servo. Em vista da exposição dos versículos anteriores desta seção, isto se traduziria mais corretamente como: "sustenta a tua palavra diante do teu servo"; isto é, sustenta-a diante dos meus olhos, da minha mente, dos meus passos e do meu coração. Faze passar tudo o que é vão, para que eu não o veja; mas que a tua palavra esteja tão erguida diante de todo o meu ser, que eu sempre a veja, e assim, por ela, veja o meu caminho até ti.
Confirma a tua palavra ao teu servo, etc. — Ora, eis aqui algo estranho: um homem que é verdadeiro "servo de Deus," "devotado ao seu temor," orando por aquilo que certamente já deve ter, senão como poderia ser servo? Ou viver no temor de Jeová? Ele parece assumir, com clareza e sem dúvida alguma, a sua própria consagração pessoal, e então ora por aquilo que certamente já deve estar, ao menos em considerável medida, pressuposto e compreendido na própria ideia de uma verdadeira consagração pessoal. A menos que a palavra de Deus se torne certa para um homem, ele nunca se tornará seu servo. Se já é seu servo, por que haveria de orar: "confirma a tua palavra"? Por que também haveria de dizer, no Salmos 119:35: "faze-me andar na vereda dos teus mandamentos; pois nela tenho prazer"? "Nela tenho prazer. É o caminho da minha escolha, da minha alegria!" E, no entanto: "faze-me andar nela," como se eu estivesse relutante.
Esta aparente contradição, ou discrepância, se resolve facilmente numa experiência verdadeira, e, de fato, não pode ser resolvida de outro modo. Não é esta a própria condição de tantos e tantos? "Firmado," e ainda assim movido; "devotado," e ainda assim incerto; "servindo" a Deus verdadeiramente, e ainda assim buscando e ansiando por autorização mais clara, e por sanção mais elevada, e por mais graça interior, para tornar melhor o seu serviço; "crendo," e ainda assim clamando, por vezes, "com lágrimas: ajuda a minha incredulidade!"
— Alexander Raleigh.
Confirma a tua palavra ao teu servo. Por que ora Davi assim: "confirma a tua palavra para mim"; visto que a palavra de Deus é certíssima, e tão firme em si mesma que não pode sê-lo mais? (2 Pedro 1:19). "Temos uma palavra de profecia mais segura," ou mais firme, como o termo significa. Como pode a palavra ser mais firme do que já é? Respondo: ela é certa quanto a Deus, de quem procede, e em si mesma. Quanto às coisas nela propostas, ela não pode ser mais ou menos firme, não pode ser ora firme, ora frouxa: mas, quanto a nós, ela pode ser mais ou menos firmada. E isso de dois modos:
Pela certeza interior do Espírito, que aumenta a nossa fé.
Pelo cumprimento exterior daquilo que é prometido.
Primeiro, pela certeza interior do Espírito, pela qual a nossa fé é aumentada. Grande é a fraqueza da nossa fé, como se vê pelos nossos medos, dúvidas e desconfianças, de modo que precisamos ser cada vez mais confirmados. Precisamos dizer, com lágrimas, como aquele do evangelho: "Senhor, eu creio; ajuda a minha incredulidade" (Marcos 9:24); e clamar com os apóstolos: "Senhor, aumenta a nossa fé" (Lucas 17:5). Não há quem creia tanto que não possa ainda crer mais. E, nesse sentido, a palavra fica mais firmada quando somos confirmados na crença dela, e a olhamos como terreno seguro sobre o qual a fé pode repousar. Segundo, pelo cumprimento real, quando a promessa se cumpre em nós. Todo acontecimento que se dá segundo a palavra é um testemunho notável da sua verdade, e um selo que confirma e fortalece a nossa fé. De três modos isto se pode confirmar.
O cumprimento de algumas promessas, numa ocasião, fortalece a nossa fé para esperarmos favor semelhante em outra. Cristo se irou com os seus discípulos por não se lembrarem do milagre dos pães, quando caíram de novo em aperto semelhante. "Ainda não entendeis, nem vos lembrais dos cinco pães?" (Mateus 16:9). Devemos buscar, em cada dificuldade, ao passo que a experiência anterior no mesmo gênero deveria nos servir de meio de firmeza: "ele nos livrou, e nos livra; nele confiamos que ainda nos livrará" (2 Coríntios 1:10). Ao ensinar uma criança a soletrar, ficamos irritados se, tendo-lhe mostrado uma letra uma, duas e uma terceira vez, ainda assim, ao encontrá-la de novo, ela erra: assim Deus se ira conosco quando já tivemos experiência da sua palavra nesta, naquela e noutra providência, e ainda assim as nossas dúvidas voltam sobre nós.
O cumprimento de uma promessa confirma outra; pois Deus, que cumpre a sua palavra numa ocasião, fará o mesmo noutra: "fui livrado da boca do leão. E o Senhor me livrará de toda obra má, e me preservará para o seu reino celestial" (2 Timóteo 4:17-18). Em tal aperto, Deus não falhou, e certamente aquele que foi fiel até aqui não falhará ao fim.
Quando a palavra se cumpre em parte, isso nos assegura do cumprimento do todo. É um penhor que nos é dado de todo o restante: pois todas as promessas de Deus nele são sim, e nele amém (2 Coríntios 1:20). O cristão tem muitíssimas promessas, e elas se cumprem diariamente; Deus o livra, o consola, o protege, fala paz à sua consciência; mas a maior parte ainda está por se cumprir. As experiências presentes nos asseguram do que está por vir. Assim, "confirma a tua palavra," isto é, torna-a boa pelo acontecimento, para que eu aprenda a confiar, noutra ocasião, seja pelas mesmas, seja por outras promessas ou cumprimentos de toda a tua palavra.
— Thomas Manton.
Confirma a tua palavra ao teu servo. Confirma-a; faze-a parecer firme e verdadeira; que a minha mente não fique vacilante ou cética quanto à tua verdade. Isto parece ser uma oração contra a influência da dúvida e do ceticismo; uma oração para que dúvidas não brotem em sua mente, e para que as objeções e dificuldades do ceticismo não tenham lugar nela. Há uma classe de homens cuja mente é naturalmente cética e incrédula, e para tais homens uma oração assim é particularmente apropriada. Pois a ninguém é impróprio orar para que a palavra de Deus sempre lhe pareça verdadeira; para que a sua mente jamais seja entregue à influência da dúvida e da incredulidade.
— Albert Barnes.
Que é devotado ao teu temor. A palavra pode ser traduzida tanto por "que" quanto por "quem"; referindo-se tanto à tua palavra quanto ao teu servo.
- À tua palavra; pois, no hebraico original, a construção do versículo é assim: "confirma ao teu servo a tua palavra, que é para o teu temor," ou "que é dada para que sejas temido"; havendo, na palavra de Deus, os maiores argumentos e induções para o temor, a reverência e a obediência a ele. A palavra de Deus foi instituída para plantar o temor de Deus em nossos corações, e para aumentar a nossa reverência por ele; não para que zombemos das promessas, e alimentemos com elas as nossas paixões. 2. Prefiro a nossa própria tradução, que tem sentido semelhante àquela passagem: "mas eu dou-me à oração" (Salmos 119:4). No original é: "mas eu, oração." Assim, aqui, pode-se ler: confirma a tua palavra ao teu servo, "que é para o teu temor." Os nossos tradutores acrescentam, para tornar o sentido mais completo, "devotado," ou "consagrado ao teu temor," isto é, que faz do temor de Deus o seu negócio, o seu cuidado e o seu desejo.
Ora, isto se acrescenta como uma verdadeira nota e descrição dos servos de Deus, sendo coisa principal na religião: "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (Salmos 111:10); é o primeiro em ordem, e é a primeira coisa quando começamos a ser sábios, pensar em Deus, ter pensamentos reverentes de Deus; é ponto principal da sabedoria, a grande coisa que nos faz sábios para a salvação. E se acrescenta como argumento de oração: "ó Senhor, estejam atentos os teus ouvidos à oração dos teus servos, que desejam temer o teu nome" (Neemias 1:11). Quanto mais alguém se dá ao temor de Deus, mais certeza tem do amor de Deus, e da sua prontidão em ouvi-lo junto ao trono da graça.
— Thomas Manton.
Que é devotado ao teu temor. Aquele que recebeu do Senhor graça para temê-lo pode ousar buscar dele qualquer bem necessário; porque o temor de Deus traz consigo as promessas de todas as demais bênçãos.
— William Cowper.
Quem escolhe a Deus consagra-se a Deus, assim como os utensílios do santuário eram consagrados e separados do uso comum para usos santos; assim, quem escolheu a Deus para ser o seu Deus dedicou-se a Deus, e não mais se devotará a usos profanos.
— Thomas Watson.
Versículo 39Salmo 119:39
Desvia de mim o opróbrio que temo. "Faze passar o meu opróbrio que temi." Isto também, como a vaidade de que se falou no Salmos 119:37, o salmista ora para não ver. Ele queria que o olhar de todo o seu ser estivesse voltado somente para a palavra. O opróbrio que ele temia é aquele a que já se referira nos Salmos 119:21-22, e talvez de novo no Salmos 119:31. Os soberbos se haviam desviado dos mandamentos, e herdado repreensão; era o opróbrio e a vergonha que lhes pertenciam que o salmista queria ver desviados, de modo que não fossem vistos. Pois os teus juízos são bons. Isto é dado como razão pela qual o opróbrio deveria ser assim desviado. Os soberbos haviam pensado de modo leviano e desdenhoso a respeito dos juízos divinos, daí o seu opróbrio; o salmista considerava esses juízos bons, e assim esperava não ver o opróbrio.
Desvia de mim o opróbrio, etc. Nestas palavras temos:
Um pedido: "desvia de mim o opróbrio."
Uma razão que o reforça: "pois os teus juízos são bons."
Primeiro, quanto ao pedido. "Desvia" — "rola de sobre mim," é o que significa. Ele estava revestido de opróbrio; agora, rola de mim "o meu opróbrio." Alguns pensam que ele se refere à sentença condenatória de Deus, que se voltaria em opróbrio, ou a alguma repreensão notável da parte de Deus, por causa do seu pecado. Antes penso que se trata do opróbrio dos seus inimigos; e ele o chama "o meu opróbrio," seja como merecido por ele mesmo, seja como tendo pessoalmente recaído sobre ele — o opróbrio que provavelmente seria a sua sorte e porção no mundo, pela malícia dos seus inimigos: "o opróbrio que temo," isto é, que tenho razão de esperar, e de cujas tristes consequências estou consciente.
Segundo, quanto à razão que o reforça: "pois os teus juízos são bons." Há opiniões diferentes sobre a forma deste argumento. Alguns entendem a razão assim: que eu não sofra opróbrio por me apegar à tua palavra, a tua palavra que é tão boa. Mas Davi não fala aqui de sofrer opróbrio por causa da justiça, mas de um opróbrio que provavelmente lhe sobreviria por causa das suas próprias fraquezas e falhas. Os opróbrios por causa da justiça devem ser motivo de "alegria"; mas ele diz que "teme" este, e por isso suponho que esta não seja a razão certa. Tampouco aceito o outro sentido — por que haveria eu de ser visto como malfeitor, enquanto guardo a tua lei, e observo os teus estatutos? Outros julgam mal de mim, mas eu apelo para o teu bom juízo.
Por "juízos" podemos entender os tratos de Deus. Tu não tratas os homens segundo o seu merecimento. As tuas dispensações são benignas e graciosas. Melhor ainda: por "juízos" entendem-se os caminhos, estatutos e ordenanças de Deus, chamados juízos porque todas as nossas palavras, obras e pensamentos serão julgados segundo a sentença da palavra: ora, é uma pena que estes sofram no meu opróbrio e ignomínia. Isto é o que temo mais do que qualquer outra coisa que possa me acontecer. Penso que a razão correrá melhor assim: Senhor, há em tua lei, palavra, aliança, muitas promessas para encorajar o teu povo, e por isso regras para prover a devida honra e o devido crédito do teu povo.
— Thomas Manton.
Desvia de mim o opróbrio. Em hebraico é: "tira de mim a minha repreensão"; como se dissesse: ó Senhor, posso cometer algum mal semelhante contra a tua boa lei, sim, alguma transgressão tão notória que me traga vergonha; rogo-te que a tires. Ou então quer dizer: já trouxe, ó Senhor, por diversos pecados, e nomeadamente por adultério e homicídio, vergonha e repreensão sobre mim mesmo entre os homens; suplico-te que remova esta vergonha e esta repreensão.
Da primeira exposição aprendemos: primeiro, que os piedosos estão sujeitos a pecados notórios. Segundo, que esses pecados lhes causarão vergonha, ainda que os ímpios não se envergonhem. Terceiro, que só Deus pode tirar essa vergonha. Quarto, que podemos orar pela remoção da vergonha mesmo entre os homens, especialmente aquela que possa trazer alguma desonra a Deus. Quinto, que os piedosos são os mais zelosos consigo mesmos. Sexto, que o modo de evitar o pecado é temer sempre pecar.
Da segunda exposição, note-se que a lembrança dos nossos pecados passados deve arrancar de nós orações a Deus, para que por eles não sejamos repreendidos com desagrado nesta vida, nem confundidos e envergonhados na vida por vir.
— Richard Greenham.
O meu opróbrio é o opróbrio que o mundo lança sobre os que temem a Deus. Isto é temido como uma grande tentação à apostasia.
— James G. Murphy.
Pois os teus juízos são bons. Seria de esperar que ele dissesse: "pois tu és misericordioso" — faze passar de mim o opróbrio que temo, pois tu és misericordioso. Não; ele não acrescenta isto como a sua razão presente, mas: "os teus juízos são bons." Entenderíamos de imediato o sentido se as palavras fossem: "pois os teus juízos são terríveis" — "desvia de mim o opróbrio que temo," pois os teus juízos são terríveis. Mas, como as palavras são: "pois os teus juízos são bons," vemos que ele de fato se refugia nos "juízos" — a saber, que o Senhor o justificaria contra todos os juízos injustos dos homens; e, quanto ao juízo perante Deus, visto que ele se refugiava na expiação que o Senhor havia instituído, o Senhor também o justificaria ali.
— John Stephen.
Pois os teus juízos são bons. Os juízos dos ímpios são maus juízos, mas os juízos de Deus são bons; oro contra aqueles, apelo para estes: temo um, aprovo o outro. Ora, os juízos que Deus pronuncia em sua palavra, sejam ameaças na lei, sejam consolações no evangelho, sim, e também os que executa no mundo, seja sobre os piedosos, seja sobre os ímpios, serão necessariamente bons.
Porque Deus é a própria bondade.
Ele não pode ser enganado.
Ele não será subornado.
Só ele não faz acepção de pessoas, mas julga segundo a obra de cada um.
— Richard Greenham.
O "opróbrio" que o poeta teme neste versículo não é o opróbrio de confessar, mas o de negar a Deus.
— Franz Delitzsch.
Pois os teus juízos são bons. Esta razão mostra que ele temia a repreensão de Deus. O "opróbrio" do homem vem de um juízo corrupto: ele condena onde Deus absolve; não me importo com isso; mas sei que a tua repreensão é sempre merecida, "pois os teus juízos são bons."
— William Nicholson.
Versículo 40Salmo 119:40
Eis que tenho ansiado, etc. Isto é dado como uma forma mais intensa da afirmação que ele acabara de fazer, de que considerava os juízos bons. Eram tão bons que ele ansiava por eles. E não só isso, mas desejava ansiar por eles ainda mais. Assim ele ora por ainda mais vida e vigor para seguir o caminho que eles apontavam: vivifica-me na tua justiça. Quem verdadeiramente anseia pela verdade divina lamenta não ansiar mais. Quando o coração não tem amor, a mente não tem luz, e só pode julgar os preceitos de modo errôneo. "Os puros de coração" veem melhor com a mente do que podem os impuros. "Aos retos nasce luz nas trevas." O amor amplia tanto o discernimento que quem verdadeiramente ama muitas vezes constata que o seu juízo sobre a bem-aventurança da verdade ultrapassou até mesmo o seu anseio por ela. Por isso são os vivos que clamam: "vivifica-me"; são os que têm desejos vivos que oram por ainda mais vida no caminho da justiça.
Tenho ansiado pelos teus preceitos. Às vezes somos levados, sem perceber, a "ansiar" mais pelas promessas do que "pelos preceitos" de Deus; esquecendo que é nosso privilégio e nossa segurança dar igual atenção a ambos — obedecer aos seus preceitos na dependência das suas promessas, e esperar o cumprimento das promessas no caminho da obediência aos preceitos.
— Charles Bridges.
Preceitos, de uma palavra que significa depositar em confiança; significam algo confiado ao homem, "aquilo que te é confiado"; ordenanças de Deus, que, por consequência, dizem respeito à consciência, pela qual o homem é responsável, como ser inteligente. Os preceitos não são tão claramente apreendidos quanto a lei e os testemunhos. Precisam ser buscados. "Eis que o meu desejo é pelos teus preceitos" (Salmos 119:40). "Os teus preceitos busco" (Salmos 119:45). "Os teus preceitos tenho buscado" (Salmos 119:94)... São uma lei de liberdade: "e andarei em liberdade, pois busco os teus preceitos" (Salmos 119:45).
— John Jebb.
Vivifica-me na tua justiça. Disse antes: "vivifica-me segundo a tua palavra"; aqui: "na tua justiça"; tudo é um só, pois a palavra de Deus é a justiça de Deus, na qual se estabelece a vontade da justiça. Nisto o profeta deseja ser vivificado, isto é, confirmado, para que, com alegria e ânimo de espírito, possa apoiar-se na palavra de Deus.
— Richard Greenham.
Vivifica-me na tua justiça. A súplica é por vivacidade no conhecimento e na prática da santidade, segundo o teor da palavra de Deus e pela sua operação sobre o coração. Se alguns preferem entender por "justiça" a fidelidade ou a retidão de Deus, pela qual ele se comprometeu a dar graça aos que nele confiam, não há objeção a tal interpretação. De fato, ela está implícita nas demais. Quem quer que possa verdadeiramente usar a linguagem deste versículo é regenerado. Antes da graça que renova, a lei era letra morta. Era mais que isso: era letra odiada. A mente carnal não está sujeita à lei de Deus, nem mesmo pode estar. O pecador não deseja restrição alguma dos preceitos divinos.
— William S. Plumer.
Versículos 41–48Salmo 119:41-48
Isto inicia uma nova porção do salmo, na qual cada versículo começa com a letra vav, ou v. Quase não há palavras em hebraico que comecem com esta letra, que é propriamente uma conjunção; por isso, em cada um dos versículos desta seção, o início do versículo é, no original, uma conjunção — vav.
— Albert Barnes.
Toda esta seção consiste em súplicas e promessas. As súplicas são duas: Salmos 119:41 e Salmos 119:43. As promessas são seis. Esta é, entre muitas, uma diferença entre os homens piedosos e os demais: todos os homens buscam coisas boas de Deus, mas os ímpios as buscam de tal modo que nada lhe devolvem, nem prometem qualquer retorno. As suas orações serão infrutíferas, porque procedem do amor a si mesmos, e não do amor ao Senhor. Se conseguem obter o que lhes é necessário, não se importam em dar ao Senhor o que é para a sua glória: mas os piedosos, assim como buscam coisas boas, também dão louvor a Deus quando as obtêm, e devolvem o uso das coisas recebidas para a glória de Deus que as deu. Não amam a si mesmos por si mesmos, mas pelo Senhor; o que buscam dele, buscam com este fim: poder servi-lo ainda melhor. Atentemos para isto; pois é um sinal claro pelo qual os verdadeiramente religiosos se distinguem dos hipócritas disfarçados.
— William Cowper.
Versículo 41Salmo 119:41
Venham também sobre mim as tuas misericórdias. O caminho estava bloqueado por pecados e dificuldades, mas a misericórdia poderia abrir tudo, e encontrar acesso até ele, ou abrir o seu próprio caminho: "que venha," isto é, que se cumpra ou se realize, como se traduz: "agora se cumpram as tuas palavras" — em hebraico, "que venha." Aqui lemos: que venha até mim, para o meu consolo e livramento. Davi diz noutro lugar: "a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida" (Salmos 23:6) — que o sigam, que o encontrem em suas peregrinações. Assim: "que darei eu ao Senhor por todos os seus benefícios para comigo?" (Salmos 116:12). Elas encontraram o seu caminho até ele, ainda que cercado de pecados e perigos.
— Thomas Manton.
Venham também sobre mim as tuas misericórdias, ó Senhor. As misericórdias de Deus, em toda parte, encontram o homem a quem Deus vivifica (Salmos 119:40). Davi entendia que Deus abençoa a alma, o corpo, a casa, as ordenanças, e todas as demais coisas que pertencem aos seus servos; toda essa bênção provém da misericórdia, sem mérito, concedida em abundância, maravilhosamente, etc.
— Martin Geier.
Venham também sobre mim as tuas misericórdias, ó Senhor, etc. Os ministros da Palavra e os estudantes de Teologia são lembrados, por esta oração, de que não devem apenas pregar aos outros o verdadeiro caminho de alcançar a salvação eterna, mas que devem também, com orações fervorosas, clamar a Deus para que eles mesmos sejam feitos participantes das misericórdias divinas, e recebam "o fim da sua fé, a salvação das suas almas." Paulo, de fato, mostrava grande ansiedade quanto a isso, e foi constrangido a escrever que subjugava o seu corpo, e o trazia à sujeição, para que, depois de pregar a outros, ele mesmo não viesse a ser reprovado.
— Solomon Gesner.
As tuas misericórdias. A tua palavra. Devemos considerar aqui o modo como o profeta busca a salvação da parte de Deus. Nesta oração, ele une duas coisas, como as que sustentam a sua confiança, a saber, a misericórdia de Deus e a sua Palavra. Estas são, para o homem de fé, os dois pilares mais fortes da sua esperança.
— Wolfgang Musculus.
Sim, a tua salvação, etc. Não é qualquer tipo de livramento, por quaisquer meios, que o servo de Deus, estando em apertos, invoca ou deseja, mas um livramento tal como Deus permitirá, e se comprazerá em dar, de modo santo. "Que venha a tua salvação." Assim como a palavra da promessa é a regra da nossa súplica, também é penhor daquilo que se promete, e deve ser guardada firmemente até que se cumpra: "venham também sobre mim as tuas misericórdias, ó Senhor, sim, a tua salvação, segundo a tua palavra"; e esta é uma razão da súplica.
— David Dickson.
Versículo 42Salmo 119:42
Assim terei, etc. Terei algo com que responder aos que me caluniam. Assim o Salvador respondeu às sugestões do tentador quase inteiramente com passagens da Escritura (Mateus 4:4; Mateus 4:7; Mateus 4:10); e assim, em muitos casos, a melhor resposta que se pode dar às afrontas em matéria de religião se encontra nas próprias palavras da Escritura. Um homem de pouca instrução, exceto a que recebeu da Bíblia, pode muitas vezes assim silenciar os sofismas e as afrontas do cético erudito; um homem de piedade simples e pura, sem outra arma além da palavra de Deus, pode muitas vezes estar melhor armado do que se tivesse à sua disposição todos os argumentos das escolas. Compare Efésios 6:17.
— Albert Barnes.
Assim terei o que responder, etc. Quando o coração se convence da salvação certa, ele é suprido de respostas abundantes para os que zombam das delícias da fé.
— Henry Law.
Assim terei o que responder, etc. Hugo Cardinalis observa que há três tipos de blasfemadores dos piedosos: os demônios, os hereges e os caluniadores. Ao demônio deve-se responder com a palavra interior da humildade; aos hereges, com a palavra exterior da sabedoria; aos caluniadores, com a palavra ativa de uma vida boa.
— Richard Greenham.
Assim terei, etc. Pois eu lhes daria uma resposta breve, e verdadeira — que confio na tua palavra; ponho a minha confiança em ti, que podes cumprir as tuas promessas, porque és onipotente; e o farás, porque és misericordioso.
— William Nicholson.
Assim terei o que responder, etc. Isto segue a frase "segundo a tua palavra." Os cristãos devem aprender, pelo exemplo de Davi, o que opor às afrontas e às falsas acusações dos inimigos da verdade. Nada se consegue com insultos; mas as armas devem ser tiradas da palavra de Deus; e estas são fortes, pela fé em Deus, para derrubar tanto o próprio Diabo quanto os seus instrumentos. Pois foi de fato com armas deste tipo que o próprio Salvador derrotou Satanás no deserto (Mateus 4:1-11); e Paulo (Efésios 6:10-18) veste, e recomenda ao soldado cristão, o cinto da verdade divina, a couraça da justiça, o calçado do evangelho, o escudo da fé, e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.
— Solomon Gessner.
Com que responder, etc. Não é proibido aos crentes responder, com modéstia e plenitude, aos que os afrontam, e refutar a mentira. Veja Provérbios 26:5 e 27:11. Mas ser capaz de responder-lhes é recebido como uma bênção de Deus.
— Martin Geier.
Versículos 42–43Salmo 119:42-43
No Salmos 119:42 há um jogo com os dois sentidos do termo "palavra," assim: "e responderei aos que me afrontam uma palavra, pois confiei na tua palavra." Tendo confiado na tua palavra de promessa, terei uma palavra de resposta para lhes dar, quando tu, com graça, ouvires esta oração. Não tires a tua palavra de verdade (isto é, de promessa) da minha boca; deixa-me tê-la ainda para falar diante dos meus inimigos, e para nela repousar a minha própria alma. Se Deus viesse a falhar no cumprimento da sua palavra de promessa, ela, no sentido aqui considerado, seria de todo tirada da sua boca.
— Henry Cowles.
Versículo 43Salmo 119:43
Não tires a palavra da verdade, etc. Bem se sabe que os homens, quando a perseguição ameaça, ou negam de todo a verdade, ou a confessam de modo fraco e morno; mas, para que isto não lhe acontecesse, Davi ora aqui: ó Senhor, não tires totalmente a palavra da verdade da minha boca, isto é, faze-me, com espírito intrépido, confessar sempre a verdade professada com ousadia e virilidade. No texto hebraico está "muito," "muitíssimo," ou, como Agostinho traduz, "por inteiro e totalmente"; e ele pensa que Davi orava por isto: que, se por fraqueza humana lhe acontecesse cair, e em algum momento não confessar firmemente a palavra, ainda assim Deus não permitisse que ele permanecesse nesse estado, mas o restaurasse e firmasse de novo; e ilustra isso com o exemplo de Pedro. Além disso, Davi acrescenta a razão que o impeliu a orar assim: porque esperei, e até com grande desejo, como significa o verbo hebraico, "os teus juízos," com os quais, no último dia, hás de sentenciar abertamente os hereges, os fanáticos e todos os tiranos.
— Solomon Gesner.
Não tires totalmente a palavra da verdade da minha boca. A palavra é tirada da boca quando se diz ao pecador: por que declaras os teus estatutos? E a própria eloquência emudece se a consciência é má. As aves do céu vêm e tiram a palavra da tua boca, assim como tiraram a semente da palavra que caiu sobre a rocha, para que não desse fruto.
— Ambrósio.
A palavra também nos é tirada da boca quando, em fortes tentações, tudo, por assim dizer, falha, e não conseguimos descobrir onde possamos firmar pé: Salmos 69:2.
— Martin Geier.
Não tires totalmente a palavra da verdade da minha boca. Às vezes temos medo de falar pelo Salvador, por receio de sermos acusados de hipocrisia. Outras vezes nos envergonhamos de falar, pela ausência daquele único princípio constrangedor — "o amor de Cristo." E assim "a palavra da verdade nos é tirada da boca." Muitas vezes desejamos uma palavra para dizer, para o alívio do povo tentado do Senhor, e não conseguimos encontrá-la; de modo que a lembrança de preciosas ocasiões perdidas bem pode dar voz à oração: "não tires totalmente a palavra da verdade da minha boca." Não só não a tires do meu coração; mas que ela esteja pronta em minha boca para uma confissão do meu Senhor. Alguns de nós conhecemos a dolorosa provação de nos entregarmos a hábitos e conversas mundanas, quando a falta de liberdade de espírito nos impediu de nos levantarmos com ousadia pelo nosso Deus. Talvez aleguemos, como desculpa para o silêncio, a timidez ou a cautela prudente; o que, contudo, em muitos casos, devemos considerar um disfarce autoenganoso para a verdadeira causa da nossa retenção — a falta de percepção da misericórdia de Deus para com a alma.
— Charles Bridges.
Não tires totalmente a palavra da verdade da minha boca. Ah, que serviço pode prestar um corpo mudo na casa de Cristo! Ah, penso que a palavra de Deus também está aprisionada! Ah, sou uma árvore seca! Ai de mim, não posso nem plantar nem regar! Ah, se o meu Senhor apenas me tornasse esterco, para engordar e fertilizar os seus próprios sulcos de trigo no monte Sião! Ah, se ao menos eu pudesse falar a três ou quatro pastorzinhos sobre o meu digno Senhor, contentar-me-ia em ser o mais humilde e obscuro de todos os pastores desta terra, e em viver em qualquer lugar, em qualquer dos casebres mais baixos de Cristo! Mas ele diz: "rapaz, não te enviarei; não tenho recados para ti por ali." O meu desejo de servi-lo adoece de ciúme, temendo que ele não queira me empregar... Estou muito bem em todos os aspectos, todo louvor a ele em cujos livros hei de constar para sempre como seu devedor! Só o meu silêncio me dói. Eu tinha uma alegria fora do céu, depois de Cristo, meu Senhor, e era pregá-lo a esta geração incrédula; e tiraram isso de mim. Era para mim como o único olho do pobre, e apagaram esse olho.
— Samuel Rutherford.
Pois esperei nos teus juízos. A palavra mishpat, "juízo," significa ou a lei, ou a execução da sentença dela.
A lei, ou toda a palavra de Deus; de modo que "esperei nos teus juízos" não é senão "espero na tua palavra"; como está: "espero no Senhor, a minha alma espera, e em sua palavra espero" (Salmos 130:5).
A execução correspondente da lei, quando a promessa ou a ameaça se cumpre. (1) Quando a promessa se cumpre: isto é juízo, num sentido, quando Deus realiza o que prometeu para a nossa salvação e livramento. Assim se diz que Deus julga o seu povo, quando o justifica e o salva segundo a sua palavra: "Senhor, tu viste o meu agravo: julga tu a minha causa" (Lamentações 3:59). (2) Mas a noção mais usual de juízo é a execução da ameaça sobre os ímpios; o que, sendo um benefício para os fiéis servos de Deus, e feito em seu favor, bem se pode dizer que Davi o esperava. O "juízo" deles é a nossa obtenção da promessa.
— Thomas Manton.
Versículos 43–44Salmo 119:43-44
Senhor, deixa-me ter a palavra da verdade "na minha boca," para que eu possa confiar esse sagrado depósito à geração que se levanta (2 Timóteo 2:22), e por meio dela seja transmitido às gerações vindouras; assim "a tua lei" será guardada "para todo o sempre," isto é, de geração em geração, segundo aquela promessa (Isaías 59:21): "as minhas palavras, que pus na tua boca, não se apartarão da tua boca, nem da boca da tua semente, nem da boca da semente da tua semente."
— Matthew Henry.
Versículo 44Salmo 119:44
Assim guardarei a tua lei continuamente, etc. O Senhor guardar o nosso coração na fé, e a nossa boca e o nosso homem exterior no curso da confissão e da obediência, é a causa da nossa perseverança.
— David Dickson.
Assim guardarei. Note-se: a promessa de obediência é trazida à guisa de argumento; "assim guardarei," "assim," isto é, isto me encorajará, isto me capacitará.
Primeiro, o atendimento dos seus pedidos lhe daria encorajamento: quando Deus responde à nossa esperança e expectativa, a gratidão deveria nos incitar e nos avivar a dar toda espécie de obediência. Se ele nos der um coração, e um pouco de liberdade para confessar o seu nome, e servi-lo, não deveríamos ficar hesitantes ou incertos, mas andar de perto com ele.
Segundo, isto lhe daria auxílio e força. Se Deus nos dá diariamente auxílio, permaneceremos firmes; se não, caímos e vacilamos; isto será um meio de perseverança para ele, não apenas para comprometê-lo e obrigá-lo, mas para ajudá-lo a resistir até o fim.
Note-se, então, a constância desta obediência: "continuamente, e para todo o sempre." Davi não a guardaria por um acesso, ou por poucos dias, ou por um ano, mas sempre, até o fim da sua vida. Aqui há três palavras de mesmo sentido: "continuamente," "para sempre," "e sempre." E a Septuaginta expressa assim: "guardarei a tua lei sempre, e para sempre, e para sempre e sempre" — quatro palavras ali. Este acúmulo de palavras não é em vão.
Mostra a dificuldade da perseverança: a menos que os crentes resistam fortemente à tentação, logo serão desviados do caminho; por isso Davi ata o seu coração com firmeza: precisamos fazê-lo agora, sim, sempre, até o fim.
Expressa a veemência do seu afeto: os que são profundamente tocados por algo costumam se expressar tão amplamente quanto podem. Como Paulo, que tinha profundo senso do poder de Deus: "a soberana grandeza do seu poder, segundo a operação da força do seu poder" (Efésios 1:19). Ele acumula várias palavras, porque o seu senso delas era tão grande: assim também Davi aqui acumula palavras — "continuamente, e para sempre, e sempre, e sempre."
Alguns pensam que as palavras são tantas para expressar não só esta vida, mas a que há de vir. "Guardá-los-ei continuamente, e para sempre, e sempre"; isto é, todos os dias da minha vida, e no outro mundo. Assim Crisóstomo: "guardá-los-ei continuamente," etc., aponta para a outra vida, onde haverá pura e exata guarda da lei de Deus. Aqui estamos a cada hora em perigo, mas ali seremos postos fora de todo perigo, e, sem medo de pecar, permaneceremos numa justiça plena e perfeita; esperamos aquilo que ainda não alcançamos, e isso nos encoraja no presente: assim quereria ele que Davi se expressasse.
Se devemos distinguir estas palavras, suponho que elas impliquem a continuidade e a perpetuidade da obediência; a continuidade da obediência, que ele serviria a Deus continuamente, sem interrupção; e a perpetuidade da obediência, que ele serviria a Deus para sempre e sempre, sem defecção ou revolta, em todos os momentos, e até o fim. A constância e a perseverança na obediência são o seu maior elogio.
— Thomas Manton.
Assim guardarei a tua lei continuamente. Isto é, se não tirares a palavra da tua verdade da minha boca, "guardarei sempre a tua lei." "Sim, até a era, e era de era": ele mostra o que se entende por "sempre." Pois às vezes por "sempre" se entende enquanto vivermos aqui; mas aqui não é assim, é "até a era, e era de era." Pois é melhor traduzir assim do que, como trazem algumas cópias, "para a eternidade, e para era de era," visto que não poderiam dizer "e para eternidade de eternidade." Deve-se, portanto, entender aquela lei da qual o apóstolo diz: "o amor é o cumprimento da lei."
Pois esta será guardada pelos santos, de cuja boca a palavra da verdade não é tirada, isto é, pela própria igreja de Cristo, não somente durante este mundo, isto é, até que este mundo tenha fim; mas para outro mundo, que se chama mundo sem fim. Pois ali não receberemos os mandamentos da lei, como aqui, para guardá-los, mas guardaremos a plenitude da própria lei sem nenhum medo de pecar; pois amaremos a Deus mais plenamente quando o tivermos visto; e também ao nosso próximo; pois "Deus será tudo em todos"; nem haverá lugar para qualquer falsa suspeita a respeito do nosso próximo, onde ninguém estará oculto a ninguém.
— Agostinho.
Continuamente, para todo o sempre. A linguagem deste versículo é muito enfática. A obediência perfeita constituirá grande parte da felicidade celestial por toda a eternidade; e quanto mais dela nos aproximamos na terra, mais antecipamos a felicidade do céu.
— Nota na Bagster's Comprehensive Bible.
Versículo 45Salmo 119:45
Andarei em liberdade. Onde quer que Deus perdoe o pecado, ele o subjuga (Miqueias 7:19). Então o poder condenatório do pecado é removido, quando o seu poder dominador é removido. Se um malfeitor está na prisão, como saberá que o seu príncipe o perdoou? Se um carcereiro vem e lhe tira as correntes e os grilhões, e o solta da prisão, então ele pode saber que está perdoado: assim, como saberemos que Deus nos perdoou? Se os grilhões do pecado forem quebrados, e andarmos em liberdade nos caminhos de Deus, isto é um sinal bendito de que somos perdoados.
— Thomas Watson.
Andarei em liberdade, pois busco os teus preceitos. Assim como quem se afasta da confissão da verdade de Deus se lança em apertos, em perigo e em prisões, também quem sustenta a confissão da verdade anda como homem livre; a verdade o liberta.
— David Dickson.
Andarei em liberdade, pois busco os teus preceitos. Quando a Bíblia diz que o homem conduzido pelo Espírito não está debaixo da lei, não quer dizer que ele é livre porque pode pecar sem ser punido por isso; mas quer dizer que é livre porque, ensinado pelo Espírito de Deus a amar o que a sua lei ordena, já não tem consciência de agir por coerção. A lei não o impele, porque o Espírito o conduz... Há um estado, irmãos, em que reconhecemos a Deus, mas não amamos a Deus em Cristo. É o estado em que admiramos o que é excelente, mas não somos capazes de cumpri-lo. É um estado em que o amor ao bem se reduz a nada, esmorecendo em mero desejo. Esse é o estado da natureza, quando estamos debaixo da lei, e não convertidos ao amor de Cristo. E há então outro estado, em que Deus escreve a sua lei em nossos corações pelo amor, em vez do temor. Um estado é este: "não posso fazer as coisas que quero"; o outro estado é este: "andarei em liberdade, pois busco os teus mandamentos."
— Frederick William Robertson, 1816-1853.
Andarei em liberdade. A mente do salmista percebe o alargamento da sua posição. Pouco antes, sentia-se como um homem angustiado — cercado por rochedos, num desfiladeiro estreito e perigoso, sem conseguir encontrar saída. Vocês conhecem as características de Canaã, e podem facilmente conceber a posição de um viajante explorando o seu temido caminho por um dos desfiladeiros montanhosos. O viajante diante de nós alcançou pisar em terreno seguro. Agora, de repente, favorecido pelo Altíssimo, e consciente de estar no caminho dele, encontra-se num lugar espaçoso, e anda à vontade: "e andarei em liberdade; pois busco os teus preceitos."
Ele havia investigado com diligência tudo o que o Senhor ordenara, e, buscando conformar-se a isso, sentia que podia andar com conforto. Recreia-se em sua emancipação espiritual. O malfeitor secreto, de bela profissão, não pode conhecer de modo algum esta liberdade espiritual. Enquanto um homem se percebe errado, e especialmente um homem de consciência sensível, sente-se impedido por todos os lados, deprimido na mente, e em circunstâncias más. A que expansão da mente desperta um homem quando se torna consciente de estar no caminho ordenado de Deus! E ele está de fato em liberdade; pois a boa providência de Deus o cerca, e a sua graça o sustenta.
— John Stephen.
Quem segue a trilha certa e já batida não terá espinhos a lhe ferir os olhos.
— Provérbio saxão.
Versículos 45–48Salmo 119:45-48
Cinco coisas Davi promete a si mesmo aqui, na força da graça de Deus.
Que estaria livre e à vontade no seu dever: "andarei em liberdade" — livre daquilo que é mau, não preso pelos grilhões das minhas próprias corrupções, e livre para o que é bom.
Que seria ousado e corajoso no seu dever: "falarei dos teus testemunhos diante de reis."
Que seria alegre e agradável no seu dever: "deleitar-me-ei nos teus mandamentos," conversando com eles, conformando-me a eles.
Que seria diligente e vigoroso no seu dever: "levantarei as minhas mãos para os teus mandamentos," o que indica não apenas um desejo veemente por eles, mas uma aplicação atenta da mente à sua observância.
Que seria pensativo e ponderado no seu dever: "meditarei nos teus estatutos."
— Matthew Henry.
Nestes quatro versículos, ele explica, em sequência, em que consiste a observância da lei; algo que prometera quando disse, no quarto versículo desta divisão, que observaria a lei de Deus em suas palavras, em sua mente e em seus atos; e o profeta parece, de uma só vez, como quem já foi ouvido, mudar o seu modo de falar, pois diz: "e andei à vontade." Quando a misericórdia de Deus me visitou, andei não nos caminhos estreitos do temor, mas no amplo caminho do amor; isto é, observei a lei de boa vontade, com alegria, com todos os afetos do meu coração, "porque busquei os teus mandamentos," como coisa de grande e máxima importância a alcançar; "e falei" abertamente e sem medo sobre a justiça da sua santíssima lei, mesmo "diante de reis, e não me envergonhei"; e voltei constantemente a lei em minha mente, e fiz dos seus mistérios o tema da minha meditação, "e levantei as minhas mãos" para cumprir os seus altos e sublimes mandamentos; isto é, os seus mandamentos extremamente perfeitos e árduos. Por fim, de todas as maneiras, no coração, na mente, na palavra, "e me exercitei nas tuas justificações."
— Roberto Belarmino.
Versículo 46Salmo 119:46
Falarei também dos teus testemunhos diante de reis. Em palavras, parece crer que já possui aquilo por que antes orava. Havia dito: "não tires a palavra da verdade da minha boca", e agora, como se tivesse obtido o que pedira, ele se ergue, e sustenta que não ficaria mudo, ainda que fosse chamado a falar na presença de reis. Afirma que ficaria de bom grado à frente da defesa da glória de Deus diante do mundo inteiro.
— John Calvin.
Falarei também dos teus testemunhos diante de reis. O terror dos reis e dos homens no poder é obstáculo comum à livre confissão da verdade de Deus em tempo de perseguição; mas a fé na verdade, sustentada no coração por Deus, é capaz de produzir confissão a todo custo.
— David Dickson.
Falarei também dos teus testemunhos diante de reis. Antes de subir ao trono, os reis às vezes eram seus juízes, como Saul e Aquis: mas, se fosse chamado diante deles para dar razão da esperança que havia nele, falaria dos testemunhos de Deus, e professaria fundar nele a sua esperança, e fazer deles o seu conselho, a sua guarda, a sua coroa, o seu tudo. Nunca devemos ter medo de reconhecer a nossa religião, ainda que isso nos exponha à ira dos reis, mas falar dela como algo por que viveremos e morreremos, como os três jovens diante de Nabucodonosor (Daniel 3:16, Atos 4:20). Depois que Davi subiu ao trono, os reis às vezes eram seus companheiros; visitavam-no, e ele retribuía as visitas; mas não deixava de falar de religião por cortesia com eles, com medo de os ofender e tornar a conversa desconfortável para eles: não; os testemunhos de Deus seriam o tema principal do seu discurso com os reis, não só para mostrar que não se envergonhava da sua religião, mas para instruí-los nela, e trazê-los a ela. É bom que os reis ouçam falar dos testemunhos de Deus, e adornará a conversa dos próprios príncipes falar deles.
— Matthew Henry.
Falarei também dos teus testemunhos diante de reis. Os homens de maior santidade têm sido homens de maior ousadia; testemunhas disso são Neemias, os três jovens, Daniel, e todos os santos profetas e apóstolos: "os ímpios fogem sem que ninguém os persiga; mas os justos são ousados como um leão" (Provérbios 28:1) — sim, como um leão jovem, como traz o hebraico, um que está em seu sangue quente e não teme nada, e que é mais ousado do que qualquer outro. A santidade fez de Daniel não apenas ousado como um leão, mas também capaz de intimidar os próprios leões com a sua ousadia. Lutero era homem de grande santidade, e homem de grande ousadia: testemunha disso é a sua resistência contra o mundo inteiro; e quando o imperador o chamou a Worms, e os seus amigos o dissuadiam de ir, como às vezes faziam os de Paulo, ele disse: "irei, certamente irei, já que fui chamado, em nome do nosso Senhor Jesus Cristo; sim, ainda que soubesse que há tantos demônios em Worms para me resistir quantas telhas há a cobrir as casas, ainda assim iria."
E quando o mesmo autor e os seus companheiros foram ameaçados com muitos perigos por opositores de todos os lados, ele proferiu este discurso heroico e magnânimo: "vinde, cantemos o Salmo 46, e então que façam o pior que puderem." Latimer era homem de muita santidade, considerando as trevas e a profanidade daqueles tempos em que viveu, e homem de muita coragem e ousadia: testemunha disso é o presente que deu ao rei Henrique VIII, como prenda de ano-novo, um Novo Testamento, embrulhado num pano, com este lema ao redor: "aos adúlteros e fornicadores Deus julgará."
— Thomas Brooks.
Note-se que, neste versículo, somos ensinados a evitar quatro vícios. Primeiro, o silêncio excessivo: por isso diz, "falarei." Segundo, a tagarelice inútil: "dos teus testemunhos." Os doutores hebreus dizem que dez medidas de fala desceram à terra — que nove foram levadas pelas mulheres, e apenas uma restou para todo o resto do mundo. Jerônimo exorta com razão todos os cristãos: "consagra a tua boca ao Evangelho: não te disponhas a abri-la com trivialidades ou fábulas." Terceiro, somos ensinados a evitar a covardia: "diante de reis." Pois, como se diz (Provérbios 29:25), "o temor do homem armará laço." Quarto, e por último, somos ensinados a evitar o pudor covarde: "e não me envergonharei."
— Thomas Le Blanc.
Não me envergonharei. Isto é, não serei derrubado da minha posição nem da minha esperança; não terei medo; nem, por medo do perigo ou do opróbrio, evitarei ou renunciarei à confissão; nem serei vencido por terrores ou ameaças.
— D. H. Mollerus.
Versículos 46–48Salmo 119:46-48
Nestes três últimos versículos, Davi promete um tríplice dever de gratidão. Primeiro, o serviço da sua língua. Depois, o serviço dos seus afetos. Terceiro, o serviço das suas ações. Uma boa consciência sempre traz grande consolo; e uma vida honesta dá grande ousadia para falar sem medo nem vergonha, como se vê em Davi diante de Saul, em Elias diante de Acabe, em Paulo diante de Agripa, de Festo e de Félix.
— William Cowper.
Versículo 47Salmo 119:47
Deleitar-me-ei nos teus mandamentos. É pobre consolo para o crente ser capaz de falar bem aos outros sobre os caminhos de Deus, e até "suportar o opróbrio" do seu povo, quando o seu próprio coração está frio, insensível e entorpecido. Ele anseia por "deleite" nesses caminhos; e há de deleitar-se neles.
— Charles Bridges.
Quem quiser pregar com ousadia aos outros precisa, ele mesmo, "deleitar-se" na prática do que prega. Se há em nós uma natureza nova, ela "amará os mandamentos de Deus" por lhe serem afins; naquilo que amamos, estaremos continuamente "meditando," e a nossa meditação terminará em ação; "levantaremos as mãos cansadas" (Hebreus 12:12), para que façam "as obras de Deus enquanto é dia, porque a noite vem, quando ninguém pode trabalhar" (João 9:4).
— George Horne.
Os teus mandamentos, que tenho amado. Sobre a palavra "amado," o Carmelita cita dois ditos de filósofos antigos, que recomenda à aceitação daqueles que aprenderam a filosofia mais verdadeira do Evangelho. O primeiro é a resposta de Aristóteles à pergunta sobre que proveito tirara da filosofia: "aprendi a fazer sem coerção o que outros fazem por medo da lei." O segundo é um dito muito semelhante de Aristipo: "se as leis se perdessem, todos nós viveríamos como vivemos agora que estão em vigor." E, para nós, todo o versículo se resume nas palavras de um Mestre maior que eles: "se alguém me ama, guardará as minhas palavras" (João 14:23).
— Neale e Littledale.
Versículos 47–48Salmo 119:47-48
O que na palavra é lei de preceito é, no coração, lei de amor; o que numa é lei de mandamento é, na outra, lei de liberdade. "O amor é o cumprimento da lei" (Gálatas 5:14). A lei do amor no coração é o cumprimento da lei de Deus no Espírito. Bem se pode dizer que está escrita no coração, quando o homem a ama. Como dizemos que uma coisa amada está em nosso coração, não fisicamente, mas moralmente, como se dizia que Calais estava no coração da Rainha Maria. Poderiam procurar bastante tempo antes de encontrar ali o mapa da cidade; mas a dor pela sua perda a matou. É um amor indizível. Davi se compraz em mencioná-lo em dois versículos seguidos: "deleitar-me-ei nos teus mandamentos, que tenho amado. Também levantarei as minhas mãos para os teus mandamentos, que tenho amado," e muitas vezes, no salmo, retoma a mesma afirmação.
Antes da nova criação, não havia afeto pela lei: ela não era apenas letra morta, mas letra diabólica, na estima do homem: ele desejava vê-la riscada do mundo, e outra, mais agradável à carne, promulgada. Seria uma lei para si mesmo; mas, quando isto é escrito dentro dele, fica tão satisfeito com a inscrição que não ficaria, por nada no mundo, sem essa lei, e sem o amor por ela; ao passo que a obediência que antes lhe prestava era por medo, agora é por afeto; não só por causa da autoridade do legislador, mas pela pureza da própria lei.
Ele a manteria com todas as suas forças contra o poder do pecado dentro de si, e contra os poderes das trevas fora de si. Ama contemplar esta lei; observa cada traço dela, e se detém em cada aspecto com deleitosos arrebatamentos. Se o seu olho se desvia, ou o seu pé se afasta, como se desfaz em lágrimas, lamenta e geme, até que o seu antigo afeto recobre o fôlego, e se põe de novo em pé!
— Stephen Charnock.
Versículo 48Salmo 119:48
Também levantarei as minhas mãos para os teus mandamentos, etc. O dever que Davi promete a Deus aqui é o serviço das suas ações, que levantará as mãos para a prática dos mandamentos de Deus. O reino de Deus não está na palavra, mas no poder; somos discípulos daquele Mestre que primeiro começou a fazer, e depois a ensinar. Mas agora o mundo está cheio de cristãos mutilados; ou lhes falta um ouvido, e não podem ouvir a palavra de Deus; ou uma língua, e não podem falar dela; ou, se têm ambos, faltam-lhes as mãos, e não podem praticá-la.
— William Cowper.
Também levantarei as minhas mãos. Levantar as mãos é tomado de vários modos, e significa:
Orar: como em Salmos 28:2; Lamentações 2:19; Habacuque 3:10.
Abençoar outros: como em Levítico 9:22; Salmos 134:2.
Jurar: como em Gênesis 14:22; Êxodo 6:8.
Empreender algum assunto importante: como em Gênesis 41:44, "sem ti ninguém levantará a mão"; isto é, tentará algo, ou realizará; Salmos 10:12, "levanta a tua mão", a saber, com eficácia, para trazer socorro; Hebreus 12:12, "levantai as mãos", etc.; isto é, estimulai fortemente os cristãos.
Talvez todos estes sentidos possam se ajustar à presente passagem; pois é possível que seja tanto:
Oração pela graça divina para cumprir os preceitos; ou,
Bênção, isto é, louvor a Deus por causa deles, e das vantagens que deles nos advieram; o que o tradutor siríaco aprova, ao acrescentar: "e me gloriarei na tua fidelidade"; ou,
Voto, ou juramento de obediência constante, etc.; ou,
Empreendimento ativo e sério deles; o que também parece ser aqui o sentido principal.
— Henry Hammond, em Synopsis Poli.
Também levantarei as minhas mãos para os teus mandamentos; jurando obediência a eles: Gênesis 14:22.
— William Kay.
Também levantarei as minhas mãos. Apresentarei toda vítima e sacrifício que a lei exige. Farei oração e súplica diante de ti, levantando mãos santas, sem ira nem contenda.
— Adam Clarke.
Também levantarei as minhas mãos. Aben Ezra explica (e talvez com razão) que a metáfora, aqui, é tirada da ação daqueles que recebem alguém a quem estão felizes ou orgulhosos de ver.
— Daniel Cresswell, 1776-1844.
Levantarei as minhas mãos em admiração dos teus preceitos, "e meditarei nos teus estatutos."
— W. Green, em A New Translation of the Psalms, 1762.
Levantar a mão é um gesto que denota prontidão, e intenção especial de fazer algo. "Também levantarei as minhas mãos", diz Davi, "para os teus mandamentos"; assim como um homem disposto a fazer algo, e que se prepara para fazê-lo, levanta a mão; assim se descreve o homem piedoso levantando a mão para cumprir os mandamentos de Deus.
— Joseph Caryl.
Os teus mandamentos. Por mandamentos ele entende a palavra de Deus, mas é mais forte do que isso; não é "amei a tua palavra", mas "amei aquela parte da tua palavra que são os teus mandamentos", a parte que ordena. Há partes da vontade e da palavra de Deus que até os ímpios se contentam em amar. Há a parte promissória; todos os homens se apegam e se agarram às promessas, e mostram amor por elas. A razão é clara: há prazer, e proveito, e ganho, e vantagem nas promessas; mas a alma piedosa não olha apenas para as promessas, mas para os mandamentos. A piedade olha para Cristo como Legislador, tanto quanto como Salvador, e não apenas como Mediador, mas como Senhor e Mestre; não vive apenas pela fé, mas vive por regra; faz, sim, das promessas o apoio e o bordão da vida do cristão, mas faz dos mandamentos de Deus o nível.
Um coração piedoso sabe que algum mandamento está implícito na qualificação e na condição de toda promessa; sabe que o cumprimento das promessas pertence a Deus; mas o cumprimento dos mandamentos pertence a nós. Por isso olha assim para o gozo daquilo que é prometido: fará primeiro o que é ordenado. Não há esperança de alcançar consolo na promessa senão guardando o preceito; por isso ele põe a ênfase: "amei a tua palavra" — isto é verdade, e toda a tua palavra, e esta parte, a parte que ordena: "amei os teus mandamentos."
Note-se o número, "os teus mandamentos"; está no plural, isto é, todos os teus mandamentos, sem exceção; do contrário, até os ímpios se contentariam em amar alguns mandamentos, se pudessem escolhê-los para si mesmos.
— Richard Holdsworth (1590-1649), em The Valley of Vision.
Que amo, ou "tenho amado", como no Salmos 119:47, cujos termos são deliberadamente repetidos com um belo efeito retórico, ainda mais realçado pelo "e" no início, que lança ambos os versículos, por assim dizer, numa só sentença. Como se tivesse dito: tirarei a minha felicidade dos teus mandamentos, que amo e tenho amado, e para estes mandamentos, que amo e tenho amado, levantarei as minhas mãos e o meu coração juntos.
— Joseph Addison Alexander.
Meditarei. É na santa meditação sobre a palavra de Deus que todas as graças do Espírito se manifestam. Que é o princípio da fé, senão a confiança da alma nas promessas da palavra? Que é a sensação do temor piedoso, senão a alma tremendo diante das ameaças de Deus? Que é o objeto da esperança, senão a glória de Deus apreendida? Que é a excitação do desejo ou do amor, senão a contemplação anelante e terna do Salvador, e das suas bênçãos indizíveis? De modo que dificilmente podemos conceber as influências da graça separadas da meditação espiritual na palavra.
— Charles Bridges.
O siríaco traz um acréscimo ao Salmos 119:48, que me surpreende não ter sido notado. O acréscimo é: "e me gloriarei na tua fidelidade." Dathe, numa nota, diz que os Setenta parecem ter lido algum acréscimo semelhante, embora não exatamente o mesmo.
— Edward Thomas Gibson, 1819-1880.
Versículo 49Salmo 119:49
Lembra-te da palavra dada ao teu servo, etc. Os que fazem das promessas de Deus a sua porção podem, com humilde ousadia, transformá-las em seu argumento de súplica. Deus deu a promessa em que o salmista esperava, e a esperança com que ele abraçou a promessa. — Matthew Henry.
Lembra-te da palavra dada ao teu servo, etc. Quando ouvimos qualquer promessa na palavra de Deus, transformemo-la em oração. As promessas de Deus são suas obrigações escritas; processe-o com base nelas. Ele gosta que lutemos com ele por meio de suas promessas.
"Ora, Senhor, tu fizeste esta e aquela promessa; não podes negar a ti mesmo, não podes negar a tua própria verdade; não podes deixar de ser Deus, e tanto poderias deixar de ser Deus quanto negar a tua promessa, pois ela és tu mesmo. Senhor, lembra-te da tua palavra. Eu te lembro da tua promessa, sobre a qual me fizeste esperar. Se eu for enganado, foste tu quem me enganou. Tu fizeste estas promessas e me levaste a confiar em ti, e tu jamais falhas com os que em ti confiam; portanto, cumpre a tua palavra para comigo." — Richard Sibbes.
Lembra-te da palavra dada ao teu servo, etc. Deus promete a salvação antes de a conceder, para despertar nosso desejo por ela, exercitar nossa fé, provar nossa sinceridade e aperfeiçoar nossa paciência. Para esses fins, ele às vezes parece ter esquecido sua palavra e abandonado aqueles a quem se comprometera a socorrer e aliviar; nesse caso, ele quer que, por assim dizer, o lembremos de sua promessa e lhe solicitemos o cumprimento dela.
O salmista aqui nos ensina a apresentar nossa petição com base nestes dois fundamentos: primeiro, que Deus não pode desmentir sua própria palavra — "lembra-te da tua palavra"; segundo, que ele jamais desapontará uma expectativa que ele mesmo despertou — "sobre a qual me fizeste esperar." — George Horne.
Versículos 49–52Salmo 119:49-52
- Lembra-te. — Eu me lembrei. Assim como Davi suplica ao Senhor que se lembre da sua promessa, ele também declara, em Salmos 119:52, que se lembrou dos juízos de Deus e foi consolado; e em Salmos 119:55, que se lembrou do nome do Senhor de noite.
É pura zombaria de Deus desejar que ele se lembre da promessa que nos fez, quando nós não damos a mínima atenção à promessa que fizemos a ele. Mas, ai de nós, quantas vezes falhamos nesse dever e, por culpa nossa, diminuímos o consolo que poderíamos ter nas promessas de Deus no dia da angústia. — William Cowper.
Versículo 49Salmo 119:49
Ao teu servo. Certifique-se de sua qualificação; pois Davi aqui suplica em parte como servo de Deus, em parte como crente. Primeiro: "lembra-te da palavra dada ao teu servo"; depois: "sobre a qual me fizeste esperar." Há uma dupla qualificação: quanto ao preceito da submissão, e quanto à promessa da dependência. O preceito vem antes da promessa.
Têm direito às promessas, e podem legitimamente apossar-se delas, os que são servos de Deus; só os que se dedicam a obedecer aos seus preceitos podem aplicar corretamente as promessas a si mesmos. Ninguém pode reivindicar a graça que recompensa senão os que participam da graça que santifica.
Deixe claro que você é servo de Deus, e então essas promessas oferecidas de modo geral serão suas, tanto quanto se o seu nome estivesse inserido na promessa e escrito na Bíblia. — Thomas Manton.
Tu me fizeste esperar. Lembremos, primeiro, que as promessas feitas a nós vêm da livre misericórdia de Deus; que a graça de crer, que é a condição da promessa, também vem dele mesmo, pois "a fé é dom de Deus"; e, terceiro, que os argumentos com que ele confirma nossa fé na certeza da salvação são tirados dele mesmo, não de nós. — William Cowper.
Versículo 50Salmo 119:50
Este é o meu consolo, etc. A palavra da promessa era o consolo de Davi, porque a palavra o vivificara para que recebesse consolo. O original admite outra nuance de sentido: "Esta é a minha consolação: que a tua palavra me vivificou." Ele tinha essa experiência feliz dentro de si; sentia o poder reanimador, restaurador e vivificante da palavra, ao lê-la, ao meditar nela, e ao entregar-se ao caminho da palavra. O crente tem todas as promessas infalíveis de Deus para se apoiar, e, ao apoiar-se nelas, ganha força pelas suas próprias experiências felizes da fidelidade da palavra. — John Stephen.
Meu consolo. A tua palavra. Deus nos deu as suas Escrituras, a sua palavra; e os consolos que dali se tiram são fortes, porque são consolos dele, já que vêm de sua palavra. A palavra de um príncipe consola, ainda que ele não esteja presente para pronunciá-la. Seja por carta ou por mensageiro, aquele de quem é a palavra é capaz de cumpri-la. Ele é senhor e dono de sua palavra.
A palavra de Deus é reconfortante, e todas as razões nela contidas, e dela deduzidas com bom fundamento e consequência, são reconfortantes, porque é a palavra de Deus. Esses consolos na palavra de Deus, e as razões que dela derivam, são maravilhosos em variedade. Há consolo na liberdade do cristão, que tem livre acesso ao trono da graça; consolo nas prerrogativas do cristão, que é filho de Deus, que é justificado, que é herdeiro do céu, e coisas semelhantes; consolos nas promessas da graça, da presença de Deus, do auxílio de sua presença. — Richard Sibbes.
Consolo. Nechamah, consolação; donde se derivou o nome Neemias. A palavra ocorre somente em Jó 6:9.
Consolo. O verbo hebraico traduzido por "consolar" significa, antes de tudo, arrepender-se, e depois consolar. E certamente a alegria mais doce nasce das lágrimas mais seguras. As lágrimas são as geradoras da alegria espiritual. Quando Ana chorou, ela se retirou e não ficou mais triste. A abelha colhe o melhor mel das ervas mais amargas. Cristo fez o melhor vinho da água.
Os consolos do evangelho são, primeiro, consolos indizíveis, 1 Pedro 1:8; Filipenses 4:4. Segundo, são reais, João 14:27; todos os outros são apenas consolos aparentes, consolos pintados. Terceiro, são consolos santos, Isaías 64:5, Salmos 138:5; fluem do Espírito Santo, e nada pode vir do Espírito Santo senão o que é santo.
Quarto, são os consolos maiores e mais fortes, Efésios 6:17. Poucas cabeças e corações são capazes de suportá-los, assim como poucas cabeças suportam vinhos fortes. Quinto, alcançam o homem interior, a alma, 2 Tessalonicenses 2:17, a parte nobre do homem. "A minha alma se alegra em Deus, meu Salvador." Nossos outros consolos só alcançam o rosto; não penetram tão fundo quanto o coração.
Sexto, são os consolos que mais enchem e satisfazem a alma, Salmos 16:11; Cântico dos Cânticos 4:3. Outros consolos não alcançam a alma, e por isso não podem enchê-la nem satisfazê-la. Sétimo, consolam nas mais tristes angústias, na noite mais escura e no dia mais tempestuoso, Salmos 94:19, Hebreus 3:7-8. Oitavo, são eternos, 2 Tessalonicenses 2:16. A alegria dos ímpios é como um vidro, brilhante e frágil, sempre em perigo de quebrar; mas a alegria dos santos é duradoura. — Thomas Brooks.
A tua palavra me vivificou. É um consolo reanimador que vivifica a alma. Muitas vezes parecemos mortos para toda operação espiritual, nossos afetos ficam amortecidos e desanimados; mas a palavra de Deus põe vida nos mortos, e nos alivia em nossas maiores angústias. A tristeza produz morte, mas a alegria é a vida da alma.
Ora, quando estamos mortos em todo sentido e sensibilidade, "o justo viverá pela fé" (Hebreus 10:38), e a esperança que as Escrituras produzem em nós é "uma esperança viva" (1 Pedro 1:3). Outras coisas apenas cobrem a ferida, mas nossa chaga volta a abrir-se e a sangrar; a fé penetra no íntimo do homem, faz bem ao coração; e a alma se reanima ao esperar em Deus, e recebe vida e força. — Thomas Manton.
A tua palavra me vivificou. Aqui, como fica evidente pela menção da "aflição" — e, na verdade, em todo o salmo —, o verbo "vivificar" é usado não apenas no sentido externo de "preservação da morte" (Hupfeld), mas no de "reanimar o coração", "infundir novo ânimo", etc. — J.J. Stewart Perowne.
A tua palavra me vivificou. Ela me deu vida quando eu estava morto no pecado; muitas vezes me tornou vivo quando eu estava morto no cumprimento do dever; ela me impeliu para o que é bom, quando eu era relutante e avesso a isso; e me animou naquilo que é bom, quando eu estava frio e indiferente. — Matthew Henry.
(Segunda cláusula.) Adore a graça distintiva de Deus, se você sentiu o poder e a autoridade da palavra sobre a sua consciência; se pode dizer, como Davi, "a tua palavra me vivificou". Cristão, bendiga a Deus porque ele não apenas lhe deu a sua palavra como regra de santidade, mas também a sua graça como princípio de santidade.
Bendiga a Deus porque ele não apenas escreveu a sua palavra, mas a selou em seu coração e a tornou eficaz. Pode você dizer que ela é de inspiração divina, porque a sentiu de operação viva? Ó graça gratuita! Que Deus enviasse a sua palavra e o curasse; que o curasse a você e não a outros! Que a mesma Escritura que para eles é letra morta seja para você aroma de vida. — Thomas Watson.
Versículo 51Salmo 119:51
Os soberbos me têm em grande zombaria. Os santos de Deus têm se queixado disso em todas as épocas: Davi, de seus zombadores inquietos; os desprezíveis o escarneceram. Jó foi desdenhado por filhos cujos pais ele teria vergonha de pôr com os cães do seu rebanho (Jó 30:1). José foi apelidado de sonhador, Paulo de tagarela, o próprio Cristo de samaritano e, com intenção de desonra, de carpinteiro...
Mical era estéril, mas tem filhos demais, que zombam do hábito e das práticas da santidade. Não pode haver maior prova de uma alma corrompida do que zombar dos exercícios religiosos. Corações mundanos não veem nessas ações senão loucura e insensatez; a piedade não tem sabor algum, é desagradável ao seu paladar. — Thomas Adams.
Os soberbos, etc. A zombaria procede da soberba. Provérbios 3:34, 1 Pedro 5:5. — John Trapp.
Grandemente. A palavra indica "continuamente"; a Septuaginta a traduz por sphodra (σφόδρα), a Vulgata latina por usque valde e usque longe. Eles o escarneceram com toda a amargura possível; e dia após dia tinham suas zombarias para ele, de modo que era, ao mesmo tempo, uma tentação penosa e perpétua. — Thomas Manton.
Zombaria. Davi conta que fora escarnecido por causa de sua religião, mas não fora escarnecido para fora dela. Riram dele por orar e chamaram isso de hipocrisia; por sua seriedade e chamaram de tristeza; por seu rigor e chamaram de escrúpulo desnecessário. — Matthew Henry.
É grande coisa um soldado se comportar bem sob fogo; mas é coisa ainda maior um soldado da cruz permanecer inabalável no dia da sua provação. Não faz mal ao cristão que os cães latam contra ele. — William S. Plumer.
Versículos 50–51Salmo 119:50-51
A vida e o vigor infundidos em mim pela promessa que me "vivificou" fizeram-me "não me desviar da tua lei", ainda que "os soberbos agissem iniquamente de todo em todo"; fazendo tudo o que estava ao seu alcance, por meio de suas zombarias contra mim, para me desviar da sua observância. — Robert Bellarmine.
Versículo 52Salmo 119:52
Lembro-me dos teus juízos da antiguidade. É bom guardar no depósito de uma memória santificada vários exemplos dos tratos de Deus com os seus servos, para que por eles a fé seja fortalecida no dia da aflição; pois é isso que aqui se nos ensina. — David Dickson.
Lembrei-me dos teus juízos. Ele se lembrou de que, no princípio, Adão, por transgredir o mandamento divino, foi expulso da morada do Paraíso; que Caim, condenado pela autoridade da sentença divina, pagou o preço do seu crime contra o próprio sangue; que Enoque, arrebatado ao céu por causa de sua devoção, escapou do veneno da maldade terrena; que Noé, vencedor do dilúvio por causa de sua justiça, tornou-se o sobrevivente da raça humana;
que Abraão, por causa da fé, difundiu a semente de sua posteridade por toda a terra; que Israel, por suportar pacientemente as tribulações, consagrou um povo crente com o sinal do seu próprio nome; que o próprio Davi, por causa da mansidão, tendo recebido a honra régia, foi preferido a seus irmãos mais velhos. — Ambrose.
Lembrei-me, etc. Jerônimo escreve sobre aquela senhora devota, Paula, que sabia de cor a maior parte das Escrituras. Somos ordenados a deixar "habitar em nós a palavra" (Colossenses 3:16). A palavra é uma joia que adorna o homem interior; e não haveremos de lembrá-la? "Pode a noiva esquecer os seus enfeites?" (Jeremias 2:32).
Os que têm uma doença chamada lienteria, em que o alimento sai tão depressa quanto é ingerido e não permanece no estômago, não são nutridos por ele. Se a palavra não permanece na memória, não pode aproveitar. Alguns conseguem lembrar melhor uma notícia do que uma linha da Escritura: suas memórias são como aqueles charcos onde vivem rãs, mas os peixes morrem. — Thomas Watson, em "Os Exercícios Matinais".
Lembrei-me dos teus juízos, e me consolei. Pode-se propor um caso de consciência: como podia Davi consolar-se com os juízos de Deus, pois parece coisa bárbara alegrar-se com a destruição de alguém? Está escrito: "aquele que se alegra com as calamidades não ficará impune" (Provérbios 17:5).
Deve-se lembrar que juízo implica ambas as partes da justa dispensação de Deus: o livramento dos piedosos e o castigo dos ímpios. Ora, no primeiro sentido não há motivo de escrúpulo, pois está escrito: "o juízo voltará à justiça" (Salmos 94:15); os sofrimentos dos homens bons se transformarão nas maiores vantagens, como mostra o contexto: que Deus não rejeitará o seu povo, mas o juízo voltará à justiça.
O juízo, no sentido de castigo dos ímpios, pode ainda assim ser um consolo — não porque implique a calamidade de alguém, mas por outras razões:
(a) Quando o ímpio é castigado, remove-se a armadilha e o atrativo para o pecado, que é a esperança da impunidade; pois pelo seu castigo os homens veem que é perigoso pecar contra Deus: "quando os teus juízos estiverem na terra, os moradores do mundo aprenderão justiça" (Isaías 26:9); a armadilha é removida de muitas almas.
(b) Cessam a zombaria e o escárnio deles contra a piedade; não afligem mais nem trespassam as almas dos piedosos, dizendo "Eia, eia" (Salmos 40:15); é como uma ferida no coração ouvi-los dizer: "onde está o teu Deus?" (Salmos 42:10). O juízo elimina esse mal.
(c) Removem-se os impedimentos e obstáculos ao culto e ao serviço a Deus: quando as urtigas são arrancadas pela raiz, o trigo tem mais espaço para crescer.
(d) Tira-se dos ímpios a oportunidade de molestar os servos de Deus, e eles são impedidos de afligir a igreja com suas opressões; e assim se abre caminho para a expansão do reino de Cristo.
(e) Com isso também se manifesta a justiça de Deus: quando vai bem ao justo, a cidade se alegra; "e quando os ímpios perecem, há júbilo" (Provérbios 11:10); "os justos também verão, e temerão, e rirão dele: eis aqui o homem que não pôs a Deus como sua força" (Salmos 52:6-7); "alegrai-vos sobre a Babilônia, ó santos apóstolos e profetas, pois Deus vos vingou dela" (Apocalipse 18:20). Quando a palavra de Deus se cumpre, certamente então podemos alegrar-nos de que sua justiça e verdade se manifestam.
— Thomas Mardon.
A palavra mishphatim, "juízos", é usada nas Escrituras tanto para leis promulgadas quanto para juízos executados conforme essas leis. Uns podem ser chamados os juízos da sua boca, como em "lembrai-vos das maravilhas que fez, dos seus prodígios e dos juízos da sua boca" (Salmos 105:5); os outros, os juízos da sua mão. Como ambos merecem o nome de juízos, ambos também podem ser chamados "da antiguidade".
Seus decretos e estatutos, que têm em si uma equidade eterna e foram gravados no coração do homem em estado de inocência, bem podem ser chamados antigos; e, porque desde o princípio do mundo Deus tem castigado os ímpios e livrado os piedosos a seu tempo, suas dispensações judiciais também podem ser assim chamadas.
Não importa muito se interpretamos isso como seus estatutos ou como seus decretos, pois ambos contêm motivo de consolo, e podemos ver a ruína dos ímpios na palavra, se não a vemos na providência. Contudo, prefiro interpretá-lo como aqueles atos justos registrados na Escritura, que Deus, como juiz justo, executou em todas as épocas, conforme as promessas e ameaças anexadas às suas leis.
Apenas, nesse sentido, devo observar que juízos implicam tanto as misericórdias de Deus no livramento dos seus servos justos quanto os seus castigos sobre os ímpios: as intervenções oportunas de seu socorro para uns em suas maiores angústias, como também sua justa vingança sobre os outros, apesar da mais alta prosperidade destes. — Thomas Manton.
Versículos 52–55Salmo 119:52-55
Lembrei-me dos teus juízos. — O teu nome, de noite. Thomas Fuller escreve assim em seu "David's Heartie Repentance":
Para diversos deveres ele dividia os dias,
fazendo da troca de trabalho a sua recreação;
para a oração reservava a preciosa manhã,
o meio-dia ele dedicava à meditação:
as doces histórias sagradas guardava para a noite,
para ler da mansidão de Moisés, da força de Sansão:
estas eram a sua alegria, estas, somente, o seu deleite.
Versículo 53Salmo 119:53
Horror se apoderou de mim, por causa dos ímpios. Tive visões claras da eternidade; vi, em certa medida, a bem-aventurança dos piedosos; e desejei partilhar do seu estado feliz, além de estar confortavelmente certo de que, pela graça, assim será comigo. Mas, ah, que angústia se levanta em minha mente ao pensar numa eternidade para os que estão sem Cristo, para os que se enganam e levam consigo suas falsas esperanças até a sepultura!
A visão era tão terrível que de modo algum eu podia suportá-la: meus pensamentos recuaram, e eu disse, com um senso mais comovente do que nunca antes: "Quem pode habitar com as chamas eternas?" — David Brainerd, 1718-1747.
Horror se apoderou de mim, etc. Ah, quem pode exprimir qual é o estado de uma alma em tais circunstâncias! Tudo o que podemos dizer sobre isso oferece apenas uma representação fraca e pálida; é inexprimível e inconcebível, pois quem conhece o poder da ira de Deus?
Quão terrível é o estado dos que estão diária e horariamente em perigo dessa grande ira e infinita miséria! Mas este é o caso lamentável de toda alma nesta congregação que não nasceu de novo, por mais moral, rigorosa, sóbria e religiosa que seja em outros aspectos. Ah, quisera que todos vocês considerassem isso, sejam jovens ou velhos!
Há razão para pensar que muitos, nesta congregação, que agora ouvem este discurso, serão de fato objeto dessa mesma miséria por toda a eternidade. Não sabemos quem são, nem em que bancos estão sentados, nem que pensamentos têm agora. Pode ser que estejam à vontade e ouçam tudo isso sem grande perturbação, lisonjeando-se de que não são eles os visados, prometendo a si mesmos que hão de escapar.
Se soubéssemos que havia uma pessoa, uma só, em toda a congregação, que seria objeto dessa miséria, que coisa terrível seria pensar nisso! Se soubéssemos quem era, que visão terrível seria ver essa pessoa! Como o resto da congregação poderia levantar um lamento amargo sobre ela! Mas, ai, em vez de uma, quantos provavelmente se lembrarão deste discurso no inferno! — Jonathan Edwards, em um sermão intitulado "Pecadores nas Mãos de um Deus Irado".
Horror. Zilʿaphah significa propriamente o vento ardente e pestilento que os árabes chamam de simum (veja Salmos 11:6); e é usado aqui em sentido figurado para a mais horrível angústia mental, e marca fortemente a ideia que o salmista tinha da natureza corruptora, pestilenta e destrutiva do pecado. — Nota na Bíblia Abrangente de Bagster.
Horror. A palavra para "horror" também significa tempestade ou temporal. As traduções variam: alguns a leem, como Junius, "uma tempestade que alguém enfrenta"; Ainsworth, "um horror ardente se apoderou de mim", e a explica como uma tempestade de terror e consternação. A Septuaginta traz athymia kateschen me (ἀθυμία κατέσχεν με), "desânimo e abatimento de ânimo me possuíram"; a nossa própria tradução, "estou horrivelmente amedrontado"; todas as traduções, assim como a palavra original, implicam grande perturbação de ânimo e uma comoção violenta; como uma tempestade, isso era motivo de inquietação e tremor para Davi. — Thomas Manton.
Por causa dos ímpios que abandonam a tua lei. Davi se afligia, não porque ele mesmo fosse atacado, mas porque a lei de Deus era abandonada; e lamentava a condenação dos que assim faziam, porque estavam perdidos para Deus. Assim como um bom pai, na loucura do filho, quando maltratado por ele, não lamenta a si mesmo, mas a desgraça do doente; e se aflige com a ofensa não porque recaia sobre si, mas porque o doente não sabe o que faz em sua loucura.
Assim, um homem bom, quando vê um pecador que nem reverencia nem honra os cabelos brancos de um pai, que na sua cara consegue insultá-lo, que não sabe, na loucura do pecado, que coisas indecorosas e vergonhosas está fazendo, aflige-se por ele como por alguém à beira da morte, lamenta-o como alguém dado por perdido pelos médicos.
Assim como um bom médico, antes de tudo, aconselha e, mesmo que receba palavras duras, ainda que seja maltratado, suporta o paciente por causa de sua enfermidade; e, se for amaldiçoado, não o abandona; e não recusa nenhum remédio que possa ser aplicado; nem se afasta como de alguém teimoso, mas se esforça com toda diligência para curá-lo como alguém que merece bem dele, exercitando não apenas a perícia da ciência, mas também a bondade do caráter.
Assim também, o homem justo, quando é tratado com desprezo, não se afasta; e, quando é caluniado, considera isso loucura, não depravação; deseja antes aplicar seu próprio remédio à ferida, e se compadece, e se aflige não por si mesmo, mas por aquele que sofre de uma doença incurável. — Ambrose.
Os ímpios que abandonam a tua lei; não apenas transgridem a lei do Senhor, como todo homem faz, mais ou menos, mas a desprezam de propósito e obstinadamente, lançando-a para trás de si, e vivem num curso contínuo de desobediência a ela; ou apostatam da doutrina da palavra de Deus, negando de propósito a verdade depois de terem tido dela conhecimento especulativo — cujo castigo é muito grave (Hebreus 10:26-29).
E isso em parte por causa da ímpia audácia dos ímpios, que estendem as mãos contra Deus e se fortalecem contra o Todo-Poderoso, correndo contra ele, mesmo contra as saliências espessas dos seus escudos; por causa da natureza chocante do pecado deles, dos tristes exemplos que assim dão a outros, do prejuízo que causam a si mesmos, e da desonra que trazem a Deus; e em parte por causa do castigo terrível que lhes será infligido aqui, e especialmente depois, quando uma tempestade horrível de ira cair sobre eles.
Por isso, tal tremor se apoderou do salmista; e muitas vezes acontece que os homens bons tremem mais pelos ímpios do que por si mesmos: veja Salmos 119:120. — John Gill.
Versículo 54Salmo 119:54
Os teus estatutos têm sido os meus cânticos. O salmista se alegrava, sem dúvida, como os bons se alegram hoje,
Na própria lei; a lei como regra de ordem; a lei como guia de conduta; a lei como segurança de proteção.
Numa lei como a de Deus — tão pura, tão santa, tão apropriada para promover a felicidade do homem.
Na estabilidade dessa lei, como fundamento de sua própria segurança pessoal, base de sua esperança.
Na lei em sua influência sobre o universo, preservando a ordem e assegurando a harmonia. — Albert Barnes.
Versículo 55Salmo 119:55
Lembrei-me do teu nome, ó Senhor, de noite, etc. Como a segunda cláusula do versículo depende da primeira, considero o versículo inteiro como expondo uma única e mesma verdade; e, portanto, o profeta quer dizer que foi levado, pela lembrança que tinha de Deus, a guardar a lei. O desprezo pela lei nasce disto: que poucos têm alguma consideração por Deus; e por isso a Escritura, ao condenar a impiedade dos homens, declara que eles se esqueceram de Deus (Salmos 1:22 [sic]; 78:11; 106:21).
A palavra "noite" não pretende dizer que ele se lembrava de Deus apenas por um curto tempo, mas uma lembrança perpétua dele; ele, porém, refere-se particularmente àquela hora, porque então quase todos os nossos sentidos são dominados pelo sono. "Enquanto os outros homens dormem, Deus ocorre aos meus pensamentos mesmo durante o meu sono."
Ele tem outra razão para aludir à hora noturna — para que saibamos que, embora não houvesse ninguém para observá-lo, nem ninguém para lembrá-lo disso; sim, embora estivesse envolto em trevas, ele era tão zeloso em cultivar a lembrança de Deus como se ocupasse o lugar mais público e conspícuo. — John Calvin.
Lembrei-me do teu nome de noite, e por isso "guardei a tua lei" durante todo o dia. — Matthew Henry.
Lembrei-me do teu nome, ó Senhor, de noite. Este versículo contém uma nova declaração de seu sincero afeto pela palavra de Deus. Nisso, notemos primeiro a sua sinceridade: ele era religioso não apenas em público, mas em particular, pois os exercícios privados são as provas mais seguras da verdadeira religião. Em público, muitas vezes a hipocrisia leva os homens a simular o que não são; não é assim na devoção particular, pois então, ou o homem, se não tem consciência do culto a Deus, o negligencia totalmente, porque não há olho humano para vê-lo; ou, se de fato é religioso, mesmo em particular apresenta seu coração a Deus, buscando ser aprovado por ele; pois "o seu louvor não vem dos homens, mas de Deus".
Além disso, isto comprova o seu fervor na religião: pois, assim como em outro lugar declara que amava a palavra mais do que o alimento que lhe era destinado, aqui declara que abria mão do seu descanso noturno para meditar na palavra. Mas hoje o zelo está tão decaído entre os que professam a fé que não abrem mão nem de suas superfluidades, muito menos de seu descanso necessário, por amor à palavra de Deus. — William Cowper.
O teu nome, ó Senhor. O "nome" do Senhor é o seu caráter, a sua natureza, os seus atributos, as manifestações que ele fez de sua santidade, sabedoria, bondade e verdade. — John Stephen.
De noite. Primeiro, isto é, continuamente, pois ele se lembrava de Deus também de dia. Segundo, sinceramente, pois evitava o aplauso dos homens. Terceiro, alegremente, pois o peso do sono natural não conseguia vencê-lo.
Tudo isso mostra que ele era intensamente devotado à palavra; assim como vemos que os homens do mundo tomam parte da noite para seus prazeres. E, ao guardar os testemunhos de Deus de noite, ele mostra que era o mesmo em segredo que era à luz do dia; com isso condenava todos os que cobrem sua maldade com a escuridão. Examinemo-nos, para ver se já interrompemos o sono para invocar a Deus, como o interrompemos para satisfazer os nossos prazeres. — Richard Greenham.
De noite. O pastor Harms, de Hermannsburg, costumava pregar, orar e instruir o seu povo por nove horas no sábado. E então, quando sua mente estava completamente exausta, e todo o seu corpo estremecia de dor, e ele parecia quase morrer de falta de descanso, não conseguia dormir. Mas costumava dizer que gostava de ficar acordado a noite toda, no silêncio e na escuridão, pensando em Jesus.
A noite afastava de seus pensamentos tudo o mais, e deixava o seu coração livre para comungar com Aquele que sua alma mais devotamente amava, e que visitava e consolava o seu discípulo cansado nas vigílias da noite. E assim os filhos de Deus muitas vezes desfrutaram de raros momentos de comunhão com ele na solidão do exílio, na escuridão profunda do calabouço, na noite perpétua da cegueira, e em ocasiões em que todas as vozes e instruções do mundo foram mais completamente cortadas, e a alma ficou a sós com Deus. — Daniel March, em Night unto Night, 1880.
De noite. Nunca há um momento em que não seja próprio voltar-se para Deus e pensar em seu nome. Na escuridão da meia-noite, na escuridão da depressão mental, na escuridão da providência externa, Deus continua sendo um tema apropriado. — William S. Plumer.
A noite.
Querida noite! Derrota deste mundo;
a pausa dos tolos atarefados; freio e refreio do cuidado;
o dia dos espíritos, o retiro calmo da minha alma,
que ninguém perturba!
O avanço de Cristo, e sua hora de oração;
as horas às quais o alto céu badala.
O silencioso e perscrutador voo de Deus;
quando a cabeça do meu Senhor se enche de orvalho, e todos
os seus cabelos se molham com as claras gotas da noite;
o seu chamado quieto e suave;
a sua hora de bater à porta; a vigília muda da alma,
quando os espíritos encontram os seus belos parentes. — Henry Vaughan, 1621-1695.
E guardei a tua lei; embora imperfeitamente, ainda assim espiritual, sincera e cordialmente, por um princípio de amor e gratidão, com vistas à glória de Deus, e sem fins mercenários ou obscuros. — John Gill.
E guardei a tua lei. As horas de comunhão secreta com Deus devem resultar no desejo de conformidade cada vez maior à sua santa vontade. É a lembrança de Deus que leva à guarda de suas leis, assim como é o esquecimento de Deus que fomenta toda espécie de transgressão. — John Morison.
E guardei. O verbo está no futuro, e talvez seja melhor traduzi-lo assim, fazendo dele a expressão de um propósito solene e deliberado de continuar em sua obediência. — William S. Plumer.
Versículos 55–56Salmo 119:55-56
Aquele que se deleita em guardar a lei de Deus, Deus lhe dará mais graça para guardá-la, conforme aquele texto notável: "Lembrei-me do teu nome, ó Senhor, de noite, e guardei a tua lei. Isto tive, porque guardei os teus preceitos." O que Davi ganhou por guardar os preceitos de Deus? Ganhou poder para guardar a sua lei; isto é, para crescer e progredir em guardá-la.
Assim como o profeta (Oseias 6:3) fala do conhecimento de Deus: "Então conheceremos, se prosseguirmos em conhecer o Senhor"; isto é, se nos esforçarmos diligentemente para conhecer a Deus, teremos esta recompensa: seremos capacitados a conhecê-lo ainda mais. Assim posso dizer da graça de Deus: aquele que se deleita em guardar a lei de Deus terá sua recompensa — ser capacitado a guardá-la com mais perfeição.
Um verdadeiro deleite na palavra de Deus é graça que cresce. A graça é a mãe de toda alegria verdadeira (Isaías 32:17), e a alegria é como a filha; e mãe e filha vivem e morrem juntas. — Edmund Calamy (1600-1666), em The Godly Man's Ark.
Versículo 56Salmo 119:56
Isto tive, porque guardei os teus preceitos. Assim como o pecado é castigo do pecado, e o ímpio vai sempre piorando, também a piedade é a recompensa da piedade. O bom uso de um talento aumenta mais, e os começos da piedade são abençoados com o crescimento da piedade. Os bons exercícios de Davi aqui o mantinham na lembrança do seu Deus, e a lembrança de Deus o tornava mais piedoso e religioso. — William Cowper.
Isto tive, etc. Os rabinos têm um ditado análogo: "A recompensa de um preceito é um preceito", ou "Um preceito atrai outro preceito." O sentido disso é que, a quem guarda um preceito, Deus concede, como que por recompensa, a capacidade de guardar outro preceito, mais difícil. O contrário disso é aquele outro ditado dos rabinos: que a recompensa do pecado é o pecado; ou, "A transgressão atrai a transgressão." — Simon de Muis, 1587-1644.
Isto tive, isto é, isto me aconteceu, etc. Experimentei muitos males e adversidades; mas, por outro lado, tirei da palavra os mais doces consolos, e fui coroado com muitas bênçãos de Deus.
Outros o traduzem assim: "Este é o meu negócio, isto é o que me importa e desejo: guardar os teus mandamentos"; isto é, reter incorrupta a doutrina, com fé e boa consciência. — D.H. Mollerus.
Isto tive, etc. Tive o consolo de guardar a tua lei porque a guardei. A obra de Deus é o seu próprio salário. — Matthew Henry.
Isto tive, etc. O que é isso? Este consolo tive, este amparo tive em todas as minhas aflições, esta consolação tive, esta doce comunhão com Deus tive. Por quê? "Porque guardei os teus preceitos" — obedeci à tua vontade. Veja: quanto mais obediência se presta aos mandamentos de Deus, tanto mais consolo flui para a alma. Deus costuma dar consolos na proporção da nossa obediência.
Ó a doce e satisfatória consolação que um filho de Deus encontra nos caminhos de Deus, e em fazer a vontade de Deus, especialmente quando está em seu leito de morte; então lhe será mais doce que o mel e o favo de mel; então dirá, como o bom rei Ezequias, quando estava em seu leito de morte: "Senhor, lembra-te de como andei diante de ti em verdade e com coração perfeito, e fiz o que era bom aos teus olhos." Ó a doce satisfação que uma alma encontrará em Deus, quando comparecer diante de Deus! — James Nalton, 1664.
Isto tive, etc. Ou: "Esta foi a minha consolação: que guardei os teus preceitos"; o que se aproxima da leitura do siríaco, e torna o sentido mais completo. — Nota na Bíblia Abrangente de Bagster.
Isto tive, etc. Quando ouço o povo fiel de Deus falar do seu amor, e dizer "isto tive", não devo eu, se incapaz de me unir ao seu alegre reconhecimento, atribuir isso ao meu andar infiel, e dizer "isto não tive" — porque falhei na obediência aos teus preceitos; porque fui negligente e indulgente comigo mesmo; porque desprezei o teu amor; porque "entristeci o teu Espírito Santo", e esqueci de "perguntar pelas veredas antigas, para andar nelas e achar descanso para a minha alma" (Jeremias 6:16). — Charles Bridges.
Davi diz indefinidamente: "isto tive"; sem nos dizer que bem ou privilégio era; apenas, de modo geral, foi algum benefício que lhe adveio nesta vida. Ele não diz "isto espero"; mas "isto tive"; e por isso não fala da recompensa plena na vida vindoura. No céu chegamos a receber a recompensa plena da obediência; mas quem anda de perto com Deus, esperando nele numa obediência humilde e constante, terá encorajamento suficiente já nesta vida.
Não só será abençoado, mas já é abençoado; tem algo em mãos, além da esperança: como Davi diz neste Salmo 119, não só será abençoado, mas já é abençoado; assim como os que viajavam rumo a Sião encontravam um poço pelo caminho: "os que, passando pelo vale de Baca, o tornam em poço; a chuva também o cobre de bênçãos" (Salmos 84:6).
Num deserto seco e árido, pelo qual tinham de passar, não ficavam totalmente sem consolo, mas encontravam um poço ou uma cisterna; isto é, tinham algum consolo concedido antes de chegarem a desfrutar da presença de Deus em Sião; alguns refrigérios tinham pelo caminho.
Assim como os servos que, além do seu salário, têm seus véus, também nós, além da recompensa futura, temos os nossos consolos e amparos presentes durante o nosso tempo de serviço, suficientes para contrabalançar todas as alegrias mundanas, e superar os maiores prazeres que os homens possam esperar no caminho do pecado. Nos benefícios que os crentes encontram ao andar com Deus num curso de obediência, cada um pode dizer: "isto tive, porque guardei os teus preceitos." — Thomas Manton.
Aqui começa uma nova divisão do salmo, indicada pela letra hebraica Chet, que pode ser representada em português por "h". — Albert Barnes.
Versículos 57–64Salmo 119:57-64
Nesta seção, Davi labuta para confirmar sua fé, e para se consolar na certeza da sua regeneração, por meio de oito propriedades de um crente autêntico, ou oito marcas de uma nova criatura. A primeira delas é a sua escolha de Deus como sua porção. Donde aprendemos:
Os que Deus escolheu e chamou eficazmente recebem graça para fazer de Deus a sua escolha, o seu deleite e a sua porção; e os que escolheram Deus como sua porção têm nisso também uma evidência de sua regeneração e eleição; pois aqui Davi faz disso uma marca de sua regeneração: "Tu és a minha porção."
É outra marca de regeneração, depois de crer em Deus e escolhê-lo como nossa porção, resolver produzir os frutos da fé em nova obediência, como fez Davi: "Eu disse que guardaria as tuas palavras."
Assim como é comum aos filhos de Deus, de tempos em tempos, por causa de algum pecado cometido, serem exercitados com o senso do desagrado de Deus, também é marca de uma nova criatura não permanecer estupidificada e insensível sob esse exercício, mas tratar com Deus com sinceridade, buscando restaurar o senso de reconciliação, e obtendo nova experiência da sua misericórdia, como fez o salmista: "Implorei o teu favor de todo o coração"; e esta é a terceira evidência de uma nova criatura.
O crente penitente tem a palavra da graça e a aliança de Deus como garantia de ser ouvido quando busca misericórdia: "Tem misericórdia de mim, segundo a tua palavra."
Examinar em que condição estamos, avaliar os nossos caminhos segundo a palavra, e renovar o arrependimento com o empenho de emenda, é uma quarta marca de nova criatura: "Considerei os meus caminhos, e voltei os meus pés para os teus testemunhos."
Quando vemos o nosso pecado, somos naturalmente lentos para corrigir os nossos atos; mas quanto mais depressa nos voltamos para o caminho da obediência a Deus, melhor nos vai, e quanto mais rápida for a reforma da nossa vida, mais sólida marca é essa de nova criatura: "Apressei-me, e não retardei, a guardar os teus mandamentos."
Suportar a perseguição e a espoliação dos nossos bens, por apegar-se à palavra de Deus, sem abandonar a sua causa, é uma quinta marca de nova criatura: "As cordas dos ímpios me cercaram; mas não me esqueci da tua lei."
Assim como é o destino dos filhos de Deus que resolvem ser piedosos sofrer perseguição, e serem forçados a perder os seus bens temporais ou perder uma boa causa e uma boa consciência, também é sabedoria dos piedosos lembrar o que a palavra do Senhor exige e diz a nós, e isso consolará a nossa consciência mais do que a perda das coisas temporais pode perturbar a nossa mente: "As cordas dos ímpios me cercaram; mas não me esqueci da tua lei."
Uma sexta marca de nova criatura é estar tão longe de se irritar sob um exercício difícil, a ponto de agradecer a Deus em segredo, alegremente, por sua graciosa palavra, e por todas as passagens da sua providência, onde ninguém nos vê, e onde não há risco de ostentação: "À meia-noite me levantarei para te dar graças, por causa dos teus justos juízos."
Uma sétima marca de uma criatura renovada é associar-se e manter comunhão com os que são verdadeiramente cheios de graça, e que de fato temem a Deus, na medida em que os podemos discernir: "Sou companheiro de todos os que te temem."
O temor de Deus se evidencia por crer e obedecer à doutrina e à direção da Escritura, e de nenhuma outra forma: "Sou companheiro de todos os que te temem, e dos que guardam os teus preceitos."
A oitava marca de nova criatura é não repousar em nenhuma medida de renovação, mas tratar com Deus, com sinceridade, pelo aumento do conhecimento salvador e de uma obediência frutífera a ele; pois "ensina-me os teus estatutos" é a oração do homem de Deus, em quem se encontram todas as marcas anteriores.
Assim como toda a criação é testemunha da bondade de Deus para com o homem, e participa dessa bondade, também é penhor do prazer de Deus em conceder aos seus servos dons maiores do que estes — o próprio aumento da santificação, em maior iluminação da mente e reforma de vida; pois disto se serve o salmista como argumento para ser cada vez mais santificado: "A terra, ó Senhor, está cheia da tua misericórdia; ensina-me os teus estatutos." — David Dickson.
Versículo 57Salmo 119:57
Tu és a minha porção, ó Senhor. A sinceridade desta afirmação pode ser percebida porque ele fala dirigindo-se diretamente a Deus. Não diz apenas "ele é a minha porção", mas desafia Deus, face a face.
Em outro lugar se diz: "o Senhor é a minha porção, diz a minha alma" (Lamentações 3:24). Ali ele não fala isso como um endereçamento a Deus, mas acrescenta "diz a minha alma"; aqui, porém, fala ao próprio Deus, que conhece os segredos do coração. Falar assim de Deus a Deus atesta a nossa sinceridade, quando, face a face com Deus, declaramos a nossa confiança e a nossa escolha; como Pedro: "Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que te amo" (João 21:17). — Thomas Manton.
Tu és a minha porção, ó Senhor. Lutero aconselha todo cristão a responder a todas as tentações com este breve dito: Christianus sum — "sou cristão"; e eu aconselharia todo cristão a responder a todas as tentações com este breve dito: "o Senhor é a minha porção."
Ó cristão, quando Satanás ou o mundo te tentarem com honrarias, responde: "o Senhor é a minha porção"; quando te tentarem com riquezas, responde: "o Senhor é a minha porção"; quando te tentarem com promoções, responde: "o Senhor é a minha porção"; e quando te tentarem com o favor dos poderosos, responde: "o Senhor é a minha porção"; sim, e quando este mundo perseguidor te ameaçar com a perda dos teus bens, responde: "o Senhor é a minha porção"; e quando te ameaçarem com a perda da tua liberdade, responde: "o Senhor é a minha porção"; e quando te ameaçarem com a perda de amigos, responde: "o Senhor é a minha porção"; e quando te ameaçarem com a perda da vida, responde: "o Senhor é a minha porção."
Ó senhor, se Satanás viesse a ti com uma maçã, como uma vez fez com Eva, diga-lhe que "o Senhor é a sua porção"; ou com um cacho de uvas, como uma vez fez com Noé, diga-lhe que "o Senhor é a sua porção"; ou com uma muda de roupa, como uma vez fez com Geazi, diga-lhe que "o Senhor é a sua porção"; ou com uma cunha de ouro, como uma vez fez com Acã, diga-lhe que "o Senhor é a sua porção"; ou com uma bolsa de dinheiro, como uma vez fez com Judas, diga-lhe que "o Senhor é a sua porção"; ou com uma coroa, um reino, como uma vez fez com Moisés, diga-lhe que "o Senhor é a sua porção." — Thomas Brooks.
Tu és a minha porção, ó Senhor. Deus é totalmente suficiente; obtenha-o como sua "porção", e você terá tudo: terá sabedoria infinita para dirigi-lo, conhecimento infinito para ensiná-lo, misericórdia infinita para compadecer-se e salvá-lo, amor infinito para cuidar e consolá-lo, e poder infinito para protegê-lo e guardá-lo.
Se Deus é seu, todos os seus atributos são seus; todas as suas criaturas, todas as suas obras de providência, lhe farão bem, conforme a sua necessidade delas. Ele é uma porção eterna, plena e satisfatória. Ele é um amigo sempre vivo, sempre amoroso, sempre presente; e sem ele você é uma criatura amaldiçoada em toda condição, e todas as coisas trabalharão contra você. — John Mason, 1694.
Tu és a minha porção, ó Senhor. Se houve um momento na vida de Davi em que se poderia sentir vontade de invejá-lo, não seria naquele auge da vitória juvenil, quando Golias jazia prostrado a seus pés; nem naquela hora de triunfo ainda maior, quando as donzelas de Israel cantavam seus louvores na dança, dizendo: "Saul feriu os seus milhares, e Davi os seus dez milhares"; não seria naquele dia régio, em que sua reivindicação indisputada ao trono de Israel foi reconhecida por todos os lados e por toda tribo;
mas seria naquele momento em que, com um coração amoroso e confiante, ele olhou para Deus e disse: "Tu és a minha porção." Num salmo posterior (142), que traz como título "Uma oração de Davi, quando estava na caverna", temos a mesmíssima expressão: "Eu disse: Tu és o meu refúgio e a minha porção na terra dos viventes."
Isso acrescenta imensuravelmente a tal expressão, se cremos que foi proferida num momento em que toda outra posse e herança lhe fora tirada, e o Senhor sozinho era a sua porção. — Barton Bouchier.
É um sujeito extremamente ganancioso aquele para quem Deus não basta; e é um tolo extremo aquele para quem o mundo basta. Pois Deus é um tesouro inesgotável de todas as riquezas, suficiente para inúmeros homens; enquanto o mundo tem apenas ninharias e fascinações a oferecer, e conduz a alma a uma pobreza profunda e triste. — Thomas Le Blanc.
Os que não têm um patrimônio abundante nesta vida podem constituir para si uma porção na bem-aventurança celestial. — Solomon Gessler.
Eu disse que guardaria as tuas palavras. Ele traz isso como forma de provar o que dissera nas palavras anteriores. Muitos dirão, com Davi, que Deus é a sua porção; mas aqui está o ponto: como o provam? Se Deus fosse a sua porção, eles o amariam; se o amassem, amariam a sua palavra; se amassem a sua palavra, viveriam por ela e a fariam a regra da sua vida. — William Cowper.
Eu disse que guardaria as tuas palavras. Ele estava resolvido a guardar os seus mandamentos, entesourar as suas promessas, observar as suas ordenanças, professar e reter a crença nas suas doutrinas. — John Gill.
Versículo 58Salmo 119:58
Implorei o teu favor, ou: "busco a tua face." Buscar a face é entrar na presença. Assim falam os hebreus quando desejam expressar aquele trato familiar ao qual Deus admite o seu povo, quando os convida a dar a conhecer os seus pedidos. É verdadeiramente o mesmo que falar face a face com Deus. — Franciscus Vatablus, 1545.
Implorei o teu favor de todo o coração. Tenho notado muitas vezes com quanta graça e amor o Senhor se compraz em responder à oração com as mesmíssimas palavras que subiram diante dele, como que para nos assegurar que chegaram aos seus ouvidos, e foram enviadas de volta, carregadas de acréscimo. "Implorei o teu favor de todo o coração." Ouça a resposta do Senhor ao seu povo orante: "Certamente me regozijarei sobre eles, para lhes fazer bem, de todo o meu coração e de toda a minha alma." — Barton Bouchier.
De todo o coração. O hebraico exprime grande ardor e humildade na súplica. — A. R. Fausset.
De todo o coração. A oração é, sobretudo, obra do coração. Deus ouve o coração sem a boca, mas nunca ouve a boca de modo aceitável sem o coração. — Walter Marshall.
Tem misericórdia de mim, etc. Ele já havia declarado que buscava o Senhor de todo o coração, e agora ora para que encontre misericórdia. E assim será de fato: ousadamente pode esperar misericórdia da mão de Deus aquele que verdadeiramente o busca. A misericórdia e a verdade costumam encontrar-se e abraçar-se; onde há verdade na alma para buscar, não pode deixar de haver misericórdia em Deus para abraçar. Se há em nós verdade para confessar os nossos pecados e abandoná-los, encontraremos em Deus misericórdia para perdoá-los. — William Cowper.
Segundo a tua palavra. Ele não ora pelo que cobiça, mas pelo que o Senhor prometeu; pois São Tiago diz: "pedis e não recebeis", etc., e esta é a causa: não recebemos o que pedimos, porque não pedimos segundo a palavra. A palavra de Deus deve ser a regra das nossas orações, e então receberemos, como Salomão orou e obteve. Deus prometeu o perdão dos pecados, o conhecimento da sua palavra, e muitas outras bênçãos. Se as temos, que os nossos corações não se apeguem a outras coisas. — Richard Greenham.
Segundo a tua palavra. A palavra de Deus pode ser dividida em três partes: mandamentos, ameaças e promessas; e, embora o cristão não deva negligenciar a palavra que ordena e a que ameaça, se quiser fazer da palavra um canal de consolo divino, deve estudar a palavra que promete; pois as promessas são a magna carta do cristão para o céu.
Todo consolo deve edificar-se sobre uma promessa da Escritura; do contrário, é presunção, não verdadeiro consolo. As promessas são pabulum fidei, et anima fidei — o alimento da fé, e a alma da fé. Assim como a fé é a vida do cristão, as promessas são a vida da fé: a fé é fé morta se não tem promessa que a vivifique. Assim como as promessas de nada servem sem a fé para aplicá-las, também a fé de nada serve sem uma promessa à qual se apegar. — Edmund Calamy.
A regra e o fundamento da confiança é "segundo a tua palavra." A palavra de Deus é a regra da nossa confiança, pois nela está o modo estabelecido de Deus. Se quisermos favor e misericórdia de Deus, deve ser conforme os seus próprios termos.
Deus nos aceitará em Cristo se nos arrependermos, crermos, obedecermos e buscarmos diligentemente o seu favor: ele não negará a quem busca, pede, bate. Muitos gostariam de ter misericórdia, mas não querem observar a orientação de Deus. Devemos pedir segundo a vontade de Deus, não sem uma promessa, nem contra um mandamento. Deus se torna devedor voluntário por sua própria promessa.
Estes são apoios notáveis para a fé: sermos encorajados a buscar pela oferta, e impelidos a aplicar pela promessa. Não progredimos mais num senso confortável do amor de Deus porque não seguimos esse caminho. — Thomas Manton.
Versículo 59Salmo 119:59
Considerei os meus caminhos, e voltei os meus pés para os teus testemunhos. A transição que se faz no texto, da ocasião desta mudança — "considerei os meus caminhos" — para a própria mudança, é muito elevada e elegante. Ele não nos diz que, depois de os examinar, viu a loucura e o perigo do pecado, a vileza dos seus prazeres e o veneno dos seus deleites; nem que, ao pesquisar a lei de Deus, se convenceu de que o que antes lhe parecia tão severo, rígido e assustador, agora era todo amável e adorável; não, mas acrescenta imediatamente: "voltei os meus pés para os teus testemunhos" — do que não consigo conceber nada mais nobre ou forte, pois diz enfaticamente que não havia necessidade de expressar a aparência que seus caminhos tinham assim que ele pensou neles.
O que devia ser a consequência de sua deliberação era tão claro: que o pecado nunca prevalece senão onde é mascarado com belezas falsas, e o pecador insensato e tolo dá crédulo ouvido aos seus encantos, e não se dá ao trabalho e ao cuidado de examiná-los; pois uma busca profunda e minuciosa logo descobriria que suas aparências mais belas não passam de vaidades mentirosas, e que quem se deixa cativar por essa exibição vazia está na mesma situação de alguém sonhando, que só consegue agradar-se com sua fantasia enquanto dorme, e que despertar dela não descobre o engano mais cedo nem com mais certeza do que uma reflexão séria sobre os caminhos da iniquidade e da rebelião contra Deus manifestará a loucura fatal dos homens que sempre os perseguem. — William Dunlop, 1692-1720.
Considerei os meus caminhos, e voltei os meus pés para os teus testemunhos. Alguns traduzem o original: "Olhei para os dois lados dos meus caminhos, considerei-os por todos os ângulos, e voltei os meus pés para os teus testemunhos." Considerei que andava errante como uma ovelha perdida, e então retornei. — George Swinnock.
Considerei os meus caminhos, etc. A palavra hebraica aqui usada para "pensar" significa refletir sobre os próprios caminhos com exatidão, prudência, seriedade, estudo e cuidado minucioso. Este santo homem de Deus refletiu exata e minuciosamente sobre todos os seus propósitos e práticas, sobre todos os seus atos e palavras, sobre todas as suas obras, e, encontrando muitos deles aquém da regra — sim, até contra a regra —, voltou os seus pés para os testemunhos de Deus; tendo descoberto os seus erros mediante busca diligente e escrutínio rigoroso, virou a página e ajustou o seu caminho com mais exatidão à regra.
Ó cristãos, vocês devem atentar tanto para as suas carências espirituais quanto para os seus deleites espirituais; devem atentar tanto para os seus gastos quanto para as suas economias; devem olhar tanto para frente, para o que deveriam ser, quanto para trás, para o que são. Certamente aquele cristão jamais será eminente em santidade que tem muitos olhos para ver um pouco de santidade, e nenhum olho para ver sua falta contínua de santidade. — Thomas Brooks.
Considerei os meus caminhos. A palavra indica um pensamento fixo e permanente. Alguns fazem disso uma alusão aos que bordam, que são muito exatos e cuidadosos para cobrir a menor falha; ou aos que fazem contas. Ajustem contas consigo mesmos: o que devo? quanto valho? "Considerei" não somente as minhas riquezas, como o homem cobiçoso (Salmos 69:11), mas "os meus caminhos" — não o que tenho, mas o que faço; porque o que fazemos nos seguirá para o outro mundo, quando o que temos terá de ficar para trás.
Muitos são bastante críticos em suas observações sobre os caminhos alheios, mas nunca pensam nos seus próprios; contudo, "cada um prove a sua própria obra."
Este relato que Davi aqui dá de si mesmo pode referir-se tanto à sua prática constante, dia a dia — ele refletia sobre os seus caminhos à noite, dirigia os seus pés aos testemunhos de Deus pela manhã, e o que a sua mão encontrava para fazer de bom, ele o fazia sem demora — quanto ao seu primeiro contato com Deus e com a religião, quando começou a lançar fora a vaidade da infância e da juventude, e a lembrar-se do seu Criador; aquela mudança abençoada foi assim operada pela graça de Deus.
Note: 1. A conversão começa em uma reflexão séria (Ezequiel 18:28; Lucas 15:17). 2. A reflexão deve terminar numa conversão sólida. De que adianta termos considerado os nossos caminhos, se não voltarmos os nossos pés, com toda a pressa, para os testemunhos de Deus? — Matthew Henry.
Considerei os meus caminhos. Seja frequente nesse trabalho de reflexão séria. Se diariamente vocês se chamassem a prestar contas, todos os atos de graça prosperariam melhor. Sêneca perguntava a Sêxtio: Quod hodie malum sanasti? cui vitio obstitisti? ("Que mal teu curaste hoje? A que vício resististe?"). Vocês têm o exemplo de Deus, ao revisar a obra de cada dia, e ao tratar com Adão antes que ele dormisse. O homem que estava impuro devia lavar as suas vestes à tardinha. — Thomas Manton.
Considerei os meus caminhos, etc. Venenos podem tornar-se curáveis. Que os pensamentos dos pecados antigos despertem uma comoção de ira e ódio. Estremecemos em nosso espírito, e há um movimento em nosso sangue, ao simples pensamento de uma poção amarga que já tomamos. Por que não poderíamos fazer espiritualmente o que a própria estrutura e constituição do nosso corpo faz naturalmente, ao trazer à mente algo repugnante?
Os pecados dos romanos foram passageiros, mas a vergonha se renovava cada vez que refletiam sobre eles: "daquilo de que agora vos envergonhais" (Romanos 6:21). Reagiam com detestação, em vez de prazer: assim também deveria ser recebida a lembrança de pecados antigos em nossa memória — com suspiros, e não com alegria.
Devemos também aproveitar a ocasião, de modo a promover novos graus de nossa conversão: "considerei os meus caminhos, e voltei os meus pés para os teus testemunhos." Não há impulso, por mais infernal que seja, do qual não possamos tirar algumas centelhas para acender o nosso amor a Deus, renovar o nosso arrependimento, elevar a nossa gratidão, ou avivar a nossa obediência. — Stephen Charnock.
E voltei os meus pés para os teus testemunhos. Ao mencionar esta passagem, Philip Henry observou que a grande virada a ser feita no coração e na vida é: de todas as outras coisas, para a palavra de Deus. A conversão nos volta para a palavra de Deus: como nossa pedra de toque, para examinarmos a nós mesmos, o nosso estado, os nossos caminhos, espíritos, doutrinas, cultos, costumes; como nosso espelho, para nos ajeitarmos (Tiago 1:1-27); como nossa regra, para andarmos e trabalharmos (Gálatas 6:16); como nossa água, para nos lavar (Salmos 119:9); como nosso fogo, para nos aquecer (Lucas 24:32); como nosso alimento, para nos nutrir (Jó 23:12); como nossa espada, para combater (Efésios 6:13-17); como nosso conselheiro, em todas as nossas dúvidas (Salmos 119:24); como nosso cordial, para nos consolar; como nossa herança, para nos enriquecer.
E voltei os meus pés para os teus testemunhos. Nenhum roteiro para a cidade celestial é mais simples ou mais completo do que a resposta pronta que um prelado inglês deu a um zombador que lhe perguntou o caminho do céu: "Primeiro vire à direita, e depois siga sempre em frente." — Neale e Littledale.
E voltei. Volte-se para Deus, e ele se voltará para você; então você será feliz, ainda que o mundo inteiro se volte contra você. — John Mason.
Versículo 60Salmo 119:60
Apressei-me, e não retardei, etc. O dever descoberto deve ser cumprido instantaneamente. Há perigo em cada passo dado na indulgência de qualquer pecado conhecido, ou na negligência de qualquer obrigação reconhecida. Uma consciência sensível não brincará com suas convicções, para que o coração não se endureça pela sedução enganosa do pecado.
É perigoso, é irracional, é altamente criminoso hesitar em pôr em prática a reforma que a consciência dita. Aquele que se demora quando o dever chama pode nunca mais ter em seu poder demonstrar a sinceridade do seu arrependimento pela loucura e negligência passadas. "Apressei-me", diz o salmista, "e não retardei a guardar os teus mandamentos"; isto é, plenamente convencido da necessidade e excelência da obediência, resolvi-me instantaneamente, e imediatamente o executei. — John Morison.
Apressei-me, e não retardei, a guardar os teus mandamentos. Ouvimos com frequência o dito: "os segundos pensamentos são os melhores." Isso não vale para a vida religiosa. No contexto, o salmista diz: "considerei os meus caminhos, e voltei os meus pés para os teus testemunhos", isto é, não esperei para pensar de novo. Na religião, pode ser um hábito mortal tomar tempo para refletir demais. Apresse-se. — Henry Melvill.
Apressei-me, e não retardei. Quando alguém é legitimamente chamado, seja ao estudo da teologia, seja a ensiná-la na igreja, não deve hesitar, como Moisés, nem se afastar, como Jonas; mas, deixando tudo, deve obedecer a Deus que o chama; como diz Davi: "apressei-me, e não retardei" (Mateus 4:20; Lucas 9:62). — Solomon Gesner.
Apressei-me, e não retardei. A fé sã não é suspeitosa, nem curiosa; ela crê no que Deus diz, sem ver, sem examinar. Pois, sendo impossível a Deus mentir (como poderia a verdade mentir?), convém que a sua palavra seja aceita por si mesma. Não deve ser examinada com "comos" e "porquês". O que o salmista diz sobre observar a lei, isso deve o cristão dizer sobre receber o evangelho.
Lo hithmahmahti, "não retardei", diz Davi; não disputei com Deus. A palavra é muito elegante na língua original, derivada em hebraico do pronome mah, que significa "o quê". A fé não argumenta com Deus, não pergunta "quês", "porquês" ou "comos": não levanta questões. Ela cede assentimento mansamente, e humildemente diz "amém" a cada palavra de Deus. Esta é a fé de que o nosso Salvador se admirou na história do centurião. — Richard Clerke, 1634.
Apressei-me, e não retardei. A palavra original, que traduzimos por "não retardei", é surpreendentemente enfática: velo hithmahmahti. Eu não fiquei "que-que-ando", ou, como costumamos exprimir o mesmo sentimento, hesitando comigo mesmo: eu estava decidido, e por isso parti. A palavra hebraica, assim como a portuguesa, marca fortemente a indecisão da mente, com a ação positiva suspensa, porque a mente está tão indecisa que não consegue fazer uma escolha. — Adam Clarke.
Cuidado com as demoras e a procrastinação, com adiar de dia em dia, dizendo que haverá tempo suficiente depois; que será tempo suficiente para cuidar do céu quando eu já tiver aproveitado bastante do mundo; que, se eu o fizer no último ano da minha vida, no último mês do último ano, na última semana do último mês, isso bastará.
Ó, cuidado com as demoras; esse adiar o arrependimento arruinou milhares de almas; fuja daquela cova em que muitos caíram, fuja daquele rochedo em que muitos naufragaram; diga com Davi: "apressei-me, e não retardei, a guardar os teus mandamentos." — James Nalton, 1664.
Apressei-me, e não retardei, etc. No versículo imediatamente anterior, o homem de Deus fala do arrependimento como fruto da reflexão e do autoexame: "considerei os meus caminhos, e voltei os meus pés para os teus testemunhos." Mas quando ele se voltou? Pois, embora vejamos o mal dos nossos caminhos, somos naturalmente lentos para corrigi-lo. Por isso Davi não só se voltou para Deus, mas o fez com rapidez: temos o relato disso neste versículo, "apressei-me", etc.
Essa prontidão na obra da obediência é expressa em dobro: afirmativa e negativamente. Afirmativamente: "apressei-me"; negativamente: "não retardei." Essa dupla expressão intensifica o sentido, à maneira dos hebreus; como em "não morrerei, mas viverei" (Salmos 118:17), isto é, certamente viverei; assim também aqui: "apressei-me, e não retardei", isto é, verdadeiramente não me demorei nem um momento; assim que pensou em seus caminhos, e tomou a resolução de andar de perto com Deus, ele o pôs em prática.
A Septuaginta lê as palavras assim: "estava pronto, e não fui perturbado nem desviado pelo medo do perigo." De fato, além da nossa lentidão natural para o bem, este é um motivo comum de demoras: distraímo-nos com medos; e, quando Deus nos revelou a sua vontade em muitos deveres, pensamos em esperar até que os tempos estejam mais tranquilos e favoráveis à nossa prática, ou até que os nossos assuntos estejam em melhor situação. Um bom proveito pode ser tirado dessa tradução; mas as palavras soam melhor, como soam mais geralmente entre nós: "apressei-me, e não retardei", etc.
Davi não retardou. Quando não ousamos negar abertamente, então adiamos. Non vacat — "não tenho tempo livre" — é a desculpa do pecador; mas Non placet — "não me agrada" — é a realidade. Os que foram convidados para o casamento disfarçaram sua recusa com uma desculpa (Mateus 22:5). Adiar é recusar; pois, se estivessem dispostos, não haveria desculpa.
Para nos livrarmos de credores importunos e incômodos, prometemos pagar-lhes outra hora; embora saibamos que a nossa situação estará mais desfeita até lá, é só para adiá-los: assim também essa demora e esse adiar a Deus não passa de um subterfúgio. Aqui está a desgraça: Deus sempre chega em má hora para um coração carnal. Foram os demônios que disseram: "Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?" (Mateus 8:29). As coisas boas são um tormento para o coração carnal, e sempre chegam fora de hora. Certamente, o melhor tempo é quando a palavra é pressionada sobre o teu coração com evidência, luz e poder, e quando Deus trata contigo sobre a tua paz eterna. — Thomas Manton.
Retardei. Hithmahmah; a palavra usada para a demora de Ló, em Gênesis 19:16. — William Kay.
A demora nos recados do Senhor está próxima da desobediência, e geralmente nasce dela, ou nela desemboca. "Deus me ordenou que me apressasse" (2 Crônicas 35:21). Cuidemos para que possamos dizer: "apressei-me, e não retardei, a guardar os teus mandamentos." — Frances Ridley Havergal.
Evite toda demora na realização desta grande obra de crer em Cristo. Enquanto não a realizarmos, continuaremos sob o poder do pecado e de Satanás, e sob a ira de Deus; e nada há entre o inferno e nós além do fôlego das nossas narinas.
É perigoso para Ló demorar-se em Sodoma, para que fogo e enxofre não caiam do céu sobre ele. O homicida deve fugir com toda a pressa para a cidade de refúgio, para que o vingador do sangue não o persiga, enquanto seu coração está quente, e o mate. Devemos apressar-nos, e não retardar, a guardar os mandamentos de Deus. — Walter Marshall.
Se as convicções começam a agir, ceda instantaneamente à sua influência. Se algum desejo mundano ou pecaminoso é tocado, que este seja o momento da sua crucificação. Se algum afeto se acende em direção ao Salvador, dê expressão imediata à sua voz. Se alguma graça está reavivando, que ela seja chamada a um dever instantâneo.
Este é o melhor, o único, expediente para fixar e reter o movimento do Espírito que agora luta no coração; e quem sabe se aproveitar a vantagem presente não seja o momento da vitória sobre dificuldades até então tidas por insuperáveis, e possa abrir o nosso caminho para o céu com menos interrupção e progresso mais constante? — Charles Bridges.
Versículo 61Salmo 119:61
As cordas dos ímpios me cercaram. Restam duas leituras, qualquer uma das quais pode ser aceita: "As cordas dos ímpios se apoderaram de mim", ou "As companhias dos ímpios me roubaram." Quer adotemos uma quer outra dessas leituras, o que o profeta pretende declarar é que, quando Satanás atacou os princípios da piedade em sua alma com tentações graves, ele continuou com firmeza inabalável no amor e na prática da lei de Deus.
As "cordas", porém, podem ser entendidas de duas formas: ou, primeiro, como os atrativos enganosos com que os ímpios procuravam enredá-lo em sua companhia; ou, segundo, as fraudes que praticavam para lhe causar a ruína. — John Calvin.
As cordas dos ímpios me cercaram. Alguns trazem: "as cordas dos ímpios se entrelaçaram em mim." Outros: "as armadilhas dos ímpios me cercam." O sentido é que os ímpios, com seus planos e artimanhas, o haviam cercado, como se cerca um animal selvagem em uma armadilha. Podiam, de fato, rodeá-lo no deserto, mas não podiam escravizar a mente livre; ele ainda se sentiria livre em espírito, e não se esqueceria da lei de Deus. — John Stephen.
As cordas dos ímpios me cercaram. Eles atacaram os seus bens, e o despojaram deles, seja por pilhagem em tempo de guerra, seja por multas e confiscos sob a aparência da lei. Saul, provavelmente, se apoderou dos seus bens; Absalão, do seu palácio; os amalequitas saquearam Ziclague. — Matthew Henry.
A amizade dos ímpios deve ser evitada. Primeiro, porque nos ata, assim como eles estão atados uns aos outros: "as cordas dos ímpios." Todo pecador é um gladiador com rede e espada, descendo à arena, procurando enredar quem quer que dele se aproxime.
Uma segunda razão para evitar a amizade dos ímpios, que pode ser tirada da palavra hebraica, é a crueldade e a barbárie deles: pois os ímpios não apenas atam os seus amigos, mas fazem deles despojo e presa: "me roubaram." São ladrões que atraem, viajando com um viajante desavisado, até o conduzirem a bosques espessos e escuros, onde o despojam das riquezas celestiais. — Thomas Le Blanc.
As cordas dos ímpios me cercaram. Então disse o Cristão ao seu companheiro: "Agora me lembro do que me contaram, de uma coisa que aconteceu a um homem bom por aqui. O nome do homem era Pouca-Fé, mas era homem bom, e morava na cidade de Sincero.
A coisa foi assim: na entrada desta passagem desce, do portão da Estrada Larga, uma vereda chamada Beco do Homem Morto — assim chamada por causa dos assassinatos que ali costumam ocorrer. E esse Pouca-Fé, seguindo em peregrinação, como nós agora, calhou de sentar-se ali e adormecer.
Ora, aconteceu, naquela hora, descerem por aquela vereda, vindos do portão da Estrada Larga, três vigaristas robustos, cujos nomes eram Coração-Covarde, Desconfiança e Culpa (três irmãos), e, avistando Pouca-Fé onde estava, vieram a galope, com pressa.
O homem bom acabara de acordar do sono, e estava se levantando para prosseguir a sua jornada. Então todos chegaram até ele, e, com linguagem ameaçadora, mandaram-no parar. Diante disso, Pouca-Fé ficou branco como uma nuvem, e não tinha força nem para lutar nem para fugir.
Então disse Coração-Covarde: 'Entregue a sua bolsa'; mas ele não se apressou em fazê-lo (pois relutava em perder o seu dinheiro), e Desconfiança correu até ele, e, enfiando a mão em seu bolso, tirou dali uma bolsa de prata. Então ele gritou: 'Ladrões! Ladrões!' Com isso, Culpa, com um grande porrete que tinha na mão, golpeou Pouca-Fé na cabeça, e com aquele golpe o derrubou por terra, onde ficou sangrando como quem sangraria até a morte...
O lugar onde estavam as suas joias, eles nunca revistaram, de modo que ele as conservou; mas, segundo me contaram, o homem bom ficou muito aflito por sua perda. Pois os ladrões levaram a maior parte do seu dinheiro para gastos. O que não levaram (como disse) foram as joias; também lhe restou um pouco de dinheiro avulso, mas mal o suficiente para levá-lo ao fim da sua jornada; aliás (se não fui mal informado), foi forçado a mendigar pelo caminho, para se manter vivo (pois suas joias não podia vender). Mas, mendigando e fazendo o que podia, foi (como dizemos) com muita fome no ventre, na maior parte do resto do caminho." — John Bunyan.
Cordas. De qualquer forma que os ímpios se unam em bandos e companhias para se fortalecer num mau caminho, isso não lhes aproveitará, nem nos fará mal. Os construtores de Babel; Moabe, Amom, Edom, conspirando juntos, podem nos dizer: "ainda que mão se una a mão, os ímpios não escaparão sem castigo." Os ímpios são como espinhos diante do fogo: a multidão deles pode até animar a chama, mas não pode resisti-la. — William Cowper.
É uma reflexão salutar ter em mente que milhares de adversários espirituais estão sempre à espreita, para nos fazer sua presa. — John Morison.
Versículo 62Salmo 119:62
À meia-noite me levantarei para te dar graças. Embora não possamos exigir de vocês a observância particular disso, há muitas lições notáveis a tirar da prática de Davi.
- O ardor da sua devoção, ou o seu desejo sincero de louvar a Deus: "à meia-noite", quando o sono mais invade os olhos dos homens, ele se levantava. Seu coração estava tão voltado para o louvor de Deus, e o senso da justa providência divina o afetava, urgia e o incitava tanto a este dever, que não só se ocupava dessa obra durante o dia, mostrando assim o seu amor a Deus, mas também se levantava da cama para adorar a Deus e celebrar o seu louvor.
O que impede o sono dos homens comuns é ou as preocupações deste mundo, ou o ressentimento impaciente por injúrias, ou a picada de uma consciência má: essas coisas mantêm os outros acordados, mas Davi era despertado pelo desejo de louvar a Deus. Nenhuma hora é inoportuna para um coração cheio de graça: ele expressa o seu afeto a Deus quando outros descansam.
Assim lemos do nosso Senhor Cristo, que passou noites inteiras em oração (Lucas 6:12). Diz-se dos santos glorificados no céu que louvam a Deus continuamente: "por isso estão diante do trono de Deus, e o servem de dia e de noite no seu templo; e aquele que se assenta sobre o trono habitará entre eles" (Apocalipse 7:15). Ora, os homens santos, embora muito limitados pelas suas necessidades corporais, chegarão tão perto do louvor contínuo quanto a fraqueza presente permitir. Ai de nós, muitas vezes começamos o dia com algum fervor de oração e louvor, mas desfalecemos antes que a noite chegue.
- A sua sinceridade, vista em seu sigilo. Davi professava a sua fé em Deus quando não tinha testemunha alguma junto de si; "à meia-noite", quando não havia risco de ostentação. Era uma alegria secreta, um deleite em Deus: estando sozinho, não podia ter consideração pelo aplauso dos homens, mas apenas o desejo de agradar a Deus, que vê em segredo.
Veja a instrução de Cristo: "Mas tu, quando orares, entra no teu quarto, e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará abertamente" (Mateus 6:6). Note também a própria prática de Cristo: "levantando-se de madrugada, ainda escuro, saiu e foi a um lugar deserto, e ali orou" (Marcos 1:35): antes do dia, ele foi a um deserto orar; tanto o tempo quanto o lugar implicavam sigilo.
Daqui aprendemos a preciosidade do tempo: assim era para Davi; veja como ele gastava o tempo da sua vida. Lemos que Davi, ao deitar-se à noite, regava o seu leito com lágrimas, depois de examinar o próprio coração (Salmos 6:6); à meia-noite se levantava para dar graças; pela manhã se antecipava às vigílias da madrugada; e sete vezes ao dia louvava a Deus: consagrava a manhã, o meio-dia e a noite. Todos esses são atos de eminente piedade. Não devemos contentar-nos apenas com a graça que baste para nos salvar. Ai de nós, temos muito tempo ocioso em nossas mãos: se o déssemos a Deus, seria bom.
O valor dos exercícios piedosos, acima do nosso descanso natural. A palavra é mais doce que o alimento necessário: "estimei as palavras da sua boca mais do que o meu alimento necessário" (Jó 23:12). Davi prefere os louvores de Deus ao seu sono e descanso noturno. Certamente isso deveria envergonhar-nos por nossa sensualidade. Somos capazes de dispensar outras coisas por nossos prazeres vãos: já fizemos tanto pelo pecado, por diversões vãs, etc.; e não negaremos a nós mesmos por Deus?
A grande reverência a ser usada na adoração secreta. Davi não apenas elevava o espírito para louvar a Deus, mas se levantava da cama para dobrar-lhe o joelho. Os deveres secretos devem ser cumpridos com solenidade, não feitos de qualquer maneira. O louvor, ato especial de adoração, requer a adoração do corpo e da alma. — Thomas Manton.
À meia-noite me levantarei para te dar graças. Ele já louvara a Deus nos átrios da casa do Senhor, e, no entanto, o fará também em sua alcova. O culto público não nos isenta do culto secreto. — Matthew Henry.
À meia-noite me levantarei para te dar graças. Não estaria ele também pronto para louvar a Deus ao meio-dia? Certamente; mas diz "à meia-noite" para exprimir o ardor e o anseio da sua alma. Costumamos assegurar aos nossos amigos a nossa boa vontade dizendo que nos levantaríamos à meia-noite para tratar dos seus assuntos. — Wolfgang Musculus.
À meia-noite me levantarei para te dar graças, etc. Nestas palavras, observe três coisas: 1. A santa ocupação de Davi, ou o dever prometido: dar graças a Deus. 2. O seu ardor e fervor, implícitos na hora mencionada, "à meia-noite me levantarei"; ele preferia interromper o seu sono e descanso a deixar que Deus ficasse sem o seu louvor.
- A causa ou matéria da sua ação de graças: "por causa dos teus justos juízos"; com isso ele se refere às disposições da providência de Deus ao livrar os piedosos e castigar os ímpios, segundo a sua palavra. — Thomas Manton.
À meia-noite me levantarei para te dar graças. As preocupações deste mundo, a impaciência diante das injúrias, uma má consciência, mantêm os ímpios acordados e perturbam o seu sono (Rivetus); mas eu desperto para te dar graças. — A. R. Fausset.
Versículo 63Salmo 119:63
Sou companheiro, etc. Ele disse, no primeiro versículo desta seção, que Deus era a sua porção; agora diz que todos os santos de Deus são os seus companheiros. Estas duas coisas andam juntas: o amor a Deus e o amor aos seus santos. Quem não ama o seu irmão, feito à imagem de Deus, a quem vê, como amará a Deus, a quem não viu?
Visto que a nossa bondade não alcança o Senhor, se ela se mostra aos seus santos e excelentes na terra, por amor dele, isso não será pequeno argumento do nosso afeto amoroso por ele mesmo.
O piedoso Davi, quando Jônatas morreu, fez diligente busca: "Não há ninguém da posteridade de Jônatas a quem eu possa mostrar bondade, por amor de Jônatas?" E por fim encontrou um Mefibosete tolo e coxo. Assim, se buscarmos diligentemente: "não há ninguém na terra a quem eu possa mostrar bondade, por amor de Cristo, que está no céu?" Sempre encontraremos alguém, a quem tudo o que fizermos será aceito como feito a ele mesmo.
Deve-se notar a sua grande modéstia. Ele não diz "sou companheiro de todos os que te seguem", mas "de todos os que te temem". O temor de Deus é o princípio da sabedoria. Ele se coloca entre os iniciantes em humildade, embora superasse os antigos em piedade. — William Cowper.
Sou companheiro de todos os que te temem. Quão fraca é a natureza humana! De fato, há momentos em que a presença de alguém tão grande como o Todo-Poderoso se torna opressiva, e sentimos a necessidade de alguém semelhante a nós para se compadecer de nós. E, pelo caminho, foram providenciados para nós muitos amigos bondosos e compassivos, como Jesus. Ao passarmos adiante, recebemos os apoios humanos que o Senhor providenciou. Recebemo-los também para a comunhão. — John Stephen.
Sou companheiro de todos os que te temem. Aves da mesma plumagem se ajuntam. Servos do mesmo Senhor, se fiéis, se unirão com os seus companheiros, e não com os servos do seu inimigo. Quando um homem chega a uma estalagem, você pode adivinhar com boa certeza para que lugar ele vai, pela companhia que procura. A sua pergunta — "Você conhece alguém viajando rumo a Londres? Eu ficaria muito contente com a companhia deles" — revelará a sua intenção e o seu rumo.
Se ele souber de alguém rumo a outra costa, não lhes dá atenção; mas, se souber de algum passageiro honesto que vá pela mesma estrada, e parta para a mesma cidade que ele, manda chamá-lo, e pede o favor de sua boa companhia. Este mundo é uma estalagem; todos os homens são, em certo sentido, peregrinos e estrangeiros, não têm morada permanente aqui.
Ora, a companhia que procuram, e em que se comprazem — sejam os que andam no "caminho largo" da carne, sejam os que andam no "caminho estreito" do Espírito — revelará se estão indo para o céu ou para o inferno. Um homem ímpio não desejará a companhia dos que andam por caminho contrário, nem um santo terá prazer na sociedade dos que vão em direção oposta à sua jornada. "Podem dois andar juntos, se não estiverem de acordo?"
As perdizes jovens, chocadas sob uma galinha, andam por algum tempo com os seus pintinhos, e lhes fazem companhia, ciscando juntas na terra; mas, quando crescem, e suas asas se tornam próprias para voar, elevam-se ao ar, e buscam aves da sua própria natureza. O cristão, antes da sua conversão, é criado sob o príncipe das trevas, e anda em companhia do seu bando maldito, conforme o curso deste mundo; mas, quando o Espírito muda a sua disposição, ele logo muda os seus companheiros, e só tem prazer nos santos que estão na terra. — George Swinnock.
Sou companheiro de todos os que te temem. 1. A pessoa que fala. Deve-se notar a disparidade das pessoas. Davi, que era grande profeta, e até rei, ainda assim diz: "sou companheiro de todos os que te temem." O próprio Cristo os chamou de seus "companheiros": "o teu Deus te ungiu com óleo de alegria, mais do que a teus companheiros" (Salmos 45:7); e por isso Davi bem podia dizer: "sou companheiro."
- As pessoas de quem fala. Davi fala de "todos os que te temem." Deve-se notar a partícula universal: não apenas alguns, mas "todos"; quando quer que ele os encontrasse, ou eles a ele, eram bem-vindos. Como seria bom para o mundo se os grandes potentados da terra pensassem, falassem e agissem assim: "sou companheiro de todos os que te temem." O amor próprio reina na maioria dos homens: amamos os ricos e desprezamos os pobres, e assim professamos a fé do nosso Senhor Jesus Cristo fazendo acepção de pessoas (Tiago 2:1); por isso deve-se atentar para essa universalidade.
"Ouvindo da vossa fé... e do vosso amor para com todos os santos" (Efésios 1:15), tanto para com os humildes quanto para com os maiores. A condição humilde não anula as relações eclesiais (1 Coríntios 11:20). Há muitas diferenças em aspectos mundanos entre um cristão e outro; sim, mesmo nos dons espirituais, uns mais fracos, outros mais fortes; mas devemos amar a todos, pois todos são filhos de um só Pai, todos reconhecidos por Cristo: "não se envergonha de lhes chamar irmãos" (Hebreus 2:11).
Isto, digo eu, é digno de nota: a disparidade das pessoas — de um lado, Davi; do outro, todo o povo de Deus. — Thomas Manton.
Sou companheiro, etc.: como se dissesse: isto é para mim um sinal de que pertenço à tua família; porque "sou companheiro de todos os que te temem" com temor filial, e guardam "os teus preceitos." — Paulus Palanterius.
Um companheiro é, propriamente, aquele com quem escolho andar e conversar habitualmente, em espírito de amizade; de modo que "fazer companhia" implica três coisas: primeiro, é questão de escolha, e por isso os parentes, enquanto tais, não são propriamente chamados de nossos companheiros; segundo, implica um andar e conviver constante com outro, e assim se expressa (Jó 34:8; Provérbios 13:20); e, terceiro, esse convívio ou andar habitual com outro deve ser em espírito de amizade. — William Bridge, 1600-1670.
Evite a companhia que evita a Deus, e mantenha a companhia que Deus mantém. Veja a sociedade dos carnais ou profanos como contagiosa, mas considere as pessoas sérias e orantes como os excelentes da terra. Tais pessoas servirão para vivificá-lo quando estiver frio, e aquecê-lo quando estiver morno. Faça dos mais vivos entre o povo de Deus os seus maiores íntimos, e veja que o amor e a semelhança deles com Cristo sejam o grande motivo do seu amor por eles, mais do que o amor ou a semelhança deles para consigo. — John Willison, 1680-1750.
Versículo 64Salmo 119:64
A terra, ó Senhor, está cheia da tua misericórdia. O servo humilde e devotado de Deus não olha com olhos ressentidos para a cena por onde passa a caminho do seu lar eterno. Em meio a muitas tristezas e privações, frutos necessários do pecado, ele contempla toda a natureza e a providência resplandecendo na rica expressão da benignidade paterna e da misericórdia de Deus para com os filhos dos homens. — John Morison.
A terra, ó Senhor, está cheia da tua misericórdia. O mar de bronze fundido, os pães da proposição, o incenso aromático, a fumaça dos sacrifícios, o peitoral de Arão, a pregação da cruz, as chaves do reino dos céus — não proclamam todos eles a misericórdia? Quem poderia entrar num santuário, examinar a consciência, erguer os olhos ao céu, orar ou sacrificar, invocar a Deus, ou pensar na árvore da vida no meio do paraíso de Deus, se não houvesse misericórdia?
Não confirmam isso todas as visões, alianças, promessas, mensagens, mistérios, purificações legais, pacificação evangélica? Sim, a misericórdia está no ar que respiramos, na luz diária que brilha sobre nós, na chuva graciosa da herança de Deus; é a fonte pública para todos os sedentos, o hospital comum para todos os necessitados; todas as ruas da igreja estão pavimentadas com essas pedras.
O que seria dos filhos se não houvesse esses seios de consolo? Como se enfeitaria a noiva, a esposa do Cordeiro, se o seu noivo não a adornasse com essas vestes? Como pareceria o Éden semelhante ao Jardim de Deus, se não fosse regado por esses rios? É a misericórdia que nos tira do ventre, nos alimenta nos dias da nossa peregrinação, nos provê de mantimento espiritual, fecha os nossos olhos em paz, e nos transporta a um lugar seguro de descanso.
É a súplica do primeiro suplicante, e o artigo de fé do primeiro crente, a contemplação de Enoque, a confiança de Abraão, o tema dos Cânticos Proféticos, a glória de todos os apóstolos, o argumento do penitente, os êxtases do reconciliado, o hosana do crente, o aleluia do anjo. Ordenanças, oráculos, altares, púlpitos, os portões da sepultura e os portões do céu, tudo depende da misericórdia.
É a estrela-guia do errante, o resgate do cativo, o antídoto do tentado, o profeta dos vivos, e o consolo eficaz dos moribundos: não haveria um só santo regenerado na terra, nem um só santo glorificado no céu, se não fosse pela misericórdia. — De Illustrative Gatherings, de G. S. Bowes, 1869.
A terra, ó Senhor, está cheia da tua misericórdia.
Por que irrompe tal melodia da árvore e do arbusto,
o transbordar do coração de cada passarinho cantor,
enchendo de tal modo o meu que mal consegue calar-se
um instante para escutar, mas quer também tomar parte?
É apenas um cântico que ouço, aonde quer que eu vá,
ainda que sejam incontáveis as notas: que Deus é Amor.
Por que salta o riacho pela encosta da montanha,
apressando-se tão veloz rumo ao vale abaixo,
para alegrar o rebanho sedento do pastor, ou deslizar
onde o sol quente deixou uma grinalda murcha,
ou, ondulando, ajudar a música de um bosque?
A sua própria voz alegre responde: que Deus é Amor!
Será um mundo caído aquele que contemplo?
Estarei eu tão profundamente caído quanto os demais,
e, no entanto, participando de alegrias além do meu louvor mais alto,
em vez de vagar desamparado, sem bênção?
É como se um espírito invisível se esforçasse
para gravar em meu coração: que Deus é Amor! — Thomas Davis, 1864.
TET. No original, cada estrofe começa com "T", e em nossa própria versão isso ocorre em todos os versículos, exceto Salmos 119:67 e Salmos 119:70, que facilmente podem ser ajustados lendo-se: "até que fui afligido", e "bom me foi ter sido afligido." — C.H.S.
Versículo 65Salmo 119:65
Tu tens tratado bem o teu servo, Senhor.
Quem trata é o próprio Deus: todo bem deve ser atribuído a Deus como seu autor.
O benefício recebido é expresso de modo geral: "tu trataste bem." Alguns traduzem do hebraico: Bonum fecisti — "fizeste o bem com o teu servo"; a Septuaginta: chrēstotēta epoiēsas meta tou doulou sou (χρηστότητα ἐποίησας μετὰ τοῦ δούλου σου) — "fizeste bondade para com o teu servo"; e delas, a Vulgata: Bonitatem fecisti.
Alguns tomam esta cláusula de modo geral: "tudo o que fazes aos teus servos é bom": consideram-no assim, por mais contrário que seja aos interesses da carne: a doença é boa, a perda de amigos é boa; e assim também a pobreza e a perda de bens, para uma mente humilde e agradecida. Mas certamente Davi fala aqui de algum socorro e livramento em que Deus cumprira alguma promessa a ele.
Os rabinos judeus o entendem como referência ao seu retorno ao trono; mas a maioria dos escritores cristãos o entende como algum benefício espiritual — aquele bem que Deus lhe fizera. Se algo se pode deduzir dos versículos seguintes, foi certamente algum bem espiritual. A Septuaginta repete chrēstotēta duas vezes, neste e no versículo seguinte, como se ele reconhecesse o benefício daquele bom juízo e conhecimento cujo aumento ali pede. Já lhe fora dado em parte, e isso aprendido por meio de aflições, como vemos no terceiro versículo desta seção: "antes de ser afligido, eu me desviava, mas agora guardo a tua palavra." A sua oração é: agora, então, continua a aumentar esta obra, esta bondade que mostraste ao teu servo.
- O objeto: "teu servo": é um título honroso, reconfortante; Davi se deleitava nele. Deus é um Senhor generoso e gracioso, pronto para fazer o bem aos seus servos, recompensando-os com graça aqui, e coroando essa graça com glória depois: "aquele que se aproxima de Deus deve crer que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam diligentemente" (Hebreus 11:6). — Thomas Manton.
Tu tens tratado bem. Se os filhos de Deus soubessem o que é melhor para eles, perceberiam que Deus fez o que era melhor para eles. — John Mason.
Tu tens tratado bem o teu servo. Ele sabia que os dons de Deus são sem arrependimento, e que ele não se cansa de fazer o bem, mas concluirá a obra que começou; por isso ele invoca favores passados. Nada é mais eficaz para obter misericórdia do que apresentar a Deus as suas misericórdias anteriores.
Aqui há dois fundamentos: primeiro, se ele o tratou bem quando ainda não era regenerado, quanto mais o fará agora? E, segundo, todos os dons de Deus serão perfeitamente concluídos, por isso ele continuará a tratar bem o seu servo. Aqui está uma diferença entre a fé e uma consciência acusadora: a consciência acusadora teme pedir mais, porque abusou das misericórdias anteriores; mas a fé, assegurando-nos que todos os benefícios de Deus são sinais do seu amor, concedidos a nós segundo a sua palavra, ousa pedir mais. — Richard Greenham.
Tu tens tratado bem o teu servo. "Sem dúvida", disse o falecido Rev. J. Brown, de Haddington, Escócia. "Tive provações como os demais; mas Deus tem sido tão bondoso comigo que penso que, se me desse tantos anos quantos já vivi neste mundo, eu não desejaria mudar uma única circunstância do meu destino, exceto que gostaria de ter menos pecado. Poderiam escrever em meu caixão: 'Aqui jaz um dos cuidados da Providência, que cedo perdeu pai e mãe, e no entanto nunca sentiu falta deles.'" — Anedotas de Arvine.
Tu tens tratado bem o teu servo, ó Senhor, segundo a tua palavra. A expressão "segundo a tua palavra" se repete tantas vezes neste salmo que tendemos a passar por cima dela, ou a lhe dar apenas o sentido geral de "por causa da tua promessa." Mas, na realidade, ela implica muito mais.
Teria Deus tratado "bem" com Davi segundo a ideia humana? Se assim fosse, que significam expressões como estas: "ah, não me abandones de todo" (Salmos 119:8); "sou peregrino na terra" (Salmos 119:19); "a minha alma se apega ao pó" (Salmos 119:25); "a minha alma se derrete de tristeza" (Salmos 119:28); "desvia de mim a afronta que temo" (Salmos 119:39); "os soberbos me têm em grande zombaria" (Salmos 119:51); "horror se apoderou de mim" (Salmos 119:53)?
Diante de passagens como estas, pode-se dizer que Deus "tratou bem" com Davi, segundo a ideia humana? A experiência de Davi foi de provações muito grandes e muito variadas. Não há fase alguma dos nossos sentimentos na tristeza que não encontre ampla expressão em seus salmos. E, no entanto, ele diz: "tu tens tratado bem o teu servo, segundo a tua palavra."
Como, então, devemos interpretar essa expressão, tantas vezes repetida aqui, em harmonia com os fatos da vida espiritual de Davi?
Deus tratou bem com ele "segundo a sua palavra", no sentido de tratar com ele conforme o que a sua palavra explicava ser o verdadeiro bem — não o livrando de toda provação, mas enviando-lhe exatamente a provação de que ele precisava. Ele sentia verdadeiramente que Deus o tratara bem quando pôde dizer (Salmos 119:67): "antes de ser afligido, eu me desviava, mas agora guardo a tua palavra." E ainda (Salmos 119:71): "bom me foi ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos." Tal trato era duro de suportar para a carne e o sangue, mas era de fato "bom", no sentido de alcançar os resultados mais abençoados.
Era "segundo a sua palavra" também, no sentido de estar de acordo com a sua maneira revelada de tratar o seu povo, que é castigado para o seu próprio proveito.
E mais: Deus tinha "tratado bem" com Davi segundo a sua palavra ou aliança; o cumprimento presente (ainda que amargo em si mesmo) sendo um penhor seguro do seu aperfeiçoamento final da obra, e de glorificar-se a si mesmo no pleno cumprimento da sua palavra, na salvação completa do seu servo.
Segundo a tua palavra, ó Senhor, tu tens tratado bem o teu servo. A tua palavra é a luz e a lâmpada que mostra as coisas no seu verdadeiro aspecto, e nos ensina a saber que todas as coisas cooperam para o bem do teu povo; que tu fazes todas as coisas bem. "Abre os meus olhos, Senhor, para que eu veja maravilhas na tua lei." O que pode ser mais maravilhoso do que essas visões para os nossos olhos?
"Segundo a tua palavra": não apenas "por causa da tua promessa", mas na forma e medida que a tua palavra declara. Veja como esse entendimento da expressão amplia a ideia de "tem misericórdia de mim, segundo a tua palavra" (Salmos 119:58). Todas as doces promessas e declarações da infinita misericórdia de Deus se erguem diante de nós, e fazem disso um pedido imenso.
De novo: "vivifica-me", e "fortalece-me, segundo a tua palavra" — até a medida plena do que prometeste e provestes para o teu povo. Veja a plenitude nesta visão de Salmos 119:76: "seja, rogo-te, a tua benignidade o meu consolo, segundo a tua palavra." E ainda, Salmos 119:169: "dá-me entendimento segundo a tua palavra"; Salmos 119:170: "livra-me segundo a tua palavra." Em cada uma dessas, somos levados a sentir que o pedido inclui o pensamento de tudo o que a palavra ensina sobre o assunto.
Que a nossa oração por misericórdia, força, consolo, entendimento e livramento seja sempre uma oração por essas coisas na medida plena em que são reveladas e prometidas na palavra de Deus. — Mary B.M. Duncan (1825-1865), em Under the Shadow.
Versículo 66Salmo 119:66
Ensina-me bom juízo, etc. Davi, que descobriu um gosto sagrado (Salmos 19:10; 104:34; 119:103) e o recomendou a outros (Salmos 34:8), pede em nosso texto que esse gosto aumente. Pois a palavra traduzida por "juízo" significa propriamente "gosto", e denota aquele deleite pela verdade divina, e pela bondade e santidade divinas, que é peculiar aos verdadeiros santos.
Proponho, portanto, considerar a natureza e os objetos desse gosto espiritual, que todo santo cheio de graça possui, e que todos os verdadeiros santos desejam possuir em grau ainda maior.
A palavra original, frequentemente aplicada aos objetos dos sentidos que se distinguem pelo paladar, é usada aqui em sentido metafórico, como o termo correspondente é usado com frequência em nossa própria língua. "Não experimenta o ouvido as palavras, e o paladar, a comida?" (Jó 12:11). Nossos tradutores, nesta passagem, o traduzem por "juízo", que é quase a mesma coisa; mas, como os termos são usados entre nós, há uma diferença entre eles. O gosto é aquilo que capacita o homem a formar um juízo mais rápido. O juízo é mais lento em suas operações; forma as suas decisões de maneira mais indireta.
Assim aplicamos o termo "gosto" a muitos objetos de decisão mental — à beleza de um poema, à excelência do estilo, à elegância do vestir ou do comportamento, à pintura, à música, etc. —, nos quais um bom gosto levará quem o possui a decidir rapidamente, e ainda assim com precisão, sobre a beleza, a excelência e a propriedade dos objetos com que já teve longo trato, sem exame trabalhoso.
Assim mesmo, os verdadeiros santos têm o poder de receber prazer da beleza da santidade, que resplandece na palavra de Deus, no caráter divino, na lei, no evangelho, na cruz de Cristo, no exemplo de Cristo, e na conduta de todos os seus verdadeiros seguidores, na medida em que se conformam à sua bela imagem.
Não quero dizer com isso que sejam movidos por um instinto cego, para o qual não podem apresentar razão suficiente: os sentimentos genuínos de um verdadeiro cristão podem todos ser justificados pela razão mais sólida; mas esses sentimentos, produzidos primeiro pela graça renovadora, são de tal modo fortalecidos pela comunhão diária com Deus, e pela contemplação frequente das coisas espirituais, que adquirem uma delicadeza e prontidão de percepção que ninguém pode possuir sem ter provado quão bondoso é o Senhor.
Não se pode, por assim dizer, tocar em certa corda sem que o coração renovado responda a ela. Tudo o que verdadeiramente tende a exaltar a Deus, a aproximar a alma dele, e a assegurar que ele seja glorificado e desfrutado, atrairá naturalmente a atenção, despertará os afetos, e influenciará a conduta de quem é nascido de Deus. "Mais doce também que o mel e o favo de mel." "A minha meditação a teu respeito será doce." "Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! mais que o mel à minha boca." "Provai e vede que o Senhor é bom." — John Ryland, 1753-1825.
Ensina-me bom juízo e conhecimento, etc. Literalmente poderia traduzir-se assim: "ensina-me bondade, discernimento e conhecimento; pois cri, ou confiei, nos teus mandamentos." Em nosso sistema das coisas divinas, poderíamos ser levados a colocar o conhecimento e o discernimento em primeiro lugar, como geradores da "bondade." Mas é fato bem estabelecido que as faculdades intelectuais e morais são recíprocas — que a moral também dá força ao intelecto.
Além disso, só o homem espiritual discerne as coisas de Deus. O estado de estar espiritualmente atento, e também familiarizado com as coisas divinas, dá ao próprio intelecto um vigor e uma amplitude que se manifestam notavelmente na vida dos homens eminentes. E, se você observar que alguns foram eminentes sem possuir qualidades espirituais, a resposta poderia ser: quanto mais eminentes teriam sido se as possuíssem!
A súplica é: "ensina-me bondade, discernimento e conhecimento." O princípio de agradar a Deus pode estar presente por dentro, e ainda assim a mente pode precisar ser iluminada em todo dever; e, ainda que todo dever seja conhecido, podemos precisar de discernimento espiritual para vê-lo e senti-lo corretamente. — John Stephen.
Ensina-me bom juízo. Numa palestra de Sir John Lubbock sobre a fertilização das flores pela ação dos insetos, nota-se uma distinção marcante, nessa operação, entre plantas belas e plantas repugnantes. As abelhas, ao que parece, se deleitam em odores agradáveis e cores vivas, e invariavelmente escolhem as plantas que dão prazer ao homem. Se observarmos o percurso desses insetos em sua visita a um jardim, veremos que pousam na rosa, na lavanda, e em todas as outras flores agradáveis semelhantes, de tons brilhantes ou aroma doce.
Em contraste marcante com isso está o comportamento das moscas, que sempre mostram preferência por plantas de amarelo lívido ou vermelho sujo, e por aquelas que possuem cheiro desagradável. A abelha é uma criatura de gostos refinados e sensíveis. A mosca é "uma espécie de abutre insetoide", voltando-se naturalmente para o alimento vegetal que se assemelha à carniça.
Coloquem-se dois pratos num gramado, a pequena distância um do outro, um contendo aquele fungo subterrâneo de mau cheiro, o falo-de-cão, e o outro um punhado de rosas-musgo, e essa diferença logo se fará notar. O odor fétido e o fungo repulsivo logo se cobrirão de moscas, enquanto as abelhas se dirigirão ao prato de rosas.
A esse amor das abelhas por belas cores e perfumes fragrantes devemos as nossas flores mais escolhidas. Pois, ao levar o pó do pólen de uma flor vistosa até o estigma de outra, produzem, com essa união, a semente de uma variedade ainda mais rica. Assim, geração após geração, muitas flores foram se tornando cada vez mais belas. Por outro lado, coisa estranha, por meio de processo semelhante ocorreu um progresso na direção oposta, naquelas plantas frequentadas por moscas, cujas qualidades nocivas e repulsivas se intensificaram.
Assim é com as duas grandes classes em que a humanidade se pode dividir: os homens deste mundo, e os homens do porvir. Enquanto os afetos purificados de uns se concentram continuamente em "tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama", os afetos terrenos e vis dos outros se fixam na corrupção.
Não é mais certo que a laboriosa abelha voa de uma bela flor a outra do que é certo que o cristão busca, de propósito, tudo o que é mais belo, mais doce e melhor na terra. Sua oração é a de Davi, em Salmos 119:66: "ensina-me bom gosto" (que é a tradução literal); e "se há alguma virtude, e se há algum louvor", ele pensa nessas coisas. — James Neil, em Rays from the Realms of Nature, 1879.
Bom juízo e conhecimento. Nenhuma bênção é mais apropriada do que "bom juízo e conhecimento" — "conhecimento" de nós mesmos, do nosso Salvador, do caminho da obediência — e "bom juízo" para dirigir e aplicar esse conhecimento a algum fim valioso. Estas duas partes do nosso equipamento intelectual têm uma conexão e uma dependência mútua da maior importância. O "conhecimento" é a percepção especulativa da verdade geral. O "juízo" é a sua aplicação prática ao coração e à conduta. — Charles Bridges.
Pois cri nos teus mandamentos. Estas palavras merecem alguma consideração, pois o "crer" aqui está ligado a um objeto incomum. Se fosse "pois cri nas tuas promessas", ou "obedeci aos teus mandamentos", o sentido da cláusula seria mais óbvio a qualquer entendimento comum. Crer em mandamentos soa tão áspero a um ouvido comum quanto ver com o ouvido, e ouvir com o olho; mas, apesar disso, os mandamentos são o objeto; e deles ele não diz "obedeci", mas "cri".
Para suavizar a aspereza aparente da frase, alguns intérpretes concebem que "mandamentos" está posto pela palavra em geral; e assim as promessas estão incluídas — sim, pensam eles, até principalmente pretendidas —, especialmente aquelas promessas que o encorajavam a buscar em Deus as coisas necessárias, como são o bom juízo e o conhecimento. Mas essa interpretação nos desviaria do peso e da força dessas palavras significativas. Por isso, notemos:
Certamente há fé nos mandamentos, tanto quanto nas promessas. Devemos crer que Deus é o seu autor, e que são expressões da sua vontade legisladora e mandante, à qual somos obrigados a obedecer. A fé deve discernir a soberania e a bondade do legislador, e crer que os seus mandamentos são santos, justos e bons; deve também nos ensinar que Deus ama os que guardam a sua lei, e se ira contra os que a transgridem, e que ele cuidará para que a sua lei seja vindicada no grande dia final.
A fé nos mandamentos é tão necessária quanto a fé nas promessas; pois, assim como as promessas não são estimadas, abraçadas e aproveitadas a menos que se creia que são de Deus, também os preceitos não o são: não governam a consciência, nem inclinam os afetos, senão na medida em que se crê que são divinos.
A fé nos mandamentos deve ser tão viva quanto a fé nas promessas. Assim como as promessas não são cridas com fé viva, a menos que afastem o coração das vaidades carnais para buscar a felicidade que elas nos oferecem, também os preceitos não são corretamente cridos, a menos que estejamos plenamente resolvidos a nos conformar a eles como a única regra que nos guia à obtenção dessa felicidade, e a menos que estejamos decididos a nos apegar a eles e a obedecê-los.
Assim como as leis do rei não se guardam apenas por se crer que são leis do rei, a menos que, considerando a sua autoridade e poder, nos sujeitemos a elas, também esse "crer" indica uma prontidão viva para ouvir a voz de Deus e obedecê-la, e para governar o nosso coração e as nossas ações segundo o seu conselho e direção na palavra. — Thomas Manton.
Pois cri nos teus mandamentos. Os mandamentos de Deus não estão sozinhos; têm promessas de graça à direita, e ameaças de ira à esquerda: sobre ambas exerce-se a fé, e sem tal fé ninguém será capaz de prestar obediência aos mandamentos de Deus. — Wolfgang Musculus.
Versículo 67Salmo 119:67
Antes de ser afligido, eu me desviava, etc. Não que ele se desviasse de propósito, perversamente, maliciosamente e por desprezo, do seu Deus; isto ele nega (Salmos 18:21); mas, pela fraqueza da carne, pelo domínio da corrupção, e pela força da tentação, e muito por causa de um espírito descuidado, desatento e negligente, ele saiu do caminho certo, e se desviou dele antes mesmo de perceber bem. A palavra é usada para o errar por ignorância (Levítico 5:18).
Isso se deu em seu tempo de prosperidade, quando, embora não chegasse, como Jesurum, a engordar e recalcitrar, e abandonar e desprezar a Rocha da sua salvação, ou cair em tentações e desejos nocivos, e errar da fé, e ser atravessado por muitas dores; ainda assim podia tornar-se desatento aos deveres da religião, e negligente com eles, o que é um caso comum. — John Gill.
Antes de ser afligido. A Septuaginta e a Vulgata latina trazem: "antes de ser humilhado." A palavra hebraica tem o sentido geral de ser afligido, e pode se referir a qualquer tipo de provação. — Albert Barnes.
Antes de ser afligido. A prosperidade é um teste de caráter mais refinado e severo do que a adversidade, assim como uma hora de sol de verão produz mais corrupção do que o mais longo dia de inverno. — Eliza Cook.
Fui afligido. Deus, em sua sabedoria, trata conosco como um grande senhor trataria com um filho desobediente, que abandona a casa do pai e vive em farras entre os seus arrendatários. O pai ordena que o tratem mal, o afrontem, e o expulsem dali, tudo para trazê-lo de volta. O mesmo faz Deus: o homem é o seu filho selvagem e devasso; foge dos mandamentos do seu Pai, e não consegue suportar viver sob o seu governo rígido e severo. Recorre aos prazeres do mundo, e vive em festas e farras entre as criaturas.
Mas Deus decide recuperá-lo, e por isso ordena a cada criatura que o trate com aspereza. "Queima-o, fogo; sacode-o, tempestades, e naufraga a sua fortuna; abandonem-no, amigos; falhem-lhe, planos; sejam-lhe rebeldes, filhos, como ele é para comigo; que os seus apoios e dependências afundem sob ele, que as suas riquezas se derretam, deixem-no pobre, desprezado e destituído." Todos esses são servos de Deus, e devem obedecer à sua vontade. E para que serve tudo isso, senão para que, vendo-se abandonado por todos, ele finalmente, como o pródigo empobrecido, volte para o seu pai? — Ezekiel Hopkins, 1633-1690.
Fui afligido. Assim como os homens aparam as penas das aves, quando começam a voar alto ou longe demais, também Deus diminui as nossas riquezas, etc., para que não ultrapassemos os nossos limites, nem nos gloriemos demais em tais dons. — Otho Wermullerus.
Mas agora guardo a tua palavra.
A aflição traz o homem de volta ao lar.
O homem, como uma ovelha tola, muitas vezes se desvia,
sem conhecer o seu caminho,
por desertos cegos e pela selva do pecado
viaja todos os dias;
nada o fará voltar mais depressa
do que as aflições ao seu redil.
Vagueia sob o sol, mas na chuva
e no tempo tempestuoso apressa-se de volta para casa.
Tu, o grande Pastor da minha alma, ó guarda-me,
a mim, tua ovelha indigna,
de vaguear; ou, se os meios brandos não bastarem,
que os ásperos, então, me tragam a isso.
Antes que eu pereça em meu erro,
Senhor, traze-me de volta com terror;
melhor que eu seja castigado com a tua vara
e o cajado do Pastor, do que me desviar de ti, meu Deus.
Embora por ora os golpes me firam com dor,
ao fim eles trazem mais proveito,
e me fazem observar a tua palavra, que eu
antes negligenciava;
deixa-me voltar para casa antes por uma cruz que faz chorar
do que continuar perdido.
Para a saúde, eu preferiria tomar um remédio amargo,
a comer doçuras e ficar sempre doente. — Thomas Washbourne, 1606-1687.
Da multidão inumerável diante do trono de Deus e do Cordeiro, ainda podemos ouvir as palavras do salmista: "antes de ser afligido, eu me desviava; mas agora guardo a tua palavra." Há muitos que dirão: "eis que feliz é o homem a quem Deus corrige" (Jó 5:17). Um lhe diria que a sua ruína terrena foi o que fez a sua esperança celestial; e outro, que a perda de todas as coisas foi o ganho de Tudo em Todos.
Há multidões a quem Deus afligiu com cegueira natural, para que ganhassem visão espiritual; e aqueles que, sob enfermidades corporais e doenças de diversas espécies, definharam e se consumiram nesta vida terrena, agarrando-se com alegria à glória, à honra e à imortalidade em seu lugar. — William Garrett Lewis, em Westbourne Grove Sermons, 1872.
Pela aflição, Deus separa o pecado que odeia da alma que ama. — John Mason.
Versículo 68Salmo 119:68
Tu és bom, e fazes o bem. Um Deus bom nos é apresentado, para que não nos contentemos com nenhum padrão baixo de bondade. Ele nos é representado como toda bondade. Ele é bom em sua natureza; e a sua obra é condizente com a sua natureza; nada lhe falta, nem nada nela é deficiente. Nada se pode acrescentar a ela para torná-la melhor. Diz Fílon: tōn ontōn to prōton agathon (τῶν ὄντων τὸ πρῶτον ἀγαθόν) — "o primeiro ser há de ser necessariamente o primeiro bem." Assim que concebemos que há um Deus, logo concebemos que ele é bom. Ele é bom por si mesmo, bom em si mesmo, a própria bondade, e tanto a fonte quanto o padrão de todo o bem que há nas criaturas.
- Quanto à sua natureza, ele é originalmente "bom", bom em si mesmo, e bom para com os outros; como o sol tem luz em si mesmo, e dá luz a todas as outras coisas. Essencialmente bom; não apenas bom, mas a própria bondade. A bondade em nós é uma qualidade acessória, ou um dom acrescentado; mas em Deus não é uma qualidade, é a sua própria essência. Num vaso banhado a ouro, o banho ou o brilho é uma qualidade acrescentada; mas num vaso todo de ouro, o brilho e a substância são a mesma coisa.
Deus é infinitamente bom; o bem das criaturas é limitado, mas nada há que limite a perfeição de Deus, ou lhe dê alguma medida. Ele é um oceano de bondade sem margens nem fundo. Ai de nós! Que é a nossa gota diante desse oceano! Deus é imutavelmente bom; a sua bondade jamais pode ser maior ou menor do que é; assim como nada se lhe pode acrescentar, nada dela se pode subtrair.
O homem, em sua inocência, era peccabilis — passível de pecar —, depois peccator — pecador de fato; mas Deus sempre foi e é bom. Ora, este é o padrão que nos é proposto, mas a sua natureza é um grande abismo. Por isso:
- Quanto à sua obra: "ele faz o bem." O que tem Deus feito no grande teatro do mundo, senão bondade, por estes seis mil anos? "Contudo não se deixou sem testemunho, fazendo o bem, dando-nos chuvas do céu e estações frutíferas, enchendo os nossos corações de alimento e alegria" (Atos 14:17). Ele não se deixou sem testemunho — agathopoiōn (ἀγαθοποιῶν) —, não tomando vingança de suas idolatrias, mas distribuindo benefícios.
Isso nos é proposto para imitação, para que a nossa vida inteira não seja senão fazer o bem: "sede, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus" (Mateus 5:48). Por isso, bem diz o salmista: "ensina-me os teus estatutos." — Thomas Manton.
Tu és bom, e fazes o bem. Devemos bendizer ao Senhor em todo tempo, e manter bons pensamentos sobre Deus em toda ocasião, especialmente no tempo da aflição. Por isso somos ordenados a glorificar a Deus nos fogos (Isaías 24:15); e isso fizeram os três jovens na fornalha mais quente...
Concedo, de fato, que não podemos dar graças pela aflição como aflição, mas ou porque é meio de algum bem para nós, ou porque a mão graciosa de Deus se mostra de algum modo notável nela para conosco. Nesse sentido, não há condição deste lado do inferno em que não tenhamos razão para louvar a Deus, ainda que seja a maior das calamidades.
Por isso Davi, ao falar da sua aflição, logo acrescenta: "tu és bom, e fazes o bem"; e declara (Salmos 119:65): "tu tens tratado bem o teu servo, ó Senhor, segundo a tua palavra." Por isso Paulo e Silas louvaram a Deus quando foram açoitados e encarcerados. — John Willison, 1680-1750.
Tu és bom. Os efeitos abençoados da disciplina, como instância especial da bondade do Senhor, poderiam naturalmente conduzir ao reconhecimento da sua bondade geral, em seu próprio caráter, e em suas incansáveis dispensações de amor. Julgando com incrédula pressa os seus tratos providenciais e graciosos, o sentido fraco imagina um semblante carrancudo, quando o olho da fé discerne um sorriso em seu rosto; e por isso, na medida em que a fé se exercita na revisão do passado, e na experiência do presente, estaremos preparados para atribuir louvor: "tu és bom." — Charles Bridges.
Versículo 69Salmo 119:69
Os soberbos forjaram mentira contra mim. Se, nos dias de hoje, os inimigos da verdade, em seus escritos mentirosos, difamam os mestres ortodoxos da Igreja, isso é um artifício muito antigo do Diabo, já que Davi se queixa de que isso lhe aconteceu em seus dias. — Solomon Gesner.
Os soberbos forjaram mentira. Eles enfeitam as mentiras com sombras de verdade e linguagem elegante; têm casas da moeda para cunhar suas mentiras com esmero, e prensas para imprimi-las. — William Greenhill, 1591-1677.
Os soberbos. A fé humilha, e a incredulidade ensoberbece. A fé humilha porque nos deixa ver os nossos pecados, e os seus castigos, e que não temos trato algum com Deus senão pela mediação de Cristo; e que não podemos fazer bem algum, nem evitar o mal, senão pela graça. Mas, quando os homens não sabem disso, então pensam muito de si mesmos, e por isso são soberbos. Por isso todos os ignorantes, todos os hereges, e os mundanos são soberbos. Os que se humilham sob a mão de Deus são humildes para com os homens; mas os que desprezam a Deus também perseguem os seus servos. — Richard Greenham.
Forjaram mentira. Vatablo traduz: concinnarunt mendacia. Assim também Tremélio: enfeitaram mentiras. Assim como Satanás pode transformar-se em anjo de luz, também pode enfeitar as suas mentiras sob capas de verdade, para torná-las mais plausíveis aos homens.
E, de fato, esta não é pequena tentação, quando as mentiras forjadas contra os piedosos são enfeitadas com sombras de verdade, e os ímpios cobrem seus tratos injustos com aparências de justiça. Assim, não só os piedosos são injustamente perseguidos, mas os simples são levados a crer que eles mereceram isso com toda a justiça. Neste caso, os piedosos devem sustentar-se pelo testemunho de uma boa consciência. — William Cowper.
Forjaram. Exprime o sentido essencial da palavra hebraica, mas não a sua forma figurada, que parece ser a de costurar, análoga à de tecer, aplicada à mesma coisa, tanto em hebraico quanto em outras línguas. Podemos também comparar a nossa frase figurada "remendar", que, contudo, sugere menos artifício ou habilidade do que a falta dela. A conexão das cláusulas é que toda a astúcia e malícia dos seus inimigos só o levariam a obedecer a Deus com um coração ainda mais indiviso do que nunca. — Joseph Addison Alexander.
Forjaram. A metáfora pode assemelhar-se ao grego rhaptein dolous (ῥάπτειν δόλους), "costurar enganos"; ou à ideia de untar, ou rebocar (Delitzsch, Moll, etc.) uma parede, de modo a esconder a verdadeira substância. O salmista permanece fiel a Deus, apesar das falsidades com que os soberbos untam e escondem a sua verdadeira fidelidade. — The Speaker's Commentary.
Mentira. Os dois braços com que Satanás luta contra os piedosos são a violência e a mentira: onde não pode, ou não ousa, usar a violência, esteja certo de que não deixará de combater com mentiras. E nisso o Senhor mostra grandemente a sua cuidadosa providência, protegendo os seus filhos contra a malícia de Satanás e as bravatas soberbas dos seus instrumentos, de tal modo que os seus corações mais soberbos são forçados a forjar mentiras; a sua malícia é tão grande que precisam fazer o mal, e, no entanto, o seu poder é tão refreado que não conseguem fazer o que quereriam. — William Cowper.
Eu guardarei os teus preceitos de todo o coração. Venha a palavra do Senhor, venha; e ainda que tivéssemos seiscentos pescoços, todos os submeteríamos aos seus ditames. — Agostinho.
Versículo 70Salmo 119:70
O coração deles é insensível como gordura. A palavra tafash (טפש) não ocorre em nenhum outro lugar da Escritura, mas em caldaico tafash significa engordar, tornar gordo; também tornar estúpido e obtuso, porque muitas vezes os gordos assim são...
Por esta razão, os soberbos, mencionados no versículo anterior, são descritos por sua determinação fixa no mal, porque estão quase insensíveis; como se vê nos porcos, que, furados na pele com um punção, e isso lentamente, enquanto o punção apenas toca a gordura, não sentem a picada até que ela alcance a carne.
Assim os soberbos, cuja grande prosperidade é comparada, em outro lugar, à gordura, têm um coração totalmente insensível, que não sente as severas reprimendas da palavra divina, nem tampouco os seus santos deleites e prazeres, por causa da abundância das coisas carnais; e, mais ainda, está de todo inapto para os bons impulsos; assim como se vê, em outro lugar, com os animais gordos, quão lentos e inaptos para o trabalho são, quando, ao contrário, são ágeis e rápidos os que não são atrapalhados por essa mesma gordura. — Martin Geier.
O coração deles é insensível como gordura. Isso os torna:
Insensíveis e seguros; estão além de qualquer sentimento: assim se usa a expressão (Isaías 6:10): "engordai o coração deste povo." Não são sensíveis ao ensino da palavra de Deus, nem à sua vara.
Sensuais e voluptuosos: "os olhos deles saltam de gordura" (Salmos 73:7); revolvem-se nos prazeres dos sentidos, e os tomam como seu bem principal; e bom proveito lhes façam: eu não trocaria de condição com eles; "eu me deleito na tua lei." — Matthew Henry.
O coração deles é insensível como gordura; mas eu me deleito na tua lei. Como se dissesse: o meu coração é um coração magro, um coração faminto; a minha alma ama e se alegra na tua palavra. Não tenho outra coisa para enchê-lo senão a tua palavra, e os consolos que dela recebo; mas os corações deles são corações gordos: gordos do mundo, gordos da concupiscência: odeiam a palavra. Assim como um estômago cheio enjoa da comida e não a consegue digerir, também os ímpios odeiam a palavra; ela não desce bem para eles, não satisfaz as suas concupiscências. — William Fenner.
Estando ansioso por conhecer o significado médico de "coração gorduroso", recorri a um cavalheiro eminente, bem conhecido por ter sido presidente do Colégio de Médicos. A sua resposta mostra que a linguagem é mais figurada do que literal. Ele gentilmente me respondeu o seguinte:
Há duas formas do chamado "coração gorduroso". Numa delas, há uma quantidade excessiva de tecido adiposo cobrindo o exterior do órgão, especialmente em torno da base. Isso pode ser observado em todos os casos em que o corpo do animal está, em geral, excessivamente gordo, como em animais engordados para o abate. Isso não interfere necessariamente na ação do coração, e pode não ter grande importância do ponto de vista médico.
A segunda forma, contudo, é uma condição muito mais grave. Nesta, a estrutura muscular do coração, da qual depende a sua função de importância máxima, como força propulsora central, sofre uma mudança degenerativa, pela qual as fibras contráteis dos músculos se convertem numa estrutura que não tem nenhuma das propriedades das fibras naturais, e na qual se encontram vários glóbulos gordurosos e oleosos, que podem ser prontamente vistos ao microscópio.
Essa condição, se de todo extensa, torna a ação do coração fraca e irregular, e é muito perigosa, não raramente causando morte súbita. Encontra-se ligada a um estado geral doentio do organismo, e é evidência de má nutrição geral. É provocada por um modo de viver indolente e luxuoso, ou, em todo caso, pela negligência do exercício físico e das regras higiênicas essenciais para uma boa nutrição.
Não se pode, contudo, dizer que seja incompatível com o vigor mental, e certamente não está necessariamente associada à estupidez. Mas o coração, nesta forma de doença, é literalmente "gorduroso", e pode com verdade ser descrito como "insensível como gordura." Isso quanto à fisiologia e à patologia.
Poderei aventurar-me no território sagrado da exegese bíblica, sem correr o risco de ser acusado de fatuidade? Não estará o salmista contrastando os que levam uma vida animalesca, autoindulgente e viciosa, pela qual corpo e mente ficam incapacitados para os seus devidos usos, com os que podem correr pelo caminho dos mandamentos de Deus, deleitar-se em fazer a sua vontade, e meditar em seus preceitos? Preguiça, gordura e estupidez, contra atividade, músculos firmes e vigor mental. Corpo contra mente. O homem tornado como um animal, contra o homem que conserva a imagem de Deus. — Sir James Risdon Bennett, 1881.
Versículo 71Salmo 119:71
Bom me foi, etc. Sou consertado pela minha doença, enriquecido pela minha pobreza, e fortalecido pela minha fraqueza, e, com São Bernardo, desejo: Irascaris mihi, Domine — "irrita-te comigo, Senhor." Pois, se não me repreendes, não te importas comigo; se não provo amargor algum, não tenho remédio; se não me corriges, não sou teu filho.
Assim foi com o bisneto de Davi, Manassés, quando estava na aflição: "buscou ao Senhor seu Deus": para aquele rei, o ferro era mais precioso do que o seu ouro, o seu cárcere uma morada mais feliz do que o seu palácio, Babilônia uma escola melhor do que Jerusalém.
Que tolos somos, então, ao franzirmos o rosto diante das nossas aflições! Estas, por mais ásperas que sejam, são as nossas melhores amigas. Não são de fato para o nosso prazer; são para o nosso proveito; o seu resultado as torna dignas de boas-vindas. Que nos importa quão amargo seja o remédio que traz saúde? — Abraham Wright.
Bom me foi ter sido afligido. Os santos são grandes ganhadores pela aflição, porque "a piedade", que é "grande ganho", que é "proveitosa para tudo", torna-se mais poderosa do que antes. A vara da correção, por um milagre de graça, como a de Arão, brota e floresce, e produz os frutos da justiça, que são excelentíssimos.
É de fato raro ver um homem sair de um leito de enfermidade, ou de qualquer outra fornalha de aflição, mais semelhante aos anjos em pureza, mais semelhante a Cristo, que foi santo, inofensivo, incontaminado e separado dos pecadores; mais semelhante ao próprio Deus, sendo mais exatamente justo em todos os seus caminhos, e mais exemplarmente santo em toda a sua conduta. — Nathanael Vincent, 1697.
Bom me foi ter sido afligido. Se hoje não tenho cruz para carregar, não avançarei rumo ao céu. Uma cruz (isto é, qualquer coisa que perturbe a nossa paz) é o aguilhão que estimula, e sem o qual provavelmente permaneceríamos estagnados, cegos por vaidades vazias, e afundando mais no pecado. Uma cruz nos ajuda a avançar, apesar de nossa apatia e resistência.
Deitar-se tranquilamente num leito de penas pode parecer uma existência muito doce; mas o conforto agradável e o descanso não são o destino de um cristão: se ele quiser subir cada vez mais alto, terá de ser por uma estrada acidentada. Ai daqueles que não têm cruz diária! Ai daqueles que se queixam e se irritam contra ela! — De Gold Dust, 1880.
Bom me foi, etc. Há coisas que são boas, mas não agradáveis, como a tristeza e a aflição. O pecado é agradável, mas improveitoso; e a tristeza é proveitosa, mas desagradável. Assim como as águas são mais puras quando estão em movimento, também os santos costumam ser mais santos quando estão em aflição.
Alguns cristãos se parecem com aquelas crianças que só estudam as suas lições enquanto a vara está sobre as suas costas. É bem sabido que, pela maior aflição, o Senhor tem selado a mais doce instrução. Muitos não melhoram pelos juízos que veem, quando melhoram pelos juízos que sentem. O ouro mais puro é o mais maleável. É a melhor lâmina aquela que se dobra bem, sem conservar a sua figura torta. — William Secker, 1660.
Bom me foi, etc. A piedade tem uma virtude admirável de transformar todas as coisas em motivo de consolo e alegria. Nenhuma condição pode, de fato, ser má ou triste para o homem piedoso: até as suas tristezas são agradáveis, as suas enfermidades são saudáveis, as suas carências o enriquecem, as suas desonras o adornam, os seus fardos o aliviam; os seus deveres são privilégios, as suas quedas são fundamento de progresso, até os seus pecados (por gerarem contrição, humildade, circunspecção e vigilância) o beneficiam e favorecem; ao passo que a impiedade estraga toda condição, corrompe e degrada todas as coisas boas, e amarga todas as comodidades e consolos da vida. — Isaac Barrow, 1630-1677.
Bom me foi ter sido afligido. Na interessantíssima biografia de seu pai, escrita pela srta. E. J. Whately, o célebre arcebispo de Dublim, registra-se um fato contado pelo Dr. Whately, a respeito da introdução do lariço na Inglaterra. Quando as mudas foram trazidas pela primeira vez, o jardineiro, ao ouvir que vinham do sul da Europa, e supondo que precisariam de calor — esquecendo-se de que talvez crescessem perto da linha das neves —, colocou-as numa estufa. Dia após dia foram murchando, até que o jardineiro, enojado, as jogou fora, num monte de esterco; ali começaram a reviver e a brotar, e por fim se tornaram árvores. Precisavam do frio.
O grande Lavrador muitas vezes salva as suas plantas jogando-as fora, no frio. As geadas cortantes da provação e da aflição muitas vezes são necessárias, para que os lariços de Deus cresçam. É sob tal disciplina que surgem novos pensamentos e sentimentos. O coração se torna mais morto para o mundo e para si mesmo. Da noite da tristeza nasce a manhã da alegria. O inverno é o arauto da primavera. Da crucificação do velho homem vem a ressurreição do novo, assim como, na natureza, a vida é filha da morte.
"A noite é a mãe do dia, e o inverno, da primavera; e sempre sobre a velha decadência brotam os musgos mais verdes." — James Wareing Bardsley, em Illustrated Texts and Texts Illustrated, 1876.
Bom me foi ter sido afligido. É uma circunstância notável que as cores mais brilhantes das plantas se veem nas montanhas mais altas, nos lugares mais expostos ao tempo mais selvagem. Os líquens e musgos mais vivos, as mais belas gemas de flores silvestres, abundam bem no alto do pico áspero e açoitado pelas tempestades.
Uma das mais ricas exibições de colorido orgânico que já vi foi perto do cume do Monte Chenebettaz, uma colina de cerca de três mil metros, logo acima do grande Hospício de São Bernardo. Toda a face de uma extensa rocha estava coberta por um líquen de amarelo vívido, que brilhava ao sol como as ameias douradas de um castelo encantado. Ali, naquela região elevada, em meio à mais carrancuda desolação, exposto à tempestade mais feroz do céu, este líquen exibia uma glória de cor como nunca mostrava no vale abrigado.
Tenho diante de mim, ao escrever estas linhas, dois espécimes do mesmo líquen: um do grande São Bernardo, e outro da parede de um castelo escocês, profundamente aninhado entre sicômoros; e a diferença em forma e coloração entre eles é impressionante. O espécime criado em meio às tempestades selvagens do pico da montanha tem uma bela cor de prímula, e é liso na textura e completo no contorno; enquanto o espécime criado em meio aos ares suaves e às chuvas delicadas do vale baixo tem cor opaca e ferruginosa, e é escamoso na textura, e quebrado no contorno.
E não é assim com o cristão que é afligido, atormentado pela tempestade, e sem consolo? Até que as tempestades e as vicissitudes da providência de Deus batam sobre ele repetidas vezes, o seu caráter aparece manchado e nublado por influências egoístas e mundanas. Mas as provações dissipam a obscuridade, aperfeiçoam os contornos de sua disposição, e dão brilho e bênçãos à sua piedade.
Em meio à minha lista de bênçãos infinitas, esta se destaca como a primeira: que o meu coração sangrou; por tudo te bendigo, mas mais ainda pelo severo. — Hugh Macmillan.
Para que eu aprendesse os teus estatutos. Ele não fala do aprendizado que se obtém ouvindo ou lendo a palavra de Deus; mas do aprendizado que obtivera pela experiência: que sentira a verdade e o consolo da palavra de Deus mais eficazes e vivos na provação do que poderia sentir sem ela; o que também o tornou mais piedoso, sábio e religioso depois que a provação passou. — William Cowper.
Para que eu aprendesse. "Eu nunca teria sabido", disse a esposa de Martinho Lutero, "o que significavam tais e tais coisas, em tais e tais salmos, tais lamentos e movimentos de espírito; nunca teria entendido a prática dos deveres cristãos, se Deus não me tivesse trazido para alguma aflição." É bem verdade que a vara de Deus é como a ponteira do mestre-escola para a criança, apontando a letra, para que a note melhor; assim ele nos aponta muitas boas lições que, de outro modo, jamais teríamos aprendido. — De Things New and Old, de John Spencer, 1658.
Para que eu aprendesse. Assim como a prosperidade cega os olhos dos homens, também a adversidade os abre. Assim como o unguento que remedia a doença dos olhos primeiro arde e aflige os olhos, e os faz lacrimejar, mas depois a visão fica mais clara do que era; também a provação, a princípio, aflige os homens maravilhosamente, mas depois ilumina os olhos da mente, de modo que ela se torna mais racional, sábia e circunspecta. Pois a provação traz experiência, e a experiência traz sabedoria. — Otho Wermullerus, 1551.
Aprender os teus estatutos. O cristão tem razão para agradecer a Deus por as coisas não terem se acomodado aos seus desejos. Quando a névoa de lágrimas estava em seus olhos, ele olhou para a palavra de Deus e viu coisas magníficas. Quando Jonas subiu das profundezas do oceano, mostrou que aprendera os estatutos de Deus. Ninguém poderia ter ido fundo demais para obter o conhecimento que ele obteve. Nada mais poderia impedi-lo de ir a Nínive. É exatamente como se tivesse trazido das profundezas um exército de doze legiões das tropas mais formidáveis.
A palavra de Deus, apreendida pela fé, foi tudo isso para ele, e mais. Ele ainda, contudo, precisava de mais aflição; pois havia alguns estatutos ainda não aprendidos. Algumas aboboreiras ainda haviam de murchar. Ele ainda desceria a um vale mais profundo de humilhação. Mesmo a mais profunda aflição talvez não nos ensine tudo — um engano que às vezes cometemos. Mas por que deveríamos obrigar Deus a usar medidas duras conosco? Por que não sentar aos pés de Jesus e aprender tranquilamente o que precisamos aprender? — George Bowen, em Daily Meditations, 1873.
Estatutos. O verbo do qual se forma esta palavra significa gravar ou inscrever. A palavra significa uma lei definida, prescrita, escrita. O termo é aplicado à lei de José sobre a porção dos sacerdotes no Egito, à lei sobre a páscoa, etc. Mas neste salmo tem um sentido mais interior: aquela lei moral de Deus que está gravada nas tábuas de carne do coração; a apreensão mais íntima e espiritual da sua vontade; não tão evidente quanto a lei e os testemunhos, e assunto de comunicação espiritual mais direta do que os seus preceitos — estes sendo mais elaborados pelos esforços da própria mente, divinamente guiada, é certo, mas talvez de modo mais instrumental, e menos passivo.
Fala-se continuamente deles como coisas ainda a serem aprendidas, seja total, seja parcialmente, não apreendidas objetivamente já, como a lei de Deus... Aprendem-se, não de repente, mas pela experiência, e por meio das provações misericordiosamente ordenadas por Deus; lições, portanto, profundamente gravadas no coração. "Bom me foi ter estado em provação, para que eu aprendesse os teus estatutos." "Tenho mais entendimento que os meus mestres, porque guardo os teus estatutos." — John Jebb.
Versículo 72Salmo 119:72
Estimem grandemente as Escrituras. Pode alguém progredir em alguma arte, se a menospreza e a depreca? Estime este livro de Deus acima de todos os outros livros. Santo Gregório chama a Bíblia de "o coração e a alma de Deus." Os rabinos dizem que uma montanha de sentido pende de cada ápice e til da Escritura. "A lei do Senhor é perfeita" (Salmos 19:7).
A Escritura é a biblioteca do Espírito Santo; é um compêndio do conhecimento divino, um modelo exato e a planta da religião. A Escritura contém em si os credenda — "as coisas que devemos crer" — e os agenda — "as coisas que devemos praticar." Ela é "capaz de nos fazer sábios para a salvação" (2 Timóteo 3:15). A Escritura é o padrão da verdade, o juiz das controvérsias; é a estrela polar que nos dirige ao céu (Isaías 8:20). "O mandamento é uma lâmpada" (Provérbios 6:23).
A Escritura é a bússola pela qual se deve guiar o leme da nossa vontade; é o campo em que Cristo, a Pérola de grande preço, está escondido; é um rochedo de diamantes; é um colírio sagrado, um bálsamo para os olhos; melhora os olhos dos que a contemplam; é uma luneta espiritual na qual resplandece a glória de Deus; é a panaceia, o remédio universal da alma.
As folhas da Escritura são como as "folhas da árvore da vida, para a cura das nações" (Apocalipse 22:2). A Escritura é ao mesmo tempo a geradora e a nutridora da graça. Como nasce o convertido, senão pela "palavra da verdade" (Tiago 1:18)? Como ele cresce, senão pelo "leite não adulterado da palavra" (1 Pedro 2:2)?
A palavra escrita é o livro de onde se tiram as nossas provas para o céu; é a baliza marítima que nos mostra os rochedos do pecado a evitar; é o antídoto contra o erro e a apostasia, a espada de dois gumes que fere a antiga serpente. É a nossa fortaleza para resistir à força da concupiscência, como o Capitólio de Roma, que era um lugar de força e munição.
A Escritura é a "torre de Davi", onde estão pendurados os escudos da nossa fé (Cântico dos Cânticos 4:4). "Tirem a palavra, e vocês nos privam do sol", disse Lutero. A palavra escrita está acima de uma embaixada angélica, ou de uma voz do céu. "Ouvimos esta voz que veio do céu... Temos também uma palavra mais segura" (2 Pedro 1:18-19).
Ó, estime a palavra escrita; estimar é o caminho para aproveitar. Se César valorizava tanto os seus comentários que, para preservá-los, perdeu o seu manto púrpura, como devemos nós estimar os sagrados oráculos de Deus? "Estimei as palavras da sua boca mais do que o meu alimento necessário." — Thomas Watson, em "Os Exercícios Matinais".
A lei da tua boca é melhor para mim. As sagradas Escrituras são os tesouros e os prazeres de uma alma cheia de graça: para Davi, eram melhores do que milhares de ouro e prata. Uma montanha de pérolas transparentes, empilhadas tão alto quanto o céu, não é tão rica em tesouro quanto elas; por isso aquele homem bom as escolheu como sua herança para sempre, e nelas se alegrou como em toda riqueza. Um avarento cobiçoso não conseguiria ter tanto deleite em seus sacos de dinheiro, nem um jovem herdeiro numa grande herança, quanto o santo Davi tinha na palavra de Deus.
A palavra "lei" vem de uma raiz que significa "provar", como os mercadores que examinam e testam as mercadorias que compram e guardam; daí também vem a palavra para as gemas e joias que são testadas, e achadas verdadeiras. O cristão sadio é o mercador sábio, buscando pérolas de valor; ele testa o que lê ou ouve pelo padrão ou pedra de toque da Escritura, e, tendo encontrado verdades genuínas, as guarda para o grande enriquecimento desta faculdade suprema e soberana do entendimento. — Oliver Heywood.
A palavra de Deus deve estar mais perto de nós do que os nossos amigos, deve ser mais querida para nós do que a nossa vida, mais doce para nós do que a nossa liberdade, e mais agradável para nós do que todos os confortos terrenos. — John Mason.
Uma lição ensinada pela aflição santificada é o amor à palavra de Deus. "Este é o meu consolo na minha aflição: a tua palavra me vivificou." Ao ler parte do Salmo 119 para a srta. Westbrook, que faleceu, ela disse: "Pare, senhor, eu nunca lhe disse tanto antes — nunca pude; mas agora posso dizer: 'A palavra da tua boca é mais querida para mim do que milhares de ouro e prata.' O que podem o ouro e a prata fazer por mim agora?" — George Redford, em Memoirs of the late Rev. John Cooke, 1828.
Milhares de ouro e prata. As riquezas mundanas são obtidas com trabalho, guardadas com cuidado, e perdidas com pesar. São falsas amigas, mais distantes de nós justamente quando mais precisamos de consolo; como todos os mundanos hão de achar verdadeiro na hora da morte. Pois então, assim como a aboboreira de Jonas lhe foi tirada numa manhã, quando dela mais precisava contra o sol, assim é com o consolo dos mundanos.
Muito diferente é com a palavra de Deus; pois, se a guardarmos em nosso coração, como fez Maria, o seu consolo nos sustentará quando todo outro consolo faltar. Isto é o que nos torna ricos diante de Deus: quando as nossas almas são depósitos cheios dos tesouros da sua palavra.
Devemos considerar pobreza faltar-nos ouro e prata? An ideo angelus pauper est, quia non habet jumenta? — "Acaso o anjo é pobre, porque não tem gado?" (Crisóstomo). Devemos considerar pobre São Pedro, porque não tinha ouro nem prata para dar ao aleijado? Não; ele tinha um tesouro de graça, infinitamente mais excelente do que isso.
Que as riquezas de ouro fiquem para os mundanos: estas não têm curso em Canaã, não são contadas em nossa pátria celestial. Se quisermos ter alguma estima ali, enriqueçamos as nossas almas com as graças espirituais, que temos em abundância nas minas e tesouros da palavra de Deus. — William Cowper.
A Escritura é uma fonte sempre transbordante, que não se pode secar, e um tesouro inesgotável, que não se pode esvaziar. Para este fim tendem aquelas semelhanças da lei usadas por Davi neste salmo, não menos justamente aplicáveis ao evangelho; ela não é apenas melhor do que "ouro e prata", que são coisas de valor, mas "milhares", o que implica abundância.
Em outro versículo, ele a compara a todas as riquezas e a grande despojo, ambos contendo em si multiplex genus — toda sorte de mercadorias valiosas: ovelhas, bois, terras, casas, vestes, bens, dinheiro, e coisas semelhantes: assim há, no evangelho, todo tipo de riquezas espirituais, sim, abundância de cada tipo. E por isso os pais gregos comparam as verdades da Escritura a pedras preciosas, e o nosso Salvador a uma pérola de grande valor. Um ministro, nesse sentido, é chamado de mercador de joias inestimáveis; pois, de fato, as verdades do evangelho são escolhidas e excelentes, tão valiosas quanto as nossas almas, quanto o céu, quanto a salvação. Mais ainda, subindo mais alto, vejam quanto valor há nas riquezas da graça de Deus, no precioso sangue de Cristo, que se pode aplicar secundariamente ao evangelho, que ambos nos descobre e oferece. — Abraham Wright.
Versículos 72–127Salmo 119:72-127
Quando Davi viu como alguns tornam nula a lei de Deus, ele disse: "por isso amo os teus mandamentos mais do que o ouro; sim, mais do que o ouro fino." Como se dissesse: amo a tua lei ainda mais porque vejo que alguns homens a estimam e a consideram como se fosse escória, e a rejeitam como nula e ultrapassada, ou têm a ousadia, por assim dizer, de revogá-la e anulá-la, para estabelecerem as suas próprias concupiscências e vãs imaginações.
Porque vejo tanto os profanos quanto os supersticiosos assim desapaixonados pela tua lei, o meu amor por ela se inflama ainda mais: "amo-a mais do que o ouro", que leva a maioria dos homens cativos em seu amor; e a estimo mais do que aquilo que os homens mais estimam, e que traz aos homens mais estima neste mundo: "o ouro fino"; sim, como ele disse (Salmos 19:10), "mais do que muito ouro fino." — Joseph Caryl.
Versículo 72Salmo 119:72
Vocês que são cavalheiros, lembrem-se do que Jerônimo relata sobre Nepociano, um jovem cavalheiro de Roma, qui longa et assidua meditatione Scripturarum pectus suum fecerat bibliothecam Christi — que, por longa e assídua meditação nas Escrituras, fizera do seu peito a biblioteca de Cristo. Lembrem-se do que se diz do rei Afonso, que leu a Bíblia inteira quatorze vezes, junto com os comentários que aqueles tempos ofereciam.
Vocês que são estudiosos, lembrem-se de Cranmer e Ridley: o primeiro aprendeu de cor o Novo Testamento em sua viagem a Roma; o segundo, nos passeios do Pembroke Hall, em Cambridge. Lembrem-se do que se diz de Tomás de Kempis — que só encontrava descanso nisi in angulo, cum libello, "senão num canto, com este Livro na mão." E do que se diz de Beza — que, com mais de oitenta anos, ainda conseguia dizer de cor, perfeitamente, qualquer capítulo grego das Epístolas de Paulo.
Vocês que são mulheres, considerem o que Jerônimo diz de Paula, Eustóquia, e outras damas que eram singularmente versadas nas sagradas Escrituras.
Que todos considerem aquela fala hiperbólica de Lutero: que ele não viveria no Paraíso sem a Palavra; e com ela poderia viver muito bem até no inferno. Esta fala de Lutero deve ser entendida cum grano salis — com um grão de sal. — Edmund Calamy.
Nesta seção, cada versículo começa com a letra hebraica Iode, ou "i", a menor letra do alfabeto hebraico, chamada em Mateus 5:18 de "jota": "nem um jota ou um til passará da lei." — Albert Barnes.
Versículos 73–80Salmo 119:73-80
O relato usual desta seção, como o dão os teólogos medievais, é que se trata da oração do homem para ser restaurado ao seu estado de inocência e sabedoria originais, sendo conformado à imagem de Cristo. E isso se ajusta ao sentido óbvio, que é em parte uma petição por graça divina e em parte uma afirmação de que o exemplo de piedade e resignação na aflição é atraente o bastante para atrair os corações dos homens a Deus — verdade demonstrada ao mesmo tempo pela Paixão e pelas vidas de todos os santos que tentaram segui-la.
— Neale e Littledale.
Versículo 73Salmo 119:73
As tuas mãos me fizeram e me formaram, etc. Este verso contém um pedido de entendimento, e uma razão para ele: sou obra das tuas mãos, portanto dá-me entendimento. Não há homem que não estime as obras de suas próprias mãos. E não amará o Senhor ainda mais as suas criaturas, sobretudo o homem, sua criatura mais excelente? Quanto ao corpo, considerada sua feitura, nada se encontra na terra mais precioso do que ele; mas naquilo que não se vê, a saber, sua alma, ele é ainda mais formoso. Vê-se, pois, quão eficaz é o raciocínio de Davi; é como se dissesse, como faz em outro lugar: "Não desampares, ó Senhor, a obra das tuas mãos"; tu és meu autor e feitor; busco a tua ajuda, e a de nenhum outro.
Ninguém pode buscar retamente coisas boas de Deus se não considerar o bem que o Senhor já lhe fez. Mas muitos são, nisso, tão ignorantes que não sabem quão maravilhosamente Deus os fez; por isso não podem nem abençoá-lo, nem buscar nele, como em seu Criador e Conservador. Mas este argumento, tirado de nossa primeira criação, ninguém pode usar retamente, senão aquele que, pela graça, é participante da segunda criação; pois perdemos, na queda, todos os privilégios da primeira criação. De modo que, agora, por natureza, não nos é consolo nem motivo de esperança que Deus nos tenha feito; antes, é motivo de temor e desconfiança, pois nos desfizemos a nós mesmos, perdemos sua imagem, e já não somos como aquilo que Deus criou no princípio.
— William Cowper.
As tuas mãos me fizeram e me formaram, etc. Note-se aqui duas coisas: primeiro, que, ao fazer sua súplica por santo entendimento, ele acusa a si mesmo e a todos os outros de cegueira — cegueira que não procede do Criador, mas do homem corrompido. Segundo, que, já desde sua criação, ele concebeu esperança de que Deus continuaria a obra nele começada, porque Deus não abandona sua obra; por isso ele roga a Deus que lhe conceda nova graça, e complete o que nele havia começado.
— Thomas Wilcocks, 1586.
Hugo nota, com engenho, nos diferentes verbos deste verso, os vícios particulares que se deve evitar: a ingratidão, quando se diz "as tuas mãos me fizeram"; o orgulho, "e me formaram"; a confiança no próprio juízo, "dá-me entendimento"; a curiosidade intrometida, "para que eu aprenda os teus mandamentos".
"As tuas mãos." Hilário e Ambrósio pensam que, pelo plural "mãos", se dá a entender uma obra mais exata e perfeita no homem, como se ele tivesse sido formado por Deus com maior trabalho e arte, por ser feito à imagem e semelhança de Deus; e que não está escrito que nenhuma outra coisa, senão o homem, tenha sido feita por Deus com ambas as mãos, pois ele diz em Isaías: "A minha mão fundou a terra" (Isaías 48:13).
— John Lorinus, 1569-1634.
Isto, porém, é um erro, como observa Agostinho; pois está escrito: "Os céus são obra das tuas mãos" (Salmos 102:25).
— C.H.S.
"As tuas mãos." Ah, olha para as feridas de tuas mãos, e não te esqueças da obra de tuas mãos: assim orava a rainha Isabel.
— John Trapp.
Alguns referem o verbo hyhn, "fizeram", à alma, e yhns, "formaram", ao corpo.
— D. H. Mollerus.
Me fizeste e me formaste: dá-me entendimento. A grandeza de Deus não é obstáculo ao seu convívio conosco, pois parte especial da grandeza divina está em poder condescender à pequenez dos seres criados — visto que a condição de criatura, pelo próprio nome, há de ter essa pequenez; pois Deus há de ser sempre Deus, e o homem há de ser sempre homem: o oceano há de ser sempre oceano, a gota há de ser sempre gota.
A grandeza de Deus, envolvendo nossa pequenez como os céus envolvem a terra, e ajustando-se a ela por todos os lados, como o ar penetra todas as partes da terra, é o que torna esse convívio tão completo e bendito: "Na sua mão está a alma de todo ser vivente, e o espírito de toda carne humana" (Jó 12:10). Tal é a proximidade, tal é a intimidade dele com as obras de suas mãos.
É proximidade, não distância, o que o nome Criador implica; e o simples fato de ele nos ter feito é garantia de seu desejo de nos abençoar e de conviver conosco. A comunicação entre a coisa feita e seu feitor está envolvida na própria ideia de criação. "As tuas mãos me fizeram e me formaram: dá-me entendimento, para que eu aprenda os teus mandamentos." "Fiel Criador" é o seu nome (1 Pedro 4:19), e como tal a ele apelamos: "Não desampares a obra de tuas próprias mãos" (Salmos 138:8).
— Horatius Bonar, em The Rent Veil, 1875.
Dá-me entendimento, etc. O livro de Deus é como a loja do boticário: não há ferida para a qual não haja ali remédio; mas se um estranho entra na loja do boticário, ainda que ali estejam todas essas coisas, não sabe onde encontrá-las — só o boticário mesmo sabe. Assim também nas Escrituras: há curas para toda enfermidade, há consolo contra toda tristeza, e, comparando capítulo com capítulo, chegaremos a entendê-las. As Escrituras não nos faltam; nós é que faltamos a nós mesmos; sejamos assíduos nelas, e as entenderemos, enquanto os grandes letrados que as negligenciam permanecem nas trevas.
— Richard Stock.
Dá-me entendimento. Peçamos a Deus que abra o nosso entendimento, para que, assim como nos deu a consciência para nos guiar, também dê olhos a essa guia, para que ela possa nos dirigir corretamente. A verdade é que só Deus pode iluminar solidamente a nossa consciência; por isso, roguemos-lhe que o faça. Todo o nosso estudo, toda a nossa audição, leitura e conferência jamais serão capazes disso; só está no poder daquele que nos fez fazê-lo. Aquele que fez a nossa consciência, só ele pode dar-lhe esta luz celestial de verdadeiro conhecimento e reto entendimento; por isso, busquemo-lo com fervor para isso.
— William Fenner, 1600-1640.
Para que eu aprenda os teus mandamentos. Que ele os aprendesse de modo a conhecer seu sentido e significado, sua pureza e espiritualidade; e de modo a praticá-los por princípio de amor, na fé, e para a glória de Deus: pois não se trata de um mero decorar ou memorizar, nem de uma simples teoria deles, mas da prática deles em fé e amor, que é o que aqui se quer dizer.
— John Gill.
Versículos 73–74Salmo 119:73-74
Destes versos, aprenda-se:
Ainda que nada satisfaça a incredulidade, a verdadeira fé se vale até do benefício mais comum da criação para se fortalecer: As tuas mãos me fizeram e me formaram.
É um bom modo de argumentar com Deus pedir outro dom porque já recebemos um; e, porque ele nos deu benefícios comuns, pedir que nos dê também as graças salvadoras: As tuas mãos me fizeram e me formaram: dá-me entendimento, para que eu aprenda os teus mandamentos.
Vendo que Deus é nosso Criador, e que o fim de nossa criação é servir a Deus, podemos pedir com confiança toda graça que nos capacite a servi-lo, como nos ensina o exemplo do salmista...
Deve ser alegria de todos os crentes ver um de seus irmãos sustentado e amparado em seus sofrimentos; pois, na prova e no exemplo de um só que sofre, dá-se penhor a todos os demais de que Deus os ajudará em caso semelhante: Os que te temem se alegrarão ao me verem.
— David Dickson.
Versículo 74Salmo 119:74
Os que te temem se alegrarão, etc. Os que "temem a Deus" naturalmente se alegram ao ver e conversar com alguém semelhante a si mesmos; mas mais ainda quando se trata de alguém cuja fé e paciência o conduziram através das tribulações, e o tornaram vencedor sobre as tentações; alguém que "esperou na palavra de Deus" e não foi decepcionado. Cada caso desses oferece novo estímulo a todos os que, no curso de sua milícia, ainda vão passar por tribulações e tentações semelhantes. Em todas as nossas provas, lembremo-nos, pois, de que nossos irmãos, tanto quanto nós mesmos, têm profundo interesse no desfecho, o qual pode fortalecer ou enfraquecer as mãos da multidão.
— George Horne.
Os que te temem se alegrarão ao me verem, etc. Quão reconfortante é para os herdeiros da promessa se verem, ou se reunirem: aspectus boni viri delectat, o mero olhar de um homem bom é agradável: é um prazer conversar com os que se esmeram em agradar a Deus, e temem ofendê-lo. Quanto se comovem uns com as misericórdias dos outros: "eles se alegrarão ao me verem", já que alcancei um desfecho correspondente à minha esperança. Virão olhar para mim como monumento e espetáculo da misericórdia e da verdade de Deus.
Mas que misericórdia ele havia recebido? O contexto parece indicar a graça de obedecer aos mandamentos de Deus; essa foi a oração imediatamente anterior, ser instruído e ensinado na lei de Deus (Salmos 119:73). Ora, eles se alegrarão ao ver meu proceder santo, como tenho aproveitado e glorificado a Deus nesse particular.
Os escritores hebreus dão a razão: "Porque então poderei instruí-los naqueles estatutos, quando virem a mim, seu rei, meditar na lei de Deus." Pode-se também entender de qualquer outra bênção ou benefício que Deus lhe tenha dado conforme sua esperança; e prefiro entendê-lo assim: eles se alegrarão ao vê-lo sustentado, amparado e conduzido em suas tribulações e sofrimentos. "Eles se alegrarão ao ver em mim um exemplo notável do fruto de esperar na tua graça."
— Thomas Manton.
"Porque tenho esperado na tua palavra." E não fui decepcionado. A Vulgata traduz supersperavi, "sobre-esperei"; e então Aben Ezra glosa: "esperei em todo o teu decreto" — até mesmo naquele de me afligir, como no verso seguinte.
— John Trapp.
Versículo 75Salmo 119:75
Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos. Muito cedo em minha vida, a árvore do conhecimento me pareceu bela, gloriosa árvore; mas quantos enganos cometi a esse respeito! E quantos enganos ainda abundam sobre aquilo que, na linguagem comum, gostamos de chamar conhecimento. Aquele que leu os clássicos; aquele que se aventurou pela ciência matemática; aquele que é versado em história, gramática e boa elocução; aquele que é apto e pronto para resolver alguma questão intrincada, e versado na antiga erudição — esse é tido por homem de conhecimento; e de fato o é, comparado à massa ignorante da humanidade. Mas o que é tudo isso comparado ao conhecimento do meu texto? Conhecimento do qual poucos dos chamados eruditos têm sequer a menor familiaridade.
"Eu sei" — o quê, Davi? O que sabes? — Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos, e que em fidelidade me afligiste.
Por mais afeiçoado que eu ainda seja a outras especulações, preferiria, e muito, possuir o conhecimento deste homem no meu texto, a ter o mais amplo conhecimento de todo o círculo das ciências, como orgulhosamente se costuma chamá-lo... Suponho que, na primeira parte do verso, o salmista fala em geral das ordenanças, disposições, providência e juízos de Deus; e a afirmação é que ele sabe que são retos, que são equitativos, que são sábios, que são justos, e que não se lhes pode apontar defeito — ainda que os homens, por sua loucura, se lancem em aflição, e então seus corações se irritem contra Deus.
Ele foi abençoado com entendimento superior. Não abre exceção: "Sei que todos os teus juízos são retos." Depois, na segunda parte do texto, ele torna a questão pessoal. Poderia dizer-se que é fácil pensar assim quando se veem as revoluções dos reinos, os tronos que titubeiam, as aflições de uns mortais e as dores de outros, e concluir que tudo está certo.
"Sim", diz ele, "mas tenho a mesma convicção quanto a todas as minhas próprias dores; sei que em fidelidade me afligiste."
— De um sermão de John Martin, 1817.
Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos, etc. O texto tem a forma de um discurso dirigido a Deus. Encontramos isso com frequência em Davi: quando quer exprimir algum sentimento profundo, ou algum ponto de experiência espiritual, ele o faz assim — dirigindo-se a Deus. Os que amam a Deus se comprazem em manter comunhão com ele; e há sentimentos que a mente espiritual encontra peculiar conforto e prazer em dizer ao próprio Deus.
"Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos." Deus ordena todas as coisas, e seus "juízos" aqui significam suas disposições, decisões e tratos gerais — não apenas as aflições, embora as incluam. E quando o salmista diz "os teus juízos", ele se refere especialmente aos juízos de Deus para com ele, aos tratos de Deus com ele, e assim a tudo o que lhe acontecera, ou haveria de lhe acontecer. Pois no credo do salmista não havia tal coisa como acaso. Deus ordenava tudo o que lhe sucedia, e ele gostava de pensar assim.
Ele expressa confiança segura e feliz em tudo o que Deus fizera, e faria, a seu respeito. Confiava plenamente na sabedoria de Deus, no poder de Deus, no amor de Deus. "Sei que os teus juízos são retos" — bem retos, retos em todo sentido, sem um único ponto que pudesse ter sido melhor, perfeitamente sábios e bons. Ele mostra a mais firme persuasão disso. "Eu sei", diz ele, não apenas "eu penso."
Mas essas próprias palavras, "eu sei", mostram claramente que isto era questão de fé, não de vista. Pois ele não diz "posso ver que os teus juízos são retos", mas "eu sei". O sentido é claramente: "Ainda que não possa ver tudo — ainda que haja coisas em teus tratos que não posso entender plenamente — creio, estou persuadido, e assim sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos."
"Os teus juízos." Não alguns deles, mas todos. Ele contempla todos os tratos de Deus com ele, e diz deles, sem exceção: "Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos." Quando as coisas que nos acontecem são claramente para nosso conforto e bem, como muitas são, recebemos com gratidão o que Deus assim nos envia, o reconhecemos como Doador de tudo, e o bendizemos por seu trato gracioso; e isso é reto.
Mas toda a fé exigida para isso (e há alguma fé nisso) é reconhecer que Deus trata conosco, em vez de receber os dons sem pensar no Doador, ingratamente. É um grau de fé muito mais elevado dizer, de todos os tratos de Deus, mesmo quando não parecem voltados para nossa felicidade: "Sei que os teus juízos são retos."
Contudo, é este o sentido aqui, ou certamente o sentido principal. Pois, embora a palavra "juízos" signifique os tratos de Deus de toda espécie, aqui as palavras seguintes fazem-na aplicar-se especialmente aos tratos aflitivos de Deus, isto é, àqueles tratos seus que não parecem voltados para nossa felicidade: Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos, e que em fidelidade me afligiste.
Os juízos que o salmista principalmente tinha em vista, e dos quais estava tão certo de que eram retos, não eram alegrias, mas tristezas; não coisas concedidas, mas coisas tiradas; aquelas bênçãos disfarçadas, aquelas misericórdias veladas, aqueles dons vestidos de luto, que Deus tantas vezes envia a seus filhos. O salmista sabia, e sabia contra toda aparência em contrário, que esses juízos eram "retos."
Fossem quais fossem — perdas, lutos, decepções, dor, enfermidade — eram retos; tão retos quanto as bênçãos mais manifestas que os precederam; bem retos, perfeitamente retos; tão retos que não poderiam ter sido melhores; exatamente o que era melhor; e tudo porque eram juízos de Deus. Essa única coisa satisfazia a mente do salmista, e punha fim a toda dúvida. Dos tratos em si ele poderia duvidar, mas não daquele a quem pertenciam. "Os teus juízos." Isso resolvia tudo.
"E que em fidelidade me afligiste." Isso significa que, ao determinar a tribulação como sua sorte, Deus tratara com ele em fidelidade à sua palavra, fidelidade a seus propósitos de misericórdia, com amor fiel, não fraco. Enviara-lhe exatamente o que mais lhe convinha, ainda que nem sempre o que mais lhe agradasse; e nisso se mostrara fiel. Com brandura e amor trata o Senhor os seus filhos. Ele não dá dor desnecessária; mas o que é necessário, não reterá.
— Francis Bourdillon, 1881.
"Os teus juízos." Há judicia oris, e há judicia operis: os juízos da boca de Deus, e os juízos das mãos de Deus. Dos primeiros há menção no verso 13: "Com os meus lábios declarei todos os juízos da tua boca" (Salmos 119:13). E por esses "juízos" não se entende senão a santa lei de Deus, e toda a sua palavra escrita — que, por todo este salmo, são indiferentemente chamados seus "estatutos", seus "mandamentos", seus "preceitos", seus "testemunhos", seus "juízos".
E as leis de Deus, por isso, entre outras razões, recebem o nome de "juízos", porque por elas chegamos a um reto juízo pelo qual discernimos entre o bem e o mal. De outro modo não poderíamos julgar com certeza o que nos convinha fazer, e o que nos era necessário evitar. A lege tua intellexi — "Pela tua lei obtive entendimento" (Salmos 119:104).
São Paulo confessa (Romanos 7:1-25) que nunca soubera corretamente o que era o pecado, não fosse a lei; e cita o exemplo da cobiça, que não saberia ser pecado se a lei não dissesse: "não cobiçarás." E não há dúvida de que esses "juízos", esses judicia oris, também são todos "retos"; pois seria irracional pensar que Deus fizesse regra de retidão para nós de algo que em si não fosse reto.
Temos tanto o nome ("juízos") quanto a coisa (que são "retos") no Salmo 19; onde, tendo elogiado amplamente a lei de Deus sob as diversas denominações de "lei", "testemunhos", "estatutos" e "mandamentos" (Salmos 19:7-8), o profeta então conclui sob este nome de "juízos" (Salmos 19:9): "Os juízos do Senhor são verdadeiros e justos, todos eles."
Além destes judicia oris, que são os juízos de Deus para direção, há também os judicia operis, que são seus juízos para correção. E estes sempre incluem aliquid paenale, algo infligido a nós pelo Deus Todo-Poderoso, como que a título de punição; algo que gera em nós tribulação ou pesar. O apóstolo diz em Hebreus 12:1-29 que todo castigo é penoso; e de fato o é, mais ou menos; do contrário não poderia ser punição para nós.
E estes, de novo, são de dois tipos; mas não se distinguem tanto pelas coisas em si que são infligidas, quanto pela condição das pessoas sobre quem são infligidas, e especialmente pelo afeto e pela intenção de Deus que as inflige. Pois todas — sejam calamidades públicas que caem sobre nações inteiras, cidades ou outras sociedades maiores ou menores de homens (como pestes, fome, guerra, inundações, tempo fora de estação), sejam aflições privadas semelhantes, que caem sobre famílias ou pessoas particulares (como doença, pobreza, desonra, injúrias, morte de amigos, e coisas semelhantes) — todas estas, e quaisquer outras de um ou outro tipo, podem receber dupla consideração; em qualquer uma delas podem, não sem propriedade, ser chamadas juízos de Deus, ainda que sob respeitos diferentes.
Vemos agora os diversos tipos de juízos de Deus: qual, de todos estes, pensamos ser o que aqui se quer dizer? Se os tomássemos todos juntos, a conclusão os abrangeria, e seria verdadeira também. Judicia oris e judicia operis; juízos públicos e privados; aquelas pragas com que, em fúria, pune seus inimigos, e aquelas varas com que, em misericórdia, corrige seus filhos: é certíssimo que todos são "retos."
Mas concebo que esses judicia oris não sejam propriamente o que se quer dizer aqui; pois a explicação na segunda parte do verso (na qual o que aqui se chama juízos ali se expõe como tribulações) parece excluí-los, e restringir o texto, em sua intenção própria, apenas a esses judicia operis — mas a todos eles, de qualquer espécie que sejam: públicos ou privados, pragas ou correções. De todos estes ele declara que são "retos"; e este é o predicado da conclusão: "Eu sei, ó Senhor, que os teus juízos são retos."
— Robert Sanderson.
Em fidelidade me afligiste. Note-se a ênfase: ele não reconhece meramente que Deus foi fiel apesar de tê-lo afligido, mas fiel ao enviar as aflições. Aflição e tribulação não apenas são compatíveis com o amor de Deus empenhado na aliança da graça; são partes e ramos da própria administração da nova aliança. Deus não é fiel apesar das aflições, mas fiel ao enviá-las.
Há diferença entre essas duas coisas: uma é como exceção à regra, quae firmat regulam in non exceptis [que confirma a regra nos casos não excetuados]; a outra a torna parte da regra — Deus não pode ser fiel sem fazer tudo o que tende ao nosso bem e à nossa eterna salvação. A condução de sua providência é parte do compromisso da aliança: assim como perdoar nossos pecados, santificar-nos e por fim nos dar glória, também ajustar sua providência conforme exigem nossa necessidade e proveito no caminho para o céu.
É um ato de sua soberana misericórdia, que prometeu ao seu povo, usar a disciplina que conduz à sua segurança. Em suma: a cruz não é uma exceção à graça da aliança, mas parte da graça da aliança.
A causa de toda aflição é o pecado, por isso deve-se reconhecer a justiça; seu fim é o arrependimento, por isso deve-se reconhecer a fidelidade. O fim não é destruição e ruína — o que faria das aflições atos de justiça, como sobre os ímpios —, mas que sejamos aptos a receber as promessas; e assim são atos de fidelidade.
— Thomas Manton.
Em fidelidade me afligiste. Isto é, com sincera intenção de me fazer bem. Deus conhece plenamente a nossa constituição, o que é nocivo à nossa saúde, e o que pode remediar nossos males; e por isso nos dispõe, conforme convém,
Pro jucundis aptissima quaeque
em vez de mel agradável, às vezes nos prescreve saudável absinto. Nós mesmos ignoramos em grande parte o que é conducente ao nosso verdadeiro bem, e, se nos fosse inteiramente permitida a escolha de nossa condição, faríamos escolhas muito tolas, muito prejudiciais.
Certamente, todos nós abraçaríamos um estado rico e farto; quando, Deus sabe, isso nos tornaria indolentes e devassos, nos incharia de orgulho e pensamentos altivos, nos sobrecarregaria de cuidados ansiosos, e nos exporia a perigosas tentações; nos tornaria esquecidos de nós mesmos e negligentes para com ele. Por isso ele sabiamente nos dispõe a pobreza; a pobreza, mãe da sobriedade, ama da diligência, mestra da sabedoria; que nos fará entender a nós mesmos e nossa dependência dele, e nos forçará a recorrer ao seu socorro. E não há razão para sermos gratos pelos meios com que somos livrados desses males desesperados, e obtemos essas excelentes vantagens?
Certamente, todos nós escolheríamos o favor e o aplauso dos homens: mas isso, Deus também sabe, corromperia nossas mentes com vã presunção, embriagaria nossa fantasia com prazer espúrio, nos tentaria a atribuir a nós mesmos, desmedidamente, e a privar sacrilegamente Deus da honra que lhe é devida. Por isso ele deliberadamente nos permite incorrer no desprezo e no desagrado, no ódio e no desdém dos homens: para que ponhamos nossa glória somente na esperança de seu favor, e busquemos com mais empenho os prazeres mais puros de uma boa consciência. E não merece esta parte da providência divina, em alto grau, nossa gratidão?
Todos nós quereríamos subir a lugares altos, sem considerar os precipícios sobre os quais se assentam, nem a vertigem de nossas próprias cabeças: mas Deus nos mantém seguros nos humildes vales, atribuindo-nos ocupações que somos mais capazes de administrar.
Talvez abusássemos insolentemente do poder, se nos fosse confiado: empregaríamos grandes dotes em projetos descomunais, como muitos fazem, para perturbação alheia e ruína própria: vasto conhecimento nos faria supervalorizar a nós mesmos e desprezar os outros: gozando saúde contínua, não perceberíamos seu benefício, nem nos lembraríamos de quem a deu. Uma medida conveniente dessas coisas, portanto, a bondade divina nos concede, para que não pereçamos de falta, nem nos fartemos em excesso.
Em suma, as vantagens que nascem das aflições são tão numerosas e tão grandes que seria fácil demonstrar que temos boa razão não só para nos contentarmos com elas, mas para nos alegrarmos nelas, e sermos muito gratos por todas as cruzes e vexames que encontramos; para recebê-los alegremente da mão de Deus, como remédios de nossa alma, e temperos de nossa sorte; como provas de sua boa vontade, e instrumentos de virtude; como fundamentos sólidos de esperança, e presságios confortadores de alegria futura para nós.
— Isaac Barrow.
Em fidelidade me afligiste. Quando um pai renega e expulsa um filho, não mais o corrige. Assim também Deus pode deixar sem castigo aquele a quem pretende destruir; mas nunca aquele com quem está em aliança.
— William S. Plumer.
"Eu sei, ó Senhor", etc.
Contudo, Senhor, no lugar mais querido da memória
guardo aquelas estações tristes,
quando, erguendo os olhos, vi o teu rosto
vestido de severidade bondosa.
Não quereria perder um só suspiro ou lágrima,
pontada no coração, ou fronte latejante:
doce foi o castigo severo,
e doce é agora sua memória.
Sim! que permaneçam as cicatrizes fragrantes,
sinais de amor em teu lugar,
sombras tênues do lado trespassado pela lança,
e da cabeça cingida de espinhos.
E que assim seja ainda tua força terna,
quando o eu quiser desviar-se ou vaguear,
moldando à verdade a vontade rebelde
ao longo do teu caminho estreito.
— John Henry Newman, 1829.
Versículo 76Salmo 119:76
Sirva, eu te suplico, a tua benignidade misericordiosa para o meu consolo. No verso anterior, ele reconheceu que o Senhor o afligira; agora, neste, roga ao Senhor que o console. É estranho que um homem busque consolo na mesma mão que o fere: é obra da fé; a natureza jamais nos ensinaria a fazê-lo.
"Vinde, e voltemos ao Senhor; porque ele despedaçou, e nos sarará; feriu, e nos atará." De novo vemos que as cruzes que Deus põe sobre seus filhos não são para confundi-los nem consumi-los; apenas para prepará-los para maiores consolações.
Com isto Davi se sustentou contra a maldição de Simei: "O Senhor olhará para a minha aflição, e me fará bem por este mal de hoje"; com isto nosso Salvador consola seus discípulos: "A vossa tristeza se tornará em alegria."
Assim como o último estado de Jó foi melhor que o primeiro, também o Senhor retribuirá mais a seus filhos ao final do que lhes tira agora no princípio: suportemos, pois, a sua cruz, como preparo para o consolo.
— William Cowper.
Sirva a tua benignidade misericordiosa para o meu consolo. Vários dos versos anteriores falaram de aflição (Salmos 119:67; Salmos 119:71; Salmos 119:75). O salmista agora apresenta sua petição de alívio sob ela. Mas de que tipo? Ele não pede que ela seja removida. Não "suplica ao Senhor que se aparte dele" (2 Coríntios 12:8). Não. Seus repetidos reconhecimentos dos apoios que lhe foram concedidos sob ela, e dos benefícios que dela colheu, o haviam reconciliado a entregar ao Senhor sua medida e sua duração. Tudo o que ele precisa, e tudo o que pede, é um senso de sua "benignidade misericordiosa" sobre a alma. Assim ele se submete à justiça de Deus em suas provas acumuladas, e espera consolo sob elas apenas com base em seu favor gratuito.
— Charles Bridges.
Sirva a tua benignidade misericordiosa, etc. Que eu derive meu consolo e felicidade de uma difusão do teu amor e misericórdia, kdmh chasdecha, tua bondade exuberante, por toda a minha alma.
— Adam Clarke.
"Segundo a tua palavra ao teu servo." Se a sua promessa não lhe agradava, por que a fez? Se a nossa confiança na promessa não lhe agradava, por que a sua bondade a produziu? Seria incompatível com a sua bondade escarnecer de sua criatura, e seria o mais alto escárnio publicar sua palavra, e criar no coração de seu suplicante uma disposição ajustada à sua promessa, que ele nunca pretendia satisfazer.
Ele não pode fazer mal à sua criatura tanto quanto não pode fazer mal a si mesmo, e por isso jamais pode decepcionar aquela fé que, seguindo os métodos do próprio Deus, se lança nos braços de sua benignidade, e é sua própria obra, e o chama de autor.
Aquela bondade que se comunicou tão livremente à criação irracional não vai negligenciar essas criaturas mais nobres que nele depositam sua confiança. Isso torna Deus objeto adequado de confiança e fé.
— Stephen Charnock.
"Segundo a tua palavra." Davi tinha uma promessa particular de um benefício particular, a saber, o reino de Israel. E essa promessa Deus lhe cumpriu; mas seu consolo não estava nela; pois Saul, antes dele, tivera o reino, mas as promessas de misericórdia não lhe pertenciam, e por isso, quando Deus o abandonou, seu reino não pôde sustentá-lo. Mas Davi aqui depende das promessas gerais da misericórdia de Deus feitas a seus filhos, nas quais reconhece uma promessa particular de misericórdia feita a ele. Pois as promessas gerais de misericórdia e graça feitas no evangelho tornam-se, pela fé, particulares a cada crente.
— William Cowper.
"A tua palavra ao teu servo." Aqui podemos usar a pergunta do eunuco: "De quem diz o profeta isto, de si mesmo, ou de algum outro homem?" De si mesmo, sem dúvida, sob a designação de servo de Deus. Mas então a pergunta retorna: é uma palavra de promessa feita a ele em particular, ou aos servos de Deus em geral? Alguns dizem a primeira, as promessas trazidas a ele por Natã. Eu me inclino à segunda, e ela nos ensina estas três verdades:
Primeiro. Que somente os servos de Deus são capazes dos doces efeitos de sua misericórdia e dos consolos de suas promessas. Quem são os servos de Deus? (1) Os que reconhecem o direito dele e sentem seu interesse sobre si: "de Deus, de quem sou e a quem sirvo" (Atos 27:23). (2) Os que se entregam a ele, renunciando a todos os outros senhores. Renunciar devemos, pois antes estávamos sob outro senhor (Romanos 6:17; Mateus 6:24; Romanos 6:13; 2 Crônicas 30:8).
(3) Os que, de acordo, se dispõem a fazer sinceramente a sua obra: "sirvo com o meu espírito" (Romanos 1:9); e "em novidade de espírito" (Romanos 7:6), como convém aos que são renovados pelo Espírito: diligentemente (Atos 26:7), e universalmente (Lucas 1:74-75), e o aguardam por graça para fazê-lo (Hebreus 7:28). Estes são capazes de consolo. O livro de Deus não fala consolo a pessoas que vivem no pecado, mas aos servos de Deus, que não vivem como se dispusessem de si mesmos, mas ao aceno de Deus. Se ele diz "vai", eles vão. Entregam-se a ser e fazer o que Deus quiser que sejam e façam.
Segundo. Se queremos ter o benefício da promessa, devemos nos incluir sob um ou outro título entre aqueles a quem a promessa é feita; se não como filhos de Deus, ao menos como servos de Deus. Então a promessa nos é tão certa como se nosso nome estivesse nela.
Terceiro. Todos os servos de Deus têm fundamentos comuns de consolo: cada um dos servos de Deus pode argumentar com Deus como faz Davi. Os consolos da palavra são a porção comum do povo de Deus.
— Thomas Manton.
"A tua palavra ao teu servo." Nosso Amo empenhou sua palavra a todos os seus servos de que será bondoso com eles, e eles podem alegá-la diante dele.
— Matthew Henry.
Versículo 77Salmo 119:77
Venham a mim as tuas ternas misericórdias, para que eu viva. Se observarmos com atenção, veremos que Davi aqui busca outra espécie de misericórdia da que buscava antes. Pois primeiro buscou misericórdia para perdoar seus pecados; depois buscou misericórdia para consolá-lo em suas tribulações; agora busca misericórdia para viver, e não pecar mais.
Ai, muitos buscam a primeira misericórdia, a da remissão, e a segunda, a do consolo na tribulação, mas são de todo descuidados quanto à terceira misericórdia, a de viver bem. É grande misericórdia de Deus emendar a tua vida: onde isso não existe, ninguém pense ter recebido nenhuma das anteriores.
É grande misericórdia de Deus a que não só perdoa o mal que se fez, mas também nos fortalece para o bem que ainda não fizemos; e esta é a misericórdia que Davi aqui busca.
— William Cowper.
Venham a mim as tuas ternas misericórdias, etc. As misericórdias de Deus são "ternas misericórdias", são as misericórdias de um pai para com seus filhos, mais ternas ainda que a compaixão de uma mãe pelo filho de seu ventre. Elas "vêm até" nós, quando não somos capazes de ir até elas. Só por elas "vivemos" a vida da fé, do amor, da alegria e do júbilo. E aos que se "deleitam" em sua lei, Deus concederá essas misericórdias, e esta vida; ele lhes dará perdão, e, com isso, lhes dará vida dentre os mortos.
— George Horne.
Venham a mim as tuas ternas misericórdias, etc. Tomando a tradução mais literal, as palavras expressam alta confiança: "As tuas ternas misericórdias virão a mim, e viverei; porque a tua lei é a minha delícia." Se o crente não tivesse senão os próprios méritos para sustentar sua súplica diante do trono da graça, jamais poderia elevar-se a essa alta confiança. Ele se apoia no fundamento da bondade divina, manifesta através do Ungido, e nisso se apoia com segurança.
— John Stephen.
"Venham." Vir a ele indica uma aplicação pessoal e eficaz. Primeiro, uma aplicação pessoal, como em Salmos 119:41: "Venham também a mim as tuas misericórdias, ó Senhor, e a tua salvação, segundo a tua palavra." Davi não queria ser esquecido, nem deixado de lado, nem perdido na multidão da humanidade, quando a misericórdia distribuía a bênção entre eles. Segundo, aplicação eficaz: o que significa, (1) a remoção de obstáculos e impedimentos; (2) a obtenção dos frutos e efeitos desta misericórdia.
Primeiro: a remoção dos obstáculos. Enquanto não se abre caminho, a misericórdia de Deus não pode chegar até nós; pois o caminho está barricado e fechado por nossos pecados: assim como o Senhor abre caminho para sua ira (Salmos 78:50), removendo os impedimentos, assim o Senhor abre caminho para sua misericórdia, ou a misericórdia abre caminho para si mesma, quando remove o obstáculo. O pecado é o grande impedimento da misericórdia. Nós mesmos levantamos as névoas e as nuvens que interceptam a luz do rosto de Deus; construímos o muro de separação entre Deus e nós; ainda assim, a misericórdia encontra o caminho.
Segundo: a obtenção dos frutos da misericórdia... Não basta ouvir algo das misericórdias salvadoras de Deus; devemos rogar que elas venham até nós, que nos sejam comunicadas de modo eficaz e sensível, para que tenhamos experiência delas em nossa própria alma.
Um homem que leu sobre o mel, ou ouviu falar do mel, pode conhecer sua doçura por suposição e imaginação; mas um homem que provou o mel conhece sua doçura de fato: assim, ao ler e ouvir sobre a graça e a misericórdia de Deus em Cristo, podemos supor que é coisa doce; mas quem teve prova experimental dos doces efeitos e frutos dela em seu próprio coração percebe que tudo o que se diz sobre o perdão e o consolo de Deus aos pecadores se cumpre nele mesmo.
— Thomas Manton.
"A tua lei é a minha delícia." O filho de Deus, embora não possa servir ao Senhor perfeitamente, o serve de boa vontade; sua vontade está na lei do Senhor; não é soldado recrutado à força, mas voluntário. Por esse pulsar podemos julgar se há vida espiritual em nós, ou não. Davi professa que a lei de Deus era sua delícia; tinha sua coroa para se deleitar, tinha sua música para se deleitar; mas o amor que tinha pela lei de Deus afogava todas as outras delícias, assim como a alegria da colheita e da vindima excede a alegria da respiga.
— Thomas Watson.
Versículo 78Salmo 119:78
Envergonhem-se os soberbos, etc. Eis a justa recompensa de sua soberba. Ele bem que quereria honra e preeminência, mas Deus não lhas dará: ele foge da vergonha e do desprezo, mas Deus os derramará sobre ele. "Porque procederam perversamente comigo sem causa." Davi se queixa do trato ímpio e falso de seus inimigos contra ele; e sua oração está escrita para nos sustentar em tentação semelhante.
Pois Satanás é sempre igual a si mesmo, odiando aqueles a quem o Senhor ama. Dificilmente poderia ser pior, nunca poderia ser melhor; e por isso, com malícia incansável, ele instiga todos os seus malditos instrumentos, nos quais reina, a perseguir os que são amados e protegidos do Senhor.
"Mas eu meditarei nos teus preceitos." Os inimigos de Davi combatiam contra ele com as armas da carne, a maldade e a falsidade: ele lhes resiste com a armadura do Espírito, não enfrentando maldade com maldade, nem falsidade com falsidade. Pois, se lutarmos contra Satanás com as armas de Satanás, ele logo nos vencerá; mas se vestirmos toda a armadura de Deus para resisti-lo, ele fugirá de nós.
— William Cowper.
Envergonhem-se os soberbos. Isto é, que não prosperem nem tenham êxito em suas tentativas; pois os homens se envergonham quando são frustrados. Todos os esforços deles para exterminar o povo de Deus são vãos e infrutíferos, e as coisas que sutilmente tramaram não produzem o efeito que se propuseram.
"Porque procederam perversamente comigo sem causa." A Septuaginta traz adikōs, "injustamente". Ainsworth lê: "Com falsidade me depravaram." Isso implica duas coisas: primeiro, que fingiram uma causa; mas, segundo, Davi afirma sua inocência diante de Deus; e assim, sem culpa nenhuma sua, acusaram, difamaram, condenaram suas ações, como é costume nesses casos.
Quando os soberbos são incômodos e prejudiciais ao povo de Deus, os santos podem confiadamente entregar sua causa a Deus... Pode-se apelar ao Senhor por duplo motivo: em parte, porque ele é inimigo dos soberbos, e amigo dos humildes (Tiago 4:6; Salmos 138:6); em parte, porque ele é a porção dos aflitos e oprimidos (Salmos 140:12). Quando Satanás instiga seus instrumentos a odiar aqueles a quem o Senhor ama, o Senhor levantará seu poder para ajudá-los e defendê-los.
Não é esta uma oração vingativa? Resposta: não. Primeiro, porque os que a oferecem buscam sua própria libertação, para que, em consequência, possam servir a Deus mais livremente. De fato, ao mostrar Deus misericórdia a seu povo, a soberba dos ímpios é reprimida (Salmos 119:134); mas a misericórdia é o objeto principal da oração.
Segundo. No que diz respeito a seus inimigos, ele o expressa em termos brandos — que sejam "envergonhados"; isto é, frustrados em seus conselhos, esperanças, maquinações e empreendimentos. Por isso não é contra as pessoas de seus inimigos, mas contra seus planos e empreitadas. Nesses casos, a vergonha e a frustração podem até lhes fazer bem. Eles pensam em promover a supressão total do povo de Deus, mas isso os endureceria em seus pecados; por isso o povo de Deus deseja que ele não deixe pisar sua inocência, mas frustre seus adversários, para que os soberbos se envergonhem no fracasso de suas tentativas.
Terceiro. As orações dos justos pela derrocada dos ímpios são uma espécie de profecia; de modo que, ao orar, Davi na verdade prediz que os que procederam perversamente logo se envergonhariam, já que uma boa causa nem sempre é oprimida: "Mas ele aparecerá para vossa alegria, e eles se envergonharão" (Isaías 66:5).
Quarto. Os santos têm liberdade para imprecar vingança, mas isso deve ser usado com moderação e grande cautela: "Sejam confundidos e consumidos os que são adversários da minha alma" (Salmos 71:13). Contra inimigos maliciosos, pode-se orar expressamente.
— Thomas Manton.
Envergonhem-se os soberbos. Isto sugere uma palavra aos ímpios. Cuidado, para que, com vosso ódio implacável à verdade e à igreja de Deus, não provoqueis suas orações contra vós. Estas orações imprecatórias dos santos, quando disparadas no alvo certo, e devidamente elevadas, são peças de artilharia mortais, e atingem fatalmente onde caem.
"Não vingará Deus os seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite, ainda que ele seja longânimo para com eles? Digo-vos que depressa os vingará." (Lucas 18:7-8). Não são palavras vazias — como as imprecações dos ímpios lançadas ao ar, que ali se dissipam com seu próprio hálito —, mas são recebidas no céu, e serão devolvidas com trovão e relâmpago sobre a cabeça dos ímpios.
A oração de Davi desfez a política tão bem tramada de Aitofel, e lhe apertou o próprio laço. As orações dos santos são mais temíveis — como certa vez disse e sentiu um grande homem — do que um exército de vinte mil homens em campo. O jejum de Ester apressou a ruína de Hamã, e o de Ezequias contra Senaqueribe levou seu enorme exército ao morticínio, e fez descer um anjo do céu para executar, numa só noite, o castigo sobre eles.
— William Gurnall.
"Os soberbos." Os ímpios, especialmente os perseguidores do povo de Deus, costumam ser caracterizados neste salmo por este termo, "os soberbos" (Salmos 119:51; Salmos 119:69; Salmos 119:122). A soberba leva os ímpios a serem incômodos e prejudiciais ao povo de Deus. Mas por que os perseguidores e os que fazem injúria são chamados "os soberbos"?
Porque os ímpios sacodem o jugo de Deus, e não se sujeitam a seu Criador, e por isso não desistem de perturbar seu povo: "Quem é o Senhor, para que eu ouça a sua voz e deixe ir Israel?" (Êxodo 5:2). O que estava em sua língua está no coração de todos os homens; eles desprezam a Deus e suas leis. Todo pecado tem em si um grau de soberba, e uma recusa de Deus (2 Samuel 12:9).
Porque estão embriagados de felicidade mundana, e nunca pensam em mudanças. "A nossa alma está sobremaneira farta da zombaria dos que estão à vontade, e do desprezo dos soberbos" (Salmos 123:4). Quando os homens prosperam, tendem a incomodar injustamente os outros, e depois a escarnecer deles em sua miséria, e a desprezar a pessoa e a causa do povo de Deus, o que é efeito certo de grande arrogância e soberba.
Pensam que podem fazer o que bem entenderem: "Não há mudanças para eles; por isso não temem a Deus", e estendem as mãos contra os que estão em paz com eles (Salmos 55:19-20): enquanto prosperam sem perturbação, não conseguem se abster da violência e da opressão.
Porque cultivam uma vida de pompa, comodidade e grandeza carnal, e por isso desprezam a aflição, a humildade e a simplicidade do povo de Deus. A falsa igreja costuma ter a vantagem do poder mundano e da glória exterior; e a verdadeira igreja se conhece pelo poder divino, pelos dons e graças, e pelo brilho da santidade.
Chamam-se "soberbos" por causa de seu porte insolente para com o povo do Senhor; em parte em suas leis e ordenanças, exigindo dele mais honra, respeito e obediência do que a consciência pode conceder; como Hamã queria que Mardoqueu se dedicasse a ele à maneira dos persas (Ester 3:5).
— Condensado de Manton.
Quando qualquer de vós, diz Cesário, "estiver cantando o verso do Salmo em que se diz: Envergonhem-se os soberbos, empenhe-se em evitar a soberba, para escapar da vergonha eterna."
— William Kay.
Mas eu meditarei nos teus preceitos. Ele repete muitas vezes a mesma coisa; e, se o mundo não pudesse conter os livros que se poderiam escrever sobre Cristo, e ainda assim, por nossa fraqueza, o Senhor os resumiu em tão poucos livros, e mesmo assim uma coisa neles se repete com frequência, isso mostra que o assunto é de peso, e deve ser por nós devida e frequentemente considerado.
E de novo se nos ensina que isto é algo que ninguém observa com o cuidado devido. E ele mostra que, assim como seus inimigos buscavam feri-lo por meios maus, também ele buscava manter boa consciência, para que não pudessem feri-lo.
Não devemos, então, opor política a política, nem cretizare cum Cretensibus [usar de astúcia cretense contra os cretenses]; mas voltemo-nos sempre para a palavra, e mantenhamo-nos dentro de seus limites, e lutemos com as armas que ela nos empresta... Se nos entregássemos a Deus e à sua palavra, e não admitíssemos senão o que com ela concorda, seríamos feitos mais sábios que nossos inimigos.
— Richard Greenham.
"Eu meditarei nos teus preceitos." O verbo asiach, na segunda parte do verso, pode ser traduzido tanto "eu falarei de" quanto "eu reiterarei sobre"; sugerindo que, obtida a vitória, ele proclamaria a bondade de Deus, que experimentara. Falar dos estatutos de Deus equivale a declarar, a partir da lei, com que fidelidade ele guarda seus santos, com que segurança os livra, e com que justiça vinga suas injúrias.
— John Calvin.
"Meditar." As verdades jazem ocultas no coração, sem eficácia nem poder, até serem aproveitadas por pensamentos profundos, sérios e insistentes... Levar depressa uma vela por uma sala não nos dá visão tão completa do objeto quanto ficar parado um instante a contemplá-lo. Uma contemplação constante é grande vantagem.
— Thomas Manton.
Versículo 79Salmo 119:79
Voltem-se para mim os que te temem. Alguns pensam que isto indica que, quando Davi cometera aquele feio pecado no assassinato de Urias, embora fosse rei, os que temiam a Deus se tornaram estranhos a ele, e se afastaram, pois se envergonhavam dele; isso o afligiu, e por isso ora: Senhor, faze com que "se voltem para mim" outra vez. Ele deseja especialmente a companhia dos que eram não só honestos, mas inteligentes, "que conheceram os teus testemunhos", que têm boa cabeça tanto quanto bom coração, e cuja conversa será edificante. É desejável ter intimidade com tais pessoas.
— Matthew Henry.
Voltem-se para mim os que te temem, etc. Assim como ele não tinha apenas sua própria carne contra a qual lutar, mas também o mundo, também ele não lutava sozinho, mas buscava a ajuda de outros. Quando muitos veem que a religião não pode ser verdadeiramente professada sem que disso venha perigo, porque muitos se opõem a ela, fogem dela, e vão para o lado maior, que é o dos ímpios.
Se quisermos evitar isso, unamo-nos aos filhos de Deus, e eles nos ajudarão com conselho e orientação; pois um pode ser forte quando estamos fracos, outro pode ter conselho quando não saberemos o que fazer; assim, por meio deles seremos guardados de muitos males.
Assim Paulo (2 Timóteo 1:16), depois de se queixar do mal que muitos lhe haviam feito, logo em seguida dá graças pela família de Onesíforo, que o reanimou mais do que todos os seus inimigos puderam desanimá-lo; a ponto de ousar opor essa única casa a toda a súcia dos ímpios.
— Richard Greenham.
Voltem-se para mim os que te temem, etc. É preciso ir a Deus e suplicar-lhe que escolha por nós a nossa companhia. Note-se o que Davi disse e fez: em Salmos 119:63 ele diz: "Sou companheiro de todos os que temem ao Senhor"; contudo, neste verso, ele vai a Deus e ora, dizendo: "Voltem-se para mim, ó Senhor, os que te temem, e os que conheceram os teus testemunhos."
Como se dissesse: "Na verdade, Senhor, sou companheiro de todos os que te temem; mas não está em meu poder inclinar o coração deles para mim; o coração de todos os homens está em tuas mãos"; por isso agora "voltem-se para mim os que te temem." Vai tu também a Deus, e dize da mesma forma: Senhor, escolhe tu a minha companhia; ah, inclina e curva o coração deles para serem meus companheiros.
— William Bridge.
"Os que temem." "Os que conheceram." O temor e o conhecimento formam o homem piedoso. Conhecimento sem temor gera presunção; e temor sem conhecimento gera superstição; e o zelo cego, como cavalo cego, pode ter muito ânimo, mas está sempre tropeçando. O conhecimento deve dirigir o temor, e o temor deve temperar o conhecimento; então é uma feliz mistura e composição.
— Thomas Manton.
Um grande meio de restaurar o bom entendimento entre o povo de Deus é a oração. Davi vai a Deus com isso: "Senhor, faze com que se voltem para mim." O Senhor governa os corações e os interesses; ambos estão em suas mãos, e ele usa o afastamento ou a reconciliação deles, seja para juízo, seja para misericórdia.
Deus, quando lhe apraz, pode desviar de nós o conforto de amigos piedosos; e, quando lhe apraz, pode trazê-los de volta a nós. Os pés dos filhos de Deus são dirigidos pelo próprio Deus; se vêm a nós, é bênção de Deus; se não, é para correção. Ele fez com que Jacó e Labão se encontrassem em paz (Gênesis 31), e, no capítulo seguinte, Jacó e Esaú.
— Thomas Manton.
Versículo 80Salmo 119:80
Seja o meu coração íntegro. O que é um coração íntegro? Indica realidade e solidez na graça. A Septuaginta traz: "Seja o meu coração sem mácula nem defeito." Implica a realidade da graça, em oposição à mera forma de piedade, ou às belas aparências dos hipócritas, e aos movimentos súbitos e passageiros dos que são temporários na fé.
Se quiserdes que eu exponha o que é este coração íntegro, exigem-se estas quatro coisas:
Um entendimento iluminado; isto é, a parte diretiva da alma; e é íntegro quando se mantém livre do fermento e do contágio do erro: "O homem de entendimento anda retamente" (Provérbios 15:21). Uma mente íntegra é grande ajuda para um coração íntegro.
Exige-se uma consciência desperta, que nos avisa do dever, e se levanta em repúdio ao pecado em toda ocasião: "Quando andares, ela te guiará; quando dormires, ela te guardará; e quando acordares, falará contigo" (Provérbios 6:22): ter um monitor constante no peito, que nos lembre de Deus, quando nossos rins nos pregam de noite (Salmos 16:7): há um espião secreto em nosso peito que observa tudo o que fazemos, pensamos e falamos; um capelão doméstico, que está sempre nos pregando. Seu coração é sua Bíblia.
Exige-se uma vontade retamente disposta, ou um propósito firme de andar com Deus em toda condição, e de fazer o que é bom e aceitável a seus olhos: "Exortava a todos que, com propósito de coração, permanecessem fiéis ao Senhor" (Atos 11:23). Muitos têm inclinações leves, ou resoluções vacilantes; mas seu coração não está fixa e habitualmente voltado para agradar a Deus; nisso, principalmente, consiste este coração íntegro: que ele se apegue a Deus, inseparavelmente, em todas as coisas.
Exige-se que os afetos sejam purificados e vivificados: estes são os movimentos vigorosos da vontade, e por isso devem ser cuidadosamente observados; devem ser purificados daquela carnalidade e sensualidade que a eles se apega. Isto se chama, na Escritura, a circuncisão do coração (Deuteronômio 30:6).
— Condensado de Manton.
Seja o meu coração íntegro. "Mente sã em corpo são" foi a oração de um pagão, e seu desejo estava à altura de seu conhecimento; mas um coração íntegro nos estatutos de Deus, íntegro até o âmago, sem mancha, nem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, e, como a filha do rei, "toda gloriosa por dentro" — é isto o que o salmista roga, é isto que todo filho de Deus almeja, e também roga: "assim como ele é puro."
— Barton Bouchier.
De coração verdadeiro, de coração inteiro, fiéis e leais,
Rei de nossas vidas, por tua graça o seremos!
Sob teu estandarte, exaltado e real,
Fortes em tua força, lutaremos por ti!
De coração verdadeiro, de coração inteiro! A mais plena lealdade
Rendendo, doravante, a nosso glorioso Rei;
Valente esforço e amorosa obediência
Livre e alegremente agora queremos trazer.
De coração verdadeiro, Salvador, tu conheces nossa história;
Fracos são os corações que depomos a teus pés,
Pecaminosos e traiçoeiros! mas, para tua glória,
Cura-os, e purifica-os do pecado e do engano.
De coração inteiro! Salvador, amado e glorioso,
Toma teu grande poder, e reina tu só,
Vitorioso sobre nossa vontade e afetos,
Livremente entregues, e inteiramente teus.
De coração dividido! de coração falso! Atentemos ao aviso!
Só o inteiro pode ser perfeitamente verdadeiro;
Tragamos a oferta inteira, desprezando todo pensamento tímido,
De coração verdadeiro somente se também de coração inteiro.
De coração dividido! Salvador, reteremos algo,
Dando-te parte, a quem nos deu tudo?
Bênçãos transbordantes, e promessas de ouro
Empenhando, sem nunca reserva nem retratação.
De coração dividido! Mestre, haverá algum que te conhece
Que te negue a vida, a ti que entregaste a tua própria?
Não; queremos oferecer os corações que te devemos —
Viver somente para o teu amor e a tua glória.
Irmãs, queridas irmãs, o chamado ressoa,
Não ecoareis o refrão de prata,
Poderoso e doce, e transbordante de alegria —
"De coração verdadeiro, de coração inteiro!" soando outra vez?
Jesus está conosco, seu descanso está diante de nós,
Brilhante, seu estandarte tremula no alto.
Irmãos, queridos irmãos, em coro reunido,
Fazei ressoar o lema de coragem e amor!
Fazei ressoar o lema, e nunca o silencieis,
Canção de nossos espíritos, alegre e livre!
"De coração verdadeiro, de coração inteiro, agora e para sempre,
Rei de nossas vidas, por tua graça o seremos!"
— Frances Ridley Havergal (1836-1879), em Loyal Responses.
Seja o meu coração íntegro, etc. Eis uma diferença clara entre um coração íntegro e um coração falso: no receber a Cristo, o coração íntegro o recebe como um favorito recebe um príncipe, entrega-lhe tudo, e deixa-o comandar tudo. Um mero estalajadeiro acolhe quem quer que lhe apareça; aceita o dinheiro de qualquer um, e dá boas-vindas a qualquer um; ainda que seja o pior dos homens que chegue, não se importa, pois ama o lucro acima de tudo. Não assim o bom coração; ele acolhe somente a Cristo, e a ele entrega tudo. Tudo o que agrada a Cristo, ele o fará, e tudo o que vem de Cristo, ele o acolherá.
— Thomas Hooker (1586-1647), em The Soules Implantation.
"Seja íntegro." Em hebraico: "seja perfeito"; como a palavra da mesma raiz é traduzida em Jó 1:1. O Dr. R. Young dá como sentido da palavra, tal como usada pelo salmista, "inteiro, completo, sincero."
"Íntegro nos teus estatutos", etc. Embora um credo ortodoxo não constitua a verdadeira religião, é, contudo, sua base, e é grande bênção possuí-lo.
— Nicolson, citado por W. S. Plumer.
Se quiserdes ser fiéis a Cristo, sede sinceros em vossa profissão dele; fazei da oração e do desejo de Davi os vossos: Seja o meu coração íntegro nos teus estatutos, para que eu não seja envergonhado. A religião que começa em hipocrisia certamente terminará em apostasia, e isso sempre traz consigo opróbrio e ignomínia.
— William Spurstowe (1666).
"Envergonhado." Podemos nos envergonhar diante de Deus ou dos homens, de nós mesmos ou de outros.
- Diante de Deus: seja em nossas súplicas a ele no trono da graça, seja quando formos chamados a comparecer, no último dia, diante do tribunal de sua justiça.
(a) Se entendermos isso de nossa aproximação dele, não podemos vir à sua presença com confiança se não tivermos coração íntegro. "Se o nosso coração não nos condena, temos confiança para com Deus" (1 João 3:21). Perdemos aquela santa familiaridade e alegria, ao abrirmos o coração a nosso Pai celestial, quando nosso coração não é íntegro.
(b) Quando formos chamados a comparecer diante do tribunal de sua justiça. Muitos, agora, com audaz impudência, se intrometem na adoração de Deus, porque não o veem, e não têm o devido senso de sua majestade; mas virá o tempo em que os pecadores mais impudentes e afrontosos ficarão atônitos, justamente quando os segredos de todos os corações forem revelados e manifestos, e as coisas ocultas trazidas à luz (1 Coríntios 4:5); e cada um receberá de Deus seu julgamento, conforme o que tiver feito, seja bem, seja mal.
- Diante dos homens, o homem também pode se envergonhar; assim, diante de si mesmo e diante de outros.
(1) De nós mesmos. Era um dito de Pitágoras: "Reverencia a ti mesmo; não te envergonhes de ti mesmo." Deus tem em nós um espião e representante, que registra nossa conformidade e desconformidade com sua vontade, e, depois de cometido o pecado, açoita a alma com o senso de sua própria culpa e loucura, assim como o corpo é açoitado com golpes: "Que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais?" (Romanos 6:21).
(2) Diante de outros. E assim nossa vergonha pode ser ocasionada por nossos escândalos, ou por nossos castigos; é difícil dizer qual dos dois se pretende aqui.
— Condensado de Manton.
Os oito versos inteiros, 81-89. A décima primeira letra, Caph, significa a mão em concha. Os expositores, porém, atendo-se apenas ao sentido de "curvado", que é só metade de seu significado, explicam a seção como indicando o ato de curvar-se em penitência, ou como assinalando que os pais do Antigo Testamento eram como veteranos soldados, encurvados pelos anos e pela labuta, e ainda mais dobrados pelo pesado fardo da lei, removível somente por aquela vinda de Cristo que eles rogavam.
Outros estendem a noção aos santos da igreja, sobrecarregados pelas tristezas e cuidados desta vida, e por isso desejosos de partir e estar com Cristo. O verdadeiro sentido deve ser buscado na interpretação plena da palavra; pois a mão se faz côncava tanto para reter algo que nela já se encontra, quanto para receber algo que outro está prestes a nela colocar.
Assim, a mão pode ser a de Deus, como doador da bondade, ou a do homem, como receptor dela; e todo o alcance da seção, como oração por socorro rápido, é que o homem estende a mão como um mendigo, suplicando a misericórdia de Deus.
— Jerônimo, Ambrósio e outros, em Neale e Littledale.
Versículo 81Salmo 119:81
A minha alma desfalece pela tua salvação. A palavra aqui traduzida "desfalece" é a mesma que em Salmos 73:26 se traduz "desfalece": "A minha carne e o meu coração desfalecem." A ideia é que suas forças cediam; tinha um desejo tão intenso de salvação que se tornou fraco e impotente. Qualquer emoção forte pode assim nos prostrar; e o amor de Deus, o desejo de seu favor, a saudade do céu, podem ser tão intensos a ponto de produzir este resultado.
— Albert Barnes.
A minha alma desfalece. O desfalecimento é próprio do corpo, mas aqui se atribui à alma; como também em muitos outros lugares. O apóstolo diz: "Para que não vos canseis, desfalecendo em vosso ânimo" (Hebreus 12:3); onde se usam duas palavras, cansaço e desfalecimento, ambas tomadas do corpo.
O cansaço é um grau menor, o desfalecimento é um grau mais alto de deficiência: no cansaço, o corpo requer algum descanso ou reforço, quando a força ativa se enfraquece, e os espíritos vitais e os princípios de movimento se entorpecem; mas, no desfalecimento, a força vital se contrai, e se retira, e deixa as partes externas sem vida e sem sentido. Quando um homem se cansa, suas forças diminuem; quando desfalece, está de todo esgotado.
Estas coisas, por metáfora, se aplicam à alma, ou à mente. Um homem se cansa quando a fortaleza de sua mente, sua força moral ou espiritual, se quebra, ou começa a diminuir, quando sua alma se inquieta sob os sofrimentos; mas quando ele sucumbe ao peso de uma aflição penosa, longa ou tediosa, então se diz que desfalece, quando todas as razões e fundamentos de seu consolo estão de todo esgotados, e ele não consegue mais resistir.
— Thomas Manton.
A minha alma desfalece. Que é este desfalecimento senão o elevado estado de contemplação arrebatada, em que a força dos afetos celestiais enfraquece os da terra? Assim como a subida aos montes mais altos provoca nova respiração, também, quando Daniel teve uma grande visão de Deus, ele nos conta que "desfaleceu e esteve enfermo alguns dias."
— E. Paxton Hood, 1871.
A minha alma desfalece pela tua salvação; mas espero. Crede debaixo de uma nuvem, e esperai por ele quando não há luar nem luz de estrelas. Que a fé viva e respire, e se apegue à salvação certa de Deus, quando nuvens e trevas vos cercam, e à frente só parece haver apodrecimento na prisão.
Cuidado com os corações incrédulos, que sabem atribuir mentiras a Cristo. Cuidado com o "Acaso a sua promessa falhará para sempre?" — pois foi um homem, e não Deus, quem disse isso. Quem sonha que uma promessa de Deus possa falhar, desmaiar ou morrer? Quem pode adoecer a Deus, ou enfraquecer suas promessas?
Quando nos apraz buscar uma defesa junto a Cristo, aleguemos que esperamos nele. Ó palavra firme de fé: "Ainda que ele me mate, nele esperarei!" Ó doce epitáfio, escrito sobre a lápide de um crente falecido, a saber:
"Morri esperando, e meu pó e minhas cinzas creem na vida!" Os olhos da fé, que enxergam através de uma pedra de moinho, enxergam através de uma escuridão de Deus, e sob ela leem os pensamentos de amor e paz de Deus. Apegai-vos a Cristo na escuridão; certamente vereis a salvação de Deus.
Vossos adversários estão maduros e secos para o fogo. Ainda um pouco, e subirão em chamas; o sopro do Senhor, como um rio de enxofre, se acenderá ao redor deles.
— Samuel Rutherford, 1600-1601.
"Pela tua salvação." Entendido em sentido mais alto, o homem santo anseia pela vinda do Salvador em carne.
— Cornelius Jansen.
"A tua salvação." Um crente em Deus, por mais aflito que esteja, não busca ser livrado senão pelo modo que Deus permite: "A minha alma desfalece pela tua salvação"; ou seja, até que me livres a teu bom modo.
— David Dickson.
"Espero na tua palavra." Davi sabia onde ancorava seu navio. Esperança sem promessa é como âncora sem fundo em que se prender; mas a esperança de Davi se fixava na palavra divina.
— William Gurnall.
"Espero na tua palavra": isto é, espero além de tudo o que entendo, e além de tudo o que posso fazer, e além de tudo o que mereço, e além de todos os consolos carnais e espirituais, pois desejo e busco somente a ti; busco a ti, não o que é teu: anseio por ouvir a tua palavra, para que a obedeça em paciência e mansidão.
— Le Blanc.
Versículos 81–83Salmo 119:81-83
É bom, em todos os tempos de perseguição ou aflição, ter os olhos tanto nas promessas quanto nos preceitos; pois olhar para a promessa anima à esperança, e observar os preceitos prova que a esperança é sólida. O salmista esperava na palavra (Salmos 119:81), e (Salmos 119:88) não esquecia os estatutos.
— David Dickson.
Versículo 82Salmo 119:82
Os meus olhos desfalecem pela tua palavra. Se uma mãe prometeu visitar seu filho ou filha, e não pode ir, o comentário do filho ou da filha será: "Ai, minha mãe prometeu vir a mim: como tenho olhado por ela! Mas cresceu uma mancha no meu olho. Não posso ver, meus olhos me falharam"; isto é, de tanto olhar intensamente por sua chegada.
— Joseph Roberts.
Os meus olhos desfalecem pela tua palavra. Erguia continuamente os olhos ao céu, buscando socorro de Deus. Fazia isso de modo tão constante que, por fim, os próprios olhos escureceram.
Quando me consolarás? Ele dizia isso no coração; dizia isso com a boca; dizia a mesma coisa com os olhos, erguidos perpetuamente ao céu.
— Wolfgang Musculus.
Pela tua palavra. Os filhos de Deus fazem disso mais caso do que os outros, e isso por duplo motivo: em parte, porque valorizam a bênção prometida; em parte, porque se satisfazem com a segurança dada pela palavra de Deus; de modo que, enquanto outros passam por essas coisas com olhar descuidado, suas almas se elevam à petição constante e fervorosa da bênção prometida.
Diz-se do jornaleiro que recebe seu salário antes do pôr do sol, porque é pobre e nele pôs o coração (Deuteronômio 24:15); ou, como está no hebraico, "elevou a alma" a ele, significando com isso tanto seu desejo quanto sua esperança. Ele o estima, pois é o consolo de seu trabalho, e o sustento de sua vida; e certamente o espera, com base na promessa e na aliança daquele que o emprega.
Assim é com os filhos de Deus: estimam a bênção prometida, e a palavra de Deus lhes dá boa segurança de que não esperam nele em vão.
— Thomas Manton.
"Dizendo: Quando." O mesmo espírito de fé que ensina o homem a clamar com fervor, ensina-o também a esperar com paciência; pois, assim como o assegura de que a misericórdia está na mão do Senhor, assegura-o também de que ela virá no tempo do Senhor.
— John Mason, 1688.
Quando me consolarás? É modo costumeiro de Deus agir com seus filhos: adiar a resposta às suas orações, e suspender o cumprimento de suas promessas; não porque esteja relutante em dar, mas porque quer que estejam mais bem preparados para receber.
Tardius dando quod petimus, instantiae nos orationis inducit [dando mais tarde o que pedimos, ele nos conduz à perseverança da oração]: ele é lento em dar o que buscamos, para que não busquemos lentamente, mas sejamos despertados à insistência e ao fervor na oração, o que ele sabe ser o serviço mais aceitável a ele, e mais proveitoso a nós mesmos.
— William Cowper.
"Quando me consolarás?" Não nos queixemos de Deus, mas a Deus. Queixas de Deus dão vazão à murmuração; mas queixas a Deus dão vazão à fé, à esperança e à paciência.
— Thomas Manton.
O profeta, para evitar que se suponha que era demasiado frouxo e pusilânime, dá a entender que seu desfalecimento não era sem causa. Ao perguntar a Deus: "Quando me consolarás?", ele mostra, com bastante clareza, que por longo tempo se sentiu como que rejeitado e abandonado.
— John Calvin.
"Quando me consolarás?" O povo de Deus às vezes está muito desconsolado, e precisa de consolo, por causa do predomínio do pecado, do poder das tentações de Satanás, do ocultar-se do rosto de Deus, e de uma variedade de aflições; então recorrem a Deus por consolo, o único que pode consolá-los, e que tem tempos determinados para isso; mas eles tendem a achá-lo demorado, e perguntam, como Davi aqui, quando será.
— John Gill.
"Quando me consolarás?" Certa pobre mulher, por muito tempo, se questionava e duvidava de sua salvação; quando, por fim, o Senhor confirmou em sua alma que Cristo era seu, seu pastor lhe disse: "O Senhor nem sempre dá um tônico a seus filhos, mas o tem pronto para eles quando desfalecem."
— Thomas Hooker.
"Quando me consolarás?" O consolo é necessário, porque grande parte de nossas tentações está em tribulações, tanto quanto em atrativos. O senso de dor pode nos perturbar tanto quanto o prazer nos seduz. O mundo é tão perseguidor quanto tentador. A carne perturba tanto quanto seduz. O Diabo é tão perturbador quanto insidioso.
Mas o consolo, embora necessário, não é tão necessário quanto a santidade: por isso, embora o consolo não deva ser desprezado, o amor sincero a Deus deve ser preferido; e, ainda que não seja dispensado tão certa, tão constante, e em tão alto grau, neste mundo, devemos nos contentar. A obra de consolo do Espírito é mais frequentemente interrompida do que a obra de santidade; mas tanto quanto for necessário para nos habilitar a servir a Deus neste mundo, com certeza o receberemos.
— Thomas Manton.
Versículo 83Salmo 119:83
"Odre na fumaça." Dormir estava fora de questão, pois eu estava... quase sufocado pela fumaça de um fogo de lenha, já que não havia chaminé. Eu estava de fato "como odre na fumaça", enegrecido e ressecado quase até rachar; pois isto era algo do que o salmista tinha em vista. Os odres, sendo de couro, e pendurados em cômodos com grandes fogos de lenha, sem chaminés, ficavam ressecados pela fumaça, enrugados e imprestáveis.
— De My Wanderings, de John Gadby, 1860.
Como odre na fumaça. A tenda de um árabe comum é habitação tão enfumaçada que considero a expressão "odre na fumaça" equivalente a "odre na tenda de um árabe". Havia fogo, sabemos, naquela tenda árabe a que o bispo Pococke foi conduzido quando ia a Jerusalém. Quão enfumaçada deve ser tal habitação, e quão negros todos os seus utensílios!
Le Bruyn, indo de Alepo a Escanderum, sentiu isso bem de perto: pois, obrigado a passar toda uma noite numa cabana de junco, no meio da qual havia fogo, para ferver uma panela de carne pendurada sobre ele, e assar pão nas cinzas, achou a fumaça intolerável, sendo a porta o único lugar por onde podia sair da cabana.
À negrura de um odre de pele de cabra, numa tenda, mas também à humildade de tal recipiente de bebida, parece referir-se o salmista, e foi uma imagem das mais naturais para ele usar, tendo sido afastado dos vasos de prata e ouro no palácio de Saul, para viver como os árabes viviam, e, consequentemente, obrigado muitas vezes a beber de um odre de couro enfumaçado.
— Thomas Harmer, 1719-1788.
Porque me tornei como odre na fumaça. Um odre na fumaça tem muito pouco de inflação, de gordura, de umidade, de beleza. Assim Deus consome, rebaixa e esvazia seu povo, enquanto o exercita com tribulações e a inquietação de esperar e aguardar. A glória e o ardor da carne devem ser esvaziados, para que os dons divinos encontrem lugar, e a lembrança dos mandamentos de Deus seja retida — o que não se guarda bem em odres inchados, inflados e cheios.
— Wolfgang Musculus.
"Odre na fumaça." Um dos propósitos dos antigos, com tal exposição, era amadurecer o vinho pela ascensão gradual do calor e da fumaça do fogo sobre o qual o odre era suspenso; e assim as palavras nos ensinam os usos da aflição em amadurecer e aperfeiçoar a alma.
— Rosenmuller, citado em Neale e Littledale.
Porque me tornei como odre na fumaça, etc. Satanás pode afligir o corpo por meio da mente. Pois estas duas coisas estão tão estreitamente ligadas que seu bom e mau estado é partilhado entre elas. Se o coração está alegre, o semblante fica risonho, a força se renova, os ossos florescem como a erva. Se o coração está perturbado, a saúde se prejudica, a força se seca, o tutano dos ossos se consome, etc. A dor no coração é como traça na roupa: consome o corpo insensivelmente, e o desordena.
Esta vantagem de enfraquecer o corpo cai nas mãos de Satanás por consequência necessária, como os figos maduros do profeta, que caíam na boca de quem os comia. E certamente ele se compraz nisso, pois é inimigo tanto do corpo quanto da alma.
Mas maior satisfação ainda lhe traz o fato de que, assim como pode fazer com que as tristezas da mente produzam a fraqueza e a doença do corpo, também pode fazer com que a doença do corpo (por retribuição recíproca) aumente a perturbação da mente. Quão pouco pode um corpo doente fazer? Inabilita o homem para todo serviço; ele muitas vezes não pode orar, nem ler, nem ouvir.
A doença tira a doçura e o consolo dos exercícios religiosos; isso dá ocasião para que pensem o pior de si mesmos; pensam que a alma está cansada dos caminhos de Deus, quando é o corpo que não consegue resistir.
— Richard Gilpin, em A Treatise of Satan's Temptations, 1677.
Como odre na fumaça. Nisto o salmista aflito encontrou um emblema marcante de seu próprio estado espiritual. Esperava que o Senhor viesse. Em espírito, estava ressecado pela pressão sobre ele; e ainda assim esperava que o Senhor viesse, declarando sua condição mirrada.
Talvez seu homem exterior partilhasse, nessa época, das mesmas tristes qualidades... A aparência externa do homem de Deus, a que talvez ele aluda, era, contudo, apenas a semelhança de sua natureza espiritual neste período, quaisquer que tenham sido os efeitos visíveis.
Davi estava exposto aos relatos caluniosos de homens malintencionados, e à ardente perseguição de inimigos implacáveis, até que o efeito sobre sua mente foi tal que toda a sua natureza espiritual se assemelhava, em sua própria mente, a uma pele pendurada na fumaça por longo tempo. Não só estava mirrado na estima pública, mas também em sua própria mente; não porque, nesse momento, e com base nas acusações feitas contra ele, sentisse que o merecia; mas porque tão incessante e multiforme era a invasão amarga de seu espírito, que, mesmo com toda a sua fé em Deus, quase sucumbiu literalmente sob ela.
O termo dado, em nossa tradução, ao original sugeriria que ele se portou bem, apesar de tudo — Porque me tornei como odre na fumaça; contudo, não me esqueço dos teus estatutos. Ao passo que as palavras traduzidas mais literalmente transmitiriam algo importante: que tudo isso lhe aconteceu justamente enquanto ele estava no próprio caminho do dever: "Tornei-me como odre na fumaça — não me esqueço dos teus estatutos."
Ele estava diretamente no caminho das ordenanças do Senhor para toda salvação; e, ainda assim, veio a tribulação. É triste quando nosso homem espiritual se mirra e se resseca por causa de nossa queda em pecado, ou por causa de omissões culposas; mas aqui parece haver um declínio do homem espiritual e do homem físico, enquanto o crente tem consciência de que não está esquecendo os estatutos de seu gracioso Deus.
— John Stephen.
Observe-se aqui a diferença entre a beleza e a força do corpo e as da alma: a beleza da alma se torna mais formosa pelas aflições, ao passo que a do corpo se murcha. Davi era um odre mirrado e encolhido; contudo, o santo estado de sua alma não se alterou; sua beleza se fora, mas não a sua graça.
— Thomas Manton.
Tornei-me como odre na geada (assim traduzem os Setenta). Quando os desejos espirituais ardem, os desejos carnais, sem dúvida, esfriam: por isso segue-se: "Já que me tornei como odre na geada, não me esqueço das tuas justiças." Ele quer, na verdade, que se entenda por odre esta carne mortal, e pela geada a bênção celestial, pela qual as concupiscências da carne, como que pelo aperto da geada, se tornam entorpecidas.
E daí resulta que as justiças de Deus não escapam da memória, enquanto não meditarmos apartados delas; pois se cumpre o que diz o apóstolo (Romanos 13:14): "Não vos preocupeis com a carne, para satisfazer as suas concupiscências." Por isso, tendo dito: "Porque me tornei como odre na geada", acrescentou: "e não me esqueço das tuas justiças" — isto é, não as esqueço, porque me tornei assim. Pois o fervor da concupiscência esfriara, para que a memória do amor pudesse arder.
— Agostinho.
Versículo 84Salmo 119:84
Quantos são os dias do teu servo? etc. Alguns leem as duas cláusulas separadamente, como se a primeira fosse uma queixa geral sobre a brevidade da vida humana, tal como se encontra em outros salmos, e mais frequentemente no livro de Jó; e depois, em sua opinião, segue-se uma oração especial do salmista, para que Deus vingue seus inimigos.
Mas prefiro unir as duas cláusulas, e limitar ambas às aflições de Davi; como se dissesse: Senhor, por quanto tempo decidiste abandonar teu servo à vontade dos ímpios? Quando te oporás à crueldade e ao ultraje deles, para vingá-los? As Escrituras frequentemente usam a palavra "dias" nesse sentido...
Pelo uso do número plural se denota uma porção determinada de tempo, que, em outros lugares, se compara aos "dias de jornaleiro" (Jó 14:6; Isaías 16:14). O salmista, portanto, não lamenta em geral a vida transitória do homem, mas se queixa de que o tempo de seu estado de milícia neste mundo se prolongara demasiado; e por isso, naturalmente, deseja que se ponha um termo a ele.
Ao expostular com Deus sobre suas tribulações, ele não o faz com obstinação, nem com espírito murmurador; mas, ainda assim, ao perguntar por quanto tempo será necessário sofrer, ora humildemente para que Deus não demore em socorrê-lo.
— John Calvin.
Quando executarás juízo sobre os que me perseguem? Ele declara que não duvida de que haverá, em algum momento, um fim para suas aflições, e que haverá um tempo em que seus odiadores e inimigos serão julgados e punidos. Ele supõe o fato, e por isso pergunta a data. Assim, nos santos, a própria impaciência com a demora prova sua confiança na salvação e libertação futuras.
— Wolfgang Musculus.
"Quando executarás juízo", etc. Esta é uma oração comum, não contra pessoas certas, mas de modo geral contra os inimigos de Deus e seus maus caminhos. Pois o Senhor executa juízo sobre seus filhos para sua conversão, como com Paulo (Atos 9), e sobre os ímpios para sua confusão. Ele ora contra os que não pertenciam a Deus, e não tanto contra suas pessoas quanto contra suas más causas; e não de outro modo contra suas pessoas senão enquanto ligadas às más causas. Assim podemos orar pela confusão dos inimigos de Deus; de outro modo, não podemos.
— R. Greenham.
Neste verso não há nenhuma das dez palavras usadas em referência à lei de Deus.
— Adam Clarke.
Não é "juízo" uma delas?
— C.H.S.
Versículo 85Salmo 119:85
"Covas." Hajji disse que me contaria uma história ou duas sobre crocodilos, e começou contando como às vezes os capturam. Cava-se, disse ele, uma cova funda à beira do rio, e depois se cobre com palha de doura. Os crocodilos caem nessas covas, e não conseguem mais sair...
Não há dúvida de que, antigamente, cavavam-se covas para crocodilos, como Hajji descreveu, como ainda hoje se faz em algumas partes do mundo para outros animais. A este costume se faz alusão em Salmos 7:15; Salmos 9:15; Salmos 10:2; Salmos 35:8; Salmos 141:10; Provérbios 26:27; Eclesiastes 10:8, etc.: "Fez uma cova e a cavou, e caiu na cova que fez." Provavelmente esta era também a espécie de cova a que se refere Êxodo 21:33: "Se um homem cavar uma cova, e não a cobrir" — isto é, não a cobrir eficazmente — "e ali cair um jumento ou um boi", etc.
Prisioneiros eram às vezes fechados em covas, e deixados sem água, para morrer literalmente de sede. Que morte terrível! Diz-se que nada pode ser mais horrível. Quão pavorosos deviam ser seus gemidos!
— John Gadsby.
"Os soberbos cavaram covas." Parece estranho que um soberbo seja cavador de covas; mas assim é; pois o orgulho, por um tempo, pode se submeter para obter maior vantagem sobre aquele que quer pisar. "O ímpio é tão soberbo que não busca a Deus; contudo, se agacha e se abaixa, para fazer cair montões de pobres pelo seu poder" (Salmos 10:4; Salmos 10:10).
Assim o soberbo Absalão se rebaixou aos súditos mais humildes, para preparar caminho à usurpação sobre seu rei e pai. Mas note-se: não se diz que ele caiu nas covas que seus inimigos haviam cavado. Não, não: nos justos juízos de Deus, os ímpios se enredam na obra de suas próprias mãos, enquanto os bons escapam livres.
"Fez uma cova, e a cavou", e caiu na vala que fez. Sua maldade voltará sobre a própria cabeça, e sua violência descerá sobre o próprio crânio (Salmos 7:15-16). Assim Hamã estreou a forca que erguera para Mardoqueu; e Saul, quando pensou, com astúcia, matar Davi pela espada dos filisteus (ao enviá-lo para trazer duzentos prepúcios deles como dote), viu-se frustrado em seu propósito; mas ele mesmo, por fim, foi morto pela espada.
— William Cowper.
Cuidem os homens de como cavam covas para os outros. Toda a palavra de Deus testemunha contra tal maldade. Quantos testes são inventados simplesmente para enredar a consciência dos homens, e fornecer terreno para a perseguição.
— William S. Plumer.
"O que não é conforme a tua lei." Em hebraico: "não conforme a tua lei." Pode se referir aos homens ou à prática. Os homens não andam conforme a tua lei, e suas práticas fraudulentas não são agradáveis à tua lei. A lei de Deus condenava covas para animais domésticos (Êxodo 21:33-34). Embora fosse lícito aos caçadores apanhar animais selvagens, deviam cuidar para que nenhum animal doméstico caísse nelas, sob seu próprio risco.
— Thomas Manton.
"O que não é conforme a tua lei." Conforme a lei de Deus não podiam estar, enquanto faziam tais coisas. Talvez ele se refira mais ao ato do que aos homens: "Os soberbos cavaram covas para mim, o que não é conforme a tua lei" — o que é contra a tua lei; e parece que o faziam justamente porque é contra a tua lei — comprazendo-se na maldade, como fazem.
Tais homens pareceriam ter absorvido o espírito abjeto que Milton atribui ao arcanjo caído: "Mal, sê tu o meu bem." Obviamente, porém, as palavras contêm este sentimento: os soberbos procuraram derrubar-me, porque não são obedientes à tua lei.
Por isso ele põe a conduta deles à luz dos santos mandamentos de Deus, para que se faça a comparação: "Todos os teus mandamentos são fiéis: perseguem-me injustamente." Tudo o que o Senhor fez, fez em verdade; estes homens agiram contra seu servo sem causa, e, ao fazê-lo, também agiram desafiando sua vontade conhecida.
— John Stephen.
Os ímpios me contaram fábulas, mas não como a tua lei (assim traz a Septuaginta). A razão especial pela qual ele deseja ser livre da companhia dos ímpios é que eles sempre tentam os piedosos, relatando os prazeres do mundo, que não passam de fábulas, prazeres imundos e passageiros, mais falazes do que reais — nada como o grande e sólido prazer que sempre flui da piedosa observância da lei do Senhor.
— Robert Bellarmine.
Versículo 86Salmo 119:86
Todos os teus mandamentos são fiéis. Davi assenta aqui três pontos. O primeiro é que Deus é verdadeiro; depois acrescenta uma declaração de sua boa conduta e direção, e da malícia de seus adversários; terceiro, clama a Deus em suas aflições.
Quanto ao primeiro, ele nos mostra que, embora Satanás, para nos abalar, e por fim nos arrastar de todo, ande sutil e astutamente enganando-nos, devemos, ao contrário, aprender a conhecer suas emboscadas, e a nos guardar delas. Sempre que somos afligidos pela adversidade e pela tribulação, por onde devemos começar? Veja como Satanás arma suas redes e prepara suas emboscadas, para nos induzir e persuadir a cair nelas. O que ele diz? Não te vês abandonado por teu Deus? Onde estão as promessas em que confiavas? Agora vês que és uma criatura miserável e desamparada.
Assim, vês bem que Deus te enganou, e que as promessas em que confiavas nada têm a ver contigo. Eis aqui a astúcia de Satanás. O que fazer agora? Devemos concluir com Davi, e dizer: contudo, Deus é verdadeiro e fiel. Guardemos, digo, a verdade de Deus na mente, como escudo para repelir tudo o que Satanás possa nos acusar.
Quando ele tentar nos fazer negar nossa fé, quando mentir a nosso respeito para nos fazer crer que Deus já não pensa em nós, ou que é vão confiar em suas promessas — saibamos exatamente o contrário, e creiamos que é verdade pura e sólida o que Deus nos diz.
Ainda que Satanás nos lance quantos dardos quiser, ainda que tenha inúmeros artifícios contra nós, ainda que ora pela violência, ora pela sutileza e astúcia, pareça de fato que há de nos vencer, mesmo assim jamais o conseguirá, pois a verdade de Deus se firmará certa e segura em nossos corações.
— John Calvin.
Todos os teus mandamentos são fiéis. Em hebraico é "fidelidade"; isto é, são verdadeiros, seguros, justos, infalíveis. "Perseguiram-me injustamente": sem dúvida por eu afirmar as verdades e os mandamentos de Deus, e me apegar a eles.
— John Trapp.
"Perseguem-me injustamente." Há ênfase na palavra "injustamente" (ou "falsamente"); pois é ditado verdadeiro de um santo mártir: "A causa, não a dor, faz o mártir." Por isso o apóstolo nos ensina: "Nenhum de vós padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em coisas alheias. Mas, se padece como cristão, não se envergonhe; antes glorifique a Deus neste particular."
— Neale e Littledale.
"Ajuda-me tu." "Deus me ajude" é uma oração excelente e abrangente; é pena que às vezes se use com leviandade, como bordão.
— Matthew Henry.
Versículo 88Salmo 119:88
Vivifica-me segundo a tua benignidade. Por fim, o homem de Deus aparece rogando ser vivificado, para assim poder guardar o testemunho divino... Eis um último recurso, mas seguro. Que os princípios vivos da graça divina sejam comunicados à alma, e o crente se elevará acima do desânimo diante do rosto dos homens.
Como triunfa a mente espiritual até sobre as fraquezas do corpo! Podemos observar isso no leito de morte do crente, e podemos lembrá-lo nas vidas e mortes de muitos eminentes. O homem de mente pura vai direto à fonte da vida.
Vai com entendimento, pois assume o caráter com que o Senhor falou de si mesmo: "Vivifica-me segundo a tua benignidade." De uma só vez, deixa de lado o pensamento em seus inimigos; está na presença de seu Deus. Seu desejo é elevar-se a uma existência espiritual mais alta, para manter comunhão mais próxima com o Pai das luzes, em quem não há variação.
— John Stephen.
Vivifica-me, etc. Antes ele orara: "Vivifica-me na tua justiça" (Salmos 119:40); mas aqui: "Vivifica-me segundo a tua benignidade." O sinal mais seguro da boa vontade de Deus para conosco é sua boa obra em nós.
— Matthew Henry.
"Vivifica-me." Muitas vezes, neste salmo, Davi faz esta petição; e parece estranho que tantas vezes se reconheça homem morto, e deseje que Deus o vivifique. Mas assim é para o filho de Deus: todo desamparo e toda decadência de força é uma morte. Tão desejosos estão de viver para Deus que, quando falham nisso, e encontram alguma incapacidade em sua alma para servi-lo como gostariam, se consideram como mortos, e rogam ao Senhor que os vivifique.
— William Cowper.
"O testemunho da tua boca." O título aqui dado ao guia de nosso dever — "o testemunho da boca de Deus" — dá força crescente às nossas obrigações. Que cada palavra que lemos ou ouvimos seja considerada como vinda diretamente da "boca de Deus" (João 6:63). Que reverência, que submissão implícita isso exige! Que sempre nos encontre na postura de atenção, humildade e fé! Cada um de nós pronto a dizer: "Fala, Senhor, porque o teu servo ouve."
— Charles Bridges.
LÂMED. Verso 89. Aqui se alcança o clímax da descrição da peregrinação do suplicante. Chegamos ao centro do salmo, e o fio da conexão se rompe propositalmente. A substância das primeiras onze estrofes foi, evidentemente: "Até aqui o Senhor me trouxe: será que agora perecerei?" A isto as onze estrofes seguintes respondem: "A palavra do Senhor não muda; e, apesar de todo mau presságio, o Senhor há de aperfeiçoar em nós a obra que já começou."
— Joseph Francis Thrupp, 1860.
Versículo 89Salmo 119:89
Para sempre, ó Senhor, a tua palavra está firmada nos céus. Estas palavras costumam ser lidas como uma única proposição; mas o acento athnach mostra que há dois ramos: um afirmando a eternidade de Deus; o outro, a constância e a permanência de sua palavra. Assim: 1. "Para sempre és tu, ó Senhor." 2. "A tua palavra está firmada nos céus." Assim o lê o siríaco; e Geierus, e depois dele outros, provam e aprovam esta leitura.
E assim este verso e o seguinte se correspondem melhor um ao outro, se observarmos o começo e o fim: como tu és "para sempre, ó Senhor", e "a tua fidelidade é para todas as gerações" — que são exatamente paralelos. E assim também as últimas cláusulas concordarão: "A tua palavra está firmada nos céus", e "estabeleceste a terra, e ela permanece."
Isso implica que, assim como Deus é eterno, também o é sua palavra, e que ela tem representação própria tanto no céu quanto na terra: no céu, no movimento constante dos corpos celestes; na terra, na sua consistência e permanência; que, assim como sua palavra permanece firme nos céus, assim também sua fidelidade permanece firme na terra, onde as aflições dos piedosos parecem contradizê-la.
— Thomas Manton.
Para sempre, ó Senhor, a tua palavra está firmada nos céus. Quando Jó considera seu corpo reduzido a pó e a vermes (Jó 14:19), ainda assim, pela fé, diz: "O meu Redentor vive" (Jó 19:25), etc. Mesmo quando a paciência faltou a Jó, a fé não faltou.
Ainda que Deus mate todas as outras graças e consolos, e também minha alma, diz ele, não matará minha fé. Se separar minha alma do meu corpo, ainda assim não separará a fé da minha alma. E por isso o justo vive pela fé, mais do que pelas outras graças, porque, quando tudo se vai, a fé permanece, e a fé permanece porque a promessa permanece: "Para sempre, ó Senhor, a tua palavra está firmada nos céus." E este é o sentido próprio e principal desta passagem.
— Matthew Lawrence.
Para sempre, ó Senhor, a tua palavra está firmada nos céus. Se olharmos para a palavra de promessa de Deus como ela aparece em nossos corações inconstantes, sonhamos que está tão pronta a vacilar quanto nossos corações; assim como a sombra do sol e da lua na água parece tremer tanto quanto treme a própria água sobre a qual brilham.
Contudo, apesar de todo este aparente tremor aqui embaixo, o sol e a lua seguem seu curso firme nos céus. Assim o salmista nos diz que, por mais que nossos corações vacilem diante de uma promessa por incredulidade — e, mais ainda, nossa incredulidade nos faz crer que a promessa muitas vezes se abala —, ainda assim a palavra de Deus está firmada, se não em nossos corações, ao menos "nos céus"; e ali, "para sempre", tão firmada quanto o próprio céu; e mais ainda, pois "os céus e a terra passarão", mas "nem um jota ou um til da lei (e, portanto, do evangelho) falhará" (Lucas 16:17).
— Anthony Tuckney, 1599-1670.
"Firmada." J. M. Good traduz o verso assim: "Para sempre, ó Jeová, a tua palavra deu formação aos céus", e observa que a palavra hebraica é termo militar, e se aplica a alinhar e formar as divisões de um exército em seus postos próprios, ao entrar em campanha.
Supõe-se que os exércitos do céu estejam aqui alinhados ou formados com igual ordem exata, e mantenham para sempre os deveres relativos a eles impostos: enquanto a terra, como os céus, tem uma marcha tão estabelecida quanto a que lhe é prescrita, e igualmente a cumpre; pois todos são servos do grande Criador; e, por isso, ao mudarem, produzem a bela regularidade das estações, o rico retorno das colheitas, e diariamente declaram a glória do Senhor.
"Nos céus." Sempre que olhardes para o céu, lembrai-vos de que ali tendes um Deus, que fixou sua residência e mostrou sua glória, e o fez sede tanto de sua misericórdia quanto de sua justiça. Tendes ali também um Salvador que, depois de morrer por nossos pecados, se assentou à direita da Majestade, para ver suas promessas cumpridas, e por sua palavra subjugar o mundo inteiro.
Há anjos que "cumprem o seu mandamento, atentos à voz da sua palavra" (Salmos 103:20). Há santos glorificados, que veem a Deus face a face, e habitam com ele para sempre, e ali chegaram pela mesma aliança que nos é proposta, como carta de nossa paz e esperança.
Na região exterior do céu, vemos o sol e a lua, e todos os corpos celestes, moverem-se naquele curso e ordem fixos em que Deus os colocou; e mostrará Deus sua constância no curso da natureza, e será volúvel e mutável na aliança da graça, na qual dispôs a ordem e o método de suas misericórdias?
— Thomas Manton.
Versículos 89–91Salmo 119:89-91
Nestes versos se afirma haver uma analogia entre a palavra de Deus e as obras de Deus. Diz-se de sua "palavra" que está "firmada nos céus", e que mantém sua fidelidade de geração em geração. Diz-se de suas "obras", e mais especialmente das que estão imediatamente ao nosso redor, até mesmo da terra que habitamos, que, como foi estabelecida no princípio, assim permanece depois.
E então, como que para completar a assimilação entre elas, diz-se de ambas, em Salmos 119:91: "Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças, pois todas são tuas servas"; identificando, assim, a certeza daquela palavra que saiu de seus lábios com a constância infalível daquela Natureza que foi formada e é sustentada por suas mãos.
A constância da Natureza é ensinada pela experiência universal, e mesmo impressiona o olhar popular como a mais característica das feições nela impressas. Pode ser necessário o auxílio da filosofia para aprender quão invariável é a Natureza em todos os seus processos — como até as aparentes anomalias podem ser rastreadas até uma lei inflexível — como o que a princípio parece ser o capricho de sua veleidade é, de fato, a evolução de um mecanismo que jamais muda.
E que, quanto mais minuciosamente é examinada e posta à prova pelas indagações dos curiosos, mais certamente descobrirão que ela caminha por uma regra que não conhece diminuição, e persevera com passo obediente naquele curso uniforme do qual o olhar do mais rigoroso escrutínio jamais detectou um fio sequer de desvio.
Já não duvidam os homens de ciência de que toda aparência remanescente de irregularidade no universo se deve, não à volubilidade da Natureza, mas à ignorância do homem — que seus movimentos mais ocultos se conduzem com uniformidade tão rigorosa quanto o Destino — que até as agitações inconstantes do tempo têm sua lei e seu princípio.
Que a intensidade de cada brisa, o número de gotas em cada chuva, a formação de cada nuvem, e todas as alternâncias que ocorrem entre tempestade e sol, e a interminável mudança de temperatura, e aquelas variações trêmulas do ar que nossos instrumentos nos permitiram descobrir, mas não nos permitiram explicar — que, ainda assim, se sucedem por um método de sucessão que, embora muito mais intrincado, é tão absoluto em si mesmo quanto a ordem das estações, ou os cursos matemáticos da astronomia.
Esta é a impressão de toda mente filosófica a respeito da Natureza, e se fortalece a cada novo acréscimo feito à ciência... Mas há regularidade suficientemente patente e palpável na Natureza para dar também à mente popular a mesma impressão de sua constância. Há uma experiência ampla e geral que ensina a mesma lição, e que depositou em cada peito uma espécie de confiança segura e firme na uniformidade de seus processos.
A própria criança o sabe, e age conforme isso. Ela reconhece um caráter e uma propriedade duradouros nos elementos ao seu redor, e já aprendeu tanto sobre o fogo, a água, o alimento que come, o solo firme que pisa, e até a gravidade pela qual deve regular suas posturas e movimentos, a ponto de provar que, criança embora seja, está plenamente iniciada na doutrina de que a Natureza tem suas leis e suas ordenanças, e nelas persevera.
E as provas disso se multiplicam sempre ao longo da jornada da observação humana; a tal ponto que, ao chegarmos à idade adulta, lemos sobre a constância da Natureza em todos os departamentos do mundo visível. Ela nos encontra onde quer que voltemos os olhos...
Deus estruturou de tal modo a maquinaria de minhas percepções que sou levado irresistivelmente a esperar que, em toda parte, os acontecimentos se sucedam exatamente na mesma sequência em que sempre estive acostumado a observá-los; e, quando Deus assim sustenta a uniformidade da Natureza, de modo que em cada caso ela seja rigorosamente a mesma, ele está apenas manifestando a fidelidade de seu caráter.
Se fosse de outro modo, estaria zombando da expectativa que ele mesmo inspirou. Pode-se dizer que Deus prometeu a todo ser humano que a Natureza seria constante — se não pelo sussurro de uma voz interior a cada coração, ao menos pela força de uma inclinação incontrolável que imprimiu em cada constituição.
De modo que, quando vemos a Natureza manter sua constância, vemos o Deus da Natureza manter sua fidelidade; e o sistema das coisas visíveis, com suas leis gerais e suas sucessões invariáveis, em vez de um materialismo opaco que oculte dos olhos dos mortais o rosto da Divindade, torna-se o espelho que reflete, sobre a verdade que é imutável, a ordenação que nunca falha...
E assim, em nosso texto, se apresentam juntas, como se houvesse um laço de semelhança entre elas, que o mesmo Deus que é fixo quanto às ordenanças da Natureza é fiel quanto às declarações de sua palavra; e, assim como toda a experiência prova quão firmemente se pode confiar nele quanto à primeira, há também um argumento tão forte quanto a experiência para provar quão firmemente se pode confiar nele quanto à segunda.
Por sua obra em nós, ele despertou a expectativa de uma constância na Natureza, que jamais decepciona. Por sua palavra a nós, se despertasse a expectativa de uma certeza em suas declarações, jamais a decepcionaria. É porque a Natureza é tão fixa que compreendemos que o Deus da Natureza é tão fiel.
Aquele que jamais falseia a esperança que surgiu em cada peito, a partir do instinto que ele mesmo comunicou, jamais falseará a esperança que surgir em qualquer peito a partir da expressa manifestação de sua voz. Fosse ele um Deus em cuja mão os processos da natureza estivessem sempre mudando, poderíamos concebê-lo como um Deus de cuja boca as proclamações da graça tivessem o mesmo caráter de variação e vacilação.
Mas é justamente por causa de nossa confiança na primeira que sentimos tanto repouso em nossa dependência da segunda; e o mesmo Deus que é tão infalível nas ordenanças de sua criação, sustentamos que é igualmente infalível nas ordenanças de sua palavra.
— Thomas Chalmers.
Versículo 90Salmo 119:90
A tua fidelidade é para todas as gerações. Assim como colheu a certeza da palavra de Deus a partir da perpetuidade dos céus, agora ele a confirma considerando o fundamento da terra. Já que o fundamento da terra, feito pela palavra de Deus, permanece seguro, não pensaremos que o fundamento de nossa salvação, posto em Jesus Cristo, é muito mais seguro?
Embora as criaturas não possam nos ensinar o caminho de nossa salvação (pois isso devemos aprender pela palavra), elas confirmam o que a palavra diz: "Assim diz o Senhor, que dá o sol para luz do dia, e as ordenanças da lua e das estrelas para luz da noite, que fende o mar quando bramem as suas ondas; o Senhor dos Exércitos é o seu nome: se estas ordenanças se apartarem de diante de mim, diz o Senhor, também a semente de Israel deixará de ser nação diante de mim para sempre" (Jeremias 31:35-36).
Assim como ali Jeremias tira a estabilidade da igreja da estabilidade das criaturas, também aqui Davi confirma a certeza de nossa salvação pelo curso mais certo e imutável da criação; e ambos são ampliados por Jesus Cristo: "Os céus e a terra passarão, mas nem um jota da palavra de Deus cairá por terra." Sejamos, pois, fortalecidos na fé, e demos glória a Deus.
— William Cowper.
Estabeleceste a terra, e ela permanece. Cada vez que pisamos o chão, podemos lembrar a estabilidade das promessas de Deus, o que também é confirmação de fé. Assim:
A estabilidade da terra é efeito da palavra de Deus; este é o verdadeiro pilar sobre o qual a terra se assenta; pois ele sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder: "Porque ele falou, e foi feito; ordenou, e ficou firme" (Salmos 33:9). Ora, sua palavra de poder nos ajuda a depender de sua palavra de promessa.
Nada aparece sobre o que o globo da terra devesse se apoiar e descansar: "Estende o norte sobre o vazio, e pendura a terra sobre o nada" (Jó 26:7). Ora, que este corpo tão vasto e pesado se apoie no ar fluido como sobre um fundamento firme é motivo de espanto; a pergunta é feita no livro de Jó: "Sobre que estão fundados os seus alicerces? Ou quem lhe assentou a pedra de esquina?" (Jó 38:6). Contudo, firme está, ainda que pendure como bola no ar...
Ora, já que sua palavra sustenta tal peso, e todo o peso da igreja, e o próprio fardo nosso se apoia na promessa de Deus, ele pode, pelo poder de sua palavra, sustentar tudo sem meios visíveis. Por isso, seu povo pode confiar em sua providência; ele é capaz de sustentá-los em qualquer aflição, quando nenhum caminho de ajuda aparece.
A firmeza e a estabilidade se oferecem a nossos pensamentos. A terra permanece no mesmo lugar e condição em que Deus a deixou, enquanto durar o presente curso e ordem da natureza (Salmos 104:5). A verdade de Deus é tão imóvel quanto a terra (Salmos 117:2). Certamente, se o fundamento da terra permanece seguro, o fundamento de nossa salvação, posto por Jesus Cristo, é muito mais seguro.
A estabilidade permanece em meio às mudanças (Eclesiastes 1:4). Todas as coisas no mundo estão sujeitas a muitas revoluções, mas a verdade de Deus é uma só, e a mesma.
Ao sustentar a estrutura do mundo, veem-se todos aqueles atributos que são firme sustentáculo para o coração do crente, como a sabedoria, o poder e a bondade. A aliança da graça é tão segura quanto a aliança feita depois do dilúvio. Não podemos olhar para esta terra sem ver nela uma demonstração desses mesmos atributos, que confirmam nossa fé, ao esperarmos em Deus até que suas promessas se cumpram em nós.
— Condensado de T. Manton.
"Ela permanece." A criação é como a mãe, e a providência a ama-de-leite que preserva todas as obras de Deus. Deus não é como o homem; pois o homem, quando fez uma obra, não pode mantê-la: constrói um navio, e não pode salvá-lo do naufrágio; edifica uma casa, mas não pode livrá-la da decadência.
Diferente é com Deus; vemos diariamente seu poder conservador, sustentando suas criaturas; o que deve nos confirmar que ele não nos abandonará, nem permitirá que pereçamos (já que somos obra de suas mãos), se assim dependermos dele, e lhe dermos glória como nosso Criador, Conservador e Redentor.
— William Cowper.
Versículo 91Salmo 119:91
Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças, etc. Qual das obras de Deus não é permeada por uma bela ordem? Pense na sucessão do dia e da noite. Pense na revolução das estações. Pense nas estrelas, ao caminharem em seus cursos majestosos — uma grande lei de harmonia "atando a doce influência das Plêiades... e guiando Arcturo com seus filhos" (Jó 38:31-32).
Olhe para cima, em meio à magnificência do poder, para aquela abóbada apinhada — mundos empilhados sobre mundos — e veja, ainda assim, a calma grandeza daquela marcha majestosa; nem uma nota discordante ali para estragar a harmonia, ainda que girem numa velocidade inconcebível em suas órbitas intricadas e desviantes!
Estas sentinelas celestiais mantêm todas suas torres de vigia designadas. Estes levitas no firmamento superior acendem seus fogos de altar "na hora do incenso da tarde", e os apagam de novo, quando o sol, designado para reger o dia, sai de sua câmara. "Todos estes esperam por ti" (Salmos 104:27). "Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças, pois todas são tuas servas."
— J. R. Macduff, em Sunsets on the Hebrew Mountains, 1862.
Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças. O homem pode destruir uma planta, mas é impotente para forçá-la à desobediência às leis que lhe deu o Criador comum. "Se", diz um autor, "o homem quiser empregá-la para seu uso, deve atentar cuidadosamente para suas necessidades e seus modos, e curvar sua própria vontade orgulhosa até à mais humilde relva a seus pés. O homem pode obstruir à força o caminho de um broto em crescimento, mas ele se desvia calmamente, e segue paciente e irresistivelmente seu caminho designado."
Faça o que fizer, a grama não crescerá nos trópicos, nem a palmeira dará fruto em clima frio. O arroz recusa-se a prosperar fora dos pântanos alagados, e o algodão a formar seu velo de fibras níveas onde a chuva possa alcançá-lo.
Algumas das mais belas flores do mundo, e, mais estranho ainda, algumas das plantas mais suculentas que conhecemos, adornam as areias áridas e desoladas do Cabo da Boa Esperança, e não florescerão em outro lugar. Se você torcer o galho de uma árvore de modo a virar para o céu a face inferior de suas folhas, em pouco tempo todas essas folhas se voltarão para baixo, e assumirão sua posição designada.
Esse processo se dará mais cedo ou mais tarde, conforme o calor do sol e a flexibilidade das folhas, mas certamente se dará. Você não pode induzir a árvore triste da Índia a florescer de dia, nem fazê-la cessar, durante o ano todo, de carregar o ar noturno com o rico perfume de suas flores semelhantes a laranjas.
O filósofo não precisa ir longe para achar o segredo disso. O salmista o declara quando, falando da natureza universal, traça a verdadeira causa de sua ordem imutável. Deus, diz ele, "os estabeleceu para todo o sempre; fez um decreto que não passará"; ou, como está na versão do livro de orações, "deu-lhes uma lei que não será quebrada" (Salmos 148:6). Bem se diz em outro salmo, Salmos 119:91: "Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças, pois todas são tuas servas." O homem obstinado pode ousar desafiar seu Criador, e desprezar seus sábios e misericordiosos mandamentos; mas não assim toda a demais natureza.
Bem é para nós que suas outras obras não erraram segundo o padrão de nossa rebelião; que a sementeira e a colheita, o frio e o calor, o verão e o inverno, o dia e a noite, com toda a provisão que os acompanha, não cessaram! Aos preceitos impostos à vegetação quando foi chamada à existência no terceiro dia da criação, ela ainda presta submissão implícita, e a mais tenra planta morrerá antes de transgredir.
Que contraste terrível a isso é a conduta do homem, a mais nobre obra de Deus, dotado de razão e de alma imortal, e ainda assim, com tanta frequência, arruinando sua saúde, desperdiçando e destruindo seu poder mental, contaminando seu espírito imortal, e, numa palavra, se empenhando loucamente em frustrar todo propósito para o qual foi formado.
— James Neil, em Rays from the Realms of Nature, 1879.
Todas as criaturas observam pontualmente a lei que ele implantou em sua natureza, e, cada uma a seu modo, o reconhecem como seu soberano; movem-se conforme as inclinações que ele nelas imprimiu. O mar se contém em seus limites, e o sol não sai de sua esfera; as estrelas marcham em sua ordem: "Continuam até hoje segundo as tuas ordenanças, pois todas são tuas servas."
Se ele ordena coisas contrárias à natureza primitiva delas, elas lhe obedecem. Quando ele fala a palavra, o fogo devorador se torna manso, e não toca um fio de cabelo dos filhos que quer preservar; os leões famintos suspendem sua natureza voraz quando lhes é posto diante um bocado tão bom quanto Daniel; e o sol, que estivera em movimento perpétuo desde sua criação, obedece ao mandado de repouso que Deus enviou no tempo de Josué, e se detém.
— Stephen Charnock.
"Todas são tuas servas." Devemos considerar quão grande é aquela perversidade pela qual só o homem, formado à imagem de Deus, juntamente com os anjos reprovados, se afastou da obediência a Deus; de modo que o que se diz de todas as outras criaturas não se pode dizer dele, a menos que seja renovado por graça singular.
— Wolfgang Musculus.
"Todas são tuas servas." Já que todas as criaturas devem servir a Deus, não devemos usá-las para outro propósito, nem voltá-las ao serviço do pecado. A criação, pelo pecado de nossos primeiros pais, foi sujeita à vaidade, e geme, e anseia por ser libertada (Romanos 8); os cristãos, portanto, que usam a criação e o mundo, devem usá-los como quem não abusa (1 Coríntios 7); antes, devem desfrutá-los com louvor à majestade e à bondade divinas (1 Timóteo 4).
— Solomon Gesner.
"Todas são tuas servas."
Não digas, minha alma: "De onde
Pode Deus aliviar meu cuidado?"
Lembra que a Onipotência
Tem servos em toda parte.
— Thomas T. Lynch, 1855.
Versículo 92Salmo 119:92
Se a tua lei não fosse minha delícia, etc. Este texto expõe o grande benefício e consolo que Davi encontrou na lei de Deus em tempo de sua aflição. Isso o guardou de perecer: "Se a tua lei não fosse minha delícia, eu teria perecido na minha aflição"...
Davi diz isto (diz Musculus) sobre a condição angustiante em que estava quando perseguido por Saul, forçado a fugir para os filisteus, e às vezes a se esconder nas rochas e cavernas da terra. É muito provável (diz ele) que trouxesse consigo o livro da lei de Deus, com cuja leitura mitigava e aliviava suas tristezas, e se mantinha puro de se associar com os pagãos em suas superstições.
Os escoliastas gregos dizem que Davi proferiu estas palavras quando expulso por Saul, e obrigado a viver entre os filisteus, etc. Pois teria sido atraído a se associar com eles em suas impiedades, se não trouxesse consigo a meditação da palavra de Deus.
A palavra de Deus, quando nela nos deleitamos, é o antídoto do santo aflito contra a ruína e a destruição. A palavra de Deus é o bálsamo do santo enfermo, o cordial do santo moribundo, remédio precioso para guardar o povo de Deus de perecer em tempo de aflição. Isso sustentou Jacó, para que não sucumbisse, quando seu irmão Esaú vinha marchando furiosamente para destruí-lo (Gênesis 32:12).
Ele suplicou: "E tu disseste: certamente te farei bem", etc. Assim a promessa de Deus o sustentou. Isso também sustentou Josué, e o capacitou a lutar corajosamente as batalhas do Senhor, porque Deus dissera: "nunca o deixaria, nem o desampararia" (Josué 1:5).
Melâncton diz que o Landgrave de Hesse lhe contou, em Dresden, que lhe teria sido impossível suportar as múltiplas misérias de tão longa prisão, nisi habuisset consolationem verbo divino in suo corde [se não tivesse tido o consolo da palavra divina em seu coração].
— Edmund Calamy (1600-1666), em The Godly Man's Ark.
Certamente a leitura da maior parte das Escrituras há de ser coisa muito reconfortante; e penso que um coração piedoso (disposto como deve ser) dificilmente sabe como ficar triste enquanto o faz. Pois que consolo é para um homem ler as cartas que um pai terreno lhe enviou, ainda que escritas há muito tempo?
Com que cuidado guardamos tais cartas em nossos cofres? Com quanto deleite, de vez em quando, as retiramos e as contemplamos? E com quanta tristeza as perdemos? É tão grande meu amor a meu pai terreno, e será menor meu amor a meu Pai celestial?
Pode meu coração deixar de se alegrar, e meus ossos deixar de florescer como a erva, sempre que contemplo o último testamento e vontade de meu Redentor, pelo qual sei que ele me amou tanto, e assim continuamente age em meu favor, e que estarei para sempre com ele?
Como fala Davi, sem cessar, de seu deleite na lei de Deus, em seus estatutos e testemunhos! Isso lhe era em lugar de todos os outros deleites; ficava a seu lado quando todos os demais deleites o abandonavam: "Se a tua lei não fosse a minha delícia (ou minha grandíssima delícia), eu teria perecido na minha aflição" (Salmos 119:92).
Sentem-se os príncipes e falem contra ele o quanto quiserem; ainda assim ele meditará nos estatutos de Deus (Salmos 119:23). Tenha ele quantos perseguidores e inimigos tiver; ainda assim não se desviará dos testemunhos de Deus (Salmos 119:157). Esteja ele em terra estranha, ali serão os estatutos de Deus seu cântico (Salmos 119:54).
Seja ele peregrino na terra toda a vida; contanto que não seja estranho aos mandamentos de Deus, ele não se importa (Salmos 119:19). Ainda que sobre ele caia tanto desprezo, não esquecerá os preceitos de Deus (Salmos 119:141). Ainda que sua alma esteja continuamente em risco, isso não o fará esquecer a lei de Deus.
Sim, ainda que se tornasse como odre na fumaça, não esqueceria os preceitos de Deus (Salmos 119:83). E por isso se alegrava, porque fora afligido nesse particular, o que o fez aprender os estatutos de Deus. Não se importava com outra riqueza. "Tomei os teus testemunhos como herança para sempre, pois são o júbilo do meu coração" (Salmos 119:111).
Nem se importava muito com a vida, mas somente com guardar a palavra de Deus (Salmos 119:17). O que quer que tivesse dito antes, ou pretendesse dizer depois, ainda clamava: "Ensina-me os teus estatutos", e "tenho tido saudades dos teus preceitos", etc.; ou alguma expressão semelhante. Não podia deixar de falar deles, pois estavam sempre diante dele (Salmos 119:30).
Não é de admirar, pois, que meditasse tanto neles, como diz ter feito. "Ó, quanto amo a tua lei! é a minha meditação o dia todo" (Salmos 119:97). E "os teus testemunhos são a minha meditação" (Salmos 119:99). Os mandamentos de Deus eram, para Davi, mais doces em sua boca do que o mel, ao falar e discorrer sobre eles (Salmos 119:103).
— Zachary Bogan, 1653.
As pessoas a cujo deleite a palavra de Deus de fato conduz são os filhos de Deus, e nenhum outro. Só eles estão preparados para receber o consolo da palavra.
Porque só eles são espiritualmente iluminados para discernir as grandes e consoladoras coisas nela contidas, iluminados de um modo em que ninguém mais é: "Ora, o homem natural não recebe as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente" (1 Coríntios 2:14).
Porque dão o mais alto valor à palavra de Deus, isso os prepara para receber consolo dela.
Porque têm o coração e os caminhos ajustados à palavra de Deus, esta é outra razão do deleite que dela extraem. "Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne", e nelas se comprazem; "mas os que são segundo o Espírito, para as coisas do Espírito" (Romanos 8:5). Os consolos da palavra são espirituais; e só o coração espiritual, renovado pela graça, pode saboreá-los e apreciá-los. O deleite que o povo de Deus tem na palavra é privilégio peculiar seu; e esta palavra tem o bastante para dar deleite a todos eles.
— Daniel Wilcox, 1676-1733.
"A minha delícia." A palavra significa "delícias", no plural. Muitas foram as tristezas da vida de Davi; mas contra todas elas encontrou tantos consolos e deleites na palavra de Deus. Com tal variedade de santa sabedoria Deus redigiu sua palavra, que ela tem consolo conveniente para todo estado de vida; por isso os filhos de Deus não estimam nada tão caro quanto ela; preferem-na ao seu alimento designado.
— William Cowper.
"A tua lei... minha delícia... na minha aflição." Aconteceu de eu estar parado numa mercearia, certo dia, numa grande cidade industrial do oeste da Escócia, quando entrou uma pobre viúva, velha e frágil, para fazer algumas compras. Talvez nunca tenha havido, naquela cidade, tempo mais severo de aflição. Quase todos os teares estavam parados.
Comerciantes decentes e respeitáveis, que já tinham visto dias melhores, eram obrigados a subsistir da caridade pública. Concedia-se aos verdadeiramente pobres e merecedores certa quantia por dia (mas quase nada, no máximo). A pobre viúva recebera seu pequeno auxílio diário, e agora entrara na loja do merceeiro para gastá-lo com o melhor proveito.
Tinha apenas algumas moedinhas de cobre em suas mãos murchas. Cuidadosamente gastava seu pequeno estoque — um tostão disto, outro daquilo necessário à vida, quase esgotando tudo o que tinha. Chegou ao último tostão, e, com singular expressão de heroico contentamento e alegre resignação em seu rosto enrugado, disse: "Agora preciso comprar óleo com isto, para que eu possa ver a ler minha Bíblia durante estas longas noites escuras, pois é meu único consolo agora, quando todo outro consolo se foi."
— Alexander Wallace, em The Bible and the Working Classes, 1853.
A este verso posso chamar Perfume Contra a Peste; Bálsamo do Enfermo; Consolação do Aflito; e um bendito Triunfo, em e sobre todas as tribulações.
— Richard Greenham.
Versículo 93Salmo 119:93
Nunca me esquecerei dos teus preceitos, etc. Deve-se lutar contra o esquecimento por todos os meios possíveis, para que ele não se infiltre gradualmente, pela ingratidão, pela velhice, pela fraqueza de mente, ou por outros cuidados avassaladores. Veja Salmos 119:16; Salmos 119:61; Salmos 119:83.
— Martin Geier.
Nunca me esquecerei dos teus preceitos, etc. Este homem bom, aflito, agora está consolado; seu consolo veio de seu deleite na lei de Deus; ele pensa nela, sente sua força, e por isso, para que possa sempre receber consolos semelhantes, se compromete com uma promessa ao Senhor, de que nunca esquecerá seus preceitos; acrescentando a razão, a saber, que eles eram, para ele, espírito e vida.
"Com eles me vivificaste." Foi vivificado, como diz, por Deus, mas também pela palavra, solidamente pregada, salvificamente entendida, e particularmente aplicada à consciência. Assim, pois, o poder da morte de Cristo nos faz andar em novidade de vida. Não há aqua vitae, nem aqua celestis, semelhante a esta, pela qual temos paz interior de consciência, e obediência exterior aos mandamentos de Deus. Davi se alegrou nesta bênção; assim devemos nós: desejamos estar sempre prontos, e alegres para todos os bons deveres; só Deus, por seu Espírito, na palavra, pode dá-lo.
— Richard Greenham.
"Com eles me vivificaste." O Espírito vivificante se compraz em agir por meio da palavra; mas, embora a palavra seja o meio, o benefício vem de Deus: "Pois com eles me vivificaste." A vida vem da fonte da vida. O evangelho é emplastro soberano; mas é a mão de Deus que precisa aplicá-lo, e fazê-lo aderir; fazê-lo ser paz, consolo e vivificação para nossas almas.
Há uma dupla vivificação: quando, de mortos, somos feitos vivos; ou quando, de frios, tristes e pesados, somos feitos animados... e assim não apenas temos vida, mas a temos mais abundantemente, segundo a graciosa promessa de Cristo (João 10:10): que estejam vivos, animados, mantidos sempre em vigor.
Ora, esta segunda vivificação pode ser tomada, ou mais amplamente, pela vitalidade da graça; ou, mais estritamente, pelo consolo real. Tomada amplamente, Deus vivifica ao aumentar a vida da graça; seja internamente, prometendo a vida da graça; seja moral e externamente, prometendo a vida da glória.
Mais estritamente, sua vivificação pode ser tomada por consolo e apoio em sua aflição; e é provavelmente assim que se toma aqui: ele acabara de dizer: "Se a tua lei não fosse a minha delícia, eu teria perecido na minha aflição"; e agora: "Nunca me esquecerei dos teus preceitos, porque com eles me vivificaste." Foi grande consolo e apoio para ele; e por isso deveria estimar a palavra enquanto vivesse.
— Thomas Manton.
"Me vivificaste." Não deixe de ler a Bíblia até sentir o coração aquecido. Leia a palavra, não apenas como história, mas esforce-se por ser tocado por ela. Que ela não apenas o informe, mas o inflame. "Não é a minha palavra como fogo? diz o Senhor" (Jeremias 23:29). Não deixe a palavra até poder dizer, como aqueles discípulos: "Não ardia em nós o coração?" (Lucas 24:32).
— Thomas Watson.
Versículo 94Salmo 119:94
Teu sou eu, salva-me. Davi, homem segundo o coração de Deus, queria ser salvo, mas não à maneira dos homens deste mundo, que querem ser salvos para serem de si mesmos, e desfrutarem de si à própria vontade; mas ele, ao ser salvo, queria ser de Deus, e à sua disposição: "Teu sou eu, salva-me."
Há tríplice força neste argumento.
- A lei da natureza, que obriga o pai a ser bom para com o filho, o marido para com a esposa, etc.; e Deus se sujeitou mais à lei da natureza, está mais sob ela do que qualquer um destes; e cumpre esta lei da natureza mais perfeita, plena e gloriosamente do que qualquer um; não há pai como ele, não há amigo, não há marido como ele.
"Pode uma mulher esquecer-se de seu filho de peito? Contudo, eu não me esquecerei de ti" (Isaías 49:15). Uma mãe dificilmente o consegue; a natureza a ensina a ter entranhas, e lembrança misericordiosa por seu filho; muito mais assim serei eu, diz Deus.
Quando podemos dizer a Deus "teu sou eu", alegamos a aliança que Deus fez conosco, na qual ele se tornou nosso pai e amigo; e é isto que se alega em Isaías 63:16: "Sem dúvida, tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conheça, e Israel não nos reconheça (porque já partiram, e por isso não têm agora conhecimento de nós); mas tu, ó Senhor, és nosso Pai, nosso Redentor; o teu nome é desde a eternidade." Veja que conclusão se tira aqui: sem dúvida és nosso Pai, e por isso te chamamos por socorro.
Há este encorajamento e força que o espírito do homem recebe ao assim argumentar com Deus: que, se ele pode dizer em verdade "teu sou eu", muito mais dirá Deus à criatura: "teu és tu." Se temos tanto amor para nos oferecermos a Deus, para nos tornarmos seus; muito mais o amor de Deus o fará tornar-se nosso; pois Deus ama primeiro, e mais, e com mais certeza. Se meu coração se ergue para Deus, muito mais o coração de Deus está voltado para mim; porque ali o amor está na fonte.
Jamais falou uma esposa a seu marido, a quem sua alma amava ao mais alto grau, com mais boa vontade, dizendo "teu sou eu", do que o espírito de um homem íntegro diz a Deus: "Senhor, teu sou eu." E ele o ama com amor de gratidão. Deste-te tu a mim, diz ele, e me reterei então de ti? Fizeste tu, que és tão grande, tudo isto por mim, e resistirei a ti? O homem gracioso reconhece de bom grado ser do Senhor.
Os santos frequentemente fazem isso: Davi, mais de vinte vezes, vem com este reconhecimento neste salmo, e em Salmos 116:16: "Sou teu servo; sou teu servo." Dizê-lo uma vez não bastava; ele o repete, para mostrar a sinceridade de seu espírito, e testemunhar que seu coração estava plenamente satisfeito com isto: que não era seu, mas do Senhor.
O conhecimento de nosso interesse em Deus muito favorece nossa aproximação a Deus. Quando um homem está uma vez seguro, e pode dizer com espírito claro "teu sou eu", clamará naturalmente: "salva-me." Tal homem é homem de oração, muito dado a se dirigir a Deus, e a conversar com ele.
— Joseph Symonds, 1653.
"Teu sou eu." Este é excelente motivo para tirar do Senhor ajuda na tribulação — "teu sou eu." Teu por criação, fui feito por ti; teu por adoção, fui atribuído a ti; teu por doação, fui dado a ti; teu por casamento, fui desposado por ti; teu por redenção, fui comprado por ti; teu por compromisso, votei-me a ti.
— Richard Greenham.
"Porque busquei os teus preceitos." Veja aqui como Davi qualifica sua declaração: por seu ardente afeto à palavra de Deus, prova que era homem de Deus, e não servo de si mesmo. Não são palavras, mas afetos e ações, que devem provar que somos do Senhor. Tuus sum, quia id solum quod tuum est quaesivi [sou teu, porque só busquei o que é teu]: sou teu porque nada busquei senão o que é teu, e como poderia agradar-te. Mihi in tuis justificationibus est omne patrimonium [para mim, na observância dos teus estatutos está todo o meu patrimônio]: na observância de teus preceitos está todo o meu patrimônio.
— William Cowper.
Davi reivindica relação com Deus: "teu sou eu" — devotado a ti, e reconhecido por ti, teu em aliança.
Ele prova sua reivindicação: "teu sou eu, salva-me; porque busquei os teus preceitos"; isto é, indaguei cuidadosamente sobre meu dever, e diligentemente me esforcei por cumpri-lo.
Ele aproveita sua reivindicação: "teu sou eu, salva-me." Salva-me do pecado, salva-me da ruína.
— Sr. Henry.
Uma grande oração: "Salva-me."
Uma oração magnífica: "Teu sou eu."
Uma experiência graciosa: "Busquei", etc.
Relação: "Teu sou eu."
Preservação: "salva-me."
Obrigação: "busquei", etc.
— G. R.
O filho de Deus humildemente lhe assinala sua responsabilidade: "teu sou eu."
Ousa alegar sua própria sinceridade: ao menos "buscou."
Com estas duas mãos estendidas, profere um clamor agudo por socorro: "salva-me."
— W. B. H.
"Multum in parvo" [muito em pouco].
Uma profissão.
Uma oração.
Um argumento.
— C. A. D.
O interesse de Deus em nós.
Nosso interesse em Deus.
— W. D.
As características da religião pessoal.
Devoção pessoal a Deus: "teu sou eu."
Obediência pessoal prestada: "busquei os teus preceitos."
Expectativa pessoal acalentada: "salva-me."
— J. F.
A coragem que a obediência dá.
- Ela nos encoraja a uma firme segurança: "teu sou eu, porque busquei", etc.
(a) Tornamo-nos de Deus somente pela fé.
(b) Mas a segurança de sermos seus não pode existir sem obediência; a obediência prova a fé a nós mesmos; nos satisfaz quanto à graça recebida.
(c) A obediência pobre sempre atrapalha a segurança.
- Ela nos encoraja a orar, e na oração: "salva-me."
(a) As orações do cristão são somente da fé, e oferecidas em fé.
(b) Contudo, a desobediência o faz recuar de se aproximar de Deus em oração, e o torna fraco na súplica.
(c) A obediência é humilde, mas ousada. A cláusula do meio do texto se aplica igualmente à primeira e à terceira cláusulas.
— J. F.
Versículo 95Salmo 119:95
Os ímpios me esperaram para me destruir. De novo ele nota duas coisas em seus inimigos: diligência, em esperar todas as ocasiões para lhe fazer mal; e crueldade sem misericórdia, pois seu propósito era destruí-lo: nisto, ainda vemos quão inquieta e insaciável é a malícia dos ímpios contra os piedosos.
A preservação de Daniel na cova dos leões foi grande milagre; mas não é obra menos maravilhosa de Deus que os piedosos, que são o rebanho de Cristo, sejam diariamente preservados no meio dos ímpios, que não passam de lobos vorazes, e têm sede do sangue dos santos de Deus, tendo em seu coração o cruel propósito, se pudessem realizá-lo, de destruí-los inteiramente.
— William Cowper.
Mas eu considerarei os teus testemunhos. Era tentação penosa ser procurado para ser entregue à morte, mas maior misericórdia era considerar os testemunhos de Deus, mesmo então, quando sua vida era procurada. Não fosse pela consideração dos testemunhos de Deus, mil contra um, ele teria decaído.
— Richard Greenham.
Versículo 96Salmo 119:96
Tenho visto fim a toda perfeição, etc. Estas palavras são traduzidas e entendidas de várias maneiras pelos intérpretes, que, nessa variedade, muito concordam e conspiram no mesmo sentido. A Paráfrase Caldaica traduz assim: "Tenho visto fim a todas as coisas em que empreguei meu cuidado; mas o teu mandamento é muito amplo."
A versão siríaca, assim: "Tenho visto fim a todas as regiões e países" (isto é, achei que a circunferência do mundo habitável é finita e limitada), "mas o teu mandamento é de extensão vasta." Outros o explicam assim: "Tenho visto fim a toda perfeição", isto é, a todas as coisas deste mundo que os homens valorizam e estimam em tão alto grau; a toda sabedoria e conhecimento mundanos, à riqueza, à honra e à grandeza, que todas perecem e passam;
"mas a tua lei é eterna, e continua sendo a mesma"; ou, como a Escritura o expressa em outro lugar: "A palavra do Senhor permanece para sempre."
— John Tillotson, 1630-1694.
Tenho visto fim a toda perfeição. Pobre perfeição, aquela a que se vê o fim! No entanto, assim são todas as coisas neste mundo que passam por perfeições. Davi, em seu tempo, vira Golias, o mais forte, vencido; Asael, o mais veloz, alcançado; Aitofel, o mais sábio, tornado tolo; Absalão, o mais belo, desfigurado.
— Matthew Henry.
Tenho visto fim a toda perfeição, etc. As palavras do salmista nos oferecem duplo consolo e encorajamento. Podemos lê-las de duas maneiras: (1) "Tenho visto fim a toda perfeição; pois o teu mandamento é sobremaneira amplo"; e (2) "Tenho visto fim a toda perfeição, mas o teu mandamento é sobremaneira amplo."
Lidas do primeiro modo, sugerem o pensamento animador de que nossa persistente consciência de imperfeição nasce da brilhante e temível perfeição da Lei que estamos empenhados em obedecer, do ideal que pusemos diante de nós. Não é porque somos piores que os que não têm lei, ou que são lei para si mesmos, que estamos inquietos e insatisfeitos conosco; mas porque medimos a nós mesmos e a nossos semelhantes pelo elevado padrão do mandamento de Deus.
É porque esse mandamento é tão amplo que não podemos abarcá-lo; é porque é tão alto que não podemos alcançá-lo; é porque é tão perfeito que não podemos obedecê-lo perfeitamente.
Mas podemos ler o verso de outro modo, e ainda assim dele tirar consolo e encorajamento. Podemos dizer: "Tenho visto fim a toda perfeição em mim mesmo, e no mundo; mas o teu mandamento é sobremaneira amplo: aquele é perfeito, ainda que eu seja imperfeito, e em sua perfeição encontro a promessa da minha própria." Pois dará Deus uma lei para a vida humana, e essa lei permanecerá para sempre não cumprida? Impossível!
"Os dons de Deus são sem arrependimento" — irrevogáveis, nunca a serem diminuídos ou retirados. Seu propósito não há de ser anulado por nossas fraquezas e pecados.
Na Lei, ele nos mostrou o que quer que sejamos. E nunca nos tornaremos aquilo que ele quer que sejamos? Pode a Lei permanecer para sempre sem nenhuma vida que lhe corresponda e a cumpra? Não; Deus jamais retirará o belo e perfeito ideal da vida humana retratado em sua Lei, jamais retratará seu propósito de erguer a vida do homem até que toque e cumpra seu ideal.
E assim a própria Lei que é nosso desespero é também nosso consolo; pois, se ela é perfeita, devemos nos tornar perfeitos; sua perfeição é o penhor da nossa.
— De The Expositor, 1876.
Tenho visto fim a toda perfeição. O olho natural de Davi vira o fim de muitas perfeições humanas, e o olho de seu entendimento viu o fim de todas elas. Vira algumas de fato terminarem, e viu que todas devem terminar. Adão não permaneceu naquela perfeição que não tinha imperfeição alguma; como, pois, poderá algum de seus filhos permanecer no que, na melhor das hipóteses, é uma perfeição imperfeita?
— Abraham Wright.
Tenho visto fim, etc. As leis de Licurgo entre os gregos, e de Numa entre os romanos, tinham algo de bom nelas, mas não tudo; proibiam algo que era mau, mas não tudo o que era mau. Mas a religião cristã tem extensão maior, tanto em seus preceitos quanto em suas proibições: "Tenho visto fim a toda perfeição; mas o teu mandamento é sobremaneira amplo."
Um homem, com o olho do corpo, pode ver o fim de muitas perfeições mundanas, de muitas belas propriedades, grandes belezas, grandes talentos, famílias promissoras; mas um homem, com o olho da alma (ou pela fé), pode ver o fim de todas as perfeições terrenas.
Pode ver o mundo em chamas, e toda a sua pompa e orgulho, e glória, e galanteio, e coroas e cetros, e riquezas, e tesouros, transformados em cinzas. Pode ver os céus passando como um pergaminho, e os elementos se derretendo com calor ardente, e a terra, com as coisas que nela há, consumida; e todas as suas perfeições, com que os homens tanto se encantavam, dissipadas em fumaça e nada.
É fácil ver o fim de todas as perfeições terrenas, mas é difícil, sim, impossível, ver o fim dos preceitos divinos: "Mas os teus mandamentos são sobremaneira amplos", de vasta latitude, além de nossa compreensão.
São tão profundos que ninguém pode sondá-los (Salmos 36:6), tão altos que estão firmados nos céus (Salmos 119:89); tão longos que duram para sempre (2 Pedro 1); e tão amplos que ninguém pode medi-los. Não são apenas "amplos", mas "sobremaneira amplos": mais altos que o céu, mais longos que a terra, mais amplos que o mar.
"Os mandamentos de Deus alcançam as partes íntimas, os mais secretos movimentos e recônditos recessos da alma. Alcançam todos os pensamentos privados, penetram até à divisão entre a alma e o espírito, e das juntas e medulas, e discernem os pensamentos e intenções do coração" (Hebreus 4:12). "Alcançam todas as nossas ações; tanto as que parecem menores e de menor importância, quanto as que são maiores e de maior importância."
— George Swinnock.
"O teu mandamento é sobremaneira amplo." Assim como há mais misericórdia no evangelho do que somos capazes de compreender, também há mais santidade na lei do que somos capazes de compreender. Nenhum homem jamais viu as profundezas dessa justiça. Há uma santidade infinita na lei.
"Tenho visto fim a toda perfeição; mas o teu mandamento é sobremaneira amplo." Ele não fala no concreto, "vi o fim das coisas perfeitas", mas no abstrato, "fim da perfeição": cheguei ao extremo, ou ao próprio fundo de tudo (um homem pode logo percorrer todas as perfeições que há no mundo, e ver seu fim, ou ver que terminam);
"mas o teu mandamento é sobremaneira amplo", isto é, é imensamente mais amplo do que qualquer dessas perfeições; não consigo ver seu fim, e sei que jamais terá fim. Há uma vastidão de pureza e espiritualidade na lei.
— Joseph Caryl.
"O teu mandamento é sobremaneira amplo." É assim pela aplicabilidade abrangente de suas grandes e simples regras: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças, e ao teu próximo como a ti mesmo." É assim pela ampla ordem de suas ordenanças específicas. Onde há um lugar sem sinal da vontade divina?
É assim por pôr mão autoritária sobre os primeiros princípios e a origem de onde qualquer coisa pode proceder, no espírito e na ação humana; e então alcança tudo o que dali procede ou pode proceder. Afirma jurisdição sobre todo pensamento e afeto interior.
Toda linguagem é proferida sob esta mesma jurisdição. Tudo em que o mundo e cada homem estão empenhados. E até sobre o que não é feito, ela mantém sua autoridade, e pronuncia seus ditames e julgamentos. É coisa positiva com respeito ao que é negativo — omissão, inexistência.
Como o governo divino no mundo material, sobre os desertos, os ermos, as areias estéreis. E desses espaços de nada (por assim dizer) ela pode erguer formas substanciais de mal, de pecado, como evidência contra os homens.
Assim como, na ressurreição, os homens se levantarão de ermos vazios, onde não se suspeitaria que alguém estivesse escondido. Que um homem olhe para trás, para todas as suas omissões, e pense no que a lei divina pode erguer delas contra ele. Assim, a lei, em sua imensa amplitude, não é vazia em lugar nenhum; não se estende a essa vasta extensão por abismos e espaços vazios. Se um homem pudesse encontrar um só desses, ali poderia se posicionar para o pecado com impunidade, senão com inocência.
— John Foster, 1768-1848.
"O teu mandamento é sobremaneira amplo." Na literatura religiosa popular dos tempos atuais, os termos "amplo" e "livre" ocorrem com frequência. O fascínio que os cerca é intensificado pelo uso, ao mesmo tempo, de seus opostos, "estreito" e "fanático". Por hábil manipulação destes termos e seus equivalentes, a heterodoxia do dia se empenha em apagar a doutrina e o espírito da fé evangélica, e atrair a multidão cristã para dentro da influência da crescente corrente racionalista.
Ao ir ao mercado onde as mercadorias heterodoxas são exibidas com rótulos tão atraentes, o comprador desprevenido logo descobre que "a sua vinha é da vinha de Sodoma, e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas de fel, os seus cachos são amargos." Não terá chegado o tempo em que os aderentes da fé verdadeira devem se empenhar em arrancar de seus opositores o monopólio no uso destes termos, que parecem desejosos de estabelecer para si mesmos?
Aqueles que, no espírito de seu Mestre, se apegam mais de perto, e lutam mais tenazmente, por toda a fé que foi entregue aos santos, serão os de mente mais liberal e mais católica; e os que abandonam as "velhas veredas" hão de se tornar, na proporção de seus afastamentos, contraídos em seu alcance mental, e estreitos de alma.
Não é a Bíblia — a Bíblia toda — o único manual do amplo cristianismo em seu sentido mais verdadeiro e mais alto? Não é a revelação do Filho de Deus em nós o grande poder que expande a alma? "Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres." Não devemos inferir, das palavras de Cristo, "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará", que a mente que apreende a verdade é morada de liberdade mental?
Não produz a estrita conformidade da vida à lei de Deus verdadeira amplitude de caráter? Pois "o teu mandamento é sobremaneira amplo." Não é o sistema do evangelho o único e verdadeiro amplo cristianismo — "a lei perfeita da liberdade"? Não é o crente — e tanto mais quanto mais forte for sua fé — o único e verdadeiro homem de ampla igreja, "crescendo com o crescimento de Deus", "cheio de toda a plenitude de Deus"?
— James Kerr, em The Modern Scottish Pulpit, 1880.
"Sobremaneira amplo." Não obstante muitas coisas mostrarem que o caminho da vida é estreito, para o homem piedoso ele é caminho de grande amplitude; não para o pecado, mas para o dever e o deleite. Nele ele se apressa e progride.
— Robert Trail, 1642-1716.
Note que a lei, que é o vosso alvo, é sobremaneira ampla. E, no entanto, não é por isso mais fácil de acertar; porque deveis mirar em acertá-la, em cada dever seu, com um desempenho de igual amplitude, ou então não podereis acertá-la de modo algum.
— Stephen Marshall.
Versículo 98Salmo 119:98
Tu, pelos teus mandamentos, me fizeste mais sábio que meus inimigos. Agora louva a palavra pelo singular proveito e fruto que dela colheu, a saber, que por ela aprendeu sabedoria. E isso ele amplifica, comparando-se com três espécies de homens: seus inimigos, seus mestres, e os antigos. E o faz, não por vanglória (pois a jactância está longe daquele que é governado pelo Espírito da graça), mas para louvar a palavra do Senhor, e atrair outros a amá-la, declarando-lhes que bem multiforme achou nela.
"Mais sábio que meus inimigos." Mas como pode ser isso, visto que nosso Salvador diz que os homens deste mundo são, em sua geração, mais sábios que os filhos de Deus? A resposta é: nosso Salvador não chama os mundanos, simplesmente, de sábios; mas mais sábios em sua geração; isto é, sábios nas coisas pertencentes a esta vida. Ou, como Jeremias os chama, "sábios para fazer o mal"; e, tendo assim feito, sábios para escondê-lo e disfarçá-lo.
Tudo isso, na verdade, não passa de loucura; e por isso Davi, que pela luz da palavra de Deus via que assim era, não podia se mover a seguir o caminho deles. Ora, há grande controvérsia entre os piedosos e os ímpios: cada um deles, a seu juízo, considera o outro tolo; mas é a luz da palavra de Deus que deve decidi-lo.
— William Cowper.
"Mais sábio que meus inimigos." São mais sábios que seus inimigos quanto à segurança contra suas tentativas, e aquela inimizade e oposição que empreendem contra eles; estão muito mais seguros ao caminhar sob o abrigo da proteção de Deus do que seus inimigos possivelmente poderiam estar, ainda que tenham toda sorte de vantagens mundanas.
O homem sábio e piedoso cuida de se manter em bons termos com Deus: está mais preparado e provido, pode ter esperança mais alta, mais expectativa de sucesso, do que os outros; ou, se não, está suficientemente provido, ainda que tudo saia contrário a seus desejos.
Quanto ao sucesso, quem fez a provisão mais sábia, pensam vocês: aquele que fez de Deus seu amigo, ou aquele que se apoia em suportes e dependências mundanas? Os que são guiados pelo Espírito de Deus, ou os que são guiados por Satanás? Os que fazem seu ofício andar com Deus passo a passo, ou os que não só o abandonam, mas o provocam à sua face?
Os que rompem com os homens, e se mantêm bem com Deus, ou os que rompem com Deus? Certamente, um filho de Deus tem mais segurança pela piedade do que seus inimigos podem ter pela política secular, com a qual pensam enganá-lo e arruiná-lo. A segurança do filho de Deus está em duas coisas: 1. Deus é seu amigo. 2. Enquanto Deus tiver obra para ele fazer, o manterá, e o sustentará nela.
— Thomas Manton.
"Estão sempre comigo." O sentido da última cláusula não é apenas "está sempre comigo", mas "é para sempre meu" — isto é, meu, minha posse inalienável, indefectível.
— Joseph Addison Alexander.
"Estão sempre comigo." Deus dá conhecimento a quem lhe apraz; mas os que mais meditam, mais prosperam. Isso pode implicar também que a palavra deve ser ajuda pronta. Os que tiram sua sabedoria de fora não podem ter seus conselheiros sempre consigo para lhes dar orientação. Mas, quando um homem tem a palavra em seu coração, encontra ajuda pronta: tem uma palavra oportuna para dirigi-lo em todas as dificuldades, em todos os apertos, e em todas as tentações, para lhe ensinar o que fazer contra o peso da atual necessidade; para lhe ensinar o que fazer, e o que esperar.
— Thomas Manton.
"Estão sempre comigo." O homem bom, onde quer que vá, carrega sua Bíblia consigo, se não nas mãos, ao menos na cabeça e no coração.
— Matthew Henry.
Versículos 98–100Salmo 119:98-100
Três espécies de homens ele menciona: "inimigos", "mestres", "antigos"; os inimigos se destacam na astúcia, os mestres na doutrina, e os antigos no conselho; e, no entanto, pela palavra, Davi foi feito mais sábio que todos estes. A malícia aguça o engenho dos inimigos, e lhes ensina as artes da oposição; os mestres são providos de erudição por causa de seu ofício; e os antigos crescem em sabedoria pela experiência; contudo, Davi, pelo estudo da palavra, superou a todos estes.
— Thomas Manton.
Versículo 99Salmo 119:99
Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres. Mesmo onde o pregador é piedoso, partícipe daquela mesma graça de que é embaixador para outros, acontece muitas vezes que maior medida de luz e graça é comunicada por seu ministério a outro do que a si mesmo lhe é dada; assim como Agostinho, primeiro iluminado e convertido por Ambrósio, superou de longe, tanto em conhecimento quanto em graça espiritual, aquele que o ensinou.
E nisso Deus mostra maravilhosamente sua glória: que, seja qual for o instrumento, é ele o dispensador da luz e da glória, dando mais pelo instrumento do que este tem em si mesmo. E isso está tão longe de ser, para um mestre piedoso, motivo de pesar, que é antes motivo de glória.
— William Cowper.
Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres. Não é depreciação de meus mestres, mas antes honra para eles, que eu progrida a ponto de superá-los, e já não precise deles. Pela meditação pregamos a nós mesmos, e assim chegamos a entender mais do que nossos mestres, pois chegamos a entender nosso próprio coração, o que eles não podem.
— Matthew Henry.
Versículo 100Salmo 119:100
Entendo... porque guardo. Queremos conhecer o Senhor? Guardemos os seus mandamentos. "Pelos teus preceitos", diz Davi, isto é, pela observância dos teus preceitos, "recebo entendimento." "Se alguém quiser fazer a vontade dele" (diz nosso bendito Salvador, João 7:17), "conhecerá a minha doutrina." Boúlei theológos genésthai? tas entolàs phýlasse, diz Nazianzeno: Queres ser um teólogo? Guarda os mandamentos; pois a ação é, por assim dizer, a base da contemplação. É observação de São Gregório, a respeito dos dois discípulos que, enquanto Cristo conversava com eles, não o conheciam, mas ao praticarem um ato de hospitalidade para com ele, a saber, partindo o pão com ele, o conheceram — que foram iluminados não por ouvi-lo, mas por praticar os preceitos divinos. Quisquis ergo vult audita intelligere, festinet ea quae jam audire potuit, opere implere: Quem quer, pois, entender o que ouviu, apresse-se a pôr em prática o que já pôde ouvir. — Nathanael Hardy, 1618-1670.
Entendo mais do que os anciãos. A resposta costumeira das pessoas ignorantes é: "Ora, havemos de ser mais sábios do que nossos antepassados?" E, no entanto, essas mesmas pessoas gostariam de ser mais ricas do que seus antepassados foram. O máximo a que um cristão pode chegar é isto: precisa crescer em graça, até que sua cabeça alcance o céu, até que a graça se aperfeiçoe em glória. — Christopher Love, 1618-1651.
Mais do que os anciãos. O entendimento obtido pelos preceitos da palavra é melhor do que o entendimento obtido pela longa experiência. É melhor em quatro aspectos.
Primeiro, é mais exato. Nossa experiência alcança apenas algumas coisas; mas a palavra de Deus alcança todos os casos que dizem respeito à verdadeira felicidade. A palavra é fruto da sabedoria de Deus, que é o Ancião de dias; por isso ela excede a sabedoria dos antigos, ou a experiência de qualquer homem, ou de todos os homens.
Segundo, por ser mais exata, é também um modo mais seguro de aprender sabedoria, ao passo que a experiência é mais incerta. Muitos têm muita experiência, e ainda assim não têm coração para ver e colher sabedoria daquilo que sentem: Deuteronômio 29:2-4.
Terceiro, é um modo mais seguro e mais barato de aprender: aprender pela regra, em vez de voltar pra casa chorando e aprender a sabedoria à própria custa. A experiência é um caminho caro demais; e, se não tivéssemos mais nada para nos guiar, em quantas milhares de misérias cairíamos!
Quarto, é mais curto. O caminho pela idade e pela experiência é longo; e assim, por muito tempo, toda a juventude do homem há de ser, necessariamente, miserável e tola. Ora, aqui se pode chegar cedo a ser sábio, estudando a palavra de Deus. Importa ao homem não só ser sábio no fim, mas ser sábio a tempo. As virgens loucas foram sábias tarde demais; mas nunca ninguém foi sábio cedo demais. — Resumido de Thomas Manton.
Se, desse modo, a Palavra de Deus era assim perfeita no tempo de Davi, o que dizer dela agora, com o acréscimo de tantas partes da Escritura desde então? Se ela já dava sabedoria ao simples (Salmos 14:7); se fez de Davi, criado apenas como pastor, mais sábio que seus inimigos, que seus anciãos, que seus mestres, como um anjo de Deus em discernir o certo do errado (1 Samuel 14:17), capaz de guiar o povo pela destreza de suas mãos (Salmos 78:72) — que sabedoria não podemos hoje colher dela?
Que profundidade de filosofia natural temos em Gênesis e em Jó! Que flores de retórica nos profetas! Que força de lógica nas epístolas de São Paulo! Que arte poética nos salmos! Que excelentes preceitos morais, não só para a vida privada, mas para o governo de famílias e nações, em Provérbios e Eclesiastes! A isso podem-se acrescentar, em segundo lugar, como muito úteis, ainda que apócrifos, o Livro da Sabedoria e o Eclesiástico.
Que leis razoáveis e justas temos em Levítico e Deuteronômio, que levaram o grande Ptolomeu a contratar os Setenta para traduzi-las ao grego! Que antiguidade incomparável, variedade, acontecimentos maravilhosos e certeza histórica nos livros de Moisés, Josué, Juízes, Samuel, Reis e Crônicas, junto com Rute e Ester, Esdras e Neemias, e, depois de Cristo, nos sagrados Evangelhos e Atos dos Apóstolos! E, por fim, que mistérios profundos temos nas profecias de Ezequiel e Daniel, e no Apocalipse de São João!
Mas nisto ela excede infinitamente a sabedoria de todos os escritos humanos: só ela é capaz de "fazer um homem sábio para a salvação" (2 Timóteo 3:15). Por essas considerações, Carlos V da França, chamado o Sábio, não só mandou traduzir a Bíblia para o francês, como ele mesmo se dedicava com afinco às Sagradas Escrituras. E dizem que Afonso, Rei de Aragão, leu a Bíblia inteira quatorze vezes, com as notas de Lira; e, embora fosse de resto excelentemente instruído, ainda assim a lei de Deus era o seu deleite, "mais desejada por ele do que o ouro, sim, do que muito ouro fino, mais doce também do que o mel e o favo de mel." — George Hakewell, 1579-1649.
Versículo 101Salmo 119:101
Refreei os meus pés, etc. 1. Temos a prática de Davi: "Refreei os meus pés de todo caminho mau." 2. Seu fim ou motivo: "Para guardar a tua palavra"; para ser exato e pontual com Deus num curso de obediência.
Primeiro, quanto à sua prática. Note-se a seriedade dela: refreei os meus pés. Por "pés" entendem-se os afetos: "Guarda o teu pé quando fores à casa de Deus", Eclesiastes 5:1. Nossos afetos, que são a tendência rigorosa da alma, nos levam à prática; por isso são bem representados pelos pés, com os quais caminhamos a qualquer lugar que desejamos. De modo que "refreei os meus pés" significa: mantenho um controle firme e estrito sobre meus afetos, para que não me levem ao pecado.
Note-se também a extensão disso: ele não diz apenas que se absteve do mal, mas universalmente, "de todo caminho mau." Mas como poderia Davi dizer isso com verdade no coração, ciente de sua ofensa no caso de Urias? Resposta: este era o estado e o temperamento habitual de sua alma, e o rumo de sua vida; e esse tipo de afirmação a respeito dos santos deve ser interpretado voto et conatu, licet non semper eventu — quanto ao voto e ao esforço, ainda que nem sempre quanto ao resultado. Este era o seu intento e propósito, seu empenho e esforço, o seu rumo habitual, ainda que tivesse suas falhas.
Segundo, qual era seu fim e motivo nisso? Para guardar a tua palavra; para ser exato e pontual com Deus num curso de obediência, e aderir à sua palavra de modo universal, imparcial. — Thomas Manton.
Refreei os meus pés, etc. Onde há santidade real, há um santo ódio, detestação e indignação contra toda impiedade e maldade, e isso por motivos santos: "refreei os meus pés de todo caminho mau." Mas por quê? "Para guardar a tua palavra." ""Pelos teus preceitos recebo entendimento: por isso odeio todo caminho falso"", Salmos 119:104. O bem que ele recebeu pelos preceitos divinos despertou nele ódio a todo caminho falso: Salmos 119:128, "Por isso estimo retos todos os teus preceitos a respeito de todas as coisas; e odeio todo caminho falso." Sua alta estima por cada preceito despertou nele uma santa indignação contra todo caminho mau.
Um homem santo sabe que todo pecado atinge a santidade de Deus, a glória de Deus, a natureza de Deus, o ser de Deus e a lei de Deus; por isso seu coração se ergue contra tudo isso; ele olha para cada pecado como os escribas e fariseus que acusaram Cristo; como aquele Judas que traiu Cristo; como aquele Pilatos que condenou Cristo; como aqueles soldados que açoitaram Cristo; e como aquelas lanças que trespassaram Cristo; e por isso seu coração clama por justiça contra tudo isso. — Thomas Brooks.
Refreei... para guardar. Fazendo o que é certo, chegamos tanto a conhecer o certo quanto a ficar mais capazes de o praticar. — "Plain Commentary."
Refreei os meus pés, etc. A palavra "refreei" nos adverte de que somos naturalmente levados pelos pés ao caminho de todo tipo de pecado, e arrastados por ele pela pressa das paixões humanas, de modo que até os sábios e entendidos precisam conter, chamar de volta e retraçar seus passos, para que possam guardar a palavra de Deus e não se tornarem réprobos. E note-se ainda que o verbo hebraico aqui traduzido "refreei" tem sentido ainda mais forte, e significa "prendi, ou aprisionei, os meus pés", pelo que aprendemos que nenhuma resistência leve basta para impedi-los de nos desviar. — Agellius e Genebrardus, em Neale e Littledale.
Versículo 102Salmo 119:102
Por mishpatim, "juízos", entende-se a lei de Deus; pois por ela ele julgará o mundo. E a palavra "não me desviei" indica tanto sua exatidão quanto sua constância: sua exatidão, pois não se afastou nem um fio de cabelo de sua direção — "Cuidareis, pois, de fazer como o Senhor vosso Deus vos ordenou: não vos desviareis nem para a direita nem para a esquerda" (Deuteronômio 5:32); e sua constância está implícita nisso, pois é quando caímos dele em juízo e prática que se diz que nos desviamos de Deus e de sua lei. Jeremias 32:40. — Thomas Manton.
Tu me ensinaste. Deus ensina de dois modos: 1. Por iluminação comum. 2. Por operação especial.
- Pela iluminação comum, apenas iluminando a mente para conhecer ou entender o que ele propõe por meio de seus mensageiros: assim Deus o mostrou aos gentios: Romanos 1:20. Mas então, 2. Pela via da operação especial, inclinando eficazmente a vontade a abraçar e cumprir os deveres assim conhecidos: "Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração": Jeremias 31:33. Este modo de ensinar é sempre eficaz e persuasivo. Ora, nesse sentido são ensinados por Deus, de modo que não apenas ganham ouvidos para ouvir, mas um coração para entender, aprender e praticar.
Este ensino é o fundamento da constância, porque: (1) Os que são assim ensinados por Deus veem as coisas mais claramente do que os outros; Deus é o mais excelente dos mestres. (2) Conhecem as coisas com mais segurança, e com certeza demonstrável, ao passo que outros têm apenas conjecturas duvidosas, e opiniões vagas e vacilantes sobre as coisas de Deus. (3) Este ensino é tão eficaz e poderoso que o efeito se segue: "Ensina-me o teu caminho, ó Senhor; andarei na tua verdade" (Salmos 86:11). (4) Deus renova este ensino, e está sempre à mão para nos guiar e nos dar conselho, o que é a causa de nossa perseverança. — Thomas Manton.
Porque tu me ensinaste. Para que não parecesse que Davi atribuía a si mesmo o louvor da piedade, ou que vinha de alguma bondade nele o ter refreado os pés de todo caminho mau, ele dá aqui toda a glória a Deus, protestando que, porque Deus o ensinou, por isso não se desviou. Daí aprendemos que, se em algum momento permanecemos firmes, ou se, tendo caído, nos levantamos e nos arrependemos, isso deve sempre ser atribuído a Deus, que nos ensina; pois não há mal tão abominável que não se tornasse logo aceitável a nós, se Deus nos deixasse entregues a nós mesmos. Davi foi ensinado por seus mestres ordinários, e os reverenciava; mas o proveito que tirou deles ele atribui a Deus. Paulo pode plantar, e Apolo regar; Deus é quem dá o crescimento. — William Cowper.
Versículo 103Salmo 119:103
Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Até as palavras de uma criatura semelhante a nós, feita de terra, são às vezes inexprimivelmente doces, preciosas além de todo cálculo! Todo o ouro e a prata seriam desprezados em comparação com elas. Vêm carregadas de amor, e o coração se enriquece com elas como se o próprio hálito de Deus nele tivesse entrado. Mas não se apaga aos poucos esse arco-íris de alegria terrena? Não se ressecam, cedo ou tarde, na memória, as palavras que nos arrebatavam, e não podem ser tratadas com desprezo como lembretes de uma ilusão terrena? De fato se apagam; de fato podem.
Contudo, o coração pode encontrar sua felicidade, sua verdadeira e imorredoura felicidade, em palavras. Neste momento não há, em todo o mundo, nada tão desejável quanto certas palavras. Palavras de amor. Palavras que expressam um amor infinito. Tesouros, prazeres, honras da terra, o que são eles? Minha alma insatisfeita clama: dá-me palavras. Palavras pelas quais eu possa conhecer o amor que Deus tem por mim. Palavras que declaram o apego imutável do Salvador. Palavras que purificam meu coração. Que me dão coragem na oração. Que me mostram o futuro bem-aventurado. Palavras que hão de dar vida às minhas forças mortas, e mudar-me de glória em glória, como pelo Espírito do Senhor. — George Bowen, em "Daily Meditations", 1873.
Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! etc. É dado aos regenerados um sentido novo e sobrenatural, um certo paladar divino e espiritual. Este é, em toda a sua natureza, diverso de qualquer um dos outros cinco sentidos; e algo é percebido por um verdadeiro santo, no exercício desse novo sentido da mente, nas coisas espirituais e divinas, tão inteiramente diferente do que é percebido nelas pelos homens naturais, quanto o sabor doce do mel é diverso da ideia que os homens fazem do mel ao olhá-lo ou ao tocá-lo.
Ora, a beleza da santidade é o que se percebe por esse sentido espiritual, tão diverso de tudo que os homens naturais nelas percebem; ou, esse tipo de beleza é a qualidade que é o objeto imediato desse sentido espiritual; esta é a doçura que é o objeto próprio desse paladar espiritual. A Escritura representa com frequência a beleza e a doçura da santidade como o grande objeto de um paladar e de um apetite espirituais.
Este era o doce alimento da alma santa de Jesus Cristo, João 4:32; João 4:34: "Uma comida tenho para comer que vós não conheceis... A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e concluir a sua obra." Não conheço parte alguma das Sagradas Escrituras em que a natureza e a evidência da piedade verdadeira e sincera sejam tão plena e amplamente tratadas e delineadas quanto no Salmo 119. O salmista declara seu propósito já nos primeiros versículos do salmo, mantém nele o olhar do princípio ao fim, e o persegue até o final.
A excelência da santidade é representada como o objeto imediato de um paladar e de um deleite espirituais. A lei de Deus, essa grande expressão e emanação da santidade da natureza de Deus, e prescrição de santidade à criatura, é representada do início ao fim como o grande objeto do amor, da complacência e do júbilo da natureza cheia de graça, a qual estima os mandamentos de Deus mais do que o ouro, sim, mais do que o ouro mais fino, e para a qual eles são mais doces do que o mel e o favo de mel; e isso por causa de sua santidade. O mesmo salmista declara que esta é a doçura que um paladar espiritual saboreia na lei de Deus: Salmos 19:7-10. — Jonathan Edwards, 1703-1758.
Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Por que ele não diz antes: quão agradáveis são as tuas palavras aos meus ouvidos? em vez de dizer que são doces ao seu paladar e à sua boca? Respondo: é muito próprio que, quando Deus fala pela boca de seus ministros, sejamos ouvintes, e que as palavras de Deus sejam as mais alegres de todas aos nossos ouvidos. Mas é também o costume dos piedosos conversar sobre as palavras de Deus, e essas palavras são tão doces ao seu próprio paladar que lhes dão mais prazer e deleite do que qualquer mel do favo. E isso é sobretudo necessário quando há escassez de mestres, como no caso de Davi no deserto ou morando entre os filisteus; ou quando aqueles que ocupam o cargo de ensinar adulteram e corrompem a palavra pura de Deus. — Wolfgang Musculus.
Aquilo que aqui se chama "palavra" eu tomo antes por "juízos", em parte porque na língua original a palavra é omitida, e em parte porque ele usara esta palavra "juízos" no versículo imediatamente anterior. Mas alguém dirá: como podem os juízos de Deus ser "doces", sendo eles tão penosos, temíveis e pesados? Respondo que os piedosos não têm maior alegria do que quando sentem, ou as misericórdias de Deus cumpridas para com aqueles que o temem, ou os seus juízos derramados sobre os réprobos. — Richard Greenham.
Ao meu paladar. "À minha boca." Isto é, tomo tanto prazer em falar, conversar e persuadir a respeito dos teus juízos, quanto minha boca, ou a boca de qualquer um que ama o mel, se deleita com ele. — Richard Greenham.
Mais doces. Assim como sempre há, entre as violetas, algumas muito mais doces do que outras, também entre os textos há alguns mais preciosos para nós do que outros. — Henry Ward Beecher, 1879.
Uma esposa afetuosa costuma dizer: "Meu marido! Tuas palavras são mais doces para mim do que o mel; sim, são mais doces do que a cana de açúcar." "Ai de mim! Meu marido se foi", diz a viúva: "quão doces eram suas palavras! Mel escorria de sua boca: suas palavras eram ambrosia." — Joseph Roberts.
Versículo 104Salmo 119:104
Pelos teus preceitos recebo entendimento; por isso odeio todo caminho falso. Nesta frase o profeta parece inverter a ordem estabelecida em Salmos 119:101. Ali ele dissera: "Refreei os meus pés de todo caminho mau, para guardar a tua palavra", onde evitar o mal é feito o meio de aproveitar a palavra; aqui, seu aproveitamento da palavra é feito a causa de evitar o mal. Num versículo você tem o relato de seu começo com Deus; no outro, o de seu progresso. — Thomas Manton.
Odeio todo caminho falso. Davi diz: "odeio todo caminho falso"; odeio não só o caminho quando fui levado a ele por engano, mas odeio andar nele; e ele professa em Salmos 119:163: "Odeio e abomino a mentira, mas amo a tua lei." Abster-se e evitar a mentira já é sinal de coração cheio de graça; muito mais odiá-la e abominá-la. Um homem piedoso não só faz o que é bom, mas se deleita em fazê-lo, sua alma se apega a isso; está em seu elemento quando o faz, nada lhe convém mais do que a tarefa do seu dever; ele ama fazê-lo, sim, ama-o mesmo quando não pode fazê-lo: Romanos 7:22.
Paulo se queixava muito de que suas corrupções o entravavam, o impediam e o prendiam; estava, quanto a fazer o bem, como ave presa em varas untadas de visco; e ainda assim (diz ele) "deleito-me na lei de Deus segundo o homem interior"; isto é, o homem interior se move com deleite segundo a lei de Deus, quando eu sou movido baixamente pelo meu coração corrupto, e agitado pela tentação contra ela. Ora, assim como o homem piedoso não só escolhe fazer a santa vontade de Deus, mas se deleita e se alegra em fazê-la, e tem doce contentamento nisso; assim também o homem piedoso não só se recusa a fazer a vontade da carne, ou a seguir o curso do mundo, mas odeia fazê-lo, e nunca fica tão descontente consigo mesmo quanto quando, por descuido e falta de vigilância, é surpreendido e cai.
Um homem carnal pode se abster de fazer o mal, e fazer o que é materialmente bom, mas nunca abomina o mal, nem se deleita no bem. Embora se abstenha de praticar aquilo que Deus proíbe, ele não diz, como Jó: "Deus me livre de praticá-lo." ... Deleitar-se no bem é melhor do que fazê-lo, e abominar o mal é melhor do que apenas evitá-lo. E, se compararmos a natureza do pecado com a nova natureza do homem piedoso, veremos com clareza por que sua abstenção do pecado vem sempre junto com a abominação dele. — Joseph Caryl.
Pelos teus preceitos recebo entendimento. O entendimento espiritual está ligado ao paladar da doçura espiritual (compare Provérbios 2:10-11). "A doçura dos lábios" — como observa o sábio — "aumenta o saber. O coração do sábio ensina a sua boca, e acrescenta doutrina aos seus lábios." Provérbios 16:21; Provérbios 16:23. Assim, tendo aprendido "os princípios da doutrina de Cristo", somos encorajados a "prosseguir até a perfeição" — "crescendo na graça e no conhecimento de Cristo." Pois a ligação entre "graça e conhecimento" se manifesta claramente. — Charles Bridges.
Odeio todo caminho falso. A universalidade nisso é sinal seguro de sinceridade. Herodes cospe alguns pecados, enquanto rola outros como doces bocados na boca. O hipócrita sempre deixa ao diabo algum ovo de ninho sobre o qual sentar-se, ainda que remova muitos outros. Alguns homens não compram certas mercadorias porque não conseguem pelo preço que querem, mas gastam o mesmo dinheiro em outras; assim os hipócritas se abstêm de alguns pecados, e até se desagradam deles, porque não podem tê-los sem vergonha, doença, ou alguma outra desvantagem; mas gastam o mesmo amor em outros pecados que melhor convêm aos seus desígnios.
Alguns afirmam que o que o mar perde num lugar, ganha em outro; assim, o que a corrupção do não convertido perde de um lado, ganha de outro. Há nele alguma paixão em especial, a favorita; algum pecado-rei, como Agague, que deve ser poupado quando outros são destruídos. "Nisto o Senhor seja misericordioso para com o teu servo", diz Naamã. Mas o regenerado se esforça por se purificar de toda contaminação, tanto da carne quanto do espírito. 2 Coríntios 7:1. — George Swinnock.
Odeio. As Escrituras colocam a religião muito no afeto do amor: amor a Deus e ao Senhor Jesus Cristo; amor ao povo de Deus e à humanidade. Os textos em que isso se manifesta, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, são inúmeros. O afeto contrário, o ódio, tendo o pecado por objeto, também é mencionado na Escritura como parte nada desprezível da religião verdadeira. É apresentado como aquilo pelo qual a religião verdadeira pode ser conhecida e distinguida. Provérbios 8:13: "O temor do Senhor é odiar o mal."
Por isso os santos são chamados a dar prova de sua sinceridade por meio disso, Salmos 97:10: "Vós que amais o Senhor, odiai o mal." E o salmista menciona isso com frequência como prova de sua sinceridade: Salmos 101:2-3, "Andarei dentro da minha casa com um coração perfeito. Não porei coisa vil diante dos meus olhos: odeio o proceder dos que se desviam." Assim também Salmos 119:128, e o presente lugar. E ainda, Salmos 139:21: "Não odeio eu, Senhor, os que te odeiam?" — Jonathan Edwards.
Odeio. O ódio é um afeto que fere e assassina; ele quer o pecado com coração aceso, até a morte, como vingador de sangue, isto é, do sangue da alma que o pecado derramaria, e do sangue de Cristo que o pecado já derramou. Odeie o pecado plena e perpetuamente, e então não o pouparás, mas o matarás sem demora. Enquanto o pecado não for odiado, não pode ser mortificado; não clamarás contra ele como os judeus clamaram contra Cristo: Crucifica-o! Crucifica-o! Mas lhe mostrarás indulgência, como Davi mostrou a Absalão, dizendo: tratai com brandura o jovem — a respeito desta ou daquela paixão, por minha causa. Misericórdia para com o pecado é crueldade para com a alma. — Edward Reyner, 1600-1670.
Caminho falso. Não se diz "caminho mau", mas "caminho falso": ou, como está no original, todo caminho de mentira e falsidade. A falsidade está ou na opinião ou na prática. Se a tomarmos no primeiro sentido, como falsidade na opinião, erro de juízo, falsa doutrina ou falso culto, esta sentença se aplica bem. Os que recebem entendimento pela palavra ficam firmes contra o erro, e não só firmes contra ele, ou contra abraçá-lo ou possuí-lo, mas o odeiam. — Thomas Manton.
Caminho falso. Todo pecado é uma mentira. Por ele tentamos enganar a Deus. Por ele, de fato, enganamos nossas próprias almas: Provérbios 14:12. Não há ilusão como a loucura de crer que um caminho de pecado conduzirá à nossa felicidade. — William S. Plumer.
Versículo 105Salmo 119:105
A tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz, etc. Davi era homem de muito bom engenho e entendimento natural; mas dá a Deus a glória de sua sabedoria, e reconhece que sua melhor luz não passava de trevas quando não era iluminado e governado pela palavra de Deus. Quisera Deus que considerássemos isto: que em todos os nossos caminhos em que a palavra de Deus não brilha para nos dirigir, apenas andamos em trevas, e nossos caminhos sem ela só podem nos conduzir à escuridão total. Se não damos ouvidos à palavra de Deus, se não andamos pela sua regra, como nos seria possível chegar diante da face de Deus? — William Cowper.
A tua palavra é lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho. O uso da lâmpada é de noite, enquanto a luz do sol brilha de dia. Seja de dia ou de noite conosco, entendemos claramente o nosso dever pela palavra de Deus. A noite significa adversidade, e o dia, prosperidade. Daí podemos aprender como nos comportar em todas as condições. A palavra "caminho" indica nossa escolha geral e o rumo de nossa vida; a palavra "pés", nossas ações particulares. Ora, quer o assunto sobre o qual desejamos ser informados diga respeito à nossa escolha do caminho que leva à verdadeira felicidade, quer ao modo hábil de o percorrer, a palavra de Deus ainda assim dirigirá uma mente humilde e bem disposta. — Thomas Manton.
A tua palavra é lâmpada para os meus pés, etc. Basílio, o Grande, interpretando a "palavra" como a vontade de Deus revelada nas Sagradas Escrituras, observa que o Antigo Testamento, e em especial a Lei, era apenas uma lanterna (lâmpada ou candeia), por ser uma luz artificial, iluminando de modo imperfeito a escuridão; ao passo que o Evangelho, dado pelo próprio Senhor Jesus, é a luz do Sol da Justiça, dando claridade a todas as coisas.
Ambrósio, indo ainda mais fundo, nos diz que o próprio Cristo é lâmpada e luz. Ele, a Palavra de Deus, é grande luz para alguns; para outros, é lâmpada. Para mim é lâmpada; para os anjos, luz. Foi luz para Pedro, quando o anjo se pôs junto a ele na prisão, e a luz resplandeceu ao seu redor. Foi luz para Paulo quando a luz do céu resplandeceu ao seu redor, e ele ouviu Cristo dizer-lhe: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" E Cristo é verdadeiramente uma lâmpada para mim quando falo dele com minha boca. Ele resplandece no barro, resplandece num vaso de oleiro: ele é aquele tesouro que trazemos em vasos de barro. — Neale e Littledale.
A tua palavra é lâmpada... e luz. A menos que a "lâmpada" esteja acesa — a menos que o ensino do Espírito acompanhe a palavra — tudo ainda é "trevas, trevas espessas." Se estivéssemos mais habitualmente prontos a receber, e vigilantes para aproveitar, a luz da palavra, não nos queixaríamos com tanta frequência da perplexidade do nosso caminho. — Charles Bridges.
A tua palavra é lâmpada para os meus pés, etc. O que todos nós precisamos não é ver maravilhas que nos ofusquem, e sermos arrebatados em visões e esplendores extáticos, mas um pouco de luz sobre o caminho escuro e atribulado que temos de trilhar, uma lâmpada que arda com firmeza e utilidade sobre o trabalho que temos de fazer. As estrelas são infinitamente mais sublimes, os meteoros infinitamente mais soberbos e deslumbrantes; mas a lâmpada que brilha num lugar escuro está infinitamente mais próxima das nossas necessidades práticas. — De "The Expositor", 1864.
A tua palavra é lâmpada para os meus pés. Percorrendo duas milhas até uma vizinhança onde poucos sabiam ler, para passar uma noite lendo a um grupo reunido para ouvir, e prestes a voltar por um caminho estreito através do bosque, onde as veredas se bifurcavam, fui provido de uma tocha de madeira resinosa, ou "pinho-de-piche". Objetei; era pequena demais, não pesava meia libra. "Ela vai te iluminar até em casa", respondeu meu anfitrião. Eu disse: "O vento pode apagá-la." Ele disse: "Ela vai te iluminar até em casa." "Mas, e se chover?", objetei de novo. "Ela vai te iluminar até em casa", insistiu ele.
Contrariando meus temores, ela deu luz abundante ao meu caminho todo o trajeto até em casa, oferecendo, penso muitas vezes, uma bela ilustração de como corações hesitantes seriam guiados em segurança pelo "caminho estreito." Se tomassem a Bíblia como seu guia, ela seria lâmpada para seus pés, conduzindo-os ao lar celestial. Um homem tinha cinco objeções à Bíblia. Se a tomasse como lâmpada para os pés, ela o "iluminaria até em casa." Outro me disse que tinha duas falhas a apontar na Bíblia. Respondi-lhe com as palavras do meu bom amigo que me deu a tocha: "Ela vai te iluminar até em casa." — De "The American Messenger", 1881.
Lâmpada para os meus pés, etc. Tudo depende do nosso modo de usar a lâmpada. Um homem conta que, quando menino, tinha orgulho de carregar a lanterna para seu professor da escola dominical. O caminho até a escola passava por ruas escuras e enlameadas. O menino segurava a lanterna alto demais, e ambos afundaram na lama funda. "Ah! você precisa segurar a lâmpada mais baixo", exclamou o professor, ao alcançarem terreno firme do outro lado do atoleiro. O professor então explicou lindamente o nosso texto, e o homem declara que nunca esqueceu a lição daquela noite. Você pode facilmente segurar a lâmpada alto demais; mas dificilmente pode segurá-la baixo demais. — James Wells, em "Bible Images", 1882.
Luz.
Guia-me, luz bondosa, em meio à névoa que me cerca,
guia-me tu.
A noite é escura, e estou longe de casa,
guia-me tu.
Guarda os meus pés; não peço para ver
a cena distante; um passo me basta. — John Henry Newman (1801).
Versículos 105–106Salmo 119:105-106
Luz para o meu caminho. Jurei, e o cumprirei, etc. Olhei para a tua palavra como uma lâmpada para os meus próprios pés, como algo que me diz respeito bem de perto, e então jurei, e o cumprirei, que guardarei os teus justos juízos. É um meio poderoso de despertar o espírito de um homem, e de o impulsionar à obediência, olhar para a palavra como escrita a si mesmo, como lâmpada e luz para ele. Quando você vem ouvir a Palavra de Deus, e Deus dirige o ministro de modo que você apreenda a verdade como falada a você, isso o despertará e o acordará, e você dirá: "Ah, pareceu-me hoje que cada palavra que o ministro falou foi dirigida a mim; devo prestar atenção a ela." E assim toda palavra da Escritura que diz respeito a ti, Deus a escreve para ti; e, se assim a tomares, será um meio poderoso de te despertar para a obediência. — Jeremiah Burroughs, 1599-1646.
Versículo 106Salmo 119:106
Jurei, etc. A paráfrase de Patrick é: "Resolvi solenemente e me vinculei pelos laços mais sagrados, que jamais romperei, mas agora confirmo."
Jurei. Quero agora instá-lo a fazer uma entrega solene de si mesmo ao serviço de Deus. Não apenas forme tal propósito no coração, mas declare-o expressamente na presença divina. Tal solenidade no modo de fazê-lo é, com certeza, muito razoável pela natureza das coisas; e certamente é altamente conveniente, para prender ao Senhor um coração tão traiçoeiro quanto sabemos ser o nosso. Será agradável recordar isso como algo feito em tal e tal ocasião, com tais e tais circunstâncias de lugar e modo, que possam servir para tocar a memória e a consciência. A consciência dos votos de Deus que estão sobre você o fortalecerá numa hora de tentação; e a lembrança pode encorajar sua humilde ousadia e liberdade em recorrer a ele sob o caráter e a relação de seu Deus e Pai da aliança, conforme as necessidades futuras exigirem.
Faça-o, pois, mas faça-o deliberadamente. Considere o que é que você vai fazer; e considere quão razoável é que seja feito, e feito cordial e alegremente, "não por constrangimento, mas de boa vontade"; pois, neste sentido e em todo outro, "Deus ama ao que dá com alegria."
Deixe-me lembrá-lo de que esta entrega deve ser perpétua. Você deve entregar-se a Deus de tal maneira que nunca mais pretenda ser seu próprio dono; pois os direitos de Deus são como sua natureza, eternos e imutáveis; e, quanto às suas criaturas racionais, são os mesmos ontem, hoje e para sempre.
Aconselharia e insistiria ainda mais que essa dedicação seja feita com toda a solenidade possível. Faça-o em palavras expressas. E talvez seja, em muitos casos, mais conveniente, como muitos piedosos teólogos recomendaram, fazê-lo por escrito. Assine e sele o documento, "que em tal dia de tal mês e ano, e em tal lugar, após plena consideração e reflexão séria, você chegou a esta feliz resolução: que, façam os outros o que fizerem, você serviria ao Senhor." — Philip Doddridge (1702-1751), em "The Rise and Progress of Religion in the Soul."
Renove frequentemente resoluções firmes e santas. Um soldado sem resolução para lutar pode ser facilmente derrotado. A verdadeira e afiada coragem pisa sobre as dificuldades que, de outro modo, triunfariam sobre um espírito frio e vacilante. A resolução num homem fraco realizará mais do que a força num covarde. A fraqueza das nossas graças, a força das nossas tentações e a diligência dos nossos inimigos espirituais exigem resoluções fortes. Precisamos ser "firmes e constantes", e isso nos fará "abundar na obra do Senhor": 1 Coríntios 15:58. O exercício abundante na obra de Deus fortalecerá o hábito da graça, aumentará nossa destreza no combate, e tornará a vitória mais fácil e agradável para nós.
Formemos resoluções cheias de fé e humildade, na força da graça de Deus, com temor de nós mesmos, mas confiança em Deus. Davi se vinculou a Deus com um voto sincero, dependendo da força dele: "Jurei, e o cumprirei, que guardarei os teus justos juízos." Isso não foi em sua própria força, pois, em Salmos 119:107, ele pede a Deus que o vivifique, e "aceite as ofertas voluntárias da sua boca", Salmos 119:108, a saber, o juramento que procedia de uma vontade livre e resoluta. Deus não desprezará, mas fortalecerá as resoluções afetuosas de sua criatura. Não podemos nos guardar de cair, a menos que primeiro guardemos nossas resoluções de esmorecer. — Stephen Charnock.
Jurei, e o cumprirei. Teodorico, arcebispo de Colônia, quando o imperador Sigismundo lhe perguntou qual era o caminho mais direto e mais breve para alcançar a verdadeira felicidade, respondeu em poucas palavras: "Cumpre, quando estiveres bem, o que prometeste quando estavas doente." Davi assim procedeu; fez votos na guerra, e os pagou na paz; e assim deveriam fazer todos os homens bons; não como o astuto demônio, de quem o epigramista escreveu:
"O diabo estava doente, e monge o diabo queria ser;
o diabo sarou, e o diabo o que era voltou a ser."
Nem como muitos hoje em dia, que, se a mão de Deus pesa um pouco sobre eles, ah, que promessas, que compromissos fazem de emenda de vida! Como o mármore diante da chuva, parecem suar e derreter, mas continuam retendo a mesma dureza! Basta que a vara seja tirada de suas costas, ou que a saúde seja restaurada, e então, à medida que seus corpos revivem, seus votos morrem; tudo é esquecido: sim, muitas vezes acontece que ficam bem piores do que jamais foram antes. — De "Things New and Old", de John Spencer, 1658.
Os teus justos juízos. Assim Davi chama a palavra de Deus, porque ela julga com toda justiça entre o certo e o errado, a verdade e a falsidade. E, em segundo lugar, porque, segundo o juízo nela dado, Deus agirá para com os homens. Fiquemos atentos a isso; pois a palavra contém o juízo de Deus sobre os homens, e tem um catálogo dos que não herdarão o reino de Deus, e outro dos que habitarão no tabernáculo de Deus; leiamos e vejamos em qual dos dois catálogos estamos; pois é segundo essa palavra que se dará o julgamento. — William Cowper.
Versículo 107Salmo 119:107
Estou muitíssimo aflito, etc. Donde aprendemos:
Não é coisa estranha que os homens mais santos conheçam o mais triste tipo de aflição, corporal e espiritual: "estou muitíssimo aflito."
De onde quer que venha a aflição, a fé recorre só a Deus em busca de consolo, como aqui: "vivifica-me, Senhor."
Quando apraz a Deus tornar viva a palavra da promessa, ou cumprir o que a promessa nos permite esperar, tal consolo é antídoto suficiente para a mais pesada aflição: "vivifica-me, Senhor, segundo a tua palavra." — David Dickson.
Estou muitíssimo aflito. Sabemos recomendar tão persuasivamente que se beba de bom grado o cálice da tristeza quando está na mão de outros, mas que caretas fazemos quando ele é posto na nossa própria! — Alfred John Morris, 1814-1869.
Estou aflito... vivifica-me. O cristão vive em meio às cruzes, como o peixe vive no mar. — Jean Baptiste Marie Vianney, 1786-1859.
Vivifica-me, Senhor. Como Deus nos vivifica? Reavivando nossas graças sofredoras, como a esperança, a paciência e a fé. Assim ele põe vida em nós de novo, para que sigamos alegremente em nosso serviço, pela infusão de novos consolos. Ele reaviva o coração dos contritos, como diz o profeta (Isaías 57:15). Isso é muito necessário, pois o salmista diz noutro lugar: "Vivifica-nos, e invocaremos o teu nome" (Salmos 80:18). O desânimo e o desalento enfraquecem nossas mãos ao invocarmos a Deus. Até que o Senhor nos anime de novo, não temos vida na oração. Por dois meios especialmente Deus nos vivifica na aflição: reavivando nosso senso do seu amor, e reavivando nossa esperança de glória. — Thomas Manton.
Segundo a tua palavra. Davi volta com frequência a essa frase, o que indica que Davi vivia sob a consciência de alguma promessa que Deus fizera para vivificar seu coração quando este estava fora de si; e conforme isso ele recorda as graciosas influências do Espírito de Deus, e professa que jamais esquecerá os seus preceitos, porque por eles fora vivificado: Salmos 119:93.
Assim, ponham seus corações mortos aos pés de Cristo, e suplique-se deste modo: Senhor, meu coração está extremamente entorpecido e distraído; não sinto aquelas influências que dilatam e derretem, que os teus santos sentiram; mas não são elas misericórdias fundamentais da aliança? Não prometes um espírito de iluminação, convicção e humilhação? Não é a santidade de coração e de vida um ramo principal disso? Não prometes nisso escrever a tua lei no meu coração? Dar-me um só coração, pôr o teu temor dentro de mim, subjugar minhas corrupções, ajudar minhas fraquezas na oração?
Ora, Senhor, essas são as misericórdias que minha alma precisa e espera; enche minha alma com essas influências animadoras, reaviva tua obra de graça em minha alma, atrai meu coração para ti, aumenta meu afeto por ti, repara tua imagem, chama a graça a um exercício vivo. Não pretende essa graciosa palavra tal misericórdia, quando dizes que não só darás um coração novo, mas "porás um novo espírito dentro de mim" (Ezequiel 36:26), para tornar minha alma viva, ativa e espiritual nos deveres e exercícios?
Caro Senhor, não estou eu em aliança contigo? E não são essas misericórdias da aliança? Por que, então, meu Deus, meu coração está assim endurecido para com o teu temor? Por que me deixas em toda essa letargia e distração? Lembra-te da tua palavra ao teu servo, na qual me fizeste esperar, e que me ajudaste a suplicar; ó vivifica meu coração entorpecido segundo a tua palavra. — Oliver Heywood.
Segundo a tua palavra. Quando Davi pede vivificação, é encorajado a fazê-lo por uma promessa. A questão é: onde estaria essa promessa? Alguns pensam que era aquela promessa geral da lei: se fizeres estas coisas, viverás por elas (Levítico 18:5), e que dali Davi tirou esta conclusão particular, de que Deus daria vida ao seu povo. Mas, antes, era outra promessa, alguma palavra de Deus que ele tinha para respaldar este pedido.
O Senhor nos fez muitas promessas de santificar nossa aflição. O fruto de tudo será a remoção do pecado (Isaías 27:9); o nosso aperfeiçoamento e melhoria por meio dela (Hebreus 4:10); a moderação da nossa aflição, de modo que ele conterá seu vento áspero no dia do vento leste (Isaías 27:8); que não porá sobre nós mais do que ele nos capacitará a suportar (1 Coríntios 10:13). Prometeu que moderará nossa aflição, de modo que não sejamos tentados além das nossas forças. Prometeu que nos livrará dela, que a vara dos ímpios não repousará sempre sobre a sorte dos justos (Salmos 125:3); que estará conosco nela, e jamais nos faltará (Hebreus 13:5).
Ora, eu argumento assim: se o povo de Deus pôde firmar seu coração na palavra de Deus quando tinha apenas indícios tão obscuros com que trabalhar, que nem sabemos onde estava a promessa, ah, quanto mais deveriam nossos corações se firmar em Deus, quando temos tantas promessas! Quando as Escrituras se ampliam para o consolo e o fortalecimento da nossa fé, com certeza deveríamos dizer agora como Paulo, quando recebeu uma palavra: "Cri em Deus" (Atos 27:25); posso esperar que Deus fará isso por mim, quando sua palavra o diz por toda parte. — Thomas Manton.
Versículo 108Salmo 119:108
As ofertas voluntárias da boca podem ser as ofertas que a boca prometeu e votou. E quem pode reclamá-las senão o Senhor? Dele são todas as coisas. — John Stephen.
As ofertas voluntárias da minha boca. Esta passagem dá a conhecer aquele tipo de sacrifício que nem a tribulação nem a pobreza de recursos podem impedir, e que não exige templo externo, mas pode ser oferecido por um homem piedoso em lugares desertos e no meio de pagãos. E esses sacrifícios da boca o próprio Deus os estima mais do que se todos os rebanhos da terra inteira lhe fossem oferecidos, e todos os tesouros de ouro, de prata e de pedras preciosas. — Wolfgang Musculus.
Ofertas voluntárias. Esta expressão é usada com frequência na lei (Levítico 22:18; Números 29:39; 2 Crônicas 31:14; Amós 1:4-5). O que são essas ofertas voluntárias? Distinguem-se do culto estabelecido de Deus, e distinguem-se também do serviço que decorria de um voto. Além das ofertas pacíficas estabelecidas, havia certos sacrifícios realizados em certas ocasiões, para testemunhar a bondade geral de Deus, e ao receber alguma misericórdia especial; e você verá que esses sacrifícios são expressamente distintos daqueles serviços aos quais os homens se vinculavam por voto (Levítico 7:16)... Esses servem para nos ensinar duas coisas.
Primeiro, ensinam-nos quão prontos deveríamos estar para aproveitar toda ocasião de gratidão e culto espiritual; pois, além dos serviços votados e dos sacrifícios instituídos, tinham suas ofertas voluntárias, oferecidas a Deus em gratidão por alguma bênção especial recebida, ou por livramento de algum perigo.
Segundo, mostra com que voluntariedade e alegria deveríamos ir ao culto de Deus no Evangelho, e que disposição livre de coração deveria haver, e que fio cortante em nossos afetos, em tudo o que oferecemos a Deus; neste último sentido, nossas ofertas a Deus — oração e louvor — deveriam ser ofertas voluntárias, vindas de nós não como água saindo de um alambique forçada pelo fogo, mas como água saindo de uma fonte com liberdade natural, pronta e livremente. — Thomas Manton.
Ofertas. Todo o povo de Deus é feito sacerdote para Deus; pois toda oferta pressupõe um sacerdote: assim se diz que Cristo Jesus nos fez reis e sacerdotes (Apocalipse 1:6). Todos os cristãos têm comunhão com Cristo em todos os seus ofícios; o que quer que Cristo fosse, certamente eles o são em alguma medida e grau. — Thomas Manton.
Aceita... as ofertas voluntárias da minha boca, Senhor. É grande graça que o Senhor aceite algo de nós, se considerarmos estas três coisas: primeiro, quem é o Senhor; depois, o que somos nós; terceiro, o que é que temos para lhe dar.
Quanto ao Senhor, ele é auto-suficiente, e não precisa de nada que possamos dar-lhe. Nossa bondade não alcança o Senhor.
Quanto a nós, somos criaturas pobres, vivendo pela sua liberalidade; sim, mendigando de todas as demais criaturas dele: do sol e da lua; do ar, da água e da terra; das aves e dos peixes; sim, até dos vermes: uns nos dão luz, outros comida, outros roupas; e serão tais mendigos capazes de dar a um rei?
E, terceiro, se bem considerarmos, o que é que damos? Temos algo a dar que não tenhamos recebido dele? E a respeito do qual podemos dizer com Davi: "Ó Senhor, todas as coisas vêm de ti, e do que é teu te demos" (1 Crônicas 29:14). Que isso nos humilhe, e nos contenha daquela vã presunção de merecer algo da mão de Deus.
Davi, naquele momento, em sua grande necessidade, não tendo outro sacrifício a oferecer ao Senhor, oferece-lhe os novilhos dos seus lábios; mas sem dúvida, quando podia, oferecia mais.
Não há nada tão pequeno que, se vier de um bom coração, Deus não aceite: a moeda da viúva, um copo de água fria; sim, e o louvor de nossos lábios, ainda que não venha acompanhado de nenhuma outra oblação externa; mas onde os homens podem fazer mais e não o fazem, é sinal de que seu coração não está sinceramente afeiçoado a ele, e seus louvores não lhe são bem-vindos. — William Cowper.
Aceita... as ofertas voluntárias da minha boca, Senhor, e ensina-me os teus juízos. Duas coisas somos aqui ensinados a pedir em oração, com relação às nossas práticas religiosas.
A aceitação delas: a isso devemos almejar em tudo o que fazemos na religião, para que, estejamos presentes ou ausentes, sejamos aceitos pelo Senhor. Aquilo cuja aceitação Davi aqui pede com fervor são "as ofertas voluntárias", não da sua bolsa, mas da sua "boca" — suas orações e louvores; "os novilhos dos nossos lábios" (Oseias 14:2); "o fruto dos nossos lábios" (Hebreus 13:15); estas são as ofertas espirituais que todos os cristãos, como sacerdotes espirituais, devem oferecer a Deus; e devem ser "ofertas voluntárias", pois devemos oferecê-las abundante e alegremente; e é essa disposição de boa vontade que é aceita. Quanto mais houver de liberdade e boa vontade no serviço de Deus, mais agradável lhe será.
A ajuda neles: "ensina-me os teus juízos." Não podemos oferecer nada a Deus que tenhamos razão de crer que ele aceitará, senão aquilo em cuja prática ele se apraz em nos instruir; e devemos ser tão fervorosos pela graça de Deus em nós quanto pelo favor de Deus para conosco. — Matthew Henry.
Ensina-me os teus juízos. Como se o homem de Deus dissesse: eis uma coisa a que me dedicarei inteiramente, a saber, ver como tu castigas os ímpios e conduzes os teus filhos. De modo que devemos aprender que, assim como é necessário entender a lei e o evangelho, também é preciso discernir os juízos de Deus. Pois, assim como não podemos aprender o primeiro sem observar a misericórdia de Deus, também não podemos alcançar o segundo sem notar sua vingança.
Devemos ver sempre, pelo ensino peculiar do Espírito de Deus, como o Senhor castiga em justiça, e ainda assim em misericórdia; em ira, e ainda assim em amor; em rigor e ódio ao nosso pecado, humilhando-nos com uma das mãos; em piedade e compaixão para com a nossa salvação, consolando-nos com a outra mão. Vemos, então, como o profeta ora, tanto para vê-los quanto para observá-los: precisamos ensinar isso com frequência, porque sonhamos tanto com uma necessidade fatal e com as conexões das causas naturais, ou então porque não conseguimos discernir entre as cruzes dos piedosos e as dos ímpios. Este é, então, um dom singular de Deus, discernir como, pelos mesmos meios, o Senhor humilha o bom e derruba o ímpio. — Richard Greenham.
Versículo 109Salmo 119:109
A minha alma está de contínuo nas minhas mãos. Ele tinha a alma na mão, pronta para entregá-la sempre que Deus a tomasse. E deve-se notar isto: não há problema tão pronto para tirar a vida dos filhos de Deus quanto eles estão prontos para entregá-la. Assim como Elias saiu à boca da sua caverna para se encontrar com o Senhor, e Abraão à porta de sua tenda para falar com o anjo, também a alma do piedoso permanece pronta à porta do tabernáculo deste corpo, para partir quando o Senhor o ordenar; ao passo que a alma do ímpio se recolhe, escondendo-se como Adão entre os arbustos, e é tirada do corpo à força, como foi a alma daquele mundano: "Esta noite te pedirão a tua alma"; mas eles nunca sacrificam voluntariamente suas almas ao Senhor. — William Cowper.
A minha alma está de contínuo nas minhas mãos. Se alguém carrega na mão um vaso frágil, feito de vidro ou de outro material semelhante, cheio de um líquido precioso, especialmente se a mão for fraca, ou se por outras causas houver perigos ameaçando, dificilmente conseguirá evitar que o vaso se quebre e o líquido se derrame. Tal é a condição da minha vida, que eu, cercado por vários inimigos, carrego como que na mão; a qual, portanto, está exposta a tão grande perigo, que sempre tenho a morte presente diante da vista, minha vida pendendo do fio mais tênue. — Andreas Rivetus, 1572-1651.
A minha alma está de contínuo nas minhas mãos. O crente está sempre nas próprias fauces da morte. Ele vive com as asas abertas para voar. Paulo testificou: "Morro todos os dias." No extremo da perseguição, o desejo fervoroso era saber o que Deus queria que ele fizesse. — Henry Law.
A minha alma está de contínuo nas minhas mãos. Não faço mais caso da vida do que uma criança faz do seu passarinho, que carrega na palma da mão aberta. — John Trapp.
A minha alma está de contínuo nas minhas mãos, etc. Por que diz Davi: "minha alma está na minha mão"? Teria ele a tirado da mão de Deus, e tomado o cuidado dela sobre si mesmo? De maneira nenhuma. Seu sentido é apenas este: caminho no meio de perigos, e entre mil mortes continuamente; estou em mortes frequentemente, minha vida está exposta a riscos todos os dias, todavia não me esqueço da tua lei: permaneço apegado a ti, e permanecerei apegado a ti, aconteça o que acontecer.
Agostinho, sobre esta passagem, confessa engenhosamente que não entendia o que Davi queria dizer com ter a alma nas mãos; mas Jerônimo, outro dos antigos, nos ensina que é um hebraísmo, significando um estado de extremo perigo. Os gregos também transformaram isso num provérbio, dizendo a mesma coisa.
Mas por que segurar ou pôr a vida na mão significaria expor a vida ao perigo? Há duas razões para isso.
Primeiro, porque as coisas carregadas abertamente na mão tendem a cair dela, e, sendo carregadas à vista, tendem a ser arrebatadas ou arrancadas da mão. E, portanto, embora estar na mão de Deus signifique segurança, porque sua mão está armada de poder irresistível para nos proteger, para um homem carregar algo na própria mão é carregá-lo em perigo, porque sua mão é fraca, e há modos mais seguros de carregar ou transportar algo do que abertamente na mão. Se um homem tiver de viajar longa jornada com algum tesouro consigo, não o carrega na mão, mas o põe em algum lugar secreto e fechado, onde possa ficar escondido, e assim mais seguro.
O paráfrase caldaico, para expressar a elegância daquela passagem citada do Salmo, a apresenta assim: "Minha vida está em tanto perigo quanto se estivesse sobre a própria superfície ou lado de fora da minha mão", como se ele não a segurasse de modo algum, mas ela estivesse apenas pousada sobre sua mão; pois o que está posto sobre a palma da mão, e não é agarrado, corre maior perigo. As coisas guardadas com segurança são escondidas ou seguradas firmemente.
Segundo, há outra razão para essa expressão: porque, quando um homem está prestes a entregar algo ou a cedê-lo, ele o toma na mão. Aqueles que se expõem a grandes perigos e riscos por Deus e pelo seu povo entregam suas vidas e tudo o que têm a Deus. Daí aquele conselho do apóstolo (1 Pedro 4:19): "Portanto, os que padecem segundo a vontade de Deus confiem as suas almas a ele, como a um fiel Criador, fazendo o bem." Assim aqui, diz-se que a vida dos homens em perigo é posta na mão, porque tais homens estão, por assim dizer, prontos para entregar e confiar suas vidas a Deus, para que ele cuide de suas vidas, preservando-as do perigo, ou as tome para si, se as perderem em seu serviço. — Joseph Caryl.
Versículo 110Salmo 119:110
Os ímpios. Ele os chama de homens ímpios; o que implica três coisas. Primeiro, praticam a maldade. Segundo, a amam. Terceiro, perseveram nela. — William Cowper.
Um laço. Um modo de capturar animais selvagens, como leões, ursos, chacais, raposas, veados e gamos, era por meio de uma armadilha (pach), que é a palavra usada neste lugar; era colocada debaixo da terra (Jó 18:10), no caminho do animal (Provérbios 22:5), e o prendia pela perna (Jó 18:9). — William Latham Bevan, em Smith's Dictionary of the Bible, 1863.
Os ímpios me armaram um laço. Na comida, ele nos põe diante a gula; no amor, impele à luxúria; no trabalho, à preguiça; na conversa, à inveja; no governo, à cobiça; na correção, à ira; na honra, ao orgulho; no coração, põe maus pensamentos; na boca, más palavras; nas ações, más obras; quando estamos acordados, nos move a más ações; quando dormimos, a sonhos impuros. — Girolamo Savonarola, 1452-1498.
Armaram um laço para mim: todavia não me desviei, etc. Não é o pôr a isca que fere o peixe, se o peixe não morde. — Thomas Watson.
Versículo 111Salmo 119:111
Os teus testemunhos tomei, etc. A Escritura é chamada "testemunhos" em relação ao próprio Deus, porque ela dá testemunho dele, e nos faz conhecer a Deus: dá testemunho de todos aqueles atributos que são ele mesmo, de sua sabedoria, de seu poder, de sua justiça, de sua bondade, de sua verdade. A declaração desses atributos, temo-la em todos os livros das Escrituras: não há um livro sequer que não seja testemunho deles. No livro de Gênesis temos testemunho de seu poder ao fazer o mundo, de sua justiça ao afogar o mundo, e de sua bondade ao salvar Noé. No livro de Êxodo, temos testemunho de sua providência ao conduzir o povo de Israel através do Mar Vermelho, ao tirá-lo do Egito; temos testemunho de sua sabedoria ao lhe dar a sua lei.
Que mais eu poderia nomear? No Novo Testamento, no Evangelho, tudo é testemunho. Assim como o Antigo dava testemunho de Deus, o Novo dá testemunho de Cristo: "A ele todos os profetas dão testemunho"; não só o Antigo, mas o Novo: "Estes são os que testificam de mim." Em toda parte há testemunho de Cristo — de sua humildade, ao assumir nossa natureza; de seu poder, ao operar milagres; de sua sabedoria, nas parábolas que falou; de sua paciência e amor, nos tormentos que sofreu por nós.
Tanto a Lei quanto o Evangelho — todo o livro da Escritura, e cada parte dele, nesses aspectos — são bem chamados de "os testemunhos do Senhor." E o santo salmista escolheu este nome quando ia falar em honra e glória dele; porque era este o nome do qual ele tirava grande consolo, porque era o testemunho da verdade, bondade, sabedoria e poder de Deus para com ele; por isso ele o estima tão precioso a ponto de considerá-lo sua "herança." — Richard Holdsworth (1590-1649), em "The Valley of Vision."
Os teus testemunhos. Por "testemunhos" entende-se a aliança entre Deus e seu povo, na qual ele se vincula a eles, e eles a ele. Alguns pensam que a excelência da palavra é aqui expressa por muitos nomes; mas devemos atentar à propriedade de cada palavra: assim como antes, por "juízos", agora, por esta palavra "testemunhos", entende-se a aliança; não os mandamentos, porque estes não podem ser uma herança, pois não podem nos consolar, já que não conseguimos cumpri-los, mas falhamos neles, e por isso não podemos neles achar consolo. É o evangelho que traz paz e consolo.
"A lei", quando tomada de modo geral, contém toda a palavra, e em particular os mandamentos; assim "a palavra", de modo geral, contém tanto a lei quanto o evangelho, mas em particular as promessas, como em Romanos 10:1-21. Do mesmo modo, por "os testemunhos", quando contrapostos à lei, entendem-se as promessas da aliança, como em Isaías 8:1-22, e este testemunho nos é confirmado pelos sacramentos, assim como a eles pelos sacrifícios. — Richard Greenham.
Como herança. Por que os testemunhos divinos deveriam ser chamados pelo salmista de herança; por que ele os traz para dentro dessa noção, talvez não seja tão fácil de entender; pois a palavra de Deus aponta para a herança, mas não é a herança em si. Ainda assim, há boa razão para a expressão, nem que seja apenas por considerarmos o consolo inestimável e o tesouro celestial que se encontra na palavra de Deus; é uma rica mina de todo tesouro celestial, é um armazém de todas as coisas boas, de todo conhecimento salvador. Todos os privilégios, sejam quais forem, que podemos esperar na terra ou no céu, estão todos contidos na palavra de Deus: eis aqui razão suficiente para que seja chamada de herança; tem boa herança quem tem tudo isso.
Contudo, há uma razão ainda melhor do que esta; pois, se é verdade que o céu é a nossa herança, então a palavra de Deus também o é; porque é a palavra que aponta para o céu, que dá a certeza do céu: temos na palavra de Deus todas as evidências do céu. Qualquer título que algum santo tenha ao céu, ele o tem dentro e a partir da palavra de Deus. Ali estão as evidências na palavra de Deus: tanto a evidência de descoberta — ela é o santo mapa do Canaã celestial — quanto a evidência de certeza — é como um sagrado vínculo ou escritura entre Deus e sua criatura.
São Gregório disse com engenho, ao chamá-la de epístola de Deus, que ele enviou ao homem para declarar sua vontade e seu agrado; poderia igualmente tê-la chamado de escritura de doação de Deus, pela qual ele nos transfere e concede todas aquelas esperanças que buscamos no céu. Qualquer interesse que tenhamos em Deus, em Cristo, qualquer esperança de bem-aventurança e glória, qualquer consolo do Espírito, qualquer proporção de graça, tudo isso nos é transferido nas promessas do evangelho, na palavra de Deus.
Ora, juntemos tudo isto: assim como, nos negócios humanos, as escrituras de propriedade, embora não sejam propriamente a herança em si, são chamadas de herança, e são a herança, ainda que não de fato, mas virtualmente, porque todo o título que temos a uma herança está nas escrituras e evidências; por isso as evidências são coisas preciosas. Ainda que seja apenas um pedaço de papel, ou pergaminho cheio de pó e corroído por traças, ainda assim vale tanto, às vezes, quanto um condado, tanto quanto todas as demais posses de um homem. Assim também é com as Escrituras: elas não são de fato e propriamente a herança em si, mas são via, o caminho para o reino. É chamado o evangelho do reino; mais ainda, o próprio reino: "O reino de Deus chegou entre vós", ou "a vós". Por que o reino? Por que a herança? Pela mesma razão, ambos, porque aqui temos o traspasse, aqui temos a escritura, aqui temos a certeza de qualquer título ou reivindicação que façamos ao céu. — Richard Holdsworth.
Pois são o júbilo do meu coração. Ele não diz que os testemunhos de Deus trazem alegria, mas que eles são alegria; não há outra alegria senão o deleite na lei do Senhor. Pois de toda outra alegria, o sábio rei disse do riso: "estás louco", e da alegria: "que é que fazes?" Eclesiastes 6. A verdadeira alegria é o penhor que temos do céu, é o tesouro da alma, e por isso deveria ser guardada em lugar seguro; e nada neste mundo é seguro para guardá-la.
E por isso, com a esposa, dizemos: "Nos alegraremos em ti, nos lembraremos do teu amor mais do que do vinho." Que outros busquem sua alegria no vinho, na sociedade, na conversa, na música; quanto a mim, puseste alegria em meu coração, maior do que no tempo em que o trigo e o vinho deles se multiplicam. Estes são, de fato, os preciosos frutos da terra, mas não selam nenhum favor especial; um homem pode ter, junto com eles, uma alma vazia, ressecada e sem substância. E por isso estas não são as alegrias dos santos; eles precisam ter a Deus, ou morrem de tristeza; a lei dele é a vida deles. — Abraham Wright.
Versículo 112Salmo 119:112
Inclinei o meu coração a guardar os teus estatutos sempre, etc. No versículo anterior ele mostrou sua fé, e a alegria que dela decorreu; agora mostra que, nessa alegria, guardará os mandamentos; com o que mostra que aquela era uma alegria verdadeira, porque produzia cuidado em fazer o bem. Pois, se cremos verdadeiramente nas promessas, também amamos os mandamentos; do contrário, a fé é vã; o cuidado de viver uma vida piedosa alimenta a fé nas promessas de Deus. Eis aqui, então, a causa pela qual muitos não dão atenção à palavra e aos sacramentos; ou, se dão um pouco, é sem proveito, porque não se esforçam por guardar os mandamentos. Pois, a menos que tenham cuidado de fazer isso, a palavra de Deus não pode lhes ser proveitosa, nem os sacramentos, sagrados. — Richard Greenham.
Inclinei o meu coração a guardar, etc. Observe: em Salmos 119:36 ele orou a Deus dizendo: "Inclina o meu coração aos teus testemunhos." E aqui ele fala de si mesmo, dizendo: "Inclinei o meu coração a guardar os teus estatutos sempre, até o fim." Que necessidade havia, então, de pedir a Deus aquilo de que, noutro lugar, se gloria de já ter feito por si mesmo? Respondo: essas coisas não se contradizem. Deus inclina, e o homem piedoso inclina. O homem inclina esforçando-se; Deus inclina realizando. Nem aquilo que o homem tenta, nem aquilo que ele, esforçando-se, alcança em direção ao bem, vem do homem, mas de Deus, que dá "tanto o querer quanto o realizar, segundo a sua boa vontade": Filipenses 2:13. — Wolfgang Musculus.
O coração pecaminoso, por si mesmo, corre para qualquer direção; para as coisas terrenas, para as coisas más, ou para coisas impertinentes e inoportunas; mas não vem nem permanece naquilo em que deveria pensar; por isso precisa ser tomado como que por mão forte, e posto sobre as coisas espirituais, posto a meditar e a refletir sobre as coisas celestiais. Um coração carnal é como o ímã: só se prende ao aço ou ao ferro, e ambos se unem facilmente; mas o coração precisa ter outra propriedade, e agir de um modo mais elevado.
E um bom coração, ainda que pense demais nas coisas terrenas, e corra com frequência errado, ainda assim se colocará, em seus pensamentos, sobre os objetos certos, e fará a si mesmo e a eles se encontrarem e se unirem. Davi nos conta como ele fazia: inclinava o coração para os mandamentos de Deus, tanto para guardá-los quanto para meditar neles. Tomou e curvou seu coração, como algo que se inclinava demais para outras coisas; pôs a mente a meditar sobre isso. Achou o seu coração e a lei de Deus muito distantes um do outro, e assim continuariam, a menos que os trouxesse juntos e os fizesse um só. Se não tivesse trazido o coração para a palavra, jamais teria meditado: o objeto não pode se aplicar à mente, mas a mente precisa se trazer ao objeto. Nenhum dever santo virá a nós; devemos ir a ele. — Nathanael Ranew, em "Solitude Improved by Divine Meditation", 1670.
Inclinei o meu coração a guardar, etc. Nesta obra ele estava decidido a persistir.
"Inclinei o meu coração." O conselho da alma é como uma balança; e a mente, que tem o poder de comandar os afetos, inclina a balança para aquilo que julga melhor.
Foi para cumpri-lo que assim inclinou o coração.
E isto não por um tempo, ou por alguma ocasião particular, mas sempre, e até o fim. Então o fim da vida seria o início da glória. — Adam Clarke.
Inclinei o meu coração. O profeta, para definir brevemente o que é servir a Deus, afirma que não aplicou apenas as mãos, os olhos ou os pés à guarda da lei, mas que começou pelo afeto do coração. — John Calvin.
Até o fim. Nossa vida na terra é uma corrida; em vão começa a correr veloz aquele que desfalece e desiste antes de chegar ao fim. E isso era significado (diz Gregório) quando, na lei, a cauda do animal era sacrificada junto com o resto: a perseverança coroa tudo. É bom que tenhamos começado a fazer o bem; esforcemo-nos também por perseverar até o fim. — William Cowper.
Versículos 112–113Salmo 119:112-113
Quando Davi teve no coração uma inclinação para os estatutos de Deus, o efeito imediato disso foi "odiar os pensamentos vãos." Lemos: "Inclinei o meu coração a guardar os teus estatutos"; e segue-se: "odeio os pensamentos vãos." A vaidade do seu coração era um peso para ele. Uma nova criatura é tão cuidadosa contra a maldade na cabeça ou no coração quanto na vida. Um homem piedoso preferiria ser puro à vista de Deus do que aos olhos dos homens. Sabe que ninguém além de Deus pode ver as divagações do seu coração ou os pensamentos da sua cabeça, e ainda assim é tão cuidadoso para que os pecados não se levantem quanto para que não se manifestem. — Stephen Charnock.
Versículo 113Salmo 119:113
Odeio os pensamentos vãos, ou os desígnios maus; ou as imaginações de coração dobrado; ou os pensamentos intrometidos e que correm em sentido contrário: isto é, aquele tipo de prática de alguns homens, que navegam com qualquer vento e sempre buscam ter duas cordas no seu arco. A palavra hebraica significa propriamente ramos ou galhos que brotam de modo confuso e emaranhado numa árvore. — Theodore Haak, 1618-1657.
Odeio os pensamentos vãos. Naquelas horas vazias, poupadas dos negócios, do prazer, da companhia e do sono, e passadas em solidão, em casa ou fora dela, imaginações inúteis, orgulhosas, cobiçosas, sensuais, invejosas ou maliciosas ocupam a mente dos ímpios, e com frequência infectam até os seus sonhos. Estas não são apenas pecaminosas em si mesmas, indicando o estado do coração deles, e como tais serão levadas em conta no dia do juízo; mas também excitam as corrupções adormecidas, e conduzem a violações mais abertas e grosseiras da santa lei.
A mente carnal recebe com prazer e se compraz em habitar sobre essas imaginações afins, e em se consolar com indulgências imaginárias, quando não se apresenta oportunidade de outra satisfação, ou quando o homem não ousa cometer a transgressão real. Mas a mente espiritual recua diante delas; tais pensamentos hão de intrometer-se de tempos em tempos, mas são indesejados e angustiantes, e são imediatamente expulsos; enquanto outros assuntos, tirados da palavra de Deus, ficam guardados e prontos para ocupar a mente de modo mais proveitoso e agradável durante as horas de lazer e recolhimento. Não há teste melhor do nosso verdadeiro caráter do que o efeito habitual dos "pensamentos vãos" sobre nossa mente — se os amamos e neles nos comprazemos, ou os abominamos, e vigiamos e oramos contra eles. — Thomas Scott, 1747-1821.
Odeio os pensamentos vãos. Um homem piedoso pode ter pensamentos errantes no cumprimento do dever. A triste experiência prova isso; os pensamentos ficam dançando de um lado para o outro na oração. Os santos são chamados de estrelas; mas muitas vezes, no cumprimento do dever, são estrelas errantes. O coração é como o mercúrio, que não se fixa. É difícil manter dois bons pensamentos juntos; não conseguimos trancar nosso coração tão bem que os pensamentos distraidores, como vento, não consigam entrar. Jerônimo se queixa de si mesmo: "Às vezes", diz ele, "quando estou ocupado no serviço de Deus, ando passeando pelas galerias, ou fazendo contas." Mas esses pensamentos errantes não são permitidos: "odeio os pensamentos vãos" — eles chegam como hóspedes indesejados, que mal são avistados já são expulsos porta afora. — Thomas Watson.
Odeio. Todo simples desagrado ao mal não é suficiente; exige-se de nós um ódio perfeito contra toda sorte e grau de pecado. — David Dickson.
Pensamentos vãos. A palavra é usada para as opiniões dos homens; e pode ser aplicada a todas as opiniões heterodoxas, doutrinas humanas, heresias condenáveis; tais como as que são incompatíveis com as perfeições de Deus, que depreciam sua graça, e o filho e os ofícios de Cristo; e são contrárias à palavra, e por isso rejeitadas e abominadas pelos homens bons. — John Gill.
Pensamentos vãos. Hebraico, se'ippim, hesitar entre duas opiniões. Veja 1 Reis 18:21. Daí significar dúvidas céticas. — Christopher Wordsworth.
Pensamentos vãos. Nossos pensamentos se ocupam de ninharias e coisas frívolas, que não tendem nem ao nosso proveito nem ao benefício de outros: "o coração dos ímpios vale pouco"; todos os seus debates, presunções, devaneios, não valem nada: pois todos os seus pensamentos se ocupam de vaidade infantil e presunções tolas. "O pensamento da loucura é pecado" (Provérbios 24:9); não só o pensamento da maldade, mas o da loucura. Os pensamentos são os primogênitos da alma, os frutos imediatos da mente; ainda assim os desperdiçamos com toda ninharia. Siga os homens o dia todo, e conte seus pensamentos. Ah! Que loucura e insensatez há em todos os devaneios de que estão conscientes: "o Senhor conhece os pensamentos do homem, que são vaidade" (Salmos 94:11). Se julgássemos como Deus julga, todos os pensamentos, raciocínios, discursos da mente, se fossem postos numa tabela, poderíamos escrever no fim: eis aqui a soma e o total de tudo — nada além de vaidade.
Os pecados que costumam mais absorver e ocupar nossos pensamentos são:
Primeiro, a impureza. A maldade especulativa abre caminho para a ativa: "cometeu adultério... em seu coração" (Mateus 5:28). Há uma forma de nos contaminarmos por nossos pensamentos, e este pecado costuma agir desse modo.
Segundo, a vingança. Os líquidos azedam quando guardados por muito tempo; assim, quando nos demoramos nos descontentamentos, eles se transformam em vingança. Propósitos de vingança são deveras doces e agradáveis para a natureza carnal: "há perversidade em seu coração, ele trama o mal continuamente" (Provérbios 6:14), isto é, está cheio de pensamentos vingativos e maliciosos.
Terceiro, a inveja. É um pecado que se alimenta da mente. Aquelas canções das mulheres, de que Saul matara seus milhares, mas Davi seus dez milhares, ficaram rondando a mente de Saul, por isso ele odiou a Davi (1 Samuel 18:9). A inveja é uma doença maligna que habita no coração, e se trai sobretudo nos pensamentos.
Quarto, o orgulho. Seja orgulho nos desejos, seja orgulho na mente, seja vanglória ou presunção; isto é entreter o coração com sussurros de vaidade; por isso se diz: "espalhou os soberbos na imaginação de seus corações" (Lucas 1:51): os soberbos estão cheios de imaginações.
Quinto, a cobiça, que não é senão vãos devaneios e exercícios do coração: "têm o coração exercitado em práticas cobiçosas" (2 Pedro 2:14). E ela arranca o coração até no próprio momento do culto a Deus: "o coração deles anda atrás da sua cobiça" (Ezequiel 33:31).
Sexto, a desconfiança é outra coisa que costuma ocupar nossos pensamentos — movimentos que distraem contra a providência de Deus. — Thomas Manton.
Pensamentos vãos. Vejamos o que é vaidade. Tomando-a em todos os seus sentidos, é verdade a respeito dos nossos pensamentos que são "vãos."
Toma-se por falta de proveito. Assim, Eclesiastes 1:2-3: "tudo é vaidade", porque não há "proveito nisso debaixo do sol." Tais são os nossos pensamentos por natureza; os mais sábios deles de nada nos servirão em tempo de necessidade, em tempo de tentação, na angústia de consciência, no dia da morte ou do juízo: 1 Coríntios 2:6, "toda a sabedoria dos sábios reduz-se a nada"; Provérbios 10:20, "o coração dos ímpios vale pouco" — nem um tostão por todos eles.
A vaidade é tomada por leveza. "Mais leves que a vaidade" é uma expressão usada em Salmos 62:9; e a respeito de quem se diz isso? Dos homens; e se algo neles é mais leve do que o resto, são os seus pensamentos, que nadam nas partes mais altas, flutuam na superfície, são como a espuma do coração. Quando todos os pensamentos melhores, mais sábios, mais profundos e mais sólidos de Belsazar, um príncipe, foram pesados, acharam-nos leves demais, Daniel 5:27.
A vaidade é posta por loucura. Assim, Provérbios 12:11, "homens vãos" é feito equivalente a homens "vazios de entendimento." Tais são os nossos pensamentos. Entre os outros males que se diz "saírem do coração" (Marcos 7:22), aphrosýnē é contado como um deles, "insensatez"; isto é, pensamentos que são tais quais os de loucos e tolos — nada de proveito, dos quais não se pode fazer uso algum.
A vaidade é posta por inconstância e fragilidade; por isso vaidade e sombra são tornadas sinônimas, Salmos 144:4. Tais são os nossos pensamentos, fugazes e perecíveis, como bolhas: Salmos 144:4, "todos os seus pensamentos perecem."
Por fim, são ímpios e pecaminosos. A vaidade é atrelada, em Jeremias 4:14, à maldade, e homens vãos e filhos de Belial são feitos a mesma coisa, 2 Crônicas 8:7. E tais são os nossos pensamentos por natureza: Provérbios 14:9, "o pensamento da loucura é pecado." E por isso um homem deve ser humilhado até por um pensamento orgulhoso. — Thomas Goodwin.
Mas amo a tua lei. Lastreie o seu coração com amor a Deus. O amor, com violência agradável, amarrará nossos pensamentos: se não estabelecer nossa mente, ela será como uma rolha, que, com um sopro leve e uma pequena onda de água, será jogada de um lado para outro, fora do seu lugar.
Os estudiosos que amam o saber estarão continuamente martelando alguma noção ou outra que possa fazer avançar seu progresso, e a ela se apegarão avidamente como o ferro se apega ao seu amado ímã. Aquele que tem "asas de amor divino" para com Cristo terá frequentes olhares e voos em sua direção, e sairá do seu trabalho mundano várias vezes ao dia para lhe fazer uma visita. O amor, no próprio agir, é uma graça que assenta: ele aumenta nosso deleite em Deus, em parte pela visão da sua beleza amável, que se torna clara para nós no próprio ato de amar; e em parte pelas recompensas que ele dá ao comportamento afetuoso da sua criatura; ambas as coisas impedirão que o coração receba companhias tão soltas quanto os maus pensamentos. — Stephen Charnock.
Versículos 113–114Salmo 119:113-114
Quando Davi conseguia atestar o seu amor ao mandamento, não questionava seu direito à promessa. Aqui ele afirma sua afeição sincera pelos preceitos: "odeio os pensamentos vãos: mas amo a tua lei." Note que ele não diz estar livre de pensamentos vãos, mas que os "odeia"; não gosta da companhia deles mais do que alguém gostaria de um bando de ladrões que invadisse sua casa. Tampouco diz que cumpriu plenamente a lei, mas que "amava" a lei mesmo quando falhava na obediência exata a ela. Ora, a partir desse testemunho que sua consciência apresenta a favor do seu amor pela lei, sua fé age de modo claro e forte sobre a promessa nas palavras seguintes: "Tu és o meu esconderijo e o meu escudo: espero na tua palavra." — William Gurnall.
Versículo 114Salmo 119:114
Tu és o meu esconderijo e o meu escudo, etc. Dos pensamentos vãos e das pessoas vãs, o salmista nos ensina a fugir, pela oração, para Deus, como nosso Refúgio e Protetor. Este caminho o crente tomará tão naturalmente, na hora da tentação e do perigo, quanto os filhotes da galinha, ao perceberem uma ave de rapina pairando sobre suas cabeças, se recolhem ao seu "esconderijo", sob as asas da mãe; ou como o guerreiro opõe seu "escudo" aos dardos que lhe são atirados. — George Horne.
Tu és o meu esconderijo. Cristo tem todas as qualificações que o tornam apto para esta obra de ser esconderijo para os crentes.
Ele tem força. Um esconderijo precisa ser locus munitissimus, o lugar mais fortificado. Casas de papel nunca serão bons esconderijos. Casas feitas de junco ou de madeira apodrecida não serão lugares apropriados para os homens se esconderem. Jesus Cristo é um lugar de força. Ele é a Rocha dos Séculos: seu nome é "o Deus Forte", Isaías 9:6.
Ele tem altura. Um esconderijo precisa ser locus excelsissimus, o lugar mais alto. Suas casas baixas logo são escaladas. Jesus Cristo é um lugar alto; ele é tão alto quanto o céu. Ele é a escada de Jacó que alcança da terra ao céu: Gênesis 28:12. É alto demais para os homens, alto demais para os demônios; nenhuma criatura pode escalar estes altos muros.
Ele tem lugares secretos. Um esconderijo precisa ser locus abditissimus, o lugar mais escondido. Quanto mais secreto, mais seguro. Ora, Jesus Cristo tem muitas câmaras secretas que nenhuma criatura jamais consegue encontrar: Cântico dos Cânticos 2:14, "ó pomba minha, que estás nos esconderijos das escadas." Assim como Cristo tem consolos ocultos que ninguém conhece senão quem os recebe, também tem lugares ocultos de segredo que ninguém consegue descobrir senão quem neles habita. "Vem, povo meu, entra nas tuas câmaras, e fecha as portas sobre ti" (Isaías 26:20).
Cristo é fiel. Aquele que vai esconder outros precisa ser muito fiel. Um protetor de coração falso é pior do que um perseguidor às claras. "Os homens de Queila me entregarão?" pergunta Davi. "Eles te entregarão", diz o Senhor. Mas Cristo é fiel: Apocalipse 3:14, ele é "a testemunha fiel"; não pode ser subornado a entregar nenhuma criatura que venha se esconder com ele. Cristo morrerá antes de trair a sua confiança.
Cristo é diligente. A diligência é tão necessária naqueles que vão esconder outros quanto a fidelidade. Uma guarda sonolenta pode trair um castelo ou guarnição tanto quanto uma guarda infiel. Mas Jesus Cristo é muito diligente e vigilante, tem seus informantes por toda parte; sim, seus próprios olhos correm por toda a terra, para ver que planos estão sendo tramados e postos em ação contra os que se escondem com ele: Salmos 121:3-4, "aquele que guarda a Israel não tosqueneja nem dorme." — Ralph Robinson (1614-1655), em "Christ All in All."
Esconderijo. A primeira palavra do versículo significa propriamente um segredo, ou um lugar secreto. — Joseph Addison Alexander.
O meu escudo. Os bons estão seguros sob a proteção de Deus; ele é a "força e o escudo" deles; o "auxílio e o escudo" deles; o "sol e o escudo" deles; o "escudo e o grande galardão" deles; e aqui, o "esconderijo e o escudo" deles. — Matthew Henry.
Escudo. A excelência e as propriedades de um escudo estão nestas coisas: 1. Na sua largura e extensão, pois esconde e cobre a pessoa que o porta de todos os dardos atirados contra ela, de modo que não a alcancem: "Tu, Senhor, abençoarás o justo; com favor o rodearás como com um escudo" (Salmos 5:12). 2. A excelência de um escudo está em ser duro e impenetrável. Assim corresponde ao poder invencível da providência de Deus, pela qual ele pode quebrar os ataques de todos os inimigos; e tal escudo é Deus para o seu povo: "meu escudo, e aquele em quem confio" (Salmos 144:2). 3. Devo acrescentar mais uma coisa? Pedras e dardos atirados contra um escudo duro voltam contra quem os atirou; assim Deus faz recair o mal sobre seus inimigos e os inimigos do seu povo: "abate-os, ó Senhor, escudo nosso" (Salmos 59:11). — Thomas Manton.
Espero na tua palavra. De todos os ingredientes que adoçam a taça da vida humana, nenhum é mais rico ou poderoso do que a esperança. Sua ausência amarga a mais doce sorte; sua presença alivia a mais profunda dor. Cerquem-me de todas as alegrias que a memória possa despertar ou a posse conceder — sem esperança, isso não basta.
Na ausência de esperança há tristeza nas alegrias passadas e presentes — tristeza no pensamento de que o passado já passou, e de que o presente também está passando. Mas, ainda que me despojem de todas as alegrias que o passado ou o presente possam conferir, se o amanhã brilha luminoso de esperança, fico contente em meio à minha dor. De todos os motivos ativos que agitam esta terra fervilhante, a esperança é o mais ativo. É o mais doce bálsamo que suaviza nossas tristezas, o mais brilhante raio que doura nossos prazeres. A esperança é a mais nobre prole, o primogênito, o último filho a ser sepultado do homem que prevê e planeja. Sem ela, o gado irracional pode contentar-se em meio à fartura presente. Mas sem ela o homem que reflete não deveria, não pode, ser verdadeiramente feliz. — William Grant (1814-1876), em "Christ our Hope, and other Sermons".
Versículos 114–115Salmo 119:114-115
Tu és o meu esconderijo. "Apartai-vos de mim, malfeitores." Seguro e quieto em seu esconderijo, Davi reprova todas as tentativas de perturbar sua paz. A companhia dos ímpios, portanto, é intolerável para ele, e ele não consegue deixar de expulsá-los da sua presença carrancudo. Havia descoberto que eles se opunham aos seus melhores interesses, e temia a influência deles em abalar sua determinação de obedecer ao seu Deus. De fato, quando deixou o povo do Senhor de experimentar que tal companhia é um obstáculo predominante tanto ao gozo quanto ao serviço de Deus? — Charles Bridges.
Versículo 115Salmo 119:115
Apartai-vos de mim, malfeitores, etc. Como se dissesse: não falem mais nisso, poupem o fôlego, estou resolvido no meu caminho, jurei, e estou firmemente decidido a guardar os mandamentos do meu Deus; com a ajuda de Deus, ali me manterei, e o mundo todo não conseguirá me arrancar disso. — Robert Sanderson, 1587-1663.
Apartai-vos de mim, obreiros da iniquidade, etc. É comum pecar por causa da companhia, e aquele cálice costuma circular, passando de mão em mão. Por isso é sábio deixar a companhia infectada pelo pecado. Ela não pode te trazer benefício algum. No mínimo, a má companhia diminuirá o bem que há em ti. A erva da graça nunca prospera em solo tão frio. Como cresce mal o bom trigo quando está cercado de ervas daninhas! Cordiais e restaurativos pouco farão pelo corpo natural, enquanto este estiver cheio de humores nocivos. As ordenanças pouco valem para as almas contaminadas por tais moradores nocivos.
Diz-se do monte Cades que, seja qual for a videira nele plantada, ela murcha e morre: é raríssimo que os santos prosperem perto de tais empecilhos. É difícil, quase um milagre, guardar os mandamentos de Deus e ao mesmo tempo manter má companhia; por isso, quando Davi quis se desposar com os mandamentos de Deus, amá-los e viver com eles, na alegria e na tristeza, todos os seus dias, foi forçado a dar carta de divórcio aos companheiros ímpios, sabendo que, do contrário, o casamento jamais poderia se consumar: "Apartai-vos de mim, obreiros da iniquidade, pois guardarei os mandamentos do meu Deus." Como se dissesse: fique sabido, ó pecadores, que estou firmando uma aliança sincera com os mandamentos de Deus; gosto tanto deles que estou resolvido a me entregar a eles, e a lhes agradar em tudo, o que jamais poderei fazer a menos que vós vos aparteis; sois como uma prostituta, que roubaria o amor devido à verdadeira esposa. Não posso, como devo, obedecer aos preceitos do meu Deus enquanto permanecerdes na minha presença; por isso, apartai-vos de mim, obreiros da iniquidade, pois guardarei os mandamentos do meu Deus. — George Swinnock.
Apartai-vos de mim, malfeitores. Ai do ímpio, e ai daqueles que se apegam a ele e com ele se associam, diz Ben Sira. E até os pagãos de outrora pensavam que uma maldição acompanhava aqueles que mantinham má companhia. Habitar, ou viajar, com um homem ímpio, e não amado pelos deuses, era considerado por eles azarado e infortunado.
Vetabo qui Cereris sacrum
volgarit arcanae, sub isdem
sit trabibus fragilemque mecum
solvat phaselon,
como diz Horácio:
Aqueles que os mistérios revelam
jamais viverão sob o meu teto,
jamais comigo hastearão a vela incerta.
Morar sob o mesmo teto, ou navegar no mesmo iate ou barco de prazer com pessoas profanas, era tido como inseguro e perigoso pelos homens de princípios pagãos. Quanto mais, então, deveriam os cristãos estar plenamente persuadidos do dano e do perigo de conviver com homens ímpios? De modo algum pode ser seguro manter relação com eles. Sim, corremos grande perigo todo o tempo em que estamos com eles.
Já devem ter ouvido, suponho, quem foi aquele que não quis permanecer no banho enquanto um arqui-herege ali estivesse. Foi São João Evangelista; não quis (como nos conta Ireneu) permanecer naquele lugar porque Cerinto, que negava a divindade de Cristo, ali estava presente. Aquele homem santo julgava que nenhum lugar era seguro onde tais pessoas estivessem.
Por isso, lembrem-se da exortação do apóstolo: "Saí do meio deles" (2 Coríntios 6:17); escutem aquela voz do céu: "Saí, para que não sejais participantes dos seus pecados, e para que não recebais das suas pragas." Separai-vos deles, para que não prejudiqueis não só as vossas almas, mas também os vossos corpos, para que algum juízo notável não vos alcance aqui, e para que a vingança divina não vos ataque com mais fúria depois.
Os poetas fantasiosos nos contam que Teseu e Pirítoo (um par de amigos íntimos) se amavam tanto que desceram juntos ao inferno. Tenho certeza de que não é ficção poética que muitos façam assim; isto é, que pereçam juntos, e desçam ao poço sem fundo por causa da companhia. — John Edwards (1637-1716), em "Theologia Reformata."
Apartai-vos daqueles que se apartam de Deus. — T. Manton.
Do meu Deus. Assim como um homem pode estimar qualquer coisa que sabe ser sua, também, uma vez que sabe que Deus é seu, não pode deixar de amá-lo e de lhe obedecer com cuidado: tampouco é possível que algum homem preste a Deus serviço sincero e permanente, se não estiver convencido a dizer com Davi: ele é o meu Deus. Todos os prazeres, todos os terrores do mundo não podem separar de Deus a alma que pode verdadeiramente dizer: o Senhor é o meu Deus. — W. Cowper.
Versículo 116Salmo 119:116
Sustenta-me. Uma pipa voando alto está numa situação bem estranha à sua natureza; tanto quanto a alma do homem, quando elevada acima deste mundo inferior a buscas altas e celestiais. Alguém à distância não vê como ela se mantém naquela posição elevada: não vê o vento que a sopra, nem a mão que a segura, nem o fio pelo qual é sustentada. Mas todos esses poderes são necessários para sua preservação naquele estado sobrenatural. Se o vento cessasse, ela cairia. Não tem, em si mesma, nada que a sustente; tem a mesma tendência a cair para a terra que sempre teve; e, se por um momento fosse deixada a si mesma, cairia.
Assim é com a alma de todo verdadeiro crente. Foi elevada pelo Espírito de Deus a um estado novo, sobrenatural, celestial; e nesse estado é sustentada por uma mão invisível e Todo-Poderosa, por meio da fé. E será sustentada, mas não por nada que haja nela mesma. Se por um momento fosse deixada, cairia tanto quanto sempre. Toda a sua força está somente em Deus; e toda a sua segurança está na imutabilidade da natureza dele, e na eficácia da sua graça. Em uma palavra: "é guardada pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação." — De "The Book of Illustrations", por H. G. Salter, 1840.
Para que eu viva. A vida de um cristão consiste nisto: ter a alma vivificada pelo espírito da graça. Pois, assim como a presença da alma vivifica o corpo, e sua partida traz morte imediata, e o corpo sem ela não passa de um monte morto de barro, assim é a presença do Espírito de Deus que dá vida à alma do homem. E essa vida se conhece por estes dois efeitos notáveis: primeiro, traz um sentido alegre da misericórdia de Deus; e, segundo, uma disposição espiritual para os exercícios espirituais. E sem isso, finja o homem o que quiser, ele não passa da imagem de um cristão, parecido com ele, mas não vivificado pela sua vida. — William Cowper.
Para que eu viva. Os filhos de Deus pensam que não têm vida se não vivem na vida de Deus. Pois, se pensamos que estamos vivos porque vemos, os brutos animais também veem; se pensamos que estamos vivos porque ouvimos, o gado também ouve; se pensamos que estamos vivos porque comemos, bebemos ou dormimos, os animais fazem o mesmo; se pensamos que vivemos porque raciocinamos e conversamos, os pagãos também o fazem. A vida dos filhos de Deus é a morte do pecado; pois onde o pecado está vivo, ali essa parte está morta para Deus... Os filhos de Deus, achando-se lentos e insensíveis às coisas boas, quando não conseguem se alegrar nas promessas de Deus, nem encontrar seu homem interior deleitado na lei de Deus, pensam-se mortos. — Richard Greenham.
Versículo 117Salmo 119:117
Sustenta-me, e serei salvo. Não só a consciência da minha fraqueza, mas o perigo do caminho escorregadio diante de mim, me lembra que a segurança de cada momento depende do poder sustentador do meu Deus fiel. Os caminhos da tentação são tantos e tão imperceptíveis — sua influência tão terrível — a entrada neles tão enganosa, tão especiosa, tão insensível — e minha própria fraqueza e falta de vigilância são tão indizíveis — que nada posso fazer senão seguir meu caminho, orando a cada passo: "sustenta-me, e serei salvo." — Charles Bridges.
Sustenta-me. Três coisas atemorizavam Davi. Primeiro, a grande tentação de fora; pois de todo lado sopra sobre o cristão o vento da tentação. Segundo, a grande corrupção de dentro. Terceiro, os exemplos de outros homens dignos que caíram antes dele, e que estão escritos para nós: não para que aprendamos a cair, mas para que temamos cair. Estas três coisas deveriam sempre nos manter humildes, segundo aquela advertência: "aquele que pensa estar em pé, olhe para não cair." — William Cowper.
Para cima, para cima, acima da pequenez em que vivi por tempo demais — acima dos laços que tantas vezes me prenderam — acima das pedras de tropeço em que tantas vezes caí — acima do mundo — acima de mim mesmo — mais alto do que jamais alcancei — acima do nível da minha própria mortalidade: digno de ti — digno do sangue com que fui comprado — mais perto do céu — mais perto de ti — "sustenta-me."
Os métodos de Deus para sustentar o seu povo são muitos. Às vezes é pela palavra do pregador, quando a palavra vem oportunamente falada ao coração e à consciência. Que Deus, em sua infinita condescendência, capacite seus servos nesta igreja a assim vos sustentar. Às vezes é pelos meios ordenados e pelos sacramentos que sua graça instituiu. Às vezes é pela eficácia das Sagradas Escrituras, quando alguma passagem, em seu próprio quarto, atinge a mente bem a tempo; ou o apoio de alguma doce promessa vem sustentar o seu espírito.
Às vezes pela simples operação do Espírito Santo nos próprios pensamentos do homem, como quando dirá "sustenta-me com o teu Espírito de livre vontade." Às vezes pelo ministério dos anjos — "eles te sustentarão em suas mãos, para que não firas o teu pé em alguma pedra." Às vezes te pondo bem no fundo, fazendo-te sentir que o lugar seguro é o vale. Não há elevação como a elevação da humilhação. Às vezes por severa disciplina, para fortalecer o coração, e o tornar independente das coisas externas.
Às vezes por aflição pesada, que é o aperto da sua mão, para que possa te segurar mais firme. Às vezes pondo no teu coração o pensamento exato daquilo que precisas — para orar exatamente a oração que ele, naquele momento, pretende conceder. Às vezes parecendo te deixar ir, e te abandonar, enquanto, ao mesmo tempo — como a mulher siro-fenícia — ele está te dando o desejo de te agarrares, para que possa te dar ainda mais no fim. — James Vaughan, de Brighton, 1877.
Terei sempre respeito aos teus estatutos. Ocupar-me-ei, dizem alguns; deleitar-me-ei, dizem outros; nos teus estatutos. Se a destra de Deus nos sustenta, devemos, em sua força, prosseguir no nosso dever, tanto com diligência quanto com prazer. — Matthew Henry.
Versículo 118Salmo 119:118
Tu tens pisado aos pés, etc. Davi, aqui, por uma nova meditação, se confirma no caminho da piedade: pois, considerando os juízos de Deus, executados segundo a sua palavra em todas as épocas sobre os ímpios, resolve temer ainda mais a Deus e guardar os seus testemunhos. Assim, os juízos de Deus, executados sobre outros, devem servir de freio reverente para nos impedir de pecar à semelhança deles.
O Senhor, ao castigar os próprios filhos, os toma pela mão como um pai que corrige; mas quando sua ira se acende contra os ímpios, ele os pisa sob os pés, como criaturas vis, sem valor algum diante dele. — William Cowper.
Tu tens pisado aos pés. A Septuaginta traz exoudenōsas, ad nihil deduxisti — tu reduziste a nada; Áquila, confixisti, tu trespassaste; Símaco, ēthetēsas, reprobasti, tu reprovaste; a Vulgata, sprevisti, tu desprezaste; Apolinário, parvi pependisti, tu tiveste em pouco; todos com o mesmo sentido.
A expressão "pisar aos pés", que usamos, implica: 1. Um castigo completo; 2. Um castigo vergonhoso. Primeiro, um castigo completo. Deus os derrubará de suas alturas até o pó, por mais alto e orgulhosamente que se exaltem contra Deus. Uma conquista completa sobre os inimigos é assim frequentemente expressa na Escritura. Do assírio se diz que "toma a presa, e os pisa como a lama das ruas" (Isaías 5:6).
Segundo, implica um castigo vergonhoso: "até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés" (Salmos 105:1); expressão usada para mostrar a ignomínia e o desprezo que Deus lançará sobre eles. Assim Sapor, rei da Pérsia, pisou o imperador Valentiniano, e Tamerlão fez de Bajazeto o seu escabelo. O sentido é que Deus não só os subjugará, mas os reduzirá a uma condição abjeta e desprezível. Assim Crisóstomo, comentando o texto, explica esta frase, dizendo que Deus os fará ignominiosos e desprezíveis. Não sairão com honra, mas com desdém e rosto confuso, miseravelmente derrotados. — Thomas Manton.
Tu tens pisado aos pés, etc. Há uma tendência a fundir todas as características da Divindade numa só; e, enquanto muitos dos nossos escritores mais eminentes se demoram, com afeto e abundância, na bondade exuberante, na benignidade suave e cedente, na misericórdia que ignora e concede larga tolerância às fraquezas da fragilidade humana, tem havido o que os franceses chamariam, se não uma reticência estudada, ao menos uma reticência efetivamente observada, quanto à sua verdade, sua pureza e seu ódio ao mal moral.
Não pode haver governo sem lei; e pouco se considera a questão de como as violações dessa lei serão tratadas. Toda lei tem suas sanções — a esperança da recompensa oferecida de um lado, o temor da vingança ameaçada do outro. Será a vingança apenas ameaçada, mas nunca executada? Será a culpa tratada apenas com proclamações que a precedem, mas nunca com castigos que a sigam?... Tirai da jurisprudência as suas penalidades, ou, o que seria ainda pior, deixai que as penalidades sejam apenas anunciadas, mas nunca exigidas; e reduzimos tudo a uma zombaria sem substância.
A estrutura do governo moral desmorona; e, em vez de uma grande autoridade que preside o universo, temos um trono derrubado e um Soberano degradado... Se houver apenas a aparência de uma economia judicial, sem nada do seu poder ou de sua execução; se a verdade só for mantida nas promessas de recompensa, mas constantemente abandonada nas ameaças de vingança; se o juiz assim se perder no pai excessivamente indulgente — não há absolutamente nada de um governo moral sobre nós além do nome; não somos súditos da autoridade de Deus, somos os mimados da sua consideração.
Sob um sistema como este, todo o universo derivaria, por assim dizer, para um estado de anarquia; e, no tumulto dessa desordem selvagem, o Rei que se assenta nas alturas perderia o seu domínio sobre a criação que formou. — Thomas Chalmers.
Porque a astúcia deles é falsidade. O verdadeiro sentido da passagem é: "pois a sua astúcia tem sido falaciosa", isto é, enganou a eles próprios e trouxe sua própria ruína. — Samuel Horsley, 1733-1806.
A astúcia deles é falsidade. Ele não se refere aqui à astúcia com que os ímpios enganam a outros, mas àquela com que enganam a si mesmos. E isto é de dois modos: primeiro, em que buscam um bem no pecado, que o pecado enganosamente promete, mas que jamais encontrarão. Segundo, em que se lisonjeiam com a vã presunção de escapar do juízo, que certamente os alcançará. — William Cowper.
Versículo 119Salmo 119:119
Tu tiras da terra todos os ímpios como escória. Os piedosos e os ímpios vivem juntos na igreja visível, como escória e bom metal; mas Deus, que é o purificador da sua igreja, não deixará, por meio de diversas provações e juízos, de estabelecer diferença entre eles, e por fim fará uma separação perfeita, lançando fora os ímpios como refugo. — David Dickson.
Os juízos de Deus sobre outros podem ser um ato necessário de amor para conosco. São expurgados como "escória", para que não nos infectem pelo exemplo, nem nos aflijam com suas perseguições ou opressões. Ora, quanto mais somos beneficiados dessa maneira, mais somos obrigados a servir a Deus com alegria: "para que, livres da mão dos nossos inimigos, o sirvamos sem temor, em santidade e justiça diante dele, todos os dias da nossa vida": Lucas 1:74-75. O mundo é um desses inimigos, ou os ímpios da terra; por isso devemos servi-lo com fidelidade. — Thomas Manton.
Tu tiras da terra todos os ímpios. De muitas maneiras os homens ímpios são tirados; às vezes pela mão de outros homens, às vezes pela própria mão. Os filisteus não mataram Saul, mas o forçaram a matar-se a si mesmo; ainda assim, o olho da fé sempre olha para o dedo de Deus, e vê que a queda dos ímpios é obra de Deus. — William Cowper.
Os ímpios da terra. Por que são assim caracterizados? Porque é aqui que florescem; seus nomes "serão escritos na terra" (Jeremias 17:13); crescem em grandeza e boa reputação aqui. Judas tinha a bolsa; eles prosperam no mundo: "eis que estes são os ímpios, que prosperam no mundo" (Salmos 73:12). Aqui são respeitados: "são do mundo, por isso falam do mundo, e o mundo os ouve" (1 João 4:5). Seus corações e mentes estão no mundo (Mateus 6:19-20). É a sua disposição natural ser mundano, só saboreiam as coisas do mundo; promoção, honra, grandeza, este é o seu unum magnum; aqui está o seu prazer, e aqui está a sua porção, sua esperança e sua felicidade. Um filho de Deus busca outra herança, imortal e incorruptível. — Thomas Manton.
Como escória. Os homens deste mundo consideram os filhos de Deus como o lixo da terra; assim Paulo (vaso escolhido de Deus) era desprezado pelos homens; mas vejam aqui o que os ímpios são, na conta de Deus: escória mesmo, que é o refugo do ouro ou da prata. Que isto conforte os piedosos contra o desprezo dos homens: só o Senhor tem em sua própria mão a balança que pesa os homens conforme realmente são. — William Cowper.
Escória. 1. A escória obscurece o brilho e a glória do metal, sim, o encobre, de modo que não aparece; a ferrugem e a sujeira cercam e escondem o ouro, de modo que nem a sua natureza nem o seu brilho podem ser vistos. 2. A escória é coisa enganosa. Parece metal, mas não é metal; a escória da prata se parece com ela, e a escória do ouro se parece com ouro, mas a escória não é nem prata nem ouro. 3. A escória não melhora com o fogo: ponha-a no fogo repetidas vezes, ela continua a mesma. 4. A escória é coisa sem valor. Não tem valor algum — baixa, vil, desprezível. 5. É inútil, e deve ser rejeitada. 6. A escória é coisa ofensiva: a ferrugem corrói o metal, o põe em risco, e faz o ourives acender o fogo, para separá-la do ouro e da prata. — Resumido de William Greenhill.
Os teus testemunhos. Assim, com bastante frequência, ele chama a palavra de Deus, na qual há tanto mandamentos quanto promessas: os mandamentos de Deus pertencem a todos, os seus testemunhos pertencem só aos seus filhos; pelo que, mais estritamente, entendo suas promessas, contendo declarações especiais do seu amor e favor para com os seus, em Cristo Jesus. — William Cowper.
A décima quinta letra, SAMEQUE, denota um apoio ou pilar, o que combina bem com o assunto da estrofe, na qual se implora duas vezes a Deus que sustente o seu servo (Salmos 119:116-117), enquanto a destruição total daqueles que desprezam a sua lei, ou fomentam o ceticismo a respeito dela, pode ser comparada ao destino dos senhores filisteus, sobre os quais Sansão fez desabar o telhado da casa onde se divertiam, derrubando as colunas que a sustentavam. — Neale e Littledale.
Versículo 120Salmo 119:120
A minha carne se arrepia com temor de ti. Em vez de exultar sobre aqueles que caíram sob o desagrado de Deus, ele se humilha. O que lemos e ouvimos a respeito dos juízos de Deus sobre os ímpios deveria nos levar (1) a reverenciar a sua terrível majestade, e a ficar diante dele em temor. Quem é capaz de ficar em pé diante deste santo Senhor Deus? 1 Samuel 6:20. (2) A temer ofendê-lo, e nos tornarmos sujeitos à sua ira. Os homens bons precisam ser contidos do pecado pelos terrores do Senhor; especialmente quando o juízo começa pela casa de Deus, e os hipócritas são descobertos, e postos de lado como escória. — Matthew Henry.
A minha carne se arrepia com temor de ti, etc. Na presença de Jeová, quando ele aparece em juízo, a terra treme e se aquieta. Nem os seus melhores servos são isentos de um temor terrível em tais ocasiões; cenas desse tipo, mostradas em visão aos profetas, fazem sua carne estremecer, e todos os seus ossos se sacudirem. Cercados de um corpo frágil, e de um mundo pecaminoso, precisamos de todo laço possível; e os afetos tanto do temor quanto do amor devem ser empregados, para nos conter da transgressão; devemos, ao mesmo tempo, "amar os testemunhos de Deus, e temer os seus juízos." — George Horne.
A minha carne se arrepia com temor de ti, etc. Em oração, à noite, tive visões tão próximas e terríveis dos juízos de Deus sobre os pecadores no inferno, que minha carne se arrepiou de temor deles... Voei tremendo para Jesus Cristo, como se as chamas estivessem me agarrando: Ah! Cristo de fato me salvará, ou então pereço. — Henry Martyn, 1781-1812.
A minha carne se arrepia com temor de ti. A familiaridade com os homens gera desprezo; a familiaridade com Deus, não: ninguém reverencia o Senhor mais do que aqueles que melhor o conhecem, e mais íntimos são dele. — William Cowper.
Versículos 120–116Salmo 119:120-116
A minha carne se arrepia com temor de ti; temo... não seja eu envergonhado na minha esperança. A verdadeira religião consiste numa mistura adequada de temor de Deus e de esperança na sua misericórdia; e onde qualquer um deles falta inteiramente, não pode haver verdadeira religião. Deus uniu essas coisas, e de modo algum devemos separá-las.
Ele não pode se agradar daqueles que o temem com temor servil, sem esperar na sua misericórdia, porque parecem considerá-lo um ser cruel e tirânico, que não tem misericórdia nem bondade em sua natureza; e, além disso, implicitamente o acusam de falsidade, ao se recusarem a crer e a esperar nos seus convites e ofertas de misericórdia. Por outro lado, ele não pode se agradar daqueles que pretendem esperar na sua misericórdia sem o temer; pois eles o insultam ao supor que não há nele nada que se deva temer; e, além disso, o fazem mentiroso, ao descrerem das suas terríveis ameaças pronunciadas contra os pecadores, e questionam sua autoridade, ao se recusarem a lhe obedecer. Somente aqueles que o temem e esperam na sua misericórdia lhe dão a honra devida ao seu nome. — Edward Payson.
Versículo 120Salmo 119:120
Se arrepia. Ou estremece, usado estritamente do cabelo que se ergue de terror (compare Jó 4:15). — J.J. Stewart Perowne.
Versículo 121Salmo 119:121
Aqui começa uma nova divisão do Salmo, indicada pela letra hebraica Ayin — uma letra que não pode ser bem representada no alfabeto inglês (nem no português), pois de fato não há letra em nossa língua que corresponda exatamente a ela. Talvez fosse melhor representada pelo que em grego se chama "aspirações". — Albert Barnes.
Fiz juízo contra os ímpios, ""e justiça"" para com os bons. — Simon de Muis, 1587-1644.
Fiz juízo e justiça. Aqui se poderia ver Davi na sua capacidade judicial; e, se assim for, temos Davi no meio de uma vasta experiência, pois estas palavras abrangeriam grande parte da sua vida. Quão bendita seria a reflexão se, depois de um longo reinado, todos os soberanos governantes pudessem assim apelar a Deus. Deveria ser assim, pois a ele todos prestarão contas por fim. Mesmo que concebamos Davi falando apenas no caráter de homem particular, o sentimento merece toda consideração... Para os pais dizerem isto do seu trato com os filhos, os patrões com os empregados, um homem com seus vizinhos, é coisa muito excelente. — John Stephen.
Juízo e ""justiça"" são frequentemente postos na Escritura como a mesma coisa, e, quando juntos, o segundo funciona como epíteto do primeiro. "Fiz juízo e justiça", isto é, fiz o juízo com justiça, exatamente, à risca. — Joseph Caryl.
"Faze o que é reto, e sê um rei,
seja este o teu baluarte de bronze,
para sempre guardar a tua consciência inocente,
e nunca empalideceres de culpa." — Horácio, tradução de Francis.
Se o nosso coração não nos condena, temos confiança diante de Deus: 1 João 3:21. Este "testemunho da consciência" tem sido, muitas vezes, o "júbilo" do povo do Senhor, quando sofrendo sob censura imerecida ou "orgulhosa opressão." Eles têm sido capacitados a alegá-lo sem ofensa na presença do seu santo Deus que sonda os corações; sim, mesmo quando, à vista próxima do grande e final ajuste de contas, se poderia bem supor que recuassem diante do escrutínio estrito e infalível do seu Juiz Onisciente.
Talvez, contudo, não estejamos suficientemente cientes da importância da integridade moral em ligação com o nosso conforto espiritual. Note a ousadia que isso deu a Davi na oração: "fiz juízo e justiça: não me deixes aos meus opressores." — Charles Bridges.
Não me deixes aos meus opressores. Isto é, sustenta-me contra aqueles que quereriam me fazer mal, porque faço o que é certo; interpõe-te entre mim e meus inimigos, como se fosses o meu fiador. A justiça imparcial contra os opressores às vezes deixa os juízes expostos à opressão; mas ainda assim aqueles que correm os maiores riscos por zelo por Deus acharão Deus pronto a ser seu fiador, quando orarem: "sê fiador do teu servo para o bem", como no versículo seguinte. — Abraham Wright.
Versículos 121–122Salmo 119:121-122
Fiz juízo e justiça; mas, para que eu sempre o faça, e nunca falhe em fazê-lo, "sustenta o teu servo para o bem", dirigindo-o, para que ele sempre aprecie o que é bom, e assim a consequência será que "os soberbos não me caluniarão"; pois aquele que está bem firmado "para o bem", e de tal modo constituído que só o que é bom e justo lhe agrada, perseverará de tal forma que não terá razão para temer "os soberbos que o caluniam." — Roberto Belarmino.
Versículo 122Salmo 119:122
Sê fiador do teu servo para o bem. O que Davi pede a Deus que seja para ele, isso é Cristo para todo o seu povo: Hebreus 7:22. Ele se chegou a Deus, apertou as mãos com ele, deu sua palavra e penhor de pagar as dívidas do seu povo; pôs-se no lugar deles diante da lei, e tornou-se responsável perante a lei e a justiça por eles; comprometeu-se a fazer satisfação pelos seus pecados, a trazer justiça eterna para a sua justificação, e a preservá-los e guardá-los, e levá-los em segurança à glória e à felicidade eternas; e isto foi ser fiador deles para o bem. — John Gill.
Sê fiador do teu servo para o bem. Há três exposições desta cláusula, notando o fim, a causa, o evento.
Assume por mim, ut sim bonus et justus, que eu seja bom e justo, assim o Rabino Arama sobre o texto; sê fiador por mim, para que eu seja bom. Teodoreto expõe: "assume que eu cumprirei minha resolução de guardar a tua lei." Aquele que se une, assume; embora tenhamos preceitos, sem o assumir de Deus nunca seremos capazes de cumprir o nosso dever.
Assume por mim, para me ajudar a fazer o bem; assim leem alguns: ele não tomaria o seu partido numa causa má. Encomendar um erro à proteção de Deus é provocá-lo a apressar o nosso castigo, a nos deixar sob nossos opressores; mas, quando temos boa causa, e boa consciência, ele nos reconhecerá. Não podemos esperar que ele nos sustente e defenda no serviço do Diabo, no qual nos enredamos por nosso próprio pecado.
Está comigo para o bem: assim é frequentemente traduzido: "mostra-me um sinal para o bem" (Salmos 86:17); "não ores por este povo para o bem" (Jeremias 11:14); assim, "lembra-te de mim, meu Deus, para o bem" (Neemias 13:31). Assim aqui: "sê fiador do teu servo para o bem." — Thomas Manton.
Sê fiador do teu servo para o bem. É a oração de Ezequias em sua aflição: "ó Senhor, estou oprimido; assume por mim" (Isaías 38:14); é a oração de Jó por um "árbitro" entre ele e Deus (Jó 9:33); é o clamor da igreja antes da Encarnação pelo aparecimento de um Mediador Divino; é a confiança de toda alma fiel, desde aquele tempo bendito, na perpetuidade do nosso Grande Sumo Sacerdote no céu, o que é para nós o penhor da bem-aventurança. — Agellius e Coceio, em Neale e Littledale.
Sê fiador do teu servo para o bem. Seu sentido é: tu sabes quão injustamente sou caluniado e mal falado em certos lugares; onde não estou presente, ou onde não posso responder por mim mesmo, responde tu por mim. — William Cowper.
Sê fiador do teu servo para o bem. O olho perspicaz do mundo talvez não consiga apontar mancha alguma na minha confissão exterior; mas, "se tu, Senhor, observares as iniquidades, ó Senhor, quem subsistirá?" A dívida se acumula continuamente, e a perspectiva de pagamento está tão distante quanto sempre. Eu bem poderia esperar ser "deixado aos meus opressores", pois deveria pagar tudo o que devia ao meu Senhor. Mas eis que: "onde está o furor do opressor?" Isaías 51:13. O fiador é achado — a dívida é paga — o resgate é aceito — o pecador está livre. Ouviu-se uma voz no céu: "livra-o de descer à cova: já achei o resgate", Jó 33:24. O próprio Filho de Deus se fez fiador de um estranho, e "sofreu por isso", Provérbios 11:15. A um custo infinito — o custo do seu precioso sangue — ele me livrou dos "meus opressores": o pecado, Satanás, o mundo, a morte, o inferno. — Charles Bridges.
Alguns observam que este é o único versículo em todo o salmo em que a Palavra não é mencionada sob o nome de "lei", "juízos", "estatutos", ou termos semelhantes, e fazem esta observação: "onde a Lei falha, ali Cristo é fiador de um testamento melhor." Há os que traduzem as palavras assim: "adoça, ou deleita o teu servo com o bem", isto é, torna-o alegre e confortado na busca daquilo que é bom. — John Trapp.
Versículo 123Salmo 119:123
Os meus olhos desfalecem, esperando a tua salvação. Em tempos de grande tristeza, quando o coração está oprimido de cuidado, e quando o perigo ameaça por todos os lados, o olho humano expressa, com surpreendente precisão, as emoções angustiadas e aflitas da alma. A postura aqui descrita é a de alguém que se percebe cercado dos inimigos mais formidáveis, que sente sua própria fraqueza e insuficiência para entrar em conflito com eles, mas que busca ansiosamente a chegada de um amigo dedicado e poderoso, que prometeu socorrê-lo na hora da sua calamidade.
Conforme o amigo demora a hora de sua vinda, os temores e ansiedades se multiplicam, até que ele se encontra na condição de alguém cujos olhos desfalecem e se turvam, olhando pela aproximação do seu grande libertador. Nessa condição estava o suplicante aqui descrito — seus inimigos estavam prontos para o devorar, e, exceto do céu, ele não tinha esperança de livramento final. Às promessas de Deus ele se recorreu, e, enquanto esperava seu cumprimento, e olhava com o máximo ardor para a palavra da justiça de Deus, dá voz ao sentimento desanimado: "os meus olhos desfalecem, esperando a tua salvação." Ah, que tivéssemos desejos tão calorosos e ansiosos por aquela grande salvação, que há de realizar a vitória sobre todos os nossos inimigos espirituais, e nos capacitar a bradar triunfantemente por toda a eternidade em nome do nosso Todo-Poderoso Libertador! — John Morison.
Os meus olhos desfalecem... pela palavra da tua justiça. Ainda que as palavras da promessa não se cumpram, nem pareçam prestes a se cumprir, a fé deve justificar a promessa, como verdadeira e fiel. — David Dickson.
Pela palavra da tua justiça. Esta seria a palavra da salvação prometida, que o Senhor dera em justiça. Que súplica surpreendente — Deus, com base na sua própria justiça, invocado para o livramento — e, no entanto, quão verdadeira! Ou poderia ser esta a palavra da sua justiça, o proferir da justiça, o exercício de uma decisão justa entre ele e seus opressores. Ele esperava que o Senhor interviesse entre eles, e assim cumprisse tudo o que prometera em favor do crente. O Senhor há de vindicar os seus. Há alguém em grande dificuldade, esperando que o Senhor intervenha, a quem confiou seus assuntos?... Espera; ele não decepcionará uma esperança graciosa. — John Stephen.
Pela palavra da tua justiça, ou "a palavra da tua justiça"; isto é, pela sentença de justiça sobre os meus opressores, como ensina a primeira parte do versículo; pois a pronúncia dessa sentença equivaleria à concessão da salvação que o salmista tão ardentemente desejava. — George Phillips.
Versículo 124Salmo 119:124
Trata o teu servo segundo a tua misericórdia. Se sou "servo" de Deus, só posso trazer diante dele os meus serviços com base na "misericórdia"; sentindo que, mesmo para os meus melhores desempenhos, preciso de um mundo incomensurável de misericórdia — misericórdia que perdoa, que salva, que é eterna; e, no entanto, sou encorajado pelo sangue de Jesus a suplicar pela minha alma: "trata o teu servo segundo a tua misericórdia."
Mas então sou ignorante tanto quanto culpado; e ainda assim não ouso orar pelo ensino divino, por mais e a toda hora que dele necessite, até ter de novo alcançado misericórdia. A "misericórdia" é a primeira bênção, não só em importância, mas em ordem. Devo buscar o Senhor, e conhecê-lo como Salvador, antes de poder ir a ele com alguma confiança para que seja o meu mestre. Mas, uma vez que tenha achado aceitação para a minha petição — "trata o teu servo segundo a tua misericórdia" — meu caminho estará aberto para seguir com a minha petição: "ensina-me os teus estatutos. Dá-me entendimento, para que conheça os teus testemunhos" — para que eu conheça, ande, sim, "corra pelo caminho dos teus mandamentos" com um coração dilatado, Salmos 119:32. Minha súplica é a mesma que já invoquei com aceitação (Salmos 119:94): "sou teu servo." — Charles Bridges.
A tua misericórdia. O ano todo, cada hora de cada dia, Deus nos abençoa ricamente; tanto quando dormimos quanto quando acordamos, sua misericórdia nos acompanha. O sol pode deixar de brilhar, mas o nosso Deus jamais deixará de alegrar os seus filhos com o seu amor. Como um rio, sua benignidade flui sempre com uma plenitude tão inesgotável quanto a sua própria natureza, que é a sua fonte. Como a atmosfera que sempre envolve a terra, e está sempre pronta a sustentar a vida do homem, a benevolência de Deus envolve todas as suas criaturas; nela, como no seu elemento, elas vivem, se movem e existem.
Contudo, assim como o sol nos dias de verão parece nos alegrar com raios mais quentes e brilhantes do que em outras épocas, e assim como os rios em certas estações se enchem com a chuva, e como a própria atmosfera, em ocasiões, é carregada de influências mais frescas, mais revigorantes, ou mais suaves do que antes, assim é com a misericórdia de Deus; ela tem suas horas douradas, seus dias de transbordamento, quando o Senhor engrandece a sua graça e ergue bem alto o seu amor diante dos filhos dos homens. — C.H.S.
Ensina-me. Davi tinha os profetas Natã e Gade; e, além deles, os levitas comuns para o ensinarem. Lia a palavra de Deus com diligência, e meditava na lei de dia e de noite; mas reconhecia que tudo isso não era nada a menos que Deus o ensinasse. Outros mestres falam ao ouvido, mas Deus fala ao coração: assim Paulo pregou a Lídia, mas foi Deus que lhe abriu o coração. Oremos por esta graça. — William Cowper.
Versículo 125Salmo 119:125
Sou teu servo; dá-me entendimento, etc. Não sou um estranho para ti, mas o teu próprio servo doméstico; que eu não careça de nenhuma graça que possa me capacitar a te servir. — William Cowper.
Sou teu servo. Que sejas o servo de Deus, deves considerar a tua maior glória e bem-aventurança. — Martin Geier.
Versículo 126Salmo 119:126
É tempo de agires, Senhor. Houve alguma vez navio mais desesperadamente parado em pleno oceano? Ou tripulação que clamasse com mais frenesi por uma brisa favorável do que devem clamar os que tripulam a Igreja do Deus vivo? Se Deus não age, é certo que nada resta diante da Igreja senão a perspectiva de total derrota e ruína. Maior é o mundo do que a Igreja, se Deus não estiver nela. Mas, se Deus estiver nela, ela não será abalada. Que ele a socorra, e bem depressa!
Quando ele se levanta para agir, não sabemos qual será a forma e o feitio de suas operações. Ele opera segundo o conselho da própria vontade; e quem sabe se, uma vez desperto e revestido de sua força, seus resultados não se limitarão ao avivamento imediato e exclusivo da vida espiritual da Igreja, mas se associarão a convulsões e reviravoltas providenciais que encherão o coração do mundo de espanto e consternação? Seu reino espiritual não existe isolado. Tem relações que o envolvem estreitamente com o universo material, com a sociedade humana e a vida das nações. Houve tempos em que Deus agiu, e os sinais de sua presença se viram no terrível abalar das nações, no arrancar pela raiz de injustiças seculares, no golpear de tiranias esmagadoras e na libertação de povos cuja vida fora um longo e desesperado gemido.
Houve tempos também, e muitos, em que ele operou pelos elementos da natureza — pela ferrugem e pelo mofo, por enchentes e fome, por gafanhoto, lagarta e larva; pelo comércio enfraquecido, com sua maquinaria enferrujando no moinho e seus navios apodrecendo no porto. Todas essas coisas são seus servos. Às vezes o sono do mundo, e também da Igreja, é tão profundo que só pode ser rompido por agentes como o vento, o fogo ou o terremoto, que fizeram o profeta tremer à boca da caverna, e sem os quais a voz que se seguiu, tão suave, tão pequena e terna, teria perdido muito de seu poder de comover e subjugar.
Quando a sociedade se embriaga com a taça circeana da mundanidade, e as vozes que vêm da eternidade são ignoradas, quando não de todo inaudíveis, até o terror tem sua missão misericordiosa. Os corações frívolos e superficiais dos homens precisam ser tornados sérios, seus ídolos precisam ser quebrados, seus ninhos precisam ser apedrejados, ou derrubados das árvores onde foram construídos com tanto cuidado, e eles precisam aprender que, se esta vida é tudo, ela não passa de um fantasma e um escárnio.
Quando vier o dia do Senhor, em que ele começará a agir, não nos surpreendamos se "vier sobre todo soberbo e altivo, e sobre todo o que se exalta, e ele será abatido; e sobre todos os cedros do Líbano, altos e elevados, e sobre todo carvalho de Basã, e sobre todos os montes altos, e sobre todos os outeiros elevados, e sobre toda torre alta, e sobre todo muro fortificado, e sobre todos os navios de Társis, e sobre todas as pinturas agradáveis. E a arrogância do homem será humilhada, e a altivez dos homens será abatida; e só o Senhor será exaltado naquele dia."
Mas essa operação de Deus tomará também outras formas. Não se verá ela na inspiração da Igreja com fé em seu próprio credo, na medida em que esse credo tenha o aval da palavra divina? Crê a Igreja em seu credo? Ela o escreve, o expõe, o canta, o defende; mas será que crê nele, ao menos com uma fé que gera entusiasmo em si mesma, ou respeito do mundo? Não terão as verdades que formam os símbolos metodizados da Igreja se tornado proposições em vez de forças vivas? Não jazem elas embalsamadas com reverência supersticiosa na arca da tradição, ternamente cultivadas pelo que foram e fizeram?
Mas não se esquece que, se são verdades, não estão mortas e não podem morrer? São verdadeiras agora, ou nunca foram verdadeiras; vivas agora, ou nunca viveram. O tempo não pode tocá-las, nem a opinião humana, nem a lentidão ou incredulidade da Igreja, pois são emanações da essência divina, dotadas de sua própria vida imperecível. Não são maquinaria que possa envelhecer, tornar-se obsoleta e ser substituída por invenções melhores; não são métodos de política traçados para condições transitórias, que se desvanecem com elas; não são andaimes dentro dos quais outra verdade, mais alta, há de ser erguida de geração em geração. São como aquele que é o fim de nossa conversação, "Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e eternamente." Não há uma delas que, se a fé que desperta fosse proporcional ao seu valor intrínseco, não revestisse a Igreja de um poder novo e admirável. Mas que poder seria esse, se essa fé as abarcasse todas? Seria vida dentre os mortos. — Enoch Mellor (1823-1881), em "The Hem of Christ's Garment, and other Sermons."
É tempo de agires, Senhor. Expressa com ênfase o momento próprio para o Senhor fazer a sua própria obra; como se o Salmista dissesse: "Não nos cabe prescrever o tempo e a ocasião para Deus exercer o seu poder e reivindicar a autoridade da sua própria lei; ele faz tudo no tempo certo, e no momento oportuno castigará os que anularam a sua lei, e que se tornaram notórios pela sua impiedade e maldade." — George Phillips.
É tempo de agir, assim como quando o ataque de alguma doença se agrava, você corre ao médico, para que venha mais depressa, antes que seja tarde demais para fazer algum bem. Assim o profeta, vendo no Espírito Santo a rebelião do povo, sua luxúria, seus prazeres, enganos, fraudes, avareza, embriaguez, corre, para nosso socorro, a Cristo, a quem sabia ser o único capaz de remediar tais pecados; implora-lhe que venha, e não admite demora. — Ambrósio, em Neale e Littledale.
É tempo de agires, Senhor. A incredulidade nunca foi mais sutil, mais nociva, mais plausível, talvez mais bem-sucedida, do que nos dias em que vivemos. Deixou o baixo terreno da vulgaridade, da grosseria e da zombaria, e se entrincheirou nas alturas da crítica, da filologia e até da própria ciência. Penetra de forma temível a nossa literatura popular; revestiu-se dos encantos da poesia para lançar seu feitiço sobre a mente pública; esforçou-se por entrelaçar-se com a ciência; e mal conhece o estado da opinião nesta terra quem não sabe que ela é abraçada por boa parte da mente culta desta geração. "É tempo de agires, Senhor." — John Angell James, 1785-1859.
É tempo de agires, Senhor, etc. Enviar o Messias, operar justiça, cumprir a lei e reivindicar sua honra, quebrada pelos homens. Era sempre noção dos judeus que o tempo da vinda do Messias seria uma época de grande maldade na terra; o que parece concordar com a palavra de Deus, e foi verdade de fato. Veja Mateus 2:17, 3:1-3,15-16, 4:2. — John Gill.
É tempo de agires, Senhor, etc. Verdade é, Senhor, que não nos cabe determinar teus tempos e limites, pois tu és o Ancião de Dias, Criador e destino do próprio tempo. Tampouco presumimos irromper no umbral de tua câmara privada, para "conhecer os tempos e as estações" que tu, nosso Pai, reservaste em teu próprio poder; contudo, Senhor, ensinaste-nos, assim como a discernir a face do céu, também a distinguir os sinais dos tempos, e da causa esperar o efeito que necessariamente se segue. "Tu és um Deus cheio de compaixão e misericórdia, tardio em irar-te, e de grande bondade" (Salmos 103:8); e suportas muitas ofensas dos filhos dos homens, esmagado pelos seus pecados como um carro carregado de feixes; mas se ainda assim continuam a te sobrecarregar, tu te livrarás desse peso e o lançarás ao chão da confusão.
Tu és "tardio em irar-te, mas grande em poder, e de modo nenhum terás por inocente o culpado" (Naum 1:3). Tu, por longo espaço, calas diante dos pecados dos homens, e permaneces quieto, e te reténs. Mas se os homens não se converterem, afiarás tua espada e curvarás teu arco, e o preparas. Paciente és, e por muito tempo conténs tua mão; mas quando a fronte do pecado começa a perder o rubor da vergonha, quando o rol das transgressões cresce de leste a oeste, quando o clamor delas fura as nuvens, quando o cúmulo da maldade chega ao topo, e seus frutos estão maduros e plenos, então é tempo de tu, Senhor, tomares conhecimento disso, de despertares como um gigante, e de estenderes tua mão toda vingadora.
Mas nossos pecados já estão maduros, sim, apodrecidos de maduros, a medida das nossas iniquidades transbordou até a borda. Sem dúvida nossa terra está afundada em iniquidade; nossas línguas e obras têm sido contra o Senhor, para provocar os olhos de sua glória; o exame de nosso semblante testifica contra nós (Isaías 3:8-9), sim, declaramos nossos pecados como Sodoma; não os escondemos, o clamor de nossos pecados é excessivamente grave, seu estrondo fura os céus, e com voz alta bradam, dizendo: "Até quando, Senhor, santo e verdadeiro? Até quando não virás vingar-te de uma nação como esta?" Apocalipse 6:10, Jeremias 9:9. — George Webbe, em "A Posie of Spiritual Flowers", 1610.
É tempo de agires, Senhor. Alguns leem, e o original permite, "É tempo de trabalhar por ti, ó Senhor"; é tempo de cada um, em seu lugar, aparecer ao lado do Senhor, contra o crescimento ameaçador da profanidade e da imoralidade. Devemos fazer o que pudermos pelo sustento dos interesses cambaleantes da religião, e, ao final, devemos pedir a Deus que tome a obra em suas próprias mãos. — Matthew Henry.
Anularam a tua lei. No segundo verso desta seção ele se queixou de que os soberbos o oprimiriam; agora se queixa de que destruíram a lei de Deus. Quem são, então, os inimigos de Davi, que buscam oprimi-lo? Somente os que são inimigos de Deus, e buscam destruir a sua lei. Grande consolo temos nisto: que, se amamos o Senhor e nos esforçamos em boa consciência para servi-lo, não podemos ter outros inimigos senão os que são inimigos de Deus. — William Cowper.
Anularam a tua lei. Como se não quisessem apenas pecar contra a Lei, mas pecar a Lei para fora da existência, não apenas se retirar de sua obediência, mas expulsá-la do mundo; queriam anular e revogar os atos sagrados de Deus, para que seus próprios atos ímpios não fossem questionados; e para que a Lei não tivesse poder de puni-los, negam-lhe o poder de governá-los; essa é a força da simples palavra aqui usada, aplicada à mais alta transgressão contra a Lei de Deus. — Joseph Caryl.
Versículos 126–127Salmo 119:126-127
Tudo aperfeiçoa o santo. Não somente as ordenanças, a palavra, os sacramentos, a santa companhia, mas até os pecadores e o próprio pecar deles. Até isso faz suas graças entrarem em exercício, e o impele a um lamento piedoso e contrito. O santo navega com qualquer vento. Assim como os ímpios são feridos pelas melhores coisas, os piedosos são aperfeiçoados pelas piores. Porque "anularam a tua lei, por isso amo os teus mandamentos." A santidade é tanto mais reconhecida pelos piedosos quanto mais o mundo a despreza. Os santos mais eminentes foram os da casa de César (Nero) (Filipenses 4:22); os que guardaram o nome de Deus foram os que viveram onde estava o trono de Satanás (Apocalipse 2:13). O zelo por Deus se aquece mais com a oposição; e assim os piedosos mais se esforçam para reparar a glória de Deus. — William Jenkyn (1612-1685), em "The Morning Exercises".
Versículo 127Salmo 119:127
Por isso amo os teus mandamentos mais do que o ouro, etc. Em parte, porque é uma evidência de sua excelência o fato de serem desprezados pelos mais vis dos homens. Em parte, por justa indignação e oposição aos meus inimigos jurados; e em parte, porque a grande e generalizada apostasia dos outros torna este dever mais necessário, para evitar tanto a recaída deles quanto a de outros homens. — Matthew Pool.
Amo os teus mandamentos mais do que o ouro; sim, mais do que o ouro fino. A imagem empregada nos traz o retrato do avarento; seu coração e seu tesouro estão em seu ouro. Com que deleite ele o conta! Com que vigilância o guarda! Escondendo-o em lugar seguro, para não ser despojado daquilo que lhe é mais caro do que a própria vida. Assim deveriam ser os cristãos, avarentos espirituais, contando seu tesouro que está "acima do ouro fino"; e "escondendo-o em seus corações", em segurança, onde o grande espoliador não poderá alcançá-lo. Ah, cristãos! Quanto maior é a vossa porção do que o tesouro do avarento! Escondei-a; vigiai-a; retende-a. Não precisais temer a cobiça nas coisas espirituais: antes, "cobiçai ardentemente" aumentar o vosso tesouro; e, vivendo dele e nele, ele crescerá mais rico em extensão e mais precioso em valor. — Charles Bridges.
Amo os teus mandamentos. Ele não professa que os cumpriu, mas que os amou; e na verdade é um grande progresso na piedade se chegamos a este ponto: amá-los de coração. O homem natural odeia os mandamentos de Deus; eles são tão contrários à sua corrupção; mas o homem regenerado, assim como odeia sua própria corrupção, assim ama a palavra, porque, segundo ela, deseja ser reformado. E aqui está o nosso consolo: que, ainda que não possamos fazer o que é ordenado, se amamos fazê-lo, é um argumento de graça recebida.
"Mais do que o ouro", etc. É lícito amar as criaturas que Deus designou para nosso uso; com estas condições: uma, que o primeiro lugar em nosso afeto de amor seja reservado a Deus; e qualquer outra coisa que amemos, que a amemos nele e por ele, dando-lhe apenas o segundo lugar. Assim Davi, sendo homem natural, amava seu alimento natural; mas protesta que amava a lei do Senhor mais do que seu alimento designado; e aqui ama os mandamentos de Deus acima de todo o ouro. — William Cowper.
Versículo 128Salmo 119:128
Considero retos todos os teus preceitos a respeito de todas as coisas. Não é testemunho comprometedor da integridade e do valor dos preceitos do Senhor aquele com que o Salmista conclui: "Considero retos todos os teus preceitos a respeito de todas as coisas" — cada mandamento, por mais duro que seja; cada ordem, por mais desagradável que seja; cada preceito, por mais severo que seja; ainda que seja cortar a mão direita, arrancar o olho direito; esquecer o próprio povo e a casa do pai; tomar a cruz diariamente; vender tudo o que se tem — sim, Senhor, ainda assim, "todos os teus preceitos a respeito de todas as coisas são retos." Que verdade bendita a que chegar, e nela achar consolo! — Barton Bouchier.
Considero todos os teus preceitos, etc. Não devemos apenas respeitar todos os mandamentos de Deus, mas também respeitá-los todos igualmente, dando-lhes a todos o mesmo respeito. A obediência deve ser universal. — R. Mayhew, em "The death of Death in the Death of Christ", 1679.
Todos. Os muitos "todos" usados neste verso (não diferente daquele em Ezequiel 44:30) mostram a integridade e a universalidade de sua obediência. "Todos" é uma palavrinha pequena, mas de largo alcance. — John Trapp.
Todos os teus preceitos a respeito de todas as coisas retos. Ele tinha alta estima pelos preceitos de Deus; considerava-os justos em todas as coisas; justos, porque não prescrevem senão o que é exatamente justo; e justos, porque trazem justo castigo aos transgressores, e recompensa aos justos. — William Nicholson.
O homem íntegro molda todas as suas ações por uma regra reta: a razão carnal não pode desviá-lo, a prática corrupta não pode influenciá-lo, mas a santa palavra de Deus o dirige. Por isso seu respeito é universal a todos os preceitos divinos, evitando todo mal, praticando todo bem sem exceção. Assim o homem íntegro de Davi aqui considera retos os preceitos de Deus a respeito de todas as coisas, e por isso se esforça para observá-los. Por isso é que ele é o mesmo homem em todos os tempos, em todos os lugares; porque em todos os tempos, e em todas as companhias, age pela mesma regra. É um bom dito de São Cipriano, ea non est religio, sed dissimulatio, quae per omnia non constat sibi, isto é, não é piedade, mas hipocrisia, aquilo que não é em tudo igual a si mesmo, já que o homem íntegro mede toda ação pela linha reta do preceito divino. — Abraham Wright.
Odeio todo caminho de falsidade. A melhor prova do nosso amor a Deus e à sua palavra é o contrário — o ódio ao pecado e à impiedade: "Vós que amais o Senhor, odiai o mal." Quem ama uma árvore odeia o verme que a consome; quem ama uma veste odeia a traça que a corrói; quem ama a vida aborrece a morte; e quem ama o Senhor odeia tudo o que o ofende. Que tomem cuidado nisto os que amam seus pecados: como pode estar neles o amor de Deus?
A religião nos obriga não apenas a odiar um caminho de falsidade, mas todos os seus caminhos. Assim como não há nada bom que, em alguma medida, o homem piedoso não ame, também não há nada mau que, em alguma medida, ele não odeie. E esta é a perfeição dos filhos de Deus; perfeição não de graus, pois nem amamos o bem nem odiamos o mal como deveríamos; mas perfeição de partes, porque amamos todo bem e odiamos todo mal em alguma medida. — William Cowper.
E odeio. O Ser que ama o bem com intensidade infinita há de odiar o mal com a mesma intensidade. Longe de haver qualquer incompatibilidade entre este amor e este ódio, eles são as contrapartes um do outro — polos opostos da mesma emoção moral. — John W. Haley, em "An Examination of the alleged Discrepancies of the Bible", 1875.
Odeio todo caminho de falsidade. Se Satanás te agarra por um só pecado, não basta isso para te levar à condenação? Assim como o açougueiro leva a rês ao matadouro, ora amarrada pelas quatro patas, ora só por uma; assim é com Satanás. Ainda que não sejas escravo de todo pecado, se és escravo de um só, a garra que ele tem sobre ti, por essa única afeição pecaminosa, é suficiente para te capturar. — William Cowper.
Versículo 129Salmo 119:129
Os teus testemunhos são maravilhosos. As Escrituras são "maravilhosas" quanto à matéria que contêm, à maneira como foram escritas, e aos efeitos que produzem. Contêm as mais sublimes verdades espirituais, veladas sob cerimônias e sacramentos externos, descrições figurativas, histórias típicas, parábolas, similitudes, etc. Quando devidamente abertas e aplicadas, aterrorizam e humilham, convertem e transformam, consolam e fortalecem. Quem, senão, há de deleitar-se em estudar e "observar" estes "testemunhos" da vontade e da sabedoria, do amor e do poder do Deus Altíssimo! Enquanto tivermos estas santas escrituras, não desperdicemos o nosso tempo, nem mal empreguemos nossos pensamentos, nem prostituamos nossa admiração, deleitando-nos em loucuras humanas, e maravilhando-nos com trivialidades humanas. — George Horne.
Os teus testemunhos são maravilhosos. Os testemunhos de Deus são "maravilhosos" (1) em sua majestade e compostura, que infunde reverência nos corações dos que a consideram; a Escritura nos fala num tom digno de Deus. (2) É "maravilhosa" pela matéria e profundidade do mistério, que não se encontra em nenhum outro lugar, a respeito de Deus, de Cristo, da criação do mundo, das almas dos homens e sua condição imortal e eterna, da queda do homem, etc. (3) É "maravilhosa" pela pureza e perfeição. O Decálogo, em dez palavras, resume todo o dever do homem, e alcança a própria alma, e todos os movimentos do coração. (4) É "maravilhosa" pela harmonia e concordância de todas as suas partes. Toda a religião é de uma só peça, e uma parte não conflita com a outra, mas conspira para promover o grande fim, a sujeição da criatura a Deus. (5) É "maravilhosa" pelo seu poder. Há um poder mui grande que acompanha a palavra de Deus, e assombra os corações dos que a consideram e a sentem. 1 Tessalonicenses 1:5. — Thomas Manton.
Os teus testemunhos são maravilhosos. A própria Bíblia é um milagre espantoso e permanente. Escrita fragmento por fragmento ao longo de quinze séculos, sob diferentes estados de sociedade, e em diferentes línguas, por pessoas dos temperamentos, talentos e condições mais opostos, letrados e iletrados, príncipe e camponês, escravo e livre; lançada em toda forma de composição instrutiva e boa escrita: história, profecia, poesia, alegoria, representação emblemática, interpretação criteriosa, declaração literal, preceito, exemplo, provérbios, dissertação, epístola, sermão, oração — em suma, todas as formas racionais do discurso humano —, e tratando, além disso, de assuntos não óbvios, mas dificílimos; seus autores não se encontram, como outros homens, contradizendo uns aos outros nas questões mais ordinárias de fato e opinião, mas estão em harmonia sobre todo o seu sublime e transcendente plano. — J. Maclagan, 1788-1852.
Prezai muito as Escrituras, ou não lhes obedecereis. Davi disse: "por isso a minha alma os guarda"; e por que isso, senão porque os considerava maravilhosos? Pode alguém progredir em uma arte que despreza e desdenha? Prezai este livro de Deus acima de todos os outros livros. Santo Gregório chama a Bíblia de "o coração e a alma de Deus." Dizem os rabinos que há uma montanha de sentido pendendo de cada acento e til da Escritura. "A lei do Senhor é perfeita" (Salmos 19:7 [sic — a fonte trazia "Salmos 14:7", referência inexistente]). A Escritura é a biblioteca do Espírito Santo; é um compêndio do conhecimento divino, um modelo exato e uma plataforma da religião. A Escritura contém em si os credenda, "as coisas que devemos crer", e a agenda, "as coisas que devemos praticar." É "capaz de nos fazer sábios para a salvação": 2 Timóteo 3:15. "A Escritura é o padrão da verdade", a juíza das controvérsias; é a estrela polar que nos dirige ao céu (Isaías 8:20). "O mandamento é uma lâmpada": Provérbios 6:23.
A Escritura é a bússola pela qual o leme de nossa vontade deve ser guiado; é o campo em que Cristo, a Pérola de grande valor, está escondido; é uma rocha de diamantes, é um colírio sagrado, um bálsamo; cura os olhos dos que a contemplam; é uma lente ótica espiritual em que resplandece a glória de Deus; é a panaceia, o "remédio universal" para a alma. As folhas da Escritura são como as folhas da árvore da vida, "para a cura das nações": Apocalipse 22:2. A Escritura é ao mesmo tempo a geradora e a alimentadora da graça. Como nasce o convertido, senão pela "palavra da verdade"? Tiago 1:18. Como cresce, senão pelo "leite não adulterado da palavra"? 1 Pedro 2:2. A palavra escrita é o livro de onde tiramos as provas do céu; é a baliza marítima que nos mostra os rochedos do pecado a evitar; é o antídoto contra o erro e a apostasia, a espada de dois gumes que fere a antiga serpente. É nosso baluarte para resistir à força da concupiscência, como o Capitólio de Roma, que era um lugar de força e munição.
A Escritura é a "torre de Davi", onde pendem os escudos de nossa fé: Cântico dos Cânticos 4:4. "Tirai a palavra, e nos privareis do sol", dizia Lutero. A palavra escrita está acima de uma embaixada angélica, ou de uma voz do céu. "Esta voz que veio do céu ouvimos nós. Temos também", bebaioteron logon, "uma palavra mais segura": 2 Pedro 1:18-19. Ó, prezai a palavra escrita; prezá-la é o caminho para aproveitá-la. Se César tanto valorizava seus Comentários que, para preservá-los, perdeu a púrpura, quanto mais devemos estimar os sagrados oráculos de Deus? "Estimei mais as palavras da sua boca do que a minha porção de comida": Jó 23:12. O rei Eduardo VI da Inglaterra, no dia de sua coroação, teve diante de si três espadas apresentadas, significando que era monarca de três reinos. O rei disse que faltava uma espada; perguntado qual era, respondeu: "A Sagrada Bíblia, que é a espada do Espírito, e deve ser preferida a estas insígnias de realeza." Roberto, rei da Sicília, tanto prezava a palavra de Deus que, falando a seu amigo Petrarca, disse: "Protesto, as Escrituras me são mais caras do que o meu reino; e se tiver de ser privado de uma delas, prefiro perder minha coroa a perder as Escrituras." — Thomas Watson, em "The Morning Exercises."
A palavra contém matéria para exercitar as maiores mentes. Muitos homens não suportam gastar seus pensamentos e seu tempo com assuntos triviais; enquanto outros consideram felicidade bastante se puderem, pelas ocupações mais humildes, obter sustento. Ah, que todos os de altas aspirações se exercitem na lei de Deus; aqui estão objetos próprios para grandes mentes, sim, objetos que elevarão a maior delas: e de fato, ninguém no mundo é verdadeiramente grande senão os santos, pois eles se exercitam nos grandes conselhos de Deus. Consideramos grandes os homens empregados nos negócios de estado; ora, os santos estão elevados acima de todas as coisas do mundo, e as consideram todas pequenas e mesquinhas, e se exercitam nos grandes negócios do reino de Jesus Cristo. Por isso o Senhor quis que reis e juízes tivessem o livro da lei escrito, Deuteronômio 17:18-19; e conta-se de Afonso, rei de Aragão, que, em meio a todas as suas grandes e múltiplas ocupações, leu as Escrituras catorze vezes com comentários. Quantos temos, homens de grandes posses, que reivindicam ter grandes mentes, mas mal consideram a lei de Deus: olham para a sua lei como algo abaixo deles. Livros de história e de guerra eles lerão com diligência; mas quanto à Escritura, é coisa que pouco tem a oferecer.
É um meio especial para a obediência ter altos pensamentos sobre a lei de Deus. É por isso que o profeta fala assim: "Escrevi-lhe as grandes coisas da minha lei, mas foram tidas como coisa estranha": Oseias 8:12. Como se dissesse: se tivessem tido as coisas da minha lei em seus pensamentos, jamais teriam agido assim. Salmos 119:129, "Os teus testemunhos são maravilhosos, por isso a minha alma os guarda." Ele não diz, por isso eu os guardo; mas, por isso a minha alma os guarda; minha própria alma está nisto, em guardar os teus testemunhos, pois os considero coisas maravilhosas. É bom sinal de que o espírito do grande Deus está num homem, quando o eleva acima de outras coisas, a considerar as coisas de sua palavra como as únicas grandes coisas do mundo. "Toda carne é erva, e toda a sua glória é como a flor do campo: a erva seca, a flor murcha; mas a palavra do nosso Deus subsiste para sempre": Isaías 40:6; Isaías 40:8. Há vaidade em todas as coisas do mundo; mas naquilo que a palavra revela há eternidade: por isso não devemos admirar nada tanto quanto a palavra, e devemos deleitar-nos grandemente nos mandamentos de Deus; um grau ordinário de admiração ou deleite não basta, mas grande admiração e grande deleite devem existir na lei de Deus. E todos os argumentos tirados da lei de Deus devem prevalecer poderosamente sobre vós. — Jeremiah Burroughs.
Os teus testemunhos são maravilhosos. As maravilhas nunca hão de cessar. O ar, a terra, a água, o mundo acima, o mundo abaixo, o tempo, a eternidade, os vermes, as aves, os peixes, os animais, os homens, os anjos, todos estão cheios de maravilhas. Quanto mais todas as coisas são estudadas, mais maravilhas aparecem. É tolice, portanto, criticar os mistérios da Escritura, ou negá-los. A inspiração se gloria neles. Quem rejeita os mistérios do amor, da graça, da verdade, do poder, da justiça e da gratidão da palavra de Deus rejeita a salvação. Ela tem maravilhas em si mesma, e maravilhas em sua operação. São boa causa de amor, não de ofensa; de guardar, não de quebrar os preceitos de Deus. — William S. Plumer.
A minha alma, não apenas eu, mas eu com todo o meu coração e alma. — Joseph Addison Alexander.
Terminei de ler toda a Bíblia desde janeiro passado. Comecei no primeiro dia do presente ano, e terminei em 26 de outubro. Li-a nesse espaço quatro vezes, e não sem real proveito para mim mesmo. Sempre encontro nela algo novo; sendo ela, como seu Autor, infinita e inesgotável. — Samuel Eyles Pierce, 1814.
O que não devo eu ao Senhor por me permitir tomar parte na tradução da sua palavra? Nunca vi tais maravilhas, e sabedoria, e amor, no livro bendito, como desde que fui obrigado a estudar cada expressão; e é uma reflexão deliciosa que a morte não pode nos privar do prazer de estudar seus mistérios. — Henry Martyn.
Versículo 130Salmo 119:130
A abertura das tuas palavras ilumina, dando entendimento aos simples. A versão comum da primeira palavra (entrada) é imprecisa, e a que aqui se dá, embora exata, é ambígua. A cláusula não se refere à abertura mecânica do livro pelo leitor, mas à abertura espiritual de seu verdadeiro sentido pela iluminação divina, à mente que naturalmente não pode discerni-lo. — Joseph Addison Alexander.
Entrada, literalmente abertura, isto é, desdobramento ou desvelamento. — J. J. Stewart Perowne.
A entrada das tuas palavras dá luz. A primeira entrada, ou vestíbulo: pois o Salmista quer apontar que apenas os começos são apreendidos nesta vida; e que esses começos devem ser preferidos a toda a sabedoria humana. — Henricus Mollerus.
A entrada das tuas palavras dá luz, etc. O começo delas; os três primeiros capítulos de Gênesis, que luz não dão sobre a origem de todas as coisas: a criação do homem, seu estado de inocência, sua queda pelas tentações de Satanás, e sua recuperação e salvação por Cristo, a semente da mulher! Os primeiros princípios dos oráculos de Deus, os rudimentos da religião, os elementos do mundo, os ritos da lei cerimonial deram grande luz aos mistérios do Evangelho. — John Gill.
A entrada das tuas palavras dá luz. Um vendedor profano enfia no bolso uma folha de uma Bíblia, e lê as últimas palavras de Daniel: "Vai tu, pois, até que chegue o fim; porque repousarás e estarás no teu quinhão ao fim dos dias", e começa a pensar qual será seu próprio quinhão quando os dias terminarem. Um professor de Göttingen abre uma Bíblia de letras grandes para ver se ainda tem vista suficiente para lê-la, e cai sobre a passagem: "Guiarei os cegos por caminho que não conheciam", e ao lê-la, os olhos do seu entendimento se iluminam. Um soldado de Cromwell abre sua Bíblia para ver até onde a bala de mosquete penetrou, e a encontra detida no versículo: "Alegra-te, jovem, na tua mocidade, e anime-te o teu coração nos dias da tua juventude, e anda pelos caminhos do teu coração e pela vista dos teus olhos; mas sabe que por todas essas coisas Deus te trará a juízo." E, num momento de folia, o soldado de Kent abre a Bíblia que sua mãe de coração partido lhe enviara, e a primeira frase que surge é o texto tão familiar dos dias de menino: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados", e o pródigo exausto recorre a Cristo em busca de descanso. — James Hamilton, 1814-1867.
Ele amplia este louvor à palavra de Deus quando diz que a entrada dela, o primeiro operar da porta da palavra, dá luz: pois se a primeira entrada nela já dá luz, o que fará o seu progresso e continuidade? Isto acusa a geração em que vivemos, que há muito tempo tem sido ensinada pela palavra de Deus tão claramente que, quanto ao tempo, já poderia ser mestra de outros, e ainda assim são meras crianças em conhecimento e entendimento. Mas a quem dá a palavra entendimento? Davi diz que aos "simples": não aos que são soberbos, ou duplos de coração, ou sábios aos seus próprios olhos, que examinam os mistérios da piedade pela agudeza da razão natural. Não: aos que se negam a si mesmos, que capturam seu entendimento natural, e, como humildes discípulos, se submetem, não para perguntar, mas para ouvir; não para raciocinar, mas para crer. E se, por esta causa, os racionalistas que carecem desta humildade não podem tirar proveito da palavra, que espanto que os papistas se tornem ainda menos sábios por ela, tendo o coração tão cheio de preconceitos a seu respeito, que não se poupam de proferir blasfêmias contra ela, chamando-a não de inútil, mas de perniciosa para os simples e para os ignorantes.
E ainda, quando a acusam de difícil, dizendo que homens simples e ignorantes não deveriam ter permissão de lê-la, por ser obscura; todas essas frívolas alegações dos homens são anuladas por este único testemunho de Deus, que ela dá luz aos simples. — William Cowper.
Luz. Esta "luz" tem excelentes propriedades. 1. É lux manifestans, manifesta a si mesma e todas as demais coisas. Como vejo o sol, senão pelo sol, por sua própria luz? Como sei que a Escritura é a palavra de Deus, senão pela luz que nela resplandece, recomendando-se à minha consciência! Assim manifesta todas as outras coisas; expõe todas as fraudes e impostores de Satanás, a vaidade das coisas mundanas, os enganos do coração, a odiosidade do pecado. 2. É lux dirigens, uma luz que direciona, para que vejamos nosso caminho e nossa obra. Assim como o sol ilumina o homem para seu trabalho, esta nos dirige em todas as nossas condições: Salmos 119:105. Ela nos dirige como conduzir-nos em todas as condições. 3. É lux vivificans, uma luz vivificante. "Eu sou a luz do mundo: quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida": João 8:12. "Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te dará luz": Efésios 5:14. Aquela luz era a vida dos homens: assim é esta vida espiritual; não apenas descobre o objeto, mas ajuda a faculdade, enche a alma de vida e força. 4. É lux exhilarans, uma luz que console, refresca e alegra; e isso em dois aspectos. (1) Porque nos apresenta excelentes fundamentos de consolo. (2) Porque é uma luz que satisfaz a alma. — Condensado de Manton.
Dá entendimento. Se todos os livros do mundo fossem reunidos, a Bíblia tomaria tanto a dianteira em disciplinar o entendimento quanto em dirigir a alma. Ela não fará astrônomos, químicos ou linguistas; mas há uma grande diferença entre fortalecer a mente e abastecê-la de informação. — Henry Melvill.
Dá entendimento aos simples. Não há ninguém tão sabido que Deus não possa cegar; nem ninguém tão cego e ignorante cuja mente e coração seu Espírito não possa abrir. Aquele que, por sua incubação sobre as águas na criação, chocou aquela massa disforme na bela forma que hoje vemos, e daquele caos escuro fez os gloriosos céus, e os adornou com tantas estrelas orientais, pode mover-se sobre a tua alma escura e iluminá-la, ainda que ela seja tão vazia de conhecimento quanto a tarde do primeiro dia do mundo era de luz. O mestre-escola às vezes manda a criança de volta para casa, e diz ao pai para colocá-la em outro ofício, por não conseguir, com toda sua arte, fazer dela um erudito; mas se o Espírito de Deus é o mestre, tu aprenderás, ainda que seja um tolo: "A entrada da tua palavra dá luz, dá entendimento aos simples." Mal a alma entra na escola do Espírito, já se torna proficiente. — William Gurnall.
Aos simples. Ele não diz "dá entendimento" aos sábios e prudentes, aos homens letrados, e aos versados em letras; mas aos "simples." — Wolfgang Musculus.
Aos simples. Esta é uma grande característica da palavra de Deus — por mais incompreensível que seja para a mente carnal, ela se adapta a todo grau de inteligência iluminada. — W. Wilson.
Os simples. A palavra é usada às vezes em bom sentido, e às vezes em mau sentido. É usada em bom sentido, primeiro, para os sinceros e de coração aberto: "O Senhor guarda os simples: fui abatido, e ele me ajudou": Salmos 116:6. "Porque a nossa glória é esta, o testemunho da nossa consciência, de que em simplicidade e sinceridade piedosa, não com sabedoria carnal, mas pela graça de Deus, tivemos nosso procedimento no mundo, e mais abundantemente para convosco": 2 Coríntios 1:12. Segundo, para os que não opõem a presunção da sabedoria carnal à luz pura da palavra: assim todos devemos ser simples, ou tolos, para que sejamos sábios: "Se alguém dentre vós parece ser sábio neste mundo, faça-se tolo, para ser sábio" (1 Coríntios 3:18); isto é, em simplicidade de coração, submetendo-se à condução de Deus, e crendo no que ele revelou. — Thomas Manton.
Versículo 131Salmo 119:131
Abri a minha boca, e arquejei. Por este modo de falar, Davi expressa, como pensa Basílio, animi propensionem, a inclinação de sua alma para a palavra de Deus. Pois esta boca aberta, pensa Ambrósio, é os interioris hominis, a boca do homem interior, que na verdade é o seu coração; e a fala denota vehementem animi intensionem, uma veemente intensidade do espírito, diz Eutímio. Contudo, não será demais considerar aqui como a mente do piedoso, intensamente comovida, move também o corpo. A expressão pode ser tirada dos viajantes, que, desejosos de alcançar seus fins propostos, forçam sua força para isso; e, achando fraqueza no corpo para atender à vontade, arquejam e abrem a boca, buscando refresco no ar para renovar suas forças; ou, como pensa Vatábulo, de homens excessivamente famintos e sedentos, que abrem a boca como se quisessem sorver todo o ar, e então arquejam e suspiram dentro de si, quando não encontram pleno refrigério nisso. Assim ele o expressa: "Meu coração arde com tão ardente saudade dos teus mandamentos, que sou forçado, vez após vez, a arquejar por causa da minha respiração penosa."
Seja como for, isso nos deixa ver como o ouvir, ler ou meditar a palavra de Deus despertou em Davi uma afeição mui ardente de ter a luz, a alegria, a graça e o consolo dela comunicados ao seu próprio coração. Pois, nos piedosos, o conhecimento do bem aumenta os desejos; e não se pode expressar quão veementemente suas almas anseiam sentir aquele poder e consolo que sabem estar na palavra; e quão profundamente se afligem e se perturbam quando não o encontram.
E felizes seríamos nós se pudéssemos encontrar o Senhor com semelhante afeição; para que, quando ele abre a sua boca, também nós pudéssemos abrir o nosso coração para ouvir, como aqui faz Davi. Christus aperit os, ut daret aliis spiritum; David aperuit ut acciperet; oferecendo seu coração para receber o espírito da graça, quando Deus abre sua boca em sua palavra para dá-lo. Pois esta é a sua promessa para todos nós — "Abre bem a tua boca, e eu a encherei." Convertamos isso em oração, para que o Senhor, que abriu o coração de Lídia, abra o nosso coração para receber a graça quando ele se oferece, por sua palavra, para dá-la. — William Cowper.
Abri a minha boca, e arquejei, etc. Há duas maneiras de entender estas palavras. Podem ser consideradas como expressando o mui ardente anseio do Salmista por maior familiaridade com Deus nas coisas espirituais; e então, ao dizer, "abri a minha boca, e arquejei", ele apenas afirma a veemência do seu desejo. Ou pode-se separar as cláusulas: pode-se considerar a primeira como a expressão de um homem totalmente insatisfeito com a terra e as coisas terrenas, e a segunda como a expressão de uma consciência de que Deus, e só Deus, poderia atender aos anseios de sua alma. "Abri a minha boca, e arquejei." Sem fôlego, de perseguir sombras e caçar bugigangas, sento-me exausto, tão longe quanto sempre estive da felicidade que busquei ardentemente, mas sem fruto. Para onde, então, hei de me voltar? Os teus mandamentos, ó Senhor, e só eles, podem satisfazer os desejos de um ser imortal como eu; e a eles, portanto, doravante se voltarão os meus anseios. — Henry Melvill.
Abri a minha boca, e arquejei. Uma metáfora tirada de homens ressecados e sufocados pelo calor, ou daqueles que se esgotaram correndo atrás da coisa que buscavam alcançar. A primeira metáfora expressa a veemência do seu amor; a outra, a intensidade da sua busca: era como um homem arquejando por ar, e sorvendo a brisa fresca. — Thomas Manton.
Desejei ardentemente os teus mandamentos. Este é um desejo que Deus há de satisfazer. "Abre bem a tua boca, e eu a encherei": Salmos 81:10. — Thomas Manton.
Versículo 132Salmo 119:132
Olha para mim, e tem misericórdia de mim, etc. "Olha para mim", despojado por ladrões das minhas virtudes, e depois ferido de pecados, e "tem misericórdia de mim", mostrando compaixão de mim, cuidando de mim na estalagem da Igreja universal, para que não caia de novo entre ladrões, nem seja ferido pelos lobos que uivam ao redor deste redil, mas não ousam entrar. "Olha para mim", que já não sou digno de ser chamado teu filho, e "tem misericórdia de mim", não como me trataria o ciumento irmão mais velho, mas deixa-me unir-me ao alegre canto e banquete dos que amam o teu nome. Olha para mim, o publicano, que estou de longe no teu templo, a Igreja, e tem misericórdia de mim, não segundo o juízo do fariseu, mas "como usas fazer aos que amam o teu nome", que é o Deus gracioso. Olha para mim como para Pedro chorando, e tem misericórdia de mim como tiveste para com ele, que tanto amou o teu nome que, por sua tríplice confissão de amor, lavou sua tríplice negação, dizendo: "Senhor, tu sabes que eu te amo." "Olha para mim", como para a mulher pecadora, penitente e chorosa, e tem misericórdia de mim, não segundo o juízo do fariseu que murmurou contra ela, nem como Judas que se indignou contra ela, mas perdoando-me como a ela perdoaste, "porque ela muito amou", dizendo-me também: "A tua fé te salvou, vai em paz." — Neale e Littledale.
Olha para mim. Senhor! Como nossos olhares para ti são muitas vezes tão leves, tão frios, tão distantes, que nenhuma impressão se faz em nossos corações, condesce tu a olhar continuamente para nós com misericórdia e poder. Concede-nos tal olhar, que possa trazer-nos a nós mesmos e tocar-nos com ternura e contrição na lembrança daquele pecado, incredulidade e desobediência que traspassaram as mãos, os pés, o coração de nosso amadíssimo Senhor e Salvador. Compare Lucas 22:61. — Charles Bridges.
Como usas fazer, etc. Davi não perderia nenhum privilégio que Deus tenha, por promessa, estabelecido para seus filhos. Faze comigo, diz ele, "como usas fazer." Isso não é mais do que o costume da família, o que prometes fazer por todos os que te amam; e não me deixes andar pior vestido do que o resto dos meus irmãos. — William Gurnall.
Como usas fazer aos que, etc. Devemos nos contentar se Deus nos trata como sempre tratou o seu povo. Ainda que ele não pudesse se satisfazer com nada menos que a porção deles, Davi não pede nada melhor; não implora nenhuma dispensação singular a seu favor, nenhum desvio dos métodos costumeiros de sua graça... É sempre boa prova de que suas convicções e desejos vêm da operação do Espírito quando você está disposto a se conformar à ordem de Deus. Que ordem é esta? É dispensar suas bênçãos de forma conectada. É nunca justificar sem santificar; nunca dar um título ao céu sem a aptidão para ele.
Ora, o homem que é divinamente trabalhado não esperará nem desejará um sem o outro. Por isso não esperará a bênção de Deus sem obediência; porque é sempre o modo de Deus ligar os consolos do Espírito Santo ao temor do Senhor; e se seus filhos transgridem suas leis, visitar suas transgressões com uma vara. Por isso não esperará nem desejará sua bênção sem esforço; pois sempre foi o modo de Deus coroar apenas aqueles que correm a corrida que lhes é proposta, e lutam o bom combate da fé. Por isso não esperará nem desejará a bênção divina sem oração; pois sempre foi o modo de Deus fazer seu povo sentir suas necessidades, e responder à oração. Por isso não esperará nem desejará alcançar o céu sem dificuldades; pois seu povo sempre teve de negar-se a si mesmo, e tomar sua cruz. Se não foram escolhidos na fornalha da aflição, foram purificados. Deus teve um Filho sem pecado, mas nunca teve um sem tristeza: "ele açoita todo filho que recebe."
"Sim", diz o suplicante diante de nós, "assegura-me a porção eterna deles, e estou disposto a beber do cálice que beberam, e a ser batizado com o batismo com que foram batizados. Não quero atalho novo para a glória. Contento-me em seguir a estrada real do Rei. Tem misericórdia de mim, como usas fazer aos que amam o teu nome. Não peço mais." — William Jay, 1769-1853.
Versículo 133Salmo 119:133
Ordena os meus passos na tua palavra. Assim como antes buscou misericórdia, agora busca graça. Há muitos que buscam misericórdia para perdoar o pecado, mas não buscam graça para libertá-los do poder do pecado: isso é abusar da misericórdia de Deus, e transformar sua graça em libertinagem. Aquele que ora por misericórdia apenas para perdoar a culpa do pecado não busca não ofender a Deus por meio do pecado; busca apenas poder pecar sem se prejudicar. Mas aquele que também suplica libertação do poder dominador e do engano do pecado não busca apenas um benefício para si mesmo, mas também graça para agradar e servir ao Senhor seu Deus. O primeiro é apenas amante de si mesmo; o segundo é amante de Deus, mais do que de si mesmo. E, na verdade, nunca soube o que era buscar misericórdia pelo pecado passado aquele que, junto com ela, não buscou também ardentemente graça para guardá-lo do pecado no tempo futuro. Estes benefícios não podem ser divididos: quem não tem o segundo, por mais que se lisonjeie, pode ter certeza de que não obteve o primeiro. — William Cowper.
Ordena os meus passos na tua palavra. Está escrito sobre Boleslau, um dos reis da Polônia, que sempre carregava consigo o retrato do seu pai, e quando ia realizar alguma grande obra ou empreender algum projeto extraordinário, olhava para o retrato e orava para não fazer nada indigno do nome de tal pai. Assim são as Escrituras: o retrato da vontade de Deus, ali desenhado com todo o realismo. Antes que um homem entre ou se comprometa em qualquer negócio, olhe ali, e leia ali o que deve ser feito; o que deve ser desfeito; e o que Deus ordena, que seja feito; o que ele proíbe, que seja desfeito; que a balança do santuário pese tudo, os oráculos de Deus decidam tudo, a regra da palavra de Deus seja o esquadro de tudo, e sua glória o fim último de todas as intenções, seja lá quais forem. — De Spencer's "Things New and Old."
Ordena os meus passos. Hachên, torna-os firmes; que eu não ande com passo vacilante ou instável. — Adam Clarke.
Ordena os meus passos, etc. O povo de Deus não quer apenas ter o caminho certo, mas os passos ordenados; não apenas que seu rumo geral não esteja errado (como os que andam no caminho da perdição eterna), mas que nenhum passo se desvie; não querem errar o caminho para o céu, nem no todo, nem em parte. — Thomas Manton.
Meus passos. Falando dos degraus do Templo, Bunyan diz: "Estes degraus, fossem de cedro, ouro ou pedra, o que lhes acrescentava adorno era o assombro de uma Rainha. E de qualquer material que fossem feitos, com certeza eram sombra daqueles degraus que devemos tomar, na casa de Deus. Degraus de Deus, Salmos 75:13 [sic]. Degraus ordenados por ele, Salmos 37:23. Degraus ordenados em sua palavra, Salmos 119:133. Degraus de fé, Romanos 4:12. Degraus do Espírito, 2 Coríntios 7:18 [sic]. Degraus de verdade, 3 João 1:4. Degraus lavados com manteiga, Jó 29:6. Degraus dados antes, ou na presença de Deus. Degraus limitados e demarcados por uma regra divina. Estes sim são degraus." — John Bunyan, em "Solomon's Temple Spiritualized."
Não me domine iniquidade alguma, etc. A verdadeira obediência a Deus é incompatível com o domínio de qualquer paixão ou afeição corrupta. Digo que, embora um homem, por algum toque leve e insuficiente de religião no coração, possa andar reto por algum tempo, e fazer muitas coisas de bom grado, ainda assim aquela corrupção que se tolera, e sob cujo poder o homem jaz, ao final o afastará de Deus; e por isso nenhum pecado deve ter domínio sobre nós. Quando reina o pecado, ou tem domínio sobre nós? Quando não nos esforçamos para mortificá-lo, e cortar as provisões que possam alimentar essa paixão. A observação de Crisóstomo é que o apóstolo não diz, que ele não tiranize sobre vós, mas, que ele não reine sobre vós; isto é, quando permitis que ele tenha um reinado tranquilo em vossos corações. — Thomas Manton.
Não me domine iniquidade alguma. Prefiro ser prisioneiro de homem toda a minha vida do que ser escravo do pecado por um só dia. Ele não diz: Que este ou aquele homem não reine sobre mim; mas "que o pecado não tenha domínio sobre mim." Bem dito! Há esperança na condição de tal homem, enquanto assim for. — Michael Bruce, 1666.
Versículo 134Salmo 119:134
Livra-me da opressão do homem. "Homem" por distinção. Há a opressão e a tirania do Diabo e do pecado; mas o Salmista não se refere a isso agora: Heminum non daemonum, diz Hugo. 2. "Homem" por agravamento. Homo homini lupus: nenhuma criatura é tão voraz e destrutiva para com as de sua espécie quanto o homem. É vergonhoso que um homem oprima outro. As feras geralmente não devoram as de sua própria espécie; mas, geralmente, os inimigos de um homem são os da sua própria casa: Mateus 10:36. Quanto mais próximos estamos em laços de parentesco, maior o ódio. 3. "Homem" por diminuição. E para diminuir o temor deste mal, dá-se-lhes o termo Adão, para mostrar sua fraqueza em comparação com Deus. Tu és Deus; mas os que estão tão prontos e dispostos a nos oprimir e ferir são apenas homens; tu podes facilmente dominar seu poder e quebrar o jugo. Considero esta a principal consideração, por causa de outras passagens. "Quem és tu, para teres medo do homem, que há de morrer, e do filho do homem, que será feito como erva; e te esqueces do Senhor teu criador, que estendeu os céus e lançou os fundamentos da terra; e temes continuamente, todo o dia, por causa do furor do opressor, como se estivesse pronto para destruir? E onde está o furor do opressor?" Isaías 41:12-13. — Thomas Manton.
Da opressão do homem [a fonte trazia o texto Prayer of Manasseh 1:1 [sic] logo após "opressão de", corrupção evidente de OCR/autolinker que confundiu a palavra "homem" com o livro apócrifo "Oração de Manassés"; corrigido pelo contexto]. Alguns traduzem: "da opressão de Adão"; como observa Jarchi; e Arama a interpreta como referindo-se ao pecado de Adão, e como uma oração para ser dele livrado ou redimido; assim como o povo do Senhor o é pelo sangue de Cristo. — John Gill.
Versículo 135Salmo 119:135
Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo. O rosto de Deus resplandece sobre nós quando, em sua providência, somos guiados e sustentados; também quando somos feitos participantes dos bens de sua providência, e quando somos colocados numa posição em que podemos fazer muito bem. Muito mais o rosto de Deus resplandece sobre nós quando somos favorecidos com sinais de seu graciso favor; pois então crescemos sob a consciência de um Deus amoroso, com ricos supridos de sua graça e Espírito. — John Stephen.
Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo. Muitas vezes, as ações injustas dos homens, de outros, e as nossas próprias, como uma nuvem de fumaça que se levanta da terra e obscurece o rosto do sol, escondem de nós por um tempo a luz do semblante de Deus: mas ele logo a dissipa toda, e olha para nós com amorosa misericórdia como antes, iluminando para nós o caminho da obediência, e clareando nosso rumo até ele mesmo. — "Plain Commentary", 1859.
Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo. O clamor incessante do crente é: Deixa-me ver "o rosto do Rei." Esta é uma bênção que vale a pena pedir em oração. É o desejo do seu coração, seu privilégio presente, e o que é infinitamente melhor, sua certa e eterna perspectiva — "Verão o seu rosto." Apocalipse 22:4. — Charles Bridges.
Faze resplandecer o teu rosto... e ensina-me. Bendito o homem a quem a Verdade eterna ensina, não por figuras obscuras e sons transitórios, mas por comunicação direta e plena. As percepções de nossos sentidos são estreitas e embotadas, e nossa razão, sobre essas percepções, frequentemente nos engana. Aquele a quem a Palavra eterna condesce a ensinar é logo desvencilhado do labirinto das opiniões humanas. Pois "de uma só palavra são todas as coisas"; e todas as coisas, sem voz ou linguagem, falam somente dele: ele é aquele princípio divino que fala em nossos corações, e sem o qual não pode haver apreensão justa nem retidão de juízo.
Ó Deus, que és a verdade, faze-me um contigo em vida eterna! Estou frequentemente cansado de ler, e cansado de ouvir; só em ti está a soma do meu desejo! Que se calem todos os mestres, que toda a criação emudeça diante de ti, e fala tu somente à minha alma!
Teus ministros podem pronunciar as palavras, mas não podem transmitir o espírito; podem entreter a imaginação com os encantos da eloquência, mas se tu te calas, eles não inflamam o coração. Eles administram a letra, mas tu abres o sentido; eles proferem o mistério, mas tu revelas seu significado; eles apontam o caminho da vida, mas tu concedes força para andar nele; eles regam, mas tu dás o crescimento. Portanto, fala tu, ó Senhor meu Deus, Verdade Eterna! Fala à minha alma! Para que, aquecido por fora, mas não vivificado por dentro, eu não morra, e seja achado infrutífero. "Fala, Senhor, pois o teu servo ouve." "Só tu tens as palavras da vida eterna." — Tomás de Kempis, 1380-1471.
Faze resplandecer o teu rosto, ensina-me, etc. Deus tem muitos modos de ensinar; ensina pelo livro, ensina pelos seus dedos, ensina pela sua vara; mas seu ensino mais confortante e eficaz é pela luz de seus olhos: "Envia a tua luz e a tua verdade; que elas me guiem: que me tragam ao teu santo monte": Salmos 43:3 [sic — a fonte trazia "Salmos 42:3", referência que não corresponde ao versículo citado]. — Richard Alleine (1611-1681), em "Heaven Opened."
Faze resplandecer o teu rosto... ensina-me os teus estatutos. Os filhos de Deus, quando pedem consolo, pedem também graça para servi-lo aceitavelmente. Pois por ensinar os estatutos de Deus não se entende apenas dar conhecimento especulativo da vontade de Deus; pois assim Davi aqui: "Faze resplandecer o teu rosto"; e "Ensina-me os teus estatutos." — Thomas Manton.
Versículo 136Salmo 119:136
Rios de águas correm dos meus olhos. A maioria dos orientais derrama lágrimas com muito mais fartura do que os povos da Europa. O salmista disse que rios de águas corriam de seus olhos; e, embora a linguagem seja belamente figurativa, não duvido de que também fosse literalmente verdadeira. Eu mesmo já vi árabes derramarem lágrimas como riachos. — John Gadsby.
Rios de águas correm dos meus olhos, etc. Ou porque meus olhos não guardam a tua lei, dizem alguns. O olho é a entrada e a saída de muito pecado, e por isso deveria ser um olho choroso. Ou antes, eles, isto é, os que estão à minha volta: Salmos 119:139. Note-se: os pecados dos pecadores são as tristezas dos santos. Devemos lamentar aquilo que não podemos consertar. — Matthew Henry.
Rios de águas correm dos meus olhos, etc. As aflições de Davi não lhe arrancaram tantas lágrimas quanto os pecados de outros; não seu exílio pelas mãos do próprio filho, mas a violação da lei de Deus pelos ímpios. Nada ia tanto ao seu coração quanto a desonra de Deus, cuja glória, resplandecendo em sua palavra e ordenanças, é mais cara aos piedosos do que a própria vida. Elias desejou morrer quando viu Deus tão desonrado por Acabe e Jezabel. O olho serve para duas coisas, ver e chorar: se vemos Deus desonrado, imediatamente nossos olhos deveriam encher-se de lágrimas. — William Greenhill, 1591-1677.
Rios de águas correm dos meus olhos, etc. Os homens piedosos são tomados de profunda tristeza pelos pecados dos ímpios.
Consideremos a natureza deste sentimento. 1. Não é uma apatia estoica, nem um descaso fingido; muito menos uma participação deleitosa nas práticas pecaminosas. 2. Não é uma ostentação orgulhosa da própria bondade, marcando o pecado dos outros como o fariseu fez no evangelho. 3. Não é o escárnio e a zombaria da loucura dos homens, como o "filósofo que ri": chega mais perto da disposição daquele outro que chorava sempre por isso. 4. Não é uma ira amarga e biliosa, que rompe em insultos e censuras, nem uma acusação insultuosa. 5. Nem é um desejo vingativo de castigo, que se manifesta em maldições e imprecações, o que é a disposição precipitada de muitos, mas especialmente das pessoas vulgares.
A moção dos discípulos a Cristo era bem diferente disso, e ainda assim ele lhes diz: "Não sabeis de que espírito sois." Pensavam que eram do espírito de Elias, mas ele lhes disse que estavam enganados, e não sabiam de que espírito eram naquela moção. Assim o zelo impulsivo muitas vezes se engana e se lisonjeia. Aqui não encontramos um desejo de que fogo desça do céu sobre os que quebram a lei, mas uma tristeza tal que antes traria água para apagá-lo, se estivesse caindo sobre eles. "Rios de águas correm dos meus olhos." — Robert Leighton.
Rios de águas correm dos meus olhos, etc. O Senhor exige este pranto amargo pelos pecados de outros homens para manter nossos corações mais ternos e retos; é um ato que Deus usa para nos tornar mais cuidadosos com nossas próprias almas, ao nos perturbarmos com os pecados de outros, com o pecado em uma terceira pessoa. Isso nos mantém a grande distância da tentação. É como apagar o fogo na casa do vizinho: antes que chegue perto de ti, corres com o teu balde. Não há maneira de nos manter livres do contágio como o pranto. A alma nunca concordará em fazer aquilo que se afligiu ao ver outro fazer. E, assim como nos mantém retos, também nos mantém humildes, temerosos do juízo Divino, cuidadosos para que nós mesmos não ofendamos e atraiamos a ira de Deus. Aquele que estremece ao ver uma serpente rastejando sobre outro há de temer muito mais quando ela se aproximar dele mesmo. Em nossos próprios pecados temos a vantagem da consciência açoitando a alma com remorso e vergonha; ao lamentar os pecados de outros, temos apenas as razões do dever e da obediência. Os que lutam fora, por amor ao valor e aos feitos, certamente lutarão em casa por amor à própria segurança. — Thomas Manton.
Rios de águas correm dos meus olhos, etc. Assim, uniformemente, se representa o caráter do povo de Deus — não meramente como os que estão livres, mas como "os que suspiram e clamam por" todas as abominações que se cometem no meio da terra": Ezequiel 9:4. E quem não vê que esfera ampliada ainda se apresenta por todos os lados para o exercício irrestrito da compaixão cristã? O espetáculo horrendo de um mundo apostatado de Deus, de multidões que brincam com a destruição eterna — como se o Deus do céu fosse "um homem, para que minta" —, certamente há de forçar "rios de águas" dos corações dos que se importam com a sua honra. Que massa de pecado sobe como uma nuvem diante do Senhor, de um único coração! Acrescente-se a soma de uma aldeia — uma cidade — um país — um mundo! Todo dia — toda hora — todo momento. Bem poderiam "as águas subir a uma maré transbordante, prestes a romper suas barreiras." — Charles Bridges.
Rios de águas correm dos meus olhos, porque não guardam a lei. Os vícios dos religiosos são a vergonha da religião: a visão disso fez os mais valentes campeões de Cristo se derreterem em lágrimas. Davi foi um daqueles grandes homens do mundo, sem igual em seu tempo, e ainda assim chora. Não rasgou ele em pedaços um urso como a um cabrito? Não resgatou um cordeiro à custa da morte de um leão? Não derrotou um poderoso gigante, que desafiara todo o exército de Deus? Não abateu e derrubou, como um turbilhão, seus inimigos diante de si; e agora, cai a chorar como uma criança ou uma mulher? Sim, tinha ouvido o nome de Deus blasfemado, visto seus santos ritos profanados, seus estatutos vilipendiados, e violência oferecida à pura castidade daquela virgem, a religião; isto dissolveu em lágrimas aquele coração valente: "Rios de águas correm dos meus olhos." — Thomas Adams.
Minha alma frequentemente se gastava em tais suspiros por conformidade à lei de Deus como se vê ao longo de todo o Salmo cento e dezenove: "Ah, se os meus caminhos fossem dirigidos a guardar os teus... Meu coração se quebranta pela saudade que tem dos teus mandamentos às vezes; inclina o meu coração para que eu os guarde sempre até o fim", e coisas semelhantes. Isso aparecia ainda mais num desprazer fixo por toda inconformidade à lei, seja em mim mesmo, seja em outros. Ora, embora eu sempre fosse afetado pelas minhas próprias transgressões ou pelas de outros, este era o meu fardo: eu sempre desejava que rios de lágrimas corressem dos meus olhos, porque eu, ou os transgressores, não guardávamos a lei de Deus. — Thomas Halyburton, 1674-1712.
Se não nos entristecemos por outros, seu pecado pode se tornar nosso. Ezequiel 4:8; 1 Coríntios 5:2. — William Nicholson.
São Jerônimo, a quem seguem a maioria dos medievais, explica Tsadê como significando justiça ou retidão, que, contudo, é tsedek [sic — a fonte trazia uma transliteração corrompida por OCR ("mru, tsedek"); corrigido pelo termo hebraico ao lado]. Mas ele tem razão até certo ponto, pois há um jogo, nesta estrofe, com o som da letra inicial, como no caso de Guímel; pois a primeiríssima palavra, "justo", é tsaddik [sic — a fonte trazia "mru, tsaddik", mesma corrupção de OCR; corrigido pela transliteração evidente], e todo o alcance da estrofe é o firme domínio que mesmo a alma jovem e inexperiente pode ter da justiça em meio às tribulações do mundo. — Neale e Littledale.
Todos estes versos começam com Tsadê, a décima oitava letra do alfabeto hebraico; Salmos 119:137; Salmos 119:142; Salmos 119:144, com alguma forma da palavra que traduzimos por justo, ou justiça; cada um dos demais com uma palavra inteiramente diferente. — William S. Plumer.
Versículo 137Salmo 119:137
Justo és tu, ó SENHOR, etc. Aqui Davi, gravemente atribulado pela dor com a maldade de seus inimigos, sim, grandemente tentado à impaciência e à desconfiança ao olhar para o estado próspero deles, apesar de tão grosseira impiedade, mostra-nos agora um fundamento tríplice de consolo, que nesta perigosa tentação o sustentou. O primeiro é uma consideração daquilo que Deus é em si mesmo: a saber, justo e reto: o segundo, uma consideração da equidade de sua palavra; o terceiro, uma visão de sua verdade constante, declarada em seu operar e agir conforme sua palavra. Quando nos vemos tentados à desconfiança ao olhar para a prosperidade dos ímpios, olhemos para cima, para Deus, e consideremos sua natureza, sua palavra, suas obras, e encontraremos consolo.
Justo és tu. Este é o primeiro fundamento de consolo — uma meditação sobre a justiça da natureza de Deus; ele não muda com os tempos, não muda com as pessoas, é, sempre e para todos, um só e mesmo Deus justo e santo. A justiça lhe é essencial, é ele mesmo; e ele não pode mais defraudar os piedosos dos consolos que lhes prometeu, nem deixar os ímpios sem castigo em seus pecados, do que pode negar-se a si mesmo ser Deus, o que é impossível. — William Cowper.
Justo és tu, ó SENHOR, etc. Essencialmente, originalmente, e por si mesmo; naturalmente, imutavelmente e universalmente, em todos os seus caminhos e obras de natureza e de graça; em seus pensamentos, propósitos, conselhos e decretos; em todas as dispensações de sua providência; na redenção, na justificação do pecador, no perdão do pecado, e no dom da vida eterna por meio de Cristo. "E retos são os teus juízos." Estão de acordo com as regras da justiça e da equidade. Ele se refere aos preceitos da palavra, às doutrinas do evangelho, bem como aos juízos de Deus infligidos aos homens ímpios, e a todos os tratos providenciais de Deus com o seu povo, e também ao juízo final. — John Gill.
Justo és tu, ó SENHOR, etc. Há aqui muito para manter os filhos de Deus em temor reverente. O Senhor é um Deus justo: ainda que tenham achado misericórdia e se refugiado em sua graça, o Senhor é imparcial em sua justiça. Deus, que não poupou os anjos quando pecaram, nem a seu próprio Filho quando foi pecador por imputação, não vos poupará, ainda que sejais os amados de sua alma: Provérbios 11:31. Os caminhos pecaminosos dos filhos de Deus causam amargura suficiente; eles nunca se aventuram no pecado sem grande perda. Se Paulo cede um pouco ao orgulho, Deus o humilhará. Se alguém cede ao pecado, sua peregrinação se tornará desconfortável. Eli cai em negligência e indulgência; então a arca de Deus é tomada, seus dois filhos são mortos em batalha, sua nora morre, ele mesmo quebra o pescoço. Ah! As tragédias maravilhosas que o pecado opera nas casas dos filhos de Deus! Davi, quando se meteu com o fruto proibido, foi expulso de seu palácio, suas concubinas foram violadas, seu próprio filho foi morto; muitas calamidades caíram sobre ele. Por isso os filhos de Deus têm razão para temer; pois o Senhor é um Deus justo, e eles o descobrirão. Aqui na terra ele reservou para si a liberdade de visitar sua iniquidade com varas, e sua transgressão com açoites. Devo insistir para que imiteis a justiça de Deus: "Se sabeis que ele é justo, sabeis que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele": 1 João 2:29. Tendes um Deus justo; e esta parte do seu caráter deveis copiar. — Thomas Manton.
O grande cuidado de Davi, quando estava sob a mão aflitiva de Deus, era isentar o Senhor de qualquer injustiça. Ah! Senhor, diz ele, não há a menor aparência, mancha, mácula ou mistura de injustiça, em todas as aflições que trouxeste sobre mim. Desejo tomar vergonha para mim mesmo, e selar, que o Senhor é justo, e que não há injustiça, nem crueldade, nem extremismo algum, em tudo o que o Senhor trouxe sobre mim. Ele subscreve doce e prontamente à justiça de Deus naquelas aflições agudas e dolorosas com que Deus o exercitou. "Justo és tu, ó SENHOR, e retos são os teus juízos." Os juízos de Deus são sempre justos; ele nunca aflige senão em fidelidade. Sua vontade é a regra da justiça; e por isso uma alma cheia de graça não ousa contestar nem questionar seus procedimentos. — Thomas Brooks.
O versículo cento e trinta e sete, como o vigésimo quinto, está associado às tristezas de um penitente imperial (Gibbon, Decline and Fall, cap. 46). Quando o imperador Maurício, deposto e cativo, foi levado para a execução pelo usurpador Focas, seus cinco filhos foram assassinados um a um, previamente, diante dele; e a cada golpe fatal ele pacientemente exclamava: "Justo és tu, ó Senhor, e retos são os teus juízos." — Neale e Littledale.
Versículo 138Salmo 119:138
Os teus testemunhos, que ordenaste, são justos e mui fiéis. A força desta expressão é bem mais fraca do que a do original, que literalmente pode ser traduzido: "Ordenaste justiça, teus testemunhos, e verdade sobremaneira." Assim traz a Septuaginta. Justiça e verdade eram seus testemunhos; os testemunhos eram uma só coisa com sua justiça e sua verdade. A tradução em português dá a qualidade dos testemunhos; o hebraico dá aquilo que foi ordenado; como se pudéssemos dizer, Ordenaste que a justiça fosse teus testemunhos, e a verdade sobremaneira. — John Stephen.
Os teus testemunhos. A palavra de Deus é chamada de seu testemunho, tanto porque testifica sua vontade, que ele quer que façamos; como também porque testifica verdadeiramente aos homens o que lhes acontecerá, seja bem, seja mal. Os homens, por natureza, são curiosos para conhecer seu fim, mais do que cuidadosos em corrigir sua vida; e por essa causa buscam respostas onde nunca as encontram boas: mas, se quiserem saber, que vão à palavra e ao testemunho; não precisam buscar outro oráculo. Se a palavra de Deus lhes testifica coisas boas, têm motivo para alegrar-se; se, ao contrário, lhes testifica o mal, apressem-se a evitá-lo, ou certamente os alcançará. — William Cowper.
Justos e mui fiéis. Literalmente, "fidelidade sobremaneira." Por mais duros e severos que possam parecer, são todos, integralmente, para o mais alto bem do homem. — William Kay.
Versículo 139Salmo 119:139
O meu zelo me consumiu. "Zelo" é um alto grau de amor; e quando o objeto desse amor é maltratado, ele se expressa numa mistura de dor e indignação, suficiente para desgastar e "consumir" o coração. Assim será quando os homens conceberem retamente aquela desonra que se faz continuamente a Deus por criaturas que ele fez e redimiu. Mas jamais este verso poderia ter sido pronunciado, com tanta plenitude de verdade e propriedade, por ninguém, senão pelo Filho de Deus, que tinha tal senso da glória de seu Pai, e do pecado do homem, como ninguém mais jamais teve. E, de fato, quando seu zelo se manifestou ao purificar o templo, São João nos diz que "seus discípulos se lembraram de que estava escrito: O zelo da tua casa me consumiu." O lugar onde está assim escrito é Salmos 69:9, e a passagem é exatamente paralela a esta diante de nós. — Horne.
O meu zelo me consumiu, etc. Zelo é o calor ou a tensão dos afetos; é um ardor santo, pelo qual nosso amor é extraído ao máximo por Deus e por sua glória. Ora, nosso amor a Deus e a seus caminhos, e nosso ódio à maldade, deveriam crescer justamente por causa dos homens ímpios. Cores nubladas e escuras num quadro fazem as que são claras e vivas parecerem mais belas; o pecado alheio deveria tornar Deus e a piedade mais amáveis aos teus olhos. Teu coração deveria pegar fogo ao bater contra tais pederneiras frias. Davi, por uma santa antiperístase, se acendia a partir do frio: "O meu zelo me consumiu, porque os meus inimigos se esqueceram das tuas palavras." Sopros frios fazem o fogo chamejar mais alto, e queimar mais quente. — George Swinnock.
O meu zelo me consumiu. O fogo do zelo, como o fogo que consumiu o sacrifício de Salomão, desce do céu; e os zelosos não são como salamandras que vivem sempre no fogo do ódio e da contenda; mas serafins, ardendo com o fogo espiritual do amor divino. E ali o verdadeiro zelo inflama os desejos e afetos da alma. Se é verdadeiro zelo, então nem a duração do tempo, nem a multidão de desânimos, nem a falsidade dos que abandonam a causa, nem a força das oposições cansarão o espírito do homem. O zelo torna os homens resolutos; as dificuldades são apenas amoladores de sua fortaleza, temperando o espírito dos homens com uma resolução destemida. Este foi o zelo que ardeu nos discípulos (Lucas 24:1-53), que consumiu Davi aqui, e que consumiu a própria essência de Cristo: João 2:17. — Abraham Wright.
O meu zelo me consumiu. Há diversas espécies de zelo: há um zelo do mundo, há um zelo da carne, há um zelo da religião, há um zelo da heresia, e há um zelo do Deus verdadeiro. Primeiro, vemos que o zelo do mundo faz os homens labutarem dia e noite para obter uma coisa passageira. O zelo da carne atormenta a mente de manhã à noite por um prazer momentâneo. O zelo da heresia faz viajar e percorrer mar e terra, para sustentar e aumentar uma opinião. Assim vemos que todo homem é consumido por algum tipo de zelo. O bêbado é consumido pela embriaguez, o adúltero é gasto por sua devassidão, o hereje é comido pelas heresias. Ah, como isto deveria envergonhar aqueles que são tão pouco comidos, gastos e consumidos pelo zelo da palavra! E tanto mais, porque o zelo piedoso nos deixa uma vantagem e uma recompensa que os zelosos mundanos e carnais não têm. Pois, quando gastaram toda a força de seus corpos e as potências de sua mente, não lhes resta ganho nem consolo, mas o tormento da consciência; e quando estão exteriormente gastos, interiormente nunca estão melhor: enquanto os piedosos, ocupados com uma boa causa, e comidos pelo zelo da glória de Deus, têm este privilégio e proveito notável: ainda que o homem exterior pereça e decaia, o interior é continuamente refrescado e alimentado para a vida eterna. Ah, que benefício ser consumido pelo amor e pelo zelo de uma boa causa! — Richard Greenham.
Esqueceram-se das tuas palavras. Uma frase própria para descrever, no seio da igreja visível, aqueles que não negam nem rejeitam totalmente a palavra e a regra da Escritura, mas ainda assim vivem como se a tivessem: não a observam; como se Deus nunca tivesse dito tal coisa, nunca lhes tivesse dado tal regra. Os que rejeitam e condenam o que a palavra impõe certamente não se lembram de praticá-lo. — Thomas Manton.
Versículo 140Salmo 119:140
A tua palavra é muito pura. No original, "provada, purificada, como o ouro na fornalha", absolutamente perfeita, sem a escória da vaidade e da falibilidade que percorre os escritos humanos. Quanto mais provamos as promessas, mais firmes as achamos. O ouro puro é tão estável que Boerhaave nos informa de uma onça dele colocada na boca de um forno de vidro por dois meses, sem perder um único grão. — George Horne.
A tua palavra é muito pura; por isso, etc. A palavra de Deus não é apenas "pura", livre de toda mistura vil, mas também é purificadora; limpa do pecado e da culpa todo coração com que entra em contato. "Agora vós estais limpos", disse Jesus Cristo a seus discípulos, "pela palavra que vos tenho falado": João 15:3. É esta sua qualidade pura, combinada com sua tendência a purificar toda natureza que cede à sua santa influência, que a torna cara a todo filho de Deus. É aqui que ele encontra aquelas visões do caráter divino, aquelas promessas, aqueles preceitos, aquelas representações da deformidade do pecado, da beleza da santidade, que o conduzem, acima de tudo, a buscar conformidade com a imagem divina. Um filho de Deus, em seus melhores momentos, não deseja que a palavra de Deus seja rebaixada ao nível de seu próprio caráter imperfeito, mas antes deseja que seu caráter seja gradualmente elevado à conformidade com aquela bendita palavra. Porque é inteiramente pura, e porque tende a transmitir, àqueles que a tomam como estudo constante, uma medida de sua própria pureza, o filho de Deus a ama, e se deleita em meditar nela dia e noite. — John Morison.
A tua palavra é muito pura. Antes de conhecer a palavra de Deus em espírito e em verdade, eu a preferia a todos os outros livros por sua grande antiguidade, suas narrativas interessantes, sua biografia imparcial, sua moral pura, sua poesia sublime, em suma, por sua bela e maravilhosa variedade; mas desde que entrei em seu espírito, como o Salmista, amo-a acima de todas as coisas por sua pureza; e desejo que tudo o mais que eu ler tenda a aumentar meu conhecimento da Bíblia, e fortalecer minha afeição por suas verdades divinas e santas. — Sir William Jones, 1746-1794.
A tua palavra. Refresquemos nossa mente e nossa memória com alguns dos adjuntos escriturísticos ligados à "palavra", e percebamos, ao menos em certa medida, as múltiplas relações que ela tem tanto com Deus quanto com nossas almas. É chamada "a palavra de Cristo", porque boa parte dela foi dada por ele, e toda ela dá testemunho dele... É chamada "a palavra da sua graça", porque o glorioso tema em que ela gosta de discorrer é a graça, e especialmente a graça vista no amor de Cristo morrendo pelos homens pecadores. É chamada ho logos tou staurou, "a palavra da cruz" (1 Coríntios 1:18), porque na crucificação do divino Redentor vemos a misericórdia eterna em seu mais brilhante fulgor. É chamada "a palavra do evangelho", porque traz boas novas de grande alegria para todas as nações. É chamada "a palavra do reino", porque estende a todos os crentes a esperança de um reino eterno de justiça e paz. É chamada "a palavra da salvação", porque o propósito para o qual foi dada é a salvação dos pecadores. É chamada "a palavra da verdade", porque, como diz Chillingworth, tem Deus por autor, a salvação por fim, e a verdade sem mistura de erro por conteúdo. E acrescentaremos apenas que é chamada "a palavra da vida", porque revela a um mundo pecador e perecível as doutrinas da vida e da imortalidade. — W. Graham, em "A Commentary on the First Epistle of John", 1857.
Por isso o teu servo a ama. O amor em Deus é a fonte de todos os seus benefícios estendidos a nós; e o amor no homem é a fonte de todo o nosso serviço e obediência a Deus. Ele nos amou primeiro para nos fazer bem; e disso vem que temos graça para amá-lo, em seguida, para servi-lo. O amor é um dever tal que a falta dele não pode ser desculpada em ninguém; pois o mais pobre pode, e deve, amar a Deus: contudo, sem ele, tudo o mais que possas fazer em seu serviço não é nada; não, ainda que dês teus bens aos pobres, e entregues teu corpo para ser queimado. Pequenos sacrifícios, fluindo da fé e do amor, lhe são bem-vindos, onde os maiores, sem estes, não passam de abominação para ele. Provas de ambos temos na moeda da viúva e na rica oblação de Caim; das quais uma foi rejeitada, a outra recebida. Felizes somos, ainda que não possamos dizer, "Fizemos o que Deus ordena", se, de um bom coração, podemos dizer, "Amamos fazer o que ele ordena." — William Cowper.
Por isso o teu servo a ama. De todos os nossos fundamentos e razões para amar a palavra de Deus, o mais nobre e excelente é amar a palavra por sua pureza. Isso mostra, na verdade, que fomos feitos participantes da natureza divina: 2 Pedro 1:4. Pois note bem: quando odiamos o mal como mal, e amamos o bem como bem, temos o mesmo amor e ódio que Deus tem. Quando chegamos a amar as coisas porque são puras, é sinal de que temos o mesmo amor que Deus tem. — Thomas Manton.
O teu servo a ama. De outro modo, na verdade, o Salmista não teria sido de forma alguma servo do Senhor. Mas ele se gloria no título porque se deleita no puro serviço. — John Stephen.
Versículos 140–141Salmo 119:140-141
A própria pronunciação de Deus é, de fato, sem mancha, e por isso não deve ser criticada; é pura, provada pelo fogo, o mais nobre metal, por isso ele a ama, e não se importa, embora jovem e pouco estimado, com os protestos de seus adversários orgulhosos, que são mais velhos e mais letrados do que ele. — Franz Delitzsch.
Versículo 141Salmo 119:141
Pequeno sou eu e desprezado, ou, tenho sido. Algumas versões traduzem "jovem"; como se se referisse ao tempo de sua unção por Samuel, quando foi ignorado e desprezado na casa de seu pai (1 Samuel 16:11; 17:28); mas a palavra aqui usada não expressa idade, mas estado, condição e circunstâncias; e o sentido é que ele era pequeno em sua própria estima, e na estima dos homens, e era desprezado; e isso por causa da religião, na qual era tipo de Cristo (Salmos 24:6, Isaías 53:3), e que é a sorte comum dos homens bons, tratados pelo mundo como o seu lixo, e o refugo de todas as coisas. — John Gill.
Pequeno sou eu. Os que amam a Deus podem ser reduzidos a uma condição humilde, baixa e aflita; o Senhor vê isso conveniente por diversas razões: 1. Para que saibam que sua felicidade não está neste mundo, e assim ainda mais ansiem pelo céu, e se deleitem nas coisas celestiais. 2. É necessário para cortar as provisões da carne e o combustível de suas paixões. Solo fértil demais cria ervas daninhas; e quando navegamos com corrente cheia, tendemos a ser levados por ela. 3. Para que sejam mais sensíveis ao seu desagrado contra seus pecados e sua conduta escandalosa, com que o desonraram, e provocaram os olhos puros de sua glória. 4. Para que aprendam a viver das promessas, e a exercitar as graças do sofrimento; especialmente a dependência de Deus, que pode nos sustentar sem um interesse temporal e visível. 5. Para que Deus convença os inimigos de que há um povo que sinceramente o serve, e não por fins carnais e egoístas: Jó 1:6. Para que sua glória seja mais vista em sua libertação; e por isso, antes que Deus apareça por seus filhos, ele os traz muito para baixo. — Thomas Manton.
Pequeno. Isto se aplica a Davi nos primeiros dias de sua tribulação e perseguição. É difícil encontrar qualquer outro indivíduo a quem isso caiba tão bem. — James G. Murphy.
Um notável exemplo, para vergonha daqueles que talvez sirvam e louvem a Deus na prosperidade, e quando aumentam; mas que venha a aflição ou a necessidade, e então têm pouco ânimo para fazê-lo. — Abraham Wright.
Contudo não me esqueço dos teus preceitos. Deus observa o que fazemos em nossa aflição: "Se nos temos esquecido do nome do nosso Deus, ou estendido as mãos a um deus estranho: não o descobrirá Deus? Pois ele conhece os segredos do coração": Salmos 44:20-21. Se afrouxamos nosso serviço a Deus, ou caímos em algum grau de apostasia, o Juiz dos corações sabe tudo: Deus sabe se preferiríamos doutrina, culto ou ordenanças depravadas e corruptas; ou se nos apegaremos fielmente a ele, à sua palavra, ao seu culto e às suas ordenanças, custe o que custar.
Em nossa condição pobre e desprezível, vemos mais motivo para amar a palavra do que antes; porque experimentamos apoios e consolos que dela recebemos: "Sabendo que a tribulação produz paciência", etc. (Romanos 5:3); "Porque, como os sofrimentos de Cristo abundam em nós, assim também a nossa consolação abunda por Cristo": 2 Coríntios 1:5. Deus tem consolos especiais para seu povo aflito e desprezado, e faz sua consolação por Cristo correr em paralelo, e no mesmo passo, com seus sofrimentos por Cristo. — Thomas Manton.
Contudo não me esqueço dos teus preceitos. Vemos por experiência que nosso afeto abandona qualquer coisa desde o momento em que ela sai de nossa memória. Deixamos de amar quando deixamos de lembrar; mas o amor ardente sempre renova a lembrança daquilo que é amado. O primeiro passo da defecção é esquecer o que Deus ordenou, e o que somos obrigados por dever a fazer para com ele; e sobre isso facilmente se segue ofender a Deus por nossa transgressão. Os animais que não ruminavam eram, sob a lei, tidos por imundos, e não aptos para serem sacrificados a Deus: isso era apenas uma figura, significando-nos que um homem que recebeu boas coisas de Deus, e não pensa nelas, não pode sentir a doçura delas, e assim não pode ser grato a Deus. — William Cowper.
Versículo 142Salmo 119:142
A tua justiça é uma justiça eterna. Aqui a lei de Deus é honrada com o elogio adicional de que é justiça e verdade eternas; como se se dissesse que todas as outras regras de vida, com quaisquer atrativos com que possam parecer recomendadas, não passam de uma sombra, que logo se desvanece. O Salmista, sem dúvida, contrapõe indiretamente a doutrina da lei a todos os preceitos humanos jamais promulgados, para submeter todos os fiéis a ela, já que é a escola da sabedoria perfeita. Pode haver mais aparência de plausibilidade nas dissertações refinadas e sutis dos homens; mas nelas não há nada firme ou sólido no fundo, como há na lei de Deus. Esta firmeza da lei divina ele prova, no verso seguinte, por um exemplo — o consolo contínuo que nela encontrou quando gravemente atormentado por tentações.
E a verdadeira prova do proveito que dela tiramos é quando opomos, a todas as aflições de qualquer tipo que nos apertem, o consolo derivado da palavra de Deus, para que toda tristeza seja apagada de nossa mente. Davi expressa aqui algo mais do que no verso anterior; pois ali apenas disse que servia reverentemente a Deus, embora, pelo tratamento áspero e duro que recebia, parecesse perder seu trabalho; mas agora, angustiado e atormentado, afirma que encontra na lei de Deus o mais suave deleite, que mitiga todas as dores, e não apenas tempera sua amargura, mas também as tempera com certa doçura. Certamente, quando este gosto não existe para nos dar deleite, nada é mais natural do que sermos tragados pela tristeza. — John Calvin.
A tua justiça é uma justiça eterna. Não apenas justa em sua primeira promulgação, mas justa em todas as eras e tempos; e devemos desprezar esta regra que há de durar para sempre? No mundo, novos senhores, novas leis; os homens variam e mudam seus planos e propósitos; privilégios concedidos hoje podem ser revogados amanhã; mas esta palavra permanecerá verdadeira para sempre. Nossa justificação por Cristo é irrevogável; essa parte da justiça é eterna. Tende certeza de que estais justificados agora nos termos do evangelho, e sereis justificados para sempre: vosso perdão é um perdão eterno, e vossa paz é uma paz eterna: "Não me lembrarei mais do seu pecado": Jeremias 31:34. Assim também a outra justiça, a da santificação, é para sempre; aprovai-vos diante de Deus agora, e vos aprovareis no dia do juízo. — Thomas Manton.
A tua justiça é uma justiça eterna, etc. O original se expressa melhor assim: "A tua justiça é justiça eternamente, e a tua lei é verdade." Assim traz a Septuaginta. A tradução em português expressa a perpetuidade da justiça; o original expressa também o seu caráter... A justiça de Deus é essencial e eternamente justiça. As expressões são absolutas; só existe esta justiça, e só esta verdade. — John Stephen.
A tua lei é a verdade. 1. É a verdade principal. Há alguma verdade nas leis dos homens e nos escritos dos homens, mesmo dos pagãos; mas são apenas pobres fragmentos e retalhos de verdade, que escaparam desde a queda. 2. É a única verdade; isto é, a única revelação da mente de Deus sobre a qual se pode construir. É a regra da verdade. 3. É a verdade pura. Nela não há senão a verdade, sem mistura de falsidade; toda parte dela é tão verdadeira quanto a própria verdade. É verdadeira nas promessas, nas ameaças, nas doutrinas, nas histórias, nos preceitos, nas proibições. 4. É a verdade inteira. Contém tudo o que é necessário para a salvação daqueles que se rendem a ser instruídos por ela. — Thomas Manton.
Versículo 143Salmo 119:143
Tribulação e angústia se apoderaram de mim; contudo os teus mandamentos são as minhas delícias. É estranho que, em meio à angústia, Davi tivesse deleite: mas, de fato, a doçura da palavra de Deus é melhor percebida sob a amargura da cruz. A alegria de Cristo e a alegria do mundo não podem coexistir. Um coração deleitado com a alegria mundana não pode sentir os consolos do Espírito; um destrói o outro: mas na tribulação santificada, os consolos da palavra de Deus são sentidos e percebidos de modo mui sensível. Muitas vezes Davi protestou este seu deleite na palavra de Deus; e, na verdade, é grande argumento de piedade quando os homens chegam não apenas a reverenciá-la, mas a amá-la, e nela se deleitar. Que isso seja considerado por aqueles homens infelizes que a ouvem por costume, e a consideram apenas um cansaço. — Abraham Wright.
Tribulação e angústia se apoderaram de mim, ou "me acharam", etc. Não precisamos nos esforçar, como muitos fazem, para "achar tribulação e angústia"; pois elas, um dia, "nos acharão." Naquele dia, as revelações de Deus hão de nos servir no lugar de todos os "deleites" e prazeres mundanos, que então nos terão abandonado; e quão desamparado e desolado será nosso estado se não tivermos outros deleites, outros prazeres, para sucedê-los, e para nos acompanhar na eternidade. Que nosso estudo seja, pois, nas Escrituras, se esperamos nelas nosso consolo no tempo por vir. — George Horne.
Tribulação e angústia se apoderaram de mim. Podemos conceber aqui uma figura ousada, como se a Tribulação e a Angústia estivessem sendo enviadas contra os indefesos filhos dos homens. Estas, como inimigas, andavam rondando. Em vez de apoderar-se dos ímpios, acharam o homem justo. Assim foi por disposição de Deus. Suponho que muitos de nós já observaram que o crente nunca fica muito tempo à vontade. Está no mundo; está na carne; há pecado habitando nele; há inimigos ao redor; há o grande inimigo; além de tudo isso, o Senhor, por sábios propósitos, esconde o rosto. Então o crente está em tribulação e angústia. — John Stephen.
Se apoderaram de mim. Em hebraico, me acharam. Como cães rastreando uma fera escondida ou fugindo. — A. R. Fausset.
Os teus mandamentos são as minhas delícias. O deleite nas coisas morais (diz Aquino) é a regra pela qual podemos julgar a bondade ou maldade dos homens. Delectatio est quies voluntatis in bono. Os homens são bons e maus conforme os objetos de seu deleite: são bons os que se deleitam em coisas boas, e são maus os que se deleitam em coisas más. — Thomas Manton.
Versículo 144Salmo 119:144
A justiça dos teus testemunhos é eterna. Tua lei moral não foi feita para um só povo, ou para um tempo particular; é tão imperecível quanto tua natureza, e de obrigação sem fim. É a lei pela qual todos os filhos de Adão serão julgados. "Dá-me entendimento." Para conhecê-la e praticá-la. "E viverei." Hei de glorificar-te, e viver eternamente; não pelo mérito de tê-la cumprido, mas porque tu cumpriste a obra da lei em meu coração, tendo-me salvo da condenação por ela. — Adam Clarke.
Dá-me entendimento, e viverei. Leio isto em ligação com a cláusula anterior; pois, embora Davi deseje ter sua mente iluminada por Deus, não concebe outro modo de obter um entendimento iluminado senão progredindo devidamente no estudo da lei. Além disso, ensina aqui que os homens não podem, propriamente falando, dizer que vivem quando estão destituídos da luz da sabedoria celestial; e como o fim para o qual os homens são criados não é que, como porcos ou jumentos, encham a barriga, mas que se exercitem no conhecimento e no serviço de Deus, quando se desviam de tal ocupação, sua vida é pior do que mil mortes.
Davi, portanto, protesta que, para ele, viver não era meramente ser alimentado com carne e bebida, e desfrutar de conforto terreno, mas aspirar a uma vida melhor, o que não podia fazer senão sob a orientação da fé. Esta é uma advertência muito necessária; pois, embora seja universalmente reconhecido que o homem nasce com esta distinção, de que supera os animais inferiores em inteligência, ainda assim a grande massa da humanidade, como que de propósito deliberado, sufoca toda luz que Deus derrama em seu entendimento.
Admito, na verdade, que todos os homens desejam ser perspicazes; mas quão poucos aspiram ao céu, e consideram que o temor de Deus é o princípio da sabedoria. Já que a meditação sobre a vida celestial é soterrada pelo cuidado terreno, os homens não fazem senão mergulhar na sepultura, de modo que, vivendo para o mundo, morrem para Deus. Sob o termo vida, contudo, o profeta designa o máximo que poderia desejar. Senhor, como se dissesse, ainda que eu já esteja morto, se te apraz iluminar minha mente com o conhecimento da verdade celestial, só esta graça bastará para me reviver. — John Calvin.
Dá-me entendimento, e viverei. O conhecimento salvador dos testemunhos de Deus é o único modo de viver. Há uma vida tríplice. 1. Vida natural. 2. Vida espiritual, e 3. Vida eterna. Em todas estas considerações o ponto pode ser confirmado.
Primeiro. Vida é tomada pela vida da natureza, ou a vida do corpo, ou vida temporal, chamada "esta vida" na Escritura: 1 Coríntios 15:19; 1 Timóteo 4:8. A vida é melhor preservada num caminho de obediência do que fazendo o mal; isso provoca a Deus a nos rejeitar, e nos expõe a perigos. Não está no poder do mundo fazer-nos viver ou morrer um dia mais cedo ou mais tarde do que Deus quiser. Se Deus quiser nos fazer felizes, eles não podem nos fazer infelizes: por isso, "Dá-me entendimento, e viverei"; isto é, viver uma vida confortável e feliz no presente. Prevenir o pecado é prevenir o perigo. A obediência é o melhor caminho para preservar a vida temporal: por mais paradoxal que pareça ao mundo, é verdade escriturística, "Guarda os meus mandamentos, e vive" (Provérbios 4:4); e "Pega firme na instrução, não a soltes: guarda-a, pois ela é a tua vida" (versículo 13); e "Comprimento de dias há em sua mão direita; e em sua mão esquerda riquezas e honra" (Provérbios 3:16); e "Ela é árvore de vida" (versículo 18). O conhecimento e a prática da palavra são o único meio de viver confortável e felizmente aqui, bem como para sempre no porvir.
Segundo. Vida espiritual; que é dupla, a vida da justificação, e a vida da santificação.
A vida da justificação: "O dom gratuito veio sobre todos os homens para a justificação da vida": Romanos 5:18. Está morto não apenas aquele sobre quem o carrasco fez sua obra, mas também aquele sobre quem o juiz pronunciou sentença, e a lei o declara morto. Neste sentido, todos estávamos mortos, e a justificação é chamada justificação para a vida; não há vida, neste sentido, sem conhecimento: "Pelo seu conhecimento o meu servo justo justificará a muitos": Isaías 53:11 [sic — a fonte trazia "Isaías 43:11", referência que não corresponde ao versículo citado]. Vivemos pela fé, e a fé vem pelo ouvir, e o ouvir não faz bem algum a menos que o Senhor dê entendimento; assim como os alimentos não nutrem a menos que sejam recebidos e digeridos.
A vida da santificação: "E a vós vos vivificou, estando mortos em ofensas e pecados": Efésios 2:1. E os homens não vivem propriamente até viverem a vida da graça; vivem uma vida falsa, fingida, não uma vida bendita, feliz, certa e verdadeira. Ora, esta vida começa e prossegue por meio do conhecimento salvador: "O homem novo, que se renova em conhecimento": Colossenses 3:10. Além disso, diz-se que os homens estão "alienados da vida de Deus pela ignorância que neles há": Efésios 4:18. Os que são ignorantes estão mortos em pecado: a vida espiritual vem pelo conhecimento. Daqui começa a mudança do homem interior, e desde então vivemos. "Dá-me entendimento", ut vere in te vivam, para que a vida verdadeira que começou em mim cresça e aumente diariamente, mas nunca seja apagada pelo pecado.
Terceiro. Vida eterna, ou nosso estado bendito no céu. Assim se diz dos santos falecidos, que todos vivem para Deus: Lucas 20:38. E esta é chamada a água da vida, a árvore da vida, a coroa da vida; propriamente, esta é a vida. Que é a vida presente em comparação com a vida eterna? A vida presente é mors vitalis, uma morte vivente; ou mortalis vita, uma vida moribunda, uma espécie de morte; está sempre em fluxo, como um riacho: escapa de nós tão rápido quanto vem a nós: "Foge também como sombra, e não permanece": Jó 14:2 [sic — a fonte trazia "João 14:2", referência que não corresponde ao versículo citado]. Morremos tão rápido quanto vivemos: só difere como o ponto difere da linha em que termina.
Não é uma coisa una e permanente; é como a sombra de uma estrela num riacho corrente. Seus contentamentos são baixos e vis, chamados "a vida da tua mão": Isaías 57:10. É remendada de diversas criaturas, obrigada a saquear os depósitos da natureza para sustentar um edifício em ruínas. E, comparando-a com a vida da graça aqui, ela não nos isenta do pecado, nem das misérias. Nossas capacidades são estreitas. Estamos cheios de temores, e dúvidas, e perigos; mas na vida da glória não mais pecaremos nem sofreremos.
É a isto que se refere aqui: "A justiça dos teus testemunhos é eterna: dá-me entendimento, e viverei"; refere-se principalmente à vida da glória. Este é o fruto do conhecimento salvador, quando conhecemos a Deus e a Cristo de tal modo que vimos a Deus por meio dele. — Thomas Manton.
Viverei. Serei guardado daqueles pecados que merecem e trazem a morte. — Matthew Pool.
Versículo 145Salmo 119:145
Clamei de todo o meu coração. Assim como um homem clama mais alto quando clama com toda a boca aberta, um homem ora mais eficazmente quando ora com todo o coração. Nem esta expressão declara apenas o fervor do seu afeto; também insinua que era coisa grande o que buscava de Deus. E tu, quando orares, ora por coisas grandes; por coisas duradouras, não por coisas perecíveis: não ores por prata, que não passa de ferrugem; nem por ouro, que não passa de metal; nem por posses, que não passam de terra. Tal oração não sobe até Deus. Ele é um grande Deus, e considera-se desonrado quando não se lhe pedem grandes coisas com grande afeto. — William Cowper.
Clamei de todo o meu coração. Em todos os deveres do teu aposento a sós, Deus olha primeiro e principalmente para o teu coração: "Meu filho, dá-me o teu coração": Provérbios 23:26. Não é um pedaço, não é um canto do coração, que satisfará o Criador do coração; o coração é um tesouro, um canteiro de especiarias, um trono real em que ele se deleita. Deus não olha para a elegância das tuas orações, para ver quão bem-feitas são; nem para a geometria das tuas orações, para ver quão longas são; nem para a aritmética das tuas orações, para ver quantas são; nem para a música das tuas orações, nem para a doçura de tua voz, nem para a lógica das tuas orações; mas para a sinceridade das tuas orações, quão de coração são.
Não há oração reconhecida, aprovada, aceita, registrada ou recompensada por Deus, senão aquela em que o coração está sincera e inteiramente. A verdadeira mãe não queria que a criança fosse dividida. Deus ama um coração quebrantado e contrito, assim como abomina um coração dividido: Salmos 51:17; Tiago 1:8. Deus não ama nem hesitação nem divisão; ele quer ser servido verdadeira e totalmente. A lei real é: "Amarás e servirás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma." Entre os pagãos, quando os animais eram abertos para o sacrifício, a primeira coisa que o sacerdote observava era o coração, e se o coração era ruim, o sacrifício era rejeitado.
Em verdade, Deus rejeita todos os sacrifícios em que o coração não está presente. Oração sem o coração não passa de bronze que soa ou címbalo que retine. A oração só é bela e ponderosa na medida em que o coração está nela, e não de outro modo. Não é o erguer da voz, nem o torcer das mãos, nem o bater no peito, nem um tom afetado, nem movimentos estudados, nem expressões serafitas, mas os movimentos do coração, que Deus observa na oração. Deus não ouve mais do que o coração fala. Se o coração está mudo, Deus certamente será surdo. Nenhuma oração alcança Deus, senão a que é o trabalho de parto do coração. — Thomas Brooks.
Versículo 146Salmo 119:146
Clamei a ti. A alma angustiada se expressa em clamores e lágrimas fortes. Antigamente clamavam ao Senhor, e ele os ouvia em sua angústia. Assim Israel junto ao Mar Vermelho. Os homens da Reforma assim se expressaram em oração ardente, e encontraram alívio. Lutero, na Dieta de Worms, quando foi adiado para outro dia, passou a longa noite em oração pronunciada em voz alta, para que pudesse comparecer diante de uma augusta assembleia terrena em nome de seu Senhor. Nossa leitura dos tempos do Pacto nos lembrará muitos casos semelhantes. Podemos pensar em John Welch, que ia ao seu jardim noite após noite, envolto em um manto noturno, clamando ao Senhor que lhe concedesse a Escócia.
A expressão da oração, contudo, é tão múltipla quanto a disposição do espírito. Sentimento intenso gerará clamores fortes na oração; mas a oração que se profere sob uma visão consciente de nosso Deus gracioso será mansa, e muitas vezes proferida, por assim dizer, em sussurros. Assim costumava orar Alexander Peden, como se estivesse em conversa calma com um amigo... Mas quando o sentimento é intenso, quando a ira pesa sobre nós, quando o perigo é percebido como próximo, quando o Senhor é concebido como distante, ou quando há desejo ardente de alcance imediato — em todos esses casos haverá os clamores fortes. Tal parece ter sido o estado de espírito do Salmista quando derramou a expressão pungente desta parte. — John Stephen.
Por mais breves que sejam as petições, todo o alcance da linguagem não poderia torná-las mais abrangentes. "Ouve-me." A alma está séria, todo o coração está empenhado no "clamor." "Salva-me" — inclui toda a necessidade do pecador — perdão, aceitação, acesso, santidade, força, consolo, céu — tudo numa só palavra — Cristo. O caminho de acesso não é, de fato, mencionado nestes breves exclamações. Mas está sempre implícito em toda aproximação e dirigir-se, a cada momento, ao trono da graça. "Ouve-me" em nome do meu Advogado que tudo prevalece. "Salva-me" por meio dele, cujo nome é Jesus, o Salvador. — Charles Bridges.
Clamei a ti. Uma oração clamorosa fura as profundezas do céu. Não lemos uma só palavra que Moisés falou, mas Deus foi movido por seu clamor. Êxodo 14:15. Não significa um ruído estridente, mas gemidos derretidos do coração. Contudo, às vezes as dolorosas e apertadas necessidades e angústias do espírito arrancam até clamores vocais não desagradáveis aos ouvidos inclinados de Deus. "Clamei a Deus com a minha voz", diz Davi, "e ele me ouviu do seu santo monte": Salmos 3:4. E isso encoraja a um novo assalto: "Atende à voz do meu clamor, meu Rei e meu Deus": Salmos 5:2. "Dá ouvidos ao meu clamor: não te cales diante das minhas lágrimas": Salmos 39:12. Outra vez ele faz a caverna ecoar com seus clamores: "Clamei, clamei. Atende ao meu clamor, pois estou muito abatido." — Samuel Lee (1625-1691), em "The Morning Exercises."
Clamei a ti; salva-me. Em nossas tribulações, devemos recorrer a Deus, e suplicar-lhe por oração e súplica ajuda e livramento no devido tempo; porque ele é o autor de nossa tribulação. Em misericórdias e aflições, nosso negócio não é com os homens, mas com Deus; ao lidar humildemente com ele, detemos a ira na sua própria fonte: quem nos ata há de nos desatar; ele está na origem de todas as causas, e sejam quais forem os instrumentos de nossa tribulação, por mais maliciosos que sejam, Deus é a parte com quem devemos fazer as pazes; pois ele tem o domínio absoluto sobre todas as criaturas, e quer que reconheçamos o senhorio de sua providência e nossa dependência dele. Nos tratados de paz entre duas partes em guerra, o pedido não se dirige aos soldados rasos, mas ao seu chefe: "O Senhor tirou", diz Jó; "Quando ele dá sossego, quem então pode causar problema?" Jó 34:29. — Thomas Manton.
Salva-me, e guardarei os teus testemunhos. Os servos de Deus consideram a própria vida principalmente desejável por causa da oportunidade que ela oferece de servir a Deus: "Salva-me, para que eu guarde os teus testemunhos", é a oração do crente no dia de tribulação e conflito. "Para mim, o viver", diz ele, "é Cristo, e o morrer é lucro." Quão diferente disso são os ímpios! Todo o seu desejo, no dia da tribulação, se gasta no anseio de escapar da calamidade; não têm desejo de ser livres do pecado, nenhum anseio de se conformarem a Deus! — John Morison.
Salva-me. Dos meus pecados, das minhas corrupções, das minhas tentações, de todos os obstáculos que estão no meu caminho, para que eu possa "guardar os teus testemunhos." Devemos clamar por salvação, não para termos o alívio e o conforto dela, mas para termos a oportunidade de servir a Deus com mais alegria. — Matthew Henry.
Deus nos ouve, para que nós o ouçamos a ele. — Thomas Manton.
Versículo 147Salmo 119:147
Antecipei-me ao romper da manhã. É preciso notar o modo de falar. Ele diz que se antecipou à vigília da manhã, declarando com isso que vivia, por assim dizer, em disputa com o tempo, cuidadoso para que este não o ultrapassasse. Sabia que o tempo corre depressa, e, ao correr, desgasta o homem até pó e cinza. Mas Davi se esforçava para chegar antes dele, fazendo algum bem antes que este lhe escapasse à frente. E este cuidado que Davi tinha de cada dia, ai, como pode envergonhar aqueles que não têm cuidado algum de toda uma vida! Ele temia perder um dia; eles não pensam em perder meses e anos sem fazer bem algum neles: sim, tendo gasto as três idades de sua vida em vaidade e libertinagem, mal consagrarão sua velhice decrépita ao Senhor. — William Cowper.
Antecipei-me ao romper da manhã, etc. Os que fazem da oração um negócio usarão nisso grande vigilância e diligência. Digo, os que fazem da oração um negócio; outros que a usam como cumprimento e formalidade costumeira não serão assim afetados; fazem-na como coisa de passagem, ou obra que bem se poderia dispensar, e não a consideram um dever necessário; mas se o coração de um homem está nela, ele estará cedo à obra, e a seguirá de perto, de manhã e à noite: seu negócio é manter comunhão com Deus, seus desejos não o deixam dormir, e ele se levanta cedo para invocar a Deus. "Mas a ti tenho clamado, ó Senhor: e de manhã te preveniu a minha oração." Salmos 88:13. Assim os homens bons até quebrarão o próprio sono para se dedicarem à oração, e a invocar o nome de Deus. — Thomas Manton.
Antecipei-me ao romper da manhã. É coisa grave se os raios do sol nascente te encontram preguiçoso e envergonhado em tua cama, e a luz brilhante fere olhos ainda pesados pelo torpor sonolento. Não sabes tu, ó homem, que deves diariamente a Deus as primícias do teu coração e da tua voz? Tens uma colheita diária, uma renda diária. O Senhor Jesus passou a noite inteira em oração, não porque precisasse de sua ajuda, mas para te dar um exemplo a imitar. Passou a noite orando por ti, para que aprendesses a pedir por ti mesmo. Dá-lhe, pois, de volta o que ele pagou por ti. — Ambrósio.
Antecipei-me ao romper da manhã. Davi era um bom lavrador, madrugava para a obra: e à noite se demorava neste dever: "À meia-noite me levantarei para te dar graças": Salmos 119:62. Este era, certamente, o seu sentido quando disse que habitaria na casa do Senhor para sempre; estaria sempre na casa de oração...
Desejo que, quando eu abrir os olhos pela primeira vez de manhã, possa então, em oração jaculatória da alma, abrir meu coração ao meu Deus, para que, à noite, a oração amoleça minha cama, e afofe meu travesseiro; para que, durante o dia, a oração perfume minhas vestes, adoce meu alimento, unte as rodas da minha vocação particular, me faça companhia em todas as ocasiões, e dourasse todas as minhas ações naturais, civis e religiosas. Desejo que, depois de derramar minha oração em nome de Cristo, segundo a vontade de Deus, tendo semeado minha semente, eu possa esperar uma colheita, buscando ansiosamente vê-la brotar, e crendo com segurança que colherei a seu tempo, se não desfalecer. — George Swinnock.
Antecipei-me ao romper da manhã. As orações matinais não são perturbadas pelos cuidados agitantes da vida, e se assemelham à doce melodia daquelas aves que cantam mais alto e mais docemente quando menos ouvidos estão abertos para escutá-las. Ó minha alma, podes tu dizer que assim te "antecipaste ao romper da manhã" em tuas aproximações a Deus? O desejo de comunhão com o céu já te levantou do teu sono, sacudiu tua indolência, e te levou aos joelhos? — John Morison.
E clamei. Aqui há repetição da mesma oração: "clamei"; sim, de novo clamei, e uma terceira vez: "Antecipei-me ao romper da manhã, e clamei." Costumamos bater a uma porta três vezes, e então partir. Nosso Senhor Jesus "orou pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras" (Mateus 26:44), "Pai, se possível for, passa de mim este cálice." Assim também o apóstolo Paulo: "Por esta causa roguei três vezes ao Senhor que se afastasse de mim": 2 Coríntios 12:8. Assim, "E ele se estendeu sobre o menino três vezes, e clamou ao Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, rogo-te que a alma deste menino volte a entrar nele": 1 Reis 17:21. Parece que este era o tempo em que se esperava resposta em casos de peso; contudo não o limitarei a esse número; pois aqui devemos reiterar nossas petições por uma mesma e única coisa quantas vezes a ocasião exigir, até que seja concedida. — Thomas Manton.
Os poetas se deleitaram em cantar a manhã como "Mãe dos Orvalhos", "semeando a terra de pérola oriental"; e muitos dos santos, ao se levantarem de suas camas ao primeiro rubor da aurora, encontraram na poesia da natureza a realidade da graça, ao sentirem os orvalhos do céu refrescarem seu espírito. Daí que os exercícios matinais sempre foram caros às almas iluminadas, saciadas do céu, e foi sua regra nunca ver o rosto de homem antes de ter visto primeiro o rosto de Deus.
O hálito da manhã, perfumado do aroma das flores, é incenso que a terra oferece ao seu Criador, e os homens vivos jamais deveriam deixar a terra morta superá-los; homens verdadeiramente vivos, afinando seus corações para o cântico, como as aves, saúdam a radiante misericórdia que se revela no oriente. A primeira hora fresca de cada manhã deveria ser dedicada ao Senhor, cuja misericórdia a alegra com luz dourada. O olho do dia abre suas pálpebras, e, ao fazê-lo, abre os olhos de multidões de dorminhocos protegidos pelo céu; convém que esses olhos primeiro ergam a vista para o grande Pai das Luzes, a fonte e origem de todo o bem sobre o qual a luz do sol reluz.
Isso augura para nós um dia de graça quando começamos cedo com Deus; a influência santificadora da temporada passada no monte opera sobre cada hora seguinte. A devoção matinal ancora a alma para que ela não se afaste facilmente de Deus durante o dia; perfuma o coração para que exale piedade até o anoitecer; cinge as vestes da alma para que tropece menos, e alimenta todos os seus remos para que não desfaleça. A manhã é o portão do dia, e deve ser bem guardada com oração. É uma ponta do fio em que as ações do dia estão enfiadas, e deve ser bem atada com devoção.
Se sentíssemos mais a majestade da vida, seríamos mais cuidadosos com suas manhãs. Aquele que corre de sua cama para o seu trabalho, e não espera para adorar, é tão tolo quanto se não tivesse vestido suas roupas, ou lavado o rosto, e tão insensato quanto se lançasse à batalha sem armas nem armadura. Que seja nosso banhar-nos no rio suavemente fluente da comunhão com Deus, antes que o calor do deserto e o fardo do caminho comecem a nos oprimir. — C.H.S.
Esperei na tua palavra. Mesmo que não haja gozo real, ao menos honremos a Deus com o espírito de expectativa. — Charles Bridges.
Versículos 147–148Salmo 119:147-148
O estudante de teologia e o ministro da palavra devem começar o dia com oração, e isto principalmente para buscar de Deus que possa entender corretamente a palavra de Deus, e ser capaz de ensinar a outros. — Solomon Gesner. Irmãos, notem isto! — C.H.S.
Vejam aqui:
Que Davi madrugava, o que talvez tenha contribuído para sua eminência. Não era daqueles que dizem: "Ainda um pouco de sono."
Que começava o dia com Deus; a primeira coisa que fazia pela manhã, antes de admitir qualquer negócio, era orar; quando sua mente estava mais fresca e na melhor disposição. Se nossos primeiros pensamentos pela manhã forem para Deus, isso ajudará a nos manter em seu temor o dia todo.
Que sua mente estava tão cheia de Deus, e dos cuidados e deleites de sua religião, que pouco sono lhe bastava; mesmo "nas vigílias da noite", quando despertava do primeiro sono, preferia meditar e orar a virar-se e voltar a dormir. Estimava mais as palavras da boca de Deus do que seu descanso necessário, do qual mal podemos prescindir tanto quanto de nosso alimento: Jó 23:12.
Que resgatava tempo para os exercícios religiosos; estava cheio de negócios o dia todo, mas isso não desculpa homem algum de sua devoção secreta; é melhor tirar tempo do sono, como Davi fazia, do que não encontrar tempo para orar. E este é nosso consolo quando oramos de noite: nunca chegamos fora de hora ao trono da graça, se podemos ter acesso a ele em todas as horas. Baal pode estar dormindo, mas o Deus de Israel nunca dorme, nem há hora alguma em que não se possa falar com ele. — Matthew Henry.
Versículo 148Salmo 119:148
Os meus olhos antecipam as vigílias da noite, para meditar na tua palavra. Todos hão de admitir que esta é a linguagem de um estudante ardente, sério e aplicado. Davi se apresenta "levantando-se cedo, e tarde tomando descanso", de propósito, para poder ocupar-se no estudo da palavra de Deus. "Ele medita nesta palavra", a expressão implica pensamento atento e paciente; como se houvesse muito na palavra que não se poderia detectar num relance apressado, e que exigisse a mais estrita aplicação tanto da mente quanto do coração.
A Bíblia é um livro em que podemos meditar continuamente, e ainda assim não esgotar seu conteúdo. Quando Davi se expressou na linguagem de nosso texto, as Sagradas Escrituras — a palavra de Deus — eram, é claro, um volume bem menor do que é hoje, embora, ainda hoje, a Bíblia esteja longe de ser um livro grande. Contudo, Davi não conseguia, por assim dizer, chegar ao fim do livro. Poderia estar estudando o livro havia anos — aliás, temos certeza de que estava — e, ainda assim, como se estivesse apenas começando um novo curso de leitura, com volume após volume a examinar, precisava levantar-se antes do dia para prosseguir o estudo. "Os meus olhos antecipam as vigílias da noite, para meditar na tua palavra."
A mesma observação pode ser feita sobre os preceitos que ordenam o estudo contínuo da Bíblia. Há material para tal estudo? A menos que haja, os preceitos se tornarão descabidos; o estudante das Escrituras terá esgotado as Escrituras; e o que fará então? Não pode mais obedecer aos preceitos, e os preceitos provarão que não puderam ter sido feitos para durar sempre — para os homens de todas as épocas e todas as condições...
Eis aqui um servo de Deus que, desde a juventude, tem sido diligente no estudo da Bíblia. Ano após ano ele se dedicou a esse estudo, e ainda assim a Bíblia é um único volume, e não um volume grande. "Bem, então", poderiam dizer, "o estudo certamente já deve ter esgotado o livro a esta altura! Não pode haver nada de novo para ele extrair; nada que ele não tenha investigado e sondado." Ah, como vos enganais quanto à Bíblia! Que livro muito maior ele deve ser do que parece! Em vez de tê-lo esgotado, o estudante régio fala como se houvesse mais trabalho diante dele do que sabia como abarcar. "Os meus olhos antecipam as vigílias da noite, para meditar na tua palavra." — Henry Melvill.
Os meus olhos antecipam as vigílias da noite. A palavra hebraica significa uma vigília — uma parte da noite, assim chamada por causa das vigílias militares, ou uma divisão da noite para se manter guarda. A ideia do Salmista aqui é que ele antecipava essas divisões regulares da noite para poder se dedicar à devoção. Em vez de esperar que voltassem, ele se levantava para orar antes que elas recorressem; tanto seu coração se deleitava no serviço de Deus. A linguagem parece ser a de alguém acostumado a orar nestas sucessivas "vigílias" da noite: a primeira, a do meio, e a da aurora. Isso pode ilustrar o que ocorre na vida de todos os que amam a Deus. Terão estações regulares de devoção, mas frequentemente as anteciparão. Estarão num estado de espírito que os impele a orar; quando nada senão a oração atenderá ao seu estado de espírito; e quando não podem esperar pela estação regular e ordinária da devoção; como um homem faminto, que não pode esperar pela hora usual e regular de suas refeições. O sentido da frase, "os meus olhos antecipam", é que ele despertava antes da hora habitual da devoção. — Albert Barnes.
Os meus olhos antecipam as vigílias da noite, etc. Seu propósito anterior ainda continua, declarando sua perseverança infatigável na oração. Ah, se pudéssemos aprender com ele a usar bem nosso tempo! À noite se deitava com orações e lágrimas; à meia-noite se levantava para dar graças; levantava-se antes da luz da manhã para invocar o Senhor. Isto é imitar a vida dos anjos, que sempre se deleitam em contemplar o rosto de Deus, cantando sempre um cântico novo sem se cansar. Isto é começar nosso céu na terra: ah, se pudéssemos sempre lembrar-nos disso! — William Cowper.
Vigílias da noite. Os judeus, como os gregos e romanos, dividiam a noite em vigílias militares em vez de horas, cada vigília representando o período durante o qual sentinelas ou piquetes permaneciam de serviço. A contagem judaica própria reconhecia apenas três dessas vigílias, chamadas a primeira, "ou início das vigílias" (Lamentações 2:19), "a vigília do meio" (Juízes 7:19), e "a vigília da manhã" (Êxodo 14:24; 1 Samuel 11:11). Estas durariam, respectivamente, do pôr do sol às 22h; das 22h às 2h; e das 2h ao nascer do sol. Lightfoot sustentou que os judeus, na verdade, contavam quatro vigílias, apenas três das quais estavam em plena noite, sendo a quarta pela manhã. Isso, contudo, é improvável, pela utilização do termo "meio", e é contrário à autoridade rabínica. Após o estabelecimento da supremacia romana, o número de vigílias foi aumentado para quatro, sendo descrito ou por sua ordem numérica, como no caso da "quarta vigília" (Mateus 14:25), ou pelos termos "meia-noite, canto do galo, e manhã" (Marcos 13:35). Estas terminavam às 21h, meia-noite, 3h e 6h. Conforme isso, a guarda de soldados era dividida em quatro turnos (Atos 12:4), mostrando que o regime romano era seguido no exército de Herodes. Vigias parecem ter patrulhado as ruas das cidades judaicas (Cântico dos Cânticos 3:3; 5:7; Salmos 127:1), onde, em vez de "faz", devemos ler "vigia"; Salmos 130:6. — William Latham Bevan, no Dicionário da Bíblia de Smith, 1863.
Versículo 150Salmo 119:150
Andam longe da tua lei. Em verdade, isto deveria consolar grandemente todos os piedosos, ao lembrarem que os que são seus inimigos são também inimigos de Deus. Já que estão longe da obediência à lei de Deus, que espanto que também estejam longe do dever de amor que nos devem? Isso pode nos contentar quanto à falta daquele afeto nos homens que, de outro modo, poderíamos e desejaríamos ter, quando consideramos que Deus também vê sua glória negada neles. Que isto nos sustente ao ver que os homens ímpios são nossos inimigos. — William Cowper.
Se conseguimos arranjar um travesseiro carnal e um apoio sob a cabeça, dormimos e sonhamos muitos sonhos dourados de sossego e segurança. Ora, Deus, que é zeloso de nossa confiança, não nos deixará em paz, e por isso nos submeterá a provas agudas. Não é fé, mas sensação, aquilo de que vivíamos antes; fé é poder depender de Deus quando "se aproximam os que perseguem a maldade": "Não temerei dez mil homens do povo, que se puseram contra mim ao redor": Salmos 3:6. Um perigo à distância é apenas imaginado; age de modo diferente quando está próximo. O próprio Cristo tinha outros pensamentos sobre o perigo que se aproximava do que sobre o perigo distante: "Agora a minha alma está turbada": João 12:27. Este vaso de água pura se turvou, ainda que nele não se descobrisse escória alguma. — Thomas Manton.
Versículos 150–151Salmo 119:150-151
Nossos inimigos espirituais, como os perseguidores terrenos de Davi, estão sempre presentes e ativos. O "leão" devorador, ou a "serpente" insinuante, está "próximo, perseguindo a maldade"; e é tanto mais perigoso quanto invisíveis são suas aproximações. Próximo também está um mundo tentador e enganoso; e mais próximo ainda, um mundo de pecado que se esconde dentro, separando-nos da comunhão com nosso Deus. Mas, ao nos voltarmos habitual e imediatamente para nossa fortaleza, podemos desfrutar a confiança: "Tu estás perto, ó Senhor." Ainda que "o Alto e Sublime, cujo nome é Santo" — ainda que o Deus justo e temível, ainda assim tu te fazes próximo do teu povo, e ele de ti, "pelo sangue da cruz." E manifestas tua presença a eles "no Filho do teu amor." — Charles Bridges.
Eles estão "próximos" para me perseguir e destruir; tu estás próximo, ó Senhor, para me ajudar. — J. J. Stewart Perowne.
Aproximam-se... "Tu estás perto." Da meditação sobre a malícia de seus inimigos, ele retorna novamente à meditação sobre a misericórdia de Deus; e assim convém que façamos, para que o número, a grandeza e a malícia de nossos inimigos não nos façam desfalecer ao olharmos para eles. É bom que lancemos os olhos para cima, para o Senhor; então veremos que eles não estão tão perto para nos ferir quanto o Senhor nosso Deus está perto para nos ajudar; e que não há mal neles de que tenhamos razão para temer, sem que encontremos em nosso Deus um bem contrário, suficiente para nos preservar. De outro modo não poderíamos suportar, se, quando Satanás e seus instrumentos se aproximam para nos perseguir, o Senhor não estivesse perto para nos proteger. — William Cowper.
Versículo 151Salmo 119:151
Tu estás perto, ó SENHOR. Quão docemente, e quantas vezes, este pensamento já se fez sentir a algum abandonado e esquecido! "Quando meu pai e minha mãe me abandonarem, o Senhor me recolherá", foi o consolo de alguém naquela profunda aflição. E, na primeira erupção do coração, quão docemente já veio a convicção, como um sussurro de paz: "Estou contigo!" E não tenho dúvida de que muitas e muitas vezes, naquelas horas de oração solitária, quando, antes do romper da manhã e antes das vigílias da noite, o Salmista se levantava à meia-noite para ter comunhão com Deus, quando nenhuma voz rompia o silêncio, e todo som se calava, exceto o bater de seu próprio coração, então Davi ouvia o sussurro do Espírito Santo de Deus: "Estou perto", "Não temas, estou contigo." — Barton Bouchier.
Tu estás perto, ó SENHOR. Esta foi, outrora, a maior bênção do homem, e fonte do mais doce consolo. Foi a mais bela flor que cresceu no Paraíso; mas o pecado a murchou, a flor definhou, curvou-se, morreu. Gênesis 3:8; 4:16. É preciso que volte a ser assim; a flor precisa voltar a florescer, precisa reviver; mesmo na terra precisa desabrochar, ou no céu jamais exalará sua fragrância.
Tu estás perto. Mesmo em tuas obras da "criação", no sol em sua glória, na lua em sua suavidade, brilhando no firmamento, eu te vejo. No bálsamo deste ar perfumado, na luz deste dia alegre, no aroma destes arbustos ao meu redor, cujas copas floridas, ao beberem o suave e brando orvalho que cai, parecem exalar um perfume fresco em gratidão àquele que o envia. Na melodia destas aves que enchem o ar com seus cânticos, tu, ó Senhor, estás perto. Não te percebo com meus olhos corporais, embora por eles discirna tua obra, e, com o olho da mente, te contemple em tuas obras, um Deus presente.
Tu estás perto. Mesmo no livro de tua providência, por mais escuro e misterioso que seja, eu te vejo. Ali leio tua sabedoria, tal como se desdobra em teu mundo, tua igreja, teus santos, teu servo diante de ti; a sabedoria que guia, a sabedoria que guarda, a sabedoria que concede, a sabedoria que anima, a sabedoria que corrige, que mata e que vivifica. Ali leio teu poder, tua justiça, tua fidelidade, tua santidade, teu amor.
Mas é em teu Filho, teu Filho amado, que mais clara e distintamente te vejo perto. Se na criação, se na providência, estás perto, nele estás muitíssimo perto. Ó Senhor. Perto como um Deus que perdoa o pecado. Romanos 8:1. Perto como um Deus que cumpre a promessa. 2 Coríntios 1:20. Perto como um Deus que ouve a oração. João 16:20; Salmos 145:18. Perto como um Deus que guarda a aliança. Hebreus 8:10. Perto como um Pai gracioso e terno. João 20:17.
Tu estás perto, ó SENHOR. Ah, se eu pudesse viver no sentido constante da tua proximidade de mim! Quantas vezes, longe demais, ai de mim, pareço esquecer-me disso por completo!
Estás perto? Então que eu possa lembrar, com plena percepção, que pelo sangue do teu querido Filho, e somente por ele, fui aproximado (Efésios 2:13); que não foi necessário menos do que o abaixar-se da Divindade, e os sofrimentos e a morte de sua humanidade perfeita, para remover aqueles obstáculos que se interpunham entre um Deus santo e uma criatura ímpia. Ah, andar diante de ti com espírito grato, e com um coração quebrantado e contrito!
Estás perto? Então que eu ande como diante de ti, como vendo-te, em santo temor, em amor filial, em fé simples, em confiança de filho. Gênesis 17:1. Quando o pecado quiser tentar e solicitar indulgência, quando o mundo apresentar algum novo atrativo, quando Satanás quiser tirar vantagem de constituição, sociedade, circunstâncias, ah, que eu possa sempre me lembrar: "Tu estás perto."
Se meus consolos mais queridos definharem e morrerem, se os amigos esfriarem, se os laços que já foram os mais firmes, os mais estreitos, os mais ternos, forem rompidos e dissolvidos, ainda assim que eu possa lembrar: "Tu estás perto, ó SENHOR", e não distante. E quando chegar o momento solene, quando o coração e a carne desfalecerem, quando todas as coisas terrenas forem vistas por um olho moribundo, quando eu te ouvir dizer: "Precisas morrer, e não viver", então, ah, então que eu me lembre, com toda a serenidade da fé, e toda a vivacidade da esperança, e todo o ardor do amor: "Tu estás perto, ó SENHOR." — James Harington Evans, 1785-1849.
Todos os teus mandamentos são verdade. Seu sentido é: Ainda que, ó Senhor, a má vontade dos homens ímpios me persiga porque te sigo, sei que teus mandamentos são verdadeiros, e que não é possível que abandones ou faltes aos teus servos que perseveram na defesa da tua palavra. Então, veja-se, o consolo de Davi na tribulação não estava em qualquer conceito presunçoso de sua própria sabedoria ou força, mas na verdade das promessas de Deus, das quais estava persuadido de que não lhe faltariam. E aqui também ele faz uma oposição secreta entre a palavra do Senhor e a palavra de seus inimigos. Às vezes os homens ordenam, mas sem razão; às vezes ameaçam, mas sem efeito. O ordenar de Herodes, o insultar de Rabsaqué, a jactância orgulhosa de Jezabel contra Elias, podem provar isto. Mas quanto ao Senhor nosso Deus, ele é sempre melhor do que sua palavra, e seus servos hão de encontrar mais no seu cumprimento futuro do que agora podem perceber em sua promessa: assim como seus inimigos hão de encontrar mais peso em seus juízos do que agora podem apreender em suas ameaças. — William Cowper.
Versículo 152Salmo 119:152
Esta parte do salmo termina com o triunfo da fé sobre todos os perigos e tentações. Quanto aos teus testemunhos — as revelações da tua vontade, os teus conselhos para a salvação dos teus servos —, "eu os conheço desde a antiguidade", pela fé e por experiência própria, bem como a de outros, "que tu os fundaste para sempre"; eles são imutáveis e eternos como os atributos de seu grande Autor, e jamais podem falhar aos que neles confiam, no tempo ou na eternidade. — George Horne.
Eu os conheço desde a antiguidade. Não era uma persuasão recente, algo que ele estivesse apenas agora aprendendo; ele sempre soube disso desde que conheceu a Deus, que Deus tinha assumido a sua palavra como regra constante do seu proceder com as criaturas, pois Deus tantas vezes cumprira sua palavra para com ele, não só por experiências presentes e recentes, mas por experiências antigas. A convicção de Davi quanto à verdade e à imutabilidade da palavra, portanto, não era um humor passageiro, nem um impulso do momento, nem uma persuasão de poucos dias; ele fora confirmado nela por longa experiência. Uma ou duas experiências não seriam prova suficiente da verdade da palavra — poderiam parecer apenas um acaso feliz; mas a palavra de Deus sempre se prova verdadeira, não uma ou duas vezes, mas sempre. Onde dizemos "desde a antiguidade", a Septuaginta traz kat' archás, "desde os princípios"; isto é, ou:
Desde os meus tenros anos. Timóteo conhecia as Escrituras desde criança (2 Timóteo 3:15); assim também Davi, ainda muito jovem, já conhecia a Deus e a sua verdade.
Ou, desde a primeira vez em que passou a levar isso a sério, a atentar para a palavra com seriedade, a ser estudante tanto da palavra quanto das obras de Deus, comparando providências e promessas — foi então que descobriu, quanto aos seus testemunhos, que "Deus os tinha fundado para sempre."
Por fim, "desde a antiguidade" pode significar aquilo que ouvi a respeito de todas as gerações passadas, a experiência delas tanto quanto a minha: "Em ti confiaram nossos pais; confiaram, e tu os livraste. A ti clamaram, e escaparam; em ti confiaram, e não foram confundidos": Salmos 22:4-5. — Thomas Manton.
Marquemos esta base eterna dos testemunhos de Deus. Todo o plano da redenção foi enfaticamente "fundado para sempre": o Salvador foi "predestinado antes da fundação do mundo." O povo de Deus foi "escolhido em Cristo antes de o mundo começar." O grande Autor "anuncia o fim desde o princípio", e assim livra as suas disposições de qualquer acusação de mutabilidade ou contingência. Cada evento na igreja é fixado, permitido e provido — não no instante passageiro do tempo, mas nos conselhos da eternidade.
Quando, pois, os testemunhos expõem os compromissos fiéis de Deus com o seu povo desde a antiguidade, a lembrança de que estão "fundados para sempre" nos dá um interesse presente e imutável neles. E quando vemos que estão fundamentados no juramento e na promessa de Deus — as duas "coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta" —, podemos verdadeiramente "ter forte consolação" ao arriscar toda esperança da eternidade sobre esta rocha; nem precisamos nos alarmar ao ver todas as nossas dependências terrenas — "o mundo, e a sua concupiscência, e a sua vaidade" — passando diante de nós. — Charles Bridges.
Versículo 154Salmo 119:154
Advoga a minha causa, e livra-me», etc. Embora os piedosos sob perseguição tenham uma boa causa, não podem defendê-la a menos que Deus o Redentor se mostre como Advogado por eles; por isso o salmista ora: "Advoga a minha causa."
Quando Deus o Redentor advoga a causa de um homem, ele o faz com propósito e eficácia: "Advoga a minha causa, e livra-me."
A menos que os clientes do Senhor encontrem, de tempos em tempos, nova influência de Deus em suas tribulações, eles são como homens mortos em seu exercício; é isso que "vivifica-me" traz consigo.
Até que encontremos encorajamento vivo em nossas tribulações, devemos nos apegar à palavra da promessa: "vivifica-me segundo a tua palavra."
Aquilo de que o crente necessita, Deus não só tem vontade de suprir, como também tem o ofício de atendê-lo, e o poder de efetuá-lo, pois aqui ele tem tanto o ofício de Advogado quanto o de um poderoso Redentor, nos quais o crente pode confiadamente dar-lhe ocupação diária, conforme precisa: "Advoga a minha causa, e livra-me: vivifica-me segundo a tua palavra." — David Dickson.
Advoga a minha causa, e livra-me», etc. Ele agora se supõe intimado perante o tribunal dos homens, como certamente estava nas acusações gerais que lhe faziam; intimado, além disso, em sua condição de desamparo, sem nome, sem posição; do modo como seria intimado alguém repudiado. Ele ora para que o Senhor venha e advogue a sua causa; assim ele seria resgatado — pois este é o sentido do original. Ele se considera, por assim dizer, como alguém vendido a juízes corruptos, ou, em todo caso, como alguém que perdeu a sua posição na sociedade diante da estimativa dos homens. Mas, se o Senhor vier e sustentar a causa do seu servo, o seu servo será de fato resgatado. Há boa confiança nesta oração; o homem de Deus conhece o caminho do Senhor, e faz o seu pedido com fé. Ó, quanto precisamos conhecer o caráter justo do Senhor em nossas horas de grande angústia! Ora, o Senhor advoga a causa dos seus pelo poder da verdade; advoga-a também nas suas providências de diversos tipos; ele atua sobre os corações, as esperanças e os temores dos homens; e de muitos modos maravilhosos advoga a causa do seu povo. Ele resgata os seus santos de todo mal; e, se não de todo mal neste mundo, certamente de todo mal quanto ao mundo vindouro. — John Stephen.
Advoga a minha causa, e livra-me», etc. Neste versículo há três pedidos, todos sustentados pelo mesmo argumento. No primeiro, ele afirma o seu direito e que era injustamente afligido por causa dos ímpios; por isso, oprimido pelas suas calúnias, deseja que Deus assuma a sua defesa: "Advoga a minha causa." No segundo, ele representa a miséria e o desamparo da sua condição; por isso, oprimido pela violência, diz: "Livra-me"; ou, como as palavras também permitem, "Resgata-me". No terceiro, sua própria fraqueza e prontidão para desfalecer sob esse fardo; por isso diz: "Vivifica-me."
Ou, em suma, quanto à injustiça de seus adversários, "Advoga a minha causa"; quanto à miséria da sua própria condição, "Livra-me"; quanto à fraqueza e debilidade do seu próprio coração, "Vivifica-me."
A razão e o fundamento do pedido: "segundo a tua palavra." Esta última cláusula deve ser aplicada a todos os ramos da oração: "Advoga a minha causa", "segundo a tua palavra"; "livra-me", "segundo a tua palavra"; "vivifica-me", "segundo a tua palavra": pois Deus, na sua palavra, se compromete com tudo isso: ser advogado, Redentor e fonte de vida. A palavra sobre a qual Davi se apoiava foi encontrada ou nas promessas gerais feitas aos que guardavam a lei, ou em alguma promessa particular feita a ele mesmo pelos profetas daquele tempo. — Thomas Manton.
Advoga a minha causa, e livra-me. Uma mulher perversa certa vez levantou contra o Dr. Payson uma acusação, em circunstâncias que pareciam tornar impossível que ele escapasse. Ela estava no mesmo navio em que, muitos meses antes, ele fora a Boston. Por um tempo, pareceu quase certo que o seu caráter seria arruinado. Ele estava cortado de todo recurso, exceto o trono da graça. Sentiu que a sua única esperança estava em Deus, e a ele dirigiu a sua oração fervorosa. Foi ouvido pelo Defensor dos inocentes. Uma "visitação de remorso" levou a desgraçada mulher a confessar que tudo não passava de uma calúnia maliciosa. — De Asa Cummings, Memoir of Edward Payson.
Advoga a minha causa. Não sei se Davi quis dizer, ao chamar Deus a advogar a sua causa, algo mais do que isto: que ele viesse a comprovar a sua inocência e torná-la manifesta a todos, livrando-o da mão de todos os seus inimigos; mas, tenha ele ou não uma referência mais profunda, a palavra traz de volta, com força e doçura, ao coração de todo cristão, aquele que era de fato o Advogado dos pobres pecadores, o próprio Jesus Cristo, o justo, que é a propiciação pelos nossos pecados. — Barton Bouchier.
Advoga a minha causa. Os filhos deste mundo são mais sábios em sua geração do que os filhos de Deus — o que levou Davi, aqui, a orar para que Deus advogasse a sua causa e fosse seu Advogado contra todas as mentiras deles. Ele não confiava na equidade da sua própria causa, mas no Senhor. Daí concluímos que a razão pela qual nossos opressores frequentemente prevalecem contra nós é que confiamos demais em nossa própria astúcia, e nos apoiamos demais em nossas próprias invenções, opondo sutileza a sutileza, um artifício mau a outro, medindo e sustentando estratégia por estratégia, em vez de entregar a nossa causa a Deus. — Abraham Wright.
Livra-me. Não como em Salmos 119:153, mas uma palavra que significa resgatar, ou salvar por vingança. O particípio correspondente é traduzido como redentor, vingador, retribuidor, parente, parente próximo, parente mais próximo. — William S. Plumer.
Vivifica-me. Aqui, de novo, somos chamados a considerar a disposição da mente piedosa. A todo momento, o grande desejo do homem de Deus é avançar na vida divina. Ele tira ganho espiritual de tudo. Busca as suas pérolas preciosas até em condições estranhas; a razão é que o seu coração está posto nessas coisas. Livramento do mal temporal, livramento do mal espiritual, ambos eram buscados; mas junto com eles, o homem de Deus sempre retoma a oração para ser vivificado. Certamente podemos entendê-lo como alguém que busca vida. Tal é o sentido da expressão; mas, num homem como Davi, a vida que ele busca há de ser a mais elevada. Ele deseja acima de tudo a vida espiritual; quer se aproximar mais de uma bendita semelhança com Deus, para que assim possa desfrutar do bem supremo. Assim suspira a alma nascida do céu... Dá isso ao crente, e isso o colocará acima de todos os males da vida. E isso, e todo bem, tinha sido prometido na palavra. Por isso ele ora: "vivifica-me segundo a palavra." Ele se apoia na palavra para tudo; ali não pode se enganar. Julgai-vos a vós mesmos, irmãos, pelas vossas aspirações espirituais. Nada menos do que isso provará que sois dos resgatados do Senhor. — John Stephen.
Versículos 154–156Salmo 119:154-156
- — Vivifica-me. Ore para ser vivificado, como o salmista tantas vezes faz, e olhe para Jesus, que é espírito vivificante: 1 Coríntios 15:45. "O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão, espírito vivificante." Assim como ele já lhe deu vida, também está pronto para dá-la cada vez mais abundantemente; isso o fará viver para ele, e ser incansavelmente ativo por ele. — Nathanael Vincent, em A Present for such as have been Sick and Recovered, 1693.
Versículo 155Salmo 119:155
A salvação está longe dos ímpios. O Senhor é onipotente para perdoar; mas não usará isso a teu favor, pecador impenitente. Não tens amigo algum no tribunal; nenhum atributo, em todo o nome de Deus, falará por ti. A própria misericórdia se assentará e votará com os demais atributos irmãos pela tua condenação. Deus é capaz de salvar e ajudar em tempo de necessidade, mas com base em que intimidade és tão ousado com Deus a ponto de esperar que o seu braço salvador se estenda por ti?
Ainda que um homem se levante à meia-noite para deixar entrar um filho que chora e bate à sua porta, não fará tanto esforço por um cão que uiva ali fora. Isto retrata a tua condição, pecador — já bastante triste —, e ainda assim é o modo mais brando de contar a tua história; pois aquele mesmo poder onipotente de Deus, que está empenhado na salvação do crente, está igualmente comprometido em levar-te à tua execução e condenação.
Que laço maior existe que um juramento? O próprio Deus está sob juramento de ser a destruição de toda alma impenitente. O juramento que Deus fez em sua ira contra os israelitas incrédulos, de que não entrariam no seu descanso, diz respeito a todo incrédulo até o fim do mundo. Em nome de Deus, considera: se fosse apenas o juramento de um homem, ou de um grupo de homens que, como aqueles em Atos, jurassem a morte de alguém, e tu fosses esse alguém, isso não te encheria de medo e tremor, noite e dia, tirando o sossego da tua vida, até que os fizesses teus amigos? Do que, então, são feitas as almofadas daqueles que conseguem dormir tão profundamente, sem horror nem espanto, mesmo sabendo que o Deus todo-poderoso está sob juramento de condená-los, corpo e alma, sem arrependimento a tempo? — William Gurnall.
Salvação! Que música há nessa palavra. Música que nunca cansa, mas está sempre nova, que sempre desperta e ao mesmo tempo sempre nos dá repouso! Ela contém em si tudo o que o nosso coração gostaria de dizer. É doce rigor para nós de manhã, e à noite é paz contente. É um cântico que canta a si mesmo, bem fundo, na alma deliciada. Ouvidos angélicos se enlevam com ele lá no céu; e o nosso Pai Eterno mesmo o escuta com adorável complacência. É doce até para aquele de cuja mente vem a música de mil mundos.
Ser salvo! O que é isso, no seu sentido mais pleno e derradeiro? Quem pode dizer? Olho nenhum viu, nem ouvido ouviu. É um resgate — e de que naufrágio! É um repouso — e em que lar inimaginável! É deitar-se para sempre no seio de Deus, num êxtase sem fim de contentamento insaciável. — Frederick William Faber, 1853.
Versículos 155–156Salmo 119:155-156
A salvação está longe dos ímpios. "Grandes são as tuas ternas misericórdias, ó SENHOR." Quando os piedosos pensam ou falam da condição condenável dos ímpios, não devem ficar insensíveis ao seu próprio merecimento de mal, nem à graça de Deus que fez a diferença entre os ímpios e eles. — David Dickson.
Versículo 156Salmo 119:156
Grandes são as tuas ternas misericórdias, ó SENHOR. Ele atribui às misericórdias de Deus dois epítetos: primeiro, chama-as "grandes"; depois, chama-as misericórdias "ternas". São grandes em muitos aspectos: em duração, perduram para sempre; em amplitude, alcançam os céus, e são mais altas do que eles; sim, estão acima de todas as obras de Deus. E isso é para o consolo dos pobres pecadores, cujos pecados são muitos e grandes: que não desesperem; as suas misericórdias são maiores e mais numerosas — pois, se são maiores que todas as suas obras, quanto mais maiores que tu e todas as tuas obras pecaminosas!
O outro epíteto que ele lhes dá é que são misericórdias "ternas"; porque o Senhor é fácil de comover, pois é tardio para a ira, mas pronto para mostrar misericórdia. Diz Tiago que a sabedoria que vem do alto é "branda, pacífica, tratável." Se a graça dele em seus filhos os torna brandos e tratáveis, o que devemos pensar dele mesmo? Já que ele quer tal piedade em nós, pobres criaturas, que setenta vezes sete ao dia nos manda perdoar as ofensas dos nossos irmãos — ah, quanta piedade e compaixão abundam nele mesmo! Assim vemos o nosso consolo aumentado: que, assim como as suas misericórdias são grandes, também são ternas — facilmente obtidas onde são sinceramente pedidas. — William Cowper.
O salmista, ao falar da condição miserável "dos ímpios", é naturalmente levado a adorar as misericórdias do Senhor que o fizeram "diferir." Pois é somente a essa fonte que devemos atribuir a distinção entre nós e eles. — Charles Bridges.
Versículo 157Salmo 119:157
Perseguidores. Particípio do verbo traduzido como perseguir, caçar. "Inimigos", como no versículo 139, os autores da minha aflição. Até que um homem seja caçado e acossado por muitos inimigos que, por algum tempo, têm poder, e são além disso ferozes e, em certa medida, sem escrúpulos, ele mal pode conceber a angústia do profeta ao experimentar os males mencionados neste versículo. Ainda assim, isso não o afastou da sua constância e integridade. — William S. Plumer.
Versículo 158Salmo 119:158
Eu vi os transgressores, e me enojei. Celerino, nas Epístolas de Cipriano, conta a um amigo a sua grande dor pela apostasia de uma mulher por medo da perseguição; o que o afligiu tanto que, na festa da Páscoa (a rainha das festas na igreja primitiva), ele chorou noite e dia, e resolveu nunca mais conhecer um momento de alegria até que, pela misericórdia de Deus, ela fosse restaurada. — Charles Bridges.
Eu vi os transgressores, e me enojei. Ah, se tendes coração de cristãos, ou sequer de homens, que ele se compadeça dos vossos pobres vizinhos ignorantes e ímpios. Ai, há apenas um passo entre eles e a morte e o inferno: centenas de doenças estão prontas para atacá-los, e se morrerem sem se converter estarão perdidos para sempre. Tendes corações de pedra, que não conseguem ter pena de homens em tal situação?
Se não credes na palavra de Deus, nem no perigo dos pecadores, por que sois vós mesmos cristãos? Se credes, por que não vos movei a ajudar os outros? Não vos importa quem se condena, contanto que vós sejais salvos? Se assim é, tendes motivo suficiente para ter pena de vós mesmos, pois essa é uma disposição de espírito totalmente incompatível com a graça: não deveríeis antes dizer, como os leprosos de Samaria, não é este um dia de boas novas, e ficamos nós calados e quietos? 2 Reis 7:9.
Teve Deus tanta misericórdia de vós, e não tereis misericórdia dos vossos pobres vizinhos? Não precisais ir longe para encontrar objetos da vossa compaixão: basta olhar para as vossas ruas, ou para a casa ao lado, e provavelmente encontrareis alguns. Não tendes algum vizinho ignorante, não convertido, que põe o coração nas coisas de baixo e negligencia a eternidade? Que lugar abençoado é esse em que viveis, onde não há tal pessoa? Se não houver algum deles na vossa própria família, tanto melhor; mas, ainda assim, ficais calados?
Viveis perto deles, ou os encontrais nas ruas, ou trabalhais com eles, ou viajais com eles, ou sentais e conversais com eles, e nada lhes dizeis sobre as suas almas ou a vida futura? Se as casas deles estivessem em chamas, correríeis para ajudá-los; e não os ajudareis quando as suas almas já estão quase no fogo do inferno? Se conhecêsseis um remédio para as suas doenças, lho diríeis, ou então vos julgaríeis culpados pela morte deles. — Richard Baxter (1615-1691), em The Saints' Everlasting Rest.
Enojado, porque não guardavam a tua lei. Eu nunca pensei que o mundo fosse tão ímpio, quando o Evangelho começou, quanto vejo agora que é; antes esperava que todos saltassem de alegria por se verem livres da imundície do papa, das suas lamentáveis perseguições às pobres consciências atribuladas, e que, por meio de Cristo, obteriam pela fé o tesouro celestial que antes buscavam com tanto custo e labor, ainda que em vão. E especialmente pensava que os bispos e as universidades receberiam com alegria de coração as verdadeiras doutrinas; mas fui lamentavelmente enganado. Também Moisés e Jeremias se queixaram de terem sido enganados. — Martinho Lutero.
Enojado. A palavra aqui traduzida "enojado" vem de katat, que significa detestar, abominar e contender. Vi os transgressores, e os detestei; vi os transgressores, e os abominei; vi os transgressores, e contendi com eles; mas não tanto porque eram meus inimigos, quanto porque eram teus. — Thomas Brooks.
O dia em que encontrei pela primeira vez o coronel Gardiner, em Leicester, aconteceu de eu pregar uma preleção sobre Salmos 119:158: "Eu vi os transgressores, e me enojei; porque não guardavam a tua palavra." Estendi-me em descrever aquela mistura de indignação e tristeza, tão fortemente expressa pela palavra original ali, com que um homem bom observa os variados transgressores da lei divina; e em traçar as causas dessa tristeza, que nascem tanto do zelo pela honra divina e pelo interesse de um Redentor, quanto de uma compaixão pela miséria que tais ofensores atraem sobre si mesmos, e pelo mal que fazem ao mundo ao seu redor.
Eu mal imaginava o quanto estava, sem saber, traçando o retrato do coronel Gardiner em cada um desses pontos; e muitas vezes refleti sobre isso como uma feliz providência, que abriu um caminho muito mais rápido do que eu poderia esperar até o coração de um dos amigos mais amáveis e úteis que já esperei encontrar sobre a terra. Depois cantamos um hino, que retomava alguns dos pensamentos centrais do sermão, e que o tocou tão fortemente que, ao obter uma cópia dele, ele o guardou de memória, e costumava recitá-lo com um acento tão veemente que mostrava o quanto cada linha exprimia da sua própria alma. Nessa perspectiva, o leitor há de perdoar-me por inseri-lo aqui — sobretudo porque não sei quando terei tempo de publicar um volume dessas composições sérias, embora sem arte, que lhe enviei em manuscrito há alguns anos, e às quais desde então acrescentei muito mais. —
Ergam-se, meus mais ternos pensamentos, ergam-se,
Em torrentes se derretam meus olhos correntes;
E tu, meu coração, com angústia sente
Esses males que não podes curar.
Vê a natureza humana afundada em vergonha;
Vê os escândalos derramados sobre o nome de Jesus;
O Pai ferido através do Filho;
O mundo abusado, e almas perdidas.
Vê o breve curso do prazer vão
Fechando-se em noite eterna;
Em chamas que não conhecem alívio,
Embora lágrimas salgadas fluam para sempre.
Meu Deus, eu sinto a cena pungente;
Minhas entranhas se compadecem dos homens moribundos,
E minha piedade quisera resgatá-los,
E arrancar os tições da chama.
Mas fraca se mostra a minha compaixão,
E só pode chorar onde mais ama;
Emprega tu o teu próprio braço que tudo salva,
E transforma estas lágrimas de dor em alegria.
— Philip Doddridge, em The Life of Colonel Gardiner.
Versículo 159Salmo 119:159
Considera como amo os teus preceitos. Examina-me. Vê a prova do meu apego à tua lei. Este é o apelo confiante de alguém consciente de que era verdadeiramente apegado a Deus, de que realmente amava a sua lei. É semelhante ao apelo de Pedro ao Salvador (João 21:17): "Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que te amo." Um homem que verdadeiramente ama a Deus pode fazer esse apelo sem impropriedade. Pode estar tão confiante, tão certo de que tem verdadeiro amor pelo caráter de Deus, que pode fazer-lhe um apelo solene sobre o assunto, como poderia apelar a um amigo, à sua esposa, ao seu filho, à sua filha, com toda a confiança de que os ama. Um homem deveria ter tal amor por eles que pudesse afirmá-lo sem hesitação nem dúvida; um homem deveria ter tal amor por Deus, que pudesse afirmá-lo com igual confiança e propriedade. — Albert Barnes.
Considera como amo os teus preceitos. Ele não diz: considera como cumpro os teus preceitos; mas como os amo. O consolo de um cristão militante, neste corpo de pecado, está mais na sinceridade e no fervor de seus afetos do que na perfeição absoluta de suas ações. Ele falha muitas vezes na obediência aos preceitos de Deus quanto à ação; mas o amor, em seu afeto, permanece; de modo que, tanto antes da tentação de pecar quanto depois dela, há uma dor em sua alma por encontrar em si mesmo qualquer vontade ou desejo corrupto, contrário à santa vontade do Senhor seu Deus; e isso comprova nele um amor invencível pelos preceitos de Deus. — William Cowper.
Considera, etc. Traduza (sendo o hebraico o mesmo que no versículo 158) "Vê como amo os teus preceitos", como se evidencia em que, quando "vi os transgressores, me enojei." Ele pede a Deus que veja isso, não como meritório de graça, mas como marca distintiva de um homem piedoso. — A. R. Fausset.
Eu amo os teus preceitos: vivifica-me. O amor com que ele amava a Deus vinha do amor com que Deus primeiro o amou. Pois, ao ver o grande amor com que Deus o amava, foi movido e impelido a amar a Deus de volta. De modo que o sentido é este: Vês, Senhor, que sou inimigo do pecado em mim mesmo, pois não me esqueço da tua lei; vês que sou inimigo do pecado nos outros, pois me enojo ao vê-los transgredir a tua lei; portanto, ó Senhor, "vivifica-me", e que a tua benigna misericórdia, pela qual me criaste e me redimiste em Cristo, pela qual me livraste de tantas tribulações e me enriqueceste com tantos e contínuos benefícios, me renove, me reanime, me vivifique e me restaure. — Richard Greenham.
Vivifica-me. Por mais vezes que o salmista tenha repetido a sua oração pela graça vivificante, não foi uma "vã repetição", nem um som vazio*. Cada vez, ela foi reanimada por fé abundante, pelo sentimento intenso da sua necessidade, e pela veemência do afeto mais ardente. Se a consciência da fraqueza das nossas forças e da frieza dos nossos afetos nos levasse a oferecer esta petição cem vezes ao dia neste mesmo espírito, ela jamais deixaria de ser aceita. — Charles Bridges.
*Nove vezes é urgida a petição: nos versículos 25, 37, 40, 88, 107, 149, 154, 156 e 159.
Segundo a tua benignidade. Não precisamos desejar ser vivificados além do que a benignidade de Deus nos vivificará. — Matthew Henry.
Versículo 160Salmo 119:160
A tua palavra é verdadeira desde o princípio. Literalmente, "o princípio da tua palavra é verdade", em antítese ao "dura para sempre", no futuro, na cláusula seguinte. Cocceius e Hengstenberg entendem: "A soma da tua palavra é verdadeira", como em Números 26:2 e 31:26. Mas a antítese notada acima na versão inglesa se perderia assim; e as versões antigas apoiam a versão inglesa. Além disso, se fosse "a soma", deveria seguir-se o plural, a saber, "das tuas palavras", não "palavra". — A. R. Fausset.
A tua palavra é verdadeira desde o princípio», etc. Como se dissesse: Creio que assim me vivificarás, porque o próprio princípio da tua palavra é justíssimo e verdadeiro; e quando primeiro entraste em aliança comigo, descobri que não me enganavas, nem me iludias. E quando, pelo teu Espírito, me fizeste crer na tua aliança, querias dizer a verdade; e sei que, assim como prometeste, cumprirás, pois não és mais generoso ao prometer do que fiel e justo ao cumprir, e o teu juízo será tão justo quanto verdadeira é a tua promessa. Sei que, assim que falas, procede de ti a verdade; e do mesmo modo sei que me defenderás e me preservarás, para que os teus juízos brilhem como justos em ti. — Richard Greenham.
A tua palavra é verdadeira desde o princípio», etc. O mandamento e a promessa de Deus são extraordinariamente amplos, alcançando todos os tempos. Foi uma palavra de mandamento "o guia da tua juventude"? Garanto-te que será tão bom bordão para a tua velhice. Uma boa promessa é uma boa ama, tanto para o bebê recém-nascido quanto para o velho decrépito. Os melhores cordiais dos boticários, com o tempo, perdem a sua força, e às vezes quanto mais fortes, mais depressa a perdem. Mas uma promessa te alegrou, digamos, há vinte, trinta, quarenta anos? Prova-a agora de novo, e a acharás tão fresca, tão cheia de alívio como sempre.
Se ela foi a tua maior alegria na tua alegre juventude, digo-te, ela tem tanta alegria também para a tua triste velhice. Pode-se dizer da palavra de Deus o que o profeta diz do próprio Deus (Isaías 46:4): "E até a vossa velhice eu sou o mesmo; e ainda até às cãs eu vos carregarei." Não diz o salmista o mesmo aqui, "a tua palavra é verdadeira desde o princípio"? Está bem, ela começa bem. Mas durará tão bem assim? Sim: ele acrescenta, "e cada um dos teus justos juízos dura para sempre." Correspondente a isso é aquela outra expressão (versículo 152): "Quanto aos teus testemunhos, eu os conheço desde a antiguidade, que tu os fundaste para sempre." "Para sempre", e "fundados para sempre." Ó doce expressão! Ó consolo bem fundado!
Irmãos, familiarizai-vos com a palavra e a promessa de Deus tão logo possais, e mantende essa familiaridade para sempre; e o vosso conhecimento dela jamais irá além, nem ficará aquém da sua verdade. Conhecei-a tão cedo e por tanto tempo quanto quiserdes ou puderdes, e jamais a achareis a tropeçar ou a falhar; mas podereis, depois de longa experiência de Deus, dizer dela: "Eu a conheço desde a antiguidade, que tu a fundaste para sempre." — Anthony Tuckney, 1599-1670.
Versículo 161Salmo 119:161
Príncipes me perseguiram. O mal se agrava ao considerarmos que são justamente as pessoas que deveriam ser como escudos para nos defender que empregam a sua força para nos ferir. Sim, quando os aflitos são atingidos por aqueles em altas posições, de certo modo pensam que a própria mão de Deus está contra eles. Havia também esta particularidade no caso do profeta: ele teve de enfrentar os grandes do povo escolhido — homens que Deus tinha colocado em posições tão honrosas justamente para que fossem as colunas da Igreja. — João Calvino.
Sem causa. Tenho por ponto estabelecido que, quanto mais diligente e fielmente sirvo a Cristo, maior reprovação e maior injúria devo esperar. Bebi profundamente, ultimamente, do cálice da calúnia e da reprovação, mas de modo algum estou desanimado; nem sequer pelo que é muito mais difícil de suportar — o insucesso dos meus esforços para corrigir este mundo perverso. — Philip Doddridge.
Sem causa. Sabemos quantas perseguições o corpo de Cristo, isto é, a santa Igreja, sofreu dos reis da terra. Reconheçamos, pois, aqui também as palavras da Igreja: "Príncipes me perseguiram sem causa." Pois em que os cristãos tinham ferido os reinos da terra? Embora o seu Rei lhes prometesse o reino dos céus, pergunto: em que haviam ferido os reinos da terra? Proibiu o seu Rei os seus soldados de pagar e de prestar o devido serviço aos reis da terra? Não disse ele aos judeus que se esforçavam por caluniá-lo: "Dai, pois, a César o que é de César; e a Deus o que é de Deus"? Mateus 22:21. Não pagou ele mesmo, em pessoa, tributo tirado da boca de um peixe?
Não disse o seu precursor, quando os soldados deste reino perguntavam o que deveriam fazer para a sua salvação eterna — não lhes respondeu, em vez de "soltai os vossos cintos, lançai fora as vossas armas, desertai do vosso rei, para que possais guerrear pelo Senhor" —, antes: "A ninguém trateis mal, nem defraudeis; e contentai-vos com o vosso soldo"? Lucas 3:14. Não disse um dos seus soldados, o mais amado dos seus companheiros, aos seus companheiros de armas, por assim dizer os provincianos de Cristo: "Todo homem esteja sujeito às potestades superiores"? E um pouco adiante acrescenta: "Dai, pois, a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra. A ninguém devais coisa alguma, senão o amor com que vos ameis uns aos outros." Romanos 13:1; Romanos 13:7-8.
Não ordena ele à Igreja que ore até pelos próprios reis? Como, então, os cristãos ofenderam contra eles? Que dívida deixaram de pagar? Em que não obedeceram os cristãos aos monarcas da terra? Os reis da terra, portanto, perseguiram os cristãos sem causa. — Agostinho.
Mas o meu coração teme a tua palavra. Se ainda resta em teu coração algum resquício de temor — temor da ira de homens sanguinários que te ameaçam por causa da tua profissão da verdade —, então, a um coração inflamado pelo amor da verdade, trabalha para acrescentar um coração cheio do temor daquela ira que Deus reservou para todos os que apostatam da verdade. Quando por acaso queimas o dedo, aproximas-o do fogo, que, sendo maior fogo, absorve o outro. Assim, quando os teus pensamentos estiverem chamuscados, e o teu coração amedrontado pelo fogo da ira do homem, aproxima-os por um momento do fogo do inferno, que Deus preparou para os medrosos (Apocalipse 21:8) e para todos os que fogem das cores da verdade (Hebreus 10:39), e perderás o sentido de um por medo do outro.
Ignosce, imperator, tu carcerem, Deus gehennam minatur — "Perdoa-me, ó imperador, se não obedeço à tua ordem; tu ameaças com uma prisão, mas Deus, com um inferno." Digno de nota é o que diz Davi: "Príncipes me perseguiram sem causa: mas o meu coração teme a tua palavra." Ele não tinha motivo para temê-los, pois eles não tinham motivo para persegui-lo. Uma só ameaça vinda da palavra, que fixa a ponta da ira de Deus em seu coração, assusta-o mais do que o pior que os maiores da terra poderiam fazer-lhe.
A ira do homem, mesmo no seu auge, é apenas um clima temperado comparado à ira do Deus vivo. Os que sentiram ambas o atestam. A ira do homem não pode impedir o acesso do amor de Deus à criatura, o que fez os santos cantarem em meio ao fogo, a despeito dos dentes dos seus inimigos. Mas a criatura sob a ira de Deus é como alguém trancado num forno fechado, sem fresta aberta por onde sair o calor, nem por onde entrar qualquer alívio para ele. — William Gurnall.
O meu coração teme a tua palavra. Há um temor da palavra que não nos faz esquivar-nos dela, mas nos torna cuidadosos para não a violar, nem fazer nada contrário a ela. Este não é fruto de medo servil, mas de santo amor; não teme a palavra, mas nela se deleita, pois ela revela a mente de Deus a nós — como está escrito no versículo seguinte: "Eu me alegro na tua palavra." Este temor tem nome próprio: reverência, ou santo temor; quando consideramos de quem é a palavra, a saber, do Senhor, que é o nosso Deus, e tem direito de ordenar o que lhe apraz; a cuja vontade e palavra já rendemos obediência, e a quem nos consagramos para andar de modo digno dele em tudo que lhe agrada; que pode nos descobrir em todas as nossas falhas, pois conhece os nossos próprios pensamentos de longe (Salmos 139:2), e tem todos os nossos caminhos diante de si, sendo aquele de quem lemos: "Ele é um Deus santo; é um Deus zeloso; não perdoará as vossas transgressões nem os vossos pecados" (Josué 24:19), isto é, se nelas impenitentemente permanecermos. Considerando estas coisas, recebemos a palavra com aquele tremor de coração que tanto agrada a Deus. — Thomas Manton.
Temor da tua palavra. Eu aconselharia a todos vós que vindes ler ou ouvir este livro, que é a palavra de Deus, a mais preciosa joia e a mais santa relíquia que resta sobre a terra, que tragais convosco o temor de Deus, e que o façais com toda a devida reverência, e useis o vosso conhecimento dela não para vanglória de disputas frívolas, mas para a honra de Deus, o aumento da virtude, e a edificação tanto de vós mesmos quanto dos outros. — Thomas Cranmer, 1489-1555.
Temor da tua palavra. Aqueles que tremem diante das convicções da palavra podem triunfar nas suas consolações. — Matthew Henry.
Versículo 162Salmo 119:162
Alegro-me com a tua palavra, como quem encontra grande despojo. Ele nunca chegava a uma ordenança senão como um soldado ao despojo, depois de uma grande batalha, tendo uma guerra constante contra as suas corrupções que combatiam contra a sua alma. Agora ele vem ver o que Deus lhe dirá, e fará de si mesmo alguém que poupa ou ganha, tirando um butim de cada mandamento, promessa ou ameaça que ouve. — John Cotton (1585-1652), em The Way of Life.
Alegro-me com a tua palavra. "Eurípides", diz o orador, "tem em suas tragédias bem compostas mais sentimentos do que ditos"; e Tucídides encheu tanto cada sílaba da sua história de substância, que uma corre paralela à outra; as obras de Lísias estão tão bem encaixadas que não se pode tirar a menor palavra sem levar junto o sentido inteiro; e Fócion tinha uma faculdade especial de dizer muito em poucas palavras. Os cretenses, no tempo de Platão (embora já degenerados no tempo de São Paulo), eram mais ponderados do que verbosos; Timantes era famoso por isto: em seus quadros, mais coisas eram sugeridas do que retratadas; e de Homero se diz que ninguém jamais o igualou em poesia.
Ora, quanto mais aptos e apropriados são esses grandes elogios ao livro de Deus, chamado com razão a Bíblia, ou o livro — como se fosse, e de fato é, tanto pela justeza dos termos quanto pela plenitude da verdade, o único livro diante do qual (como diz Lutero) todos os livros do mundo não passam de papel velho. Chama-se a palavra, por excelência, porque deve ser o alvo e o limite de todas as nossas palavras; e a Escritura, como senhora soberana acima de todas as outras palavras ou escritos dos homens reunidos em volumes — havendo, como dizem os rabinos, uma montanha de sentido pendendo de cada til dela —, de onde se podem colher flores e expressões para polir os nossos discursos, palavras sadias mesmo, que têm em si propriedade curativa, muito acima de todas as frases lapidadas da eloquência humana. — Thomas Adams.
Como quem encontra grande despojo. Esta imagem expressiva pode nos lembrar do conflito interior a ser suportado para adquirir os despojos desta preciosa palavra. Ela é tão contrária ao nosso gosto e temperamento naturais, que somente a abnegação habitual e a luta contra a má disposição do coração podem nos capacitar a "encontrar o despojo." Mas que "grande despojo" se reparte como fruto desse conflito! Quão rica e abundante é a recompensa do "bom soldado de Jesus Cristo", que está determinado, pelo poder do Espírito, a "suportar as dificuldades" até vencer a relutância do seu coração diante deste dever espiritual. Ele "se alegrará ao encontrar grande despojo."
Às vezes — como o despojo com que os leprosos se enriqueceram no acampamento sírio — ele pode ser encontrado inesperadamente. Às vezes vemos as riquezas e os tesouros contidos numa passagem ou doutrina muito antes de podermos fazê-la nossa. E, com frequência, quando nos armamos para o conflito contra a indolência e as divagações, sob a fraqueza da nossa percepção espiritual e o poder da incredulidade, muitas orações e muitos suspiros sobem em busca de ajuda divina, antes que sejamos coroados com a vitória e capacitados, como fruto da nossa conquista, a nos apropriarmos com alegria da palavra para a nossa necessidade e aflição presentes. — Charles Bridges.
Versículo 163Salmo 119:163
Odeio e abomino a mentira», etc. Vê-se aqui como a luz na alma de Davi ia crescendo cada vez mais até o dia perfeito. Na parte inicial deste salmo, Davi, lembrando-se do seu próprio pecado, tinha orado: "Desvia de mim o caminho da mentira", e o Senhor de fato lhe respondeu a oração, pois agora ele declara o seu total repúdio por todo caminho falso: "Odeio e abomino a mentira." E vemos, em certa medida, o instrumento pelo qual o Espírito Santo operou a mudança: "amo a tua lei"; aliás, como ele acrescenta num versículo posterior, "eu os amo extremamente."
E assim deve sempre ser: o coração precisa ter algum objeto mais santo para o seu afeto, a fim de preencher o vazio, ou não haverá segurança contra uma recaída no pecado! Poderia falar para sempre sobre o pecado, a desonra e o perigo da mentira, e, ainda que naquele momento e por um tempo as minhas palavras tivessem alguma influência, a menos que o coração esteja cheio do amor de Deus e da lei de Deus, a primeira tentação se provaria forte demais. A Bíblia nos ensina isso de várias maneiras. Deus diz a Israel não apenas "deixai de fazer o mal", mas "aprendei a fazer o bem." E, ainda mais precisamente, o apóstolo, ao combater a embriaguez, diz: "Não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito." — Barton Bouchier.
Odeio e abomino a mentira. "Mentira", segundo o uso das Escrituras, não significa apenas falar contrário ao que se pensa, mas também pensar contrário à verdade das coisas, e, particularmente, atribuir a outro aquela adoração e glória que são devidas somente ao Deus verdadeiro — pensar e agir à margem da verdade de Deus. Os homens que perseguiam aquele homem piedoso pensavam sobre a prosperidade e o poder terrenos como não deveriam pensar; julgavam falsamente o servo de Deus, e pensavam perversamente a respeito do próprio Deus.
O homem de Deus contemplou essas coisas; viu a perversidade e a vileza delas, e continuou: "A falsidade eu odeio e abomino: a tua lei eu amo." De todos os caminhos falsos e ilusórios dos homens, de todo o orgulho e pompa que cercam as cortes, das ocupações pecaminosas dos homens do mundo, bem como da ostentosa idolatria das nações pagãs, ele podia voltar-se com deleite de coração para a contemplação de Jeová, naquele ritual maravilhoso que manifestava a misericórdia divina em sacrifícios vicários, observâncias e festas; e para aquela santa lei que foi dada como regra do dever do homem e de sua obediência grata — e essas coisas ele amava, como manifestações da graça de Deus. — John Stephen.
Odeio e abomino a mentira: não apenas "odeio-a", nem simplesmente "a abomino", mas "odeio e abomino", para reforçar e intensificar o sentido, e torná-lo mais veemente. Onde a inimizade contra o pecado não é grande, o assunto pode ser negociado e relevado; mas Davi nada quer ter com ele, pois diz: eu o detesto e o abomino, e o odeio com um ódio mortal. Um ódio superficial a um curso de pecado não basta para nos proteger dele. — Thomas Manton.
O pecado parece ter o seu nome tirado da palavra hebraica sana, odiar — a mesma palavra usada aqui —, porque é, acima de tudo, o que mais deve ser odiado, como o maior mal, como aquilo que mais nos afasta de Deus, o maior bem. Ninguém pode odiá-lo senão aqueles que amam a lei de Deus, pois todo ódio vem do amor. Um homem natural pode se irritar com o seu pecado, mas odiá-lo não pode; aliás, pode até abandoná-lo, mas não detestá-lo; se o detestasse, detestaria todo pecado tanto quanto qualquer pecado específico. — Abraham Wright.
Mentira. Toda injustiça é abominável: praticar qualquer tipo de mal é um crime hediondo, mas a mentira é o crime que, acima de todos os outros, tende à dissolução da sociedade e à perturbação da vida humana; por isso Deus mais a abomina, e os homens têm razão especial para detestá-la. Disto o caluniador é o mais profundamente culpado. "A testemunha de Belial escarnece do juízo, e a boca dos ímpios devora a iniquidade", diz o sábio: Provérbios 19:28.
Ele é, de fato, segundo justa estimativa, culpado de todo tipo de injúria, quebrando toda a segunda tábua dos mandamentos referentes ao próximo. De modo bem específico, ele levanta falso testemunho contra o seu próximo: cobiça os bens do seu próximo, pois é constantemente por causa desse desejo desordenado, para sua própria vantagem presumida, que busca despojar o próximo de algum bem e transferi-lo para si mesmo — é assim que o caluniador profere a sua história: ele é também um ladrão e assaltante do bom nome alheio, um desflorador e maculador da reputação, um assassino e homicida da honra. Assim ele viola todas as regras da justiça, e perpetra toda sorte de injúria contra o seu próximo. — Isaac Barrow.
Versículo 164Salmo 119:164
Sete vezes ao dia te louvo. Os afetos da alma não podem ficar secretos por muito tempo; se são fortes, hão de romper em ações. O amor de Deus é como um fogo no coração do homem, que rompe e se manifesta na obediência aos seus mandamentos, e no louvor por seus benefícios; e é isto que Davi agora declara: que o amor de Deus não estava ocioso em seu coração, mas o tornava fervoroso e diligente em louvar a Deus, de modo que "sete vezes ao dia" ele o louvava. Pois por esse número se expressa o cuidado da santa devoção, e a fervura do seu amor. Ao louvar a Deus, ele não conseguia se satisfazer, diz Basílio. — William Cowper.
Sete vezes ao dia te louvo. "Assim como cada graça", diz Sibbes, "cresce pelo exercício de si mesma, assim também cresce a graça da oração. Pela oração aprendemos a orar." E assim foi com o salmista; muitas vezes ele antecipava o despontar da manhã para o seu exercício de oração, e à meia-noite frequentemente se levantava para derramar a alma em oração; agora ele acrescenta que "sete vezes ao dia", ou como poderíamos dizer, "a cada volta e a cada momento", ele encontra oportunidade e deleite no louvor. Ah, quem dera o espírito de Davi e a prática de Davi! — Barton Bouchier.
Sete vezes ao dia te louvo. Um cristão deveria dedicar-se de modo eminente a este diário sem limites. — Walter Marshall.
Sete vezes ao dia te louvo. Não como se ele tivesse sete horas fixas para este dever a cada dia, como os papistas gostariam, para justificar as suas sete horas canônicas, mas antes um número definido é posto por um indefinido, e assim equivale a isto: ele louvava a Deus muitas vezes ao dia; o seu coração santo aproveitava o ensejo de cada providência para levá-lo ao céu neste ofício de oração e louvor. — William Gurnall.
Sete vezes ao dia. Alguns dos rabinos judeus afirmam que Davi deve ser entendido aqui ao pé da letra, observando que os hebreus devotos costumavam louvar a Deus duas vezes de manhã, antes de ler os dez mandamentos, e uma vez depois; duas vezes à noite, antes de ler a mesma porção inspirada, e duas vezes depois — o que perfaz o número de sete vezes ao dia. — Nota de James Anderson a Calvino, no lugar.
Versículo 165Salmo 119:165
Grande paz têm os que amam a tua lei. Em meio às tempestades e temporais do mundo, há uma calma perfeita no peito daqueles que não só fazem a vontade de Deus, mas "amam" fazê-la. Estão em paz com Deus, pelo sangue da reconciliação; em paz consigo mesmos, pela resposta de uma boa consciência e pela sujeição dos desejos que guerreiam contra a alma; em paz com todos os homens, pelo espírito de caridade; e toda a criação está de tal modo em paz com eles que todas as coisas cooperam para o seu bem. Nenhuma tribulação externa pode roubar-lhes essa "grande paz"; nenhuma "ofensa" ou tropeço lançado em seu caminho pela perseguição, pela tentação, pela malícia dos inimigos, pela apostasia dos amigos, por nada que vejam, ouçam ou sintam, pode detê-los ou desviá-los do seu rumo. O amor celestial supera todo obstáculo, e corre com deleite o caminho dos mandamentos de Deus. — George Horne.
Grande paz têm os que amam a tua lei. Houve Elis a tremer pela arca de Deus, e Uzás a estender a mão com medo de que ela caísse; mas em meio às mais profundas tribulações pelas quais a igreja passou, e às mais ferozes tempestades que sobre ela se abateram, sempre houve homens de Deus verdadeiros e fiéis que jamais desesperaram. Em toda época houve Luteros e Latimers, que não só mantiveram firme a sua confiança, como viram a sua paz se aprofundar com o rugir das ondas. Quanto mais abandonados pelos homens, mais estreita se tornava a sua comunhão com Deus. E, com firme apego a ele e às suas promessas, e corações capazes de entrar no lugar secreto do Altíssimo, embora tudo por fora se agitasse, ameaçasse e alarmasse, foram conduzidos a uma paz perfeita. — James Martin, em The Christian Mirror, and other Sermons, 1878.
Grande paz têm os que amam a tua lei. A limpidez da consciência ajuda a pensamentos consoladores. Observe-se, porém, que a paz não é tanto produzida quanto preservada por uma boa consciência e uma boa conduta; pois, embora o gozo no Espírito Santo não faça ninho senão numa alma santa, só o sangue de Cristo pode falar paz: "sendo justificados pela fé, temos paz": Romanos 5:1. Uma vida exata não faz, mas mantém quieta a consciência; um sapato confortável não cura um pé ferido, mas preserva de ferimento um pé são.
Andar com Deus segundo as regras do evangelho traz consigo a paz, e essa paz é um tesouro tal que, por meio dele, o cristão pode ter o seu regozijo em si mesmo. Gálatas 6:4; Gálatas 6:16. O seu próprio coração lhe canta uma alegre melodia, que as ameaças e reprovações do mundo não conseguem silenciar. O tesouro do consolo não se esgota na aflição; a própria morte não o consome, antes o aumenta e o eleva a um triunfo eterno. Ó a excelência e a necessidade disso! Paulo o guardou como cordial para o seu leito de morte: "A nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência": 2 Coríntios 1:12. E Ezequias ousa apresentá-lo diante de Deus, tanto quanto se anima com ele diante da morte que se aproximava.
Uma consciência boa em ponto de integridade também será boa em ponto de tranquilidade: "Os justos são ousados como o leão": têm grande paz os que amam e guardam os mandamentos de Deus: Provérbios 28:1; Salmos 119:165. E diz o apóstolo: "Se o nosso coração não nos condena, temos confiança para com Deus" (1 João 3:2), e eu acrescentaria também: para com os homens. Ah, que consolo e alívio tem uma consciência limpa! Um homem consciencioso tem algo por dentro para responder às acusações de fora; tem um tesouro tão rico que não falhará nos maiores apertos e riscos. Concluirei isto com um dito notável de Bernardo: "Os prazeres de uma boa consciência são o Paraíso das almas, a alegria dos anjos, um jardim de delícias, um campo de bênção, o templo de Salomão, a corte de Deus, a habitação do Espírito Santo." — Oliver Heywood.
Grande paz. Note-se que, para "paz", a palavra hebraica é shalom: ela significa não só "paz", mas também perfeição, integridade, prosperidade, tranquilidade, saúde, segurança, a completude e a consumação de todo bem; e assim é frequentemente empregada pelos hebreus; daí, em saudações, ao desejar bem uns aos outros, dizem shalom lekha, isto é, "paz seja contigo"; como se dissessem, "que tudo te seja próspero." — Thomas Le Blanc.
Os que amam a tua lei. Amar uma lei pode parecer estranho; mas é a única vida verdadeiramente divina. Guardá-la por medo das suas penalidades é apenas uma forma de temor ou de cálculo prudencial. Guardá-la para preservar um bom nome pode ser mera conveniência e respeitabilidade. Guardá-la porque é o melhor para a sociedade pode ser interesse mundano. Guardá-la por causa da saúde física pode ser a política de uma filosofia epicurista. Guardá-la porque a amamos é mostrar que ela já é parte de nós — que entrou na textura moral do nosso ser. O pecado então se torna repulsivo, e as tentações perdem o seu poder. — W. M. Statham, citado em A Homiletical Commentary on the Psalms, 1879.
E nada os fará tropeçar. Em hebraico, "não terão tropeço." 1 João 4:10: "Não há nele ocasião de tropeço" — naquele que permanece na luz, o que o faz ver e evitar tais tropeços. Riquezas, tribulação, tentação, que são para muitos ocasião de queda (Isaías 8:14-15; Ezequiel 3:20; 7:19; 14:3-4, 7), não o são para ele. — A. R. Fausset.
Aprendam a verdadeira sabedoria aqueles de vós que são novas criaturas, e que amam a santa lei de Deus. Todos vós que verdadeiramente fostes trazidos a Cristo sois transformados à sua imagem, de modo que amais a santa lei de Deus. "Deleito-me na lei de Deus segundo o homem interior." "Os estatutos do Senhor são retos, alegrando o coração": Salmos 19:1-14 [sic]. O mundo diz: que escravo você é! Não pode ter um pouco de diversão no domingo — não pode fazer um passeio dominical, nem participar de um chá dominical; não pode ir a um baile ou a um teatro; não pode desfrutar dos prazeres da indulgência sensual — você é um escravo. Respondo: Cristo não teve nenhum desses prazeres. Ele não os quis; nem nós os queremos. Ele sabia o que era verdadeiramente sábio, bom e feliz, e escolheu a santa lei de Deus. Ele era o mais livre de todos os seres, e ainda assim não conheceu pecado. Que eu seja livre como Cristo é livre — é só isso que peço. "Grande paz têm os que amam a tua lei: e nada os fará tropeçar." — Robert Murray M'Cheyne, 1813-1843.
Nada os fará tropeçar. Aqueles que têm esse traço de caráter dos filhos de Deus não se escandalizarão com as disposições de Deus, por mais contrárias que sejam aos seus desejos, porque têm um Deus a quem recorrer em todas as suas tribulações, e uma aliança segura em que repousar. Por isso, as reprovações lançadas contra eles, e contra o caminho de Deus, não os escandalizam; pois encontraram a Deus justamente naquele caminho de que outros falam mal; não se ofendem tanto com nada que acompanhe o caminho de Deus a ponto de desgostar dele ou abandoná-lo. Ainda assim, devemos ter cuidado para não nos ofendermos. — John Bunyan.
Versículo 166Salmo 119:166
SENHOR, tenho esperado a tua salvação», etc. Esta é a verdadeira postura em que todos os servos de Deus deveriam desejar se encontrar — esperando na sua misericórdia, e cumprindo os seus mandamentos. Como seria fácil demonstrar a ligação entre o sentimento mental aqui reconhecido e a obediência a que aqui está associado! É a esperança da salvação que constitui o grande e onipresente motivo para a santidade, e é a consciência da obediência à vontade de Deus que fortalece a nossa esperança de participação na misericórdia divina. — John Morison.
Senhor, tenho esperado a tua salvação. Este dito ele tomou emprestado do bom e velho Jacó. Gênesis 49:18. — John Trapp.
Cumpri os teus mandamentos. Dedique-se à prática do que lê. Um estudante de física não se satisfaz em ler todo um sistema ou corpo de física; ele passa a praticar a física: o sangue vital da religião está na parte prática. Os cristãos deveriam ser Bíblias ambulantes. Xenofonte disse: "Muitos leem as leis de Licurgo, mas poucos as observam." A palavra escrita não é apenas regra de conhecimento, mas regra de obediência; não serve só para melhorar a nossa visão, mas para melhorar o nosso passo. Davi chama a palavra de Deus de "lâmpada para os meus pés" (Salmos 119:105). Não era apenas luz para os seus olhos verem, mas para os seus pés andarem. Pela prática negociamos com o talento do conhecimento, e o transformamos em lucro. Esta é uma leitura abençoada da Escritura, quando fugimos dos pecados que a palavra proíbe, e abraçamos as doutrinas que a palavra ordena. Ler sem praticar não será senão uma tocha para guiar os homens ao inferno. — Thomas Watson.
Versículos 166–167Salmo 119:166-167
- — Aquele que lança os mandamentos para trás das costas é bastante presunçoso ao aplicar as promessas a si mesmo. A esperança que não vem acompanhada de obediência há de envergonhar o homem. Aquele que aprendeu a palavra de Deus sabe que a lei não é anulada pela fé, mas estabelecida: Romanos 3:31. Cristo, Cabeça e Profeta da igreja, em seu sermão do monte mostra a extensão da lei, exigindo pureza no coração e nos pensamentos, tanto quanto na vida e nas ações, e condena aqueles "que quebrarem o menor destes mandamentos e assim ensinarem os homens"; mas àqueles "que os cumprem e ensinam", ele reconhece como grandes no seu reino: Mateus 5:19. A lei falada no monte Sinai é estabelecida pelo Legislador Cristo no monte Sião como regra de justiça. E os que são retamente instruídos, "que andam segundo esta regra", terão tanto o coração quanto a conduta ordenados conforme a sua direção, e "paz e misericórdia estarão sobre eles", e por isso se mostrarão de fato o Israel de Deus. — Nathanael Vincent.
Versículo 167Salmo 119:167
A minha alma guarda os teus testemunhos; e eu os amo extremamente. Não deveria ele ter dito primeiro: amei os teus mandamentos, e por isso os guardei? Sem dúvida foi assim; mas aqui ele percorre um círculo santo e muito celestial: guardei-os e amei-os, e amei-os e guardei-os. Se amamos a Cristo, também viveremos, na nossa medida, a vida do amor, e os seus mandamentos serão mais caros quando ele mesmo for mais precioso. — Thomas Shepard, em The Sound Believer, 1671.
A minha alma. É frase usual entre os hebreus, quando querem expressar afeto veemente por algo, dizer "a minha alma": como em Salmos 103:1, 104:1, "Bendize, ó minha alma, ao SENHOR", e Lucas 1:46, "A minha alma engrandece ao Senhor." — Richard Greenham.
Eu os amo extremamente. É apenas uma retribuição razoável a Deus; pois o Pai me amou tão extremamente que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por mim; e o Filho me amou tão extremamente que se deu a mim, e me devolveu a mim mesmo quando eu estava perdido nos meus pecados, original e atual. — Gerhoh (1093-1169), em Neale e Littledale.
Versículos 167–168Salmo 119:167-168
Que a nossa consciência das falhas diárias não nos faça recuar diante desta forte expressão de confiança. Ela é alegada como evidência de graça, não como reivindicação de mérito, e por isso o crente mais humilde não precisa hesitar em adotá-la como expressão de sinceridade cristã diante de Deus. Davi não aspirava a caráter mais elevado do que o de um pobre pecador; mas estava consciente de uma obediência espiritual, de um "amor extremo" pela palavra divina, e de um andar habitual sob o olhar do seu Deus — as evidências de um coração (mencionado com frequência no Antigo Testamento) "íntegro para com ele." — Charles Bridges.
Versículo 168Salmo 119:168
Guardei os teus preceitos, pois todos os meus caminhos estão diante de ti. Quando os homens estão de certa forma longe da vista de um rei, o seu comportamento é apenas decente; mas quando entram na câmara de audiência para falar com ele, tornam-se extremamente cuidadosos. Como os santos estão sempre diante dos olhos de Deus, a sua conduta constante deve ser piedosa e decorosa. — George Swinnock.
Guardei os teus preceitos, etc. A palavra hebraica shamar, aqui traduzida "guardei", significa guardar cuidadosamente, diligentemente, com estudo, com exatidão. Significa guardar como os homens guardam prisioneiros, e guardar como uma sentinela guarda a cidade ou a guarnição; sim, guardar como um homem guardaria a própria vida. Mas note qual foi a razão pela qual Davi guardava os preceitos e os testemunhos do Senhor com tanto cuidado, tanta sinceridade, tanta diligência, tanto estudo e tanta exatidão. Ora, a razão está na última parte do versículo: "porque todos os meus caminhos estão diante de ti."
Ó senhores! É tão necessário para quem deseja ser eminente em santidade pôr sempre o Senhor diante de si, quanto é necessário respirar. Naquele capítulo 31 de Jó há um relato amplo daquela altura e perfeição de santidade a que Jó havia chegado, e a grande razão que ele dá para isso está no versículo 4: "Não vê ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?" O olho de Deus tinha tal influência sobre o seu coração e a sua vida que o elevou a um grau altíssimo de santidade. — Thomas Brooks.
Todos os meus caminhos estão diante de ti. Que Deus veja os segredos do nosso coração é ponto terrível para os ímpios, mas alegre para os piedosos. Os ímpios lamentam que o seu coração esteja assim exposto: é uma panela fervendo de toda maldade, uma fornalha e forja de mal. Aflige-os que os homens ouçam e vejam as suas palavras e ações; mas que terror é este — que o seu Juiz, a quem odeiam, veja os seus pensamentos! Se pudessem negá-lo, negariam. Mas mesmo tantos dentre eles que se convencem e se veem forçados a reconhecer um Deus são também abalados por isto: que ele é Aquele que tudo vê. Outros procedem de modo mais sumário, e de uma vez negam a divindade em seu coração, destruindo assim esta consciência do seu conhecimento total.
Mas é em vão: quanto mais endurecem o coração com este pensamento ímpio, mais medo neles há; enquanto sufocam e reprimem a consciência para que não os acuse, ela os acusa com a previsão de uma vingança temível, e por ora os convence da onisciência de Deus — quanto mais se esforçam por suprimi-la. Mas os piedosos se alegram nisso; é para eles uma régua para medir os seus pensamentos; não se dão liberdade para pensar, querer, desejar ou tramar o mal em seu coração. Onde brilha aquela candeia, todas as coisas se conformam como dignas dele e do seu olhar, de quem sabem que vê o seu coração. — William Struther, 1633.
Todos os meus caminhos estão diante de ti. Anda, cristão, à vista da onisciência de Deus; dize à tua alma: cave, videt Deus — cuidado, Deus vê. É debaixo do pano, como diz o ditado comum, que se fala traição, quando os súditos pensam estar longe demais do ouvido do rei; mas, se soubessem que o príncipe está sob a janela, ou atrás da cortina, ouvindo-os, o seu discurso seria mais leal.
Foi isto que fez Davi tão íntegro em seu andar: "Guardei os teus preceitos, porque todos os meus caminhos estão diante de ti." Se a cadeira vazia de Alexandre, que os seus capitães, ao se reunirem em conselho, punham diante de si, já os impressionava a ponto de mantê-los em boa ordem, quanto mais nos ajudaria pôr diante de nós o fato de que Deus está nos olhando! Os judeus cobriram o rosto de Cristo, e então o esbofetearam: Marcos 14:65. Assim faz o hipócrita: primeiro diz em seu coração que Deus não vê, ou ao menos esquece que ele vê, e então se atreve a pecar contra ele; como aquela ave tola que enfia a cabeça entre os juncos e se julga a salvo do caçador, como se, por não ver o seu inimigo, ele não pudesse vê-la. Te mihi abscondam, non me tibi (Agostinho): "Posso esconder-te de meus olhos, mas não a mim mesmo dos teus." — William Gurnall.
Aqui começa uma nova divisão do salmo, indicada pela última letra do alfabeto hebraico, a letra Tau, correspondente ao nosso "t" ou "th." — Albert Barnes.
Versículo 169Salmo 119:169
Chegue a minha súplica perante ti, ó SENHOR. Isto é, como querem alguns, que todo este salmo precedente, e todas as petições (das quais temos aqui uma repetição) nele contidas, sejam altamente aceitas no céu. — John Trapp.
Chegue a minha súplica perante ti, ó SENHOR. Chegamos agora à última seção deste salmo, na qual vemos Davi mais fervoroso em oração do que estava na primeira, como facilmente se observará comparando as duas. Os piedosos, quanto mais falam a Deus, mais fervorosos e sérios se tornam para falar com ele; de modo que, a menos que a necessidade os force, jamais desejam interromper a conversa com ele.
Muitas orações ele fez a Deus neste salmo: agora, ao final, ora pelas suas próprias orações, para que o Senhor as deixe chegar diante dele. Alguns homens enviam orações, mas Deus as transforma em pecado, e as afasta de si: por isso Davi busca favor para as suas orações. — William Cowper.
Dá-me entendimento. Esta foi a oração de Salomão (1 Reis 3:9), e nos é dito que ela agradou ao Senhor, que, como recompensa, acrescentou prosperidade temporal, a qual o jovem rei não tinha pedido. No entanto, Salomão quis dizer menos com a sua oração do que o seu pai Davi; pois vemos nele pouco traço daquela devoção profunda pela qual seu pai era tão notável. O salmista aqui faz uma oração profunda, que só pode ser respondida pelo próprio Espírito Santo iluminando a alma. O entendimento é membro dos mais importantes da nossa estrutura espiritual. A consciência é o entendimento exercido sobre questões morais, e, se ele não for reto, onde estaremos? O nosso entendimento da palavra de Deus vem pelo ensino, mas também pela experiência: dificilmente entendemos algo antes de o experimentar. Tal experiência iluminadora é dádiva de Deus, e a ele devemos recorrer por ela em oração. — C.H.S.
Dá-me entendimento. A obra particular do Espírito Santo na iluminação das nossas mentes para o entendimento da Escritura é chamada "entendimento." O salmista ora: "Dá-me entendimento, e guardarei a tua lei" (versículo 34). Assim fala o apóstolo a Timóteo: "Considera o que digo; e o Senhor te dê entendimento em tudo": 2 Timóteo 2:7. Além da sua própria consideração daquilo que lhe era proposto, o que inclui o devido e diligente uso de todos os meios externos, era além disso necessário que Deus lhe desse entendimento por uma obra interior e eficaz do seu Espírito, para que ele compreendesse aquilo em que era instruído.
E o desejo disto, como daquilo sem o qual não pode haver conhecimento salvador da palavra, para proveito por meio dela, o salmista expressa enfaticamente, com grande fervor de espírito, no versículo 144: "A justiça dos teus testemunhos é eterna: dá-me entendimento, e viverei." Sem isso, ele sabia que não poderia ter benefício algum da eterna justiça dos testemunhos de Deus. Todo entendimento, de fato, por mais que seja abusado pela maioria, é obra e efeito do Espírito Santo, pois "a inspiração do Todo-Poderoso dá entendimento": Jó 32:8. Assim, este entendimento espiritual é, de modo especial, dádiva de Deus. Neste "entendimento" incluem-se tanto a capacidade da nossa mente quanto o seu devido exercício.
Esta única consideração, de que os santos de Deus com tanta seriedade oraram para que Deus lhes desse entendimento quanto à sua mente e vontade revelada na palavra, com as suas repetidas promessas de que assim o faria, pesa mais para mim do que todas as disputas dos homens em contrário. Nenhum argumento adicional é necessário para provar que os homens não entendem a mente de Deus na Escritura de modo devido, além da sua própria suposição e confiança de que podem fazê-lo sem a comunicação de um entendimento espiritual pelo Espírito Santo. Esta autoconfiança é diretamente contrária aos claros e expressos testemunhos da palavra. — John Owen.
Dá-me entendimento. Por que haveria o homem de Deus de orar aqui por entendimento? Não tinha ele orado por isso muitas vezes antes? Era ele um noviço em conhecimento, sendo profeta? Não repreende o nosso Salvador Cristo as repetições e a tagarelice na oração? É verdade que o nosso Salvador Cristo repreende aquela tagarelice que carece de fé, de conhecimento e de um senso das nossas necessidades; mas ele não fala contra aquelas sérias repetições que procedem de um conhecimento abundante, de fé farta, e de vivo senso das nossas necessidades.
Além disso, embora não se possa negar que ele era homem de Deus, e tinha recebido grande graça, ainda assim Deus dá conhecimento aos seus mais queridos santos, nesta vida, apenas em parte, e o máximo que vemos e conhecemos é bem pouco. Além disso, quando temos conhecimento, e o conhecimento precisa ser posto em prática, encontraremos tais dificuldades, tal teimosia, tal esquecimento, tais carências, que, embora tenhamos tido, como o profeta, uma direção muito boa nas coisas gerais da palavra, que são universais e poucas, ainda assim encontraremos muitas distrações nas nossas práticas, que serão particulares e numerosas; e falharemos, ou na memória por esquecimento, ou no juízo por cegueira, ou no afeto por torpor. Tão facilmente podemos escorregar quando pensamos que podemos seguir a nossa jornada.
Por isso o homem de Deus, por meio daquele exame que fez do seu coração e dos seus afetos, vendo esses múltiplos apertos e dificuldades, ora no versículo seguinte, não pela renovação dos homens em geral em suas tribulações, mas pela consideração da sua própria condição particular. — Richard Greenham.
Segundo a palavra. Davi aqui busca entendimento não carnalmente, pois a sabedoria da carne é morte; mas busca entendimento segundo a palavra de Deus. Sem isso, a sabedoria do homem é loucura; e quanto mais sutil parece ser em seus caminhos, mais profundamente se enreda no laço do diabo. "Rejeitaram a palavra do Senhor; e que sabedoria há neles?" Jeremias 8:9.
Mas, sendo ele um excelente profeta, e tendo protestado antes que tinha mais entendimento do que os anciãos, sim, do que os seus mestres, como é que ainda ora por entendimento? Em resposta a isto, devemos saber que há grande diferença entre os dons da natureza e os da graça. A natureza, muitas vezes, dá ao homem dons muito excelentes, como memória rara, conhecimento, engenho vivo, força, beleza externa; mas com isso não ensina o homem a considerar aquilo em que lhe falta; daí acontecer que ele se ensoberbece do que tem. Isto é coisa comum aos homens no estado de natureza, que de pequenos dons concebem grande orgulho: mas a graça, ao passo que dá ao homem dons mais excelentes do que a natureza pode proporcionar, também o ensina a olhar para aquilo de que carece, para que não se encha de orgulho ao considerar o que tem, mas seja levado, em toda humildade de coração, a orar pelo que lhe falta. — Abraham Wright.
Versículo 170Salmo 119:170
Chegue a minha súplica diante de ti», etc. O adorador sincero não pode se contentar com nada menos que o convívio real com Deus. A rotina do dever não pode agradar onde o espírito de graça e de súplica não foi concedido. Uma disposição filial há de derramar-se em ardentes anseios pela comunhão com Deus. Nem a esperança de audiência favorável se fundará em outro argumento senão o da segura palavra da promessa de Jeová. É de acordo com essa palavra, e não em oposição a ela, que o filho de Deus espera ser ouvido. Toda a sua libertação, ele sente, vem do Senhor, e tudo o que espera do céu, ele antecipa em resposta à oração. Ah, que tenhamos mais daquela fé que apela à veracidade divina, e que olha com olhar firme para a promessa de um Deus que guarda a aliança. — John Morison.
Chegue a minha súplica diante de ti. Observe-se a ordem das palavras aqui e no versículo anterior. Primeiro tivemos "chegue a minha súplica"; depois "dá-me entendimento", e isso "segundo a tua palavra"; e agora temos "entre a minha oração (Septuaginta, Siríaca, Arábica, Vulgata) diante de ti." É exatamente assim: se você deseja uma audiência com um homem de posição muito elevada, primeiro se aproxima da sua casa, depois pede informação e instrução quanto às suas intenções, depois pede permissão para entrar, para não ser afastado e recusado à entrada. Bata, pois, à porta do palácio celestial: bata, não com a mão do corpo, mas com a mão direita da oração. Pois a voz pode bater tanto quanto a mão, como está escrito: "É a voz do meu Amado que bate": Cântico dos Cânticos 5:2. E, tendo batido, veja como entra, para que, depois de entrar, não deixe de ver o Rei. Pois há muitos que conseguem entrar em palácios e não obtêm de imediato audiência com um soberano terreno, mas têm de vigiar constantemente até finalmente conseguir uma entrevista. Nem têm eles a escolha do momento; vêm quando são chamados, e então apresentam a sua petição, se desejam ser bem recebidos. — Ambrósio, em Neale e Littledale.
Versículo 171Salmo 119:171
Os meus lábios proferirão louvor. Você já esteve junto à nascente de um curso d'água, e admirou enquanto ele borbulhava e descia num pequeno riacho límpido, até que, por fim, engrossava o grande rio. É a essa imagem que se alude aqui. O coração ensinado por Deus não consegue se conter, mas irrompe em louvor e cântico. Este seria o efeito da iluminação divina, e isto seria sentido como um privilégio — sim, e um dever elevado. Crentes, não é isso o que vocês descobrem, especialmente nas ocasiões comuns? Tende por certo: tais expressões são o sinal de um coração renovado; sim, de um coração cheio de toda a gratidão de um sentimento reto. — John Stephen.
Os meus lábios proferirão louvor, etc.
Ó faze-me, Senhor, aprender os teus estatutos!
Guarda os meus pés nos teus caminhos,
Então os meus lábios arderão divinamente;
Então os meus cânticos serão doces.
Cada pecado que eu lançar fora fará
Minha alma mais forte para se elevar;
Cada obra de santidade despertará
Uma nota mais divina ainda.
A minha voz mais deleitará o teu ouvido
Quanto mais eu esperar no teu tempo;
O serviço trará o meu cântico mais perto
Da harmonia angelical.
T. H. Gill, em Breathings of the Better Life, 1881.
Versículo 172Salmo 119:172
A minha língua falará da tua palavra. Um dos deveres de gratidão que Davi promete é falar das palavras de Deus para a edificação dos outros. Todo cristão, assim como é sacerdote para oferecer sacrifício a Deus, é também profeta para ensinar os seus irmãos; pois a todos nós vale aquele mandamento: "Edificai-vos uns aos outros na santíssima fé." Mas, ai, vereis hoje muitos cristãos que, à mesa, e em suas companhias, sabem falar livremente sobre qualquer assunto; só quanto às coisas espirituais, que dizem respeito à alma, ali ficam mudos, e não conseguem dizer com Davi: "A minha língua falará da tua palavra." — William Cowper.
Versículo 173Salmo 119:173
Ajude-me a tua mão. Tendo Davi antes feito promessas de gratidão, busca agora ajuda de Deus, para que possa cumpri-las. A nossa suficiência não vem de nós mesmos, mas de Deus; tanto o querer quanto o fazer vêm dele. Nas coisas temporais, os homens muitas vezes se esforçam bastante com pouco proveito; primeiro, porque não procuram ter a consciência limpa; depois, porque não buscam ajuda de Deus: por isso não prosperam melhor do que Pedro, que pescou a noite toda e nada obteve, até lançar a rede em nome do Senhor.
Mas nas coisas espirituais podemos esperar prosperar bem menos ainda, se não clamarmos pela assistência de Deus: os meios não nos aproveitarão a menos que a bênção de Deus os acompanhe. Há pregação, mas na maior parte sem proveito; há oração, mas não prevalece; há audição da palavra, mas sem edificação; e tudo porque, nos exercícios espirituais, não se faz oração insistente a Deus, para que a sua mão esteja conosco para nos ajudar. — Abraham Wright.
Escolhi os teus preceitos. Deu-te Deus um coração para fazer escolha dos seus caminhos? Ó, bendize a Deus! Houve um tempo em que você seguia agradando à carne, e então não via nada melhor do que tal tipo de vida; e aprouve ao Senhor revelar-lhe coisas melhores, de modo a fazê-lo renunciar aos seus antigos caminhos e escolher outro caminho, no qual a sua alma encontrou consolos, satisfações e contentamentos de outro tipo, que nunca antes tinha experimentado. Bendiga a Deus como Davi bendisse: "Bendito seja o Senhor, que me tem dado conselho..." Vendo que Deus assim inclinou o seu coração para si mesmo, seja você para sempre firme na sua escolha: vendo que Deus lhe mostrou os seus caminhos, como Pilatos disse em outro caso, "o que escrevi, escrevi": assim diga você, "o que escolhi, escolhi." — Jeremiah Burroughs, em Moses His Choice.
Versículos 173–174Salmo 119:173-174
Escolhi. O meu deleite. A alegria acompanha a escolha de uma coisa. O abatimento é sinal de que nunca a escolhemos, mas fomos forçados a ela. Tal alegria no serviço obtém alegria nas misericórdias: Isaías 64:5, "Tu sais ao encontro daquele que se alegra e pratica a justiça." Ele estende a mão para ajudar a tal pessoa. Cristo não ama o serviço melancólico e fleumático; tal disposição nos atos de obediência é uma vergonha tanto para Deus quanto para a religião: para Deus, trai em nós pensamentos ciumentos a seu respeito, como se ele fosse um patrão duro; para a religião, faz os outros pensarem que os deveres são fardos, e não privilégios.
— Stephen Charnock.
Versículo 174Salmo 119:174
Tenho suspirado pela tua salvação, ó SENHOR», etc. A coisa que aprendemos daqui, do fato de Davi unir estas duas afirmações — suspiro pela salvação, e a tua lei é o meu deleite —, é esta: não basta a um homem dizer que suspira e deseja ser salvo, a menos que tenha o cuidado de usar os meios estabelecidos para chegar a isso. Teria sido mera hipocrisia da parte de Davi dizer que suspirava pela salvação, se a sua consciência não pudesse testemunhar com ele que a lei era o seu deleite. É pura zombaria alguém dizer que anseia por pão, e orar a Deus todo dia para que lhe dê o seu pão diário, se, no entanto, não segue vocação alguma, ou busca obtê-lo por fraude e rapina, sem se apoiar em nada na providência de Deus. Quem imaginaria que um homem deseja saúde, se despreza ou negligencia os meios da sua recuperação?
Deus, na sua própria sabedoria, estabeleceu um meio lícito para cada coisa lícita; sendo esse meio usado com obediência, pode-se esperar com confiança a obtenção consoladora do fim; não sendo o meio observado, pensar em alcançar o fim é mera presunção. Deus livraria Noé do dilúvio, mas Noé precisava ser "movido de temor" e "preparar a arca" (Hebreus 11:7), ou não poderia ter escapado. Ele salvaria Ló de Sodoma, mas ainda assim Ló precisava apressar-se a sair depressa, e não olhar para trás até ter entrado em Zoar: Gênesis 19:17. Aprouve-lhe curar Ezequias da praga, mas ainda assim Ezequias precisou tomar "uma pasta de figos, e pô-la sobre a chaga": Isaías 38:21. Ele se dispôs a preservar Paulo e seus companheiros no mar, mas os marinheiros precisavam "permanecer no navio", senão não poderiam ser salvos, diz Paulo: Atos 27:31. — Samuel Hieron, 1572-1617.
Tenho suspirado pela tua salvação. É a própria salvação de Deus que ele deve desejar — "a tua salvação" — pois nada mais poderia satisfazer a sua mente pura: paz perfeita com Deus, pureza perfeita e esperança perfeita. Ora, se perguntarem qual era o modo de livramento de Deus, e qual o seu modo de salvação, a resposta é que estava exposto na sua palavra, e era o que o salmista chama a sua "lei." A salvação de Deus e a sua lei se percebiam como uma só coisa. "Tenho suspirado pela tua salvação, ó SENHOR; e a tua lei é o meu deleite." — John Stephen.
Tenho suspirado pela tua salvação, ó SENHOR. "Salvação", pela "mão", ou braço de Jeová (o que frequentemente, na Escritura, é título do Messias), tem sido o objeto das esperanças, dos desejos e das ansiosas expectativas dos fiéis, desde Adão até esta hora, e assim continuará até que aquele que já nos visitou em grande humildade venha novamente em majestade gloriosa para completar a nossa redenção e nos tomar para si. — George Horne.
Tenho suspirado pela tua salvação, ó SENHOR. Por uma salvação presente da culpa e do poder do pecado, e por uma salvação futura, no pleno e eterno gozo de Deus no céu. Davi teve a felicidade de ser participante tanto da misericórdia perdoadora quanto da graça santificadora; ainda assim, continuava a suspirar por mais dessa salvação, isto é, por uma fé mais assegurada da misericórdia perdoadora, e por medidas mais amplas de graça santificadora. Uma alma agraciada é insaciável; quanto mais recebe, mais deseja receber. O gozo, em vez de saciar, aguça o apetite. Aliás, tão doce é o saborear das coisas espirituais que cada novo gosto delas extingue a sede por outras coisas.
A tua lei é o meu deleite. Aqui Davi escolhe o termo "lei" para designar toda a revelação da vontade de Deus, para nos lembrar da conexão inseparável entre privilégio e dever, fé e obediência, santidade e consolo; e para nos ensinar que devemos ser gratos a Deus pela direção que ele nos deu no caminho para o céu, tanto quanto pelas promessas com que somos assegurados da sua posse. — Robert Walker, 1716-1783.
A tua lei é o meu deleite. A religião definha ou floresce conforme seja o nosso dever ou o nosso deleite. A mente é incapaz de esforço contínuo por dever; mas prontamente se ajusta ao "deleite." Assim os nossos deveres se tornam nossos privilégios, sendo Cristo a fonte e a vida deles. Cada passo de progresso é progresso na felicidade. Este versículo, do qual a experiência é a melhor intérprete, é a linguagem do crente tanto no seu estado vivo quanto no seu estado de desfalecimento. Pois quanto mais conhece e desfruta da presença divina, mais deseja conhecê-la e desfrutá-la. — Charles Bridges.
Deleite, no plural, "deleites", como nos versículos 24, 77, 92, 143. A palavra de Deus é fonte abundante de prazer para o seu povo. — William S. Plumer.
Versículo 175Salmo 119:175
Viva a minha alma, e ela te louvará», etc. Este versículo contém três coisas. Primeiro, a petição de Davi pela vida: "viva a minha alma." "A minha alma", isto é, eu mesmo: a alma é posta pelo homem todo. O contrário: "morra eu com os filisteus", disse Sansão (Juízes 16:30); no hebraico, à margem, "morra a minha alma." A sua vida era buscada pela crueldade dos seus inimigos, e ele pede a Deus que o mantenha vivo.
Segundo, o seu argumento a partir do propósito da sua vida: "e ela te louvará." Glorificar a Deus era o seu propósito. O fruto de todos os benefícios de Deus é nos aproveitar e louvar a Deus. Davi professa que, todos os dias da sua vida, viveria no senso e no reconhecimento de tal benefício.
Terceiro, o fundamento da sua esperança e confiança, na última cláusula: "e ajudem-me os teus juízos." As nossas esperanças de ajuda se fundam nos juízos de Deus, pelos quais se entende a sua palavra. Há juízos decretados, juízos executados; juízos doutrinários, e juízos providenciais. Aquela passagem sugere a distinção: "Porque a sentença contra a má obra não se executa depressa, por isso o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto a praticar o mal": Eclesiastes 8:11. Há sententia lata et dilata [sentença proferida e sentença adiada]. Aqui os juízos de Deus são postos pela sentença pronunciada; e principalmente por uma parte deles, as promessas de graça. Como também: "Tenho esperado nos teus juízos": Salmos 119:43. As promessas são o objeto da esperança. — Thomas Manton.
Viva a minha alma. Que vida é esta pela qual ora agora o salmista, senão a salvação pela qual acabara de expressar o seu suspiro? O gosto que recebeu o faz ter fome de um gozo mais elevado e mais contínuo — não para gratificação egoísta, mas para que pudesse empregar-se no louvor do seu Deus. De fato, ao nos aproximarmos do final deste salmo, não podemos deixar de notar aquele caráter de louvor a permear a sua experiência, o que se tem geralmente observado nos salmos finais deste livro sagrado. Muito perdemos de força espiritual por não nos ocuparmos mais no exercício do louvor. — Charles Bridges.
Viver e louvar. O santo aproveita as suas coisas terrenas para um fim celestial. Onde você guarda o seu tesouro? Você o gasta no seu apetite voluptuoso, nos seus falcões e cães de caça; ou o guarda no seio dos membros pobres de Cristo? Que uso você faz da sua honra e grandeza? Para fortalecer as mãos dos piedosos ou dos ímpios? E assim de todos os seus outros gozos temporais. Um coração agraciado os aproveita para Deus; quando um santo ora por essas coisas, tem os olhos postos em algum fim celestial. Se Davi ora pela vida, não é para que apenas viva, mas para "viver e louvar a Deus."
Quando foi expulso do seu trono real pelas armas rebeldes de Absalão, veja quais eram o seu desejo e a sua esperança, 2 Samuel 15:25: "E disse o rei a Zadoque: Torna a levar a arca de Deus para a cidade: se eu achar graça aos olhos do SENHOR, ele me tornará a trazer, e me mostrará tanto a ela quanto à sua habitação." Note: não me mostre a minha coroa, o meu palácio, mas a arca, a casa de Deus. — William Gurnall.
Viver e louvar. A vivacidade da alma é dádiva do Espírito, e se manifestará em louvores abundantes. — Henry Law.
Ajudem-me os teus juízos. Na segunda cláusula, seria forçado entender a palavra "juízos" como os mandamentos, aos quais não cabe propriamente dar ajuda. Parece, então, que o profeta, percebendo-se sujeito a inúmeras calamidades — pois os fiéis, por causa da licença desenfreada dos ímpios, habitam neste mundo como ovelhas entre lobos —, invoca a Deus para que o proteja, refreando, pela sua providência secreta, os ímpios de lhe fazerem mal. É doutrina muito proveitosa, quando as coisas no mundo estão em grande confusão, e quando a nossa segurança corre perigo em meio a tantas e tão variadas tempestades, levantar os olhos para os juízos de Deus, e neles buscar remédio. — João Calvino.
Versículos 175–176Salmo 119:175-176
Embora, qual ovelha desgarrada, eu vagueie,
Ainda assim não renunciei ao teu caminho.
Estende a tua mão; reclama o que é teu;
Concede-me viver, e louvar o teu nome.
Richard Mant.
Versículo 176Salmo 119:176
Andei errante como ovelha perdida. Embora uma ovelha ande errante, logo é chamada de volta pela voz do pastor: "as minhas ovelhas ouvem a minha voz." Assim Davi, quando foi contra Nabal, foi chamado de volta pela voz do Senhor por meio de uma mulher; e quando matou Urias, foi trazido de volta por Natã. E, portanto, se somos ovelhas, ainda que às vezes andemos errantes, devemos ser facilmente reconquistados. — Richard Greenham.
Andei errante como ovelha perdida, expulsa pela tempestade, ou por um dia escuro, ou pela caçada dos cães, afastada do resto do rebanho. — David Dickson.
Andei errante como ovelha perdida, etc. E esta é toda a conclusão — "uma ovelha perdida!" Este longo salmo de louvores, atribuições, declarações, resoluções, altas esperanças, termina nisto: que ele é uma ovelha perecendo. Mas, esperem, há esperança — "busca o teu servo." "Andei errante como ovelha perdida." O original tem o alcance mais amplo, abrangendo todo o tempo passado, e também as tendências habituais do homem. O crente sente que andava errante quando a graça de Deus o encontrou; que tinha andado errante muitas vezes, se a graça de Deus não o tivesse impedido. Sente que andou errante em tais e tais ocasiões infelizes. Sente também que andou errante em tudo o que fez; e, de fato, que está errante agora.
Mas a palavra também expressa a tendência habitual — "ando errante como ovelha perdida", e esta tradução está de acordo com a oração: "busca o teu servo." O terceiro membro também se traduz adequadamente em acordo com isso: "ando errante como ovelha perdida; busca o teu servo; pois não me esqueço dos teus mandamentos." Tudo isto descreve a corrupção remanescente que há no crente. Ele não se esquece do Senhor; tem em si a raiz do assunto, a semente da vida divina; e ainda assim anda errante; daí a necessidade da oração: "busca o teu servo."
A descrição de Isaías dos homens, embora expressa nos mesmos termos, é evidentemente mais abrangente, como mostram as palavras do contexto: "Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos." Isto pareceria aplicar-se à raça humana. A experiência do salmista é antes semelhante à descrita pelo apóstolo Paulo: "Acho, pois, esta lei em mim: que, querendo eu fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me leva cativo à lei do pecado, que está nos meus membros."
E o salmista tinha o mesmo remédio, naquele período antigo, que o apóstolo teve em tempos mais tardios; pois a salvação de Deus é uma só. O remédio do salmista foi: "busca o teu servo"; o do apóstolo: "Ó homem miserável que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor." — John Stephen.
Andei errante. A palavra original significa tanto o desviar-se do pé quanto o desviar-se do coração, ou ambos, do caminho. "Andei errante como ovelha perdida"; isto é, fui enganado, e assim saí do caminho dos teus santos mandamentos. Satanás é mau guia, e os nossos corações não são melhores: quem segue um ou outro logo se perde; e até que Deus nos busque (como Davi ora nas palavras seguintes), não podemos achar o nosso caminho depois de uma vez estarmos fora dele. — Joseph Caryl.
Andei errante. Gotthold viu certo dia um fazendeiro contando cuidadosamente as suas ovelhas ao voltarem do campo. Estando ele naquele momento num estado de espírito ansioso e triste, deu vazão aos seus sentimentos e disse: Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te perturbas com pensamentos aflitivos? Certamente deves ser tão cara ao Altíssimo quanto os cordeiros são a este fazendeiro. Não vales tu mais do que muitas ovelhas? Não é Jesus Cristo o teu pastor? Não arriscou ele o seu sangue e a sua vida por ti? Não tens tu parte nas suas palavras: "Dou vida eterna às minhas ovelhas, e elas jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão"? João 10:28.
Este homem está contando o seu rebanho; e pensas tu que Deus não também conta e cuida dos seus filhos crentes e eleitos, especialmente quando o seu próprio Filho amado afirmou que até os cabelos da nossa cabeça estão todos contados? Mateus 10:30. Durante o dia, posso talvez ter saído do caminho, e seguido descuidadamente os meus próprios desígnios; ainda assim, ao cair da tarde, quando o fiel Pastor conta os seus cordeiros, ele notará a minha ausência, e graciosamente me buscará e me trará de volta. Senhor Jesus, "andei errante como ovelha perdida; busca o teu servo; pois não me esqueço dos teus mandamentos." — Christian Scriver (1629-1693), em Gotthold's Emblems.
Andei errante, etc. Quem é chamado "o homem segundo o coração de Deus"? Davi, o rei hebreu, tinha caído em pecados de sobra — crimes dos mais negros —, não faltou pecado. E, por isso, os incrédulos zombam, e perguntam: "Este é o vosso homem segundo o coração de Deus?" A zombaria, a meu ver, é rasa. Que importam as faltas, que importam os detalhes externos de uma vida, se o seu segredo interior — o remorso, as tentações, a luta tantas vezes frustrada e nunca terminada — for esquecido?... A vida e a história de Davi, tal como escritas para nós naqueles seus salmos, considero o mais fiel emblema já dado de um progresso moral e de uma guerra travada por um homem aqui embaixo. Toda alma sincera há de sempre descobrir nele a luta fiel de um espírito humano sincero rumo ao que é bom e melhor. Luta muitas vezes frustrada — duramente frustrada — levada quase à ruína total; e, ainda assim, uma luta nunca terminada, sempre com lágrimas, arrependimento, e um propósito verdadeiro e inconquistável recomeçado sempre de novo. — Thomas Carlyle (1795-1881), em Heroes and Hero Worship.
Porque não me esqueço dos teus mandamentos. Em todo o meu vaguear; com a consciência do meu erro; com o senso da minha culpa; ainda sinto que amo a tua lei, o teu serviço, os teus mandamentos. Eles são a alegria do meu coração, e desejo ser chamado de volta de todos os meus desvios, para que eu encontre perfeita felicidade em ti e no teu serviço para sempre. Tal é o desejo sincero de todo coração regenerado. Pois, ainda que tal coração tenha se afastado de Deus, está consciente de verdadeiro apego a ele e ao seu serviço; deseja e ora com fervor para que seja "buscado", trazido de volta, e guardado de vagar mais. — Albert Barnes.
Porque não me esqueço dos teus mandamentos. Os piedosos nunca caem de tal modo que não reste neles alguma graça, a qual reserva a esperança de um remédio para curá-los: assim Davi aqui. Embora tenha transgredido alguns dos mandamentos de Deus, não caiu em esquecimento total deles. — William Cowper.
Não creio que pudesse haver conclusão mais apropriada para um salmo como este, tão cheio da experiência variada e dos estados e sentimentos sempre mutáveis até de um filho de Deus, no sol e na nuvem, na calma e na tempestade, do que este senso sempre apegado da sua propensão a vagar, e a expressão da sua total incapacidade de achar o caminho de volta sem a mão guiadora do Senhor para restaurá-lo; e, ao mesmo tempo, com tudo isso, a sua fixa e permanente determinação de jamais esquecer os mandamentos do Senhor.
Que visão dá este versículo dos nossos pobres corações rebeldes — não apenas propensos a vagar, mas sempre vagando, sempre perdendo o caminho, sempre tropeçando nos montes escuros, mesmo enquanto nos apegamos aos mandamentos de Deus! Mas, ao mesmo tempo, que oração ele põe em nossa boca: "busca o teu servo" — "sou teu, salva-me." Sim, bendito seja Deus! Há Um poderoso para salvar. "Guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação." — Barton Bouchier.
Até onde pude, até onde fui ajudado pelo Senhor, tratei e expus, do princípio ao fim, este grande salmo. Tarefa que expositores mais capazes e eruditos já cumpriram, ou hão de cumprir melhor; ainda assim, os meus serviços não deveriam ser negados a ele por essa razão, quando os meus irmãos com seriedade os pediram de mim. — Agostinho.